quarta-feira, 20 de março de 2019

PAULO FREIRE EM DIÁLOGO COM A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: anotações sobre um ensaio cinquentenário da lavra freireana


PAULO FREIRE EM DIÁLOGO COM A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO:  anotações sobre um ensaio cinquentenário da lavra freireana
Alder Júlio Ferreira Calado

A saga do Bolsonarismo não desponta repentinamente, nem precisamos recorrer aos seus quase trinta anos de vida parlamentar estéreo, à parte seu famigerado currículo profissional e político de posições extremadas de incondicional adesismo a posições de extrema-direita, inclusive as de apologia a tortura e a ditadura militar. Restrinjamo-nos à sua desventurada iniciativa de carreirismo político, em direção à presidência da República. Sabe-se que, desde 2015 tratou de semear e de cultivar tal ambição que, não tivesse acolhida pela cegueira anti-petista, não teria obtido qualquer êxito eleitoral. Mas, o que tem a ver a figura do atual Presidente da República com a veneranda figura de Paulo Freire e seu legado? Desde principalmente as manifestações de rua de 2013, nas quais as forças de ultra-direita também acabaram pegando carona, trataram de tirar partido, pode-se observar um crescente movimento contra o legado de Paulo Freire, do qual fazem parte diversos recursos, como as Fake News, a produção de vídeos difamadores sobre Paulo Freire, e até de faixas e cartazes reivindicando a destituição de seu nome como patrono da educação brasileira.    
Em nítido contraste com os (mal)feitos em profusão, de autoria de figuras necrofílicas, emergem produções luminosas de figuras amantes da vida, a exemplo de Paulo Freire, a quem muito bem se pode aplicar um dito da cultura judeu-cristã, sobre os seres humanos justos: “Tudo o que fazem prospera”(sl. 1, 3), ao contrário do destino da estupidez dos necrófilos: o desprezo e o esquecimento. Enquanto a estupidez e o obscurantismo não cessam de atormentar o povo dos pobres, no Brasil e no mundo, consola-nos saborear preciosidades produzidas por figuras como Paulo Freire e outras, cujos escritos seguem alimentando, como fagulhas de esperança, as pessoas e comunidades e movimentos que ousam ensaiar passos de resistência propositiva a esses descaminhos de barbárie. Nas linhas que seguem, alegra-nos revisitar um ensaio escrito por Paulo Freire, intitulado: “O papel educativo das Igrejas na América Latina”, texto que integra seu conhecido livro Ação Cultural para a Liberdade. O referido ensaio, alvo de nossas considerações, foi escrito em 1971, em Genebra, publicado em inglês sob o título “Education, Liberation and the Church”.  Nele, Freire dialoga criativamente com a então nascente Teologia da Libertação, com tal competência que um dos autores de referência da TdL, Clodovis Boff, em seu livro “Comunidade Eclesial – Comunidade Política” (Vozes, 1978), não hesita em incluí-lo no rol dos teólogos da libertação.
No referido ensaio, Paulo Freire começa por desmascarar uma suposta neutralidade, tanto no que fazer educativo, quanto no posicionamento da Igrejas cristãs. Qualquer tentativa de neutralidade é vã, além de acabar por revelar-se a favor da dominação. Em seguida, valendo-se da figura emblemática da páscoa, entendida como travessia na Práxis trata de percorrer criticamente os caminhos da Tradição de Jesus, que conduzem da morte à vida, da escravidão à libertação. E o faz centrando atenção em seus protagonistas, caracterizando suas ações no mundo, bem como no processo educativo vivenciado pelas Igrejas cristãs, tendo como pano de fundo o contexto latino-americano.
Cuida de analisar criticamente o papel educativo, desenvolvido pelas Igrejas cristãs, em seu cotidiano conflitivo. Estas, por sua vez, se vêem desafiadas por um contexto de exploração, de dominação e de marginalização, ao qual está sujeita a enorme maioria da população latino-americana, sobretudo o povo dos pobres. Diante de tal desafio, as cidadãs e cidadãos cristãos se acham interpelados a definirem sua posição – ou de subserviência e cumplicidade com as classes dominantes, ou de compromisso libertador com a causa dos oprimidos, não havendo lugar para meio termo, nem neutralidade, o que objetivamente representaria favorecimento aos “de cima”. A esta altura, empreende uma crítica pertinente aos que teimam aderir a uma postura neutra, impossível. Analisa o comportamento contrastante, de um lado dos “inocentes ou ingênuos”, e, de outro lado, dos espertos. Em relação aos primeiros, trata de problematizar sua postura, buscando desmontar pretextos baseados em sua suposta “pureza”, superioridade, santidade, enfim, imunidade em relação às coisas do mundo, com a vã pretensão de apego exclusivo às coisas celestes, enquanto se atrevem a pensar o povo como inferior, impuro... Dada a força dos argumentos contrapostos aos “ingênuos”, estes se sentem forçados a escolherem – agora, conscientemente – sua verdadeira posição: ou de teimarem enganar a si próprios, e assim passando a defender a causa dos opressores, traindo assim a causa evangélica, ou a de aceitarem correr o risco de aderirem à causa dos “debaixo”.
Pedindo escusas pela extensão da citação, mas ousando fazê-lo pela força dos argumentos utilizados por Freire, permitimo-nos reproduzir suas próprias palavras:
Os “inocentes”, por sua vez, através de sua própria prática histórica, ao desvelar a realidade e sendo nela desvelados, tanto podem assumir a ideologia da dominação, transformando, assim, sua “inocência” em “esperteza”, quanto podem renunciar a suas ilusões idealistas. Neste caso, então, retiram sua adesão acrítica às classes dominantes e, comprometendo-se com as classes oprimidas, iniciam uma nova aprendizagem com elas.

Isto implica na renúncia de seus mitos, tão caros a eles. O mito de sua “superioridade”, o mito de sua pureza de alma, o mito de suas virtudes, o mito de seu saber, o mito de que sua tarefa é salvar os pobres. O mito da inferioridade do povo, o mito de sua impureza, não só espiritual, mas física, o mito de sua ignorância absoluta.

Cedo percebem que a indispensável Páscoa, de que resulta a mudança de sua consciência, tem realmente de ser existenciada. A Páscoa verdadeira não é verbalização comemorativa, mas práxis, compromisso histórico. A Páscoa na verbalização é “morte” sem ressurreição. Só na autenticidade da práxis histórica, a Páscoa é morrer para viver. Mas uma tal forma de experimentar-se na Páscoa, eminentemente biofílica, não pode ser aceita pela visão burguesa do mundo, essencialmente necrofílica, por isso mesmo estática.

A mentalidade burguesa tenta matar o dinamismo histórico e profundo que tem a Passagem. Faz dela uma simples data na folhinha. A ânsia da posse, que é uma das conotações da forma necrofílica de ligação com o mundo, recusa a significação mais profunda da Travessia. Na verdade, porém, não posso fazer a Travessia se carrego em minhas mãos, como objetos de minha posse, o corpo e alma destroçados dos oprimidos. Só posso empreender a Travessia com eles, para que possamos juntos renascer como homens e mulheres libertando-nos. Não posso fazer da Travessia um meio de possuir o mundo, porque ela é, irredutivelmente, um meio de transformá-lo.
Da mesma maneira, aprendem que a consciência não se transforma através de cursos e discursos ou de pregações eloquentes, mas na prática sobre a realidade. (https://www.academia.edu/38319336/Paulo_Freire_-_A%C3%A7%C3%A3o_cultural_Para_a_liberdade_e_outros_escritos.pdf)


