terça-feira, 24 de julho de 2018

MÉTODO PEDAGÓGICO, EDUCAÇÃO POPULAR E O SIGNIFICADO DO TRABALHALHO DE BASE, NO ATUAL PERÍODO

MÉTODO PEDAGÓGICO, EDUCAÇÃO POPULAR E O SIGNIFICADO DO TRABALHALHO DE BASE, NO ATUAL PERÍODO

Alder Júlio Ferreira Calado


O título deste texto corresponde ao tema proposto pelo MPA (e acolhido de bom grado), na esteira de outras inquietações pertinentes, como objeto de reflexão e ação pelos protagonistas do Movimento. Acolho a proposta como um mote do Repente, e, a partir dele, cuido de propor um roteiro de problematização e de provocação ao tema, com o propósito de suscitar pontos que me parecem relevantes e oportunos, no atual cenário da sociedade brasileira, em especial, de suas forças transformadoras das quais o MPA segue buscando fazer parte, de modo crítico-propositivo.

Para qualquer movimento popular que se preze, resulta vital a questão do método de organização, de formação e de intervenção na realidade social, bem como na trajetória de seus membros. Por isso mesmo, seu método não deve ser entendido como algo à parte de sua visão de mundo, de suas referências teóricas. A isto buscarei estar atento, nas linhas que seguem. Vou distribuir esta reflexão em três tópicos necessariamente interconectados: rápidas considerações sobre alguns desafios da atualidade para as forças de transformação social; que tipo de formação melhor corresponde ao perfil das forças sociais, a exemplo do MPA, em sua luta por uma sociabilidade alternativa à que aí está; e que tipo de método melhor se adequa ao trabalho de base, nessa perspectiva.

1. Alguns desafios que rondam nossa atualidade

Não é segredo que, mais do que uma época de mudança, estamos vivendo uma “mudança de época”, com profundas repercussões, não apenas nas mais variadas esferas da realidade, como também comportando distintos sentidos que a expressão pode implicar ou que podemos atribuir-lhe. Tal fenômeno impacta, por certo, todo um modo de produção, de circulação, de consumo, de gestão de sociedade e de convivência com a Mâe-Natureza. Suscita profundos impactos decorrentes da reestruturação produtiva como da reorganização dos processos de trabalho. Aqui recomendo vivamente o vídeo/documentário “da servidão moderna”, acessível por Youtube). Tal “mudança de época” compromete mortalmente, pelo menos a médio prazo, o lugar atribuído aos Estados nacionais, durante séculos, como se fosse a única forma possível de se organizar uma sociedade que se queira alternativa à ordem vigente. Por tabela, afeta mortalmente a lógica da democracia representativa ou a objetiva abdicação de protagonismo cidadão, com consequência direta na organização partidária convencional, etc. Mas, sobretudo, aponta para a inarredável necessidade de se reinventar o fazer-Política, inclusive por meio de uma dinâmica alternativa de organização societária, alternativa à lógica do Mercado capitalista e do Estado. E não apenas do Estado capitalista: os Estados socialistas, com raríssimas exceções, têm dado sobejas provas de sua incapacidade de fazer a transição para uma sociedade sem classes. Como dizia a famosa personagem do filme “Queimada”, José Dolores, “É melhor saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir.”

Não se diga que isto seja devaneio. Lembremo-nos do velho alerta, de que, fazendo jus e uso de sua condição de inventividade, os seres humanos estão à altura dos desafios que lhes são historicamente colocados. Basta que observemos as lições da História, em distintas épocas. Por que abdicar de nossa vocação histórica à Liberdade, ainda que tal projeto nunca se complete de todo satisfatoriamente? Aqui me vem o belo poema de Eduardo Galeano sobre a linha do horizonte, que nos anima a seguir caminhando.

Ousar o novo (no sentido do alternativo), e já ensaiando passos concretos nessa direção, desde que impregnados de sementes de alternatividade, constitui tarefa irrenunciável do processo de humanização, sobretudo quando se tem certeza da caducidade dos caminhos que vimos trilhando, há tanto tempo. Até podemos não saber bem como chegar à sociedade que almejamos, mas não nos resignamos a tentar, a ensaiar passos, nessa direção, inclusive cometendo erros. Só acerta quem está disposto a buscar, buscar e buscar, sempre, recolhendo lições dos próprios equívocos aos quais não escapa quem ousa caminhar por caminhos ainda não trilhados...

Aqui me restrinjo especificamente ao desafio do esforço de construção de uma nova sociabilidade, alternativa ao Capitalismo, e que faça jus aos sonhos mais generosos da humanidade, em relação amorosa com a Mãe-Natureza. Trato de sublinhar algumas tendências equivocadas, mas que seguem amplamente hegemônicas, inclusive entre forças e organizações de base de nossa sociedade, buscando aqui fazer com elas um contraponto, do ponto de vista de quem aposta numa sociabilidade alternativa ao Capitalismo, mas, por isso mesmo, a ser construída alternativamente, não apenas no que concerne ao seu horizonte, mas também na práxis cotidiana dos seus protagonistas, convencidos de que horizonte de Liberdade se alcança apenas por caminhos também de Liberdade. Vejamos, então, algumas dessas teses equivocadas ainda amplamente hegemônicas.

- Só alcançamos uma nova sociedade, após a derrocada da sociedade presente -  Em situação ordinária, tal afirmativa não mereceria grande estranhamento. Com efeito, o advento de uma nova sociabilidade é incompatível com o presente modelo de sociedade. Estamos de acordo quanto à necessidade de superação do atual modelo de sociedade. Um modelo alternativo comporta, portanto, o enfrentamento do tipo atual de sociedade e a sua derrocada. Onde, então, aparece nossa crítica? No fato de que, à falta de se trabalhar criativamente no desenho da nova sociedade, como condição indispensável para a verdadeira superação da velha sociedade, acaba-se, não raro, adiando o necessário esforço de visibilizar, já de agora, a expressão de sinais concretos de alternatividade no estilo de vida dos protagonistas. Ou seja: não vale tudo deixar para depois da derrocada do velho regime, para, só a partir de então, cuidar-se de construir os novos valores, as novas atitudes, compatíveis com a nova sociedade. Seria demasiado tarde! Esse filme já vimos... Ou a busca de nos tornarmos - incessantemente e desde já – novas mulheres e novos homens começa a ser visibilizada, a cada momento, por atitudes compatíveis com a nova sociedade, ou em vão lutamos por uma nova sociabilidade. São fartos os exemplos que bem ilustram, ao longo de décadas de experiências de sociedades socialistas, que não conseguiram fazer a transição para uma sociedade sem classes (e, portanto, sem Estado). E já não convence o argumento de que isto não se deu, graças apenas a fatores externos, por mais que reconheçamos o peso efetivo destes. Em outras palavras: em vão nos entregamos à tarefa de derrubar a atual sociedade, sem que, ao mesmo tempo, nos empenhemos, dia após dia, no esforço ininterrupto de nossa própria transformação em novos homens, em novas mulheres.

- O exercício crítico é a condição suficiente de formação da boa militância – Eis outra importante afirmação que segue sendo requisito essencial: é inconcebível pretender-se uma sociabilidade alternativa, preterindo-se a formação crítica dos protagonistas. Por outro lado, tomada isoladamente, tal afirmação implica reducionismo, sob vários aspectos. Os exemplos nos falam de modo mais convincente. Quem de nós não conhece militantes intelectualmente bem dotados, com admirável capacidade de desmontar as armadilhas do sistema capitalista. Mas, quando se trata de investir em atitudes propositivas ou mesmo em saídas, mostram suas fragilidades: são críticos mas não propositivos. Mais. Exercitar com competência a crítica, sem o simultâneo e contínuo exercício da autocrítica resulta comprometer – ou até negar – a qualidade da crítica. Exercitar a crítica, com postura ética, implica, antes mesmo de lançar a crítica “ad extra”, colocar-nos, primeiro, como alvo da referida crítica.  

- Contra não importa o quê, temos que defender os nossos incondicionalmente - Aqui reside uma fonte relevante de reiterados e graves equívocos. Sucumbir a uma postura de defesa incondicional, sob a alegação de que cumpre ser fiel aos “nossos”, seja qual for a situação, implica um grave equívoco ético, que tem provocado constantes estragos ético-políticos, em não poucos episódios protagonizados por figuras do campo de esquerda. Para se defender “os nossos”, em qualquer situação, vale tudo, tudo é permitido. Neste caso, a própria causa revolucionária resulta preterida por tal postura. Acaba-se assegurando fidelidade aos amigos, mesmo estes encontrando-se em situação eticamente indefensável, e, por via de consequência, abandonando-se a própria causa revolucionária, que tem na verdade sua cláusula pétrea: “Só a verdade é revolucionária”.

- Uma vez dirigente, sempre dirigente” – Por razões óbvias, isto é posto em prática, mas pouco ou simplesmente não verbalizado. Pelo contrário, até se ensaia “falar-se” em rodízio, mas de boca para fora. Na prática, coordenadores/dirigentes de há dez, vinte anos ou mais seguem compondo a direção, ainda que em cargos variados. Cria-se, com isto, objetivamente, uma casta privilegiada, em nome do bom andamento do movimento... Um dirigente, se já foi base algum dia, isto ficou para trás definitivamente, sob as mais distintas alegações.

- A sobrevivência do nosso movimento passa pelo recebimento de recursos de outras fontes – Na trajetória de um movimento, pode haver situações excepcionais que o levem a apelar, sem jamais comprometer sua autonomia, a fontes legitimamente aliadas, sempre com o compromisso de, tão logo vencido esse período de exceção, retomar seu caminho de autofinanciamento. É praticamente impossível a um movimento popular com projeto alternativo de sociedade que seja capaz de assegurare sua autonomia, se depende de outras fontes de financiamento. Pior ainda, quando essas fontes têm a ver com o Mercado ou com o Estado. Sábio é o adágio popular: “Quem come do meu pirão, prova do meu cinturão.” Na história de lutas dos movimentos sociais com esse perfil, são incontáveis as experiências de aposta e zelo pela sua autonomia, recorrendo a vários meios de caixa comum, com esse propósito.

- Só se enfrenta a classe dominante com êxito pela via militar – Ontem mais do que hoje, mesmo assim segue forte a aposta no argumento militarista, mesmo já não enfrentando as condições, por exemplo, da ditadura empresarial-militar. E por essa via, em vez de se priorizar todo um processo de formação humanizadora, não raro, sucumbe-se ao apelo privilegiado às armas, à luta armada, com a agravante da tendência frequente de confundir-se revolução com luta armada, esvaziando-se o essencial do significado de Revolução. Resultado: de posse das armas, os dirigentes, uma vez instalados em postos de relevância, fazem prevalecer suas decisões, nem sempre pela força de seus argumentos...

