sábado, 8 de dezembro de 2018

ESPERAR E LUTAR PELO QUE DÁ CERTO: bebendo nas “correntezas” subterrâneas Alder Júlio Ferreira Calado


ESPERAR E LUTAR PELO QUE DÁ CERTO: bebendo nas “correntezas” subterrâneas
Alder Júlio Ferreira Calado

“Tudo faço com amor
Se não fosse, não faria
Alimentos agradáveis
Que comemos todo dia
Presenteio, troco e vendo
Muita fartura, vou tendo
Partilho com alegria. ”
(Lita Bezerra)

No decorrer os últimos 30 dias, tive a graça de participar de três encontros memoráveis, do ponto de vista do que neles aprendi e pude compartilhar. Refiro-me ao Encontro realizado em São Lourenço da Mata - PE, promovido pelo MCP (Movimento das Comunidades Populares); o Encontro celebrativo da memória de Charles de Foucauld, organizado pelas respectivas Fraternidades, a cada 1º de dezembro, desta vez realizado em Várzea Nova, Santa Rita - PB; e o mais recente, organizado pela ASA – CENTRAC - SPM, em Itatuba - PB. A exemplo de tantas outras experiências similares, aí situo a fecundidade revolucionária das "Correntezas subterrâneas" (expressão utilizada por João Batista Magalhães, por José Comblin e outros protagonistas da Teologia da Enxada). Desta feita, com a participação de cerca de 40 militantes, vindos de onze municípios do Agreste: Aroeiras, Mogeiro, Ingá, Itatuba, Gurinhém, Fagundes, Puxinanã, Salgado de São Félix, Campina Grande, Conde (Jacumã), trataram de avaliar sua caminhada conjunta e de planejar suas atividades, para o próximo ano.
Na parte da manhã do dia 06/12, os participantes – mulheres e homens – foram convidados a fazerem uma visita a uma fecunda experiência de produção agroecológica desenvolvida por uma das figuras de referência dessas organizações, a agricultora e educadora Lita Bezerra, que também é poetisa, autora de cordéis, um dos quais intitulado “Mulheres do Semiárido e Sementes da Paixão”  
Em qualquer tempo, mas muito especialmente durante os períodos sombrios, as experiências desenvolvidas nessas "correntezas subterrâneas" seguem fazendo enorme diferença, por diversas razões:
Na parte da tarde, os trabalhos são retomados, Salão do belo edifício onde se desenrolou o Encontro. Madalena, membro da Coordenação do Projeto FOLOIA (Fórum de Lideranças do Agreste), componente da ASA, anuncia as atividades da tarde (não sem antes sublinhar a relevância do Feminismo como uma prática cotidiana, a ser assumida por todas e todos): nova apresentação dos participantes, inclusive dos recém-chegados; roda de testemunhos sobre o que se viu e se aprendeu na visita feita pela manhã, às experiências desenvolvidas por Lita Bezerra e familiares; uma reflexão problematizada proposta por Alder; uma suculenta merenda, no final da tarde; à noite, estava programada uma atividade cultural. E assim se fez.
A apresentação comportou, além do nome de cada membro da equipe e do seu município, a oferta de um símbolo ligado à sua região de onde vinham. E, ao som de uma conhecida canção de saudação (“Aroeiras, vem cá, vem saudar e participar...”), Amélia e Madalena, iam chamando a Equipe de cada município (em torno de quatro, por município, sempre tendo em consideração o equilíbrio de gênero - homens e mulheres). E assim após cada qual se apresentar, a equipe mostrava para a Assembleia o símbolo trazido, e depositava num recipiente, à frente de todos: uma expressiva variedade de sementes cultivadas e compartilhadas; frutas, fava, milho, macaxeira, arroz, algodão, etc., etc. 
Em seguida, na roda de conversas sobre o rico aprendizado experimentado, na parte da manhã, ouvimos as falas de várias pessoas, destacando, entre outros aspectos:
- O impacto da iniciativa, suscitando intensa emoção dos presentes, pelo alcance comunitário e pela criatividade da experiência visitada;
- A rememoração de vários mecanismos e estratégias de produção agroecológica, a exemplo do biodigestor, da importância da captação e armazenação da água de beber e da água de produzir utilizando-se inclusive, do reuso;
- O impacto da biodiversidade ali cultivada (há dezenas de espécies de plantas e flores ali cultivadas)
- O protagonismo comunitário e o denso aprendizado da experiência, considerando sobretudo seu enorme alcance social;
-  O forte significado pedagógico de aprender a criar e utilizar novas tecnologias de convivência com o semiárido;
- A consciência cidadã protagonizada, aprofundada e compartilhada, de modo crescente e multiplicativo, por outras comunidades...
Na fala de Alder, tratou-se, em primeiro lugar de realçar as potencialidades transformadoras presentes, tanto na experiência visitada, quanto nas falas e relatos complementares, relativas a semelhantes experiências protagonizadas por vários dos participantes.
Em seguida, tratou-se de sublinhar a fecunda presença da Educação Popular, de Matriz Freireana, no cotidiano das experiências compartilhadas, fazendo questão de evidenciar os traços revolucionários contidos e cultivados nessas experiências moleculares, sem as quais não se sustentariam as iniciativas consideradas “macro”:
- Atentas ao que se passa nas águas de superfície, não se deixam seduzir por aparência ruidosas, compreendendo seu alcance extremamente provisório, por vezes lembrando ao efeito de cortinas de fumaça;
- Não temem ser chamadas de "micro-experiências" ou de "experiências moleculares", que se vão firmando e espalhando, com muita confiança, com denso enraizamento no meio popular no campo e nas periferias urbanas, e sem muita notoriedade. Destas experiências moleculares bem atestam inscrições tais como a que se acha no topo de uma grande cisterna - uma dentre outras -, no Sítio Juriti, a cinco quilômetros de Caruaru, onde se acha o Santuário das Comunidades: "Gente simples, morando em lugares pouco conhecidos, e fazendo coisas maravilhosas";
- Diferentemente de alguns movimentos e organizações sociais que restringem suas ações apenas ao enfrentamento explícito e de grande monta, tantas vezes com resultados a quem dos esperados, as mico-experiências de alternatividade, sem deixarem de se fazer presentes também nas grandes manifestações de rua, preferem priorizar o trabalho de base contínuo, repartido organicamente entre seu compromisso organizativo, seu compromisso formativo e sua mobilização; 
- Ao contrário de uma avaliação ainda dominante, de que as micro-experiências não são capazes de responder aos "grandes" desafios colocados pelo Mercado e pelo Estado, essas organizações de base, chamadas de experiências moleculares, por sua vez, entendem que é preciso enxergar no "micro" a presença também do "macro". Há, sim, fecundas sementes de macro-relações nas micro-experiências. Mais:  as macro-relações não terão lugar se não passarem pelo aprendizado, pelo acúmulo organizativo e formativo das micro-experiências. E a recíproca é verdadeira. As potencialidades das micro-relações carregam, já em si, manifestações do grande Projeto de uma nova sociedade. Para tais experiências, não adianta trabalhar-se a nova sociedade, apenas após a derrubada "do que aí está". Já vimos este filme, e dele não podemos ter saudades...  Os traços da nova sociedade, protagonizada por novos homens e novas mulheres, ou se constroem desde já, nas micro-experiências, ou em vão se luta por uma nova sociedade, pois, como o tem mostrado a história recente e menos recente - e à saciedade, para quem tem olhos para ver - que, não sendo assim, a consequência certa é a reprodução de vícios terríveis da velha sociedade (caudilhismo, individualismo, personalismo, continuísmo, reedição de vícios ético-políticos, antes combatidos nas forças adversárias...).  
Eis uma notícia sucinta do vivido, com algumas provocações, convidando-nos a todos, para a retomada, em novo estilo, de nossos trabalhos de base, tanto em nossos compromissos organizativos, quanto em nossas tarefas formativas, quanto em nossa mobilização.

