terça-feira, 12 de setembro de 2017

O QUE ESTÁ POR TRÁS DO CLAMOR POR REFORMAS, NAS IGREJAS CRISTÃS, EM ESPECIAL NA IGREJA CATÓLICA ROMANA: mudar o quê? Para quê? Por meio de quem?

  O QUE ESTÁ POR TRÁS DO CLAMOR POR REFORMAS, NAS IGREJAS CRISTÃS, EM ESPECIAL NA IGREJA CATÓLICA ROMANA: mudar o quê? Para quê? Por meio de quem?

Alder Júlio Ferreira Calado

Como sói acontecer em datas históricas emblemáticas, também por ocasião da comemoração dos 500 anos da Reforma, situada a partir da afixação, na porta do templo em Wittenburg (Alemanha) das 95 teses enunciadas por Martinho Lutero, em 31 de outubro de 1517, temos a oportunidade de fazer um exercício retroprospectivo acerca da situação estrutural e conjuntural, em que se encontram as Igrejas Cristãs, em especial a Igreja Católica Romana.

Neste sentido, mesmo antes a realização do Concílio Vaticano II, já se escutavam vozes proféticas clamando por reformas ao interno da Igreja Católica. A despeito de diversas alterações positivas (certa reconciliação com a Modernidade, abertura para o mundo, incentivo à leitura da Bíblia, utilização do vernáculo, na Liturgia, reconhecimento da relativa autonomia das realidades terrestres, haja vista diversos trechos de espírito renovador, observáveis em seus 16 documentos (4 Constituições, 9 Decretos e 3 Declarações), entre outras) a que se chegara, durante a realização do referido Concílio, as mudanças introduzidas não prosperaram, em grande medida, na vida eclesial do cotidiano. Não obstante a força profética do Papa João XXIII e de seus assessores mais próximos, a enorme maioria dos bispos não nutria maiores simpatias pelo espírito reformista de que estava imbuído o bom Papa João, em seu ardor profético por um Igreja dos pobres. Ainda a este respeito, não é surpreendente que o Pacto das catacumbas tenha sido originalmente firmado, à margem do Concílio, por apenas quarenta signatários. Em breve, antes, durante e depois do Vaticano II, resultaram mais fortes as forças de resistência ao esforço de mudança. Isto foi tanto mais forte, quando do longo período dos pontificados de João Paulo II e de Bento XVI.

Em que pese toda essa resistência, sempre houve grupos de Católicos, movimentos de leigos e leigas e mesmo de parte do clero e dos religiosos e religiosas, a persistirem no empenho por mudanças estruturais e conjunturais da Igreja, convencidos de que, seja como instituição social, seja como instrumento a serviço do Reino de Deus, da Tradição de Jesus, “Ecclesia semper reformanda est” (A Igreja deve ser sempre reformada), como ainda recentemente, exortava o Papa Francisco, em sua mensagem de “Angelus”, do dia 27/08/2017.

Mesmo durante um período de relativo retrocesso, vivido sobretudo a partir de meados dos anos 70 à primeira década deste século, vozes proféticas minoritárias nunca deixaram de expressar seu descontentamento e de clamar por mudança. Bastem-nos dois exemplos ilustrativos: a iniciativa organizada, em meados dos anos 90, por leigos e leigas europeus, desde a Áustria – o Movimento Internacional Somos Igreja, que hoje se acha presente em algumas dezenas de países, em diversos continentes; a Coordenação da Conferência das Religiosas dos Estados Unidos, mais conhecida pela sigla LCWR (Leadership of Conference of Women Religious). Apenas dois exemplos, entre dezenas, de iniciativas espalhadas pelo mundo católico, a clamarem cada vez mais fortemente por urgentes mudanças na Igreja Católica Romana.

Nâo se trata apenas de associações, movimentos e grupos de leigos e leigas. Há também associações de padres, a exemplo da “Pfarrer-Initiative” (Iniciativa dos Párocos – Áustria), associação de párocos da Áustria, bem como de numerosas outras iniciativas semelhantes em funcionamento na comunidade de paísses do Reino Unido, na França, na Bélgica, nos Estados Unidos, etc. Também, atuando ao interno da Igreja Católica ou em caráter ecumênico, vale destacar fecundas experiências que clamam por renovação, a exemplo de Átrio, Redes Cristianas (Espanha), Católicas pelo Direito de Decidir (em vários países, inclusive no Brasil, atuando até com curtos vídeos didáticos, “Catolicadas”, cf., por ex.:

