sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Fundamentos axiológicos da barbárie capitalista:a incidência nas religiões de mercado

Alder Júlio Ferreira calado


Por mais longa e dolorosa que se apresente a experiência da barbárie do capitalismo, no mundo, inclusive no Brasil, frequentemente nos flagramos surpresos com seu grau de perversidade. Aqui, nos referimos especialmente a sua grade de valores, a sua proposta e experiência axiológica. Com efeito, sobretudo, em sua fase extremamente parasitária, comandada pelo seu subsistema financista/rentista, aparecem mais enfaticamente, e com profusão, os sinais cotidianos de sua barbárie, manifesta sob múltiplas formas, que ele tem protagonizado. Tentemos compreender e sublinhar aspectos que entendemos fundamentais de seus valores, de sua grade axiológica.
Comecemos, por exemplo, pela imposição de privilégios de vários tipos que ele busca garantir aos membros dos setores dominantes, isto é: dos controladores do seu Mercado e dos controladores de seu Estado. No primeiro caso, a longevidade de seu mercado - do mercado capitalista - tem repousado na manutenção de privilégios em detrimento do respeito aos direitos humanos, a dignidade das pessoas e do próprio Planeta. Impõe-se, por conseguinte, uma norma segundo a qual um percentual mínimo de cidadãos e cidadãs se dá o direito de dominar, explorar e marginalizar todos os demais, inclusive quanto ao uso e abuso dos bens comuns e da natureza. O capitalismo faz deste ínfimo percentual - 1 %, 2% ou 5% - os detentores exclusivos dos bens comuns, das riquezas e do patrimônio da Humanidade. Um pequeno exemplo disto pode ser o de examinarmos a estrutura, o funcionamento de seus paraísos fiscais, em relação aos quais alguns filmes, tais como o intitulado "Lavanderia", podem ilustrar. Pouco importa a esta ínfima minoria - constituída de grandes proprietários de terras, controladores de transnacionais, operando nos mais diversos ramos da economia, da educação, da cultura e até das religiões, além de grandes empresas industriais, comerciais e serviços, atuando em escala nacional, mas sempre organicamente conectadas com as que operam também em escala internacional - pouco ou nada importam a esta gente as consequências deletérias de sua esdrúxula acumulação de bens, de riquezas, de patrimônios. O que deveria ser de uso comum do conjunto dos humanos e dos demais seres acaba tendo efeito perverso e desumanizante, causando fome miséria, doenças e toda sorte de infortúnio aos demais. O que conta para esta ínfima parcela da população mundial são apenas seus interesses de classe.
Não raro, nos perguntamos: se 95 ou 99% da população mundial só tem acumulado danos e prejuízos profundos, inclusive com drásticas consequências para a nossa Casa Comum, como entender que tal situação se faça possível? Disto cuidaremos mais adiante. 
A imposição de privilégios a tão poucos, à custa da sobrevivência digna de enormes parcelas da população mundial, não constitui o único modo como se expressa a barbárie capitalista. Sua grade de valores também conta com tantos outros mecanismos produtores, direta ou indiretamente, de um sistema de morte, presente na proposta capitalista. Um segundo constitutivo de sua grade de valores repousa na ideologização das relações sociais e humanas. Sua ideologia funda-se no sistema de mentiras, organicamente conectadas, com o objetivo de produzir sobre cada fato ou acontecimento de seu interesse, as versões que lhe convêm e lhe sejam diretamente funcionais. Suas mentiras têm caráter sistêmico e um complexo e extenso alcance à medida que seus principais representantes cuidam de falsear continuamente a realidade social, por meio de múltiplos mecanismos, servindo-se inclusive de mínimos elementos de verdade, com a clara intenção de esconder os fatores verdadeiros que estão por trás de sua maquinação da perversidade em escala internacional, difundindo-se também em outras escalas. Para tanto, os setores dominantes do capitalismo - mega empresas transnacionais, coadjuvadas pelo seu Estado - recorrem aos meios de comunicação de massa, tanto a chamada mídia comercial ou corporativa quanto as redes sociais sob seu controle no dia a dia. Inúmeros são os eventos, os acontecimentos, os fatos, em escala internacional e nacional e local,  tendo, pois, a seu serviço as principais fontes de informação, os principais canais de notícias, inúmeros serviços de informação e de circulação de seus valores. Tais setores dominantes empenham-se em difundir, permanentemente, suas interpretações próprias, suas versões singulares acerca de cada um destes fatos e acontecimentos. Disto usa-se e abusa-se, sem cessar. Um dos grandes estrategistas desta forma de dominação é a figura do nazista Goebbels, para quem