domingo, 17 de dezembro de 2017

MUITAS BÊNÇÃOS, RECEBA NOSSO BISPO, PELO SEU FRUTUOSO ANIVERSÁRIO!


Alder Júlio Ferreira Calado

Mil razões temos, hoje, a celebrar:
eis Francisco a passar por entre nós,
com seus gestos, escritos, sua voz,
a lembrar-nos que a Terra é nosso lar,
e a causa do Reino a encarnar!
Neste dia completa mais um ano,
qual Joel instigando todo humano, 
a ousar ir além do Capital,
construindo um projeto original,
contraposto a este mundo insano.

Qual Francisco irrompendo em tempo novo,
do Espírito o Recado ele interpreta, 
Refazer Sua Igreja - eis a meta,
sendo irmão de qualquer membro do Povo,
a serviço do humano eu me movo
Há palavras que são a sua cara:
Não lhe sendo "Perdão" palavra rara
"Alegria", "Serviço", "Ação concreta"
"Solidário" de quem a dor afeta
Libertar a quem geme sob vara.

Sua Mensagem do "Angelus", acentua
"Vigilância", "Oração" e "Gratidão"
Do Advento boas marcas elas são
Convocando do templo a ir à rua
Insistência constante, marca sua
Do Concílio nos traz um grande alerta
De uma Igreja a reformas sempre aberta:
"Reformata, Ecclesia reformanda"
Rumo ao Reino de Deus - ela assim anda
Testemunhos diversos nos oferta.

João Pessoa, 17/12/2017.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

REENCANTAMENTO DA CONDIÇÃO HUMANA PELA VIA DA NATUREZA: breves notas acerca da redescoberta do bioma caatinga

REENCANTAMENTO DA CONDIÇÃO HUMANA PELA VIA DA NATUREZA: breves notas acerca da redescoberta do bioma caatinga


Alder Júlio Ferreira Calado

Complexo e vasto é o nosso processo de humanização, a comportar, não apenas uma imensa diversidade de dimensões, como também - e sobre tudo - um permanente esforço de unidade dessas múltiplas e complexas dimensões. Nesse sentido, um dos desafios que se nos interpõem, consiste em articular adequadamente natureza e cultura. No primeiro caso, reconhecendo-nos partícipes componentes da Natureza, cuidamos de cultivar incessantemente nossa condição de animais, em harmonia com os demais animais não-humanos e com as plantas e os minerais. De outra parte, também como seres de Cultura, somos vocacionados a transpor - transpor significa ir além de, mas passando por - nossos traços de mera natureza, buscando atuar como seres de consciência a dialogar com nossa dimensão de natureza.

Nas linhas que seguem, nosso propósito é o de exercitar tal articulação, pela via do encantamento de nossa condição humana, graças à contemplação das maravilhas da mãe-natureza. E o fazemos, recorrendo à vários elementos fornecidos pelo documentário intitulado “a Capadócia nordestina” (cf. https://www.youtube.com/watch?v=_Fco6U3f-FU) que narra registros relevantes de uma das áreas privilegiadas do Semi-árido nordestino, mais precisamente o bioma da Caatinga.

Do mencionado documentário, tomamos a liberdade de realçar os seguintes aspectos, começando por um elemento informativo que avaliamos com certa desconfiança. Trata-se da indiscriminada expansão de parques eólicos por diversas áreas do nordeste. Tal como a panaceia das promessas de “emprego e renda”, despontam como deslumbrantes as promessas de implementação de “energia limpa”. Sob esta justificativa, tem-se usado e abusado, em prejuízo dos biomas e das populações locais. Com efeito, em diversas áreas do nordeste em razão de seu privilegiado potencial eólico, prosperam a todo vapor instalações de parques eólicos, principalmente de iniciativa privada, sem qualquer compromisso com a avaliação necessária de profundos impactos socioambientais causados por tais instalações. Sem diálogo nem debate prévios com as populações diretamente afetadas, eis que prepostos de empresas abordam pessoas prometendo-lhes vantagens (inclusive financeiras: um cheque de alguns milhares de reais, dependendo das condições da área), e fazendo-as assinarem autorização expressa para a instalação em seu território de equipamentos componentes do empreendimento de natureza eólica. Seduzidas por tais abordagens; um número crescente de famílias nordestinas, em situação de penúria,  se vêem assediadas por equipamentos e grupos que alteram significativamente o ritmo e a rotina destas áreas. Tardiamente se arrependem da concessão de autorização, enquanto as empresas celebram seus ganhos inestimáveis. (a este respeito, sem negar aspectos positivos relatados no documentário sobre “a Capadócia Nordestina”, recomendo o vídeo, acessando o seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=myXYwgfh7TM ) Aqui, mercado capitalista e Estado cooperam intimamente, como de costume. Enquanto governo e empresas propagam suas “meritórias” iniciativas, o ambiente e seus moradores amargam sua sorte...        

À parte esta ressalva, retomemos, agora sim, o ensaio de “re”encantamento de nossa condição humana, pela via da mãe natureza, destacando os seguintes traços:



  • A rica diversidade do bioma caatinga, tal como observável no semiárido do Piauí, a começar pelas formações rochosas, paredões estimados em cerca de 380 milhões de anos, verdadeira escultura desenhada pelo vento, expressando uma beleza semelhante à que se encontra em áreas da Capadócia (Turquia).

  • Nesta área correspondente a 2.500 campos de futebol, se acha um tesouro precioso de nossa riqueza paleontológica, a exibir impressões nas rochas de micro-organismos, a ajudarem a entender melhor nossas origens.

  • Outro ponto deslumbrante de se contemplar é a diversidade de nosso bioma.  Como lembrava Roberto Malvezzi (Gogó), em um de seus textos, é tocante contemplar a Caatinga: em tempos de estiagem, tudo nela parece morto, e, no entanto, ao menor contato com a chegada das chuvas, de repente ela se mostra pujante e de uma beleza rara, em sua notável diversidade de flora e fauna. Impossível não nos remetermos a alguns versos de bons repentistas nordestinos (https://www.youtube.com/watch?v=jU4EeuaS7n0)
  • Como não nos encantarmos com a rica paisagem desfrutada, no Piauí, reunindo numa mesma área manifestações de 4 diferentes biomas: o da Caatinga, o da Amazônia, o da Mata Atlântica e o dos Cerrado?
  • E o quê dizer da riqueza de fauna e flora e da beleza de quedas d’água limpídas, em nosso Semi-árido.
Quanto potencial a conferir em nosso semi-árido! Quantos e quantas de nós, nordestinos, temos tanto a conhecer e a desfrutar, em nossa região, e inexplicavelmente dela fazemos pouco caso, preferindo, não raramente, despender nossas parcas economias nas “Disneyslândias” da vida…

João Pessoa, 13 de Dezembro de 2017.  