Nesses últimos vinte anos, com efeito, vêm se intensificando os clamores por mudança na(s) Igreja(s), em especial na Igreja Católica Romana. Lembro, de passagem, dois casos emblemáticos. Um primeiro, uma entrevista (profética!), concedida, em abril de 1998!, a um pesquisador nordestino, pelo teólogo Pe. José Comblin. Pedindo perdão pela longa citação, julguei oportuno destacar este trecho de sua resposta a uma pergunta final a ele, então, dirigida:
"Um dia virá um Papa que vai deixar que se discutam os problemas que interessam ao povo cristão. No Concílio Vaticano II, Paulo VI proibiu que se falasse do celibato sacerdotal e da limitação dos nascimentos. Isso não se podia discutir, mas era justamente o que todo mundo queria discutir – se proíbe discutir o que se quer discutir.
No ano passado na Arquidiocese de Santiago do Chile fizeram um Sínodo Diocesano e, na primeira etapa, o Arcebispo pediu que todos os grupos mandassem um elenco de problemas a serem tratados no Sínodo. Dizia para falarem com toda franqueza, com toda sinceridade. Chegaram quase cem mil respostas e quase todas se referiam a questões como – por que os padres não podem casar? Por que os divorciados/separados que fizeram uma nova união não podem comungar: Por que a Igreja se opõe à limitação artificial dos nascimentos? Todo mundo queria discutir sobre isso. Chegou ao conhecimento da Nunciatura e veio uma carta de Roma dizendo que no Sínodo Diocesano é proibido tratar desses problemas. Se é proibido falar das coisas que todo mundo queria falar, não adianta. O Sínodo foi feito, mas ninguém mais se interessou por ele.
A mesma coisa perguntar qual será o Papa que vai permitir que se discuta abertamente as coisas que todo mundo queria discutir? É só permitir que se discuta, que se fale abertamente. Quando será a Perestroika? Qual será? Será o sucessor agora? Ou o seguinte? Ou o seguinte do seguinte? (risos).”

O segundo caso refere-se à última entrevista feita com o Cardeal Carlo Maria Martini, pouco antes de sua páscoa definitiva, concedida a jesuítas. Nela, entre outras afirmações, declarou que a Igreja Católica se acha atrasada em cerca de duzentos anos. Vale a pena conferir esta entrevista, cf. “link”:

Afinal, esses cristãos e esses católicos, espalhados pelo mundo inteiro, clamam por que tipo de mudança:?

Bem no início de uma longa entrevista a uma rádio de Santiago (Chile), o entrevistador, antes mesmo de lançar ao convidado (o teólogo Pe. José Combiin), pôs-se a ler um longo trecho do romance “Os Irmãos Karamazov”, mais precisamente o trecho extraído do capítulo sobre o Inquisidor. No citado trecho, o inquisidor depara-se, desapontado, com a figura de Jesus, a quem ele interpela: “Quesm és tu ?” E, a seguir, o próprio inquisidor intervém: “Não repondas. Cala-te !” Guardadas as devidas particuladridades contextuais, este trecho oferece uma ocasião propícia de (auto)avaliação da caminhada das Igrejas cristãs, à luz do Evangelho: quanta infidelidade, quanto distanciamento em relação à sua missão, julgada à luz da Tradição de Jesus. Malgrado tal e tanta dissintonia, é sempre saudável lembrar que, em todos os tempos, por outro lado, sempre houve testemunhas fiéis ao Evangelho. Sempre houve o testemunho do “Resto”, do que Dom Helder costumava chamar de “MINORIAS ABRAHÂMICAS”, a denunciarem os malfeitos das Igrejas, em especial dos representantes do poder, e a anunciarem, por sua vida de simplicidade e desapego do poder (“Eu Te bendigo, ó Pai...  porque ensinastes estas coisas aos pequeninos”, cf. Mt 11, 25), a conversão ao Seguimento de Jesus.

Hoje, também, o Espírito do Ressuscitado segue animando o Povo de Deus, em especial o povo dos pobres – as mulheres, as vítimas de migrações forçadas, as vítimas de feminicídio, de tráfico de pessoas, de racismo, de homofobia, de toda sorte de discriminação e de prisão, as pessoas idosas, os jovens, as crianças, as pessoas enfermas, etc., etc. – a levantarem sua voz profética, em sucessivos apelos à conversão ao Evangelho, o que implica, também, profundas reformas nas Igrejas cristãs, em especial na Igreja Católica Romana. Aqui, buscamos sintetizar numa meia dúzia de pontos os principais clamores por reforma, por parte de distintos grupos de católicos, cuidando de justificar sua necessidade e urgência.

* O Evangelho, a Tradição de Jesus como baliza maior de nosso processo de conversão

Sabemos da imensa diversidade de caminhos que tem o Espírito Santo, fonte de vida plena, de Liberdade e de todo bem, para nossa ação no mundo e na (s) Igreja(s), na perspectiva da Tradição de Jesus. É o mesmo Espírito que, movendo-nos a atuar nessa imensa diversidade, Quem também nos prepara para irmos costurando a unidade: “Que todos sejam Um..” (cf. Jo, 17, 20-21). Sucede que, ao nos conduzir pelos caminhos dessa imensa diversidade, em busca de construirmos a unidade, não agimos, segundo os caprichos de uns ou de outros. Cuidamos, sim, de buscar sintonizar com Seu grande apelo: “Não foram vocês que Me escolheram, mas fui Eu quem os chamei, para que vocês vão e deem fruto, e este fruto permaneça. ” (Jo 15, 16). Cuidamos de seguir, portanto, balizas que Ele nos indica, todas marcadas pelo testemunho de amor, de misericórdia, de disposição e disponibilidade ao serviço do Povo de Deus, em especial os pobres e desvalidos, testemunho de justiça, de paz, de solidariedade, de partilha. Partilha do pão. Partilha nossos dons imateriais, indo bem à contracorrente das balizas dos poderes deste mundo: “Entre vocês não será assim” (cf. Mc 10, 42-45).