Trata-se, como se percebe, de um exercício de diálogo freireano com a abordagem característica da então nascente Teologia da Libertação, a esta altura protagonizada por figuras tais como Gustavo Gutierrez, Hugo Assmann, James Cone, entre outros. Uma abordagem que se tem revelado inovadora, diante de séculos de subserviência das principais forças eclesiásticas à ideologia do sistema dominante. Uma abordagem que, fundada no conhecido método ver-julgar-agir, e inspirada no Movimento de Jesus, se empenha, em recuperar a memória histórica das práticas e dos ensinamentos do Evangelho, do Reino de Deus, que Jesus veio anunciar e inaugurar, de modo profundamente enraizado na vocação libertária dos oprimidos.  
Tentando atualizar tal abordagem, diante da realidade presente, cuidamos de observar que saltam aos olhos pontos de coincidência do que hoje experimentamos com o ensaio Freireano. Durante a última campanha eleitoral, no Brasil, tal situação volta à cena, sob vários aspectos. Dentre os “inocentes”, se acham vários extratos da população, inclusive parcelas expressivas de cristãos e cristãs – católicos e evangélicos. Também estes, ao descobrirem a vã tentativa de neutralidade diante do espectro político-eleitoral, e fortemente atraídos pelas redes sociais comandadas pelos massivos disparos de “Fake News” (fenômeno idêntico ao que se produziu durante a campanha que resultou na eleição de Trump), por parte do pior dos candidatos – o mais despreparado, o que já havia dado provas evidentes de adesismo à Ditadura Militar, após ter feito clara apologia à tortura, ao idolatrar a figura do Coronel Ustra, ao divulgar vídeos de racismo expresso contra Negros, contra povos originários, após dar provas de posturas claramente homofóbicas, misóginas, de idolatria à figura de Trump, ainda assim passam a uma adesão cega e incondicional, mesmo tendo certeza das estúpidas distâncias entre o comportamento do candidato e a fonte principal de sua fé, os evangelhos...
Retomando nosso emblemático ensaio freireano, damo-nos conta de que tal é a força transformadora da memória histórica, que, seja de modo expresso, seja de modo implícito, situações, fatos e acontecimentos do dia-a-dia resultam prenhes de sua presença vivificante. Isto também se dá com escritos emblemáticos, de autoria de figuras de referência, como a de Paulo Freire. Um deles, trazemos ao debate, num contexto sombrio, no qual o texto da lavra de Paulo Freire se revela emblemático e oportuno.
Oportuno, também, do ponto de vista de consideráveis parcelas de nossa população, as que que se confessam cristãs. Referimo-nos ao atual tempo litúrgico celebrado pelo mundo cristão – o tempo da Quaresma, ante-sala da Páscoa, sobre o qual o referido texto finca algumas de suas bases de argumentação, fazendo aí transparecer um de seus trações existenciais: o de sua inserção existencial também como um cristão, aí exercitando argumentos teológicos notáveis, como o da categoria “Páscoa”, “Travessia”.
Em uma tentativa sinótica, que aspectos mais fortes ousaríamos salientar do cinquentenário ensaio da lavra de Paulo Freire, meio século depois de ser escrito? Resumidamente, destaquemos os seguintes:
- a memória histórica, desde que exercitada, não como uma inicitava de saudosismo – de quem interpreta o passado como coisa morta -, segue sendo uma fonte poderosa de reabastecimento e reenergização de nossas forças transformadoras da realidade hegemônica, em busca de permanente alternatividade, isto é, de superação da ordem vigente, em busca de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo, de um novo modo de gestão societal, que se vá processando, ainda que molecularmente, a partir de nossas organizações de base, especialmente dos movimentos populares;
- o ensaio freireano se nos revela de rara oportunidade, nesses tempos de obscurantismo, marcados por uma gestão governamental fundada na mentira, na traição mais perversa dos interesses nacionais, colocados a serviço da barbárie representada pelas sucessivas trapalhadas de uma figura tenebrosa, como a de Trump, feito presidente pela força de “fake News”, de modo muito similar ao que se passou no Brasil;
- o ensaio freireano nos interpela, pessoal e coletivamente – em especial, a nossas organizações de base -, no sentido de que em vão esperamos que a libertação dos “de baixo” venha como presente ou dádiva dos “grandes deste mundo”, mas como protagonismo, como práxis cotidiano de reinvenção da Política, cujos sujeitos , rememorando tempos frutuosos de suas ações, se empenhem incansavelmente em ensaiar passos alternativos à barbárie, seja na esfera organizativa, seja no campo formativo, seja no plano da mobilização, a partir da retomada, em novo estilo, de nosso enraizamento no povo do campo e das periferias urbanas, sem cujo protagonismo falecem nossos ideais de uma nova sociedade.

João Pessoa, 20 de março de 2019

P.S. Hoje, comemoramos 39 anos do assassinato, em El Salvador de Dom Oscar Romero, cuja trajetória de pastor profeta foi também marcada por esta Travessia de que fala Freire, isto é, de uma posição antes ingênua, passa à condição de verdadeiro discípulo de Jesus de Nazaré, alimentado por um profundo aprendizado de compromisso com a causa libertadora de seu povo. Tornou-se uma grande referência para as cristãs e cristãos de hoje.

terça-feira, 12 de março de 2019

A OUSADIA DE ENSAIAR POLÍTICAS PÚBLICAS, EM CONTEXTO DE OBSCURANTISMO: CONSIDERAÇÕES EM TORNO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2019



Alder Júlio Ferreira Calado

Pelo 56º ano consecutivo, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realiza a Campanha da Fraternidade (CF), e, há vários anos em periódica parceria com o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), tem-se empenhado em despertar a consciência-cidadã de cristãos e cristãs a partir de temas e lemas atinentes a urgências conjunturais. Neste ano, a CF chama a atenção de seu público para o desafio das Políticas Públicas. A exemplo de outras precedentes, costuma realizá-las recorrendo a um conjunto de materiais didáticos, dentre os quais o texto-base, sempre utilizando-se do método Ver-Julgar-Agir.
A despeito dos limites inerentes a uma campanha (inclusive de duração insuficiente), a CF tem contribuído para um exercício crítico dos cidadãos e cidadãs, em vista de suas responsabilidades políticas. Não bastassem, porém, os limites de toda campanha, acresce o desafio de estarmos experimentando uma conjuntura de adversidades mais graves, em especial, a que diz respeito à ofensiva de um capitalismo extremamente ávido de sangue de humanos e de crescentes agressões ao Planeta e à comunidade dos viventes. É, também, o caso do Brasil de hoje. Nas linhas que seguem, cuidamos de situar brevemente alguns aspectos deste desafio de monta ao tempo em que compartilhamos nossas inquietações e esperanças.
A avidez do Mercado capitalista e seus aliados
Desde suas origens, mas mais recentemente, por exemplo, nos inícios desse século, o capitalismo vem ampliando sua voracidade pelo mundo afora. Também, no Brasil. Que nos seja suficiente um rápido olhar sobre as políticas econômicas impostas aos Estados Nacionais, por estas grandes corporações transnacionais, atingindo todo o espectro dos mais distintos setores da economia – do Agronegócio às Empresas de Mineração, dos mais diversos ramos industriais à voracidade financista, representada principalmente por seus paraísos fiscais, e alcançando atividades outras, seja no campo da cultura, da educação e até das religiões...
Trata-se, com efeito, de um gigantesco desafio, não apenas pela grosseira ofensiva e avidez de lucro destas transnacionais, mas também por uma conjuntura histórica bastante vulnerável enfrentada por nossas organizações de base, em especial os movimentos sociais populares. Tal fragilidade acirra ainda mais a cobiça destas grandes empresas capitalistas, bem como do seu setor parasitário – o financista. Lembremo-nos de passagem, dos recentes crimes socioambientais praticados pela Vale e suas parceiras. São apenas 2 exemplos, mais visíveis de tragédias humanas e ambientais que, além de agredirem mortalmente nosso ambiente, ceifam inúmeras vidas humanas, além de ameaçarem gravemente as condições de vida de grandes setores de nossa população – povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhos, pescadores, etc. Eis apenas uma ilustração de tragédias socioambientais relativas a um único ramo da economia, devendo nós estar lembrados de que, em nossa sociedade, a presença dessas transnacionais se estende a tantos outros ramos de nossa economia.

Outro aspecto complementar deste cenário de impasses, enfrentado pela CF 2019 prende-se aos graves limites da atual conjuntura brasileira, no âmbito governamental. As forças sociais eleitoralmente vitoriosas mostram-se bem afinadas aos apelos privatistas mais escancarados, sob o argumento de que, para se reduzir os impactos deletérios da atual crise, que o Brasil vive, já há cerca de quatro anos, não há outra saída senão a de abrir mão de grande número de empresas estatais, a serem tocadas pela iniciativa privada, nacional ou internacional. Outra estratégia acenada é a de modificar a legislação socioambiental, de modo a desobstruir óbices à ampliação de terras a serem utilizadas pelo agronegócio e à mineração, ainda que contrariando frontalmente os interesses dos povos indígenas, das comunidades quilombolas e da população ribeirinha e outros grupos tradicionais. Nesse sentido, as forças governamentais fazem coro com as grandes organizações transnacionais que já se manifestam contrárias ao Sínodo Pan-Amazônico, previsto para realizar-se, em outubro vindouro.  A atual conjuntura governamental ainda apresenta gigantescos desafios às políticas públicas preconizadas pela CF 2019, em diversas outras áreas: na dramática situação trabalhista, agravada com a recente aprovação da “Reforma” Trabalhista, que ataca gravemente direitos fundamentais do mundo do trabalho, sob vários aspectos; a naturalidade com que se acomoda à dívida pública estratosférica, a omissão ou recusa em cobrar altíssimas dívidas de gigantescas empresas (Itaú, Bradesco, Santander...), grandes devedoras da Previdência Social; graves ameaças e perseguições aos movimentos sociais populares (indígenas, quilombolas, camponeses, operários, mulheres, população LGBTI), perseguição aos valores da Cultura Popular, em razão da agressividade fundamentalista das religiões dominantes...