João Pessoa, 08 de dezembro de 2018.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

MULTIPLICAM-SE OS SINAIS IDOLÁTRICOS DAS/NAS IGREJAS CRISTÃS: a religião como instrumento de manipulação de massas e a serviço de interesses idolátricos, revestidos de máscara religiosa




Alder Júlio Ferreira Calado


Nossa primeira atitude é a de manifestar congratulação com o testemunho profético verificável, também nos dias de hoje, por parte de membros e de instituições eclesiais, fieis de algumas instituições eclesiais, fieis aos valores do Reino de Deus e sua justiça. Trata-se das “minorias abrahamicas” como costumava chamar Dom Helder Câmara. Sucede, toda via, que tais testemunhos vêm sendo cada vez mais escassos, em nossa atualidade, enquanto vemos multiplicarem-se sinais e testemunhos de idolatria, em não poucos membros – principalmente lideranças – destas mesmas igrejas cristãs... 

Um sincero exame crítico do comportamento dominante em não poucas Igrejas cristãs, especialmente da parte de seus dirigentes, permite a constatação indignada de escandalosos traços idolátricos, praticados em "nome de Deus" (qual deles: o Deus de Jesus de Nazaré ou deus Mamon, denunciado pelo próprio Jesus e pelos profetas do Povo de Deus?), nas mais distintas esferas da realidade social, tais práticas são observáveis, nas relações do dia-a-dia. No âmbito da economia, por exemplo, chama a atenção o fenômeno da espantosa multiplicação de igrejas, ao ponto de levar alguém a concluir: "Pequenas Igrejas, grandes negócios"... O surgimento e contínua expansão das igrejas neopentecostais (há quem prefira o termo "pós-pentecostais"), no Brasil, na América Latina e no mundo, tanto as de orientação protestante, quanto as de perfil católico, tem prosperado, com igual velocidade, o crescimento massivo de seus seguidores, desde os anos 60, partindo dos Estados Unidos. Acerca deste fenômeno, e focando os mais diversos ângulos, há uma vasta literatura, estudos e pesquisas disponíveis. Disto não cuidarei aqui. Nesses estudos e pesquisas, chama particularmente a atenção o poder de sedução exercido por tais igrejas sobre multidões constituídas principalmente do povo dos pobres que, vivendo como ovelhas desgarradas, se tornam presas fáceis de não poucos lobos vestidos em pele de ovelha...

Movidos por interesses escusos, muitos se travestem de pastores. Em qualquer recanto, abrem uma igreja, e passam a atrair desvalidos de toda sorte: desempregados, pessoas desesperadas, gente acometida das mais variadas enfermidades - em especial enfermidades da alma -, empenham-se em seduzi-las com promessas milagrosas, por meio de apelos ao seu pobre bolso. Como se trata de multidão, os "trocados" viram atrativos recursos, em pouco tempo.  E, em breve, aquele templo acanhado vai tomando proporções avantajadas, como sucedeu e sucede a muitos templos de algumas destas igrejas, graças à combinação de uma gama sofisticada de estratégias lucrativas, usando e abusando da boa-fé dos incautos...

Em nome de Deus, vêm-se multiplicando os crimes contra a economia popular, por parte de não poucas lideranças dessas igrejas. A tal ponto, que alguns repentistas não hesitam em tematizar, indignados, tal perversão, como o faz, por exemplo, a dupla de repentistas, ao glosar o mote “no comércio da fé, Jesus não passa/De um produto vendido a prestação”.

Neste sentido, algumas dessas lideranças religiosas se têm notabilizado pelo sucesso econômico (cf. por exemplo, o link https://www.youtube.com/watch?v=sVs1hWFUOZU)

Igualmente, esses sinais idolátricos também se dão na esfera política. Não é por acaso que, sobretudo nos últimos anos, vem-se constatando uma verdadeira partidarização religiosa, bem presente no Estado brasileiro, em especial na câmara federal. A mais recente campanha eleitoral, no Brasil, bem atesta o crescimento desses sinais idolátricos, em homenagem ao deus Mamon. Não se trata apenas de igrejas neopentecostais de orientação protestante, mas também – e com igual “sucesso” – de segmentos relevantes da/na Igreja Católica Romana, haja vista a influência exercida, na última campanha eleitoral por programas de televisão de algumas emissoras católicas, sem esquecer seu desempenho vulpino nas redes sociais.