Sucede que, ao longo de séculos de Cristandade, fomos afastando-nos demasiado de tais balizas, seduzidos pelos ídolos do poder, do ter, do prestígio. E, a despeito de vozes proféticas, de ontem e de hoje, eis que as estruturas organizativas da(s) Igreja(s) têm resultado engessadas, mais a serviço dos segmentos hierárquicos do que em proveito das maiorias do Povo de Deus. Os esforços de renovação ou se frustraram ou ficaram a meio caminho. O Concílio Vaticano II foi uma dessas oportunidades propícias, que resultaram negligenciadas, em grande parte. Não se respondeu, com generosidade, da parte dos hierarcas, ao forte apelo à “refontização”, à volta às origens das comunidades cristãs. Acabaram prevalecendo as estruturas enrijecidas da Cúria Romana e o Código de Direito Canônico, com alterações superficiais. Mesmo documentos marcantes como a “Lumen Gentiuem” e a  “Gaudium et Spes”, não foram tomadas na devida conta.

Não sendo feitas as reformas necessárias, os problemas se agravaram, como no caso da sucessão de escândalos de abusos sexuais de crianças, à frente dos quais um número considerável de clérigos, em várias partes do mundo. Diante das expectativas e de cobrança de justiça, por parte da sociedade civil, o que se viu foi a tendência de se recorrer, antes ao Código de Direito Canônico, do que ao Evangelho, ou mesmo aos Direitos Humanos, num claro sinal de tratamento privilegiado aos algozes, em prejuízo da justa assistência às vítimas.

Tais disfunções das estruturas eclesiásticas refletem-se igualmente, no descumprimento do espírito de colegialidade, clamado pelo Concílio vaticano II, de cuja seções decisivas só participam bispos, ficando de fora (a não ser como convidados) leigas e leigos. Que constituem a enorme maioria. Se no próprio desenrolar do Concílio, resulta flagrante a concentração de poderes nas mãos da hierarquia, não se passa de outro modo a organização eclesiástica, nas Dioceses e Paróquias. A exceções, mas estas não infirmam a regra....

Centralidade do Povo de Deus na organização das instâncias eclesiais, tendo os pobres como núcleo central do Evangelho.

O que parece uma ousadia temerária da parte do Papa Francisco, ao sugerir, em pronunciamentos e escritos -  A exemplo na Exortação apostólica “Evangelli Gaudium” -, a centralidade do Povo de Deus na Organização Eclesial na verdade constitui uma retomada do espírito do Concílio Vaticano II (cf. Lumen Gentium ). Neste documento, não é a hierarquia quem vem tratada, em primeiro lugar,  mas é justamente o povo de deus, a merecer tratamento de relevância também  nas instâncias organizativas da Igreja. O espírito do Vaticano II ganha especial relevo na conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín, em 1968, quando o povo de Deus, ao interno da Igreja Católica é tratado como protagonista da organização, desde a opção pelos pobres, manifesta nas fecundas experiências das comunidades Eclesiais de Base, bem como em diversos movimentos, associações, organizações, serviços, pastorais sociais, ainda em curso na América Latina e em várias partes do mundo.

Participação das Mulheres Católicas em todas as instâncias de decisão da Igeja:

Desde seu início, do Movimento de Jesus – mesmo num contexto histórico hostil à participação feminina, participaram várias mulheres. É conhecida a postura de Jesus em relação às mulheres: de enorme reconhecimento, promoção e de defesa de sua dignidade. Não são poucos nem desprezíveis os episódios de sua atitude dialógica com as mulheres. É muito provável que, inclusive nas fileiras dos discípulos mais próximos, sua postura em relação, por exemplo, a Maria Madalena, tenha incomodado alguns dos Seus discípulos, numa espécie de disputa do melhor lugar, diante de Jesus. Passaram-se os séculos, e esta relação só se agravou. No caso da América Latina, é sabida a forte participação das mulheres nas lides eclesiais. Elas sempre foram a enorme maioria dos membros das CEBs. Nos espaços paroquiais e diocesanos, é impensável o funcionamento das atividades do dia-a-dia, sem a participação das mulheres. No entanto, isto não se dá, quando se trata da tomada de decisões. Estas são, quase todas, da alçada do clero, todo ele formado por homens. Quando se trata de execução das mais diferentes tarefas, recorre-se às mulheres, mas das decisões elas estão fora, salvo algumas exceções – e mesmo assim, em decisões secundárias...

Por longo tempo, as coisas se passaram, com relativa resignação. De alguns tempos para cá, isto vem mudando, significativamente. Assim como nos espaços da sociedade civil, também nos espaços eclesiais, um número crescente de mulheres tem avançado consideravelmente nas pesquisas de distintos campos científicos, inclusive no campo teológico. Vem do universo feminino o que de melhor e mais criativo se pesquisa, por exemplo, no âmbito dos estudos bíblicos, a partir do olhar feminista, no sentido que lhe emprega a teóloga Teresa Forcades. Com efeito, as pesquisas teológicas protagonizadas por mulheres cristãs (também católicas) têm tido um crescente reconhecimento, em várias áreas, principalmente no campo da exegese bíblica, mas também no campo do Ecofeminismo (Ivone Gebara). Esta densa contribuição tem alimentado a qualidade do empenho de grupos, associações e movimentos de leigos e leigas, nas diversas partes do mundo, municiando e fortalecendo os fundamentos dos clamores por mudanças.