- Só com formação política dos dirigentes, podemos assegurar um movimento capaz de enfrentar os desafios do Capitalismo – Com frequência, escutams algo parecido. É claro que a afirmação comporta boa dose de razão. É, com efeito, irrenunciável a formação política, não apenas de dirigentes, mas do conjunto dos protagonistas, a começar de sua base, de onde devem vir, em regime de alternância, seus coordenadores e dirigentes. O problema não reside aqui. Sucede que, diferentemente de outras conjunturas históricas, em que a formação estritamente política dos protagonistas deu conta, hoje enfrentamos uma realidade nova, bem mais complexa e desafiante, a não demandar mais a mera formação estritamente política, mas, antes, uma formação integral de sua base e de seus dirigentes. A isto voltarei no tópico, a seguir.

2. Que tipo de formação se faz necessário aos protagonistas de hoje, na perspectiva acima assumida?

Não se tem conhecimento de movimento social algum (com perfil de lidar com projeto de  sociabilidade alternativa, que tenha prosperado, sem apostar a fundo no processo formativo de seus membros. Sem qualquer demérito para a educação formal, importa ter presente que dela aqui não se trata. Sendo o Estado o órgão responsável pela organização, pelo controle, pela avaliação do sistema de educação escolar (da educação infantil à pós-graduação), seria ingênuo, da parte dos movimentos sociais com perfil acima mencionado esperar que o Estado dê conta da formação de seus membros. Sendo o Estado um componente essencial (ao lado do Mercado) para a realização dos interesses da classe dominante, não constitui tarefa sua favorecer a formação das forças que buscam sua superação. Daí não haver escapatória para os movimentos sociais populares, senão a de assumirem seu próprio processo formativo, desde a concepção, passando pelo planejamento, a implementação, a metodologia, a avaliação...

Importa ao processo formativo protagonizado pelos movimentos sociais, antes de tudo, formar Gente, diferentemente do sistema oficial, que se empenha em formar para o Mercado. Formar Gente é bem mais complexo! Que requerimentos, então, supõe um projeto de formação protagonizado pelos movimentos sociais populares? Vejamos alguns deles.

Diferentemente da educação escolar, que se dá num período determinado (5, 10, 15 anos...), uma formação alternativa a esse sistema há que ser assumida permanentemente e de forma incessante. Educação continuada! Formar Gente supõe assegurar condições favoráveis aos formandos de aprimorarem sua capacidade perceptiva: ver mais e melhor o que antes enxergavam mal ou não enxergavam; ouvir coisas novas; sentir, intuir situações ainda não vivenciadas; exercitar um outro olhar sobre a realidade, sobre o mundo, sobre si mesmo, sobre si mesma.

Trata-se de uma experiência formativa que parte do reconhecimento ou da tomada de consciência dos próprios limites e potencialidades. Parte da consciência do próprio inacabamento, da própria finitude. Limte que vai sendo superado à medida que se vai apostando na relacionalidade, na força comunitária. Só através da vida grupal é que se vai tendo condição de reconhecer melhor os próprios limites, e, ao mesmo tempo, dar passos rumo à superação de tais insuficiências. Aqui, também, importa ter presente o caráter processual da formação. Ela vai-se dando numa caminhada, num processo, dentro de conjunturas e, portanto, assumindo um caráter de relatividade. Disposição sempre deve haver de chegar cada dia mais perto do horizonte almejado, sabendo-se, porém, que não se alcança tal horizonte, de forma completa, mas aproximativa.

No curso desse mesmo processo formativo, aprende-se melhor a lidar com a memória histórica. Tomar consciência de que, sendo seres históricos, portamos raízes de nossos ancestrais, razão por que buscamos recuperar e celebrar a memória de nossa Gente, suas lutas, suas conquistas, suas derrotas, seus saberes secularmente acumulados, nos distintos continentes e no Brasil. Uma memória subversiva, que nos ajuda sobremaneira a manter acesa nossa chama revolucionária, nossos compromissos de classe, nosso empenho em ajudar a transformar o mundo, a sociedade, a partir de nossa própria transfformção, dia após dia.

Trata-se de um processo formativo que nos dispõe a ir-nos processualmente tornado Gente, e, por isso, comprometidos com a busca de formação omnilateral, isto é, sempre em busca de trabalhar, em nós e nas demais pessoas e grupos, as distintas dimensões em que somos chamados a crescer, a processar nosso desenvolvimento. Dimensões que incluem as relações sociais de gênero, de etnia, de geração, de espacialidade. Um processo formativo que nos dê condições de ir além da mera cognição, do mero desenvolvimento de nossa capacidade intelectual, à medida que nos dispõe a articular adequadamente nosso sentir, nosso pensar, nosso querer, nosso agir, nossa postura comunicativa, nossas relações com a Mãe-Naturez, nossas relações com o Sagrado.

3. Como articular esses desafios e esse tipo de formação com o Trabalho de Base, no presente contexto da sociedade brasileira?

É supérfluo dizer que não se trata aqui de pretender-se oferecer qualquer receita. Isto é incompatível com o que entendemos por Educação Popular. Juntos, a partir das experiências concretas vividas junto a movimentos sociais populares e outras organizações de base de nossa sociedade, buscamos pistas que nos sejam úteis ao nosso propósito. Para tanto, cuido, primeiro, de reavivar o que estou aqui a entendendo por “trabalho de base”, e, em seguida, à luz do que antes vem sendo refletivo, ousar sugerir algumas pistas, nesse sentido.

Por Trabalho de Base podemos, também, entender uma dimensão inicial do processo formativo das classes populares, focada no despertar da consciência crítico-transformadora dos protagonistas recém-chegados e inseridos nos mais variados campos das lutas populares, no âmbito dos movimentos sociais e sindicais ou de outras organizações de base de nossa sociedade. Trata-se aí de assegurar condições e passos favoráveis ao desabrochar da consciência crítica e do compromisso com a causa de emancipação da Classe Trabalhadora, em vista do fortalecimento de sua condição de sujeito de transformação social, na perspectiva da construção de uma sociabilidade alternativa ao Capitalismo, em suas mais diversas esferas (social, econômica, política, cultural...).

Obra coletiva, mas também pessoal, o Trabalho de Base é expressão de muitos e múltiplos protagonistas, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, cidadãos e cidadãs procedentes de espaços diversos, com sua diversidade de gênero, de etnia, de situação geracional (jovens, adultos...), de variada situação de escolaridade, com suas diversas escolhas ético-religiosas, etc., todas características relevantes a serem tomadas em conta no processo formativo. Processo no qual trabalham, ao mesmo tempo, formandos e formadores, trabalhando os mais diversos temas e questões da realidade concreta, cada qual com seu aporte específico, em que todos se fazem aprendizes uns dos outros, umas com as outras. Para tanto, o método, o jeito de trabalhar é decisivo. Não basta que tenham em comum o mesmo horizonte a ir-se alcançando. Importa, também, que os caminhos e a postura dos protagonistas se façam compatíveis com o respectivo horizonte. Horizonte de Liberdade só se alcança também por caminhos de Liberdade!

Com relação às pistas e passos a propor, trato de distribuí-los em três sub-tópicos: os que dizem respeito aos desafios organizativos; os que se acham mais ligados ao processo formativo mais diretamente; e os que dizem mais diretamente respeito à intervenção massiva (mobilização). Convém lembrar o que já foi antes assinalado, quanto às conexões orgânicas entre os três tópicos e os três sub-tópicos destas linhas.

Quanto às pistas e passos de caráter organizativo – Desde os primeiros contatos, da parte de quem tome a iniciativa, é fundamental que cada passo, cada gesto (desde a preparação dos primeiros contatos, coletivos ou pessoais, ao primeiro encontro, etc.), se tenha o cuidado de impregná-los com as características gerais da proposta de trabalho. Isto é, os membros encarregados, formadores ou não, de realizar Trabalho de Base, devem expressar em cada gesto seu sinais da totalidade da Proposta formativa. Não basta contentar-se com sublinhar o horizonte, aonde se deseja chegar, mas também dar testemunho dos caminhos, por minúsculos ou moleculares que sejam, compatíveis com esse horizonte. Encarnar o Projeto Popular alternativo em cada gesto é que vai convencer, com eficácia, os que estão chegando...

* Partir da história de vida e da experiência concreta dos recém-chegados -
Passo que nos remete, por exemplo, à fecundidade dos freireanos Círculos de Cultura. Criar condições favoráveis para que esses novos protagonistas digam sua palavra, contem sua história, relatem e compartilhem suas experiências, seus saberes prévios. Aqui o papel do Formador/da Formadora é menos de falar (até pode falar o necessário), e bem mais o de observar, ouvir, escutar, anotar elementos-chave do percurso e do perfil dos participantes dessa plenária ou reunião ou encontro inicial.

Passo importante para se colher as informações básicas sobre o perfil dos novos protagonistas. A partir dos elementos recolhidos/anotados em uma ou tantas outras reuniões, tem-se mais condição de se levantar o perfil individual e coletivo da turma contatada. Perfil que vai ajudar profundamente nos desdobramentos ulteriores do Traalho de Base.

* No caso de vir a ser adotada o formato de um Círculo de Cultura, nos encontros seguintes, convém, antes mesmo, de situar os desafios mais diretos do Movimento, trabalhar temas, questões, palavras geradoras colhidas anteriormente. Provocar debate, rodas de intervenção por parte dos participantes. Só que aqui não basta apelar para a fala oral. Há que se buscar outros recursos artísticos: desenhos, contação de estória, encenação, música, poesia, cordel, repente, cartazes, trabalhos manuais reveladores dos talentos dos participantes que, na maioria, nunca antes haviam tido sequer a consciência de seus respectivos talentos e saberes...

* Criar condições de desenvolvimento progressivo da capacidade perceptiva dos participantes, no que diz respeito mais diretamente à realidade social – Só a título de ilustração (sem pretender reeditar a experiência), nos anos 80, no contexto da Teologia da Libertação, da chamada “Igreja na Base” (CIMI< CPT< CPO, etc.), um material que marcou muito foi o recurso às charges, às histórias em desenho, como os utilizados numa cartilha intitulada “Zé Brasil descobre a sociedade”. Quem sabe, não seria o caso de recoorer, não à mesma cartilha, mas de elaborar uma outra, com charges, a partir das histórias de vida, das experiências concretas parilhadas, nos iniciais, nos círculos bíblicos... Em breve, propõe-se fazer aqui um esforço inicial de análise de conjuntura em mutirão, com a efetiva participação dos presentes.