       

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

POR UM NOVO LAICATO, RUMO A UM NOVO CONCÍLIO: ensaiando passos, ao nosso alcance


POR UM NOVO LAICATO, RUMO A UM NOVO CONCÍLIO: ensaiando passos, ao nosso alcance

Alder Júlio Ferreira Calado

Oportuna e relevante, a iniciativa da Igreja Católica no Brasil, de consagrar 2018 como o Ano do Laicato, recém-iniciado. Trata-se de um dos desafios eclesiais dos mais complexos e urgentes a serem adequadamente enfrentados, no quadro geral das profundas reformas estruturais, cada vez mais reclamadas por parcelas expressivas de membros da Igreja Católica, incentivados, aliás, pela ação renovadora a quem se vem dedicando o Bispo de Roma, por gestos escritos e pronunciamentos. O Concílio Vaticano II, em suas Constituições, Decretos e Declarações, já havia tocado nesta questão, ainda que muito levemente. Não é à-toa que, na Lumen Gentium a organização eclesial começa pelo capítulo dedicado, não à hierarquia (como costumava acontecer, em concílios precedentes), mas pelo “Povo de Deus”. A partir daí, é que vai destacando os vários segmentos componentes do povo de Deu, na Igreja Católica, e suas respectivas funções e áreas de atuação. Não se trata, portanto, de uma novidade, para os nossos dias, a não ser no que dia respeito a sua devida implementação, eis que, cinquenta anos passados, parece que as estruturas eclesiásticas, ou não mudaram quase nada, ou sofreram pouca alteração desde então.

Por outro lado, tendo em vista que o Vaticano II apenas aflorou tais desafios, isto deve ser entendido como um ponto de partida, e não como um objetivo satisfatório a ser alcançado. Do tempo do Vaticano II (1962-1965) para cá, muita água rolou debaixo da ponte, não apenas no tocante a conjuntura sócio-histórica internacional, como também no que diz respeito a compreensão da missão da Igreja como expressão e resultado de valiosas pesquisas teológicas, desenvolvidas desde então. Aqui vale destacar, não apenas as pesquisas no campo da Teologia da Libertação, como também as pesquisas resultantes no campo da Teologia Feminista, cujos protagonistas, sobretudo mulheres, talvez sejam os que mais avançaram no esforço de verdadeira renovação eclesial.



As linhas que seguem, brotam das inquietações de um cristão católico, de contribuir, modestamente que seja, junto aos grupos jovens de cristãos, na reflexão crítica sobre os atuais desafios, ao interno da Igreja Católica.
Cuidamos, então, de enunciar desafios urgentes a serem enfrentados, especialmente pelas Leigas e Leigos, no sentido de impulsionarem, desde baixo, profundas mudanças no processo organizativo da Igreja Católica. Desses desafios, destacamos apenas dois: o de reunirmos condições para a criação de uma Conferência Nacional dos Leigos e Leigas, bem como dar os primeiros passos rumo à construção processual de um novo Concílio, a ser organizado, desta vez, por todos os segmentos componentes da Igreja Católica.

    Rememorando critérios organizativos da Tradição de Jesus, à luz de textos neotestamentários e das comunidades cristãs dos primeiros séculos.


Revisitando textos neotestamentários - os Evangelhos, em especial -, temos dificuldade de justificar, de modo fundamentado em estudos históricos críticos exegéticos contemporâneos, a estrutura organizativa em vigor, na Igreja Católica (não só, aliás), sob vários aspectos. Por exemplo, tal como se acha institucionalmente organizada a Igreja Católica - de forma piramidal -, sentimos extrema dificuldade de entender a conformidade deste modelo com os critérios organizativos que presidiam ao estilo organizativo das primeiras comunidades, onde prevaleciam claras relações horizontais, entre seus componentes. Não se observa, por exemplo, uma linha divisória entre clero e leigos. Havia, sim, funções diferenciadas - mas complementares! -, conforme os carismas dos membros das comunidades, com explícito propósito de melhor servir ao bem comum, e não de instrumento de poder de uma casta sobre o conjunto dos demais membros. A clara linha divisória clero/leigos é, como se sabe, uma construção posterior, estabelecida, mantida e ampliada em função de um projeto de poder de uma casta sobre o conjunto dos demais sujeitos eclesiais. O próprio Jesus não se apresenta como um sacerdote convencional, mas, antes, como um leigo (isto é: como um “laikós” (membro do Laós, isto é, membro do Povo de Deus). Jesus era, também, percebido muito mais como uma liderança leiga. Teve até que encarar confrontos com os sacerdotes. E não foram poucos ou sem importância... Conflitos, inclusive, que acabaram resultando em sua condenação à morte de cruz, pelos grandes do seu tempo, inclusive pela casta sacerdotal. Mesmo tendo consciência de que também a vida organizativa comporta mudanças, ao longo de séculos, não é fácil justificar, com sólidos fundamentos, de que modo as estruturas de poder evoluíram da forma como hoje se apresentam... Destaquemos, de passagem, alguns pontos, a este respeito, por meio de alguns questionamentos:

    Que critérios fundamentais ajudavam a assegurar a horizontalidade reinante entre os membros das primeiras comunidades cristãs, respeitada a diversidade de carismas e funções, a bem do conjunto das próprias comunidades? Vale a pena conferir tais práticas, nos relatos evangélicos bem como nos Atos dos Apóstolos e nas cartas paulinas…


- Outro aspecto, que salta à vista (de quem tem olhos para ver!) é a quantidade de mulheres discípulas de Jesus e presentes nas cartas paulinas, algumas delas como organizadoras e animadoras de comunidades. Por que será que esses “detalhes” passaram (e ainda passam) ao largo das vistas de teólogos, e tivemos que esperar, durante séculos, a contribuição específica de teólogas, para nos darmos conta do viés androcêntrico dos exegetas oficiais? Olhar seletivo incidente, aliás, em diversas interpretações de tantos outros textos sagrados de outras religiões...


    É notória a posição discriminada ocupada pelas mulheres, em várias sociedades (e ainda hoje), inclusive no tempo de Jesus, em que não se podia sequer dirigir a palavra as mulheres. Mas, o quê fez Jesus? O que nos dizem, acerca disto, vários relatos evangélicos?

    Nos Evangelhos, por exemplo, como subestimar o papel de Maria Madalena, entre os apóstolos de Jesus? Donde, então, conformar-nos com o lugar ainda hoje destinado às mulheres, nas estruturas organizativas da(s) Igreja(s)? Como explicar que, quando se trata de a elas recorrer para assegurarem o cotidiano das atividades eclesiais, enquanto a elas é negado o direito de tomar decisões, ao lado dos homens, na vida eclesial?

    Nesta linha de compreensão, quê efeitos profundos teve, ao longo de séculos, uma cerca equiparação entre Reino de Deus e Igreja?

    Será que, ainda hoje, temos clareza quanto à necessidade e urgência de distinguirmos (ainda que sem separar) entre Reino de Deus, que Jesus veio anunciar e inaugurar, cuja referência é a humanidade, e, doutra parte, Igreja, que costuma ser entendida e exercitada numa dimensão auto-referenciada, como costuma alertar o Papa Francisco?

    E, ao longo de séculos - principalmente a partir da era constantiniana -, que estratégias foram utilizadas pela hierarquia, quer de caráter teológico, litúrgico, disciplinar…, para distanciar-se do conjunto dos demais membros da Igreja, buscando monopolizar as decisões, sempre tomadas, de acordo com seus seus interesses de casta, nem sempre com amparo nos textos fundantes?     