No âmbito cultural, por outro lado, se manifestam ainda mais deletérios seus efeitos nocivos, principalmente por, em nome de Deus pregarem um discurso que pouco ou nada tem a ver com os ensinamentos do evangelho e com o legado de Jesus de Nazaré.

De todos os modos, a grande lição a extrair é quanto à urgência de formação crítica, contínua de enormes parcelas de nossa população, cuja boa fé e ingenuidade são usadas e abusadas por lobos travestidos de cordeiros, sem que se sintam em condições de desmascarar e de superar trais estratégias daninhas.

Eis uma tarefa histórica – o compromisso com a formação contínua – a ser enfrentada por nossas organizações de base, com o objetivo de (re)empoderar nossa sociedade civil, seja do ponto de vista organizativo, seja do ponto de vista da formação contínua em vista de tornar os desvalidos de nossa sociedade menos vulneráveis à ação destrutiva dessas manifestações idolátricas.

João Pessoa 06 de dezembro de 2018.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

ENTRE A CEGUEIRA E A LUCIDEZ, NO PROCESSO DE (DES)HUMANIZAÇÃO: considerações em torno da busca de se fazer uso libertário dos sentidos, em tempos de obscurantismo


ENTRE A CEGUEIRA E A LUCIDEZ, NO PROCESSO DE (DES)HUMANIZAÇÃO: considerações em torno da busca de se fazer uso libertário dos sentidos, em tempos de obscurantismo


Alder Júlio Ferreira Calado

“Têm boca, mas não falam; olhos têm, mas não vêem.
Têm ouvidos, mas não ouvem; narizes têm, mas não cheiram.
Têm mãos, mas não apalpam; pés têm, mas não andam; nem som algum sai da sua garganta.”
(Salmo 115, 5-7)

As linhas que seguem, têm o propósito de realimentar a reflexão crítica sobre o bom ou mau uso que fazemos dos nossos sentidos, aqui focando com especial ênfase os significados e o alcance da visão ou da cegueira, em tempos de obscurantismo. Comecemos por uma obviedade: ao longo de nossa história e da história de vida de cada uma e de cada um de nós, coabitam bem e mal, tal como acontece alternância entre noite e dia, luz e trevas, quente e frio... Eis uma característica de todo ser inacabado, e, por isto mesmo, historicamente vocacionado à Liberdade e, por conseguinte, a ir superando seus próprios limites, a partir do despertar e do contínuo exercício de suas potencialidades.
Nesse sentido ao revisitarmos a história recente ou menos recente damo-nos conta da alternância ou da convivência de nossas qualidades e dos nossos defeitos.
O fato de nos sentirmos historicamente chamados a desenvolver nossas potencialidades (pessoais e coletivas) não apaga, por si, o permanente risco de estarmos sujeitos a sucumbir a condições portadoras, não de humanização, mas de desumanização. Além das condições históricas e conjunturais, que constituem importante fator concorrente, convém lembrar também o concurso de fatores internos, na medida em que, para além dos fatores externos, aí também incidem fatores subjetivos, estes últimos especialmente associados ao nosso processo de formação contínua.
Por este processo de formação contínua passam diferentes elementos formativos, um dos quais tem a ver com o desenvolvimento de nossa capacidade perceptiva: ver melhor o que antes não percebíamos, ou mal percebíamos; ouvir falas e sons a que antes vivíamos surdos; sentir coisas, fatos, acontecimentos que antes nos passavam despercebidos... Cada um destes sentidos (e de outros mais), só se desenvolve dentro de um processo contínuo de formação, cujo os protagonistas e ambiência são nossas organizações de base, atuando como principais forças motrizes de nossa sociedade, partindo de uma atenção especial do desenvolvimento também das qualidades pessoais, e sempre num “continuum”.
Tal processo formativo, não se faz à parte do contexto histórico, mas profundamente inserido nos entrechoques da história, razão por que conjunturas há favoráveis, e outras desfavoráveis ou mesmo adversas, como esta em que nos encontramos. 
Querendo ou não, como seres inacabados, temos que conviver com a oscilação que nos tem acompanhado, ao longo da história, entre sensibilidade e insensibilidade: entre cegueira e lucidez; entre apurada audição e surdez; entre sabores e dissabores; entre a pronúncia de nossa palavra e sucumbir ao silenciamento.
Aqui me sinto encorajado a dizer algo sobre várias formas de cegueira e de insensibilidade frente à nossa realidade.
Mesmo tratando-se de cegueira interior, a trajetória histórica da humanidade, seja no âmbito pessoal, seja no âmbito coletivo, se acha marcada, de fatos e acontecimentos trágicos, em diferentes tempos e lugares. No contexto atual, em escala internacional ou local, sentimo-nos rodeados de sinais espantosos, a este respeito: o discernimento ou a lucidez não parece ser uma de nossas características dominantes, na atualidade, para dizer o mínimo... isto afeta gravemente nosso processo de humanização, sob vários aspectos. As redes sociais, saudadas com entusiasmo, como uma das maravilhas tecnológicas do nosso tempo, ao tempo em que nos embriagam pelas suas potencialidades, também nos anestesiam, afetando em uma imensa massa de usuários, sua criticidade. Só para mencionarmos 2 casos emblemáticos, pensemos nos profundos estragos recentes causados pelo uso acrítico das redes sociais, nos episódios eleitorais dos Estados Unidos e do Brasil, antes, durante e depois do processo eleitoral. Entendemos que tais efeitos se devem mais à extrema vulnerabilidade da massa de usuários, do que aos seus manipuladores. Com efeito, as famigeradas “Fake News” produzem consequência quase nula na vida de cidadãs e cidadãos que não cessem de exercitar seu senso crítico.
O processo de humanização, se, quando e onde posto em prática, implica necessariamente, o exercício contínuo da crítica e da autocrítica. Estas se manifestam como condição essencial ao processo de humanização, inclusive na capacidade dos sujeitos cognoscentes lerem, interpretarem e interferirem adequadamente em sua realidade. A realidade social, é, como se sabe, profundamente complexa e extensa. Em vão, se busca compreendê-la, sem dotar-se continuamente de lentes adequadas a sua leitura e interpretação. A realidade social, se acha em movimento incessante, de tal modo que um acompanhamento eficaz de seus desdobramentos também requer que os sujeitos cognoscentes também se ponham em movimento. Isto não se dá espontaneamente, mas é obra de um longo e permanente processo formativo, sem o qual todas as condições se dão para monstruosos equívocos de repercussão gravíssima. Uma destas consequências aponta para o alto grau de reducionismo a que ficam sujeitos seus pretensos analistas, na medida em que, não tomando em conta inúmeras variáveis deste processo, acabam contentando-se com o que parece acontecer em determinado momento, e logo apressando-se em assumir como verdade, sem se atentar para tantos outros ângulos componentes desta mesma realidade. Tais pessoas se comportam como quem conclui, de forma apressada, o desfecho de um filme, baseando-se apenas em uma única cena de uma longa série... gravíssimo reducionismo se comete, aí, ao pretender-se enquadrar a realidade, que é um filme, que é dinâmica, apenas numa foto.