Reconhecer e respeitar o direito e o justo pleito das mulheres – leigas, religiosas -, de participarem das decisões eclesiais, em suas diversas instâncias, não significa apenas (mas, também isto!) abrir caminho institucional ao atendimento à legítima postulação de realizarem a vocação à ordenação ministerial das que se sentem chamadas por Deus, a exercerem tais ministérios, mas significa ainda reconhecer a legitimidade de seu pleito, de participarem das mais distintas instâncias decisórias da Igreja Católica Romana. Seguir negando-lhes seu justo pleito significa descumprir o direito de parcelas numerosas do Povo de Deus, ao interno da Igreja. Uma injustiça a ser reparada, inclusive por se tratar de um vasto segmento do povo de Deus marcado por uma história de perseguições e discriminações, de caráter misógino. Há de lembrar-se que tal reparação já se tem dado em outras Igrejas irmãs.   

 Reconhecimento a homens e mulheres ordenados, a exercerem seu ministério, conforme sua vocação ao celibato ou à vida matrimonial
Também aqui, deparamo-nos com uma demanda antiquíssima e de solução ao inteiro alcance até de instancias mais comprometidas com a disciplina eclesiástica. Já não faz sentido a manutenção da obrigatoriedade do Celibato de pessoas vocacionadas ao exercício dos ministérios ordenados. Trata-se de uma disciplina que não tem fundamentação evangélica, nem guarda raízes sequer com a mais antiga tradição apostólica, haja vista que, entre os apóstolos de Jesus havia também quem fosse casado,além do que, no atual contexto histórico, não parece mais razoável tal exigência, se é que já o tenha sido algum dia. O Estado Civil deve ser, como aliás já o é, uma opção para homens e mulheres vocacionados aos ministérios ordenados.


Continuidade e aprofundamento do Diálogo entre as Irejas Cristãs, desde as bases:
Nunca é demais lembrar-se a diversidade de caminhos que o Espirito Santo inspira, a partir da qual somo chamados a construir a unidade, segundo o que o mesmo Espirito Santo inspira. Os diferentes caminhos assumidos pelos Cristãos e Cristãs, ao longo de séculos se deram por razões sabidamente históricos. Também, a convergência há de se fazer, seguindo-se o que o Espirito Santo tem a dizer às Suas Igrejas. Neste sentido a busca de unidade há de se fazer, menos a partir de uma busca de uniformidade doutrinária, e mais a partir de iniciativas concretas, tomadas desde suas bases, e correspondentes às principais necessidades e aspirações do Povo de Deus, para além das fronteiras Eclesiais. Nesta mesma linha, as iniciativas e testemunho do Papa Francisco e de outras autoridades de Igrejas Cristãs e Ortodoxas apontam na boa direção.


João Pessoa, 12 de setembro de 2017

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

"VOEM ALTO! SONHEM GRANDE": Francisco, Bispo de Roma, uma liderança de novo tipo


Alder Júlio Ferreira Calado

Num contexto histórico - nacional e internacional - marcado pela ausência ou profunda escassez de referência ético-políticas, é confortante e encorajador podermos contar com o testemunho de uma figura da estatura ética de Francisco, Bispo de Roma. Em seus gestos, escritos e pronunciamentos, inclusive pelas suas constantes viagens apostólicas (vinte, em quatro anos!), pelos quatro continentes, impacta sua força profética, exercitada com alegria, esperança e liberdade. Também, neste início de visita sua à Colômbia, de seis a onze do corrente.

Nossa vasta fronteira com os países-irmãos da América do Sul inclui a Colômbia, conhecida pelas belezas naturais, sendo o segundo país com maior diversidade. Também conhecida por uma população majoritariamente católica, bem como por conviver mais longamente com a dramática experiência de conflitos armados, há meio século, protagonizados as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o ELN (Exército de Libertação Nacional), ao qual, em suas origens esteve ligado o Pe. Camilo Torres, assassinado em 1966. A Colômbia também se tornou uma referência mundial do mundo católico, graças à realização, em 1968, da bendita Conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín, cuja grande marca foi a proclamação da opção pelos pobres, berço das CEBs, da Teologia da Libertação e de tantas organizações da chamada "Igreja na Base". É, portanto, a Colômbia o destino da vigésima viagem apostólica do Papa Francisco, tendo como um dos seus grandes objetivos, ajudar a consolidar a paz, junto àquele povo-irmão.

Como peregrino da esperança, da justiça e da paz, a percorrer todos os continentes, o Papa Francisco retoma suas viagens apostólicas - agora, pela vigésima vez -, desta feita, à Colômbia, aonde chegou, ontem, dia 06, por volta das 16h30, devendo estender-se sua estadia até o dia 11 próximo, período durante o qual se fará presente nas principais cidades do país - Bogotá, Villavicencio, Medellín, Cartagena. "Demos o primeiro passo" - eis como alude ao principal objetivo de sua visita apostólica: confirmar/comemorar, junto com o povo colombiano, seu sincero anseio pela paz, após meio século de violentos confrontos armados  entre os integrantes das FARC e as forças militares oficiais. Ainda buscando também dar passos em relação aos esforços de paz com o ELN, outra força militar em confronto, há mais de 50 anos. 

Como de hábito, sua chegada provoca grande afluência de multidões. Também em Bogotá, ao descer do avião, e ao saudar os que o aguardavam, dirigiu-lhes palavas de entusiasmo, de agradecimento, de esperança: "Agradeço-lhes a tantos presentes, pelo esforço de chegarem até aqui. Não se deixem vencer pelas dificuldades, não se deixem abater. Não percam a alegria. Não percam a esperança. Vão adiante!" - foram suas primeiras palavras. 

