terça-feira, 28 de agosto de 2018

AÇÃO LIBERTADORA DESDE O CHÃO DOS OPRIMIDOS: Resumo do Capítulo VII "Defensor dos últimos", do livro de José Antonio Pagola. "Jesus, aproximação histórica"

O capítulo sétimo, adiante resumido, trata da preferência de Jesus pelos pobres, os doentes, os necessitados, os pecadores... O autor destaca a situação socioeconômica reinante na Galiléia e arredores, inclusive nos principais centros urbanos, tais como Cesaréia e Séforis. Ao assinalar as extremas desigualdades sociais aí reinantes, em especial entre o modo de vida das elites urbanas e a pungente penúria da vida dos camponeses da Galiléia, o autor vai mostrando, com fundamento nos textos bíblicos, sobretudo nos Evangelhos, bem como em autores especialistas no campo estudado, como Jesus tratava de exercitar incansavelmente sua solidariedade com os últimos daquela sociedade, ao tempo em que cuidava de desmascarar os mecanismos de opressão política, de exploração econômica e de marginalização cultural, de que eram vítimas os empobrecidos. E Jesus o fazia, como de hábito, por meio de parábolas. Uma delas, a do pobre Lázaro e a do rico que se banqueteava, insensível ao sofrimento dos pobres. Enquanto o rico epulão – acompanhado de seus comparsas, deliciava-se em seus banquetes Nababescos, a massa sobrante dos pobres da cidade e do campo – dos quais Lázaro constitui uma representação emblemática -, se arrastava, coberto de feridas, que os cães vinham lamber, atrás de migalhas jogadas ao chão pelos banqueteadores. Tempo depois, Lázaro vem a falecer, e é acolhido por Abraão. Também, o rico vem a morrer, e vai para o “Sheol” (lugar da infelicidade), onde, ao avistar Lázaro, agora feliz, na companhia de Abraão, no Paraíso, e a este se dirige, suplicando que Abraão mande a Làzaro, de volta à terra, até seus irmãos, para avisá-los do lugar terrível em que ele, o rico insensível ao sofrimento dos pobres, agora se acha, pedindo que Lázaro vá advertir seus irmãos, para evitarem de fazer o mal. Mas, intervindo, Abraão declara haver um abismo insuperável entre ele e Lázaro, e que não adianta que Lázaro desça para advertir os irmãos do rico, pois lá eles têm os profetas, então que os escutem. O rico contesta, afirmando que eles só escutariam, se lhes fosse enviado um morto, ao que Abraão retruca, dizendo que, se eles não escutam os vivos, tampouco escutariam um morto. Ao recorrer à parábola, como seu instrumento pedagógico predileto, o autor afirma que a intenção de Jesus é menos a de descrever a vida no além, e mais a de denunciar as injustiças sociais clamorosas daquela sociedade.

Outras parábolas e episódios evangélicos são ainda mencionados pelo autor, sempre com o propósito de mostrar que os últimos são os prediletos da ação misericordiosa de Jesus: os leprosos, os cegos, os coxos, os surdos, as mulheres marginalizadas, os pobres, os pecadores, os injustiçados, em favor de quem sempre agiu, e por causa de quem foi acusado de “comilão” e “beberrão”. Um Jesus tão humano – é o que o autor cuida de nos mostrar, bem fundamentado na Sagrada Escritura e em vasta documentação pesquisada.

Como em toda sociedade de classes, também a Galiléia do tempo de Jesus achava-se marcada pela segregação e por profundas desigualdades sociais. Na base daquela pirâmide social, estavam os desvalidos, os indesejáveis, a massa sobrante, os "Zé-Ninguém", os desclassificados, os que viviam à margem: mendigos, vítimas da prostituição, aleijados, cegos, leprosos... Eram vítimas de múltipla segregação: econômica, política, cultural, religiosa. Viviam explorados pelos grandes latifundiários de então, trabalhando (se e quando encontravam algum trabalho, como diaristas). Mal conseguiam obter o pão de cada dia. Também sofriam o peso da dominação de classe, de religião e dos valores predominantes. Eram igualmente desprezados em sua vida cultural, sendo-lhes vedada a participação em eventos privativos dos puros. Eram, portanto, segregados também pela religião, vítimas da cruel vigência de 2 códigos que regiam o cotidiano das relações sociais de então: o código da exclusão sócio-econômica e o código da santidade (ou da "pureza").

no que diz respeito ao código da santidade, viviam excluídos dos espaços considerados puros, em especial do templo, a grande marca dos puros (dos sacerdotes, dos fariseus, enfim, dos "puros"). A novidade irrompe nas práticas e no estilo de um profeta chamado Jesus. Não apenas sua pregação, mas sobretudo suas práticas se confrontavam fortemente com os valores dominantes. Não apenas porque acolhia ternamente os "debaixo", mas a eles se misturava, conversando, fazendo refeições e brindando, donde a acusação e o estranhamento dos que com ele se escandalizavam, chamando-O de "comilão", "beberrão", cúmplice dos pecadores.

É, sobretudo, no tópico seguinte - "amigo dos pecadores"-, que o autor cuida de descrever o comportamento de Jesus face a esse conturbado contexto. Enquanto, de um lado, imperavam as práticas de segregação, Jesus aparecia como um verdadeiro rebelde a esses valores dominantes. Diferentemente da lógica ritualística, característica do Antigo Testamento, em que segundo o livro do levítico e outros, vigia o código de santidade (o essencial é cumprir centenas de normas para se mantes santo), Jesus, por sua vez, contrapunha um outro código - o código da compaixão. Em consequência desta reviravolta trazida por Jesus, a santidade se traduzia, não pelas formalidades ritualísticas praticadas em nome de Deus mas pelas práticas de compaixão, de acolhimento, de solidariedade com as vítimas daquele sistema: os pobres, os mendigos, os paralíticos, os cegos, os surdos, os leprosos, as mulheres...   


O capítulo "Defensor dos últimos" encerra-se com uma longa e pertinente reflexão sobre a atitude de Jesus em relação aos marginalizados, aos discriminados, aos desvalidos: atitude de compaixão, de acolhimento, de profundo respeito pela sua dignidade de pessoas e de incentivo à recuperação de sua auto-estima, sabendo-se como filhas e filhos de Deus muito amados. Eis por que cai como uma luva aquela parábola do rei que preparou um grande banquete para os seus amigos - pessoas privilegiadas pela sua condição sócio-econômica, tendo com elas ajustado data. Ao preparar o grande banquete, envia seu servo a confirmar a festa junto aos mesmos convidados. Estes, porém, um após outro, se põem a desculpar-se, inventando os mais deferentes motivos, para não irem ao banquete. Contrariado com a recusa, o rei torna a enviar seu servo, desta vez, a quem encontrasse pelas praças e pelas ruas, convidando a todos, independentemente de sua condição: cegos, coxos, mendigos. Nem esta ordem tendo surtido o efeito desejado, mandou o rei que o servo voltasse e compelisse a trazer quem encontrasse, inclusive os forasteiros. Em sua reflexão, o autor deixa clara a proposta do Reino de Deus: acolher a todos em Seu banquete, sem qualquer discriminação. Eis por que Jesus se mostra amigo dos pecadores, tendo mesmo chegado a advertir os que se têm como "puros", de que os publicanos e as prostitutas os precederão, no Reino dos Céus, e que não são os sadios que precisam de médico, mas sim os doentes. 


João Pessoa, 28 de agosto de 2018.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Igreja e Realidade Social: Problemas e Perspectivas "Pontos do curso ministrado por Alder Júlio Ferreira Calado", junto à comunidade Paroquial de Manaíra - João Pessoa - PB (Julho - Setembro, 2006)


COMUNIDADE PAROQUIAL DE SÃO PEDRO PESCADOR

CURSO DE FORMAÇÃO CONTÍNUA
TEMA: A REALIDADE SOCIAL À LUZ DA BÍBLIA E DA DOUTR. SOC. IGR. MINISRANTE: Alder Júlio Ferreira Calado
DIAS: 12, 19 e 26/07 e 02/09/2006

PROPOSTA DO CURSO


          A iniciativa busca dar seqüência à demanda da Comunidade Paroquial, de assegurar aos membros dos distintos setores, serviços, movimentos e associações da Paróquia, cursos, seminários ou oficinas, que lhes permitam a contínua atualização e aprofundamento de temas relevantes para a sua formação teológico-pastoral e de cidadã(o)s.
          Neste ano, após várias semanas seguidas de estudos sobre o Evangelho de Marcos, animados pelo Diácono Valter Paiva, a Equipe responsável está oferecendo um breve curso sobre a atual realidade brasileira e internacional, à luz dos ensinamentos bíblicos e da Doutrina Social da Igreja.
          O curso vem sendo oferecido pelo Diácono Alder Júlio F. Calado, sociólogo, em quatro semanas seguidas, sempre às quartas-feiras, das 19h30 às 21 horas.

TEMAS TRATADOS

          Tendo em vista tratar-se de um mini-curso (apenas quatro sessões), a proposta é de buscar fazer uma rápida abordagem dos seguintes tópicos:

1 - Aproximação conceitual sobre o sentido de “Realidade social” e de “Doutrina Social da Igreja” (Foi o assunto da primeira sessão).

2 – Principais desafios da atual realidade social

3 – Um olhar sobre tais desafios à luz dos ensinamentos bíblicos, da tradição e da Doutrina Social da Igreja.

4 – Que pistas podemos, enquanto cristãos e cristãs, recolher desses ensinamentos para um enfrentamento crítico-propositivos dos desafios atuais?


DINÂMICA

          As sessões começam com uma breve exposição pelo ministrante acerca do tópico da respectiva noite. Em seguida, faz-se uma rodada de intervenções por parte das pessoas presentes. Cabe ao ministrante tentar “costurar” os pontos mais relevantes socializados na discussão.




COMUNIDADE PAROQUIAL DE SÃO PEDRO PESCADOR

CURSO DE FORMAÇÃO CONTÍNUA
TEMA: A REALIDADE SOCIAL À LUZ DA BÍBLIA E DA DOUTR. SOC. IGR. MINISRANTE: Alder Júlio Ferreira Calado
DIAS: 12, 19 e 26/07 e 02/09/2006



1A. SESSÃO (12/07/2006): APRESENTAÇÃO DA PROPOSTA E DISCUSSÃO DOS CONCEITOS ELEMENTARES DO CURSO


- Apresentação e discussão sobre os temas e dinâmica propostos para o Curso
- Conceitos básicos a serem trabalhados:
* Realidade Social: Conjunto das relações que nos envolvem nas distintas circunstâncias do existir, e das quais também somos expressão e protagonistas, no dia-a-dia. São constituídas de três esferas básicas:

a esfera econômica: diz respeito às atividades de produção, nos distintos setores que compõem o processo de produção: o setor primário (agricult., pecuária, extrativismo); o setor secundário (artesanato e indústria) e setor terciário (o da circulação dos produtos e dos bens, via serviços e comércio);
a)    a esfera política: envolve as realações de poder, como este se acha estruturado e como é exercido. Envolve relações com o Estado e as micro-relações da Oikía;
b)    a esfera cultural: (envolve as relações que implicam valores, idéias, ideologias, interesses, crenças, etc.).

* Doutrina Social da Igreja: É também conhecida por outros nomes: Ensinamento Social da Igreja, Magistério Social da Igreja, etc. Não tendo, embora, valor de dogma, apresenta a posição oficial da hierarquia da Igreja sobre temas de natureza social, econômica, política e cultural. Suas raízes mais fundas estão fincadas nos ensinamentos bíblicos e nos ensinamentos pastorais das gerações de cristãos dos primeiros séculos, na tradição dos chamados Padres da Igreja...
Essa expressão passou a ser consagrada, a partir do final do século XIX, com a publicação da Encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, em 1891. Daí por diante, outros papas também se pronunciariam sobre os desafios da conjuntura de sua época: Pio XI (1931: Quadragésimo Anno), João XXIII (1961: Mater et Magistra, e 1963: Pacem in Terris); Paulo VI (1967: Populorum Progressio; 1971: Octogesima Adveniens), João Paulo II (1981: Sollicitudo Rei Socialis; 1991: Centesimus Annus), Bento XV (2006: Deus Charitas est). Além de se pronunciar por meio de encíclicas sociais, cartas apostólicas e outros instrumentos, convém ainda destacar a importância de outros pronunciamentos como alguns documentos conciliares (Gaudium et Spes, Apostolicam Actuositatem...) e alguns documentos das conferências episcopais regionais (a exemplo do Documento de Medellín, do Documento de Puebla) e nacionais.