E, por força do hábito, tal proceder vai se estendendo às mais distintas situações do dia-a-dia, sendo reforçado pelos mecanismos de inércia, isto é, pela ausência de critérios consistentes. Basta conferir as redes sociais que também veiculam mensagens de pessoas da mesma corrente ou da parte de amigos ou parentes que se inter-alimentam, permanentemente. É assim que se vão formando as tais “convicções”, nos mais diferentes campos da vida: da política ao futebol; da religião às condições de trabalho, etc., etc.  Tais são as convicções, que viram dogmas: nenhuma chance para dúvidas. Aí já não tem lugar o saudável dito proverbial, segundo qual “De omnius dubtandum” (“deve-se duvidar de tudo”).

João Pessoa, 28 de novembro de 2018

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

O MOVIMENTO DAS COMUNIDADES POPULARES HOMENAGEIA QUEM DOA A VIDA PELOS DESVALIDOS: notas acerca das homenagens prestadas pelo MCP ao Pe. João Geisen

O MOVIMENTO DAS COMUNIDADES POPULARES HOMENAGEIA QUEM DOA A VIDA PELOS DESVALIDOS: notas acerca das homenagens prestadas pelo MCP ao Pe. João Geisen


Alder Júlio Ferreira Calado

Neste final de semana, dias 25 e 26 de novembro próximo passados, o Movimento das Comunidades Populares (a caminho dos seus 50 anos, a celebrar em 2019) houve por bem prestar um tributo criativo a uma das figuras de reconhecida contribuição ao Movimento. Teve lugar em São Lourenço da Mata - PE, com expressiva participação de militantes do MCP vindos da maioria dos Estados do Nordeste, do Maranhão à Bahia, passando por Alagoas, Pernambuco, Paraíba, fazendo-o por meio de atividades criativas, bem conformes ao perfil das práticas e concepções deste Movimento cinquentenário. Ainda que sem ter feito anotações, e assumindo os riscos dos lapsos de memória (omissões, imprecisões, etc.), ouso compartilhar uma breve nota da leitura que pude fazer deste memorável acontecimento, especialmente no que diz respeito às experiências de memória vivenciadas, no domingo.

Os militantes – mulheres e homens – do MCP, em especial os atuantes no Nordeste decidiram, a justo título, prestar uma homenagem a um de seus militantes de referência, Pe. João Geisen, que, ao longo de décadas, atuou vivamente em diferentes atividades e iniciativas protagonizadas pelo MCP, desde os tempos em que este movimento atuava com outros nomes (MER – Movimento de Evangelização Rural; CTI – Corrente de Trabalhadores Independentes; MCL – Movimento de Comissão de Luta). Nascido num pequeno país europeu, Luxemburgo, Padre João Geisen chegou ao Brasil, em tempos de chumbo, e, fixando-se no Nordeste, como Missionário, cuidou de inserir-se no meio do povo e nele criar raízes, por meio do atual MCP. Em consequência de problemas pulmonar, veio a fazer sua grande viagem aos 72 anos, ainda recentemente.

Em seu vasto e reconhecido legado de profeta e pastor chamam a atenção a qualidade e a quantidade de iniciativas que ele inspirou e animou, com amplo reconhecimento do povo dos pobres: seu empenho em fazer prosperar os grandes eixos de atuação do MCP, durante essas décadas, seja no plano organizativo (efetiva contribuição na construção de centros de encontro e de organização dos “debaixo”, no âmbito das lutas por moradia, construção de creches em mutirão), seja no campo formativo e de comunicação (é sempre lembrado com ênfase, seu envolvimento pessoal nas atividades relativas ao Jornal A Voz Das Comunidades). Dentre as várias sedes regionais do MCP, inclusive aquela em que se deu este encontro de homenagem, também contou com a contribuição efetiva deste mesmo militante.

Esta programação de homenagem ao Padre João, iniciada no sábado 24/11 debatendo o tema “Religião Libertadora”, alcançou seu ápice nas atividades realizadas no domingo. Com a participação de cerca de 90 pessoas (pelos nomes que escutei, na apresentação, cheguei a contar 87), a equipe organizadora já estava a postos a acolher, com alegria, os/as que chegavam, oferecendo-lhes o café da manhã e, ao meio dia, um saboroso almoço preparado por Silvia e outras artesãs da culinária, ao preço de 5 reais! Todos acomodados no salão principal do centro de informação, por volta das nove horas, a coordenação deu as boas-vindas aos presentes, e, após indicar a programação do dia, solicitou que, por Estado, por cidade e por área, os presentes fossem se apresentando, dizendo nome e de onde vinham. Assim foi feito. De dezenas de participantes apresentados,   arrisco-me a mencionar alguns nomes: Aldo, Augusto, Celerino, Chico Malta, Cosme , Daniel, Dorinha, Edson, Flávio ,Francisquinha  ,  Gildo , Guilherme , Gustavo, Joao Carlos, Luiz Alves, Maria do Carmo, Miriam, Ronaldo, Sílvia, Socorro ,Tiago(MCP),Tiago(CPT), Zezé, Zélia... Estes e tantos outros participantes vinham de diferentes estados e cidades do Nordeste.
Cidades representadas:
Pernambuco: Recife, Olinda, Peixinhos, Vitória, Gravatá, Paulista, São Lourenço, Itambé, 
Bahia: Salvador, Feira de Santana
Alagoas: Maceió, Arapiraca
Paraíba: Carrapateira, Itabaiana, Santa Rita, João Pessoa
Maranhão.