* Envolvimento progressivo dos participantes em atividades ao seu alcance -
Já iniciado o  processo organizativo, por meio inclusive da experiência de Círculos de Cultura ou outras iniciativas semelhantes, os protagonistas aqui envolvidos já começam a sentir-se chamados a fazer intervenções concretas, de acordo com suas atuais possibililidades. Jà não basta o debate, sem ser seguido por ações concretas. É hora de ir progressivamente fazendo propostas para os participantes. Tarefas que possam ser realizadas em equipe (da qual participem pessoas mais experientes junto com pessoas iniciantes), bem como de acordo com as características pessoais dos participantes. Apenas o começo. Isto não significa que, em algumas ocasiões, para determinadas tarefas, não devam ser convidadas também pessoas com talento aparentemente pouco compatível. É a prática que vai mostrar isto mais claramente. Desde que se faça o trabalho em equipe, o desempenho concreto de cada participante é que vai dizer se valeu ou não valeu a pena sua participação. Resulta sempre algum aprendizado.

* De animador de experiências locais a animador/animadora de experiências organizativas em outros âmbitos -

Em distintas situações de avaliação, não é raro perceber-se o enorme bem que resulta a um(a) militante inicial circular como animador(a) de distintas experiências locais e em outras regiões. Por razões óbvias, isto lhes confere um aprendizado mais denso, porque a partir de uma diversidade de situações trabalhadas. Uma tarefa pode, inclusive, a de animar a formação de conselhos populares, núcleos ativos do Movimento. Núcleos que funcionam com sua autonomia, mas, ao mesmo tempo, sentindo-se interconectados, não apenas com outros núcleos similares, mas também vivamente interagindo com outras instâncias organizativas do Movimento. Uma rede viva e vivificante de conselhos ou núcleos a interagirem e a tomarem parte efetiva nas decisões do Movimento.

* Zelar, desde cada núcleo ou conselho, pela sua autonomia relativa e, ao mesmo tempo, pela sua interconexão ativa com outras instâncias do Movimento – O exercício da autonomia relativa de um movimento não começa nas instâncias de coordenação/direção. Surgem desde as bases do movimento, desde os núcleos. Em verdade, são estas instâncias de base que vão assegurar a observância da autonomia nas instâncias de coordenação/direção. O mesmo vale para a necessária interconexão das diferentes instâncias. E esses procedimentos se materializam igualmente por iniciativas bem concretas. Por exemplo, no caso do exercício de autonomia – que garante a todo o Movimento não se transformar em correia de transmissão ante forças do Mercado ou do Estado -, isto se viabiliza graças a tantas iniciativas forjadas desde baixo, principalmente quando se trata do autofinanciamento. Cuida-se, aqui, de empreender com criatividade e lucidez iniciativas voltadas a arrecadar recursos próprios para a realização de suas atividades. Exemplo que acaba repercutindo positivamente sobre outras instâncias, e, sobretudo, influenciando práticas nessa direção. Isto se faz com critérios objetivos. Não se trata de isolar-se de ninguém. Pode-se, sim, conversar com quaisquer interlocutores – governos, partidos, sindicatos, igrejas... -, mas sem nunca perder sua autonomia, sua capacidade crítica de expressar as linhas-mestras do seu Projeto. À medida que se vai cedendo, mesmo no pouco, vão-se abrindo brechas para aumentar o grau de concessão até perder, de vez, a autonomia, sua identidade.

* Assegurar condições para que aí prospere a alternância de cargos e funções - Em vão se espera pela boa vontade de dirigentes ou coordenação para se realizar o rodízio ou alternância de cargos e funções. Ainda que houvesse boa vontade da parte deles, este não seria o caminho desejável. Há de se criar condições coletivas de observância do rodízio, independentemente da boa ou mã vontade dos dirigentes. Isto se faz à medida que, desde os núcleos, exige-se que quem for eleito para um período de coordenação/direção, tão logo se vença seu período de gestão, volte para a base. Quão revolucionário é este princípio, quando concretamente posto em prática.

+ Quanto às pistas/passos de caráter formativo - Em vez de pontuar uma ampla série de passos específicos (cf., por ex., http://www.consciencia.net/educacao-popular-como-processo-humanizador-quais-protagonistas/ , cuido de sintetizar em três pontos axiais:

= Buscar manter aceso o horizonte de nossa caminhada – Não conseguimos ir longe – pois logo nos perdemos pelo caminho -, se hesitarmos quanto ao rumo que somos historicamente chamados a perseguir. A cada dia, temos que reacender esse compromisso inarredável, de seguirmos na construção de uma nova sociedade, de mulheres novas e de homens novos. Soiciedade justa, solidária, fraterna, livre, plural, buscando a unidade na diversidade, desde os minúsculos gestos do dia-a-dia, sem esperar (em vão) que, primeiro, “derrubemos o sistema”, para só cuidar disto a partir daí.

= Priorizar o exercício da memória histórica dos “de baixo”- Ao longo da História, há um extenso acervo de experiências a recolher dos diferentes povos, das incessantes lutas de resistência e propositivas dos “de baixo”, a merecerem, não apenas registro, como também tornarem-se alvo de análises e avalição para os movimentos de hoje. E aqui não se trata de pretender-se reeditar esses feitos, mas de recolher deles inspiração, intuição para o enfrentamento exitoso dos desafios de hoje. Especialmente, os bons clássicos – mulheres e homens – constituem uma fonte na qual/da qual somos instigados a beber. Não é por acaso que o exercício da mística tem sido um momento tão precioso para os protagonistas dos movimentos sociais e das organizações de base de nossa sociedade. Do exercício dessa memória subversiva recolhemos força e entusiasmo para seguir lutando em busca da construção de uma nova sociabilidade, bem como para renovar nossos compromissos de classe.

= Alimentar continauamente nossa práxis, indo além de uma proposta formativa estritamente política, assumindo-se uma proposta formativa omnilateral – Mantendo firme o compromisso de formar politicamente nossa moçada, cumpre ir além de uma formação estritamente política. Com uma agravante: o próprio campo político tem, não raro, sofrido reducionismo, à medida que se tem restringido apenas às relações Sociedade – Estado, sem a devida atenção a outras relevantes formas de manifestação da Política: as relações sociais do cotidiano! Aqui ajudaria enormemente a priorização da recuperação do significado do Público (de “populus”, povo, popular), pelo qual tanto se empenharam sujeitos históricos de reconhecida referência da Classe Trabalhadora, como a Comuna de Paris. Ou seja, temos necessidade de aprofundar nosso olhar da Política, indo além das relações Sociedade-Estado. Mas, isto não é tudo. Se tudo passa, de algum modo, pela dimensão política, bem sabemos que a Política concerne à dimensão cidadã do ser humana. E, além dela, há tantas outras dimensões a serem igualmente trabalhadas: espacialidade, ecologia, gênero, etnia, geração, subjetividade... E aqui não se trata de se empreender uma reflexão estritamente conceitual, mas de exercitar nas relações concretas do dia-a-dia cada uma delas e a relação delas, em seu conjunto.

& - Quanto às iniciativas de mobilização – Uma marca indelével de todo movimento social digno deste nome é, por certo, sua capacidade de visibilizar, perante o conjunto da sociedade, sua capacidade de organização e traços de seu processo formativo. As mobilizações constituem, pois, um traço determinante da configuração de um movimento social popular, especialmente empenhado na construção, com as demais forças parceiras e aliadas, de um projeto alternativo de sociabilidade.

Por outro lado, já não surte efeito aventurar-se em qualquer tipo de mobilização: mobilizar-se por mobilizar-se, sem ter algo de impactante a apresentar ao conjunto da sociedade. Em outros termos, a mobilização só dá seus frutos quando se consegue ressoar o acúmulo organizativo e formativo do movimento. Daí a necessidade de trabalhar-se essa tríplice dimensão: a organizativa, a formativa e a de mobilização.

Todo tempo é, em tese, tempo de mobilização, entendendo que é parte constitutiva de qualquer movimento mostrar suas bandeiras de luta, as bandeiras de lutas da Classe Trablhadora. Mas, não se faz mobilização exitosa, de qualquer modo. Requer-se, como se sabe, um acúmulo de lutas prévias, passando por debates e reflexões críticas e autocríticas, Requer-se a formação de aliança com protagonistas dos “de baixo”, de modo a romper a correlação de forças frequentemente desfavorável.

Nesse sentido, me vem ao espírito a fecundidade da realização, em Brasília, em agosto de 2012, do Encontro Nacional dos Trabalhadores do Campo e dos Povos das Florestas e das Águas (cf. http://terradedireitos.org.br/en/2012/08/24/declaracao-do-encontro-nacional-unitario-dos-trabalhadores-e-trabalhadoras-e-povos-do-campo-das-aguas-e-das-florestas/ ) como ilustração de uma mobilização bem sucedida e com intensa sensibilidade aos reais desafios da conjuntura, mantendo-se aberto ao espírito classista, em sua saudável diversidade.

Concluindo essas linhas

Segue insubstituível o Trabalho de Base para todo e qualquer movimento social popular que se disponha a caminhar fiel aos interesses da Classe Trabalhadora, entendida esta na necessária atualização de seu sentido, conforme os desafios presentes e a nova configuração do perfil dos “de baixo”. Sem trabalho de base, em vão se procura mudar a sociedade, na perspectiva da construção de uma sociabilidade alternativa.

Trabalho de base a ser realizado à luz dos instrumentais teórico-metodológicos disponíveis na atualidade, sem abrirmos mão da genial intuição de bons clássicos e contemporâneos cujo legado deve fazer parte do processo formativo permanente dos protagonistas – mulheres e homens – dos movimentos sociais do campo e da cidade, que se mantêm atentos e empenhados na construção de uma sociabilidade alternativa ao Capititalismo e seus aliados.

Três elementos foram sublinhados, em nossa provocação acerca do trabalho de base: o desafio organizativo, o processo formativo e os espaços de intervenção e mobilização. Elementos cuja eficácia reside, sobretudo, na sua interrelação.

Num momento crucial, qual o em que vivemos, resulta fundamental aos movimentos sociais – do campo e da cidade – voltarem a priorizar radicalmente no investimento na formação de seus militantes – de direção e de base. Sem tal priorização, resultará frustrada toda tentativa exitosa de luta pela mudança do atual modo de produção, de circulação, de consumo e de gestão, em sua relação amorosa com a Mãe-Natureza.