uma mentira difundida inúmeras vezes acaba transformando-se em verdade. Pelo menos, para um número expressivo de telespectadores, profundamente vulneráveis em seu processo formativo humanizador, espalhados pelo mundo, e alimentados por canais ideológicos e outros meios institucionais tais, como, a escola, a família, as igrejas e outras instituições semelhantes. Cria-se a ideia de que a verdade dos fatos coincide com as versões e as imagens cotidianamente difundidas pela rede de canais de comunicação social de massa (“Tá na Globo!...”), bem como das redes sociais ininterruptamente alimentadas pelas suas fontes de informação, em escala internacional, produzidas por algumas grandes agências noticiosas e, em seguida, repassadas e acriticamente introjetados por uma enorme parcela de ouvintes e telespectadores, para quem a verdade é o que noticiam o rádio, a televisão, as redes sociais mais poderosas. Atuando sob poderosa rede de robôs que transmitem, a dispararem em marcha, seguidas versões mentirosas sobre os mais variados fatos econômicos políticos, culturais, religiosos…
Na grade axiológica do sistema capitalista, especialmente, em sua atual fase/face, tem lugar preponderante a força ideológica das religiões, notadamente daquelas que se manifestam mais funcionais aos interesses de seus setores dominantes, de um lado, desde os primórdios, a humanidade teve e tem que conviver com sua dimensão também religiosa, comum dos componentes culturais dos povos, em todo tempo e lugar. Por outro lado, convém lembrar que, em se tratando de um fato cultural e sócio-histórico, a religião tem múltiplas funções, de modo a operar tanto a serviço de projetos de dominação - o que tem sido largamente um fenômeno majoritário - quanto um apelo libertário, o que acontece, embora em escala muito menor, das relações com o sagrado vivenciadas por pessoas e coletividades, em todos os tempos, inclusive hoje como se dá, por exemplo, nas relações cotidianas das e dos que formam a expressiva rede dos chamados cristãos e cristãs pela libertação.
A Teologia da Libertação constitui, a este respeito, um importante referencial, à medida que é capaz de interpretar os principais valores destes grupos, associações, movimentos e organizações afundados nos valores da tradição de Jesus. Não se trata de cristãos e cristãs pertencentes apenas a uma só igreja, por exemplo, a Igreja Católica, mas também muitos deles e delas integram outras igrejas cristãs. Principalmente as chamadas históricas, como são aquelas que constituem o CONIC - conselho Nacional de igrejas cristãs (a Igreja Metodista, a Igreja Luterana, a Igreja Católica Romana, entre outras). Convém, todavia, sublinhar que esta rede de cristãos e cristãs pela libertação constitui um pequeno número no universo cristão, formado por dezenas, talvez centenas, de igrejas que se confessam igualmente cristãs, dentre em fazer deve ser dada ao conjunto de igrejas neopentecostais, a cujas práticas rituais também se associam cristãos e cristãs da Igreja Católica, nomeadamente os grupos que cultivam a espiritualidade carismática.
Quais as características presentes nas relações cotidianas, bem como nas práticas cúlticas desta enorme maioria de cristãos e cristãs? Vejamos alguns pontos que marcam suas práticas: um primeiro aspecto, que se apresenta fortemente funcional ao ideário capitalista, foca no individualismo, isto é, na pregação e na interpretação de que Deus chama apenas individualmente a cada pessoa, independentemente de que elas se sintam como membros solidários de um grupo mais amplo, menos ainda de um povo. Assim, desconectados enquanto membros do Povo de Deus, isto é, da humanidade inteira tal compreensão os leva a uma busca intensa de resolverem seus próprios problemas, sejam eles de ordem econômico-financeira, de caráter familiar, ou ainda atinentes a seu estado de saúde. O que importa, fundamentalmente, é encontrar ajuda de pastores, de padres e outras lideranças, que lhes proporcione o milagre da Cura ou da superação de suas respectivas necessidades. Neste sentido, suas referências centrais são as lideranças religiosas, católicas ou neopentecostais, que, por sua vez, tratam de potencializar esta via religiosa, tornando-a organicamente funcional ao ideário capitalista, à medida que tratam de incentivar estas pessoas a reforçarem, dia a dia, sua aposta, investindo seus recursos, destinados a engordar a caixa destas entidades, da qual tiram proveito as mesmas lideranças.
Algumas delas figuram, inclusive, como pertencentes a um seleto grupo de milionários. É o que se lê, na imprensa, acerca de figuras, tais como o Bispo Macedo, o Pastor Silas Malafaia (https://www.youtube.com/watch?v=y2nZ1HDT450), o autoproclamado apóstolo Valdomiro Santiago, RR Soares, entre outros.