          Fomos brindados, em seguida, por um alegre grupo infanto-juvenil do MCP, com belas coreografias, acompanhadas de músicas do Movimento e alusivas aos nossos principais segmentos das classes populares (povos indígenas, comunidades quilombolas, camponeses e operários),bem como  suas principais bandeiras de lutas. Em sua criativa linguagem artística, aquelas jovens e adolescentes conseguiram traduzir princípios e valores fundamentais ao MCP, tais como o compromisso com a causa libertadora,  dos desvalidos, a solidariedade, a partilha, a força do mutirão, cuidados com a saúde popular, moradia, etc.

Após essas belas coreografias, a Coordenação nos brindou com algumas frases do Pe. João, seguidas de comentários feitos pelos que o conheceram mais de perto. Já então, alguns militantes – mulheres e homens – cuidaram de prestar densos depoimentos sobre o legado profético do Pe.l João, a serviço das classes populares. Em encontro anterior, representantes do MCP se haviam reunido para destacarem uma lista em torno de uma dúzia mais de uma dúzia de lições que podem ser extraídas do denso legado de Pe. João, dentre as quais, com minhas palavras, me permito destacar apensa algumas:
- a de ter sido capaz de deixar sua terra, para viver com os empobrecidos do Nordeste brasileiro;
- sua coragem profética de manter-se em defesa e promoção do povo dos pobres, mesmo  tendo que preferir afastar-se da instituição eclesiástica, para seguir fiel ao Projeto do Reino de Deus e Sua justiça;
- em prol das causas do MCP, atuou como seu embaixador junto à gente do seu país (Luxemburgo).

E prosseguiam os edificantes depoimentos, por parte de mais de uma dezena de militantes de vários Estados, acerca dos feitos proféticos e solidários do Pe. João.

Após um almoço delicioso, servido  com fartura, tivemos um momento de pausa de espairecimento durante o qual as partilhas individuais seguiam soltas. Por volta das 14 horas, tivemos a retomada das atividades previstas na programação. A certa altura, João Carlos, um dos militantes de referência do Movimento, brindou-nos com uma breve leitura da atual conjuntura. Chamou-nos, não menos, a atenção pelo edificante testemunho que prestou acerca de sua aproximação com padre João. Contou-nos alguns traços marcantes de sua dolorosa experiência como vítima de um grave acidente de ônibus, do qual lhe resultou sério comprometimento dos movimentos. Causou-nos espécie ter-nos compartilhado sua cura completa, sem ter passado por cirurgia. Fato que ele atribui à interseção de figuras como D. Helder e Pe. João. Após o edificante testemunho de João Carlos, passamos a acompanhar a apresentação das “Colunas“ do MCP e dos “Setores” do Movimento. No primeiro momento, por meio de belos “banners”, tivemos a oportunidade de acompanhar os dez eixos que constituem as prioridades do MCP, bem como, em cada um deles, a presença e participação do Pe. João:

Vale a pena sublinhar a importância vital das dez colunas do MCP, principalmente tendo em vista a eficácia das ações concretas desenvolvidas em cada um desses dez eixos, ou colunas, como a ela se refere o Movimento:
- Sobrevivência Popular, Religião Libertadora, Família Comunitária, Escolas Comunitárias, Saúde Popular, Moradia Popular, Esporte Comunitário, Arte Popular, Lazer Alternativo, Infraestrutura Coletiva

Relevante, igualmente, é sublinhar a serviço de quem tais eixos, ou colunas, são desenvolvidos. Trata-se, aqui, de revisitar com compromisso e esperança, os principais componentes de nossas classes populares, chamadas de Setores, em função de quem o Movimento se coloca por inteiro, a saber:
- Povos indígenas, comunidades quilombolas, camponeses, operários.

Ainda antes do encerramento, tivemos conhecimento, por intermédio de Flávio e equipe, do livro, em fase de conclusão, que se está elaborando acerca da vida, dos trabalhos, e da contribuição do Pe. João Geisen, em sua trajetória como militante do MCP.

O Encontro encerra-se com a caminhada feita pelos participantes com seus “banners”, acompanhados pela pequena urna de cinzas do Pe. João (a serem depositadas na Capela do Instituto) desde o Centro de formação até ao recém-construído Instituto Pe. João, onde se fez uma prece final em homenagem a esta figura.

São Lourenço da Mata/ João Pessoa, 26/11/2018

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

DIREITOS HUMANOS – DO FORMALISMO À EFETIVIDADE: quais protagonistas?



DIREITOS HUMANOS – DO FORMALISMO À EFETIVIDADE: quais protagonistas?