  2. Contribuições do Concílio Vaticano II quanto ao reconhecimento dos Leigos e Leigas como sujeitos eclesiais.

   

O  Concílio Vaticano II (1962-1965) constituiu um reconhecido esforço de renovação pastoral da Igreja Católica Romana. De fato, várias questões de cunho renovador aí tiveram lugar. Isto pode ser atestado por vários de seus dezesseis documentos, a partir de suas quatro Constituições. Muitos o avaliam como uma primavera para a Igreja, tomando em consideração alguns avanços dele decorrentes. Graças à densa contribuição de teólogos tais como Yves Congar, Jean Danielou, Henri de Lubac, Chenu, Edward Schllebecxks, Karl Rahner,  Hans Küng, importantes ganhos do Vaticano II  podem ser evocados por meio de palavras-chave tais como: “Refontização”, “Povo de Deus”, “Aggiornamento”, "Colegialidade", “Diálogo”, “Autonomia das realidades terrestres”, “Ecumenismo”, “Missão”...

Houve, com efeito, um sopro renovador, buscando inclusive dialogar com a modernidade. Ainda que, em tom menor, aí se observou inclusive um pequeno ensaio de atenção à causa dos pobres (cf. Lumen Gentium, n.8), embora este aspecto tenha sido aprofundado apenas a partir da conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín, em 1968.  Antes disto, todavia, convém lembrar o impulso que até sobre Medellín teve a realização, no final do Vaticano II, mas um tanto à margem dele, a realização em Roma, do Pacto das Catacumbas, celebração protagonizada por quarenta bispos, na Catacumba de Santa Domitila, nos aredores de Roma, em 16 de dezembro de 1965, cujo documento final é um compromisso dos signatários com a causa dos pobres, pela via de sua própria conversão a um estilo de vida parecido com o dos pobres.

   Sucede, porém, que poucas dessas decisões prosperaram a contento, eis que a onda reacionária (instalada desde a realização do Concílio) foi progressivamente ganhando força, nas instâncias decisórias da Igreja, acabando por interromper tal processo, durante décadas, sendo apenas recentemente retomado pela figura profética do atual Bispo de Roma. O Papa Francisco, com efeito, em seus escritos e pronunciamento tem buscado impulsionar importantes reformas interrompidas. Uma delas é a busca de retomar o que, na Lumen Gentium, se diz acerca do povo de Deus como protagonista do processo de reorganização das estruturas eclesiais, o que renova a esperança de reconhecimento do papel do Laicato como um dos sujeitos eclesiais, nos processos de tomada de decisão.    

Não obstante a impetuosa irrupção de Medellín, pela via da opção pelos pobres, é fato que, uma década depois, começou um longo período de impasses e retrocessos, graças à reviravolta provocada pelos pontificados de João Paulo II (1979) e Bento XVI (2005), durante o qual a chamada Ireja na Base sofreu tremendos atos de punição e bloqueio, o que significou um duro golpe também para o protagonismo dos Leigos e das Leias.   

Ainda em meados dos anos 90, em escala mundial, e a partir da Áustria, foram sendo criados grupos e movimentos de Leigos e Leigas (também de outros segmentos eclesiais, como o das Religiosas dos Estados Unidos (CLWR) e algumas associações de presbíteros, buscando clamar por urgentes reformas na Igreja. Mais recentemente, esses grupos - com representação também no Brasil -, por ocasião da celebração dos 600 Anos da Reforma luterana, promoveram manifestações em cerca de vinte países, em distintos continentes, para clamarem por urgentes reformas das estruturas eclesiais, inclusive em apoio ao Bispo de Roma. Dentre os principais pontos reclamados nas referidas manifestações, constavam: "Mais Evangelho, menos Direito Canônico"; participação democrática de todos os segmentos eclesiais nas decisões; reconhecimento do direito das mulheres, de participarem nas decisões das instâncias eclesiais, ao lado dos homens; reconhecimento da legitimidade das mulheres vocacionadas aos diversos serviços e ministérios eclesiais (ordenados e não-ordenados); liberdade de escolha, por parte dos ministros ordenados, quanto ao seu estado civil, no exercício de seu ministério; Ecumenismo pela base, antes que em cima de formulações doutrinárias...  Sobre tais manifestações, já tivemos oportunidade de nos pronunciar (ver, por ex., Textos De Alder Calado).

3. Em busca de condições favoráveis, para a criação de uma Conferência Nacional de Leigos e Leigas.



Em consequência do critério de horizontalidade, que buscamos restabelecer, como um critério evangélico de nossa igualade fraterna, tão bem expressa pela nossa condição de Batizados ("sacerdote, profeta e rei") ou em cumprimento da saudável diversidade de carismas - sem uma necessária vinculação hierárquica, mas antes com base na primazia do servir e não do mandar, algo tão bem claro na lista de carismas expressos em 1 Cor 7, por ex. E, no que diz respeito ao servir, isto fica ainda mais explícito, em Mc 10, 42-45. O mundo se organiza assim - uns tiranizando os outros -, mas entre vocês, não seja assim - eis o núcleo da Boa Nova de Jesus. Trata-se de um paradigma a inspirar nossas práticas e concepções, em todas as esferas da vida cristã. Por que na esfera organizativa da Igreja, deveria ser diferente? Onde é que se encontra suporte definitivo e constante, para se aferir que os diversos segmentos da Igreja Católica devem organizar-se piramidalmente, como vem acontecendo? Se nossa Instituição se compõe de segmentos de ordenados, de Religiosos e Religiosas e de Leigas e Leigos, o que nos impede, do ponto de vista do Evangelho, dos textos neotestamentários e da Tradição de Jesus, de nos organizarmos horizontalmente, como irmãos e irmãs, conforme os carismas recebidos por cada segmento, conferindo uma rica diversidade de carismas, na unidade do Espírito Santo, e a serviço do Povo de Deus? É claro que isto não se faz, a curto prazo, graças a um suposto golpe de voluntarismo, mas de forma processual. Não menos é certo que se, em vez da Tradição de Jesus, formos tomar como base exclusiva o Código de Direito Canônico, isto se torna quase inviável, uma vez que Código de Direito Canônico reflete a lógica característica de uma Igreja organizada como uma pirâmide: Papa, Cúria, Dioceses, Paróquias... E cada uma dessas instâncias é regida por prepostos apenas do segmento ordenado, sem a participação nas decisões dos demais segmentos, em especial sem a participação das Leigas e dos Leigos, que, curiosamente, constituem a imensa maioria do Povo de Deus. Como, então, justificar tal privilégio do segmento ordenado, com base nos textos neotestamentários, no núcleo do Evangelho, na Tradição de Jesus? Não se trata de negar ou de subestimar os carismas dos componentes de um segmento - no caso o dos ordenados, todos homens! -, mas de assegurar a todos os segmentos componentes da Igreja Católica o reconhecimento de todos contam com a inspiração e assistência do Espírito Santo, também quanto ao processo de tomada de decisões. Em que isto fere o espírito do Evangelho? Em que isto se afasta da Tradição de Jesus? Em verdade, o que se afasta da Tradição de Jesus, é a forma de organização em vigor.

A este respeito, tem sido muito cara ao atual Bispo de Roma a intuição de que não é a pirâmide, mas antes o poliedro, o que deveria caracterizar a forma de organização eclesial. Enquanto a pirâmide se organiza em cima de camadas superpostas, o poliedro permite a saudável convivência da diversidade, representada pelas tantas superfícies desta figura geométrica, ao mesmo tempo em que toda essa rica diversidade se acha conectada, unida no próprio poliedro, tomado como um todo.