O que resulta possível fazer-se em cenários tão desafiantes?

Ainda que se trate de uma campanha – e, portanto, de uma iniciativa passageira -, e ainda que se tenha clara a natureza complexa e ampla dos desafios presentes, sempre é possível e necessário fazer-se alguma coisa, e para bem além do tempo quaresmal. A seguir, tratamos de pontuar alguns aspectos que podem merecer especial atenção, sobretudo se enfrentados com base em alguns critérios tais como:
- os problemas existem para serem enfrentados e resolvidos, ainda que saibamos que dificilmente conseguimos resolver alguns deles, a contento: sempre há o que neles aprimorar;
- mesmo necessitando enfrentá-los, alguns a curto prazo; outros, a médio e outros a longo prazos, até estes últimos para serem resolvidos, necessitam ser enfrentados, desde já, passo a passo;
- tal é a relação de profunda interação que envolve todos esses problemas, que dificilmente serão resolvidos de modo isolado, um dos outros: há um nexo orgânico entre todos eles, razão por que devem ser enfrentados igualmente de modo interconectado, com a devida dosagem;
- isto não impede que, por exemplo, durante uma campanha como a CF 2019, não possamos priorizar os que nos pareçam mais urgentes.

Quais, então, priorizar? Aqueles que se mostram de natureza mais diretamente econômica - a questão da dívida pública, a política trabalhista, a política tributária, as grandes políticas econômicas, etc.? Ou partimos do enfrentamento das políticas públicas voltadas a questões de gênero, etnia, geração, moradia, transporte público, etc.?

Sem esquecermos nenhuma delas, e sem que nunca deixemos de ter presentes sua interconexão orgânica, parece mais razoável a concentração de esforços naquelas que mais diretamente incidem sobre o cotidiano de nossas comunidades, isto é, cabe a cada comunidade definir quais as que devem ser enfrentadas, com mais ênfase, durante a CF. Comunidades há que enfrentam mais diretamente o drama hídrico (sem que se descuidem de outras); outras há, em que as doenças provenientes do envenenamento do solo, do subsolo, das águas e dos rios entendam dever priorizar; outras se sentem mais duramente impactadas pelas ameaças de rompimento de barragens, enquanto outras priorizam o aprofundamento de técnicas alternativas de convivência com o Semiárido, havendo outras sentindo-se aflitas com a incidência insuportável dos índices de feminicídio e de assassinatos e violações aos direitos da Comunidade LGBTI. E assim por diante.
Salvo alguns desses casos, que supõem um assumir mais explícito do Estado, boa parte desses e de outros desafios é possível enfrentar – como, aliás, já se fez, em passado recente ou menos recente – por meio de iniciativas autônomas da sociedade civil, onde se colhem resultados excelentes, sob vários aspectos: mais empoderamento de nossas organizações de base; mais autonomia quanto às decisões tomadas, nos mais distintos momentos do processo; resultados mais duradouros; fortes marcas de democracia direta, favorecendo um protagonismo mais sólido dos sujeitos participantes, entre outros.
Se a CF 2019 conseguir ajudar a despertar a consciência crítica de parcelas consideráveis de nossa sociedade, já terá alcançado pelo menos parte expressiva de seus objetivos. E o que significa isto, na prática? Significa, por exemplo, valer-se dos seus materiais didáticos para promover reuniões, encontros em pequenas comunidades, no mundo rural e nas periferias urbanas, com o objetivo de interpelar o mundo cristão, de sua responsabilidade de cidadãos e de cidadãs, a serviço da causa libertadora do Reino de Deus e Sua justiça. A partir das características sócio-eclesiais dessas comunidades, buscar desvelar o que o sistema oculta de sua vista. Significa dotar os cidadãos e cidadãs de instrumentos capazes de ajudá-los a desvendar e desmontar os esquemas ideológicos utilizados pelo Estado e seus agentes, fazendo crer à população de uma suposta impossibilidade ou falta de recursos para enfrentar os grandes dramas de nossa população. Significa ajudar os cidadãos e cidadãs a desmascararem tantas reformas perversas votadas contra o povo brasileiro, a exemplo da “Reforma” Trabalhista, um verdadeiro desmonte das leis de proteção dos direitos dos Trabalhadores e Trabalhadores, com o completo esvaziamento da CLT, sob o pretexto de “modernizá-la”, prometendo a abertura de milhões de empregos, enquanto a realidade, um ano após tal desventura, segue atormentando a vida de mais de 12 milhões de desempregados, sem contar o enorme número de sub-empregados e mal-empregados. Significa, ainda, ajudar os cidadãos e cidadãs a resistirem à perversidade que se arma com a suposta reforma da Previdência Social, quando se sabe que o grande interesse de seus defensores é escancarar mais ainda as portas para a privatização da Previdência, entregando-a a cargo dos bancos e organizações financistas, o lado mais podre do sistema capitalista. Significa ajudar os cidadãos e cidadãs a se integrarem nos movimentos populares comprometidos com políticas agroecológicas, em várias frentes, incluindo até as feiras agroecológicas. Significa incentivar iniciativas de novas tecnologias de convivência com o Semiárido. Significa promover iniciativas de apoio a políticas públicas voltadas para as mulheres, os jovens, as crianças, os adolescentes, às pessoas idosas, política carcerária, política sanitária, bem como os sujeitos da questão de gênero, de etnia, a questão agrária e agrícola, a demarcação de terras indígenas e quilombolas, entre outras iniciativas.

João Pessoa, 12 de março de 2019

quarta-feira, 6 de março de 2019

URGÊNCIAS MISSIONÁRIAS CONTEMPORÂNEAS: o caso da vocação teológica das mulheres


Alder Júlio Ferreira Calado

São plurais os caminhos inspirados pelo Espírito do Ressuscitado aos e às que buscam ser solícitos ao Seu seguimento. Assim tem sido, em todos os tempos e lugares. Também hoje. Há, com efeito, uma diversidade considerável de formas de atendimento aos apelos do Sopro Fontal, do Espírito Santo, em sua atuação no mundo e ao interno das Igrejas cristãs. Uma ilustração didática do que estamos a evocar faz-se presente, por exemplo, na diversidade de formas de aturarem como missionárias e missionários os diferentes grupos e comunidades ligados à Teologia da Enxada. Aqui se observa um leque de opções missionárias em curso: peregrinos e peregrinas, missionários e missionárias do campo, contemplativos e contemplativas, formadores e formadoras missionários e missionárias atuando nas periferias urbanas, etc. São, todas, formas distintas de atendimento ao chamado do Ressuscitado: "Não foram vocês que Me escolheram, mas fui Eu quem os escolhi, e os enviei, para que vocês vão e produzam frutos, e estes frutos permaneçam." (Jo 15, 16). E assim se faz pelo mundo a fora. Tais formas de atuação missionária, por estarem vinculadas ao chamamento do Espírito Santo, também têm a ver com situações concretas, tais como: conjunturas sócio-eclesiais específicas, escolhas pessoais em função de vocação pessoal, urgências históricas, no âmbito sócio-eclesial, etc. Nas linhas que seguem, propomo-nos a considerar alguns elementos atinentes a uma dessas urgências missionárias contemporâneas, a saber, a produção teológica pelas mulheres.

É gratificante constatar o crescente número de mulheres - religiosas, leigas (consagradas ou não), a assumirem, em distintas partes do mundo, e em diferentes igrejas e mesmo ao interno de confissões não-cristãs, o desafio de produzirem teologia. Tal tendência é algo a ser saudado, com entusiasmo. De fato, quando comparamos, em passado recente, ou menos recente, o número de mulheres dedicadas às pesquisas teológicas em relação ao número de homens, as distâncias pareciam astronômicas. Que bom que isto esteja mudando! Por outro lado, também convém termos presentes as desigualdades ainda persistentes. E isto tem feito uma diferença significativa, sobretudo num mundo afetado gravemente por tendências androcêntricas e fundamentalistas. E aqui, também, o âmbito teológico tem um papel decisivo.

Nos mais distintos domínios de saberes - do campo filosófico à esfera das religiões; da área científica à literatura e as artes, etc., pesquisas recentes têm revelado aspectos impactantes em seus resultados, ou melhor, em todo o seu processo, quando conduzidos por mulheres, sob a perspectiva feminista. No caso da história do Medievo, por exemplo, as pesquisas de perfil feminista vêm trazendo revelações emblemáticas, à medida que aprofundam a compreensão do lugar privilegiado das sábias medievais, relegadas, durante séculos, à invisibilidade autoral. Acerca destas descobertas há uma literatura acadêmica significativa (ver, por ex., indicações biobibliográficas constantes no livro de Georges Deuby e Michelle Perrote. História das mulheres, vol. II, Porto: Afrontamento, 1990).