Difunde-se, portanto, a ideologia do individualismo, a prática de uma relação intimista com o seu Deus, a quem agradar significa contribuir com seus míseros rendimentos para a caixa desta ou daquela igreja, a serviço principalmente de suas respectivas lideranças. Não se considera, conforme suas relações do cotidiano e suas práticas curtas, que o Deus dos cristãos e das cristãs, encarnado em Jesus de Nazaré, tenha como núcleo do anúncio do seu Reino, um propósito de libertação, mais do que de pessoas isoladas, de comunidades, de todo o povo vivo, de toda a humanidade. Desconectados, então, deste projeto do Reino de Deus, estas pessoas, em geral, destituídas de uma formação humanizadora mínima, encontrando-se sem condições de desenvolver sua potencialidade crítica, discernimento, acabam presas fáceis da ideologização protagonizada pelas suas lideranças, em proveito do ideário capitalista.

Outra característica forte aí presente, tem a ver com a difusão, pelas lideranças, também introjetada pela massa de seus seguidores, de que Deus fala apenas pela mediação destas lideranças, o que reforça uma crença incondicional no poder da hierarquia católica ou de outras igrejas. Difunde-se, então, a ideia que apenas as autoridades têm o controle e o poder de interpretar a vontade de Deus, sem passar pela relação das pessoas com o seu Deus, de forma direta. Aí se encontra um fator altamente condicionante de seu modo de vida, de seu modo de se relacionar com o mundo, de seu modo de vivenciar a sua fé, acabando por se tornarem alvos prediletos da ideologia capitalista, para muito além das influências nocivas exercidas pelas suas lideranças. Influências nocivas que se vão ampliando para outras figuras da sociedade civil, em particular daquelas que concentram o poder das decisões, em todos os âmbitos, à medida que sua incondicional obediência às autoridades se faz em nome do Deus de sua fé, normalmente adorado como um Deus todo poderoso, o Deus dos exércitos, o Deus dos fortes, enquanto nas mesmas fontes, principalmente a dos Evangelhos, os apelos predominantes não são para este Deus dos exércitos, este Deus poderoso e dos poderosos, mas um Deus que se encarna em Jesus de Nazaré, nascido pobre, no meio dos pobres, e cuja causa libertadora o leva a uma fidelidade até a sua morte. Em outras palavras, não obstante a denominação "evangélicos", não raramente, os cultos, as homilias, os rituais tomam distância desta simplicidade vivida por Jesus de Nazaré, em sua caminhada conjuntamente com pescadores, com pessoas da roça, com mulheres e pessoas pobres, em sua companhia. Um Jesus a pregar que felizes são os pobres, felizes são os mansos, felizes são os misericordiosos, felizes são os construtores da paz, felizes são os que passam fome, felizes são os aflitos, felizes são os perseguidos por causa da justiça... Deste Jesus se fala muito pouco, durante as sessões e cultos dessas igrejas. Fala-se muito em nome de Deus, mas de que Deus se trata? Do Deus e do Reino anunciados, vividos, testemunhados e inaugurados por Jesus de Nazaré ou, antes, do Deus mamon, isto é, do Deus do mercado, do Deus dinheiro?

Outro valor bastante compatível com o ideário capitalista, igualmente desenvolvido nas religiões de dominação, é da competição/concorrência seja nas relações de trabalho, seja no ambiente familiar, seja nos próprios cultos. É praxe acentuar-se o valor da competição e da concorrência. Somente aqueles fiéis que se decidem a contribuir, inclusive com parte de seus próprios recursos, com tal igreja, tornar-se-ão alvo do agrado de Deus. A partir daí, escancaram-se as portas: seus incômodos de saúde, suas frustrações econômico-financeiras, seus problemas familiares se resolvem, razão por que não poucos passam a acreditar-se os eleitos de Deus, entendendo-se superiores aos não crentes, entendendo-se, não raramente, melhores do que os outros. Nesta esteira, contribuem também para o fortalecimento da grade de valores do sistema capitalista, uma vez que passam a entender o mundo como estando dividido entre os fiéis a Deus e os infiéis, cabendo graças e bênçãos aos primeiros, desgraças e infortúnios aos demais, até do ponto de vista econômico. Por vezes, a tendência a acreditar que os desempregados, os que sofrem necessidade, são aqueles e aquelas que são infiéis a Deus, pois a riqueza é sempre vista como algo abençoado por Deus, diferentemente do que se pode ler em várias páginas do Evangelho, em que são os pobres, os desvalidos, os injustiçados, os preferidos de Deus, enquanto, por exemplo, o canto do Magnificat se refere a maldição dos ricos: "ele depõe os poderosos de seus tronos e eleva os humildes. E despede os ricos sem nada e enche de bens os famintos."

Crescente multiplicação das denominações neopentecostais é fruto de uma história que se acentua, a partir de meados dos anos 60, vindo mais frequentemente de experiências religiosas características dos Estados Unidos. A este respeito, a algumas décadas, o pesquisador Délcio Monteiro de Lima, em seu conhecido livro "Os demônios descem do Norte", cuida de analisar este fenômeno, muito frequente também na América Central e em outros países da América Latina.