Alder Júlio Ferreira Calado

Estamos a vivenciar a Semana da Consciência Negra, em mais uma edição. Em poucos dias, também, a Declaração Universal dos Direitos Humanos estará completando 70 anos (mais precisamente, no dia 10 de dezembro vindouro). Esses dois momentos comemorativos nos propiciam uma reflexão crítica sobre seu significado e alcance. Tomemos, então, o Povo Negro como referência principal para um ensaio de balanço da efetividade ou não destas últimas sete décadas de vigência da Declaração Universal dos Direitos Humanos, entre nós. Nesta oportunidade, cuidamos, nas linhas que seguem, de, partindo da experiência cotidiana das Negras e dos Negros de nosso País, impropriamente tratados como “minoria” – na verdade, ao lado das Mulheres, constituindo a grande maioria, e tratemos de examinar como isto se passa. Partamos, então, de perguntas tais como: tendo como fio condutor a experiência do cotidiano dos Negros e das Negras do nosso País, como lançar um olhar avaliativo do alcance concreto da Declaração Universal dos Direitos Humanos?
Numa simples e rápida passagem pelas estatísticas oficiais, tanto as de sentido positivo, quanto as que revelam dados sombrios, é bastante pra percebermos o lugar dos Negros e das Negras, em nossa sociedade, ao longo de nossa história. Antes, porém, fazemos questão de sublinhar importantes conquistas, nas últimas décadas. Aqui destacamos especialmente as de natureza cultural. É, sim, uma conquista apreciável o avanço na consciência identitária. Em comparação com décadas atrás, é visível o sentimento de autoestima das pessoas negras, em nosso dia-a-dia, o que pode ser atestado, de vários modos: no comportamento estético, no protagonismo no campo das artes, entre outros. São ainda dignas de nota tantas iniciativas culturais e artísticas animadas por protagonistas do povo Negro. Ao aplaudirmos tais conquistas, temos também consciência de seus limites. É o caso, por exemplo, de fortes insuficiências no campo da consciência de classe.

No terreno organizativo e formativo, as coisas parecem um tanto misturadas. De um lado, constatamos avanços no plano da escolarização, inclusive suas conquistas nos espaços universitários. Por outro lado, segue discutível uma certa aposta incondicional nas políticas ditas afirmativas. Esta via não deixa de apontar alguns resultados positivos, ao tempo em que também suscita não poucas dúvidas, principalmente por favorecer atitudes de acomodação ao modelo vigente de não poucos desses protagonistas – mulheres e homens. O desafio maior desse tipo de aposta reside na dificuldade de perceber os limites consideráveis de um processo formativo centrado na escolarização oficial, e não – como deveria ser – na força de suas organizações de base, em quem repousa o grande potencial transformador, ao lado e em articulação com outras organizações de base de nossa sociedade. Sem empoderamento da sociedade civil –cujos principais protagonistas são justamente tais organizações de base -, é, no mínimo, problemático pensar-se em autonomia para tocar um projeto alternativo de sociedade.

No tocante às estatísticas negativas, concernentes ao Povo Negro, elas se manifestam de forma diversa. Tratemos de relembrar algumas delas, em forma de perguntas:
- Nas sempre chocantes estatísticas de assassinatos, no Brasil (fala-se em mais de 62.000 por ano...), que lugar é reservado aos Negros e Negras – mulheres, jovens, integrantes da comunidade LGBT...)?
- No assombroso índice de violências diárias praticadas contra as mulheres, sob as mais diversas manifestações, quantas são cometidas contra as Mulheres Negras? No desumano sistema prisional brasileiro, quem forma a maioria dos encarcerados?
- Quantos e quantas desta mesma população aguardam, há anos, julgamentos?
- Sobretudo comparando-se com as “prisões” das figuras privilegiadas do mundo empresarial e do mundo político, quais são as condições concretas diariamente amargadas pelos encarcerados e encarceradas do Povo Negro?
- No âmbito da economia, quem são os primeiros atingidos em épocas de crises, sobretudo comparando-se com os ganhos escandalosos do sistema financeiro, seja em tempos de crise, seja em tempos “normais”?
- Quando ataca o desemprego, com mais violência, que segmentos da população são os primeiros e mais atingidos?
- Quem são os mais rejeitados da população, senão mulheres e Jovens Negros, na ocupação de vagas disponibilizadas em concursos e outras atividades de emprego?
- No campo da escolarização, quem ocupa os índices mais elevados de analfabetismo, de acesso e de permanência na escola?
- Ainda que fazendo o mesmo trabalho, que salários são atribuídos a Negros (especialmente mulheres) e a não-Negros?
- Nos postos de direção ou de chefia, e até mesmo entre os atores e atrizes protagonistas de novelas ou séries, têm lugar significativo Negros e Negras?
- Nos espaços religiosas dominantes, qual a proporção ocupada por Negros e Negras em cargos de referência?

A estas questões vocês podem acrescentar tantas outras.
Embora tratando aqui apenas de um segmento da população brasileira, a situação não se altera substancialmente quando contemplados tantos outros extratos da população: povos indígenas, camponeses, operários, etc. Este quadro se apresenta como fundamental para uma avaliação crítica da efetividade, não apenas da Declaração Universal dos Direitos Humanos como também da Constituição e demais leis vigentes. Uma coisa é constatar tais direitos no papel, bem outra é observa-las no chão do dia-a-dia dos “debaixo”. Os direitos legalmente estabelecidos não deixam de ser uma conquista geral, mas sua real efetividade contempla a parcela privilegiada da população (grandes empresários, lideranças políticas e de outras instâncias governamentais...).

Eis mais um desafio de monta para a nossa sociedade civil, em especial suas organizações de base, chamadas a despertar sua consciência e sua atitude de protagonistas frente a este estado de coisas...

João Pessoa, 21 de novembro de 2018.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A MENTIRA COMO COMBUSTÍVEL DE PODER, NAS SOCIEDADES DE CLASSES: o lugar dos mecanismos ideológicos nas relações societais


A MENTIRA COMO COMBUSTÍVEL DE PODER, NAS SOCIEDADES DE CLASSES: o lugar dos mecanismos ideológicos nas relações societais