Nosso propósito, nas linhas que seguem, restringe-se a breves notas sobre o campo específico da produção teológica por mulheres, inclusive no campo da exegese.

À semelhança do que sucede nos campos filosófico, histórico e literário, atinentes à Idade Média, cumpre observar os avanços notáveis também em curso na área da Teologia, como podem ser atestados por autoras tais como Fiorenza, Gebara, Marinella Perroni, Teresa Forcades, entre outras. Que aspectos podem ser sublinhadas da excelência de tais pesquisas? Tal como já vinha acontecendo, desde algumas décadas, em relação às pesquisas bíblicas voltadas para uma releitura dos textos sagrados, sob a perspectiva dos pobres na América Latina (ver, a este respeito, por ex., a expressiva obra sobre a história da Igreja na América Latina, do ponto de vista do povo, conduzidas pela Comisión de la Historia de la Iglesia Latinoamericana y Caribe, também se passa com relação ao olhar feminista. A condição de gênero implica, com efeito, modos distintos e, por vezes, antagônicos, de se apreciar o mesmo texto sagrado. Como as traduções das Sagradas Escrituras, durante séculos, foram obra de homens, tem resulto uma tendência à cristalização das interpretações da Bíblia (e de qualquer outro texto sagrado) feitas por homens, sob os mais diferentes aspectos. Narrativas vétero e neotestamentárias que o olhar masculino interpreta de um modo, comportam notáveis diferenças, quando lidas por mulheres, numa perspectiva feminista, como alertam várias teólogas, dentre as quais Teresa Forcades (cf., por ex., seu livro "A Teoloia Feminista na História; ver ainda Dr. Elizabeth Schussler Fiorenza: https://www.youtube.com/watch?v=dUDlV8B1aHw ; Marinella: https://www.youtube.com/watch?v=ym7gRUM2zXc )

Que desafios concretos da atualidade católica demandam um enfático apelo ao empenho as leigas e das religiosas, no sentido de se dedicarem cada vez mais aos estudos teológicos, em suas diversas áreas, inclusive da exegese bíblica e da história do cristianismo? Ora, no campo missionário e outros, tais como o terreno pastoral, deparamo-nos com desafios desta natureza. Em várias ocasiões do agir missionário, situações embaraçosas vêm a lume. E, não raro, acabam prevalecendo posições tipicamente masculinas, quando não mesmo machistas, com a agravante de se apoiar em textos bíblicos sob interpretação exclusivamente masculina, não raramente descampando para interpretações androcêntricas, que acaba prevalecendo.

No cotidiano missionário, bem como em outros cenários da vida eclesial são constantes e frequentes, as situações concretas, nas quais prevalecem interpretações androcêntricas, em grande parte por conta da desvantagem que as mulheres católicas (e também de outras expressões religiosas) se veem diante de interpretações bíblicas (do antigo e do novo testamento), sem que tenham condições de reagir à altura. E aí se trata de questões fundamentais, no que diz respeito a uma compreensão mais próxima da tradição de Jesus. Neste sentido cumpre reforçar a importância do protagonismo das mulheres também no campo da pesquisa teológica, do que podem ser tomadas como referência iniciativas tais como:

- Há cerca de quatro décadas, o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI) nos tem brindado com uma produção de profundo e vasto alcance, no campo dos estudos bíblicos, inclusive no que concerne a condição feminina;

-O excelente trabalho de pesquisa protagonizado pelas autoras Luise Schottroff, Silvia Schroer e Marie Theres Wacker, com seu livro intitulado “Exegese Feminista – Resultado de pesquisas bíblicas, a partir da perspectiva de mulheres” (cf. http://books.google.com.br/books?id=SbBIR27O59oC&pg=PA51&lpg=PA51&dq=quiriarcado&source=bl&ots=IWP4vr6Wko&sig=finMW_0CPZ36cisC0x8RgRRfIq4&hl=pt-PT&sa=X&ei=lA4uU7rsAafV0QHSmIGgDA&ved=0CDQQ6AEwAQ#v=onepage&q=quiriarcado&f=false );

- Os trabalhos reconhecidos, realizados por diversas Religiosas, ligadas à conhecida Conferência das Religiosas dos Estados Unidos (https://lcwr.org/ );

- A intensa atuação de pesquisadora e palestrante da Teóloga Ecofeminista Ivone Gebara;

- A fecunda iniciativa de Católicas pelo direito de decidir, inclusive por meio de sua instigante série de pequenos vídeo, intitulada “Catolicadas” (cf. https://www.youtube.com/watch?v=HcX0Iv2zLm4 );

- Há de se lembrar a atuação criativa de mulheres de diferentes confissões religiosas, espalhadas pelo mundo, que também se valem da produção literária como meio de expressarem suas convicções religiosas;

Ao longo da história do Povo de Deus, inclusive da trajetória do Cristianismo, as mulheres mesmo em profunda desvantagem em relação aos homens sempre protagonizaram momentos marcantes, dos quais o Movimento das Beguinas e mais recentemente, as Pequenas Comunidades de Religiosas inseridas no meio popular (PCIs), bem como várias organizações feministas atuando nos Estados Unidos, no Canadá, na América Latina e na Europa constituem exemplos ilustrativos inspiradores. Que as energias subversivas também ao feminino, nos inspirem a todas, a todos, neste 8 de março, tanto no âmbito do Sagrado, quanto nas lutas sociais libertárias.

João Pessoa, 6 de março de 2019.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019


IGREJAS AUTO-REFERENCIADAS (ECLESIOARQUIA) OU COMUNIDADES CENTRADAS NO SEGUIMENTO DE JESUS (BASILEACENTRICAS)?

Ainda que veiculada uma noção de Reino de Deus, as Igrejas cristãs, inclusive as reformadas, se comportam, salvo raras exceções, como igrejas auto referenciadas, que se bastam a si mesmas. Tal atitude comporta, por sua vez, todo um leque de consequências graves, ainda muito pouco percebidas, no nível da consciência, urgindo ajudá-las a despertarem deste estado.

No caso específico da Igreja Católica Romana, mesmo após cinquenta anos desde a realização do Concilio Vaticano II, cujos documentos centrais insistem na urgência de se rever um modelo de Igreja, com frequência, descolado da Tradição de Jesus, eis que muito pouca coisa mudou e, pelo correr da carruagem, tende a mudar. Povo de Deus - ao menos ao interno da Igreja Católica Romana - que, numa acepção ortopráxica de Reino de Deus, deveríamos estender para toda a humanidade – é situado pela Lumen Gentium como o sujeito coletivo corresponsável pela organização da Igreja Católica Romana, razão por que vem tratado antes da hierarquia. Seria de se esperar que, passado mais de meio século, isto tivesse alterado visivelmente o modelo de organização da própria Igreja. Não é o que se vê. A hierarquia segue comportando-se como único sujeito decisivo da gestão eclesial, por mais que o atual Bispo de Roma não cesse de chamar a atenção, inclusive mediante documentos emblemáticos, como o faz na Evangelii Gaudium, ainda muito pouco lida pelo clero e, menos ainda, levada a sério.

Por outro lado, cumpre lembrar que o Concílio Vaticano II, realizado há mais de cinquenta anos, foi convocado pelo Papa João XXIII, em 1959, como um ponto de partida – não um ponto de chegada -, ante décadas de atraso em que andava mergulhada a Igreja Católica Romana. Mais recentemente, em sua última entrevista, o Cardeal Carlo Maria Martini, quando perguntado sobre sua avaliação da atual situação organizativa da Igreja Católica, não hesitou em responder que ela se achava com uns duzentos anos de atraso (https://tg24.sky.it/cronaca/2012/09/01/carlo_maria_martini_morte_ultima_intervista_corriere_chiesa_indietro_200_anni.html )... Pois bem, mesmo diante de tal sentimento e o de que o Concílio Vaticano II tenha sido realizado, há mais de meio século, como um ponto de partida, seguem engessadas e pesantes as estruturas eclesiásticas, a despeito da posição profética do Papa Francisco. Ainda bem recentemente, ao intervir no final da Conferência sobre os escândalos de abusos sexuais, na Igreja Católica Romana, o Bispo de Roma lembrava a necessidade da participação das mulheres católicas, nas decisões eclesiais. Sendo assim, reduzem-se as esperanças de segmentos não-hierárquicos – e até de minorias dentre os componentes do próprio clero – de que continuam mínimas as chances de alteração desta ordem de coisas. Em outras palavras, se em tempos passados, os próprios componentes da hierarquia eclesiástica, sentindo-se pressionados pelas urgências de novos tempos, aceitavam ceder a tais pressões e introduziam algumas alterações nas estruturas eclesiásticas, convencidos de que “Reformata, Ecclesia reformanda est”, no presente, contudo, não há sinais de que mudanças necessárias e urgentes venham a acontecer, a dependerem apenas do segmento clerical...