COMUNIDADE PAROQUIAL DE SÃO PEDRO PESCADOR

CURSO DE FORMAÇÃO CONTÍNUA
TEMA: A REALIDADE SOCIAL À LUZ DA BÍBLIA E DA DOUTR. SOC. IGR. MINISRANTE: Alder Júlio Ferreira Calado
DIAS: 12, 19 e 26/07 e 02/09/2006


2a SESSÃO DO CURSO SOBRE REALIDADE SOCIAL
(MANAÍRA, PARÓQUIA DE S. PEDRO PESCADOR, 19/07/2006)

PRINCIPAIS DESAFIOS DA ATUAL REALIDADE SOCIAL


1. NA ESFERA ECONÔMICA
- Concentração de riqueza, de rendas, de terras...
- Hegemonia do capital financeiro, o mais parasitário do Capitalismo
- A política de endividamento
- A política de privatização do patrimônio nacional, nos países periféricos


2. NA ESFERA POLÍTICA
- O império das transnacionais e seus aliados do G-7
- A perda de soberania dos Estados nacionais
- A subserviência dos governos ao império do Capital
- A impotência dos partidos para mudar tal espectro


3. NO PLANO DA CULTURA
- O império da mídia
- A inversão de valores
- O império das religiões de mercado
- A desintegração da família

4. TRECHOS BÍBLICOS QUE AJUDAM A DISCERNIR

O Sl 115 nos convida a discernir os sinais dos tempos, à luz do Projeto de Deus, aguçando o alcance de nossos sentidos: olhos, ouvidos, coração, etc.

Rm 12, 2: “Não se amoldem às estruturas deste mundo”

1Ts 5, 21: “Examinem todas as coisas e retenham o que é bom.”

Mc 10, 42-45: alerta-nos para não reeditarmos as estruturas de dominação características dos nossos tempos, convidando-nos a apostar na pedagogia do serviço: “Entre vocês não seja assim.”



COMUNIDADE PAROQUIAL SÃO PEDRO PESCADOR (MANAÍRA)
CURSO DE FORMAÇÃO CONTÍNUA
TEMA: A REALIDADE SOCIAL À LUZ DA BÍBLIA E DA DOUTR. SOC. IGR. MINISRANTE: Alder Júlio Ferreira Calado
DIAS: 12, 19 e 26/07 e 02/09/2006

3a. SESSÃO (DIA 26/07/2006)

UM OLHAR SOBRE TAIS DESAFIOS À LUZ DOS ENSINAMENTOS BÍBLICOS, DA TRADIÇÃO E DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA.

*Conceito de Bem Comum: “Consiste no conjunto de todas as condições de vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral  da personalidade humana.” (Pacem in Terris, p. 36)

*Sobre o destino universal dos bens e das riquezas: Gaudium et Spes, N. 69

*Sobre o direito de quem, estando em extrema necessidade, recorrer a quem tem, para satisfazer suas necessidades: Gaudium et Spes, n. 69

*Sobre o direito de propriedade: Populorum Progressio, n. 23

* Sobre o esbanjamento público ou privado: Populorum Progressio, n. 53.

* Sobre o dever de se distinguir “Caridade” de Justiça: Apostolicam Actuositatem, n. 8.

* A concentração de riquezas é um escândalo: Populorum Progressio, nn. 9 e 33.

* Conceito de desenvolvimento integral: Populorum Progressio, n. 42.

* Garantia de emprego pleno: Pacem in Terris, p. 36 e Octogésima Adv., n. 14,

* Defesa da destruição de todas as armas atômicas: Pacem in Terris, p. 55.

* Condenação da concentração de riquezas e do “imperialismo do dinheiro”: Mater et Magistra, nn. 32 e 33.

* Sobre o protagonismo dos agricultores: Mater et Magistra, n. 141.

* Denúncia das multinacionais: Octogésima Adveniens, n. 44.

* O Cristianismo não se confunde com nenhum sistema político, inclusive a Democracia: Octogésima Adveniens, n. 34 e Centesimus Annus, n. 13.

* A Democracia formal reedita erros do Socialismo real: Centesimus Annus, n. 46.
COMUNIDADE PAROQUIAL SÃO PEDRO PESCADOR (MANAÍRA)
CURSO DE FORMAÇÃO CONTÍNUA
TEMA: A REALIDADE SOCIAL À LUZ DA BÍBLIA E DA DOUTR. SOC. IGR. MINISRANTE: Alder Júlio Ferreira Calado
DIAS: 12, 19 e 26/07 e 02/09/2006

4a. SESSÃO (DIA 02/08/2006)

QUE PISTAS PODEMOS, ENQUANTO CRISTÃOS E CRISTÃS, RECOLHER DESSES ENSINAMENTOS PARA UM ENFRENTAMENTO CRÍTICO-PROPOSITIVOS DOS DESAFIOS ATUAIS?

          Pistas são, como se sabe, vestígios, sinais indicativos de algo ou de alguém que se busca. Não são “receita”. Enquanto cristã(o)s e cidadã(o)s, somos chamados a, não apenas conhecer melhor os problemas sociais que nos afligem, mas sobretudo a buscar enfrentá-los e superá-los. Como tentativa, portanto, é que devemos entender a indicação das seguintes pistas, considerando as reflexões que temos feito, durante essas quatro semanas sucessivas por nós vivenciadas.

- Buscar responder ao apelo evangélico do “Vigiem e orem” (Mc 14, 38) – Manter-nos antenados aos sinais que o Espírito de Deus nos inspira, por meio dos acontecimentos do dia-a-dia. Ver melhor o que não conseguimos enxergar bem, ou nem chegamos a perceber. Ouvir coisas distintas daquelas às quais nos habituamos, sucumbindo à mesmice à mediocridade, à lógica do “menos ruim”. Sentir tantas coisas que estão acontecendo e que, por não nos mexermos, não percebemos, e em relação às quais nada fazemos. Em breve: aprimorar sem cessar nossa capacidade perceptiva. Ir atrás das “correntezas subterrâneas”...

- Manifestar nossa indignação ante as injustiças praticadas por parte de quem quer que seja e cometidas não importa contra quem, deve ser um primeiro passo. Gesto que nasce do nosso incessante esforço de conhecer melhor a realidade por suas causas. Isto implica, entre outras atitudes, buscar acercar-nos de fontes fidedignas. Pretender conhecer bem o Brasil pelos telejornais é passar atestado de desinteligência... Sugestões de fontes alternativas: Revista Caros Amigos; Sem Fronteira, Mundo Jovem, Brasil de Fato, entre outras. Sites interessantes: alainet.com , andes.org.br , cnbb.org.br (análise de conjuntura), servicioskoinonia.com

- Ir além da indignação – Esta constitui um primeiro passo importante. Mas, não é suficiente. Não queremos apenas denunciar. Precisamos anunciar, por gestos, palavras e atitudes criativas, que um outro mundo é possível. Para sermos, porém, levados a sério por quem nos ouve, temos que dar provas convincentes de que estamos mesmo engajados para valer, buscando começar a mudança por nós mesmos. Sermos melhores hoje do éramos ontem, e amanhã, do que somos hoje.

- Ousar para nós um programa de formação contínua – Se desejamos mesmo mudar o mundo, começando de nós, precisamos aprender, aprender e aprender incessantemente. Nossa educação é lacunosa. Não criamos o hábito de seguir aprofundando nossa visão de mundo, de sociedade, de ser humano, de Igreja. Isso exige estudo continuado, formação incessante, tanto no plano social como no plano teológico. Que tal organizarmos um plano de leituras para os próximos quatro anos, a partir dos temas que mais nos interessem acerca da realidade social e da Igreja?  Autores e autoras tais como Paulo Freire, Milton Santos, José Comblin, Pedro Casaldáliga, Frei Betto, Leonardo Boff, Eduardo Hoornaert, Rubem Alves, Elsa Tamez, Ivone Gebara, Marcelo Barros, César Benjamin, Ricardo Antunes, entre tantos outros e outras. São igualmente fecundas produções como as do CEBI, da CEHILA, do DEI (órgão de pesquisa ecumênica, da Costa Rica), etc.

- Buscar fecundar os nossos bons achados, em qualquer área de saber, sendo conseqüentes e testemunhando no dia-a-dia com práticas coerentes. – No Projeto de Deus, todo bom aprendizado tem que se traduzir em ações concretas. Não vale aprender por aprender, mas aprender para mudar, para ser melhor, para tornar melhores a nós mesmos e as pessoas com quem vivemos.

- Estender nossa tenda para além de nossa casa – Assim, vamos amar de tal modo nossa família, que vamos buscar ampliar essa família, buscando que muito mais gente dela faça parte: a família humana, sentindo o Planeta como a casa de todos os viventes. As relações com o Estado (política partidária, Governo, eleições, Parlamento) constituem uma dimensão importante de nossa atividade política, mas, não apenas não devem esgotar nossas atividades de cidad(ã)os, como também, dependendo da conjuntura  - e este parece ser o caso atual - devem ser relativizadas, à medida que podemos encontrar espaços alternativos com maior potencial transformador, como, por exemplo, ajudando a organizar os movimentos sociais populares, os principais protagonistas de transformação social alternativa.

- Compreender melhor as potencialidades e principalmente os profundos limites de instituições como Estado, Governo, Parlamento, Partido, etc., em comparação com outros sujeitos sociais de maior poder de mudança.

- No plano eclesial, tomando como referência definitiva o Evangelho, e vencendo a tentação de obediência cega às suas estruturas (contrariando inclusive o alerta de At 5, 29), exercitar uma leitura orante da Sagrada Escritura, e tirar as conseqüências práticas que o Espírito nos comunica, Ele que é o Doador dos Dons. Leitura orante que pode ser ajudada por um plano de leituras sobre História da Igreja (Hoornaert, Comblin, Beozzo, por ex.) e outros temas correlatos.




 João Pessoa, 10 de julho de 2006.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

CIDADANIA PARA ALÉM DO JOGO DE CARTAS MARCADAS


CIDADANIA PARA ALÉM DO JOGO DE CARTAS MARCADAS

Admitindo ser meu eventual equívoco de interpretação do atual momento, confesso ter enorme dificuldade em me alinhar aos critérios de analises dominantes no campo das forças de esquerda, vira e mexe, atônica das preocupações centra-se no trivial: falcatruas do Governo Temer, eleições, alianças, candidatura de Lula... É claro que estas também são questões que devem permear as forças que buscam um novo tempo, mas me preocupa a centralidade destas inquietações, se queremos de fato ir além do corriqueiro ou mesmo das cartas marcadas do jogo eleitoral. De pouco têm valido reiteradas manifestações e alerta, quanto a necessidade e urgência de ousarmos fazer nossa autocrítica, admitindo nossa parcela de responsabilidade no desfecho político que amargamos. Sem tal ousadia corremos o risco de reeditar nossas práticas e nossos deslizes ético-políticos.
Ao revisitar arquivos que julgava perdidos, eis que encontro este, sob o título “CIDADANIA PARA ALÉM DO JOGO DE CARTAS MARCADAS”, que se achava apenas iniciado. O referido arquivo estava datado de fevereiro de 2006.... Dadas as inquietações-chave então experimentadas, percebo, com tristeza, que o quadro conjuntural talvez traga mais continuidade do que descontinuidades. Resolvi, por tanto, partindo daquele texto incompleto, alinhavar algumas notas sobre minhas-nossas inquietações presentes.