João Pessoa, 01 de julho de 2014.






















quarta-feira, 18 de julho de 2018

QUAL SOCIEDADE? QUAL UNIVERSIDADE? considerações acerca da contribuição da Educação Popular à produção de uma comunicação alternativa

QUAL SOCIEDADE? QUAL UNIVERSIDADE?
considerações acerca da contribuição da Educação Popular à produção de uma comunicação alternativa
Alder Júlio Ferreira Calado
           Inicio as breves notas que seguem por rápidas considerações conceituais acerca de comunicação social e de universidade, numa perspectiva de alternatividade. Em seguida, ensaiarei algumas pistas sobre a contribuição da Educação Popular, nessa direção.
           A partir da própria etimologia, comunicação é sempre expressão, produto e elemento interveniente na reconfiguração de uma relação social. A comunicação social retrata - não sem as habituais contradições – a dinâmica da convivência social, no tempo e no espaço. É também resultado desse processo. Como afirmava o velho filósofo alemão, numa sociedade de classes, “A ideologia dominante é a ideologia da classe dominante.” Sabe-se do papel central que os meios de comunicação social cumprem no processo de circulação de idéias, crenças, interesses. É por essa via (também) que a mídia faz a cabeça de parcelas consideráveis da população: “a realidade é o que pinta na telinha”; “Deu no rádio!”, “Deus na TV”... Por outro lado, os meios de comunicação social, em determinadas circunstâncias, também podem assumir um papel transformador da ordem social existente. E é aqui que se acendem nossas esperanças, é aí que tem lugar nossa aposta.
Nesse sentido, vale a pena partirmos de uma constatação banal: não há processo comunicativo que se faça descolado da realidade social. Os processos comunicativos são por ela profundamente condicionados, por vezes até determinados. Aqui me vem à lembrança uma afirmação bombástica, feita por um conferencista, por ocasião da realização de um Congresso de Comunicação, nos anos 80: “Déem-me a rede Globo, e farei a revolução no Brasil...”  À parte o viés hiperbólico da proposta, pode-se revelar útil como recurso didático.
Comunicar é um verbo transitivo direto. Quem comunica, comunica algo a alguém, estando um e outro pólos socialmente condicionados, situados e datados. E isto se dá tanto nas macro-relações quanto também nos micro-espaços, inclusive da mídia convencional. Aqui tomamos em conta especialmente os macro-espaços, e, em particular, o desempenho da mídia convencional. Ao focarmos a dimensão eventualmente transformadora dos processos comunicativos, a mídia convencional desponta como alvo a ser, antes, desmontado, desmascarado quanto aos fios de sua malha, do que um alvo a que se recorrer como opção transformadora. Seria temerário, além de ingênuo, apostar-se na transformação da mídia convencional em um caminho de transformação social, de caráter democrático. Em vão pretender-se mudar o caráter da mídia brasileira (ou de qualquer outro país capitalista ou de classes), sem mudar o tipo de sociedade. Nenhuma ilusão a esse respeito!
           Algo semelhante também ocorre em relação ao conceito de universidade. Em vão, tenta-se compreender o sentido de uma universidade, dissociando-a do contexto societal em que se insere. Inútil, pretender-se trabalhar a universidade, sem, antes ou ao mesmo tempo, situá-la no espectro de uma determinada sociedade. Universidade é, como se sabe, um espaço formativo relevante, pelo menos do ponto de vista da educação escolar. Por seus espaços passam importantes protagonistas de processos organizativos, comprometidos tanto com o continuísmo quanto, em grau bem menor!,  com as forças de mudança social.
           A depender, portanto, da posição social de tais protagonistas, podem estar comprometidos, ou com os interesses do mercado e das forças que lhe dão sustentação – e estes constituem a grande maioria, nos diversos segmentos (discente, docente e técnico-administrativo) – ou com os interesses das classes populares e das forças de mudança – e estes constituem uma pequena minoria, seja no âmbito das universidades privadas, seja no interior mesmo das universidades públicas (não esquecer o número considerável de agentes do Estado (juízes, inclusive) que saem das fileiras das universidades públicas, colocando-se quase sempre a serviço dos interesses dominantes, haja vista, por exemplo, o número de sentenças judiciais tomadas contra os trabalhadores rurais, comprometidos com a Reforma Agrária...
           A desconsideração desses elementos resulta, não raro, numa avaliação equivocada, segundo a qual bastaria aos universitários o desenvolvimento de sua capacidade intelectual, que, por si só, asseguraria a formação humana dos jovens e dos adultos freqüentadores de uma universidade. Trágico engano! Equívoco grave, este, que se manifesta sob várias formas. Uma primeira: a escola, a universidade, os cursos, enfim, acadêmicos ou não, corresponderiam a atividades neutras. Trata-se, na verdade, de ferramentas que se prestam a todo tipo de organização social. Tanto podem estar a serviço dos setores dominantes – os interesses do Mercado, os caprichos do Estado ou dos governos de plantão! -, quanto a serviço das classes populares, no caso de uma sociedade que se contraponha ao Capitalismo ou a um sistema similar. Em nosso caso, prevalecem larga e abertamente os interesses dos setores dominantes. Basta atentar-se para os critérios normalmente definidores de escolha profissional. Cada vez menos se trata de vocação, e cada vez mais de imposições que privilegiam os interesses do Mercado. Quantos profissionais universitários
Equívoco que também deita raízes na aposta unilateral na centralidade da dimensão cognitiva, descolada das demais dimensões formativas (a afetiva, a volitiva e práxica). Quanta gente sai das universidades, a cada ano, sem quaisquer sinais convincentes da verdadeira vocação. Pessoas que decidiram seguir esse ou aquele curso, apenas interessadas em tirar vantagens? Por exemplo, quantos juízes formados em universidades públicas, a serviço da causa do latifúndio e do agronegócio?
           Outra forma sob a qual se manifesta tal equívoco (o de superestimar-se a dimensão intelectual desconectada das demais dimensões afetiva, volitiva e práxica, tese sobre a qual o Prof. Ivandro da Costa Sales não cessa de se bater) tem a ver com a a necessidade de o processo formativo dos humanos dar-se, ao mesmo tempo, nessas squatro dimensões A formação do ser humano como Gente tem que trabalhar organicamente tais dimensões, de modo que os educandos-educadores sejam capazes de sentir o que pensam; de sentir e pensar o que querem; e de fazerem o que sentem-pensam-e querem. Não é bem isto o que se costuma acentuar nas salas de aula. Aqui tem lugar privilegiado, quando não exclusivo, o pensar.
           Tal é a centralidade da dimensão intelectual na esfera acadêmica, que os critérios de avaliação se restringem quase exclusivamente a tal dimensão: ter domínio da matéria, ter uma boa quilometragem de leituras, repetir o pensamento dos clássicos ou de outros, ser detentor de aptidão de pesquisador, ter bom desempenho na exposição dos temas tratados, e coisas do gênero. A quase ninguém toca o fato de se flagrar graves contradições entre o falar do professor e sua conduta na vida cotidiana, mesmo que seja em sua relação com os estudantes. Pode até não se agradar desse comportamento, mas é tido como aceitável, não susceptível de crítica mais séria ou de cobrança institucional. Trata-se às vezes de alguém extremamente competente do ponto de vista intelectual, a conviver, sem maiores problemas, com atitudes ríspidas, desrespeitosas, preconceituosas, contraditórias...
           Situação agravada na raiz, já na origem e pela natureza do processo de seleção e admissão, ou seja: pela estrutura mesma do concurso público. Os critérios definidores da classificação incidem exclusivamente no perfil intelectual do candidato, da candidata. É claro que tal critério continua, não apenas relevante, como também indispensável. O problema ocorre quando se trata de Elegê-lo como único critério único para definir-se o processo de admissão. Afinal, como ficam as outras dimensões igualmente relevantes e indispensáveis, como a dimensão afetiva, a dimensão volitiva (relativa à vontade), a dimensão práxica (pôr as mãos na massa)? Como avaliar o compromisso político-institucional do candidato, da candidata? Quem garante que, uma vez bem avaliado seu desempenho intelectivo, isto seja suficiente para se contar com alguém que, pelo fato mesmo de ingressar no serviço público, se mostre comprometido com o bem público, dos alunos, da instituição, da própria sociedade? Quem garante que, ao entrar para a universidade, ele/ela se envolva com a atuação em atividades, não apenas de docência, como também de pesquisa (versando sobre temas socialmente relevantes) e de extensão, em parceria com protagonistas das classes populares, já que não falta gente das universidades públicas a prestar assessorias remuneradas a empresas e instituições particulares?
           Com relação à Educação Popular, que contribuição dela se espera, na construção de uma nova sociedade, na qual tanto a universidade quanto os meios de comunicação se ponham a serviço das classes populares?
           Um primeiro desafio a enfrentar tem a ver com o sentido que se toma de Educação Popular. Tal como ocorre em outros campos conceituais, também o de Educação Popular tem comportado sentidos não apenas diversos, como também, por vezes, antagônicos. Costumo dizer que Educação Popular tem-se prestado a várias causas: até contra o Povo tem-se feito Educação Popular. Aqui tomamos Educação Popular como o processo formativo protagonizado pelas classes populares, em todos os momentos do processo, desde a concepção ao planejamento; da implementação à execução; do acompanhamento à avaliação, tendo como objetivo a construção de uma nova sociedade, alternativa ao Capitalismo, e que se mostre economicamente justa, socialmente igualitária, politicamente participativa, culturalmente diversa.
           A construção de uma sociedade desse tipo só pode comportar como protagonistas as forças sociais comprometidas efetivamente com o combate incessante ao Capitalismo ou a qualquer sociedade de privilégios classistas e de agressão à Natureza. O perfil mais próximo de tal protagonista são os movimentos sociais populares que trabalham com um projeto alternativo de sociedade. Nem todo movimento social é popular. E nem todo movimento popular é necessariamente comprometido com as lutas de construção de uma nova sociedade alternativa ao Capitalismo. Há movimentos sociais (inclusive no campo sindical) de tal modo colados à pauta governamental e ao Estado, que se mostram completamente estranhos a e distantes das lutas de transformação social. Para estes, a mera satisfação de demandas pontuais – as suas! -  é suficiente para corresponder às suas aspirações e expectativas. Já não lhes faz sentido trabalhar com Educação Popualar, pelo menos no sentido aqui assumido.
           Por que e de que modos, afinal, a Educação Popular se faz terreno fértil nesse grande plantio em mutirão, por uma nova sociedade, por uma universidade verdadeiramente pública e por uma proposta de comunicação à altura dos atuais desafios?
           Em primeiro lugar, porque essa Educação Popular constitui um espaço alternativo de formação, na medida em que se apóia em princípios humanizadores, tais como a consciência de que somos seres inacabados (Paulo Freire), razão porque nos fazemos homens/mulheres sempre em relação com os humanos, com a Mãe-Natureza e com o Sagrado; somos seres vocacionados à Liberdade e, por isso mesmo, combatemos todas as formas de escravidão; somos protagonistas de nossa história, o que significa, por exemplo, não abdicar de nossa condição de protagonistas de nossa história, atribuíndo a outros tarefas que são nossas, como ocorre na democracia falsamente representativa; somos chamados a desenvolver mais e melhor, a cada dia, nossa capacidade perceptiva, de ver, de ouvir, de sentir, de intuir coisas novas, alternativas à ordem vigente; nos empenhamos em despertar em nós e nos outros a consciência de nossas potencialidades e de nossos limites; rompemos, na prática, com a dicotomia entre trabalho intelectual x trabalho braçal; despertamos a consciência de nossa condição, ao mesmo tempo, docente e discente (somos todos aprendentes e socializamos nossos achados, por meio do mutirão da construção desaberes, em suas interfaces); apostamos na formação humanizadora ininterrupta; nos processos formativos, lidamos com múltiplas linguagens (palavra, escrita, imagens, artes, teatro, poesia, música, dança...); defendemos a alternância de cargos e funções, não permitindo que alguém fique, por longo tempo, a exercer as mesmas funções, mas propiciando que todos alternem funções adminstrativas e funções de base; exercitamos continuamente a leitura de mundo (análise de conjuntura) e, sobretudo, ensaiamos, dia após dia, reescrever o mundo; defendemos a Mãe=Natureza das mais diversas formas de agressão; ensaiamos, a cada dia, passar da condição de consumidores (inclusive dos meios de comunicação) à condição de produtores de saberes e de cultura.; valorizamos o exercício ininterrupto da mística revolucionária, por força da qual renovamos, dia após dia, nossos compromissos com a causa libertadora dos oprimidos, a partir da libertação de nossas próprias misérias humanas, buscando ser melhores hoje do que éramos ontem, e amanhã, do que somos hoje.
           Esses e outros princípios da Educação Popular, desde que efetivamente interiorizados e assumidos, nos fortalecem a convicção e a disposição de contribuir cada vez mais e melhor com os movimentos sociais comprometidos com as lutas por uma nova sociedade; nos fortalecem a convicção e a disposição de trazer tais movimentos para mais perto do espaço acadêmico, especialmente das universidades públicas, jsutamente para reabilitar sua dimensão PÚBLICA. Isto é de compromisso efetivo com os interesses das classes populares.
A presença mais efetiva desses movimentos nos espaços das universidades públicas –
estando ou não nelas matriculados seus membros – propicia o fortalecimento dos embates pela reabilitação da dimensão PÚBLICA desses espaços que têm sido constante alvo de privatização (desde fora e desde dentro). A ocupação de tais espaços pelos movimentos sociais com projeto alternativo de socieade fortelece a luta pelo restabelecimento ou pela construção do PÚBLICO nos espaços governamentais como as universidades, à medida que se organizam debates públicos e processos de intervenção democrática nas mais diversas instâncias acadêmcia (dos Departamentos aos Centros; dos colegiados de base aos colegiados superiores até à Reitoria). Instâncias frequentemente submetidas a processos de privatização, ainda que encobertos por sedutoras alegações. Seus frutos falam mais alto...
               Com relação especificamente ao campo dos meios de comunicação social, a Educação Popualr também tem relevantes ensinamentos. Não dá para nutrir-se ilusão em relação à grande mídia. De repente, encontramos um estudante entusiasmado em ousar fazer um trabalho alternativo na mídia convencional. A Educação Popular alerta-nos para um duplo risco: ou nos decepcionamos logo, ao sentir na pele que a mídia convencional, sendo paga pelo Mercado ou pelo Estado, só pode ser caixa de ressonância dessas forças, e, portanto, não vai tolerar o atrevimento de um(a) jornalista pretendendo “reinventar a roda”. Resultado: ou fica calado e obediente ou cai fora. Uma outra possibilidade é a de sujeitar-se objetivamente aos desígnios do Mercado, patrão da grande mídia, e, por outro lado, manter seu discurso de protagonista ou aliado das classes populares... Como exceções, há ainda os que, tendo consciência dos limites da grande mídia, e não tendo opção de trabalho alternativo ao sistema, buscam favorecer, por meio das brechas e nas entrelinhas, os interesses populares.
               Seja no caso das universidades, seja no caso dos meios de comunicação de massa, a Educação Popular adverte que, por si mesmos, tais espaços não se transformam, sem que haja muita pressão dos protagonistas que lutam pela construção de uma sociedade alternativa ao sistema vigente.
João Pessoa, 29 de junho de 2010