Eis por que cresce o sentimento, entre as fileiras das Batizadas e dos Batizados católicos, de que em vão esperam dos hierarcas eclesiásticos iniciativas de mudança deste panorama, e, em consequência, vão se mostrando dispostos a darem, eles mesmos, elas mesmas – passos em direção a efetivas mudanças. Prova disto dão os crescentes grupos e movimentos protagonizados por Leigos e Leigas, em todo o mundo católico, ao tomarem iniciativas de vários tipos.

Há, por um lado, grupos e movimentos de Leigos e Leigas que seguem empenhados em dialogar fraternalmente com o segmento clerical, inclusive por meio de convites, documentos e notas de solidariedade à atuação pastoral-profética do Bispo de Roma. Outros há que, sem qualquer intenção de provocar rupturas ou mal-estar, ousam dar passos no limite de suas atribuições canônicas. Outros, contudo, já começam a dar sinais de certo cansaço, e se atrevem a ultrapassar os limites de suas atribuições canônicas, sob alguns aspectos. Por exemplo, ainda recentemente, deu-se a conhecer uma convocação de um sínodo de Leigas e Leigos, por iniciativa própria, um sínodo autoconvocado. Notícias também circulam de iniciativas comunitárias de celebração da Ceia do Senhor, sem a participação de um presbítero ou, com a presença deste em igualdade de participação com os demais membros da comunidade, como aliás se fazia entre as primeiras comunidades cristãs...

À parte excessos cometidos, aqui e ali, somos forçados a reconhecer a ausência de sinais convincentes, da parte dos responsáveis pela manutenção da atual estrutura organizativa eclesiástica, de se sensibilizarem efetivamente diante desse clamor de renovação. Tal posição enrijecida em nada ajuda a unidade da Igreja Católica Romana. Pelo contrário, contribui para incentivar gestos de ruptura, cujo desfecho não nos anima na direção do diálogo e da unidade dentro da diversidade, a médio e longo prazos.

Diante de tais impasses, que iniciativas ajudariam na direção de uma superação dos mesmos? A título de contribuir com esse diálogo, ocorre-me partilhar algumas ideias, ciente e respeitoso de tantas outras.

A despeito de certa descrença, por parte de alguns grupos e movimentos católicos progressistas, de que não se tem muito a esperar do segmento clerical, entendo não devermos descartar reiteradas tentativas de diálogo, seja com membros ou instâncias hierárquicas abertas a tal iniciativa, seja com quaisquer outros segmentos eclesiais dispostos ao mesmo exercício.
Isto não impede que se vá mais longe, de modo a ousarmos passos ainda não ou pouco tentados. Por exemplo:
- Que tal empreendermos passos em direção a um debate maior e a inciativas de organização mais atuante, a médio e longo prazos, do segmento eclesial protagonizado pelas leigas e pelos leigos, inclusive com vistas à organização de conferências nacionais (como primeiro passo para a organização de conferências continentais)?
- Por que não ousarmos passos, a médio e longo prazos, com vistas a um novo Concílio a ser desta vez protagonizado, por delegações proporcionais de todos os segmentos eclesiais?
Convém ressaltar que tais iniciativas constituem apenas algumas de tantas possibilidades a serem debatidas e amadurecidas, não apenas pelo segmento eclesial composto pelas leigas e pelos leigos, mas pelo conjunto católico de Batizadas e Batizados, compromisso a ser assumido no tempo que o Espírito do Ressuscitado nos inspirar...
João Pessoa, 27 de fevereiro de 2019. 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

VENEZUELA: VIA BELIGERANTE ABORTA SAÍDA DEMOCRÁTICA


VENEZUELA: VIA BELIGERANTE ABORTA SAÍDA DEMOCRÁTICA

Alder Júlio Ferreira Calado

No momento em que estas linhas estão sendo digitadas, deve estar iniciando, em Bogotá, um encontro com lideranças e chefes de Estado do continente, acerca dos próximos passos a serem dados, com vistas a uma suposta saída do impasse venezuelano.

A Venezuela segue a desafiar o processo democrático, seja por vias endógenas seja por via exóginas. Nos últimos meses e nos últimos dias, agiganta-se o risco de uma conflagração sangrenta, de grandes proporções, de modo a abortar o caminho democrático como única condição de uma saída democrática, de alcance razoável. Não nutro simpatia pelas escolhas em curso do regime venezuelano. Tenho, de minha parte uma posição próxima da manifestada pelo sociólogo François Houtart (cf., por exemplo: https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/4834924.pdf ).

Independentemente de qual seja a avalição sobre as escolhas do Governo de fato e legalmente instalado da Venezuela, sucessivas tentativas endógenas e exógenas de superação da atual crise têm resultado frustradas. E, ao que parece, as mais recentes tentativas emitem sinais de nova frustração. E o que nos leva a sinalizar nesta direção? Cuidemos, a seguir (brevissimamente), de pontuar alguns elementos, tomando em consideração uma sucessão de análises de um amplo espectro político-ideológico, indo de analistas venezuelanos a comentaristas europeus; indo de uma interpretação de Causa Operária, passando por boas análises disponibilizadas pela Boitempo, a interpretações de Breno Altmann, de Boaventura de Sousa Santos... (Sobre este último, ver:

Nas linhas que seguem, limitamo-nos a destacar, rapidamente, elementos em forma de questionamentos que considero importante compartilhar.

É sabido que crises humanitárias acontecem, neste instante, em diferentes países, mundo a fora, a merecerem iniciativas internacionais de verdadeira ajuda humanitária. Por que será que o caso Venezuela - que está longe de ser o mais grave - desperta tanto sentimento de solidariedade?

O que os pobres da Venezuela têm de tão importante - a mais do que outros povos - para merecerem tanta atenção e interesse, desde Trump e seus aliados?

No passado - recente e menos recente -, em que resultaram tais ajudas humanitárias (inclusive no Brasil dos inícios dos anos 60, com a participação de organismos tais como a USAAID)?

Em que resultaram, na pratica, ações de intervenção similares, no Iraque, na Líbia, etc.?

Pode-se mesmo dizer que daí rebrotou a Democracia? Qual Democracia?

À parte eventual (e duvidoso!) Interesse humanitário de grandes corporações estadunidenses e respectivos governos aliados, será que o petróleo deve ser considerado seu alvo especial?

Que saída democrática é possível, sem a participação decisiva das diversas forças que constituem o povo venezuelano? É o povo venezuelano ou são as forças exógenas a quem deve caber a decisão, em busca de uma saída democrática?

As potências e os grupos externos, tão interessados em determinar o destino do povo venezuelano, achando-se em semelhante situação, aceitariam a saída que se está a propor, inclusive a da criação de um presidente autoproclamado?

Com relação à propagada "ajuda humanitária", esta alcança que ordem de valor (20 milhões de dólares), quando comparada ao sequestro de dezenas de bilhões de dólares, feitos pelo Governo Trump, contra o povo venezuelano?

No caso do Governo brasileiro diante de profundos desafios enfrentados, não será, no mínimo, temerária uma adesão incondicional à tese de invasão (ou algo semelhante) do território venezuelano?
Diante da conhecida e reconhecida tradição diplomática do Brasil, no conjunto das nações, não parece evidente seu perfil já provado e aprovado, em vez de um perigoso adesismo às soluções de força?

João Pessoa, 25 de fevereiro de 2019.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

RICARDO BOECHAT, UM JORNALISTA DIFERENCIADO: traços do perfil de um cidadão aguerrido