Que considerações foram registradas, naquela oportunidade? Entre aspas, trato de trazer à tona, aquelas linhas:

“LISTA DE ARGUMENTOS

* EVIDÊNCIAS:
- SUJEIÇÃO E FAVORECIMENTO AO CAPITAL FINANCEIRO, O SETOR MAIS PARASITÁRIO DO CAPITALISMO;
- ENDIVIDAMENTO RÉCORDE DO PAÍS
- SUJEIÇÃO ÀS GRANDES POTÊNCIAS (PRESENÇA MILITAR NO HAITI)
- RESPONSABILIDADE POR DESASTRES ECOLÓGICOS NA AMAZÔNIA COM GENTE DO PT DIRETAMENTE IMPLICADA, INCLUSIVE NO PROJETO DE TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO
- OPÇÃO PELO AGRONEGÓCIO
- DESCUMPRIMENTO DA PROMESSA DE REFORMA AGRÁRIA
- GERAÇÃO DE EMPREGOS INSUFICIENTES
- ARROCHO SALARIAL
- SUPERESTIMAÇÃO DAS MIGALHAS ORÇAMENTÁRIAS DESTINADAS AOS PROJETOS SOCIAIS
- EXPANSÃO DAS UNIVERSIDADES SEM ASSEGURAR AS CONDIÇÕES INFRAESTRUTURAIS DIGNAS DAS JÁ EXISTENTES
- CONTINUAÇÃO DA SUBORDINAÇÃO ÀS AGÊNCIAS REGULADORAS
- HIPERTROFIA DOS GASTOS COM PROPAGANDA
- INTERMINÁVEL IMPLICAÇÃO DOS DIRIGENTES DO PT COM MARACUTAIS
- INCAPACIDADE DO CONGRESSO QUANTO A MUDANÇAS SIGNIFICATIVAS
- INEFICÁCIA DE LEIS TAPA-BURACO
- NIVELAMENTO DO PT AOS PARTIDOS DA ORDEM
- MILITÂNCIA PERDE TEMPO EM BUSCAR TIRAR LEITE DE BODE
- DESCOMPROMISSO OBJETIVO COM PASSOS INOVADORES

            Sobretudo nos últimos anos, tenho sido cada vez mais tocado pela relevância (ainda pouco reconhecida - a julgar pela apatia da enorme maioria dos protagonistas) das relações humanas e sociais do cotidiano. E mais do que todas, as que são pouco perceptíveis, quase invisíveis: as micro-relações do dia-a-dia, em todas as esferas da realidade. Impacta-me especialmente sua eficácia, sua capacidade de enraizamento nas pessoas e nos grupos. Têm um peso considerável, decisivo, no equacionamento dos processos humanos e sociais. Constituem um fiel mostruário dos reais valores dominantes em qualquer sociedade.
            Restrinjo-me aqui a algumas notas sobre uma única dimensão: as relações da esfera política. O exercício da Cidadania no cotidiano acena, com poderosa fidelidade, para as características mais profundas da forma do exercício do poder em sua dimensão macro-relacional: as relações Sociedade-Estado-Governo (Parlamento, Partidos Políticos).
            Para tanto, parto de alguns recortes casualmente extraídos da mídia, no dia 08//02/2006 (Poderiam ter sido recolhidos de qualquer outro espaço social e em qualquer outro dia). O primeiro vem de mais uma reportagem convencional sobre a maciça reação do mundo muçulmano à publicação de “charges” em jornais ocidentais ofensivas à religião islâmica. Desde o início, os enfoques se restringem à mera publicação das “charges”, sem qualquer vínculo com o tratamento dispensado aos muçulmanos.





            Sucessivas experiências desastradas no terreno governamental e político-partidário convencional parecem não mexer suficientemente com os brios de suas principais vítimas: os empobrecidos e seus aliados.
            Eleição vai, eleição vem, todo o mundo sabe quais os resultados finais concretos, e a tendência quase unânime é continuar reproduzindo a estrutura, sempre na vã esperança de que “o próximo Governo e o próximo Parlamento serão melhores”... De pouco ou nada adianta lembrar uma constatação ao alcance de todos: eleição não muda realidade social. Nunca mudou, em nenhuma sociedade, em tempo algum. Mas, continuamos fazendo ouvidos moucos, e apostando com unhas e dentes na chegada de um salvador.

- Claro que há ganhos, no Governo Lula. A rigor, a nenhum Governo devem ser imputadas apenas perdas. Por pior que seja, um Governo, até por instinto de sobrevivência, precisa “mostrar” alguma coisa. Isso não está em discussão. O problema é: numa avaliação global de um Governo que se pretende de esquerda, abrangendo todas as esferas da realidade social, para que lado efetivamente pende a balança? ”.

A partir das linhas acima revisitadas, permito-me compartilhar alguns questionamentos:

- A exemplo de Fernando Cardenal, ex-Ministro de Educação do Governo Sandinista, que ousou fazer autocrítica em relação aos revezes eleitorais sofridos em 1990, será que nós também somos capazes de reconhecer nossa parcela de responsabilidade ético-política no trágico desfecho que se seguiu aos governos Lula e Dilma?

- Será que ousamos refrescar nossa memória histórica (recente e menos recente) de um tempo em que fomos capazes de buscar coerência em nossas ações organizativas, formativas e de mobilização?

- Até que ponto deixamos de lado os riscos de apostar todas as fichas na conquista dos espaços governamentais, em prejuízo crescente de nossa ação junto às bases?

- Segue ou não atual o famoso alerta da personagem José Dolores, do filme "Queimada": "É melhor saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir."?

João Pessoa, 14 de agosto de 2018.

domingo, 12 de agosto de 2018

A SERVIÇO DA CARIDADE: incidência no dia-a-dia diaconal

A SERVIÇO DA CARIDADE:
incidência no dia-a-dia diaconal

Alder Júlio Ferreira Calado

        Cada encontro nosso, qualquer que seja seu propósito específico - de caráter de coordenação, avaliação, planejamento, retiro ou outro) comporta sempre, de algum modo, um traço formativo. É neste plano que talvez melhor se insira a reflexão fraterna que ora ousamos compartilhar com os irmãos diáconos, candidatos ao Diaconado e respectivas esposas aqui presentes, em Parnamirim, tão bem acolhidos pelos irmãos da Província do Rio Grande do Norte.
        Como sugere o título desta reflexão, nosso propósito, visando a atender ao convite da Coordenação Executiva da CRD, é de nos atermos mais diretamente a como vem sendo exercido por nós o Ministério da Caridade, nos distintos âmbitos de nossa atuação diaconal, incluindo os macro e os micro-espaços do nosso dia-a-dia. Ao socializarmos nossa reflexão, valemo-nos de dois momentos: inicialmente, compartilhamos inquietações a partir de situações concretas, observáveis no cotidiano diaconal; em seguida, buscamos problematizar alguns casos, esboçando possíveis pistas.

1. Incidências formativas do apelo do Amor, no cotidiano diaconal

        Nos pontos que seguem, tratamos de sublinhar alguns aspectos que julgamos mais desafiadores ao nosso processo formativo contínuo, na atual conjuntura sócio-eclesial.
        Um primeiro aspecto a pontuar tem a ver com o lugar que, na tríplice dimensão do nosso Diaconado (a Palavra, a Caridade e a Liturgia), ocupa a Caridade. Do ponto de vista do Seguimento de Jesus, não parece haver dúvida a esse respeito: assim como em 1Cor 13, também na tríplice dimensão do Diaconado, a prevalência deve ser a do Amor, alimentado pela Palavra de Deus e celebrado na Liturgia, ainda com maior razão na liturgia da vida. Era assim que Paulo e seus irmãos viviam a “Ekklesía”, empenhados na formação de um povo, o Povo de Deus: “Paulo sabia que não vinha estabelecer na cidade uma religião, um culto. A religião, o culto não interessavam. Para ele, o culto dos discípulos de Jesus era a própria vida.” (José Comblin, “A Igreja e os carismas segundo São Paulo”, in Vida Pastoral, n. 270, jan. e fev. 2010, p. 29).
        Exercitar a primazia do Amor não exclui nem nos isenta do cuidado com as demais dimensões do Diaconado. Ao contrário, fortece-as, plenifica-as. O Amor, tal como o descreve Paulo, implica exigências e condições nem sempre fáceis de ser cumpridas, e nomeia quinze de suas características: a paciência, a disposição de servir, não é invejosa, não se exibe, não se incha de orgulho, nada faz de inconveniente, não busca seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, regozija-se com a verdade, tudo perdoa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. (1 Cor 13, 4-7). Parece-nos missão impossível? Sim, aos nossos olhos, mas a Deus nada é impossível, bem o sabemos. Se achássemos que tudo isso cumprimos sem falta, não teríamos necessidade de Jesus, que veio para os pecadores... Essa, porém, é a meta para a qual nos chama, e nos fornece as condições necessárias. Estamos dispostos a correr atrás dessa Boa Notícia?
        Um segundo ponto: o Amor de Deus, presente no outro, em especial nos pobres e sofredores, deve impregnar todo o nosso viver. Nosso esforço de viver a Caridade deve, com efeito, impregnar todas as esferas da vida (econômica, política, cultural) e dimensões (relação subjetiva, intersubjetiva, cósmica, afetiva, de gênero, de etnia, de trabalho, de geração, relação com o Sagrado...). Do mesmo modo que nos esforçamos por emitir sinais convincentes nas relações familiares, o mesmo esforço deve se refletir em outros espaços vitais: no ambiente profissional, no exercício da Cidadania (desde nossa corresponsabilidade nos destinos de nossa País, do nosso Estado, do nosso Município, até nos minúsculos espaços do cotidiano (inclinação ao tratamento privilegiado, nas repartições públicas ou privadas; ou na tendência - ativa ou passiva, pela omissão - à privatização dos espaços públicos, inclusive mediante bem-intencionadas “parcerias” com o Estado; desrespeito às regras de trânsito...); na (in)justa repartição dos trabalhos caseiros, de modo a sobrecarregar alguém, em geral a mulher; nas relações com a Mãe-Natureza e com o Cosmo...
        Um outro aspecto aqui compartilhado tem a ver com o desafio de mostrar-nos, menos por palavras e mais por ações concretas, o que nos remete, aliás, ao oportuno alerta feito pelo Papa Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi: “Os homens de nossa época escutam antes as testemunhas do que aos mestres; e se também escutam a estes, é que também eles são testemunhas.” (EN, nº 41). E isto não se dá por méritos nossos. É um dom, e, por ser dom, vem de Deus, mas, por outro lado, a ninguém é imposto. O Deus da Liberdade não impõe nada a ninguém. Propõe. Convida-nos, por força do Seu Espírito, a vivermos o dom da Caridade. Isto implica, de nossa parte, a necessidade de incessante renovação do nosso compromisso de responder positivamente à Graça que paira em nós. Renovação que se verifica a cada momento, diante dos grandes e pequenos desafios do cotidiano, seja nos macro, seja nos micro-espaços, nos gestos moleculares, quase imperceptíveis aos olhos do mundo. É mais fácil que, diante de um público, mesmo o público de casa, nos disponhamos mais facilmente a esboçar gestos generosos. Difícil é tomarmos a mesma atitude diante de situações minúsculas, fora da vista de qualquer público...
        Refontizar-nos continuamente na Palavra de Deus, inclusive pela leitura orante da Bíblia, tem sido um caminho fecundo de enfrentamento exitoso de nossos desafios. A esse respeito, há muita estrada a ser feita. Não raro, temos tido uma motivação extraordinária a acompanhar de perto as demandas institucionais de nossa Igreja, seja em relação a normas e recomendações administrativas, ao próprio Direito Canônico, enfim, às exigências da Diocese, da Paróquia, etc. Menor disposição sentimos quando se trata de exercitar uma familiaridade mais íntima com a Palavra de Deus, por vezes até com a inclinação de tomar o primeiro caso como suficiente e capaz de secundarizar um propósito de maior intimidade com a Palavra de Deus, correndo até o risco, em situações de claro conflito, de fazer ouvidos moucos à advertência de Pedro e dos demais apóstolos, de que “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens.” (At 5, 29). Sem descuidar-nos de acompanhar com atenção a evolução da palavra do magistério da Igreja, a exemplo da recente encíclica social Caritas in Veritate, de Bento XVI, importa que exercitemos uma atenção ainda maior ao que o Espírito nos tem a dizer, a todos e a cada um de nós.
        Mais um ponto: as diversas circunstâncias de incidência da Caridade no dia-a-dia diaconal, que nos interpela e apela à conversão incessante, diante dos enormes desafios enfrentados. Tomemos aqui apenas alguns poucos casos como referência, sempre a partir, em primeiro lugar, da Palavra de Deus, como, por exemplo, é o caso do alerta que, em diferentes situações, nos é feito por Jesus, acerca dos sedutores caminhos e sinais apresentados pela grade de valores dominantes: “Sabeis que os que governam as nações, as oprimem, e os grandes as tiranizam. Entre vós, porém, não deve ser assim. Ao contrário, quem de vós quiser ser grande, seja vosso servidor; e quem quiser ser o primeiro, seja o servidor de todos. Pois também o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos.” (Mc 10, 42-45).
        Quando nos colocamos diante do quadro de valores da moda (o individualismo, a famigerada “lei do Gerson” (tirar vantagem em tudo), o oportunismo, o carreirismo, a busca de poder e prestígio, o exibicionismo, a concorrência desenfreada, o imediatismo, a instrumentalização da natureza, em breve, o império do deus Mercado), continua vigente o alerta de de Jesus, segundo Marcos, reiterado, ainda que em outra situação, em Lucas. “Videte ne seducamini” (Cuidado para não vos deixardes seduzir) (Lc 21, 8).