Em seu encontro com o Presidente Juan Manuel Santos e demais autoridades civis colombianas, segundo maior país em diversidade, bem como a riqueza cultural do seu povo, sua bravura em enfrentar e vencer dificuldades, além de haver sublinhado a importância da paz.  
(cf. seu primeiro discurso, no seguinte "link":

Falando bem ao seu modo - guiado pelo seu coração -, o Bispo de Roma dirige-se, mais tarde, a uma imensa multidão, com marcante presença de jovens. Resumo, em brevíssimos tópicos, os que considero pontos mais relevantes de sua fala:

- Venho como mensageiro da paz. Saúdo-os desejando-lhes a paz.
- Também venho cheio de alegria, de esperança e de paz.
- Percebo a grande quantidade de jovens aqui presentes.
- Venho aprender com vocês. Aprender de sua fé, aprender de sua bravura, ao enfrentarem tantas dificuldades.
- Não se deixem abater! Não percam a esperança!
- Voem alto! Sonhem grande! 

Recomendo a escuta completa deste pronunciamento, acessando-se o link abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=nPCFctCDO90

João Pessoa, 7 de setembro de 2017

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

BRASIL - GRITO POR UM NOVO AMANHECER: das “balas perdidas” à mira certeira...

BRASIL -  GRITO POR UM NOVO AMANHECER: das “balas perdidas” à mira certeira...

Alder Júlio Ferreira Calado

“Virá o dia em que todos
ao levantar a vista
veremos nesta terra
reinar a Liberdade.”


Como se tem realizado em mais de vinte edições precedentes, desde meados dos anos 90, o GRITO DOS EXCLUÍDOS E EXCLUÍDAS, reunindo multidões pelo Brasil a fora, volta a acontecer, neste SETE DE SEBEMBRO DE 2017. Não bastassem os múltiplos e danosos efeitos acarretados, cotidianamente, pelo bombardeio do noticiário midiático brasileiro, importa ter sempre presente o risco de uma convivência resignada com as trágicas ocorrências resultantes das imprópriamente denominadas “balas perdidas”. Esdrúxulas, sob os mais distintos aspectos, as estatísticas relativas aos índices de assassinatos, no cotidiano da população brasileira. Ultrapassam, de longe, as estatísticas de vítimas de guerras, registradas em vários países declaradamente em guerra.

Um rápido exame das estatísticas fornecidas pelos organismos oficiais – nacionais e internacionais – é suficiente para nos darmos conta de nossa espantosa situação. Com efeito, não podemos nem devemos fechar os olhos ao fato de que, por ano, são assasinadas, no Brasil, em torno de 60 mil pessoas, número distribuído – e isto não se dá por acaso! - especialmente por alguns segmentos de nossa população, entre os quais: mulheres (feminicídio), jovens, negros, vítimas fatais da homofobia, entre outros.
Nossa sensação de tragédia – e tragédias anunciadas -  só aumenta, ao reconhecermos que a esta escabrosa estatística, somam-se númerosas outras, relativas a conflitos agrários, tráfico de pessoas, trabalho escravo, precarização das condições de trabalho, grilagem de terras indíginas, de comunidades quilombolas, de reservas ambientais, de agravamento das mais distintas formas de violência social (inclusive, graças à sofisticação da produção, comércio e tráfico de armas), às distintas formas de agressão às águas oceânica, aos rios, às florestas, ao subsolo, as plantações, e ao conjunto dos inventes, numa clara expressão do crescimento da concentração de riquezas e das desigualdades sociais.


Tais registros trazemos à tona, na véspera do Sete de Setembro, quando se tem feito ouvir, pelas ruas e praças do País, O GRITO DOS EXCLUÍDOS E EXCLUÍDAS, desde meados dos anos 90, conscientes de que tal clamor há de estender-se ao cotidiano de nossas lutas. De olho, por conseguinte, nesta realidade assombrosa, somos históricamente instados a respodner, com esperançamento, a estes desafios. Somos instigados, enquanto seres vocacionados à Liberdade a ousar ensaiar oassis, rumo à superação desta conjuntura de terror. Este constitui o objetiv-mor das presenets linhas.

O que está por trás das “balas perdidas””?

Indignar-nos é, sim, um primeiro passo, no esforço conjudado de uma resistência. Mas, bem sabemos,, é preciso ir além da mera indignação e mesmo além de atos de resitência. Atos de fecunda resistência podem começar pela tentaiva de examinar o que está por trás das “balas perdidas”. Nesse sentido, que nos ajudem a um exercício crítico indagações do tipo:
- Das armas de quem partem as “balas perdidas”? Que tipo confroto mais favorece ocorrências desta ordem?
- Qual o perfil dominante dos contendores? Que história de vida costumam apresentar os protagonistas desses embates?
- Que condições existenciais concretas lhes foram e são asseguradas pelo modelo vigente de organização societal?
- Quem são, na maioria dos casos, as principais vítimas dessas “balas perdidas”? A que classe pertencem, em sua grande maioria?
- Quais as condições familiares, comunitárias lhes foram ou lhes são asseguradas:  de moradia, de trabalho, de escolaridade, de vida comunitária, de prestação de serviços públicos de saneamento, de saúde, de inserção comunitária, de participação enquanto cidadã(o), etc?
- A quem têm como referência ético-política, na atual conjuntura?
- Flagrados ou não como infratores, que destino lhes é reservado, além das escolas de crime em que se tem tornado nosso sistema prisional?
- Que forças sociais são  históricamente protagonistas de ensaiarem passos alternativos ao modelo vigente?
- Essas forças sociais têm  realmente assumido, de modo coerente, suas tarefas históricas?

