sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A força tóxica da mídia hegemônica: em busca de alternativas

 A força tóxica da mídia hegemônica: em busca de alternativas


Alder Júlio Ferreira Calado 


Tal é o domínio exercido pela mídia hegemônica sobre o cotidiano da vida da enorme maioria da população brasileira, que se sente quase inteiramente aprisionada pelo noticiário, pelas mensagens de whatsapp, redes sociais e pelas análises da mídia hegemônica, que, não raro, temos a impressão de que o povo brasileiro se orienta quase exclusivamente pelos valores da ideologia dominante, controlada por uma dezena de famílias proprietárias de canais de televisão,  de rádios, além de serem beneficiárias-mor das redes digitais, controladas pelos proprietários das grandes plataformas. Em breve, cumprindo o conhecido dito de Marx e Engels: “Em toda sociedade de classes, a Ideologia dominante é a Ideologia da classe dominante.”


Seja em âmbito internacional, seja no plano latino-americano e brasileiro à medida que se expandem os valores da Direita, cada vez mais prisioneira de suas influências se acha a enorme maioria da população. Este é o fator externo ao qual devemos acrescentar o fator interno, isto é, o progressivo afastamento da maioria das forças de Esquerda das relações orgânicas no campo e na cidade, com os setores das classes populares fenômeno que vem se agravando à medida que a enorme maioria das forças de Esquerda passou a concentrar sua atuação política quase tão-somente no processo eleitoral, e no ritmo parlamentar de modo a abandonar na prática, seu compromisso organizativo, formativo e de lutas em busca da construção de uma nova sociedade, alternativa à barbárie capitalista . 


Nas linhas que seguem cuidamos de rememorar brevemente a relevância da mídia alternativa como instrumento de resistência ao qual recorriam às forças de Esquerda, durante a Ditadura Empresarial-Militar. Em seguida, tratamos de ilustrar o papel político pedagógico que, também hoje, cumprem diversos canais, jornais e “podcasts”, no sentido de se contraporem à mídia dominante. 


A mídia alternativa como instrumento de resistência à Ditadura Empresarial-Militar. 


Por mais terrificante e duradoura, a ditadura Empresarial-Militar encontrou resistência multiforme das forças populares, quer recorrendo a uma resistência armada, graças a dezenas de organizações, quer combatendo o regime pela via política, graças a outros tipos de resistência, tais como o teatro (aqui, cumpre destacar a enorme contribuição dada por Augusto Boal, com o seu Teatro do Oprimido), a música e a mídia alternativa a qual destacamos nestas linhas. Importa lembrar os enormes obstáculos enfrentados por essas forças de resistência, o que, no entanto, não foi suficiente para calar sua voz. Enquanto salvo poucas exceções, a chamada “grande imprensa” (Jornais, rádios, televisões) se mostravam cúmplices e colaborativas das forças da tirania, facilitando inclusive a generalização da censura, grupos de militantes políticos, de intelectuais e de estudantes encontravam um jeito de resistir por meio de “charges” e de periódicos chamados de oposição.  


Resulta oportuno rememorar pelo menos alguns dos principais jornais e outros veículos que circularam legal ou clandestinamente, durante o regime militar. Podemos citar, por exemplo, entre os clandestinos:


  • “A Voz Operária”, do PCB, enquanto o PCdoB fazia circular o seu “ A Classe Operária”;

  •  “Política Operária”, “Ação Popular” e “Libertação”, lançados pela (Polop);

  • “O Guerrilheiro”, da (ALN);

  • “Tribuna da luta Operária” (PCdoB);

  •  “O Pasquim”, periódico que começou a circular nacionalmente em 1969. Tratava-se de um veículo satírico, no qual colaboraram intelectuais progressistas, tais como Ziraldo, Millôr Fernandes, Jaguar, entre outros; 

  • Em 1972, graças a um grupo de jornalistas progressistas em oposição às crueldades da tirania vigente, passa a circular o Jornal “Opinião”, que ousava tratar de temas e questões incômodas a Ditadura Empresarial-Militar;