Como acima referido, o Concílio Vaticano II deu passos importantes, ainda que insuficientes, tendo em vista da realidade de hoje, mais de cinquenta anos após, em relação ao reconhecimento do papel do Laicado na Igreja. Disto dão testemunho alguns de seus documentos, em especial a Constituição Lumen Gentium, o Decreto Apostolicam Actuositatem e o Decreto Ad Gentes. Na Lumen Gentium, e mais especificamente no capítulo relativo ao povo de Deus, os leigos figuram como um dos 3 principais segmentos componentes da Igreja. Com relação especificamente ao Laicado, os Leigos e as Leigas são definidos como parte integrante dos sujeitos eclesiais, em função de sua vocação apostólica e missionária, a chamado do próprio Espírito Santo, em diálogo com os demais segmentos, cada um em sua especificidade, mas a todos conjuntamente cabendo responsabilidades pelo apostolado e pela missão. Os Leigos e Leigas aparecem igualmente, no Decreto Apostolicam Actuositatem, em que figuram como protagonistas vocacionados a contribuírem tanto no terreno da Igreja, quanto no terreno do mundo, dada sua tríplice vocação de “Sacerdote, profeta e rei”, por todas recebida por ocasião do batismo. No Decreto Ad Gentes, os Leigos e as Leigas são definidos como co-participantes da ação missionária no mundo, múnus para o qual devem contar com formação específica, reconhecimento explícito de seu papel na ação missionária, bem como reconhecimento de agentes missionários tão importantes quanto os demais segmentos.

Ao revisitarmos atentamente estes e outros documentos do Concílio Vaticano II e do Magistério Eclesial, ao mesmo tempo em que constatamos o reconhecimento explícito da missão dos Leigos e Leigas como componentes de um segmento da Igreja, também observamos que o assento mais forte recai no papel dos Leigos e Leigas de atuarem no mundo secular, ainda que também se reconheça sua missão “ad intra”. Daí também perceber-se uma velada subordinação de sua atuação às decisões especialmente do Clero, mais particularmente do segmento episcopal. De lá para cá, temos observado mudanças significativas nos vários segmentos, inclusive por força de uma melhor compreensão dos textos fundantes do Cristianismo e da Tradição de Jesus, graças também ao avanço de pesquisas teológicas, neste horizonte. Por outro lado, o segmento específico do Laicado tem apresentado sensíveis avanços, na compreensão e na busca generosa de responderem, cada vez melhor aos apelos do espírito santo, frente aos atuais desafios da Igreja e do mundo. Neste sentido, descobrem que, se até aqui, sua missão tem sido mais centrada no horizonte secular (vem assim acontecendo desde a Ação Católica Especializada - Jac, Jec, Jic, Joc e Juc), hoje os desafios eclesiais parecem, cada vez mais, necessitar da conjugação mais orgânica dos Leigos e Leigas, tanto em sua atuação no mundo, quanto ao interno da Igreja.

Não se trata de qualquer pretensão de disputa de poder (aqui parece bem entendido a mensagem explicitada, em Mc 10, 42-45), mas de sua contribuição específica, juntamente com os demais segmentos da Igreja, no processo de reformas urgentes das estruturas eclesiásticas. É assim que se faz conveniente o aprofundamento da reflexão em torno da oportunidade e da relevância de o laicato, a exemplo do que já acontece em relação aos Bispos e aos Religiosos e Religiosas, se constituir também enquanto uma conferência Nacional dos Leigos e Leigas, como o objetivo de participarem, junto com os demais segmentos, dos processos decisórias, nas diversas instâncias eclesiais. Daí a necessidade de se criarem as condições necessárias a tal iniciativa, a curto e médio prazos.


4. Passos em direção a um novo Concílio.

Como instituição feita de santos e pecadores, a Igreja é chamada a converter-se, incessamente. Deve estar sempre disposta a renovar-se: "Ecclesia semper reformanda est." Em seu percurso histórico, isto costuma dar-se por meio de sínodos e concílios. "Sínodo", aliás, já desde sua etimologia, é um belo convite a um contínuo caminhar juntos. Nesse sentido, a Igreja é chamada a ser, toda ela, sinodal, conciliar. Por isto mesmo, teve que realizar, ao longo do seu caminhar, mais de vinte concílios, tendo sido o mais recente deles o Concílio Vaticano II, realizado quase um século depois do Concílio Vaticano I, que se tornou conhecido, entre outros elementos, por haver pretendido definir a suposta infalibilidade do Papa, razão por que, a justo título, o Concílio Vaticano II buscou ser um concílio pastoral, não tanto um concílio definidor de doutrinas. Muitos foram, com efeito, os ganhos do Vaticano II, que tentamos acima destacar. Ao lado, porém, de reconhecidos ganhos, também é preciso perceber seus limites. Limites não apenas daquela edição concilar, mas, antes, correspondentes mesmo aos limites de alcance dos concílios, em geral.

O Concílio Vaticano II reuniu em torno de 2.500 bispos, vindos a Roma, de todos os continentes, com a missão de repensar o caminhar pastoral da Igreja, decidindo formas de renovação, especialmente de caráter pastoral. Por outro lado, a fim de nos darmos conta de alguns de seus limites, seguem alguns questionamentos:

- Ainda que consiga reunir todos os Bispos católicos do mundo inteiro, trata-se, ao fim e ao cabo, de um único segmento eclesial. Até que ponto este critério é suficiente para tomar as grandes decisões da Igreja, sem a participação também dos demais segmentos, com direito a voz e a voto?

- Sendo a Igreja composta por três segmentos de seus membros, e sendo apenas um único a tomar as decisões, e considerando que o segmento episcopal, não apenas não se faz acompanhar de dois outros componentes do mesmo segmento - os presbíteros e os diáconos -, como também o componente episcopal é formado apenas de homens, onde ficam as mulheres?

- O sentido de "Colegialidade", presente no Decreto Christus Dominus (n. 4), que trata do ministério dos Bispos, por que não pode contemplar também os demais segmentos?

- Ao enfrentar os grandes desafios de hoje, na Igreja e fora dela, quem melhor dá conta de fazê-los: apenas o segmento episcopal ou também os demais segmentos, tendo a seu favor a densa experiência de Leigos e Leigas, nas mais diversas esferas da realiade, dada sua condição de cidadãos e cidadãs do Reino de Deus, comprometidos com a superação dos desafios, não apenas fora dos espaços eclesiais, mas também os desafios internos à Igreja?

- No campo da Doutrina Social da Igreja, por exemplo, uma das críticas que, por vezes, se levantam, é que, em matéria de realidade social, em sua complexidade e vastidão, quem, pela própria formação, se acha melhor habilitado a analisar: o Papa, os Bispos ou os Leigos e Leigas?

As indagações podem multiplicar-se. Limitamo-nos a estas poucas, a título de aperitivo. A par disto, importa, também, ousar alguns passos nessa direção, a curto e médio prazos. Sabemosque o clamor pela realização de um novo Concílio não vem de hoje. Já nos anos 1990, se ouviam vozes proféticas, nesta direção. Lembro-me, por exemplo, do entusiasmo de Dom Antônio Batista Fragoso, Bispo de Crateús - CE, a mobilizar-se e a incentivar que outros também o fizessem. Ainda não se cogitava, todavia, que tipo de Concílio, mas já era um grito a ser ouvido...