2. Problematizando situações de apelo à nossa conversão contínua: em busca de possíveis pistas

        Em nosso dia-a-dia de vida diaconal, com que situações concretas nos defrontamos, e que inspirações colhemos em busca de superá-las?
        Tal é o poder de penetração dos valores dominantes, que de repente também nos flagramos a introjetá-los e a reproduzi-los, inclusive como diáconos. Mais complicado ainda: não são poucas as vezes em que os introjetamos e reproduzimos, sem nos darmos conta.Vejamos alguns casos dignos de uma problematização crítica e autocrítica, sempre em vista de um empenho contínuo de conversão, até porque esta deve ser tomada, não como algo acabado, mas como um processo incessantemente renovado.
        No plano econômico, aqui sublinhamos apenas duas situações embaraçosas. Por um lado, a tendência a nos conformarmos com a situação de extremas desigualdades sociais, sob a forma de uma esdrúxula concentração de riquezas, de rendas e de terras, feita à custa de um número sempre crescente de pessoas e nações cada vez mais postas à margem das conquistas da Globalização, ao estilo capitalista. Passo relevante – ainda que não suficiente – é o de tomarmos consciência dessa realidade, desde que tal tomada de consciência venha em nós acompanhada de um firme compromisso de mudança radical dessa realidade. Não parece ser a situação mais freqüentemente observada entre nós, com raras exceções. Na maioria das vezes, a tendência dominante entre nós é de nos limitarmos à mera constatação da mesma, e nos contentarmos  com uma expressão de desabafo, de desaprovação e até de indignação. A isto poderíamos chamar de uma manifestação de um sentimento de indignação estéril, à medida que não se faz acompanhar de gestos concretos, ao nosso alcance.
        Em outros casos, conseguimos, sim, ir além da mera constatação, a ponto de esboçarmos algum tipo de gesto concreto. Então, tratamos de empreender iniciativas de caráter assistencial, mantendo e até ampliando o jeito mais tradicional que a Igreja pós-constantiniana tem encontrado de lidar com os pobres. Aqueles a quem buscamos servir como alvo de nossa comiseração ou de nossos gestos caritativos. Por certo, trata-se de um serviço de socorro aos pobres. Iniciativas que são (quase) sempre bem-vindas, especialmente naquelas situações pontuais de agravamento conjuntural de sofrimento dos pobres. Menos eficazes, por outro lado, quando se trata de enfrentar efetivamente as raízes do empobrecimento, numa situação de agravamento estrutural, daquelas a que o Evangelho se refere como a tentativa de se pôr remendo novo em pano velho (cf. Mt 9, 16).
        Na experiência do Seguimento de Jesus, os pobres são tratados bem mais do que como alvo de gestos caritativos. Em alguns documentos do Concílio Vaticano II, encontramos certa inquietação quanto a freqüentes equívocos e confusões entre atos de justiça e atos de caridade. O Vaticano II estava preocupado com evitar que “se ofereça como dom de caridade aquilo que já é devido a título de justiça.” (Apostolicam Actuositatem, nº 8).
        No espírito do Evangelho, os pobres são chamados por Jesus a serem protagonistas de sua libertação. É assim que Jesus lida com os enfermos curados:“Minha filha, tua fé te salvou. Vai em paz.” (cf. Lc 8, 48). E o quê dizer da palavra de Jesus dirigida aos discípulos que lhe pediam para despedir a massa faminta: “Dêem vocês mesmos de comer”, Mt 14, 16). É Jesus quem chama os pobres a fazerem sua parte no processo de libertação, simplesmente por serem os primeiros destinatários do anúncio da Boa Nova, como lemos em Lc 4, 18-19: “O Espírito do Senhor repousa sobre mim, pois Ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos.”
        Não é por acaso que não poucos se reportam a essa passagem do Evangelho, nela vislumbrando o Programa de Jesus. Tem sido também o nosso, nas atividades diaconais?
        Nesse sentido, que pistas poderíamos ensaiar, de modo a dar um salto qualitativo (do ponto de vista do Seguimento de Jesus), em relação aos procedimentos mais convencionais de cuidarmos dos pobres, hoje? Será que não somos chamados a reavaliar certas práticas de cuidado dos pobres? Não se trata de desconhecer as boas intenções e os bons propósitos aí observáveis. Há muita generosidade e dedicação aos pobres, por aí afora. Graças a Deus por tanta gente dedicada à assistência aos pobres. A imagem que nos acorre é a de uma grande multidão de enfermeiros e enfermeiras a acudirem tantas vítimas desprotegidas. Trabalho por certo indispensável. Desafio é percebermos o quê fazer, quando observamos o incessante crescimento dessas vítimas, num ritmo alucinante, como se estivéssemos numa guerra de enormes proporções, de modo a inviabilizar nosso gigantesco esforço de dar vencimento a esse trabalho. Quanto mais nos desdobramos, conseguimos aliviar a dor de muita gente, por um lado, e, por outro, sentimo-nos impotentes para atender a uma quantidade incontável de outros enfermos tombados nessa “guerra”. É bem o caso que se passa em nossa sociedade globalizada nos padrões do  Capitalismo. Neste caso, somos chamados a rever nossas práticas, de modo a que possamos atender a todos os necessitados.
        A partir de tal constatação, vamo-nos convencendo de que precisamos, sim, manter os serviços de assistência aos caídos, e, ao mesmo tempo – e com prioridade - dispor de não menos gente a buscar conter a máquina de guerra de fazer feridos aos milhões... É aqui que se impõe o dever de combater o mal pela raiz. A essa altura, surgem vários caminhos e possibilidades, a partir do levantamento de questões do tipo:
- De onde estão vindo tantas vítimas, bem além daquelas que conseguimos cuidar?
- Que máquina ou que mecanismos são esses, geradores de mortes e feridos aos milhões?
- Quem está por trás dessa máquina?
- Apesar de multiplicarmos as nossas atividades de assistência, constatamos que as vítimas não cessam de crescer e de se multiplicar. Será mesmo porque não há comida para todos? Será que as riquezas hoje disponíveis não são suficientes para garantir vida digna para todos? Será que é preciso apoiar os governantes de tantos países que prometem distribuir riquezas somente depois de conseguirem crescimento econômico? Será que já não vimos esse filme, como no tempo da Ditadura empresarial-militar, em que o então Ministro Delfim Netto defendia o “Primeiro, vamos fazer o bolo crescer, para depois distribuir”...  
- Será mesmo necessário um aumentar tão alto de ONGs (só no Brasil, fala=se em mais de 250 mil...), para receberem recursos públicos e privados, para depois repassarem aos necessitados? Isto não significa, em parte, dispensar o Estado de cumprir suas políticas públicas, com os meios financeiros e infraestruturais de que se acha dotado?
- Ou, em vez disso, devemos mudar radicalmente nossas atitudes, em busca de uma mudança eficaz?
- Será que, em vez de confiarmos às instituições particulares – inclusive as igrejas – a missão de dar conta das demandas dessas multidões abandonadas, como ovelhas sem pastor, recorrendo também a parcerias com o Estado e instâncias privadas, não seria mais eficaz juntarmos forças na organização das vítimas, no sentido de ajudá-las a serem protagonistas de mudanças efetivas e de longo alcance nas políticas públicas?
- Ao longo de séculos do regime do Padroado (aliança entre o trono e o altar ou parceria entre a Igreja e os reis), cujas conseqüências trágicas foram bem sentidas pelos povos indígenas e pelos africanos reduzidos à escravidão, e apesar do alerta evangélico de que a árvore se conhece pelo fruto (cf. Mt 17), a tendência dominante ainda hoje continua sendo a de apostar e investir em “parcerias” com o Estado, em suas diferentes esferas. Não bastassem as duras lições de um passado sombrio, não valeria ponderar essa prática, tomando em conta que os vícios dos espaços governamentais não cessam de se multiplicar, de um lado, e, por outro lado, que força ética e profética teríamos para denunciar tantos escândalos, se nos achamos financeiramente dependentes? Afinal, como diz a sabedoria popular, “Quem come do meu pirão, prova do meu cinturão”...
        É claro que uma decisão desse tipo requer toda uma caminhada (pessoal e coletiva), que passa por um incessante processo de formação (também pessoal e coletiva). Implica, por exemplo, fazer uma experiência alternativa junto a pessoas e grupos que propiciem uma visão alternativa de sociedade, bem como de nossas práticas habituais. E aqui já começa o enfrentamento de um primeiro obstáculo: em geral, temos a tendência a restringir nossos contatos apenas a espaços, pessoas e grupos que sentem, pensam, querem e agem de modo muito semelhante a nós mesmos. Privamo-nos, com freqüência, de necessárias e fecundas experiências do diferente, por comodismo, por insegurança, por medo, por omissão e, pior, às vezes até por nos acreditarmos melhores do que os outros... E assim deixamos de aprender “coisas velhas e novas”. O Espírito que sopra onde quer, não se deixa enjaular em nossas gaiolas privativas. Insufla seus conselhos para bem além de nós. Precisamos estar antenados e abertos também a esses influxos.
        É o chão do processo formativo contínuo (pessoal e coletivo) que nos vai propiciando essas aventuras ao novo, ao diferente, ao alternativo. Por meio de convivência, de conversas, de leituras, de aprendizado com os diferentes, vamos tendo acesso a outras possibilidades de organização social, de exercício político não=convencional, de vivência de outros valores.
        Aos poucos – e continuamente -, vamos percebendo que outro mundo é possível; que não existe apenas um único modo de se fazer política, de organizar a sociedade, de nos conduzir nas coisas miúdas do dia-a-dia, inclusive na esfera do Diaconado. Passamos, com a graça de Deus e com o nosso empenho, a ver coisas novas, a ouvir o que antes não alcançávamos, a sentir de um jeito novo, alternativo, a queerer e a dar passos nessa direção..
        Toda a grade de valores hegemônicos vai sendo sacudida e desmontada, cedendo terreno a outros valores. Contra a ideologia do individualismo  e competitividade acirrada, vamos aprender – não de boca para fora – a exercitar o altruísmo e a cooperação. Contra a mania de tirar vantagem em tudo, vamos aprendendo a ensaiar passos no universo da gratuidade, fazendo do bem, não uma tática de obter vantagens, cargos e prestígio, mas um fim em si mesmo - a alegria de dar sem esperar receber.
        Felizmente, isto já acontece, ainda que molecularmebte, inclusive em nosso meio. Quantas pessoas conhecemos por aí, que têm o bendito hábito de visitar, sem estardalhaço, outras pessoas, de preferência, pessoas mais sofredoras e esquecidas? Quantas pessoas já conhecemos que, diante da moda de se isentar das tarefas caseiras e outros trabalhos manuais, tratam de assumi-los, sem prejuízo de suas suas atividades outras? É nessa ação molecular, portadora de sementes de uma nova sociabilidade e de uma Igreja servidora e pobre, que vamos dando passos de conversão, também no cotidiano diaconal.

Obs. Por conta de minha limitação de vista e da disponibilidade de tempo, optei por desenvolver os pontos acima, por meio do seguinte itinerário:

A SERVIÇO DA CARIDADE:
incidência no dia-a-dia diaconal


- Assim como em 1Cor 13,  também na tríplice dimensão do Diaconado, a prevalência deve ser a do Amor alimentado pela Palavra de Deus.

- Nosso esforço de viver a Caridade deve impregnar todas as esferas da vida (econômica, política, cultural) e dimensões (relação subjetiva, intersubjetiva, cósmica, afetiva, de gênero, de etnia, de trabalho, de geração, relação com o Sagrado...)

- O contínuo exercício da escuta da Palavra, como se dá na leitura orante, torna-se visível por meio de gestos concretos, moleculares ou mais visíveis.

- O dia-a-dia diaconal nos interpela e apela à conversão incessante, diante dos enormes desafios enfrentados:
- com relação à grade de valores dominantes;
- sofisticadas formas de fuga da cruz
- dificuldade de nos relacionarmos com os pobres (tentação docente, atitudes assistencialistas, relação de dependência, relação pragmática, indisponibilidade de agenda, tratamento diferenciado...)
- tendência ao reducionismo dos pobres aos “de casa”

- Pouca confiança nas apostas de transformação, vistas como utópicas e algo distante...

- Tendência ao conformismo com as estruturas deste mundo.

- Tendência a reduzir o nosso trabalho aos “de casa”

- Indisposição de tomar como prioridade efetiva nosso processo de formação contínua (ou a reduzi-lo à dimensão intelectiva)

- Pouca sensibilidade aos trabalhos manuais


Parnamirim/Natal, 16 de janeiro de 2010

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

VIII SEMANA TEOLÓGICA Pe. JOSÉ COMBLIN Jornada Comunitáriaria animada pelo Grupo Kairós, realizada na Capela Ecumência da UFPB, no dia 05.08.2018


VIII SEMANA TEOLÓGICA Pe. JOSÉ COMBLIN
 Jornada Comunitáriaria animada pelo Grupo Kairós, realizada na Capela Ecumência da UFPB, no dia 05.08.2018,

Alder Júlio Ferreira Calado


Como prevista na Programação da VIII Semana Teológica Pe. José Comblin (STPJC) (cf. o “link” https://teologianordeste.net/viii-semana-teolo-gica-pe-jose-comblin.html), tivemos, na manhã deste domingo passado, a Jornada Comunitária (uma das quatro que precedem a Sessão de Enceramento da VIII STPJC, a Jornada Comunitária, na Capela Ecumênica da UFPB, em João Pessoa – PB, da qual segue um registro.