Alder Júlio Ferreira Calado

A mentira, como recurso de acesso, manutenção e ampliação de poder, acompanha a trajetória humana, desde priscas eras. O ser humano é o único animal a dela usar e abusar, como refinada estratégia de poder. Outros animais recorrem à finta, a subterfúgios ou camuflagem, como estratégia de sobrevivência, mas nunca na escala ou com a sofisticação empregadas pelos humanos. Passar-se pelo que não se é, aparentar-se predicado que não se tem - eis a que leva os humanos a usarem e abusarem da mentira, sob suas mais diversas formas e manifestações. Retenho vivo o alerta, a este respeito, feito por um ex-presidente, em uma de suas declarações. Dizia mais ou menos assim: o problema da mentira é que ela, desde a primeira expressa, acaba nos fazendo reféns, para toda a vida. Ao dizermos uma mentira, pela primeira vez, e ao esbarrarmos em cobranças, sentimos "necessidade" de inventar uma segunda, para justificarmos a primeira. Depois, uma terceira, uma quarta, e por aí segue... se no dia-a-dia de nossas relações, já constatamos o tamanho dos estragos produzidos pela cultura da mentira, o quê dizer em relação a toda uma complexa e vasta teia de relações societais? Entre os humanos e no âmbito das relações macro-sociais, este processo alcança seu ápice nas sociedades de classes. A classe dominante só pode chegar ao poder, valendo-se de um sistema de mentiras, combinadas com o emprego da violência. E não apenas, para aceder ao poder: também, e até mais, para mantê-lo e ampliá-lo. É aí que tem lugar decisivo a armação de todo um sistema ideológico, cujo objetivo central é o de alimentar constantemente o conjunto da sociedade com toda sorte de mentira, nas mais diversas esferas da realidade. As linhas que seguem, buscam ressoar, brevemente, sobre tais mecanismos de dominação.

Malgrado a mentira esteja associada à condição humana, como marca de seu inacabamento, a mentira alcança elevado grau de sofisticação nas sociedades de classes, em que a classe dominante sente-se "obrigada" a recorrer sistematicamente à mentira, primeiro, para chegar ao poder; em seguida, para mantê-lo, a todo custo, e, mais ainda, para ampliá-lo, ainda que tenha que combinar a mentira com outros recursos tais como a violência institucionalizada. E tudo fazendo, "em nome do povo, em nome da nação...".

Cuidamos, em seguida, de ilustrar didaticamente alguns casos de nossa atualidade, recorrendo a exemplos em várias esferas da realidade, ao mesmo tempo em que lembramos que sua eficácia maior reside na articulação, na combinação de tal recurso nas diversas esferas, mas do que em qualquer delas, tomadas em separado.
Na esfera da produção, por exemplo, o desafio da classe dominante é o de passar a impressão para o conjunto dos membros de determinada sociedade, de que o atendimento devido as várias necessidades e aspirações daquela sociedade é o seu real objetivo, enquanto, por sua vez, esta classe dominante foca suas estratégias de ação na busca sistemática de manter e ampliar privilégios de classe, à custa da sonegação e da retirada de direitos da grande maioria. Nisto são mestras as grandes empresas transnacionais, que operam nos 4 cantos do Planeta, sempre à cata de manter e aumentar seu processo de acumulação, à custa e em detrimento dos direitos sociais mais elementares. Ao atuarem nos diversos setores econômicos – no campo das finanças, na produção de bens estratégicos, de bens duráveis, de bens de consumo;s direitos sociais mais elementares. Ao atuarem nos diversos setores econ no setor agrário, desde a exploração extrativista (de minerais, de vegetais, de animais), nos esquemas estruturantes da agricultura e da pecuária, no setor do comércio e dos serviços; na esfera cultural e até religiosa – as transnacionais e as grandes empresas nacionais não hesitam em recorrer sistematicamente ao Estado, como suporte fundamental, na implementação de suas respectivas políticas econômicas. Sempre combinando poderosos mecanismos ideológicos e recorrendo, sempre que “necessário”, a violência, tratam de perseguir e alcançar seus interesses acumulativos, não importando a forma como os obtêm. Para elas, embora digam o contrário, o Estado lhes é essencial, ainda que chamando-o de “mínimo”, que na verdade, por vezes, corresponde ao máximo, à medida que se utilizam das mais distintas instâncias do Estado, apenas no que exclusivamente lhes interessa.

Para tanto, recorrem a múltiplos mecanismos ideológicos, dentre os quais o marketing e a propaganda se revelam exemplos bem ilustrativos. Por meio da mídia comercial e das redes sociais, cuidam de “enfeitar o pavão” ou de “dourar a pílula”. Basta que nos atenhamos às fortunas que são gastas diariamente, no uso de propagandas enganosas, que, de tanto circularem aos olhos e ouvidos de uma enorme massa acrítica, acabam convertendo mentiras em verdades, males em bens, doenças vendidas como saúde, etc, etc, etc.
No plano da Política os mecanismos ideológicos, usados e abusados, revelam-se igualmente eficazes. A recente campanha eleitoral constitui apenas a ponta deste enorme “Iceberg”. As famigeradas “Fake News” constituem apenas uma pequena mostra. No Brasil e Alhures, é a classe dominante quem dita as regras, estando ou não seus protagonistas pessoalmente à frente deste processo. Não raro, grandes financistas, banqueiros, controladores de transnacionais, etc, nem precisam dar-se ao trabalho de se candidatarem: contam de sobra com seus representantes, ainda que a enorme maioria deles se eleja em nome do povo...
Na esfera cultural, a esperteza vulpina do capitalismo tem sido igualmente ou ainda mais exitosa, à medida que, graças a um crescente contingente de massas mantidas acriticamente, consegue iludir ainda mais facilmente a multidões destituídas de um processo de formação contínua que, de massa, as torne povo consciente. Ainda nesta esfera cultural, convém realçar os efeitos deletérios provocados pelo fundamentalismo religioso, a medida que suas lideranças de referência manipulam abertamente e “em nome de Deus” controlam as consciências de seus fiéis.
Uma perspectiva de superação deste trágico quadro, tem lugar fundamental o protagonismo daquelas organizações sociais de base, comprometidas com a retomada, em novo estilo, dos trabalhos de base, na e com a base, seja no campo organizativa, seja no campo formativo, seja no campo das ações mais explicitas.

João Pessoa, 19 de novembro de 2018.







sábado, 17 de novembro de 2018

"PELO FRUTO SE CONHECE A ÁRVORE": que "árvore" produz as migrações forçadas?


"PELO FRUTO SE CONHECE A ÁRVORE": que "árvore" produz as migrações forçadas?