Calibrando a mira, rumo a um novo amanhecer.

Como acima assinalado, sem desconsiderar a importância do conhecimento dos impasses presentes na atual conjuntura, nosso objetivo central é o de ousarmos ensaiar passos rumo à superação dos atuais desafios. Consciêntes de que esta é uma tarefa fundamentalmente das classes populares, cuidamos de perguntar:

- Nossas organizações de base como tratam de enfrentar os atuais desafios? Sem ignorarem os graves fatores externos responsáveis pelos profundos estragos econômicos, politicos, culturais, éticos, ecológicos, etc., presentes no atual quadro histórico, têm avançado também no reconhecimento e no adequado enfrentamento de sua parcela de responsabilidade na produção desses estragos?
- Quanto ao processo organizativo, que passos fundamentais vêm sendo ensaiados, na perspectiva de retomada das lutas sociais, no campo e na cidade, cujo os frutos atestem o acerto desta retomada, em novo estilo?
- No tocante à tarefa formativa que iniciativas mais recentes tem sido sido ensaiadas por estas mesmas forças sociais, no sentido de potencializar suas energias transformadoras, rumo à construção de um novo modo de produção, um  novo modo de consumo e um novo modo de gestão societal?

João Pessoa, 06 de setembro de 2017.



















sexta-feira, 1 de setembro de 2017

VENDILHÕES DA PÁTRIA, EXTERMINADORES DO PLANETA FRACASSARÃO, EM SUA SANHA NECRÓFILA

VENDILHÕES DA PÁTRIA, EXTERMINADORES DO PLANETA FRACASSARÃO, EM SUA SANHA NECRÓFILA

Alder Júlio Ferreira Calado

Início de setembro. Semana da Pátria. Dia dos Excluídos. Sanha privatista a ameaçar a Nação, sob as mais diversas manifestações, inclusive a pauta extremamente privatista de Temer e os seus,  neste dia, em viagem à China, para expor à voracidade empresárial parcelas significativas do patrimônio nacional.  Sanha privatista que me remete a um conhecido episódio bíblico, o que narra a expulsão, por Jesus, dos vendilhões do templo (cf. Mt 21. 12ss)
Com efeito, a  necrófila sanha privatista (nos âmbitos internacional e nacional) volta a atacar, com extrema agressividade. Favorecidas, desta vez, por profundos equívocos ético-políticos cometidos pelas forças sociais historicamente comprometidas com as causas libertárias das classes popualres e com o respeito e a dignidade da Mãe-Terra, eis que as classes dominantes e dirigentes, expressão do que há de pior do Mercado capitalista, não têm cessado de mostrar suas garras de “besta fera” dos novos tempos, em sua necrófila sanha de vendilões dos mais estratégicos bens nacionais.

Um leve exame da pauta (des)govenamental é suficiente para nos darmos conta da necrófila verocidade desses vendilhões da Pátria em despojá-la dos bens mais preciosos que a sustentam, ao mesmo tempo em que investem, a passos largos, na destruição da Mãe-Terra. Tudo se põe e se expõe à venda: as reservas ambientais, os territórios indígenas, das comunidades quilombolas e dos povos tradicionais, vastas estensões de terra (inclusive na Amazônia), para fins de exploração das grande empresas mineradoras, as mais estratégicas unidades nacionais de sustentação do desenvolvimento (a exemplo da eletrobrás). Assim como, em outras ocasiões, os vendilhões da Patria e os exterminadores da Natureza sempre encontram pretensas justificativas de sua gesta assassina. Desta feita, tentam justificar sua mais nova investida de privatizações, alegando a ineficiência das empresas Estatais, bem comodos enormes rombos orsamentários. Por outro lado, há quem, contrapondo-se à investida privatista, defenda cegamente a natureza estatal dos bens nacionais,como se o Estado também não fosse um ente privatizavel. A este respeito, como fizemos á algum tempo atrás, em texto intitulado “Nem privatismo nem estatolatria: o público como centralidade ético-política na gestão da sociedade, cf.”

Todavia, cumpre acentuar, com toda a ênfase, que o Brasil e o mundo já acumulam, à saciedade, o gosto amaríssimo da senha mercantilista. Pretender-se que o espírito empresarial capitalista se coadune aos interesses do Público é puro egodo. A este filme esamos acostumados a assistir: é de terror! Não constituem horizonte defensável, do ponto de vista das classes populares. É sempre o Público que deve constituir nossa referência de organização societal. Fora do público, não há salvação! Isto pode ser ilustrado positivamente por meio de inúmeras iniciativas da sociedade civil, protagonizadas por suas principais forças alternativas, dentre as quais pdoemos destacar numerosas experiências populares, no campo e na cidades, voltadas para questões tais como agroecologia, economia solidária popular, tecnologias alternativas de convivência com o Semiárido, entre outras.

Ainda recentemente, entre os dias 16 e 24 de julho de 2017, realizou-se, no País Básco a 7ª Conferência Internacional da via campesina, reunindo dezenas de delegados e delegadas de muitos movimentos e organizações camponesas de todo o mundo. No encerramento da mesma, foi elaborada uma Declaração constando dos principais temas e desafios aí discutidos, bem como popostas relevantes de ação coordenada, em âmbito internacional. Esta declaração encontra-se disponível no seguinte “link”: http://www.resumenlatinoamericano.org/2017/07/27/vii-conferencia-internacional-de-la-via-campesina-declaracion-de-euskal-herria-alimentamos-nuestros-pueblos-y-construimos-movimiento-para-cambiar-el-mundo/  
a despeito de tratar-se de um evento organizado por protagonistas do campo, tal Declaração constitue uma fecunda bússula de atuação, a inspirar também as organizações e movimentos urbanos das classes populares.