Das 08 horas às 11h30, tivemos a graça de compartilhar desse momento forte de vivência processual desta VIII STPJC, a partir do tema que vimos trabalhando: “Medellín, 50 anos: vocação e missão das Leigas e dos Leigos, à luz da tradição de Jesus”. Como havia sido combinado com os ouros grupos coorganizadores da VIII STPJC, cada Jornada comunitária refletiria sobre um dos cinco capítulos (dentro os dezesseis) componentes do Documento de Medellín. Dos 5 priorizados pelos grupos – Justiça, Paz, Pobreza, Juventude, Movimentos Leigos – foi proposto ao Kairós refletir sobre o capítulo relativo ao Laicado, até por buscar responder a convocação feita pela CNBB, que dedicou o ano de 2018 ao Laicado, e, antes disso, à convocação feita pelo Bispo de Roma, em sua proposta pastoral para os próximos anos na Exortação Apostólica “a Alegria do Evangelho”.

Como fruto de cuidadosa preparação conjunta, conduzida por uma Equipe de Leigas do Kariós (Aparecida, Glória e Lúcia), aberta a quem mais quisesse colaborar, foi elaborado um inspirado Roteiro para a celebração e estudos constantes da Jornada, além dos preparativos de arranjo do ambiente (Capela Ecumênica da UFPB).

Já antes das 08h30, eis que se põe a postos a Equipe de Recepção, a ultimar os últimos arranjos, instalar equipamentos de som e outros materiais. E as pessoas iam chegando a cumprimentar-se e a respirar a beleza daquele ambiente circundado pela mata, sentindo-se a brisa, ouvindo-se o canto dos pássaros, ao som da canção “tudo está interligado” (cf. https://www.youtube.com/watch?v=1do_VBZG9Ps .

Por volta das 8h30 seguindo o roteiro teve início a celebração com acolhida e as boas vindas (feitas por Aparecida em nome do Kairós) às pessoas presentes. Na mesma acolhida, foram anunciados os passos a serem vivenciados, começando pelo canto “eu vim para que todos tenham vida” (cf. https://www.youtube.com/watch?v=4t05u3nmoBc), que mereceu uma reflexão compartilhada, considerando-se o espírito da liturgia do dia, o tema da celebração e as circunstâncias históricas da canção, tema da campanha da fraternidade do ano de 1974, tempo de Chumbo, em plena ditadura civil-militar.
Passou-se, então, para o canto de proclamação do Evangelho, “toda palavra de vida” (cf. https://www.youtube.com/watch?v=HyDVFU12MbU), seguindo-se a leitura do Evangelho do dia João 6,24-35 (cf. confira integra da leitura no roteiro em anexo). Seguem-se um momento de silêncio e a partilha da Palavra, por várias pessoas participantes da jornada. Tratou-se também de recitar e meditar o salmo do dia.
O próximo momento foi dedicado a uma breve contextualização do tema “Medellín, 50 anos: vocação e missão da Leigas e dos Leigos, à luz da tradição de Jesus”, em que foram partilhadas algumas reflexões rememorativas e provocativas acerca do tema. Em seguida, foi feita, à várias vozes a leitura do capítulo do Documento de Medellín, concernente ao Laicado. A partir daí abriu-se um fraterno debate sobre o contexto histórico da realização daquela conferência de Medellín, em 1968, bem como sobre o legado, o potencial profético e os limites daquele acontecimento eclesial, que inspirou um profundo esforço de refundação da Igreja Latino-Americana e do Caribe, de modo a inspirar proféticas iniciativas no campo sócio eclesial, impulsionando as CEBs, a teologia da libertação, as pastorais sociais e todo uma rede de serviços em defesa e em promoção da “opção pelos pobres”. Também, reflexões foram partilhadas sobre os desafios sócio eclesiais da atualidade, buscando fazer a ponte entre o ontem e o hoje, com cuidado de bem distinguir os desafios de ontem e de hoje.
Feitas as reflexões em cima do texto, foram prestadas várias informações sobre as próximas jornadas comunitárias e a Sessão de encerramento da VIII STPJC, encerrando-se com o convite feito por Elias e Marinete, para saborearmos fraternalmente o bolo e o café que nos ofereceram, enquanto Andrea tratava de fazer vários registros fotográficos, durante toda a celebração.

Eis um breve resumo do que foi a Jornada Comunitária animada pelo Kairós.

João Pessoa, 10 de Agosto de 2018.





terça-feira, 31 de julho de 2018

ENCRUZILHADA BRASIL: dilemas, apostas e responsabilidades



Em memória de Octavio Ianni

Alder Júlio Ferreira Calado*

            Não é segredo que estamos chegando aos limites da tolerância - se já não os tenhamos atingido -, no que tange ao incessante agravamento do atual quadro social e político brasileiro. A uma eventual cobrança de justificativas a esse respeito, tendo a responder, apelando para o refrão de uma canção, que, cheio de indignação cívica, costumava ouvir, nos sombrios anos 70: “Não há considerações gerais a fazer/ Tá tudo aí/ Tá tudo aí/ Para quem quiser ver...”
            A despeito de reconhecer avanços pontuais, no varejo, pergunto, com efeito, se haveria mesmo necessidade de reavivar a memória do leitor/da leitora - neste caso, pela enésima vez -, quanto ao agravamento de índices decisivos tais como concentração de terra, de renda e de riquezas, desemprego, déficit de moradias, compressão salarial, especulação financeira, política de juros (inclusive com lucros escorchantes e acintosos dos bancos), índice de falências, recessão, desenfreado crescimento da violência social, em breve, uma cadeia de índices sócio-econômicos e políticos dando conta do progressivo aviltamento da qualidade de vida dos Humanos e do Planeta, do caráter, da extensão e do ritmo do crescente empobrecimento da maioria da população.
            A propósito, sempre que escrevo sobre isso, me vem logo à lembrança o teor de um artigo escrito por Florestan Fernandes, no Jornal do Brasil, de 1º de maio de 1989, intitulado “Um amargo quarto de século”, analisando o saldo de vinte e cinco anos do Brasil de 1964 a 1989, no qual externava, a justo título, seu sentimento de revolta, ao constatar, perplexo (a despeito de sua longa experiência como sociólogo em fazer análise de conjuntura), que as coisas não apenas não haviam melhorado, como vinham até piorando.
            À semelhança do que se passou com Florestan Fernandes, sobre isso não deveria, em princípio, haver surpresa para quem, por razões profissionais ou de efetivo exercício de uma cidadania alternativa, vem acompanhando esse processo, já há algum tempo. E não apenas no que concerne ao Brasil. No caso específico da sociedade brasileira, é notória e bem festejada a astúcia dos setores dominantes em sua arte de forjar as mais excêntricas situações de conciliação “por cima”: sempre que suspeitam de alguma ameaça de mudança em curso, logo cuidam de se antecipar, introduzindo leves e estéreis modificações, com o verdadeiro propósito de manter intacto o essencial. Trata-se de mexer em algo secundário, com a firme intenção de em nada mexer de substantivo. Se for o caso, prontificam-se até a “perder os anéis”, contanto que não percam os dedos.
Sendo, portanto, esta a reiterada prática da mais remota tradição dos grupos dominantes de nossa sociedade, sua capacidade de forjar alianças, com o propósito de inibir e de impedir qualquer mudança digna deste nome, em vários períodos de transição (o caso das “Diretas-Já”, por exemplo, não terá sido o último nem o mais recente...), nada, pois, haveria a estranhar, sob esse aspecto.
Há, contudo, algo de novo, no atual cenário: as principais forças que recentemente accederam ao governo do país, se reclamavam abertamente, até há bem pouco, e ao longo das últimas décadas, de esquerda, opostas, por conseguinte, à tradição conservadora. A despeito de estranhas concessões, especialmente por ocasião dos embates eleitorais, continuavam depositárias da mais ampla confiança das massas trabalhadoras em seus propósitos declaradamente mudancistas, tendo sido justamente este, seu principal trunfo na vitória eleitoral de 2002. E, no entanto, agora no governo, pensam - e sobretudo fazem - diferente , quando não mesmo ao contrário de quase tudo em que diziam apostar...
            Ainda que essa guinada – que não se deu de forma tão abrupta, como pensam não poucos, – comporte evidentes desdobramentos de natureza ideológica, ao presente artigo interessam, antes, seus rebatimentos mais diretamente econômicos e políticos sobre o cotidiano da vida dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil, devendo, desde já, assinalar que é a partir da perspectiva desses protagonistas, e não a partir da ótica dos interesses do Capital, do G-7, dos organismos multilaterais sob seu controle e de seus aliados, que importa interpretar os argumentos aqui expostos.
            Levantamos, de início, alguns fatos considerados dos mais impactantes, a título de situar os principais dilemas com que se tem defrontado a sociedade brasileira, no (des)compasso do Governo Lula. Em seguida, tratamos de listar e comentar algumas apostas presentes no atual cenário, seja as defendidas pelo atual Governo, seja as reivindicadas por forças com propostas alternativas, após o que se indicam riscos pertinentes a tais apostas. No final, nos perguntamos pelo papel das forças que se reivindicam de uma esquerda alternativa, para além dos espaços governamentais e parlamentares.