segunda-feira, 16 de julho de 2018

SOCIEDADE, IGREJA E MISSÃO DIACONAL: um olhar político-pastoral ante a atual conjuntura sócio-eclesial


SOCIEDADE, IGREJA E MISSÃO DIACONAL:
um olhar político-pastoral ante a atual conjuntura sócio-eclesial

Alder Júlio Ferreira Calado, Diácono (Diocese de Pesqueira – PE)


Vivemos momentos de intensa dramaticidade, no Brasil e no mundo. Impacta-nos sobretudo o caráter ambíguo do quadro atual, a mesclar saudáveis avanços, aqui e ali, com sinais de barbárie que se espalham por toda parte. Enquanto cidadãos e cristãos-diáconos, sentimo-nos também atingidos e interpelados pelos graves acontecimentos da atualidade, expressão das múltiplas dimensões da profunda crise que atravessa, ao mesmo tempo, sociedade, economia, Estado, instituições (inclusive as igrejas), e valores...
Tocados pela exortação paulina, de nos dispormos a examinar o que se passa ao nosso redor, e a reter o que é bom (cf. 1 Ts 5, 21: “Omnia autem probate, quod bonum est tenete.”), vale a pena exercitarmos nossa capacidade perceptiva, à luz dos critérios do Reino de Deus, buscando sondar os sinais dos tempos, com o firme propósito de melhor avaliar e reorientar nossa missão diaconal, a partir do nosso incessante e renovado esforço (pessoal e coletivo) de respondermos generosamente aos apelos da Graça, que nos chama a uma incessante conversão.
Como ser diácono num mundo marcado com o selo da ambigüidade e das contradições? Ambigüidade, sim, porque, a par de tantos descaminhos, o nosso mundo também apresenta relevantes conquistas e avanços que dignificam a condição humana, e que não devemos perder de vista.
No plano científico-tecnológico, as conquistas são de múltipla ordem, nas mais distintas áreas de saberes. À parte algumas manifestações de infundada euforia, ora a reeditarem antigas práticas do Cientificismo, de modo a superestimar a ciência pela ciência, a técnica pela técnica, ou a ciência e a técnica como meros instrumentos a serviço dos interesses do mercado, entendemos como bem-vindas conquistas relevantes em tantas áreas, tais como na informática, na biotecnologia, na fibra ótica, nos novos materiais, etc., etc. Igualmente, no âmbito das relações humanas e sociais, comemoramos avanços pontuais, em distintas áreas, notadamente naquelas em que novos paradigmas são exercitados, sem que neguem necessariamente a validade parcial ou não de velhos paradigmas. Trata-se, a propósito, não de se recorrer ao novo pelo novo, ou de se rejeitar o velho pelo velho, em função de sedutores critérios ditados por fugazes modismos, mas de se avaliar e reavaliar sua eficácia como ferramenta teórica de enfrentamento concreto dos desafios atuais, numa perspectiva libertadora.
Seja como for, e feitas as devidas reservas, importa reiterar que se trata de conquistas relevantes, resultantes do que se tem chamado de terceira revolução tecnológica. Avanços que, realizados sob critérios éticos, reconhecemos como sinal alvissareiro das potencialidades humanas, dom de Deus que se dignou nos criar à Sua imagem e semelhança. (cf. GS, nn. 36 e 44)
Preocupa-nos, porém, que nem sempre tais conquistas venham sendo devidamente protagonizadas e aplicadas em favor da efetiva melhoria da qualidade de vida do Planeta e da maioria dos habitantes da Terra. Cabe-nos, sim, empenhar-nos em saber como e por que tudo isso tem tomado essa direção.
No plano internacional, o espectro de crescentes injustiças e profundas desigualdades sociais infelicita, em escala crescente, nossos povos e nações, fazendo ecoar um pungente clamor, que sobe aos céus, da parte dos excluídos, cujo atual perfil é formado por Mulheres das classes populares, Trabalhadoras e Trabalhadores desempregados e sub-empregados, Índios, Negros, Crianças e Adolescentes de rua, Jovens diariamente tragados pela violência social, Idosos abandonados, Pessoas com deficiência, vítimas da prostituição, das drogas, Migrantes vivendo como estrangeiros em sua própria terra, Sem-Terra, Sem-Teto, Detentos a sobreviverem em condições desumanas de fétidas e superlotadas prisões, milhões que sobrevivem a duras penas, sem serviços públicos de saúde, de previdência social, fora da escola, ou em escola de má qualidade, sem direito a lazer... Um quadro tenebroso que nos remete, guardadas as especificidades, à denúncia dos profetas Jeremias (50, 6: “Ovelhas desgarradas: eis o que meu povo se transformou”) e Ezequiel (34, 6), bem como àquele quadro descrito no Livro das Lamentações (“Gemendo, o povo labuta em busca de pão” (Lm 1,11); “Arriscamos a própria vida pelo pão” (Lm 5,9); “Seus profetas lhe falaram de visões falsas, mentirosas” (Lm 2, 14). Pela nossa vocação de cristãos-diáconos, somos chamados a nos empenhar em passar dessa situação para aquela anunciada no Livro do profeta Isaías, cap. 65, 17-25, e retomada pelo Livro do Apocalipse, 21, que Jesus tão bem sintetiza em Lc 4,16-19 ou em Jo 10,10: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância.”
Em busca de nos empenharmos nessa direção, um primeiro passo pode ser o de tomarmos consciência do quadro que estamos vivendo, na atualidade, de como e por que ele acontece.
O quadro sombrio que vivemos, nos remete à crescente concentração de renda e de riquezas nas mãos de tão poucos, resultado das antigas e modernas estratégias de pilhagem infligidas a povos inteiros (na África, na Ásia, na América Latina...), com graves conseqüências para a enorme maioria das populações e do Planeta, vítimas de iníquas políticas de endividamento, de massacrantes invasões expansionistas de natureza imperialista, impostas pelas mega-potências e seus organismos multilaterais (FMI, BIRD, OMC...), a serviço dos grandes conglomerados transnacionais, atualmente hegemonizados pelo setor financeiro - o mais parasitário, aliás, do sistema capitalista -, a imporem estratégias de privatização do patrimônio nacional, acompanhadas de mecanismos de sucateamento e desmonte dos serviços públicos essenciais, do que resultam situações caóticas experimentadas principalmente pelos setores mais empobrecidos, vítimas de intoleráveis  índices de pobreza, explosão da espiral de violência, grave processo de corrosão ético-política do tecido social, a começar pelas instâncias institucionais pretensamente representativas, cujos escândalos só aumentam o clima de frustração e descrédito generalizado em saídas alternativas...
Resultado e expressão desse inquietante quadro internacional, a atual conjuntura interna também se apresenta profundamente ambígua: por um lado, extraordinariamente marcada pela experiência de um Governo com forte apelo popular, nas suas origens, e, ao mesmo tempo, por outro lado, repleto de falcatruas e descaminhos, no plano ético-político, no presente contexto brasileiro.
A mais recente onda de graves denúncias de corrupção assacadas contra figuras do núcleo do Governo, do PT e de outros parlamentares de sua base aliada, desde o presidente da Câmara, amplia e aprofunda consideravelmente o estado de frustração e de indignação cívica de enormes parcelas do povo brasileiro, que investiram largamente na eleição do Governo Lula, como principal avalista de um projeto de Governo comprometido com políticas sociais renovadoras, e no entanto, eis que, passados mais de dois anos e meio de Governo, vêem com tristeza um distanciamento preocupante em relação às promessas de campanha.
Em meio a um sem número de situações graves, não devemos omitir avanços pontuais mais recentes, em ítens pontuais como controle da inflação, alguma redução do desemprego, ampliação das parcerias comerciais, antes quase restritas às grandes potências, relativa sensibilidade às demandas de Gênero e de Etnia, entre outros. Por outro lado, porém, como silenciar o relativo fracasso nas políticas sociais de maior alcance (reforma agrária, saúde, educação, segurança pública, entre outras)? Não bastassem fracassos nessas áreas, eis que a mais recente onda bate de frente contra uma bandeira que sempre foi uma das marcas identitárias do PT e do seu governo: a defesa da ética na política. Crise ainda em curso, e de desfecho imprevisível.
O contexto eclesial comporta igualmente não poucos desafios. Como é que nossa Igreja se posiciona diante desse complexo e difícil contexto? Como, em favor de que(m) e contra que(m)? Como se vem colocando diante dos avanços científico-tecnológicos, propiciados por recentes conquistas nas áreas da engenharia genética, da microtecnologia, da informática, dos novos materiais? Como toma posição, por exemplo, diante da mais recente onda provocada pelo recurso às células-tronco? Como se porta diante do crescente contingente de novas expressões e grupos religiosos, que se multiplicam a olhos vistos (grupos neopentecostais, inclusive os de orientação católica)? No que diz respeito mais especificamente aos cristãos-diáconos, como vêm respondendo a esses desafios da conjuntura macro-social e eclesial?
Por outro lado, convém ter presente que os momentos de crise aguda costumam ser – para quem ousa perscrutar os sinais dos tempos, na perspectiva do que o Espírito tem a nos dizer - ocasiões também propícias de (auto-)avaliação e de retomada de rumo, de caminhos e de posturas conseqüentes, em breve, de conversão pessoal e coletiva.
No presente texto, propomo-nos oferecer alguns elementos de reflexão sobre os desafios do atual quadro social e político brasileiro e da conjuntura eclesial, como subsídio para o aprimoramento do exercício de nossa missão diaconal, olhos fitos nos ensinamentos do Diácono por excelência, Aquele que veio, não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em favor de muitos. (cf. Mc 10, 45).
Para tanto, iniciamos pontuando os traços que julgamos mais relevantes do atual. quadro macro-social, dentro do qual se coloca o Brasil. Em seguida, refletimos sobre os desafios apresentados pela conjuntura eclesial. Por último, tratamos de ver como nós, cristãos-diáconos somos chamados a nos portar diante dos desafios presentes, dentro e fora da Igreja, em busca de respondermos com solicitude diaconal aos apelos do Seguimento de Jesus.