De todos os modos, os concílios começam sempre de uma primeira iniciativa, antes mesmo da convocação. Alguns, nesse sentido, já se ensaiam, molecularmente. Um deles é o tentado por alguns grupos e movimentos de católicos e católicas, engajados em promover o Fóeum do Povo de Deus,cuja segunda edição está prevista a realizar-se em Aparecida, no Brasil, em novembro de 2018. Outros passos vão se desenhando, mundo a fora. São pequenos afluentes que vão acumulando água, até tomar força suficiente para desaguar num grande rio...


5. Considerações sinópticas

Como acima dito, o propósito destes apontamentos é menos de caráter acadêmico, e mais uma iniciativa de um cristão católico, em busca de contribuir, modestamente que seja, com a reflexão sobre os atuais desafios eclesiais, principalmente junto às comunidades e grupos de jovens. Os avanços conseguidos pelo Concílio Vaticano II, ainda que tivessem sido implementados, já não atendem satisfatoriamente às necessidades do novo contexto sócioeclesial. Se, ao tempo do Vaticano II, já não se tratava de uma organização eclesial centrada apenas no segmento clerical ou hierárquico, nos dias atuais isto se torna motivo de um clamor generalizado por mudança, de modo a distribuir mais equitativamente as responsabilidades e decisões por entre os vários sujeitos eclesiais - segmento clerical, segmento religioso e segmento leigo. Já não se concebe que apenas os bispos monopolizem as decisões do conjunto dos membros da Igreja. Ante tantos desafios, muitos dos quais da lide direta dos leigos, já não faz sentido que as decisões sejam tomadas apenas por um segmento, tanto mais que se trata apenas de homens, quando a enorme maioria dos membros da Igreja é formada pelos Leigos e Leigas, sendo estas a maior parte. Daí a necessidade de envidar esforços para uma justa divisão de responsabilidades, por meio, por exemplo, da criação, a médio prazo, de uma Conferência Nacional dos Leigos e Leigas.
Para além da escala nacional, importa igualmente dar os primeiros passos em direção a criar condições favoráveis rumo a convocação de um novo Concílio, a ser organizado sob novos critérios, com ampla participação de delegações dos três segmentos eclesiais, de modo a buscar deliberar sobre medidas capazes de enfrentar velhos e novos desafios, tais como redesenhar/contextualizar o ministério petrino (o Papado),
superar o caráter burocrático das estruturas eclesiásticas, a exemplo da Cúria Romana; redimensionar as responsabilidades pastorais dos bispos, de maneira a enfrentar a crescente tendência administrativa; rever critérios de escolha e transferência de bispos; investir os Leigos e as Leigas de responsabilidades, não apenas seculares, mas também ao interno da Igreja, conforme seus dons e carismas; sobretudo reavivar o compromisso da Igreja com a causa libertária do povo dos pobres.

João Pessoa, 12 de dezembro

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

EDUCAÇÃO POPULAR COMO PRÁXIS NAS PRÁTICAS PASTORAIS DA IGREJA CATÓLICA, NA ARQUIDIOCESE DA PARAÍBA (1966-1985): registros de memória acerca da sessão de exame de tese apresentada por Vanderlan Paulo de Oliveira Pereira, ao PPGE/UFPB, em 24/11/2017

EDUCAÇÃO POPULAR COMO PRÁXIS NAS PRÁTICAS PASTORAIS DA IGREJA CATÓLICA, NA ARQUIDIOCESE DA PARAÍBA (1966-1985): registros de memória acerca da sessão de exame de tese apresentada por Vanderlan Paulo de Oliveira Pereira, ao PPGE/UFPB, em 24/11/2017

Alder Júlio Ferreira Calado

A convite de Vanderlan Paulo de Oliveira Pereira, comparecemos, na sexta-feira p.p., à tarde, à Sala Multimídia do CCSA/UFPB, para a densa sessão de apresentação e avaliação de sua Tese de Doutorado, pelo Programa de Pós-graduação em Educação, da UFPB, sob a Orientação do Prof. Afonso Scocuglia, e com a avaliação dos membros da Banca Examinadora composta pelo Prof. Romero Venâncio Júnior (Filosofia, UFSE), Prof. Paulo Giovani Antonino Nunes (História, UFPB), Prof. Luiz Gonzaga Gonçalves (Educação/UFPB) e Severino Silva (Educação/UFPB).

De que trata a pesquisa realizada por Vanderlan Paulo de Oliveira Pereira? Cuida de apontar e de analisar de que modo a Educação Popular se acha presente nas práticas pastorais da Arquidiocese da Paraíba (é o nome oficial da Arquidiocese sediada em João Pessoa - PB), no período compreendido entre 1966 e 1985. O início deste período coincide com a chegada à Arquidiocese da Paraíba, para assumir suas funções de arcebispo, de Dom José Maria Pires (1966-1995), enquanto o ano de 1985 marca o final do período da ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985). Sua pesquisa versa, portanto, sobre o que se passou, neste período, na citada Arquidiocese, no tocante a práticas pastorais portadoras, de alguma maneira, de Educação Popular, não apenas no que concerne a práticas efetivas, como também em relação à visão de Educação Popular então circulante, na área e no período estudados.

Com o propósito de compartilhar com muita gente desejosa de uma notícia sobre o trabalho apresentado por Vanderlan, empenho-me a seguir, em fazer, de memória (falha!), registros do que me foi possível entender, de imediato.

O tema da tese é algo recorrente, na trajetória do autor. Desde sua graduação (História), tem perseguido temas semelhantes. Desta vez, escolheu focar a Educação Popular como práxis da dinâmica pastoral da Igreja Católica, na Arquidiocese da Paraíba, durante o período da ditadura civil-militar. A partir de 1966, apenas um ano após o encerramento do Concílio Vaticano II (1962-1965), começou a pairar, com crescente força, um espírito de renovação pastoral. O novo arcebispo, que havia participado de todas as sessões conciliares, empenhava-se em fazer ressoar, junto aos fiéis de então, as conclusões do Vaticano II. Cercou-se, para tanto, de uma equipe de assessores e assessoras de reconhecido compromisso social e competência técnica. Entre tais figuras, constam nomes de leigos e leigas (Dona Anunciada, Isaac, Genaro e Gláucia Ieno, apenas para mencionar 4 nomes), de religiosos (Frei Hermano, Frei Anastácio, Padre Carlos Avanzi, Dario Vaona…) e religiosas (Irmã Agostinha, Irmã Almeidinha, Irmã Marlene, Irmã Tonny, Irmã Diane...), bem como de padres (Padre Everaldo Peixoto, Padre Alfredinho Barbosa, Padre José Comblin, Padre João Maria Cauchi, Padre Luiz Couto…), além de figuras tais como Vanderlei Caixe, dentre tantas outras. Tratava-se de agentes de pastoral envolvidos na animação de densas experiências pastorais, inspiradas no espírito de renovação pastoral, não apenas do Vaticano II, mas sobretudo no espírito da Conferência Episcopal de Medellín (1968):