1. Dilemas expressos por fatos emblemáticos

            Ninguém desconhece o peso da “herança maldita” legada ao atual Governo, à qual, contraditoriamente, dá.continuidade. A política econômica da era da globalização dita neoliberal, implementada durante os oito anos do Governo Fernando Henrique Cardoso, sem contar o período Collor de Mello, foi - todos sabemos – de voraz privatização de parte substantiva do patrimônio nacional, de sucateamento e desmonte das políticas sociais básicas, de crescente e acelerado endividamento, de aprofundamento dos laços de sujeição em relação ao segmento mais parasitário do Capital (o do setor financeiro), da veloz expansão da violência social, entre outras marcas.
            Não faz muito, por ocasião de um Encontro Estadual do PT, na Paraíba, realizado em outubro de 1999, foi da boca do então presidente do Partido, José Dirceu, que partiu, a justo título, a indignada denúncia da sangria resultante do pagamento, pelo Governo FHC, em ano anterior, de cerca de 100 bilhões de dólares, desembolsados a título de pagamento dos serviços do endividamento. Desembolso então considerado, com toda a razão, um escândalo.
            Igualmente, até há bem pouco tempo, era clara e firme a oposição do PT à implantação da ALCA - Área de Livre Comércio das Américas, capitaneada pelos Estados Unidos. Bastante significativo foi seu apoio inicial ao plebiscito promovido pelos movimentos sociais populares e outros organismos da sociedade civil, primeiro, sobre a dívida e(x)terna, e em seguida, sobre ALCA. As razões são bem conhecidas. Trata-se, no fundo, de uma tentativa do Governo dos Estados Unidos, de recolonizar ou, mais precisamente, de aprofundar os laços de sujeição dos países do continente aos caprichos econômicos e políticos (com claros desdobramentos militares e culturais) do Império. Eis que, de repente, os dirigentes do PT mudaram de idéia, ao forçarem o Partido a retirar o seu apoio à referida campanha. Pior: uma vez eleito Presidente da República, com uma votação consagradora, com o compromisso de mudança, o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva simplesmente aceita ser alçado à co-presidência da ALCA, lado a lado com o Presidente Bush.
            Antes e durante a campanha presidencial, o então candidato Lula, expressando o propósito de seu Partido, não se furtou a reconhecer o óbvio: o agravamento do desemprego no Brasil. Mais: acenou para a meta de criação de dez milhões de empregos, até ao final do seu Governo, aí incluída a chamada política do primeiro emprego, a contemplar os jovens.
Uma vez eleito presidente, em vez de buscar as reais condições de geração de emprego (o que passa, entre outras medidas, pelo reexame da política fiscal e da política de endividamento), tenta retificar, negando haver prometido, assumindo que teria apenas reconhecido a necessidade de geração de semelhante contingente de novos postos de trabalhos. Passados mais de 16 meses do Governo Lula, a situação do desemprego não apenas se manteve, como até se tem agravado...
            Fato igualmente emblemático foi o que ocorreu ainda no curso da mais recente campanha presidencial. Com o claro objetivo de algemar, por antecipação, os candidatos de maior potencialidade eleitoral, o FMI trata de fazê-los firmar – e, Lula à frente, todos accedem! – um acordo de fidelidade canina aos compromissos assumidos pelo Governo FHC...
            A respeito de sua avaliação, no quadro da disputa eleitoral, também se pronunciaria, em Caros Amigos, Octavio Ianni (recém-falecido), um dos mais conseqüentes sociólogos brasileiros. Posicionando-se em relação aos principais candidatos à presidência, não hesitou em manifestar seu ceticismo, por lhe parecer clara a efetiva impotência dos centros internos de decisão: não importando quem fosse o eleito, o Brasil não passaria de um vice-reinado...
            Eleito presidente por uma maciça e estupenda votação, começa a se revelar mais abertamente o peso do pragmatíssimo jogo de alianças, a partir mesmo da composição de seu ministério, principalmente nos cargos-chave... Daí por diante, já a ninguém mais deveria surpreender toda uma cadeira de medidas e omissões, dentre as quais:
- fixação (inclusive para além do formalmente exigido!) de meta generosíssima do superávit primário;
- observância escrupulosa da Lei de Responsabilidade Fiscal, em virtude da qual os cofres públicos passam a ter como finalidade central a de assegurar reservas destinadas ao pagamento dos serviços da dívida;
- a pretexto de “honrar compromissos” com credores, determinou até cortes suplementares no orçamento das políticas sociais, afetando até o Projeto Fome Zero;
- vistas grossas para o insuportável nível de concentração de riquezas e rendas no Brasil, em que, conforme o Atlas da Exclusão Social – Os ricos do Brasil, 45% das riquezas produzidas ficam concentradas nas mãos de apenas 5 mil famílias. Número, aliás, correspondente a parte do que a mídia costuma chamar servilmente de “o Mercado”, envolvendo proprietários de grandes empresas e de grandes bancos como Bradesco, Itaú, Unibanco, HSBC, ABN Real, Santander, Safra, Votorantim, Volkswagen, GM, Parmalat, Sadia, Nestlé, Globo, SBT, Pão de Açúcar, Odebrecht, entre outros...
- celebração de acordos no Parlamento, visando a formar maioria na Câmara e no Senado (e, por extensão, nas Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais, além de outros espaços governamentais), sob critérios no mínimo suspeitos, do ponto de vista ético-poítico, a implicar acordos com notórios grupos fisiológicos do Congresso;
- manutenção (ou redução simbólica) da política de juros dos mais altos do mundo, antes tão combatida pelo PT, a demonstrar sua relação privilegiada com o mundo financista;
- gestões feitas no sentido da aprovação pelo Congresso da impropriamente chamada autonomização do Banco Central (que selaria definitivamente nossa renúncia à soberania);
- desastrada condução do processo de Reforma da Previdência, enfim aprovada para deleite do FMI e das empresas de previdência privada;
- descumprimento das metas de Reforma Agrária, abusando da paciência dos movimentos sociais do campo, o que precipitou, este ano, o desencadeamento do “Abril Vermelho”, com dezenas de ocupações por todo o país;
- completo abandono da meta de geração de empregos, pelo menos na proporção sinalizada na campanha: em vez de novos empregos, o que se viu foi o crescimento do desemprego...
- aposta equivocada no programa conhecido como PPP (Parcerias Público-Privadas), não por acaso fortemente “recomendadas” pelos organismos multilaterais como FMI e Banco Mundial, não sendo tampouco por acaso que tenha figurado na “Carta de Intenções” do Governo Lula ao FMI, assinada em novembro de 2003, envolvendo sérios riscos aos cofres públicos e à nossa já combalida soberania;
- manutenção da política de compressão salarial, haja vista o valor do “aumento” do Salário Mínimo...
- continuação da política de desmonte e sucateamento dos serviços públicos, inclusive na pretendida reforma universitária;
- empenho na reforma trabalhista, passando pela reforma sindical, com o firme propósito de fazer o jogo do Mercado, precarizando ainda mais as relações de trabalho já tão fragilizadas, e cassando o que resta de direitos aos trabalhadores;
- participação no mínimo reticente nas reuniões da ALCA, incluindo encontros com Bush; - - até com Blair tem se encontrado o Presidente Lula, e com declarações lisonjeiras, mesmo estando aquele sob o fogo cruzado das pesadas denúncias relativas à cruel ocupação do Iraque;
- posição dúbia do Governo brasileiro frente à invasão do Iraque, mantendo uma postura irenista (de paz a qualquer custo, sem qualquer disposição de denunciar firmemente os ocupantes e seus crimes contra os prisioneiros), contentando-se com reclamar a condução da ONU, sem atentar para critérios éticos (por exemplo, em caso de autorização de invasão por uma força internacional, o Governo brasileiro, ainda assim, apoiaria a ONU incondicionalmente?);
- silenciamento ou complacência sobre os horrores do terrorismo de Estado, praticado pelas forças invasoras, cujo episódio trágico mais recente são as cenas de torturas infligidas por soldados das tropas estadunidenses e inglesas às vítimas iraquianas. Pergunta-se até que ponto tal comportamento do Governo brasileiro não se deve à sua pretensão de integrar, em caráter permanente, o Conselho de Segurança da ONU, em vez de questionar o verniz democrático da ONU, que continua a assegurar a cinco membros do Conselho de Segurança (Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e China) o odioso privilégio do veto, pondo abaixo qualquer decisão democraticamente tomada pelo conjunto das nações?

2 -Novas apostas: o que está por trás?

            Mudanças de tom, de acentos e até de procedimentos não deveriam constituir surpresa, no complexo terreno das relações políticas. Autores como Max Weber e seu contemporâneo Ernst Troeltsch, a partir de seus estudos sobre a evolução das “seitas”, já haviam alertado para a tendência à burocratização manifesta por grupos religiosos (“Seitas”, no sentido weberiano), portadores de características hoje extensivas a alguns movimentos sociais que, ao irromperem com práticas e discursos de ruptura da ordem vigente, à medida que, com o passar do tempo, vão obtendo certas conquistas ou certos espaços de poder, passam a amenizar, ou vão mesmo perdendo seu ímpeto inovador, característico de suas origens.
            Seria isso característico apenas das seitas do passado? Ou teria, antes, que ver com recentes movimentos sociais (inclusive sindicatos e partidos nascidos de movimentos)? A que se deve tal comportamento: à natureza mesma desses movimentos ou à forma como se organizam e intervêm nos espaços do cotidiano? O que os faz mudarem de apostas? É o que tentaremos examinar, a seguir.
            Já durante a campanha presidencial, eram freqüentes as declarações irenistas por parte do candidato, cuja postura não tardaria a ser definida como do gênero “Lulinha – paz e amor” seria, enfim, a marca registrada da campanha. E para além desta. E não apenas por razões táticas, o que, do ponto de vista ético-político, já não seria aceitável. O candidato e o chamado núcleo duro do PT, que cercava de perto o candidato, já haviam mudado de posição, a despeito de reiteradas declarações em contrário. José Genuíno, alçado à presidência do PT, não se cansaria de repetir: “Mudamos muito, amadurecemos, mas não mudamos de lado.” Valem as palavras ou as práticas? O que estaria por trás dessas (novas?) apostas?

Alcançar o Governo como meta central

Em princípio, nada de novo há na aposta tão característica dos partidos políticos, como a de alcançar o Governo. Desde os primeiros passos do então Movimento pró-PT – para não recuar a outros períodos de nossa história - esta aposta figurava certamente nos sonhos daqueles protagonistas. Sonho, aliás, de todo partido político, independentemente de seu horizonte político. Nem mesmo os partidos revolucionários, salvo exceções ditadas pela conjuntura, recusaram esse caminho.
Tampouco surpreende que os partidos convencionais, indo bem além disso, persigam o Governo inclusive como sua meta central. Tem sido assim nas democracias ocidentais, razão maior, aliás, do firme engajamento dos seus quadros nos periódicos embates eleitorais.
Não era esse, porém, o entendimento do PT das origens. Chegar ao Governo, sim, mas não a qualquer preço. A meta central era a construção de uma sociedade alternativa – justa, solidária, socialista. A esse respeito, farta é a documentação produzida, discutida e aprovada nas diferentes instâncias do PT, a começar pelos seus documentos fundantes. Esse, o horizonte que alimentava a mística de seus militantes. Fosse outra sua aposta, e teria conquistado o Governo, já há muito tempo. A diferença é óbvia. As razões, não menos.
            O abandono do critério da subordinação da conquista de espaços governamentais ao projeto de construção de uma sociedade socialista está por trás da aposta atual. Ainda quando alguns dirigentes e parlamentares teimam em reafirmar seu propósito “socialista”, suas práticas falam mais alto. E são essas, as que contam.



Progressivo nivelamento aos partidos burgueses

Sobre esta questão, venho refletindo, já há algum tempo (cf. Calado, 1997; 1999; 2003). Sobretudo a partir de meados dos anos 90, partilhando idéias com outros estudiosos diante de contextos semelhantes, como o de Portugal (cf. Rodrigues, 1997; 2000), já não me anima mais apostar, em semelhantes conjunturas, na eficácia transformadora da ação parlamentar. Os espaços governamentais e parlamentares vêm se transformando, mais do que nunca, em campo minado para a ação instituinte, na perspectiva dos “de baixo” (para usar uma expressão cara também a Florestan Fernandes). Os argumentos já são conhecidos.
Relegado o horizonte socialista, o resto vem por acréscimo. Com efeito, no caso do PT (mas, não apenas o PT), após os primeiros embates do Partido, nos anos 80, à medida que iam sendo conquistados postos no Parlamento e em outros espaços governamentais, crescia o insaciável apetite por cargos e funções, e, com ele, o progressivo abandono dos critérios e apostas antes seguidos. Há toda uma gama de práticas que foram tomando conta do cotidiano do Partido. Lembremos algumas:
- o processo eleitoral (e com ele, toda uma vasta gama de conseqüências) passou a ser o foco central – por vezes, o único – dos dirigentes e de parte significativa da militância;
- o afastamento das lutas e dos movimentos sociais por parte de expressiva maioria de militantes, agora mais afeitos às lides governamentais, confirmando assim a tendência ao viés burocratizante, em prejuízo do caráter instituinte, até então predominante;
- nada desprezível é o número dos que trocaram os embates classistas por fratricidas disputas internas por cargos e posições, seja nos espaços parlamentares/governamentais, seja na máquina sindical;
- o maciço investimento do(s) partido(s) no processo eleitoral surtiu efeitos significativos em pelo menos duas direções:
a) no âmbito estritamente eleitoral: a cada campanha eleitoral realizada a cada dois anos, a esquerda partidária (PT e seus aliados) lograva uma expressiva ampliação de seus quadros, tanto nas instâncias parlamentares quanto nos espaços governamentais ligados ao poder executivo
            b) no plano ético-político: abandono de práticas e discursos classistas; distanciamento dos princípios que inspiraram a fundação do(s) partido(s); abandono dos critérios que orientavam o(s) partido(s) a ser(em) construído(s) pela base (a prática da atuação nos núcleos nos locais de trabalho e moradia); progressiva tendência à centralização do poder em certos nomes ou instâncias privilegiadas; crescente descompromisso dos filiados em relação à manutenção financeira do(s) partido(s), passando este(s) a ser(em) mantido(s) basicamente pelos eleitos, o que, na prática, implica a vigência do conhecido “Quem come do meu pirão, prova do meu cinturão”; afrouxamento dos critérios de filiação partidária; progressivo agravamento da síndrome do aliancismo; inobservância dos critérios democráticos que, nos primeiros tempos, regiam a formação dos comitês eleitorais unificados; desvairada concorrência interna entre os candidatos, conforme a lei do mais forte ou do mais esperto; financiamento de fontes no mínimo duvidosas; conchavos celebrados à base de interesses futuros (do tipo “eu o apóio agora, e você me apóia nas próximas eleições”); descolamento dos candidatos e dos eleitos em relação ao controle democrático do(s) partido(s); estrelismo e briga pela auto-reprodução do mandato (com vasta infraestrutura assegurada ao titular do mandato, a serviço dos interesses individuais dos eleitos, tal como pelo figurino dos partidos “da ordem”)...
- crescente deslumbramento pelas instâncias parlamentares/governamentais, que passam a ser tidas mais como fins em si mesmas do que como instrumento de luta, o que é atestado, por exemplo, pelo apego ao mecanismo da reeleição permitindo a uma única pessoa o exercício de sucessivos mandatos;
- transformação do exercício parlamentar (ou de outros espaços governamentais), que é uma eventualidade da condição de cidadão, em carreira profissional, mediante sucessivas reeleições, implicando, na prática, abandono de sua condição de trabalhador / de trabalhadora;
- progressivo descompromisso do(s) partido(s) com o processo de formação política de seus militantes;
- por último, mas não menos relevante, convém sublinhar o enorme impacto político-pedagógico da influência direta ou indireta exercida por alguns milhares desses militantes/dirigentes sobre milhões de trabalhadores espalhados por esse País...
            Desnecessário lembrar que os sinais acima mencionados não devem ser atribuídos à totalidade dos militantes/dirigentes. Há, por certo, nesse(s) partido(s), quem aja diferente. As costumeiras exceções que não infirmam a regra. Contudo, mais do que registrar exceções no âmbito dos indivíduos, trata-se aqui de examinar, antes, o caráter institucional. E, sob este aspecto, torna-se difícil não generalizar.