Seguimos convencidos, até prova encontrário, de que nem o Mercado capitalista, nem o Estado – entidades orgânicamente inter-alimenta

Tomara que, pelo Brasil adentro, as manifestações do Dia dos Excluídos e Excluídas – já contando com mais de vinte edições, desde seu início, patrocinado pela CNBB, nos inspirem e animem a protestar contra os vendilhões da Pátria e os exterminadores do Planeta, cuja voracidade plutocrática há de ser contida e superada, a tempo, pelas forças populares organizadas, na direção de um outro mundo possível, necessário e urgente! Os vendilhões da Pátria e os exterminadores do Planeta háo de fracassar, seja pela ação organizada das forças biófilas, seja pela ação da Mãe-Terra: se nós, seres humanos, a ela nos mantivermos insensíveis à sua dignidade, não está descartada a hipótese de analogia do que sucedeu a outras espécies... Nós não podemos viver sem o Planeta, mas será também verdadeira a recíproca? A sanha privatista não haverá de prevalecer!



João Pessoa, 01 de setembro de 2017.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

NOTAS PARA UMA SOCIOLOGIA DA AGENDA: serrando as jaulas, ensaiando passos libertários...

NOTAS PARA  UMA SOCIOLOGIA DA AGENDA: serrando as jaulas, ensaiando passos libertários...

Alder Júlio Ferreira Calado

O cotidiano expressa uma intrincada rede de relações, da qual cada um de nós, em grupo ou a título pessoal, atua como tecelã(o), a costurar - sozinho ou em mutirão - uma enorme diversidade de fios existenciais, dia após dia. Dependendo da qualidade do fio relacional e do perfil de quem tece, o produto da tecedura caminhará na direção da excelência ou da mediocridade. Ninguém escapa de tecer, de algum modo ou em algum momento, um produto misturado, de qualidade alternada. Aí não reside o problema. Desafio é o empenho de quem tece, no sentido de fazer prevalecer uma tecedura de boa qualidade - materialmente consistente e esteticamente gratificante a quem tece e a quem dele fará uso. Num relance autoavaliativo, como apreciamos a qualidade de nossa tecelagem cotidiana, que tem lugar numa imensa diversidade de espaços sociais e de situações existenciais - do espaço subjetivo ao ambiente familiar; da convivência laboral aos espaços lúdicos; de nossas relações cósmicas às experiências místicas, etc., etc.?  Questionamentos como este nos induzem a pensar numa Sociologia da agenda, entre outras possibilidades de abordagem crítica do alvo de nossas inquietações: como anda nossa agenda? Uma das razões da escolha de uma abordagem sociológica deve-se à complexidade e extensão do seu campo de atuação, uma vez tratar-se de um saber que navega pelo “social”, que, como se sabe, comporta dimensões econômicas, políticas e culturais, trabalhados em suas necessárias interconexões, a possibilitar uma interpretação inter/transdisciplinar, apelando a uma multiplicidade de saberes.  Ocupando-se  a Sociologia, por excelência, das relações sociais, tanto nas macro quanto nas micro-esferas da realiade, e seus entrelaçamentos, as relações do dia-a-dia bem se prestam a uma leitura, sob esta ótica. É o que buscamos fazer, nas linhas que seguem. Começamos por explicitar algumas balizas teórico-conceituais, com o propósito de nos ajudarem, quanto a uma interpretação crítica de nossa agenda como expressão das relações do nosso dia-a-dia. Em seguida, ensaiamos passos de uma crítica de nossa agenda, em diferentes campos de nossa atuação.

1. Balizas teórico-conceituais

Em sua complexidade e em sua extensão, a Sociologia, desde seus clássicos, inclusive Ibn Kaldhun, procura acercar-se da realidade social, como seu campo por excelência. Observar, interpretar e analisar críticamente a tecedura dos fios relacionais do cotidiano interpessoal, comunitário, societal constituem um desafio de monta, para quem ousa  buscar  conhecer, interpretar e extrair ensinamentos úteis ao processo de humanização.