1. Elementos de contextualização do momento atual

Um rápido olhar sobre o panorama sócio-econômico e político atual nos permite perceber que vivemos num mundo cada vez mais globalizado, cada vez mais atravessado por uma complexa e extensa rede de relações, a nos desafiar constantemente, seja como cidad@s, seja como crist@s (leigas, leigos, religiosas, religiosos, diáconos, presbíteros, bispos), nas mais distintas esferas de nosso dia-a-dia, isto é, tanto no campo da produção, quanto no da política e da cultura.
Para nós cidad@s crist@s, o processo de globalização é, em princípio, um alvo desejado e incessantemente buscado. Tendo o Cristianismo, na perspectiva do Seguimento de Jesus, uma motivação, uma destinação, em breve, uma vocação de caráter universal, não se entende o cristão, a cristã que não se sinta, ipso facto, provocad@, convocad@ e comprometid@ com uma ação globalizada, expressa, inclusive, em sua dimensão local.
Do Antigo ao Novo Testamento, passando pela densa e multissecular contribuição de distintos protagonistas crist@s, ao longo da História, o Movimento de Jesus protagonizado pelas comunidades cristãs primitivas, ao denso legado da Patrística; do Concílio Ecumênico Vaticano II às conferências episcopais latino-americanas de Medellín e Puebla e aos documentos da CNBB, os cristãos, as cristãs somos incessantemente convocados a construir a globalização da solidariedade e do amor, a partir de, e junto com os pobres, os prediletos do Reino de Deus, feitos pela vontade mesma do Senhor da História seus principais protagonistas.
Sucede que, sobretudo no decorrer das últimas três décadas, o espectro da globalização vem assumindo uma feição, não apenas distinta, como também oposta à perspectiva do Reino de Deus. Em vez de uma globalização da justiça, da solidariedade e da paz, o que temos assistido é à consolidação de valores diametralmente antagônicos à grade de valores do Reino de Deus, haja vista, por exemplo, o papel que, não raro, vem cumprindo a mídia. Não só a mídia, diga-se de passagem, pois essa grade de valores ditada pelo processo de globalização neoliberal vem, a olhos vistos, atuando sob múltiplas formas, de tal modo que, vez por outra, somos nós próprios inclinados a assimilá-los e reproduzi-los, em nosso dia-a-dia, fazendo ouvidos moucos ao alerta de Paulo (Rm 12, 2) – “Nolite conformari huic saeculo (“Não se amoldem às estruturas desse mundo!”), tentados que nos sentimos a pretender alcançar a Ressurreição sem passar pela Cruz...
Essa tendência de globalização capitalista (apelidada “neoliberal”) não se restringe, como se sabe, aos espaços mediáticos. No campo científico-tecnológico, os avanços atestados pelas recentes conquistas, por um lado, não raro se fazem em prejuízo da Natureza e passando por cima de critérios éticos, enquanto, por outro lado, no tocante aos seus aspectos positivos, não apenas não conseguem estender-se às maiorias empobrecidas da população, como têm se concentrado em benefício de cada vez menos pessoas e grupos. Fenômeno que se explica pelo caráter de crescente monopolização que tem caracterizado toda a cadeia produtiva, seja no campo da produção científico-tecnológica, seja no âmbito das demais atividades econômicas, sem esquecer a indústria cultural, todas hegemonizadas pelo setor financeiro, justamente o mais parasitário.
            Como avalista-mor de tal cadeia monopolista, atuam as grandes potências do Capitalismo – o G7, à frente os Estados Unidos, hoje mais do que ontem, transformadas em “comitê” dos grandes conglomerados transnacionais, alguns dos quais, ainda recentemente, tiveram seus nomes evolvidos no financiamento da invasão do Iraque. Vale ainda destacar os lucros astronômicos auferidos por tais conglomerados, a exemplo das transnacionais do petróleo, ramo inclusive caro à família Bush. Para se ter uma idéia da magnitude dos lucros dessas empresas, basta comparar o custo do barril de petróleo produzido no Brasil e o do barril comercializado por essas empresas...
Mas, também não é pequena a responsabilidade das grandes potências. Mediante os organismos multilaterais (FMI, Banco Mundial, OMC, etc.), igualmente sob o controle do G7, essas grandes potências formulam e impõem aos países periféricos, com a cumplicidade de seus respectivos governantes, políticas econômicas de efeito reconhecidamente perverso.
Disso tem sido exemplo a imposição da política impropriamente chamada “Estado Mínimo”, que, associada à política de privatização do patrimônio público dos Estados nacionais periféricos, tem se convertido em eficaz estratégia de formação de fundos públicos para assegurar o pagamento do serviço da dívida e(x)terna, entre outros mecanismos de pilhagem adotados, de forma velada ou expressa.
            Tal contexto implica um novo papel para os Estados nacionais. Há algum tempo atrás, a despeito de suas conhecidas limitações, não se questionava a responsabilidade dos Estados nacionais, quanto ao seu dever de formulação, financiamento e implementação de políticas sociais tidas como essenciais, como educação, saúde, transporte coletivo, segurança pública, entre outras.
            Se antes da era Reagan-Thatcher, os Estados nacionais periféricos já amargavam imposições do Capital, com o avanço e enraizamento do paradigma dito neoliberal, as estratégias de sucateamento e desmonte das políticas sociais, combinadas com a adoção de sofisticados instrumentos de pilhagem (política de privatização e endividamento, volatilidade do capital financeiro, remessas de lucro indevidas dos conglomerados com representação nos países periféricos para suas respectivas matrizes, aumento de fraudes quase sempre impunes, entre outros) têm resultado em crescente redução, por parte dos Estados nacionais, de sua responsabilidade social e de suas atribuições convencionais.
Graças ao crescente assujeitamento das instâncias governamentais dos Estados periféricos ao novo desenho do establishment, esses Estados vêm se transformando em instâncias secundárias de mera legitimação oficial das decisões tomadas pelos organismos multilaterais controlados pelo G7 e a serviço dos interesses dos grandes conglomerados transnacionais, notadamente do seu setor financeiro.
            Não bastassem estudos feitos por analistas de reconhecida notoriedade internacional, a exemplo dos publicados com freqüência por Le Monde diplomatique, além de vários escritos produzidos por Ignácio Ramonet, documentos dos próprios órgãos multilaterais, a exemplo do Relatório PNUD/ONU de 1996, atestam as contradições como a concentração de riquezas acumuladas por menos de 400 pessoas, que retêm mais de 40% das riquezas mundiais...
            Nesse cenário de hiperconcentração de riquezas e de poderes dos grandes conglomerados transnacionais, política e militarmente sustentados pelos países centrais do Capitalismo, os partidos de esquerda vêm amargando sucessivas e crescente derrotas, no que diz respeito ao seu declarado propósito de transformação social. Quando muito, sobra-lhes o direito de espernear, de se pronunciarem contrários ao modelo imperante, não tardando a voltar a conformar-se à agenda oficial.
            No caso do Brasil, partidos como o PT, o PCdoB, o PSB, mesmo com enormes avanços no plano eleitoral (caso do PT), não apenas não conseguem fazer avançar suas propostas de mudança, como tendem a conformar-se aos padrões ditados pela ordem dominante, ora sob o pretexto de que as mudanças têm que vir lentamente, ora sob o argumento de que, sendo irreversível o espectro do atual neoliberalismo, não restaria outra opção senão a de buscar tirar proveito da situação dominante. Com raras exceções, passariam de partidos de resistência ao status quo à categoria de “partidos da ordem”.
            Por outro lado, a maior parte de seus militantes que, nas décadas de 1970 e 1980, viviam engajados nos movimentos e lutas sociais do campo e da cidade, na época de ascenso do PT e da CUT, hoje restringe sua atuação às instâncias governamentais: gabinetes de parlamentares, secretarias municipais e estaduais, e agora também nos espaços ministeriais... São milhares de militantes, mulheres e homens, de reconhecida qualificação acadêmica e política, que por distintas razões (por sobrevivência, uns; outros por desejo de ascensão institucional; outros ainda por mudança de aposta num horizonte utópico, a despeito de suas declarações em contrário...), se distanciaram das lutas e dos movimentos sociais populares.
            Tal redirecionamento político tem implicado uma multiplicidade de conseqüências práticas (quase todas enormemente nocivas aos interesses das classes populares), tais como: arrefecimento das lutas, por falta de animadores engajados; maior exposição e vulnerabilidade a iniciativas de cooptação e a conseqüentes deslizes éticos (no caso dos partidos de esquerda, com a agravante de, não raro, se julgarem acima dos mortais); mudança de práticas quase sempre acompanhadas de discursos autojustificativos (tem virado moda a opção pela “ética da responsabilidade” em substituição à “ética da convicção”), numa direção de conciliação com a ordem dominante, entre outras.
2. Desafios da conjuntura eclesial