  • O Jornal “Movimento” também constitui mais uma pedra no caminho da Ditadura, cuja reação pode ser avaliada pelo exorbitante número de censuras á que foi submetido, ensejando inclusive enorme prejuízos econômicos ao bravo grupo de Jornalistas que mantiveram movimento por alguns anos. Conforme a Redação do Jornal, eis o balanço tenebroso imposto pela Ditadura: “6 mil artigos e ilustrações vetados, 4,5 milhões de palavras proibidas, prejuízo de milhões de cruzeiros. O objetivo do regime claramente era o de inviabilizar o jornal.”;

  • Dando conta da enorme resistência animada pela Arquidiocese de São Paulo, na figura profética de Dom Paulo Evaristo Arns e outras como o Reverendo Jaime Wright e Júlio de santa Ana, importa reconhecer o relevante papel desempenhado pelo Jornal arquidiocesano “O São Paulo”, não bastassem o relevantíssimo Projeto “Brasil nunca mais”, extensa pesquisa de cerca de 10 mil páginas, bem resumidas pelo clássico livro “Brasil nunca mais” (Vozes, 1985);

  • Jornal “Em tempo”, nascido em 1978 reunindo importantes figuras de intelectuais de esquerda, em sua maioria ligadas ao então nascente Partidos dos Trabalhadores, mais ligados a tendência “Democracia Socilaista”;   

  • Jornal “A hora do Povo”, semanário vinculado ao MR8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro).


Breves considerações acerca de alguns veículos de comunicações alternativos da atualidade  


Graças aos avanços tecnológicos, ainda que hegemonizados pelas forças de Direita, podemos contar com uma variedade de canais, “blogs” e outros instrumentos virtuais, por meio dos quais podemos acompanhar criticamente os grandes embates e dilemas que cercam nossa realidade atual seja em escala mundial, seja em ambito latino-americano e brasileiro. Aqui nos limitaremos a mencionar apenas alguns destes veículos com propósito de instigar nossa militância a acompanhar mais de perto como se dá hoje a luta de classes, dotando-nos de instrumentos de uma análise mais criteriosa de nossa realidade, capaz de nos fornecer elementos, em busca  de sua transformação. Eis alguns exemplos destes veículos da atualidade:


  • “Brasil 247”, canal progressista mais ligado à corrente petista;

  • Jornal “Brasil de Fato”, instrumento virtual ligado ao MST;

  • “Opera Mundi”, canal e “blog” de análise da realidade, em perspectiva marxista, graças principalmente à atuação de Breno Altman;

  • O PCB já há algum tempo opera no seguinte portal: https://pcb.org.br/portal2/

  • “ICL notícias” canal e “blog” progressista que conta com o excelente grupo de jornalistas críticos e competentes, atuando inclusive por meio da revista “Liberta”;

  • “Farol Brasil”, canal relativamente recente, de orientação marxista, próximo ao PCBR, com atuação principal de Mauro Lopes e Jones Manoel;

  • A UP (Unidade Popular) também conta com o seu portal: https://unidadepopular.org.br/blog/up-oficializa-candidatura-de-samara-martins-a-presidencia-com-chapa-100-feminina ;

  •  O PSTU opera em seu portal: https://www.pstu.org.br/

  • O PCO disponhe igualmente de seu espaço virtual: https://causaoperaria.org.br/

  • Podcast “Fórum de Teresina“, que corresponde ao veículo político da Revista Piauí. Traz semanais análises políticas bem fundamentadas do que se passa no Brasil e no mundo;

  • Podcast “Medo e Delírio em Brasília“, veículo de crítica mordaz e bem humorada feita contra a Direita brasileira. 

  • Podcast História Preta;

  • Podcast Todo dia História Negra.


Não obstante a variedade de canais alternativos resta lamentável constatar o pequeno número de intelectuais e estudantes e mesmo de militantes que se mantêm alimentados por estas fontes, inclusive como critério de acompanhamento crítico-propositivo de nossa realidade, boa parte preferindo contentar-se com as informações e os debates promovidos pela mídia hegemônica. Tomara que estas breves considerações consigam mexer positivamente na sensibilidade militante de eventuais leitores e leitoras destas linhas 


João Pessoa, 28 de Agosto de 2026

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