  • Igreja Viva, fecunda iniciativa de evangelização espalhada por várias comunidades rurais e urbanas da Arquidiocese, nas quais os círculos bíblicos constituíam uma valiosa forma de trabalho organizativo e formativo, em mutirão;
  • - Equipe de Promoção Humana, a desenvolver atividades de solidariedade às vítimas de opressão;
  • - Pastoral da Mulher: com ousadas iniciativas de apoio e promoção humana, junto às vítimas de prostituição;
  • - Pastoral da Terra (aqui funcionando, como no âmbito do Nordeste II, como Pastoral Rural): até hoje, uma das mais combativas e comprometidas equipes de acompanhamento e solidariedade aos trabalhadores e trabalhadoras do campo;
  • - Centro de Defesa de Direitos Humanos: uma das marcas fortes da atuação pastoral da Arquidiocese da Paraíba, com repercussão em várias outras dioceses do Regional Nordeste II (inclusive na Diocese de Pesqueira - PE);
  • - as Pequenas Comunidades de Religiosas Inseridas no Meio Popular - as PCIs, talvez a presença mais enraizante junto ao povo dos pobres, com reconhecida incidência missionária e educativa, na perspectiva da Educação Popular;
  • - o Seminário Rural (1981-1982), seguido pelo Centro de Formação Missionária - CFM, em Serra Redonda (várias outras experiências de inspiração na pedagogia comblinina tiveram lugar, após o período estudado)... Importa ter presente que estas são apenas algumas ilustrações de experiências pastorais e missionárias de grande alcance também no terreno da Educação Popular, neste período e para além dele.

O propósito da pesquisa foi o de indicar, nessas experiências qual a Educação Popular subjacente. E o resultado é alvissareiro, pelo menos com relação à Educação Popular, de referÊncia Freireana. Pelo autor foram apontados diversos sinais de uma práxis de Educação Popular. Tratava-se, em grande medida, de práticas e concepções pastorais vividas sob a égide da horizontalidade dos participantes: não havia lugar para o mandonismo, para as imposições hierárquicas; antes, apostava-se no diálogo entre irmãos e irmãs. Não era à-toa que as comunidades costumavam reunir-se em forma de círculos.

Outro aspecto a ressaltar, na forma de organização e de formação de tais experiências, prende-se ao reconhecido grau de compromisso dos participantes com a causa libertadora dos empobrecidos, bem como o enraizamento no tecido comunitário de atuar, especialmente em tempos de cruel perseguição de não poucos desses agentes, pelo regime ditatorial.

Tratou-se de um período enormemente fecundo, mesmo numa conjuntura tenebrosa, chamando a atenção pelos bons frutos formativos então recolhidos. A essas práticas pastorais estava vinculada uma práxis educativa libertadora, numa perspectiva freireana, caracterizada pela horizontalidade dos participantes, pela tomada de decisões de baixo para cima, pelo protagonismo do conjunto de participantes, pelo compromisso com a causa dos oprimidos, pela mística revolucionária, pela forte ação comunitária, entre outras marcas.

Vários pontos de avaliação do trabalho foram compartilhados por cada um dos Examinadores e pelo Orientador. Aqui destacamos apenas o seguintes:
- Trata-se de uma pesquisa que encerra densa contribuição a ser compartilhada, para além da Academia;
- O Autor analisa com base num referencial teórico, conjugando autores de referência da Educação Popular com autores de referência no campo da História;
- Recorre a diversos instrumentos de pesquisa, inclusive fotografias especiais e entrevistas com agentes de Pastoral e outros, de reconhecido conhecimento e contribuição;
- Sugeriu-se, ao final, a organização de um seminário com um público mais amplo, para aprofundar o debate trazido pelo autor.

João Pessoa, 27 de Novembro de 2017.       



terça-feira, 21 de novembro de 2017

TODO UM MUNDO A REFAZER! QUE TAL A PARTIR DE NÓS, COM PASSOS MOLECULARES?

TODO UM MUNDO A REFAZER! QUE TAL A PARTIR DE NÓS, COM PASSOS MOLECULARES?

Alder Júlio Ferreira Calado

De tanto "dar murro em ponta de faca", acabamos aprendendo vias alternativas de lidar, com relativa eficácia, com os desafios que se nos interpõem, no percurso existencial. Dialogando e aprendendo com a longa experiência humana de caminhada multissecular, compartilhando ensinamentos de nossos bons clássicos - mulheres e homens -, vamos descobrindo veredas alternativas por onde seguir empreendendo nossa caminhada. Nas linhas que seguem, destaco um desses tantos aprendizados: o de nos dotarmos de instrumentos mais aprimorados de lidar com o sistema de morte - o modo de produção capitalista - que nos rodeia... e que também acaba alojando-se, sob vários aspectos, em nós próprios, sem que nos demos conta objetivamente. Mesmo dizendo combatê-lo, acabamos, não raramente, por ele fascinados, sob tantos aspectos. Destaquemos, de passagem, alguns desses aspectos da múltipla influência que o Capitalismo exerce em nosso dia-a-dia, seja do ponto de vista de sua macropolítica, seja - o que é pior - do ponto de vista de seus valores necrófilos.

Efeitos ilustrativos da necrófila influência macropolítica sobre nosso dia-a-dia...

Tardios e contumazes em nossos hábitos, não levamos a sério os inconfundíveis sinais que o modo de produção, o modo de consumo e o modo de gestão societal capitalista tem sobre nós. Mesmo conscientes - como parte expressiva da esquerda dos anos 60, por exemplo, da orgânica relação entre Mercado capitalista e Estado, nunca fomos suficientemente capazes de romper, NA PRÁTICA, com nossa enganosa aposta em que, desde que entrando em sua engrenagem, saberíamos, não apenas neutralizar, mas revertê-la em proveito das classes populares, convictos de que, acessando suas entranhas, seríamos capazes de controlá-las, em benefício do conjunto dos cidadãos e cidadãs, em especial dos desvalidos.... Ledo engano! Isto não quer dizer que a empreitada não tivesse surtido alguns efeitos positivos. Não nos cansamos de reconhecer um leque de conquistas arrancadas, nos governos que François Houtart chama, com propriedade, de "pós-neoliberais". Não há negar conquistas em várias políticas sociais. O grande problema desponta, quando minimamente analisamos tais conquistas, comparando-as com as benesses extravagantes concedidas ao grande capital. Ao ousarmos tal comparação, verificamos que as tais conquistas favoráveis às camadas populares mais vulneráveis representam migalhas do bolo orçamentário. E, pior, obtidas por vias ético-políticas claramente reprováveis: desbragado aliancismo com toda sorte de partido e de figuras explicitamente comprometidas com os interesses mais espúrios, inclusive, tendo-os como companheiros de chapa, e recorrendo a estratégias que sempre repudiamos e combatemos abertamente, pela sua perversão ética. Os frutos dessa trágica escolha restam sobejamente conhecidos e amargados...