            Santa e pecadora, nossa Igreja marca, de forma também ambígua, sua presença na História. Tem sido assim, não de hoje. A Igreja Católica, no decorrer da História, tem oscilado, ora apresentando práticas de fidelidade ao Reino de Deus, sobretudo pelo testemunho profético de parte de seu Povo, ora com práticas de franco contra-testemunho ao Seguimento de Jesus, cometidas por diferentes segmentos de seus membros, da hierarquia ao laicado.
            No presente contexto sócio-histórico, não é muito diferente. À semelhança do que se passa no plano macro-social, também ao interno das igrejas cristãs – e aqui contemplamos as especificidades da Igreja Católica Romana -, vamos encontrar um número considerável do que Dom Helder Câmara costumava chamar de “Minorias Abraâmicas”. São, também aqui, minoria. Experiências proféticas protagonizadas por leigas e leigos, por religiosas e religiosos, por alguns membros da hierarquia. Trata-se de experiências diversificadas, que têm lugar, ora junto aos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra, ora junto aos Trabalhadores e Trabalhadoras Desempregados, ora junto às Mulheres, ora junto aos Índios, ora junto aos Negros, ora junto às Crianças e Adolescentes do meio popular, ora junto às Pessoas com deficiência, ora junto aos Presos, e assim por diante. Em que pese a diversidade de suas práticas, trazem em comum, entre outros aspectos: o compromisso com, e a fidelidade à causa dos pobres, o respeito ao protagonismo dos participantes das respectivas experiências, o cultivo do espírito ecumênico, o emprego do instrumental pedagógico da Educação Popular, numa perspectiva freireana (uso de múltiplas linguagens, tais como teatro, poesia, música, desenho, incentivo à tomada da palavra, dinâmicas que promovem o entrelaçamento do sentir, do pensar, do querer e do agir, o respeito às diferenças, a tomada de decisões pela base...). São, em geral, experiências com pouca ou quase nenhuma visibilidade. Fazem parte do que se costuma chamar de “correntezas subterrâneas”, que fluem sem a publicidade convencional, não chegam à mídia, nem aos espaços convencionais de publicidade da própria Igreja. São, como já assinalamos anteriormente, experiências moleculares. São exceção que não infirmam a regra.
A regra segue outras trilhas. Influenciadas pelos modismos e pelos sedutores apelos das instâncias convencionais dominantes, não são poucas as experiências eclesiásticas atraídas por esses atalhos, com diferentes nomes e expressões: “marketing”, sacro consumismo, proselitismo aberto ou velado, aposta na multiplicação numérica dos “clientes”, aceitação do jogo da concorrência interconfessional, estar de bem com os grandes deste mundo, auto-imagem privilegiada e sempre acima dos mortais, atração pelos atalhos do triunfalismo, apego ao ritualismo, distanciamento dos excluídos ou relacionamento assistencialista, entre outras formas de afinidade com as práticas convencionais que o mundo contemporâneo apresenta.
            Como se percebe, a regra continua sendo organizar os espaços eclesiásticos à luz dos critérios convencionais dominantes. Se as sociedades se organizam tendo os Estados como referência maior, nós também, fazendo aliás ouvidos moucos à exortação evangélica, de que “entre vocês, não seja assim.” (Mc 10, 43). Se cada Estado tem sua infra-estrutura, nós, idem, inclusive nossa mídia própria. Nesse sentido, somos ágeis em interpretar e cumprir, até indo além da conta, o conciliar “aggiornamento”.
Também no que concerne à grade de valores, as afinidades são marcantes. Se a ordem é investir no que dá “resultado”, nossa parcela de colaboração é notável. Se “rende” bons dividendos fazer parcerias acríticas com órgãos governamentais, propostas criativas têm a nossa lavra. Com acolhida garantida por parte dos “parceiros”. Se a competição acarreta boa recompensa, não hesitamos em promover a “santa” competição entre os grupos e segmentos eclesiais, inclusive premiando “os melhores”. Se “a propaganda é a alma do negócio”, por que não tirar proveito, ao “nosso modo”? Se os grupos empresariais e até as igrejas obtêm concessão para explorar canais de rádio e de televisão, por que nós iríamos fica de fora? Se as mais aprimoradas técnicas de propaganda estão mostrando formas ousadas de atrair público numeroso, recorrendo-se aos eventos-espetáculo, por que não fazermos o mesmo, dentro de sagrados critérios? Se várias igrejas, nossas concorrentes, se mostram tão criativas, no uso de técnicas apuradas de arrecadação, a ponto de conseguirem remunerar seus pastores com até mais de R$ 10 mil, por que razão temos que ficar de fora? Se o recurso a um pronunciamento mais incisivo contra as injustiças pega mal aos ouvidos de certas pessoas que se mostram fiéis no pagamento de seu dízimo, por que não preferir o discurso de conciliação e de paz?
E, especificamente, quanto a nós diáconos, que desafios enfrentamos no atual contexto? O rápido crescimento do número de diáconos, no decurso dos últimos anos, se, por um lado, merece ser acolhido com alegria, por outro lado, propicia uma boa ocasião de repensarmos diversos aspectos suscitados por tal expansão. Destacamos os seguintes, em forma de questionamento:
- O que representa efetivamente para o conjunto da comunidade eclesial, especialmente os mais pobres, tal crescimento?
- Como se distribui o quadro de atividades pastorais desenvolvidas pelos diáconos, nos diferentes países e regiões?
- O crescimento verificado vem se dando na direção de um perfil de diáconos correspondente às demandas e às aspirações pastorais das distintas comunidades eclesiais?
- Como são acompanhados os vocacionados ao Diaconado?
- Como se dá o relacionamento entre os diáconos, os leigos e as leigas, os religiosos e as religiosas, os presbíteros e os bispos?
- Como se dá o processo de discernimento e de formação, nas distintas dimensões que o ministério requer, no contexto dos atuais desafios humanos e sociais?
- Como se tem dado o processo de formação permanente dos diáconos?