Alder Júlio Ferreira Calado

Uma das chagas sociais mais graves da atualidade expressa-se na figura das migrações forçadas. Estas vêm se multiplicando, por toda parte, como raras vezes, na história recente. São centenas de milhares de humanos - mulheres, homens, crianças, pessoas idosas... - que se sentem compelidas a sobreviverem, deixando suas casas, seus parentes, seus pertences, em busca de outras terras, enfrentando os piores entraves e adversidades - fome, frio, perseguições, ameaças, riscos de toda sorte, tendo que aventurar-se por caminhos perigosos, pelos mares, em embarcações precaríssimas, nos diversos continentes. Quase diariamente, divulgam-se notícias de tragédias, em várias partes do mundo. O Mar Mediterrâneo, por exemplo, passa a ser conhecido também como o maior cemitério a céu aberto do mundo. Ainda repercutem, pungentes, as palavras proféticas do Bispo de Roma, ao visitar (mais de uma vez) esses irmãos migrantes forçados. Isto se deu em Lampedusa (Itália), em 07 de julho de 2013, a menos de cinco meses após o Papa Francisco ter assumido suas funções de Bispo de Roma (https://www.youtube.com/watch?v=JV1TXm_r5M0).

Nesta ocasião da visita aos migrantes forçados acolhidos em Lampedusa, o Papa Francisco se achava particularmente comovido com aquelas gentes, vindas de vários países, em busca de sobreviverem em terras europeias. Dirigiu-lhes, então, palavras de profunda solidariedade, ao tempo em que lançava graves críticas contra os protagonistas do que chamou de “Globalização da indiferença”, denunciando a viva voz a grave responsabilidade dos controladores de um sistema cruel, que leva à morte milhares de seres humanos, mundo a fora. E não ficou apenas nesta visita. Deslocou-se também outra vezes (em Lesbos, nos Estados Unidos...).

O fenômeno da migração, como se sabe, acompanha o processo histórico dos humanos. A condição de nômade integra nossa trajetória humana, desde longa data. Em certa medida, todos nos sentimos migrantes, de algum modo. Isto tem a ver também com o gosto pela aventura do desconhecido, de que também temos sede. Sentimo-nos, por vezes, fascinados pelo testemunho de migrantes e peregrinos. Deles e delas nos fala forte um de seus lemas: ”Omnia mea mecum porto.” (“tudo que é meu trago comigo. ”). Algo que, independentemente de nossas opções pela mesma escolha, nos toca profundamente como uma marca própria de um ser livre. Migração, por conseguinte, se e quando resultante de uma escolha de vida só pode merecer o nosso apoio e entusiasmo. Mas, não é das migrações voluntárias que aqui tratamos. Ocupamo-nos, nas linhas que seguem, de entender as razões mais fundas dessas ondas crescentes de migrações forçadas, que, nada têm a ver com a vontade de quem migra.
Eis que, nas últimas décadas, sucessivas ondas de migrações forçadas se expandem, nos vários continentes, de modo mais acentuado desde o continente africano e asiático, em direção à Europa, e desde América Central, em direção aos Estados Unidos. 
O que, então, compele a centenas de milhares de seres humanos a deixarem suas respectivas terras, em busca do desconhecido? Um exame detido sobre as condições de vida, materiais e imateriais, dos países e das populações donde partem tais migrantes forçados, revela os escandalosos índices de miséria, de desigualdade sociais, de violência social, de belicismo, de absoluta falta de condições de vida digna para tais populações. Pior ainda é constatar que, na base desta miséria, se acham mecanismos estruturais de enriquecimento crescente de setores dominantes locais e externos. No caso dos setores dominantes e externos, os principais grupos privilegiados, vem da chamada civilização ocidental e cristã. A expansão acelerada e voraz do capitalismo pelos países periféricos dos vários continentes, tem envolvido uma multiplicidade de estratégias, seja na esfera da produção, seja na esfera política, seja na esfera cultural. Mais do que identificar, numa única destas esferas, a eficácia pernóstica de exploração, de dominação e de marginalização em massa, presentes nos países periféricos, importa perceber sua dinâmica combinação, inclusive por meio da expansão do fundamentalismo religioso. Há algumas décadas, refletindo tal processo, de incidência mais forte no continente americano, o autor Délcio Monteiro de Lima escreveu um livro, cujo título não vinha à toa: Os demônios descem do norte (Editora Francisco Alves, 1987) cf. comentário in: http://fotossintetizador.blogspot.com/2011/12/sobre-o-livro-os-demonios-descem-do.html

Faz-se atual a denúncia lançada, ainda nos anos 70, da existência de “ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres.” Nos países periféricos do mundo, o Capitalismo atinge seu mais alto grau de perversidade. No centro de suas operações, estão as grandes corporações transnacionais, a atuarem em todos os setores da economia, (haja vista sua extrema lucratividade no campo da indústria de armamentos, por exemplo) inclusive no campo da Cultura e até das religiões.... Tal é sua avidez de lucro, que não hesitam em degradar cada vez mais as condições socioambientais, nas mais variadas partes do mundo. E já não se contentam com atuarem apenas na esfera da produção: também atuam numa variada gama de setores, de modo fortemente articulado, isto é, cuidam de atuar em conjunto com os Estados, induzindo-os a escancararem suas portas às suas mais destrutivas políticas econômicas. Não é por acaso o crescente hiato ou o crescente abismo que se abre entre governos e respectivas populações. Em profunda crise se acham as democracias representativas, mundo a fora.

E tudo isto vem sucedendo, num contexto também de crises daquelas forças e organizações de base da sociedade civil, portadoras de reconhecido potencial trasnformador. Sem tais forças, resulta em vão a luta por efetivas mudanças. Daí a urgência de se reorganizarem tais forças da sociedade civil, retomando, em novo estilo, seu processo organizativo e seu processo formativo CONTÍNUO, sem o que não há muito o que esperar de superação desses impasses societais, inclusive no que diz respeito aos fatores centrais provocadores das migrações forçadas.

João Pessoa, 17 de novembro de 2018