Fábrica de justificas

Sob o fogo cruzado das reiteradas cobranças das bases, face à progressiva mudança de rumo, arma-se um verdadeiro arsenal de justificativas de duvidoso poder de persuasão.
            Não prometemos fazer a revolução – Cobrar ou esperar do PT, especialmente do seu núcleo dirigente, um programa revolucionário seria passar atestado de cegueira política. O que se esperava do PT, uma vez tendo alcançado o governo – o governo, não o poder! -  era que pusesse em prática suas promessas de campanha, por força das quais seu candidato recebeu aquela retumbante votação, em relação a políticas tais como democratização da terra, emprego, salário, defesa da soberania, combate à especulação, melhoria da qualidade dos serviços públicos essenciais. Nenhuma dessas políticas extrapola a alçada de um governo reformista, atento aos seus limites constitucionais. Até as forças adversárias, mesmo não concordando, esperavam isso do Governo do PT. O que se tem, entretanto, não é a revolução lulista que ninguém esperava, mas o simples descumprimento das promessas de campanha. É, no essencial, ou pelo menos em pontos fundamentais, a mais descarada continuidade da política de FHC, a propósito do que afirma, a justo título, Ivonaldo Leite: “A situação chegou a um tal ponto que, recentemente, muitos foram obrigados a engolir a seco a declaração de FHC segundo a qual, no Governo, ele teria sido mais esquerda do que o PT”. Sem que isso implique, evidentemente, qualquer apreço aos dois períodos do Governo FHC...
Não nos cobrem antes do tempo. Vamos cumprir tudo o que prometemos, mas não durante os quatro anos do nosso Governo – Até aos cem primeiros dias do Governo Lula, insistia-se em que não se deveria fazer um juízo apressado do seu desempenho, de modo a reivindicar resultados imediatos. Em vários debates, de que participei, naquela ocasião, tive a oportunidade de externar que não teria nenhuma dificuldade em esperar o tempo que fosse necessário, para que se cumprissem os passos, na direção das promessas da campanha, por força das quais Lula havia sido eleito.
O que me inquietava, então – e depois, muito mais – era precisamente a direção dos passos dados: quase todos sinalizando na direção oposta ao prometido. Como, ao menos no essencial, dar conta do programa de governo, anunciado à exaustão, durante a campanha, com aquele perfil de ministério, notadamente nos cargos-chave? Que diferença fundamental havia entre Armindo Fraga e Meireles, à frente do Banco Central? Instalado o Governo, não tardaria a despontar toda uma série de medidas apontando na direção inversa à prometida e esperada. Inclusive a disposição do Governo de, na questão do superávit primário, ir além do exigido pelo FMI...
Recebemos uma herança maldita. – E, contudo, contra todas as vozes dos aliados mais conseqüentes, teima em manter a medicação (ou o veneno?) antes administrada, que levou o país à bancarrota. A quem interessa a implementação de tal estratégia? Aos trabalhadores do campo e da cidade? Aos setores médios da sociedade? Aos setores industriais, dos quais é porta-voz o Vice-Presidente? Ou interessa, antes, ao setor mais parasitário do Capital, o do mundo das finanças? Interessa, sim, ao FMI e demais organismos multilaterais representantes dos interesses dos grandes conglomerados transnacionais e do G-7, à frente o Governo dos Estados Unidos.
Nós temos uma história – Uma das justificativas mais freqüentes – de que se tem, aliás, abusado – remete os críticos do PT ao passado do Partido e de seus dirigentes. “Olhem a nossa história. Nós temos um passado que merece respeito.” Ao que consta, o PT e seus dirigentes passaram a ser respeitados pelo seu passado de lutas, de fidelidade aos interesses da classe trabalhadora. À medida, porém, que suas práticas foram se distanciando desse horizonte, nada mais natural do que a mudança conseqüente de sua apreciação. Nisso não há a menor injustiça. O passado dessa gente continua sendo reverenciado, enquanto se guardou fidelidade à causa da classe trabalhadora.
Parafraseando um conhecido texto de Bertolt Brecht, que reverencia os lutadores do povo, considerando sua maior ou menor constância na luta (“Há homens que lutam um dia, e são bons. Há outros que lutam um ano, e são melhores. Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons. Porém, há os que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis.”), continuarão merecendo respeito e reverência aqueles e aquelas que, de um modo ou de outro, deram sua contribuição ao processo de emancipação dos que vivem do trabalho. Mas, é natural que, à medida que práticas colaboracionistas e até nocivas à classe trabalhadora vão se instalando e se contrapondo claramente às do passado reverenciado, esses protagonistas vão perdendo a reverência e o respeito da classe trabalhadora, até porque são outros, pelo menos objetivamente, os interesses a que passam a servir, e outros também os que os respaldam e elogiam...

3. Toda aposta comporta riscos e responsabilidades

            Seja como for, num contexto de grandes incertezas e instabilidade, não se deve esperar uma travessia sem riscos, qualquer que seja a estratégia adotada.
            Também uma aposta em outros protagonistas comportaria riscos. Será que vingaria, sem mais, a determinação de alguns dirigentes que se obstinassem, por exemplo, a exigir uma auditoria sobre a dívida externa, à revelia das forças vivas da sociedade brasileira? Ou a romper com o FMI, dessa maneira? Claro que riscos haveria, de todos os modos.
            Não se nega que uma eventual decisão do Governo brasileiro (será que ainda teria tempo, além de vontade política?), de ousar outro discurso perante o FMI (ainda que não fosse de ruptura) e outros organismos similares, no sentido de repactuar a questão do endividamento, comportaria algum tipo de risco. A mídia servil logo passaria a falar em “calote”, os telejornais ficariam repletos de declarações de represália por parte dos organismos multilaterais e de representantes do G-7, os banqueiros entrariam em cena com seu agressivo jogo midiático. Isso, porém, é mesmo impeditivo? Por acaso, não foi essa a história do movimento operário-camponês, em todos os tempos, inclusive nos primeiros tempos do PT? Por acaso, uma ação instituinte não tem preço algum a pagar? Tem que agradar a todos? Impossível: “Ninguém pode servir a dois senhores”.
            De se esperar seria, sim, que o Governo fosse respaldado pelo grito das ruas, por aqueles mesmos que o elegeram justamente para que fossem cumpridas as promessas de campanha, que todos já conheciam, inclusive os adversários. A propósito, nossos co-irmãos argentinos, em condições muito mais fragilizadas que as nossas, têm tomado atitudes de altivez frente à voracidade do FMI e seus patrões. Nem por isso a Argentina foi devastada.
            Por que não uma atitude mais firme em relação à repactuação do endividamento (que pessoalmente não reconheço), à Reforma Agrária, à recusa de participar da ALCA, à política de juros, à recusa de independentização do Banco Central, à política de emprego, à questão salarial, à política de habitação, às reformas do Estado, na perspectiva dos trabalhadores do campo e da cidade?
            Riscos sempre há. A alternativa melhor parece a que menos riscos ofereça, do ponto de vista dos protagonistas em que se aposte. No caso do Governo Lula, esperava-se que tal aposta recaísse em favor dos setores majoritários da sociedade civil, e não, como objetivamente vem ocorrendo, em benefício dos protagonistas do Capital, com a agravante de tratar-se do seu setor mais parasitário, ainda que não propriamente dissociado dos demais setores do Capital.
            Por conseguinte, no caso de o Governo continuar apostando no investimento no Capital especulativo; no caso de continuar apostando no receituário do FMI e do Banco Mundial; no caso de continuar a apostar na impropriamente chamada autonomização do Banco Central (na verdade, mais um ato de renúncia à soberania); no caso de continuar apostando (com ônus para o erário e sobretudo com ônus ético) nos votos da maioria fisiológica do Congresso; no caso de continuar apostando na ALCA; no caso de continuar a apostar em reformas do Estado, na perspectiva das forças do Capital, entre outras apostas, assume o Governo múltiplos e pesados riscos, cuja responsabilidade será cobrada, no seu devido tempo:
- comprometerá o tão prometido desenvolvimento sustentável;
- não terá como cumprir sua meta de Reforma Agrária;
- em vez de combater as causas e reduzir-lhe o impacto perverso, contribuirá efetivamente para o agravamento do desemprego, haja vista que já se estimam em mais de 70% os trabalhadores que sobrevivem da economia informal, com todas as conseqüências perniciosas, inclusive a receita tributária e da previdência social;
- contribuirá ainda mais com o sucateamento e desmonte dos serviços públicos essenciais;
- sucumbirá ao plano de aprofundamento dos laços de assujeitamento político e econômico aos ditames do Capital, inclusive de sua parte mais parasitária;
- continuará sendo elogiado pelo FMI, por Bush e cia., e começará a ser odiado pelos protagonistas das classes populares, que não tardarão a perceber e a cobrar pelo tamanho da infidelidade;
- precipitará a ira dos deserdados, cuja fome e decepção os levarão ao desespero e os farão explodir, haja vista o que se pode prever da ação de milhões de desempregados, de sem teto, de sem terra, enfim, de centenas de milhares de trabalhadores sem condições mínimas de assegurar sua dignidade.

4. Ainda há lugar para uma esquerda que se queira conseqüente?

            A onda burocratizante que se instalou, nos últimos anos, nos espaços governamentais, parlamentares, sindicais e outros agentes da sociedade civil que, em outros tempos, haviam jogado um papel relevante na animação das lutas e movimentos sociais, parece haver triunfado, em definitivo. Haveria, então, alguma chance de tentar se reverter esse quadro, buscando-se recuperar os sobreviventes dessa maré? Onde estariam eles e elas? Eles existem, sim, e se acham resistindo nos mesmos espaços desgastados pela tendência burocratizante, responsável pela frustrada tentativa de engessamento e imobilização dos movimentos sociais. Está aí o “Abril vermelho” para atestar. Pode-se, então, perceber aí a presença de pessoas e pequenos grupos a resistirem firmes, descontentes que se sentem com os “novos” rumos, que já nascem envelhecidos.
Há, sim, os descontentes que se manifestavam por meio de discursos irados, por vezes bombásticos; e há quem prefira expressar sua ira de maneira mais discreta nas palavras e mais eloqüentes em seus gestos. Trata-se de pequenos grupos espalhados por distintos espaços sociais, dentro e fora das instâncias oficiais, dentro e fora dos partidos de esquerda; dentro e fora das instâncias sindicais; dentro e foram dos espaços eclesiais; dentro e fora dos movimentos sociais...
Se o rótulo da vinculação institucional não constitui o critério definidor do perfil de um partido alternativo de esquerda, então que iniciativas passam a apontar, nessa direção? Vejamos, em seguida, alguns desses elementos.