Alder Júlio Ferreira Calado

As linhas que seguem, já haviam sido concebidas há algum tempo. Somente agora, contudo, num contexto de comoção pelo trágico acidente de que foi vítima há uma semana, é que vêm a público. De todo modo, entendo dever compartilhar, a quem interessar possam, algumas ideias que sua trajetória – principalmente, nos últimos anos – me inspira.
Seria supérfluo de minha parte, assinalar não ser necessário subscrever todas as teses de Ricardo Boechat – como, aliás, de qualquer outra figura -, mas, considerando tempos de pós-verdade e de “Fake News”, prefiro fazê-lo. Sem qualquer pretensão de classificar seu perfil político, apenas assiná-lo que o avalio como um democrata progressista, apartidário, com notáveis traços anárquicos. Aqui e agora, me ponham a realçar alguns aspectos de seu percurso profissional, que me tocam mais particularmente. E o faço, centrando atenção em 3 dimensões que hora sublinho: a dimensão ética, seu senso de humor, sua inventividade.
Do ponto de vista ético, Boechat começa a despertar a atenção pelo fato de declarar-se com certa frequência um ateu. Para um largo público, isto já seria suficiente para tomar-se cuidado com seus ditos e escritos. Eu não estranharia a divulgação, por certos segmentos de nossa sociedade (os segmentos fundamentalistas) de uma interpretação, segundo a qual o acidente de que foi vítima teria sido um castigo de Deus... É triste ouvir esse tipo de interpretação! Simplesmente, denuncia nossa profunda cegueira humana e, em relação ao mundo dito cristão, uma traição ao Evangelho do “poeta da compaixão”.
O que se poderia dizer do comportamento ético apresentado nos mais distintos ambientes jornalísticos e não jornalísticos, por esta figura emblemática? É conhecida e reconhecida sua postura de transparência. Com frequência, é capaz de expor, sem restrições, sua posição jornalística e de cidadão, ao ancorar situações e fatos, os mais espinhosos. Independentemente dos riscos de equívocos, que tantas vezes enfrentou, ao comentar questões extremamente polêmicas, não hesitava em dizer seu lado, agradasse ou desagradasse a ouvintes e telespectadores. Qualidade rara, num contexto dominado pelo “paradigma da pós-verdade” principalmente considerando-se os limites de sua função de jornalista, perante as redes de comunicação a que estava profissionalmente vinculado. Comentários e críticas contundentes dele se ouviam, diariamente, a cerca de tantos fatos e situações, seja no âmbito da Política, seja no âmbito da economia, etc. Quando eventualmente se sentia flagrado em equívoco, não hesitava em reconhecer publicamente, após o cuidado habitual de averiguar suas fontes, algo nada comum no jornalismo dominante, no Brasil e alhures. A despeito de seus limites como ser humano, suas atitudes sinalizavam uma paixão pela verdade. E o fazia, não em nome de alguma religião ou de algum deus – declarava-se ateu -, mas em razão de sua consciência e de seu compromisso com a verdade. Tal atitude contrasta, frequentemente, com a de tantas figuras que, em nome de Deus ou de sua religião, agem com esperteza, com meios termos, reféns da conveniência e de seus interesses inconfessos. “Este povo me louva com os lábios, mas longe e mim está o seu coração”...

Chama igualmente a atenção sua abertura diante de pontos de vista diversos dos seus, bem como soa impactante seu senso de autocrítica. Em não raras situações, em que analisa determinadas atitudes alheias eticamente reprováveis, especialmente quando ao trazer seus argumentos denunciativos, costumava levantar hipóteses, incluindo a si mesmo ou os seus, como possíveis alvos da mesma crítica, para confirmar que sua posição seria a mesma com que trata erros alheios. Procedimento eticamente bastante saudável!
Ainda quanto à dimensão ética de seu perfil de jornalista e de cidadão, importa destacar seu extraordinário senso de justiça, bem como sua sensibilidade e solidariedade para com toda sorte de vítima de injustiça. Ao perceber qualquer fato concreto ou qualquer situação objetiva  envolvendo, não importa quem, não media esforço nem palavra para se posicionar em defesa da vítima, com admirável coragem. Desassombrado, passava a denunciar o fato e a cobrar responsabilidade, fosse quem fosse a fonte de injustiça. Não é à toa nem por acaso o número de processos de que foi vítima, situação que não o continha, em seu ímpeto de denúncia, fosse o alvo qualquer esfera de poder ou qualquer autoridade de referência, de direita ou de esquerda, ou de centro... O caso mais recente sobre o qual se debruçou durante semanas, foi a ruptura da barragem de Brumadinho, inclusive no dia mesmo do acidente que resultou no seu precoce desaparecimento.

Ricardo Boechat sempre se mostrou um crítico mordaz do Estado brasileiro, em todos os seus aparelhos. Lidava com relativo pessimismo quanto às chances de mudança do Estado, com relação ao atendimento das demandas sociais, em especial relativas aos segmentos majoritários da população. Exemplo desta postura habitual eram seus comentários, durante as campanhas eleitorais...
Outro aspecto relevante em sua atuação jornalística e de cidadão, prende-se ao seu extraordinário senso de humor. A este respeito, são abundantes os testemunhos compartilhados por tanta gente que o conhecia de perto. Um senso de humor inteligente, criativo, a evocar, por exemplo, as travessuras dignas de um repentista. E aqui não me refiro apenas à sua atuação em parceria com o humorista José Simão, nos momentos diários de humor, divulgados pela Rádio Band FM, mas em tantas outras ocasiões, inclusive durante os intervalos de programas por ele apresentados. Como exemplo ilustrativo, sugiro conferir a seguinte entrevista, concedida em 2011: https://www.youtube.com/watch?v=_DQ05_MXHlo .

Um outro aspecto que dele/nele merece ser ressaltado tem a ver com seu alto potencial criativo. Em múltiplas e embaraçosas situações, sempre dava a conhecer seu talento de inventividade. A começar pela excelência de articulação de seu discurso (oral ou escrito): revelava-se um exímio tecelão de palavras, destacando-se pela riqueza vocabular, pela propriedade dos termos empregados e pela fluência sintática.

Num cenário de escassez de exercício crítico da cidadania e de condutas duvidosas de lideranças e de profissionais da imprensa, faço votos de que  o legado de Ricardo Boechat, como cidadão e como jornalista, inspire e fortaleça o compromisso com a defesa e promoção da dignidade dos injustiçados.

João Pessoa, 19/02/2019

terça-feira, 29 de janeiro de 2019


O DESERTO É FÉRTIL: partilha de uma semana de experiências nas "correntezas subterrâneas”

Alder Júlio Ferreira Calado

Com um ano de antecedência, por ocasião da II Romaria da Terra, realizada em Santa Fé (Solânea-PB), em memória do Padre José Comblin, foi agendado o compromisso, relativo ao fraterno convite feito pela Associação dos Missionários e Missionárias do Campo (AMMC) e pela Fraternidade do Discípulo Amado (FDA), para acompanhá-los e acompanhá-las, em seu encontro anual de 2019, no Sítio Catita, em Colônia Leopoldina - AL, onde se acha o Mosteiro da Fraternidade do Discípulo Amado, num sítio que fica a uns 12 Km (serra acima), de Colônia Leopoldina. Como previsto, o encontro se deu, durante o período de 18 a 25 próximo-passados, com a participação de cerca de 30 membros de ambas as entidades. O alegre e tocante convite feito - e imediatamente acatado, com humildade e alegria - propunha a participação e acompanhamento de minha parte, no sentido de ver, ouvir, sentir e ressoar, junto aos participantes, acerca do que era refletido e partilhado por todos, por todas que do encontro participaram.

Da densa programação vivenciada destacam-se os seguintes pontos: marcantes momentos de oração comunitária e pessoal; relato de cada participante acerca de sua caminhada pessoal, familiar e comunitária; celebração, em Tacaimbó - PE, dos 50 anos da Teologia da Enxada; retiro tendo como principal "matéria-prima" e ponto de partida, as partilhas vivenciadas; a consagração de um novo membro da AMMC; a renovação dos compromissos daqueles e daquelas que pertencem à AMMC - alguns desde a fundação, há 25 anos; prestação de contas pelos membros da atual Coordenação dos trabalhos e atividades realizadas, no curso de último ano; eleição de membros para a Coordenação, em vista do próximo período.

Nas linhas que seguem, propomo-nos ressoar alguns aspectos da vivência desta densa e profunda experiência, digna da fecundidade característica
das "correntezas subterrâneas" que irrigam e tornam viçosas as experiências aí em curso, qual "deserto fértil", usando uma expressão cara a Dom Helder Câmara.

Desta rica experiência, ainda que correndo o risco de omissão, atrevo-me a mencionar os seguintes nomes, por Estado e por ordem alfabética (incluindo crianças e adolescentes):
Alagoas: Analene, Benedito, Cacau, Flaviano, Gabriel, Márcio, Sebastiana, Sirlene, Solange, Valdo;
Bahia: Genival;
Maranhão: Luiz Barros, Robertinho;
Paraíba: Ana, Clara, Deda, Francisco, Lucinha, Meirinha, Pedro, Severo;
Pernambuco: Barbosa, Catarina, Cida, Filipe, Geovan, Glaudemir, João Batista;
São Paulo: Alessandra, Maria Eduarda, Rafaela, Risal;
Sergipe: Jaime, Júnior, Moisés, Nanai;

Também os ausentes se fazem presentes, dentre os quais: Ana Cláudia, Raminho, Irmã Zarita, Irmã Marival, Alexandre, José Florêncio...