Um primeira cautela a ter-se em conta, nesta direção, é a consciência da complexidade e extensão da realidade social. Dela podemos apenas acercarmos, nunca dela possuir um conhecimento acabado. A realidade social, sendo histórica, está sempre em movimento, de modo a revelar-se-nos apenas em algumas de suas facetas, fazendo-nos escaparem tantas outras, por outro lado, não se trata de algo completamente fora do nosso alcance de sujeitos cógnocentes desde que, sabendo-a em constante movimento, nos diponhamos a acompalha-la, também em movimentos, não nos quedamos estacionado, à espera de os fatos sociai venham espontaneisticamente ao nosso encontro; ao contário, temos que nos mexer, por meio de passos metodicos, em busca de aprendêe-la, ao menos parciamente, já que, no todo escapa a nossa observação. Dentre os passos que nos permitem a cercar-nos dela, sublinhamos: - a observação contínua – trata-se de buscar, acompanhar, o movimento da Realidade, atentando aos multiplos e sucessivos sinais por ela emiditos nas relações do dia a dia  Neste sentido, avaliamos como profundamente fecundo o paradigma indiciário, isto é, aquele  atinente aos sinais, que a vida social, a convivência com a natureza e seus distintos viventes, com os semelhantes, com os diferentes, e até antagonicos, estão sempre a nos oferecer. Não basta, porém, limitar-nos a uma observação qualquer. É preciso exercitar,  sistmática e metodicamente, atentando para os significados dos sinais e das circustancias típicas e atípcas. Mais 2 pontos, importa igualmente registrar-los, uma vez que nossa memória não é capaz, de reter toda a diversidade de manifestações da realidade social. Sendo assim, após observa-la, cuidadosamente, a apartir dos registros sistematicos elaborados, buscar interpretar os seus significados, como condição essencial de uma compreensão adequada da mesma realidade. Passo que também não nos garante uma intervenção exitosa na mesma realidade, mas disto nos aproxima, sendo um passo necessário, mas não suficiente, uma vez que intervir exitosamente na realidade social, em especial em suas raízes mais fundas, demanda-nos recorrer a passos complementares, que envolvem outros saberes e outras práticas sociais.

2. Por uma sociologia de nossas agendas
  
Nossas agendas implicam uma enorme diversidade de atividades, que tem lugar em uma múltipla  gama de espaços socioambientais – cósmicos, biológicos, ecológicos, societais, comunitários, éticos, estéticos, econômicos, políticos, culturais... uma densa, complexa e extensa rede de relações interconectadas, tal como vem bem assinalado no belo poema/canção “Tudo está interligado” ( https://www.youtube.com/watch?v=1do_VBZG9Ps ) .

É justamente aí que se dão nossas relações do dia-a-dia, em função (ou disfunção) das quais organizamos nossas agendas. Se, por um lado, ainda quando nossas agendas se materializam mais diretamente em apenas algumas dessas esferas, é certo, por outro lado, que, direta ou indiretamente, se acham conectadas com todas as demais, estejamos ou não conscientes disto. Neste caso, a busca de nos conscientizarmos progressivamente desta dinâmica interação nos ajuda sobremaneira a lidar melhor, inclusive, no âmbito da(s) com que lidamos mais diretamente. E a recíproca também vem ao caso: nossa não ou insuficiente consciência desta interação empobrece ou esvazia nossa ação libertária, no chão do dia-a-dia.

O que acima vem assinalado não é uma quimera ou jogo de palavras. Para verificarmos o impacto de sua inscidência no nosso dia a dia, é suficiente que nos façamos perguntas do tipo:

- De uma simples lista de nossos sonhos e projetos, quais e quantos conseguismos realizar? E de tantos não realizados, quais e quantos nos mantemos empenhados, em materializar?

- Que fatores nos impedem de alcança-los, trata-se de fatores apenas externos ou, em larga medida, essa não realização, tem mais a ver com a pouca disposição e vontade, de nossa parte de buscar realiza-los?

- Em nosso calendário de atividades a curto, medio e longo prazos, para onde tem apontado: para uma perspectiva de mero cumprimento de rotina (profissional e de outras áreas) ou para um horizonte libertário, horizonte idenfificavel, pela qualidade dos fruto produzidos?

Por outro lado, desponta igualmente útil ao nosso processo de humanização perguntarmo-nos o lugar que em nossas agendas ocupam eventualmente diversas atividades voltadas para além do campo profissional ou estritamente familiar. Sabemos que o processo de humanização incide numa ampla diversidade de fios existenciais ou de quefazeres, que também devem refletir-se, de algum modo, em nosso cotidiano. Fios existenciais que vão da experiência intra-intersubjetiva à dimensão cósmica; do cuidado com a Mãe-Natureza aos cuidados hidro-agroecológicos; de uma saudável erótica ao exercício da mística; das relações sociais de gênero às de etnia; do movimento do corpo às atividades lúdicas; das relações políticas, econômicas e culturais, inclusive ao exercício das artes, em sua bela diversidade... Daí resulta irrenunciável a pergunta: que lugar tais dimensões constitutivas do nosso processo de humanização têm em nossas agendas?


Seria longa a lísta de perguntas. Contentemo-nos por enquanto,  com estas, com o proposito de que nos ajudem a compreender melhor nossas limitações pessoais e  grupais. Com efeito, não se trata de uma auto-avaliação extritamente pessoal, mas também coletiva. Como educadores (individuais e coletivos) somos chamados constantemente a nos reeducar, sempre a partir do que fazemos em nosso dia a dia, e tomando tempo para revisarmos a qualidade de nossas ações, de nossa rotina, como se nos dissessem: “Dize-me da qualidade do teu dia-a-dia,  e dir-te-ei do horizonte que persegues – libertário ou de estério rotina.” Seres vocacionados a buscarmos uma vida em plenitude, porque vocacionados à Liberdade, cuidamos de potencializar nossos dons e talentos, nesta direção, tal como atletas empenhados em superar seus próprios limites, como arqueiros que buscam alcançar seu alvo, por meio do cotidiano exercício do arco e da flecha. Aqui, tem especial lugar o trabalhar a dimensão volitiva (o querer, a vontade), de forma processual, mas efetiva, tentando, sem cessar, ensaiar passos libertários, ao tempo em que buscando serrar as prórias jaulas, manifestas sob múltiplas formas de aprisionamento.




João Pessoa, 29 de agosto de 2017.