3. Traços identitários dos  sujeitos emergentes, numa perspectiva de alternatividade

            Se em outras dimensões da vida humana e social, já não se concebe um esforço identitário pré-definido, acabado, posto que os Humanos, como seres perfectíveis que são, vivem mergulhados no plano histórico, no terreno político tampouco é razoável pretender-se uma identidade pronta. Vale a mesma orientação para a tentativa de um esboço de alguns traços identitários de uma força emergente que se pretenda comprometida com a alternatividade, nas mais distintas esferas da vida social.
            Para começo do esboço, cumpre ter sempre presente a direção dos seus passos. Se, de fato, se pretende construir um projeto de sociedade no campo da alternatividade, isto é, que se contraponha claramente à sociabilidade capitalista, cada passo (individual ou coletivo) deve refletir, mais no chão das relações do cotidiano do que no plano da retórica, atitude de inevitável combate às práticas e à grade de valores da ordem dominante (individualismo, oportunismo, concentração de poder em mãos de poucos, concorrência, acomodação ao status quo, apego desmedido a cargos e funções concentrados em uma única pessoa ou num pequeno grupo, recusa à autocrítica, etc.) e, ao mesmo tempo, de compromisso com a construção de relações alternativas, pautadas por valores que apontem em direção oposta aos da ordem imperante (decisões tomadas pela base, direção colegiada, alternância de cargos e funções, espírito crítico e autocrítico, postura de respeitosa autonomia em relação aos dirigentes, recusa da prática dos métodos combatidos nos inimigos, coerência entre prática e discurso, fidelidade continuamente testemunhada aos interesses das classes populares, inclusive em situações de clara infidelidade cometida por quem quer que seja.
            Pelo que ficou acima esboçado, é possível perceber-se que rumo e procedimentos se acham de tal modo afinados, que transgredir um implica inobservância do outro. De um lado, merece toda a atenção o ensinamento da personagem José Dolores, do famoso filme “Queimada” – “É melhor saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir”; por outro, não devemos medir esforço em perceber que o jeito de caminhar no rumo almejado diz muito da intenção e da postura ético-política do caminhante.
            No que concerne ao rumo em construção, o horizonte de quem se põe a caminho, numa perspectiva de alternatividade, não poderia ser outro senão o da classe trabalhadora ou, como costuma expressar Ricardo Antunes, “os-que-vivem-do-trabalho”, princípio que, na perspectiva d@s cidad@s que se reconhecem como crist@s, deve coincidir com os critérios do Reino de Deus (Mt 25, 31-45; Mc 10, 42-45; Lc 4,16-19; Jo 10, 10-16), com os do Seguimento de Jesus, tão bem explicitados na gesta dos Atos dos Apóstolos..
Contribuem nesta direção todos os protagonistas (coletivos e individuais) que, ininterruptamente e de modo transparente, apostem na força transformadora das classes populares, o principal protagonista. E, ao permanentemente darem prova de sua fidelidade à classe trabalhadora, não conciliem com, nem sucumbam à prática – hoje moeda corrente – do aliancismo, do colaboracionaismo ou dos conchavos interclassistas, numa vã tentativa de servir a dois senhores...
Nos escritos produzidos ao longo de sua vida, Paulo Freire, sempre que analisava a conjuntura, costumava lembrar ou explicitar uma verdade freqüentemente esquecida por segmentos que se pretendem de esquerda: a de que se torna impraticável a quem quer que se pretenda favorável aos interesses da classe trabalhadoras, não se pronunciar contrário aos interesses dominantes, implicando uma postura de denúncia e oposição aos interesses dos setores dominantes.
            No âmbito parlamentar, vez por outra, estamos a ler ou a escutar alegações autojustificativas de mandatários, em relação a atitudes e votos que contrariam suas declaradas posições de defesa aos interesses das classes populares. Declarações do tipo;”Eu votei, porque o partido fechou questão” ou “Embora eu tenho votado contra, eu recebo aquela verba, porque se não, ela fica para o Estado.” E daí?
            No presente momento, alguns parlamentares do PT estão ameaçados de expulsão, porque se recusam a votar contra notórios compromissos históricos do Partido. A direção do PT tenta justificar que há liberdade de opinião, mas, na hora do voto, todos devem fidelidade à posição do Partido. Posição que estimula atitudes esquizofrênicas, à medida que induz que as pessoas externem uma opinião logo desmentida pela prática do voto: falar, podem à vontade, desde que ajam em contrário...
Contradição que pode ser observada, também, em posições corporativas freqüentes nas lides sindicais com viés burocratizante, em que, sob o pretexto de se lutar pelos interesses da categoria “x”, “y” ou “z”, não raro se perdem de vista os mais elementares interesses do conjunto da classe trabalhadora. Por exemplo, em vez de se fortalecer a luta em defesa do Sistema Único de Saúde (e de outras políticas públicas), parte-se para a defesa e adoção de planos de saúde ou similares....
            Outro traço que compõe o perfil de um partido alternativo acena para a formação de um partido-movimento, cujo maior emblema passa a ser o da figura de um peregrino, que faz do conjunto dos Humanos sua família, e do Planeta sua pátria, sem que isso implique qualquer perda de seus traços identitários (de subjetividade, de gênero, de espacialidade, de etnia, de idade, de cidadania, de condição profissional, de sua condição de ser cósmico e de sua relação com o Sagrado). Em suma, um partido-movimento necessariamente anticapitalista e, ao mesmo tempo, ininterruptamente comprometido com a construção de uma sociabilidade alternativa, marcada pela justiça social, pela solidariedade, pela radical democratização do saber, do ter, do poder.
            Um partido que seja capaz de romper as fronteiras intra e inter-partidárias, e de fincar raízes em diferentes segmentos da sociedade civil (movimentos sociais populares, setores progressistas de igrejas, etc.). Um partido que se constitua de pessoas e grupos atuando em qualquer espaço social, desde que comprometidos (mais pelas práticas do que pelo discurso), a partir dos embates do cotidiano, com o combate aos valores do Capitalismo, e com a construção permanente e ininterrupta de novas relações humanas e sociais, de fidelidade à causa libertadora dos empobrecidos.
            Esse esboço de partido instituinte requer, por certo, um perfil de militantes que corresponda aos desafios e exigências sócio-históricas, de modo a romper com as práticas e concepções ainda largamente dominantes. Trata-se, por exemplo, de militantes que
- primem, no plano subjetivo, pelo seu desenvolvimento integral, buscando aprimorar, de forma dosada, todas as suas potencialidades de ser cósmico e de ser humano+;
- sejam pessoas profundamente amorosas, apaixonadas pelo Povo, não importando que país ou região habite, e pela nossa Casa Comum, a Mãe-Natureza;
- sejam capazes de recuperar a primazia da perspectiva classista sobre quaisquer interesses de segmentos particulares, do âmbito local ao internacional, ou melhor dito, capazes de experienciar nos embates locais sua dimensão internacional, ao tempo em que, ao participarem de lutas internacionais, são capazes de perceber as implicações locais;
- se refontizem incessantemente da força revolucionária da memória histórica, recuperando lutas, façanhas e conquistas do passado e respectivos protagonistas;
- não abram mão do persistente exercício de crítica e auto-crítica;
- sua permanente disposição à autocrítica, alimentada pelo contínuo exercício da mística revolucionária, os ajuda sobremaneira a tornar viva e eficaz, enquanto intervenção presentificada, a memória histórica, de modo a não engessarem num passado longínquo e estéril suas referências de luta e de militância;
- ao apreciarem com carinho a memória e o testemunho exemplar de revolucionários e revolucionárias de ontem e de hoje, cuidam de evitar transformá-los em “gurus”, preferindo apostar mais na causa, no projeto, do que em seus protagonistas, e se a estes também prestam reverência, o fazem na medida em que encarnam o projeto;
- constante acompanhamento crítico da realidade social, mediante o recurso a fontes fidedignas, em função do que tratam de aprimorar suas estratégias de intervenção;
- efetiva vigilância no sentido de assegurar condições irrenunciáveis do protagonismo dos distintos segmentos da sociedade civil, em sua luta de libertação;
- no relacionamento com as pessoas e grupos de base, saibam pôr em prática uma pedagogia da escuta, aprendendo com os outros e buscando também exercer sua dimensão docente;
- tenham consciência de que a qualidade de sua aposta na Utopia é constantemente testada na oficina de tecelagem do Cotidiano, a partir dos gestos minúsculos e aparentemente invisíveis;
- sejam pessoas fortemente desinstaladas e desinstaladoras, ao mesmo tempo inquietas na tomada de iniciativas, e profundamente serenas, nos momentos de crise e de impasse;
- estejam conscientes de que navegam sobre águas revoltas, e quase sempre navegam à contra-corrente, o que implica uma postura ao mesmo tempo firme e serena de lutadores sociais;
- mostrem-se efetivamente empenhados no seu processo de formação continuada, nas distintas dimensões do cotidiano e da vida pessoal e grupal;
- exercitem, a cada dia, a mística transformadora, em virtude da qual asseguram a renovação de seu compromisso ético-político, no horizonte de uma Utopia libertadora.

4. No atual contexto, qual seria a contribuição específica dos cristãos-diáconos, no plano social e no âmbito eclesial?
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            Neste item, como indica o sub-título, mesmo tomando em conta a inter-relação existente entre as diferentes dimensões da condição diaconal, cuidamos estritamente de enfatizar a dimensão social e política da missão dos diáconos. Diaconia é serviço. Não qualquer serviço, nem serviço a qualquer destinatário (cf. Mt 6, 24: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”). Serviço ao Reino de Deus – do qual a Igreja é chamada a ser seguidora na pobreza e no testemunho (cf. Decreto Ad Gentes, n. 5).
Jesus viveu e pregou o Reino de Deus como pobre (“As raposas têm suas tocas e os aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” Lc 9, 58) e junto com os pobres, a quem tornou referência privilegiada e critério definitivo de nossa fé (cf. Mt 25). Quaisquer que venham a ser nossas prioridades no campo da formação ou da atuação social, elas deverão tomar como referência central o Seguimento de Jesus, a Quem nossa Igreja é chamada a testemunhar e renovar constantemente seu propósito e suas práticas de fidelidade, seguindo a direção apontada pela Constituição Dogmática Lumen Gentium, quando afirma que “assim como o Cristo consumou a obra da redenção na pobreza e na perseguição, assim a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho a fim de comunicar aos homens os frutos da salvação.” (LG, n. 8).
            Para tanto, um primeiro esforço que merece ser individual e coletivamente renovado a cada dia, é o de não nos sentirmos acima nem abaixo de ninguém. Só Deus é Senhor: “Tu solus Dominus”, rezamos no hino do Glória, rememorando o Antigo e o Novo Testamento, que nos ensinam que a adorarmos um único Senhor, somente a quem devemos obediência incondicional. No plano humano, somos irmãos e irmãs. Sujeitos aos mesmos deslizes, aos quais sucumbimos, se não tratamos de, solícitos aos apelos da Graça, renovar, a cada momento, nosso compromisso e nossas convicções.
            Fiéis aos apelos do Espírito, vamos conseguindo discernir melhor os sinais dos tempos, pela contínua apuração de nossos sentidos, de nossa capacidade perceptiva, de modo a ver melhor o que antes não conseguíamos enxergar; ouvir coisas novas, perceber e assumir as “correntezas subterrâneas” que existem e das quais não nos damos conta.
            Esse esforço persistente de busca (o convite é mesmo o de “vivermos em estado de busca”) nos animará a ousar coisas novas, a não nos conformarmos com as estruturas viciadas (cf. Rm 12,2), a intuir um mundo alternativo, começando a partir do nosso cotidiano e incessante esforço de conversão.
            Nesse sentido, no campo da luta por cidadania efetiva, por exemplo, vale a pena perguntar-nos:
- Temos mesmo consciência da riqueza que (ainda) possui o nosso País (terras, subsolo, biodiversidade, água doce, riquezas do mar, parque industrial, tecnologia, e sobretudo um povo trabalhador)?
- Com toda essa riqueza, é justo que nos conformemos com o nível de concentração de terra, de renda e de riquezas, a ponto de nos contentarmos com políticas compensatórias, correspondentes a verdadeiras migalhas orçamentárias?
- A experiência de sucessivas eleições convencionais, a cada dois anos, tem mudado qualitativamente as estruturas injustas?
- Será que investimos mesmo o melhor de nós nesse ritual visceralmente viciado antes, durante e depois das eleições?
- Vale a pena continuarmos apostando todas as fichas na capacidade de mudanças substantivas, de braços dados com os aparelhos de Estado, à espera de que seus ocupantes de plantão cuidem de nós?
- Seria, por outro lado, o caso de sucumbirmos a uma certa ideologia do voluntariado, tão pronta a apelar acriticamente à solidariedade dos segmentos sociais, de modo a quase dispensar o Estado de suas obrigações elementares?
- Ainda que não tenhamos receita milagrosa - até porque as mudanças pelas quais nos batemos, ou são fruto do nosso protagonismo, ou não se farão -, não está na hora de irmos em busca de outro desenho de organização social?
- Será que, para isso, temos que partir da estaca zero ou já conseguimos vislumbrar, no campo e na cidade, sinais de práticas alternativas que nos convocam a melhor descobrir e reforçar?
- Será que, na presente conjuntura de inquietante lassidão dos valores éticos, sem desconsiderar nenhuma das esferas de nossa atuação, não seria prioritariamente missão nossa contribuir mais diretamente na esfera ética, buscando colaborar, a partir de dentro de nós, e em nossas relações do cotidiano, com práticas alternativas convincentes?
- Nas relações intra-eclesiais, tem sido a nossa conduta de cada dia, individual e coletiva, inspiradora de práticas alternativas na direção da Utopia do Reino?

João Pessoa, 13 de setembro de 2005, festa de São Crisóstomo.










+ (“O ser humano - sustenta Marx, em seus Manuscrtos Econômico-Filosóficos -“apropria-se de sua omnilateralidade, de modo integral, portanto como ser humano total” (“Der Mensch eignet sich sein allseitiges Wesen auf eine allseitige Art an, also als ein totaler Mensch.” (Ökonomisch-philosophische Manuskripte, III, XXXIX, VI-VII, extraído da página http;//www.mlwerke.de/default.htm).