Refrescando nossa memória dos anos 60 e 70, o quê dizíamos sobre os mesmos descaminhos que acabamos inadvertidamente assumindo? Apoiados em bons clássicos, companheiros de nosso processo formativo - vêm-me à lembrança textos mimeografados que traballhávamos em nossas reuniões de JOC, AP, a poucos dias da decretação do famigerado AI-5 -, tomávamos consciência da natureza do Estado, de sua radical incompatibilidade com os interesses fundamentais de uma sociedade alternativa. E os exemplos eram convincentes, a ponto de nutrirmos uma entranhada desconfiança quanto aos profundos riscos de concentrar o melhor de nossas energias transformadoras nas instâncias estatais. Influenciados cada vez mais pela sedução dos "atalhos eleitoreiros", fomos progressivamente cedendo terreno, até dedicar o melhor de nossas energias criativas (in)justamente nas instâncias governamentais...

E hoje, meio século depois, com que cenário nos deparamos? Destaquemos apenas alguns de seus aspectos mais relevantes, para fins de ilustração didática. E o fazemos, mediante uma sequência de questionamentos:

= Sem ignorar significativas alterações conjunturais, ao longo desses últimos cinquenta anos, teria o Estado capitalista passado por mudanças profundas, no tocante ao seu lugar relevante (ao lado do Mercado), no modo de produção capitalista, a ponto de desautorizar o essencial de seu papel, tal qual avaliado, nos anos 60?

= Neste transcurso de meio século, que políticas governamentais relevantes foram implementadas, não apenas sem o aval do Mercado, mas sobretudo contra seus interesses de classe?

= No tocante a ganhos obtidos para expressivas parcelas das camadas populares, tratou-se de conquistas efetivas, obtidas graças às lutas dos movimentos populares e das organizações de base de nossa sociedade, ou, antes, a estratégias de enormes concessões ao grande capital, especialmente ao seu segmento mais socialmente parasitário?

= Tomemos alguns casos concretos, relativos às políticas estatais consideradas socialmente mais representativas dos interesses e prioridades das classes populares, o que concretamente se passou?

= Por exemplo, na área da saúde, a despeito de órgãos estatais específicos, quem de fato concebe, impõe que o Estado implemente, e, além disto, acaba controlando? As grandes corporações transnacionais operando nas mais diversas áreas da saúde!

= Tendo presente o interesse que move os negócios no campo da saúde, o que daí se pode esperar, em termos de efetivo cuidado da saúde popular?

= Entre auferir abusivas margens de lucro e beneficiar a saúde pública, há alguma dúvida sobre a escolha feita pelas grandes transnacionais atuando na área da saúde?

= Em última instância ao lado de quem - do grande capital ou da saúde popular - se coloca o Estado a serviço, por meio de suas instâncias competentes?

= Por que razão as terapias naturalista, quando não rejeitadas sumariamente, enfrentam tanta resistência, seja por parte do Mercado, seja por parte do Estado, para serem exercitadas?  

= Fundamentalmente, de que cuidam os serviços de saúde sobre o controle do Mercado e do Estado: da saúde ou de doenças?

As perguntas poderíamos multiplicar à saciedade…

Acrescentemos mais um exemplo ilustrativo, o da Educação.Também aqui, vale a pena perguntar:

= Será um acaso a crescente atuação das grandes corporações transnacionais no sistema de ensino, especialmente do Ensino Superior?

= Da Educação Infantil à Pós-Graduação, sob crescente influência do Mercado Capitalista, o que cabe ao Estado, senão controlar o sistema educativo na perspectiva do sistema imperante?

= Quem, senão as forças sociais grávidas de alternatividade, é capaz de assegurar um processo formativo contínuo, em busca de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal?  

Efeitos ilustrativos da necrófila influência nos micro-espaços do nosso dia-a-dia  

Nunca antes como nos tempos atuais, um modo de produção alcançou tal nível de globalização como o Capitalismo. Isto, é claro, tem consequências profundas, a começar pela inédita extensão de sua ação material e imaterial. Há que se entendê-lo como uma totalidade, a envolver todas as esferas da realidade, em escala global, ainda que de modo diferenciado, conforme a aplicação de sua dinâmica em distintas regiões. Nesse sentido, não basta reconhecer apenas a complexidade e a extensão de o alcance macropolítico de sua economia, mas igualmente - e talvez ainda com mais intensidade - de sua ação imaterial, de sua grade de valores. Em se tratando de um sistema complexo, sua própria base material se consolida, graças à sua capacidade de criar toda sorte de necessidades, inclusive e sobretudo as que se destinam a satisfazer o mundo dos sonhos e fantasias, mola-mestra do império do consumismo. Neste terreno, defrontamo-nos, mais do que com um modo de produção, deparamo-nos com um sofisticado modo de consumo, complementado por um modo de gestão societal. É no domínio do consumo, que inserimos nossas mais fortes inquietações com relação à gigantesca influência que este sistema exerce, não apenas sobre os setores menos conscientes da sociedade: também sobre amplas parcelas de nossas organizações de base. E isto é fatal para nossas pretensões de construção de condições indutoras de uma nova sociedade, alternativa à barbárie capitalista. A seguir, compartilhamos, em forma de questionamento, algumas de nossas inquietações.

Em torno da força e o fascínio da grade de valores capitalistas sobre nossas subjetividades

= A relacionalidade (o gostoso hábito da convivência fraterna, cf. por ex., o expresso no Sl 133) constitui a mais fecunda via de lidarmos com nossa condição humana de seres limitados, inacabados, inclusive no que se refere à avidez de poder, individualismo, imposição de decisões e práticas correlatas. Cercados de inúmeros apelos cotidianos, pela mídia, pela propaganda, pelas redes sociais, etc., de consumismo, das sedutoras chamadas de idolatria do ter, do poder, do prestígio... até que ponto nos damos conta do quanto ingerimos, incorporamos e reproduzimos desses valores, objetivamente?

= Eu/nós criticamos, com razão, os hábitos alimentares hegemônicos. Mas, de quê mesmo nos alimentamos, no dia-a-dia?

= Combatemos, com veemência - e isto é praxe em tantos ambientes: laborais, acadêmicos, sindicais, populares, eclesiais... - as atitudes antidemocráticas (decisões de cúpula, apropriação/privatização de bens e espaços públicos, continuísmo à frente de cargos e funções, etc. -, mas, será que eu/nós mesmos damos testemunho convincente disto?
Reconhecemos constituir sério desafio, mesmo para quem se empenha em combater o Capitalismo, eximir-se dos graves riscos de sucumbir aos seus apelos sedutores.


=  A tendência a naturalização da introjeção de valores necrófilos, no chão do dia-a-dia constitui um fato frequente. Quantas vezes, não nos sentimos tentados, diante de tantos contra testemunhos, a “jogar a toalha”, a deixar para lá, acomodamo-nos - ou, o que é pior: naturalizamos - a situação em voga?

É possível resistir e contrapor a esta onda necrófila ações moleculares alternativas?

Consola-nos, porém, saber que há quem não se deixe sucumbir a tal naturalização. Há quem se indigne diante da normose coletiva e individual, que nos acovarda e imobiliza frente à crescente tendência à burocratização da vida. Nas “correntezas subterrâneas”, respiramos ares alternativos, que nos encorajam a romper a síndrome da normose que ameaça imperar até em pessoas e grupos de relativa consciência social. Há, sim, pessoas e grupos que, a despeito, de suas limitações, buscam uma convivência alternativa, no que está ao seu alcance, investindo num projeto de vida em plenitude, isto é, com Liberdade. Todos somos chamados à Liberdade, mas constatamos, com tristeza, que há quem resista a este chamado. Em certo sentido, aqui e ali, todos podemos experimentar tal inclinação, mas a ela podemos resistir, a partir de passos moleculares, na busca da Liberdade. Em boa medida, isto depende de nós. Qual será nossa escolha?