Quem é, e de onde vem essa gente?
Trata-se de missionários e missionárias vocacionados a trabalharem como e entre os pobres, no campo e nas periferias urbanas do Nordeste. Vêm da Teologia da Enxada, iniciada há meio século, e protagonizada por jovens (hoje, adultos e alguns já idosos) do campo e das periferias urbanas, que, sentindo-se vocacionados a servirem à Tradição de Jesus, orientados e alimentados pelos valores do Reino de Deus e Sua Justiça, seguem entregando-se ao convívio entre os pobres, seja como contemplativos (Fraternidade do Discípulo Amado), seja como casados, vivendo em família, a serviço da causa do Reino de Deus (Associação dos Missionários e Missionárias do Campo – AMMC, Escolas de formação Missionária). Alguns vivem em assentamento; outros e outras vivem do trabalho da roça (agricultura, criação de pequenos animais, apicultura), outros fazendo objetos do artesanato nordestino, há quem ganhe a vida como ambulante, como gari, outros vivem de sua aposentadoria, e há quem também receba contribuições em função de assessoria (por exemplo, à CRB), assim ganham o pão de cada dia. Suas respectivas associações são mantidas graças a uma caixa comum, alimentada pelas contribuições dos seus sócios e sócias e de colaboradores. Desde o Maranhão à Bahia, vivem inseridos no meio popular, como missionárias e missionários, enquanto outros e outras consagram-se à vida contemplativa, num mosteiro de leigos e leigas, que também trabalham para se manterem. Levam uma vida de simplicidade, com um estilo de vida muito próximo da média do povo dos pobres.

Encontros anuais

Tendo em vista a distância geográfica em que vivem, costumam encontrar-se todos os anos, no Sítio Catita, para realizarem atividades de formação contínua, para aprofundarem momentos conjuntos de oração mais intensa, para avaliarem e planejarem sua caminhada, para deliberarem sobre pendências, por meio de sua Assembleia Geral. A grande importância que atribuem a esses encontros pode ser dimensionada pelo enorme sacrifício que fazem, para se deslocarem de grandes distâncias, assumindo custos nada desprezíveis (há deles e delas que chegam a desembolsar até em torno de mil reais, para poderem participar desses encontros anuais). Além dos encontros anuais, também eles e elas se visitam, com certa frequência, conforme suas possibilidades.

Pontos fortes do Encontro 2019

Oração: Memória e Compromisso: Os vários ramos da família combliniana (centro de formação de Missionárias populares, grupo de peregrinos e peregrinas, escolas de formação missionárias e outras) trazem em comum o empenho pessoal e coletivo na oração diária. Trata-se de dedicar momentos de sua jornada para expressarem sua fé por meio da oração. Uma oração que manifesta traços admiráveis, dentre os quais:
- Por meio de sua oração exercitam a memória e renovam os compromissos com a causa do Reino de Deus e sua justiça;
- Com o canto salmódico (Sl 51 - "estes lábios meus vem abrir, senhor"-), faz-se a entrada na oração, momento seguido da "recordação da vida", seguindo o Ofício Divino das Comunidades, livro emblemático da espiritualidade de quantos e quantas seguem a Teologia da Enxada;
- Os cantos bíblicos, conforme o tempo litúrgico, cantados ou recitados, de modo compenetrado, instigam o louvor e a memória: a memória de diferentes momentos da caminhada do povo de Deus, ao longo da história;


- em se tratando de uma oração encarnada/contextualizada, o exercício da memória da caminhada do Povo de Deus, de ontem e de hoje, ajuda-os/as a reforçarem o compromisso com a causa do Reino de Deus, à medida que os/as inspira, numa perspectiva de maior entrega e solidariedade com todas as vítimas de injustiças e de perseguições;
- impulsiona-os/as ao aprendizado, na leitura e interpretação dos sinais dos tempos, e a busca de toma-los a sério, na convivência do dia-a-dia;
- Instiga-os/as a aprimorarem sua capacidade perceptiva, sua sensibilidade, em relação às dores, aos sofrimentos, mas também às alegrias e às esperanças do povo dos pobres; - todos esses (e outros) traços são ainda mais reforçados pela força transformadora dos cantos escolhidos para esses momentos, dentre os quais ocorre-me destacar, por exemplo: “Seduziste-me, Senhor”; “Antes que te formasses dentro do seio de tua mãe”, “Virá o dia em que todos, ao levantarem a vista, veremos nesta terra reinar a Liberdade, “Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão entre outros;
- Vale, ainda, destacar, no modo como se vivenciam os momentos de oração comunitária, o permanente cuidado, não apenas com o envolvimento de cada um, de cada uma, em ser responsável pela condução da oração, a cada dia, como também com o envolvimento dos membros mais jovens (adolescentes e crianças) nas atividades e leituras deste momento.

Tais momentos de oração também constituem preciosa ocasião formativa, à medida que, não apenas os/as recém-chegados/as, como também quem já está na caminhada há mais tempo, todos se empenham em fazer novos aprendizados e a irem incorporando-os em seu dia-a-dia, resultando daí elementos relevantes de seu processo organizativo e de sua ação mobilizadora, no quadro geral de seu processo de humanização;

Exercício de partilha

Já no segundo dia, após a chegada, reunindo-se num grande círculo, no principal salão daquele mosteiro, passou-se à socialização, por parte de cada participante, de trechos relevantes de sua experiência missionária, tal como vivenciada, no âmbito familiar, no plano comunitário, no trabalho e nas atividades missionárias desenvolvidas, nos últimos meses. Eis um outro momento de denso aprendizado para todos, sob vários aspectos:
- como se dá no dia-a-dia de cada pessoa, na vida em família, nos desafios enfrentados pela comunidade local (enfrentamento dos desafios de violência que vitima os jovens, os pobres as mulheres);
- na labuta nos assentamentos – os trabalhos na roça, a produção, a lida com os pequenos animais, com a apicultura, com as feiras agroecológicas, as marchas de solidariedade com os sem-terra e os sem-teto;
- os desafios da convivência com as comunidades das periferias urbanas;
- as vivências desafiantes em lugares com jovens e adultos dependentes de drogas, sofrendo toda sorte de influência e pressão do comércio de drogas;
- o constante exercício de discernimento para se lidar com uma vasta diversidade de perfis humanos.


Retalhos da celebração dos 50 anos da Teologia da Enxada, em Tacaimbó – PE

As chuvas que vinham caindo, nos últimos dias, sobre o solo encharcado da Serra do Catita tornavam mais difíceis os deslocamentos, naquela região. Mesmo assim, em um pequeno ônibus, saímos por volta das 6 horas, e seguimos viagem em direção a Tacaimbó. Por volta das 10 horas, estávamos chegando. A antiga cidadezinha de Tacaimbó de há cinquenta anos atrás havia mudado sensivelmente: muitas coisas haviam mudado, a olhos vistos: a população crescido rapidamente, novos bairros, novas ruas. A cidade estava em festa, inclusive com serviço de som a tocar canções características da caminhada da Teologia da Enxada, em especial “Eu acredito que o mundo será melhor, quando o menor que padece acreditar no menor” (Jorge Pereira de Lima, agricultor sergipano). Dirigimo-nos inicialmente, à sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, onde fomos acolhidos, com muita afeição, e onde nos foi servido um café saboroso. Em seguida, marchamos em direção à Matriz, em cuja lateral foi aposta uma placa comemorativa, com a presença do vigário local e do prefeito do município, Álvaro (que também passou pela trajetória da Teologia da Enxada, com sua mãe). Este momento foi coordenado pelo Monge João Batista Magalhães, apresentando as pessoas, chamando-as para uma breve fala, e também partilhando seu sentimento, como um dos fundadores da Teologia da Enxada, juntamente com figuras tais como Pe. José Comblin, Raimundo Nonato Queiroz (bem representado ali por sua esposa Cida Queiroz e seus filhos Catarina e Filipe), João Moura, João Firminio, Maria Emília Ferreira, contando com a participação também de Pe. Pedro Aguiar, de Frei Enoque, Antônio Gudes, o prof. Heleno, o prof. Adauto Guedes e tantas outras pessoas. Encerrado este momento, a marcha segue. Desta vez, em direção a uma Escola Pública local, em cujo auditório as pessoas participantes foram acolhidas, para um momento de rememoração desta caminhada. Foi formada uma grande mesa, à qual foram sendo convidadas diferentes pessoas da comunidade local, que haviam também protagonizado a história da Teologia da Enxada, em Tacaimbó, sendo convidadas a darem seu testemunho. Com a coordenação de João Batista, feita com muita leveza e discrição, pudemos ouvir com atenção e com emoção densos testemunhos, de cujo teor destacamos:
- a gratidão àquele grupo de seminaristas e sua Equipe de formadores e formadoras, pelo seu testemunho de pobreza e de compromisso com a causa libertadora dos pobres;
- a vida de simplicidade, a vida de trabalhos, a convivência fraterna com as pessoas da comunidade local, inclusive ajudando-as em seus trabalhos na roça;
- a construção de cerca de uma dezena de casas simples, feitas em mutirão;
- o importante apoio às lutas populares, às reivindicações da comunidade, à luta sindical, o apoio a candidatos da própria comunidade, como foi o caso do Prof. Antônio Guedes.