Sinais definidores de uma esquerda alternativa

            Se em outras dimensões da vida humana e social, já não se concebe um esforço identitário pré-definido, acabado, posto que os Humanos, como seres perfectíveis que são, vivem mergulhados no plano histórico, no terreno político tampouco é razoável pretender-se uma identidade pronta. Vale a mesma orientação para a tentativa de um esboço de alguns traços identitários de uma esquerda que se pretenda comprometida com a alternatividade, inclusive no âmbito partidário.
            Para começo do esboço, cumpre ter sempre presente a direção dos seus passos. Se, de fato, se pretende construir um projeto de sociedade no campo da alternatividade, isto é, que se contraponha claramente à sociabilidade capitalista, cada passo (individual ou coletivo) deve refletir atitude de inevitável combate às práticas e à grade de valores da ordem dominante (individualismo, oportunismo, concentração de poder em mãos de poucos, concorrência, acomodação ao status quo, apego desmedido a cargos e funções concentrados em uma única pessoa ou num pequeno grupo, recusa à autocrítica, etc.) e, ao mesmo tempo, de compromisso com a construção de relações alternativas, pautadas por valores que apontem em direção oposta aos da ordem imperante (decisões tomadas pela base, direção colegiada, alternância de cargos e funções, espírito crítico e autocrítico, postura de autonomia em relação aos dirigentes, recusa da prática dos métodos combatidos nos inimigos, coerência entre prática e discurso, fidelidade continuamente testemunhada aos interesses das classes populares, inclusive em situações de clara infidelidade cometida pelo partido ou coligação, etc.)
            Pelo que ficou acima esboçado, percebe-se que rumo e procedimentos se acham de tal modo afinados, que transgredir um implica inobservância do outro. De um lado, merece toda a atenção o ensinamento da personagem José Dolores, do famoso filme “Queimada” – “É melhor saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir”; por outro, não devemos medir esforço em perceber que o jeito de caminhar no rumo almejado diz muito da intenção e da postura ético-política do caminhante.
            No que concerne ao rumo em construção, o horizonte de quem se põe a caminho, numa perspectiva de esquerda, não poderia ser outro senão o da classe trabalhadora ou, como costuma expressar Ricardo Antunes, “os-que-vivem-do-trabalho”.
Contribui nesta direção o partido que, ininterruptamente e de modo transparente, aposta na força transformadora do protagonismo das classes populares. E, ao permanentemente dar prova de sua fidelidade à classe trabalhadora, não concilia com, nem sucumbe à prática – hoje moeda corrente – do aliancismo, do colaboracionaismo ou dos conchavos interclassistas.
Nos escritos produzidos ao longo de sua vida, Paulo Freire, sempre que analisava a conjuntura, costumava lembrar ou explicitar uma verdade freqüentemente esquecida por segmentos que se pretendem de esquerda: a de que se torna impraticável a quem quer que se pretenda favorável aos interesses da classe trabalhadoras, não se pronunciar contrário aos interesses dominantes, implicando uma postura de denúncia e oposição aos interesses dos setores dominantes.
            No âmbito parlamentar, vez por outra, estamos a ler ou a escutar alegações autojustificativas de mandatários, em relação a atitudes e votos que contrariam suas declaradas posições de defesa dos interesses das classes populares. Declarações do tipo;”Eu votei, porque o partido fechou questão” ou “Embora eu tenha votado contra, eu recebo aquela verba, porque se não, ela fica para o Estado, e outros vão fazer mau uso da mesma.”
            Depois de sucessivas ameaças, alguns parlamentares do PT terminaram sendo expulsos, porque se recusaram a votar contra notórios compromissos históricos do Partido. A direção do PT tentava justificar – e continua justificando - que dentro do Partido há liberdade de opinião, mas, na hora do voto, todos devem fidelidade à posição assumida. Critério que estimula atitudes esquizofrênicas, à medida que induz que as pessoas externem uma opinião logo desmentida pela prática do voto: falar, podem à vontade, desde que ajam em contrário...
Contradição que pode ser observada, também, em posições corporativas freqüentes nas lides sindicais com viés burocratizante, em que, sob o pretexto de se lutar pelos interesses da categoria “x”, “y” ou “z”, não raro se perdem de vista os mais elementares interesses do conjunto da classe trabalhadora. Por exemplo, em vez de se fortalecer a luta em defesa do Sistema Único de Saúde (e de outras políticas públicas), parte-se para a defesa e adoção de planos de saúde paralelos....
            Outro traço que compõe o perfil de um partido alternativo acena para a formação de um partido-movimento, cujo maior emblema passa a ser o da figura de um peregrino, que faz do conjunto dos Humanos sua família, e do Planeta sua pátria, sem que isso implique qualquer perda de seus traços identitários (de subjetividade, de gênero, de espacialidade, de etnia, de idade, de cidadania, de condição profissional, de sua condição de ser cósmico e de sua relação com o Sagrado). Em suma, um partido-movimento necessariamente anticapitalista e, ao mesmo tempo, ininterruptamente comprometido com a construção de uma sociabilidade alternativa, marcada pela justiça social, pela solidariedade, pela radical democratização do saber, do ter, do poder.
            Um partido que seja capaz de romper as fronteiras intra e inter-partidárias, e de fincar raízes em diferentes segmentos da sociedade civil (movimentos sociais populares, setores progressistas de igrejas, etc.). Um partido que se constitua de pessoas e grupos atuando em qualquer espaço social, desde que comprometidos (mais pelas práticas do que pelo discurso), a partir dos embates do cotidiano, com o combate aos valores do Capitalismo, e com a construção permanente e ininterrupta de novas relações humanas e sociais, de fidelidade à causa libertadora dos empobrecidos.
            Esse esboço de partido instituinte requer, por certo, um perfil de militantes que corresponda aos desafios e exigências sócio-históricas, de modo a romper com as práticas e concepções ainda largamente dominantes. Trata-se, por exemplo, de militantes que
- primem, no plano subjetivo, pelo seu desenvolvimento integral, buscando aprimorar, de forma dosada, todas as suas potencialidades de ser cósmico e de ser humano+;
- sejam pessoas profundamente amorosas, apaixonadas pelo Povo, não importando que país ou região habite, e pela nossa Casa Comum, a Mãe-Natureza;
- sejam capazes de recuperar a primazia da perspectiva classista sobre quaisquer interesses de segmentos particulares, do âmbito local ao internacional, ou melhor dito, capazes de experienciar nos embates locais sua dimensão internacional, ao tempo em que, ao participarem de lutas internacionais, são capazes de perceber as implicações locais;
- se refontizem incessantemente da força revolucionária da memória histórica, recuperando lutas, façanhas e conquistas do passado e respectivos protagonistas;
- não abram mão do persistente exercício de crítica e auto-crítica;
- sua permanente disposição à autocrítica, alimentada pelo contínuo exercício da mística revolucionária, os ajuda sobremaneira a tornar viva e eficaz, enquanto intervenção presentificada, a memória histórica, de modo a não engessarem num passado longínquo e estéril suas referências de luta e de militância;
- ao apreciarem com carinho a memória e o testemunho exemplar de revolucionários e revolucionárias de ontem e de hoje, cuidam de evitar transformá-los em “gurus”, preferindo apostar mais na causa, no projeto, do que em seus protagonistas, e se a estes também prestam reverência, o fazem na medida em que encarnam o projeto;
- constante acompanhamento crítico da realidade social, mediante o recurso a fontes fidedignas, em função do que tratam de aprimorar suas estratégias de intervenção;
- efetiva vigilância no sentido de assegurar condições irrenunciáveis do protagonismo dos distintos segmentos da sociedade civil, em sua luta de libertação;
- no relacionamento com as pessoas e grupos de base, saibam pôr em prática uma pedagogia da escuta, aprendendo com os outros e buscando também exercer sua dimensão docente;
- tenham consciência de que a qualidade de sua aposta na Utopia é constantemente testada na oficina de tecelagem do Cotidiano, a partir dos gestos minúsculos e aparentemente invisíveis;
- sejam pessoas fortemente desinstaladas e desinstaladoras, ao mesmo tempo inquietas na tomada de iniciativas, e profundamente serenas, nos momentos de crise e de impasse;
- estejam conscientes de que navegam sobre águas revoltas, e quase sempre navegam à contra-corrente, o que implica uma postura ao mesmo tempo firme e serena de lutadores sociais;
- mostrem-se efetivamente empenhados no seu processo de formação continuada, nas distintas dimensões do cotidiano e da vida pessoal e grupal;
- exercitem, a cada dia, a mística revolucionária, em virtude da qual asseguram a renovação de seu compromisso ético-político, no horizonte de uma Utopia libertadora.

Considerações sinópticas

            Apostas, riscos, responsabilidades, alternativas – eis a que nos conduziu o rápido percurso pela “Encruzilhada Brasil”, a partir dos fatos e desafios com que se defrontam a Sociedade, o Estado e o Governo brasileiros, nesses tempos de Globalização neoliberal, como é conhecida e apelidada a fase atual do Capitalismo.
            Relembramos fatos e ocorrências de extrema gravidade, em relação aos quais o Governo Lula, de quem tanto se esperava, parece sucumbir. Continua a apostar (já não como mera tática, agora como estratégia) numa política econômica que o torna cada vez  mais refém dos caprichos do segmento capitalista mais parasitário, o mercado financeiro, a quem servem os organismos multilaterais (FMI, Banco Mundial, OCDE, OMC...), cuja receita é adotada como dogma. Não são por acaso os freqüentes elogios públicos que deles o Governo Lula tem recebido.
            As promessas de campanha – que já eram bem distintas das campanhas presidenciais anteriores – vão sendo descumpridas ou indefinidamente adiadas. Enquanto isso, os índices de empobrecimento e de aviltamento da qualidade de vida da maioria da população não cessam de se agravar, no essencial: do desemprego ao achatamento salarial; do sucateamento ou desmonte dos serviços públicos à escalada da violência social, para ficar apenas com esses exemplos.
Constantemente cobrado pelos seus eleitores, o Governo, em vez de corrigir rumos desastrados, empenha-se em forjar justificativas – uma fábrica de justificativas! -, fazendo apelo sistemático a sofisticados recursos de marketing, que valem o que valem.
            A despeito de todo o seu empenho em “encobrir o Sol com a peneira”, não vai conseguir escapar ao julgamento das vítimas, justamente aqueles que o Governo Lula diz representar.
            Como ensaio alternativo, observa-se em movimento uma rede de protagonistas de diferentes segmentos da sociedade civil, cuja determinação de marchar à contra-corrente da oficialidade já é capaz de mostrar sinais de esperança, a quem se dispõe a ver o que se passa nas correntezas subterrâneas. Aqui se ensaia algo alternativo, cultivando-se a articulação entre rumo, caminhos e jeitos de caminhar, com o sentimentos de que, em última instância, como costumava dizer José Dolores, a personagem do filme “Queimada”: “É melhor saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir”.




Referências e textos de apoio

BENJAMIM, César. Apertem os cintos. Caros Amigos, nº 85, Rio de Janeiro, abril, 2004, p. 21.
CALADO, Alder J. F. Desafios dos movimentos sociais populares e sindical frente à atual conjuntura. In: Universidade e Sociedade, nº 12, São Paulo:ANDES/SN, 1997, pp. 74-79.
_________________. A esquerda brasileira face ao neoliberalismo: riscos de domesticação. In: Política Operária, n. 69, Lisboa, maio-junho, 1999, pp. 19-20.
__________________. A Dialética instituído X instituinte em tempo de Globalização neoliberal: notas sobre a burocratização da esquerda parlamentar no Brasil. In CALADO, A.J.F. (Org.). Por uma Cidadania Alternativa. Estudos nos campos político-partidário, do Movimento de Cultura Popular, dos Direitos Humanos e do Trabalho. Caruaru: Edições FAFICA/João Pessoa: Idéia, 2003
DOCUMENTOS FUNDANTES DO PT (Manifesto, Programa, Estatuto).
FERNANDES, Florestan. Um amargo quarto de século. Jornal do Brasil, Rio Janeiro, 1º de maio de 1989, p. 9.
FREIRE, Paulo. Ação Cultural para a Liberdade., 7ª. ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
____________. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
GONÇALVES, Moisés Augusto. Uma ótica global: todos os direitos para todos. In: Por uma Cidadania Alternativa: estudos nos campos político-partidário, do Movimento de Cultura Popular, educativo, dos Direitos Humanos e do Trabalho. João Pessoa: Idéia, 2003.
IANNI, Octavio. Revista Caros Amigos, nº, 68, outubro de 2002.
____________. Entrevista concedida ao Jornal da UNICAMP, edição 220, 14-20 de julho de 2003.
LEITE, Ivonaldo. Brasil: Educação política, novos rumos para a hegemonia popular. Mímeo (Artigo que se acha no prelo).
RODRIGUES, Francisco Martins. Acção comunista em tempo de maré baixa. In Política Operária, nº 62, novembro-dezembro, 1997, pp. 31-33.
__________________________. Concorrer ao parlamento: princípio comunista? In: Política Operária, nº 74, Lisboa, março/abril, 2000, pp. 27-30.
STÉDILE, João Pedro. Os dilemas da ALCA e o nosso futuro. Caros Amigos, nº 85, Rio de Janeiro, abril de 2004, p. 14.


* Sociólogo. Docente-pesquisador na área de movimentos sociais e Estado. Membro do CEPED/FAFICA. Autor de Paolo Freire, forjador de utopías. Sevilla: Educación Cooperativa, 2004, entre outros livros.
+ (“O ser humano - sustenta Marx, em seus Manuscrtos Econômico-Filosóficos -“apropria-se de sua omnilateralidade, de modo integral, portanto como ser humano total” (“Der Mensch eignet sich sein allseitiges Wesen auf eine allseitige Art an, also als ein totaler Mensch.” (Ökonomisch-philosophische Manuskripte, III, XXXIX, VI-VII, extraído da página http;//www.mlwerke.de/default.htm).



João Pessoa, 28 de Janeiro de 2010