João Pessoa, 21 de novembro de 2017.       

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A VIDA COMO UM CONTÍNUO MOVIMENTO DE RENOVAÇÃO: considerações em torno de “o voo da águia”

A VIDA COMO UM CONTÍNUO MOVIMENTO DE RENOVAÇÃO: considerações em torno de “o voo da águia”

Alder Júlio Ferreira Calado

Pela segunda vez, em menos de sessenta dias, foi-me dada a oportunidade de participar da reflexão em torno de uma conhecida narrativa - “o voo da águia”.

Estima-se em cerca de 70 anos a longevidade da águia. Tal longevidade, porém, não lhe vem gratuitamente. A certa altura da vida em razão de fatores altamente limitantes, ela tem que tomar uma decisão crucial: ou não mais suportando seus próprios limites, aceita morrer; ou, desejosa de prolongar, por mais trinta anos sua vida, toma a difícil decisão de renovar-se. No primeiro caso, ao atingir 40 anos, vários fatores limitam, de forma comprometedora, seu movimento. Seu bico envergado já não lhe permite capturar facilmente suas presas. Suas garras, por outro lado, exageradamente crescidas e deformadas, já não ajudam seus movimentos de captura das presas. Suas asas, igualmente, resultam envelhecidas e demasiado pesadas para seu voo habitual. Ou se acomoda, resignadamente a tais limites definitivos, ou ousa sobreviver a tais limites, devendo para tanto renovar-se, cumprindo, no mais alto de uma montanha, um longo período de 5 meses, nesse processo de renovação.  

Para isto, a águia bate o bico envelhecido contra o rochedo, até arrancá-lo de todo. Ao ganhar um novo bico, cuida também aparar suas garras, refazendo-as aptas à sua ação de captura das presas. Por fim, aplica-se em fazer o mesmo com suas asas. Está pronta a realçar voo, por mais trinta anos, tendo a seu favor condições propícias para ampliar significativamente as chances de uma vida com qualidade.

A narrativa, tal qual uma obra de arte, permite distintas leituras. De minha parte, cuidei de extrair lições para mim mesmo, evidentemente naquilo que me cabe, pois entendo a vida, antes de tudo, como um dom de Deus, razão por que não me pertence conjecturar sobre a duração, por exemplo. Há, contudo, aspectos de minha vida em relação aos quais tenho condições de decidir. Um deles tem a ver com buscar aprimorar, dia após dia, a qualidade do (con)viver, naquilo que está ao meu alcance. É o que tento explicitar a seguir, partindo de três dimensões focadas pela narrativa: quanto ao bico, quanto às garras e quanto às asas. Pela narrativa, aprendemos o que representaram estas três dimensões, tomadas pela águia como partes-alvo de seu processo de renovação. E para o bicho humano, o que poderiam significar essas mesmas partes-alvo do processo de renovação?

Comecemos pelas asas: o que significariam as asas? Podemos tomá-las como representando nossos sonhos, nosso horizonte, nosso rumo. Uma pergunta útil, nesse sentido, poderia ser: para onde mesmo estou marchando? Mais uma vez, vem-me ao espírito o famoso dito da personagem José Dolores, do filme "Queimada": "É melhor saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir." Quantas vezes, em nosso (co)existir, nos flagramos perdidos! Nossa agenda repleta de afazeres, mil atividades, ao ponto de termos dificuldade em administrá-la. E, no entanto, quando nos damos ao trabalho de avaliar os frutos desse ativismo, sobrevém-nos uma grande frustração: quando exprememos a laranja do ativismo, sai pouco suco... O que estamos mesmo querendo? Nossa agenda é definida, dia após dia, em cima de que critérios? Trata-se, em sua maioria, de critérios consistentes, do ponto de vista de seu alcance PÚBLICO ou, ao contrário, de atividades, em grande parte, vazias de conteúdo libertador? Atividades apenas para "encher tempo", em relação às quais, caso deixem de ser realizadas, delas não se sentirá falta? O que fica mesmo do que andamos fazendo? De nossa agenda, o que, de fato, soa essencial, do ponto de vista de seu alcance PÚBLICO, isto é, a serviço de causas reconhecidamente libertárias? E o que não é compatível com o horizonte libertário, que confesso ser o meu? O que posso e devo fazer, para aprimorar minha agenda, nesse sentido?

Em relação às "asas", eis uma hipótese do que se pode depreender para o bicho humano.

Com relação ao que corresponde ao bico da águia, que ensinamentos é possível extrair, em relação aos humanos. Também aqui, abrem-se múltiplas possibilidades. Uma delas pode ser assim expressa: de que ando me nutrindo, material e espiritualmente? Nutrição, inclusive, em sentido figurado. Sem desconsiderar hábitos alimentares e elementos correlatos (autodisciplina em matéria de regularidade, horário, quantidade, qualidade...), cumpre atentar igualmente para os nutrientes do espírito. O modo como se desenha minha rotina comporta o cuidado com o que ando aprendendo e tentando pôr em prática? Que tempo dedico, em minha agenda, a (re)visitar aspectos relevantes do imenso acervo cultural da humanidade, em distintos tempos e lugares? Sinto-me concernido pelas lutas, pelas conquistas, pelas dores e pelas esperanças da humanidade, de ontem, de hoje, vislumbrando as de amanhã? Que lugar reservo aos bons clássicos, em distintos campos de saberes- na literatura (quantos romances marcantes!), na história, nas artes, nas invenções, nas experiências com o Sagrado, na relação com o Cosmo...

Que tempo e esforço dedico para aprofundar meu conhecimento e minha sensibilidade pelas figuras humanas e pelas coisas de minha região, nas mais diversas áreas de saberes? Empenho-me em aprofundar, dia após dia, meu sentir, meu pensar, meu querer, meu agir, no tocante a um vastíssimo acervo cultural de minha região, de nossas lutas de ontem e de hoje, de tantas conquistas significativas, e também de páginas tristes, para delas extrair lições?

Com relação às "garras", reportamo-nos, em especial, à nossa postura na arte do (con)viver, na busca de nutrientes materiais e imateriais, na arte de bem escolher e tomar decisões. Cuidamos de trazer presentes os meios, os instrumentos ("garras") por meio dos quais cuidamos de tocar nossa existência, conforme o rumo que confessamos ser o nosso.

Costumo recorrer a meios e instrumentos, não apenas apropriados, mas também compatíveis com os fins que persigo? Numa avaliação da maior ou menor eficácia dos meios utilizados, quais os frutos recolhidos dessas experiências?  Qual tem sido minha postura habitual de fazer estrada com pessoas e grupos, participantes da mesma ou semelhante empreitada? Trata-se de uma postura de diálogo ou de de sutil ou explícita imposição?   

Eis alguns questionamentos que me faço e compartilho, na tentativa de recolher ensinamentos da narrativa sobre o “voo da águia”.  

João Pessoa, 17 de novembro de 2017