Na mesma Escola foi servido um almoço simples e bem preparado aos participantes. Já por volta das 14h30, seguimos em marcha em direção à Matriz, onde foi celebrada a Eucaristia, contando com muita gente da comunidade e um bom número de pessoas visitantes e solidárias à caminhada da Teologia da Enxada, dentre as quais:
- uma comitiva de irmãos e irmãs evangélicos (Pastora Elivete, Pastor Quino, Bispo Sebastião Armando e Madalena (sua esposa), Lindolfo, o casal Edvaldo e Anilda, da Fraternidade Leiga dos Irmãozinhos e Irmãzinhas Charles de Foucauld. Testemunhos marcantes e proféticos foram pronunciados e partilhados por essas figuras e por muita gente, ao final da celebração, presidida por três presbíteros (Robertinho, Nanai, Severo) da caminhada da Teologia da Enxada, e com a homilia do Diácono Genival, da Associação dos Missionários e Missionárias do Campo, atuando na Bahia. Um dia inesquecível! Por tudo o que havíamos vivido, demos graças a Deus. De volta ao Sítio Catita, no mesmo dia, tendo chegado por volta das 20h30, preparando-nos para a retomada dos trabalhos, no dia seguinte, dando continuidade às partilhas.

Assim como no sábado, também desde a manhã da segunda-feira, ocupando a tarde e a noite, seguimos ouvindo atentamente as partilhas feitas por todos e por todas, sobre sua vida, seu trabalho, sua vida missionária, sua vida familiar, sua vida de oração, etc.

Experiência do Retiro
Durante os dias da quarta-feira e da quinta-feira, foi vivenciada do retiro, em clima de silêncio, de contemplação, de meditação e de partilha, em busca de uma atenta escuta ao que o Espírito Santo tinha a dizer a cada uma, a cada um. Como “matéria-prima e ponto de partida, buscou-se trazer para este momento os relatos anteriores, atentamente escutado. E, alternando momentos de uma reflexão provocativa e momentos de escuta e oração (pessoal e comunitária), cuidamos de nos abrir docilmente ao que o espírito santo nos tinha a comunicar. Na intenção de ajudar os participantes neste exercício, foi distribuída à cada participante uma lista de questões (a quem interessar possa, seguem, ao final, estas questões), abrangendo o conhecido método, Ver-Julgar-Agir, com o intuito de provocar cada participante que assim o desejasse.

Consagração de um novo membro e renovação dos compromissos por parte dos membros participantes
Culminando o retiro, e com criativos arranjos e adornos do local da celebração participamos da eucaristia, presidida pelos presbíteros, durante a qual se deu a consagração missionária de Junior, seguindo belo ritual mantido pelos membros da AMMC, bem como tivemos a graça de presenciar, com muitos membros e famílias, moradoras da catita, a renovação das promessas de todos os membros da AMMC.
Assembleia e eleição da coordenação para o próximo período
Na sexta feira seguinte, dia 25, festa da conversão de São Paulo, os membros da AMMC reuniram-se em assembleia geral, para deliberam pendências da caminhada, bem como para elegerem os membros da nova coordenação.
Eis uma breve síntese do que consegui ver, ouvir e sentir, ao longo desses dias abençoados.

João Pessoa, 29 de janeiro de 2019. 

PROPOSTA DE ROTEIRO PARA O RETIRO

1. Quanto ao VER:

- No âmbito pessoal:

* Como me sinto enquanto criatura de Deus, enquanto ser natural, em convivência com a Mãe-Natureza e toda comunidade dos viventes?
* Como me comporto na contemplação da Criação, na convivência, no cuidado com, e no uso dos bens de nossa Casa Comum?
* Como lido com o meu corpo, com minha abençoada sexualidade, com minha saúde do corpo, da mente do espírito?
* Como me avalio enquanto homem / enquanto mulher, nas relações sociais de gênero?
* Como me penso enquanto Negro/Negra, enquanto Indígena ou descendente de outra etnia?
* Em que minha condição de um ser nascido onde nasci, me faz pensar em minhas particularidades (de nordestino, de nordestina; de sertanejo, de sertaneja, de agrestino, de agrestina; de pessoa nascida na zona da Mata; de pessoa nascido em outra região, em outro país?
* Como me sinto enquanto uma pessoa situada nesta faixa de idade, em relação a mim mesmo, a mim mesma e em relação a outras pessoas de outras faixas etárias?
* Antes de avaliar mais diretamente minha vida missionária, como anda minha vida como ser humano? A vida que levo, como ser humano, me tem feito feliz?
* Que aspectos de minha vida me fazem mais feliz?
* Que aspectos de vida pessoal me deixam insatisfeito?
* Como anda minha agenda? O que meu fazer cotidiano anda priorizando?
* O que venho priorizando, em minhas ações, que frutos vem dando? 
* Se não tem dado fruto, por que será? Tem algo a ver (também) comigo?
* Que atividades tenho realizado, que avalio mais frutuosas?
* A que fatores eu atribuo tal êxito?
* Que atividades de minha agenda não me parecem satisfatórias?
* Como avalio essas dificuldades?
* Que atividades considero frustradas? 
* Por que isto teve tal desfecho?  
* Eu (também) terei alguma parcela de responsabilidade nisto?



No âmbito comunitário

- O que, na via comunitária, mais me atrai?
- O que nela mais desafia?
- Num rápido balanço, eu acho que contribuo mais com a vida comunitária ou da vida comunitária tudo recebo, em quase nada contribuindo?
- Percebo a comunidade da qual participo como exclusiva ou me sinto chamado a colaborar também com outras, que também faço minhas?

No âmbito do Trabalho

- Como me percebo no mundo do trabalho?
- Como me avalio enquanto enquanto trabalhador/trabalhadora do campo?
- Que sentido faz para mim minha rotina de trabalho?
- Para quem trabalho? O que produzo?
- Eu me vejo no que produzo?
- Para onde vai o que eu produzo?

No âmbito de minha/nossa formação contínua

- Como associo minha rotina à necessidade de formação contínua?
- Que tempo dedico/dedicamos a refletir o que faço/fazemos?
- Que textos ou livros estou/estamos lendo?
- Com quem partilho/partilhamos essas leituras?
- Que balanço posso/podemos fazer do tempo dedicado à formação, enquanto ser humano, trabalhador, cidadão...?


No âmbito da Cidadania

- Tal como em outros planos, também aqui busco estar atento e vigilante aos sinais dos tempos? 
- Atuando mais diretamente no âmbito local, procuro perceber e levar a sério os laços orgânicos que há entre os acontecimentos locais, regionais, nacionais e internacionais?
- Apesar de minhas/nossas limitações, busco sempre dotar-me de instrumentos que me ajudem a ler, interpretar e intervir mais coerentemente a realidade social, econômica, política e cultural?



2. Quanto ao JULGAR

No plano da Mãe-Natureza:
- Assim como Jesus, que não cessava de aprender da Mãe Natureza (ver a profusão de parábolas inspiradas em fenômenos e aspectos da Mãe-Natureza), eu também busco aprender com a Mãe-Natureza, sob as mais diversas manifestações?
- Como Daniel e seus companheiros, como Francisco e tantas outras pessoas, eu contemplo e louvo o Criador pela Sua Criação? 
 - Quem ama cuida: busco testemunhar esse cuidado com a Criação, em meu dia-a-dia, no meu trabalho, no cuidado com as plantas e os animais, na sobriedade do consumo dos bens da natureza, na mística da agroecologia, no re-uso, no tratamento do lixo, etc., etc., etc.? 
 - No cuidado com a saúde do corpo e da mente, inclusive por meio da vivência de uma rotina frutuosa?

No plano do trabalho:
- O que faço no dia-a-dia, que ligação tem com os valores do Reino de Deus?

No plano da cidadania:
- Como costumo ler os sinais dos tempos, tal como Jesus fazia?
- A que fontes recorro para buscar acompanhar a realidade e interpretá-la?
- O que faço para aumentar minha consciência crítica de modo a não engolir fake News?
- Como interpreto, na prática, a recomendação de Jesus de que “Entre vocês, não será assim” (cf. Mc 10, 42 – 45)?
- Que esforço concreto de autocrítica busco/buscamos fazer em relação aos malfeitos no âmbito político?
- O que estamos semeando como ação alternativa às práticas dominantes no cenário político?

No âmbito das relações familiares
- Que lugar tem a família em meu/nosso dia a dia, na perspectiva do Reino de Deus?
- Nas relações de gênero, como tento me comportar?

3. Quanto ao AGIR
- No que sou chamado a mudar em meu processo de conversão, em cada um dos itens acima mencionados e em outros tantos?

Serra do Catita, 18 – 25/01/2019.