Ao observarmos o comportamento, agora no âmbito governamental - principalmente as esferas do executivo e do legislativo -, constatamos o crescente investimento no processo eleitoral de candidatos e candidatas que se confessam evangélicos, de modo a compreender-se a importância que tem algumas bancadas da Câmara Federal, a exemplo das chamadas bancada da Bíblia, bancada da bala, bancada do boi... Tal tendência, já há diversos anos, vem sinalizando a existência de poder político, alimentado pelos Evangélicos, eleição após eleição, de modo a demonstrar o plano político que alimentam as lideranças evangélicas, inclusive aquelas figuras acima mencionadas, e sobre as quais vale a pena conferir alguns vídeos sugestivos.

Não basta, entretanto, constatar e analisar a incidência destes fatos característicos da grade axiológica do capitalismo e seus respectivos agentes, nos mais diversos segmentos de nossas sociedades. Importa, não menos, buscar caminhos de superação desta tendência, a curto médio e longo prazos. É do que trataremos, no tópico seguinte.

Potencial transformador da educação popular 

Diante destes dilemas e desafios acima enunciados, cumpre investir reflexão crítica, tempo e pesquisa, em busca de descobrir e ousar passos que, a curto, médio e longo prazos, permitam aos que são vítimas deste sistema de morte, exercitarem uma resistência propositiva, no horizonte de uma nova sociedade, 
alternativa ao atual modelo hegemônico.
A educação popular a que nos referimos, é a que se mostra comprometida com a causa Libertadora dos oprimidos e oprimidas. Trata-se de uma corrente crítico transformadora, na medida em que se empenha hein proceder a 1 diagnóstico objetivo da realidade social objetiva, e, ao mesmo tempo, empenha-se em transformá-la, a partir do protagonismo dos seus principais interessados: as classes populares. Parafraseando Paulo Freire, também entendemos que a educação - também a educação popular -, sozinha, não transforma uma sociedade, mas, sem ela, em vão se espera uma transformação social consistente, ao menos na Perspectiva dos seus protagonistas.
Um primeiro aspecto enfrentado pela educação popular é acentuar a importância dos seus protagonistas, educadores e educandos, com sua intensa e necessária participação, sobretudo nos processos decisórios. Outra característica: despertar o exercício contínuo da criticidade, Isto é, o aprimoramento incessante por parte de seus protagonistas - mulheres e homens-, despertar em seu compromisso social, isto é, sua capacidade de agir em mutirão, coletivamente, fazendo entender que as transformações almejados constituem uma obra coletiva, por mais que também seja fruto da contribuição de cada um de seus membros. Criticidade, protagonismo, sentido comunitário vão juntar-se a outros requisitos, igualmente relevantes no desenvolvimento incessante de sua consciência crítica e autocrítica, os participantes deste processo passam a manifestar seu empenho numa análise objetiva da realidade social, de modo a conhecer suas estruturas e mecanismos de funcionamento da realidade social, tratando de delimitar quais são os interesses maiores em jogo e em disputa; quais são os grupos principais que disputam este projeto em jogo; Que classes sociais disputam seu respectivo projeto; quais são suas estratégias. E, quais os valores fundamentais que inspiram as lutas cotidianas, em busca deste Horizonte - eis alguns dos elementos constitutivos desta educação popular. 
Já tivemos oportunidade de considerar diversos aspectos da educação popular, em textos precedentes. Aqui, tomamos em consideração específica o tema dos valores característicos desta mesma educação popular. Neste sentido, cuidamos de destacar e comentar aqueles que consideramos mais relevantes e prioritários. Além da dimensão de protagonismo do conjunto dos participantes deste mesmo processo formativo, importa também acentuar a importância de três dimensões que comportam um potencial transformador extraordinário: o horizonte almejado, Isto é, Qual é mesmo o horizonte que se Quer alcançar, do ponto de vista da busca de construção de uma nova sociedade? Não se trata, neste caso, de pretender-se esgotar os traços mais detalhados deste projeto alternativo, mas, antes de sublinhar aqueles aspectos teórico-práticos que merecem maior atenção:
  • Um Horizonte comprometido, na prática e na concepção, com assegurar a dignidade das pessoas, dos grupos, dos povos, bem como a dignidade do planeta; 
  • O modo societal de organização, que seja alternativo ao modo de produção, ao modo de consumo, ao modo de gestão societal hoje hegemônico;
  • A Praxis Libertadora requer, outro sim, o desenvolvimento continuo de uma ação transformadora que tome em conta, além da memória histórica e de lutas e de conquistas de gentes de todo mundo, da América Latina, do Brasil, como também a necessidade de como recolher destas experiências de lutas, de conquistas, inclusive de reveses, lições inspiradoras para o enfrentamento exitoso dos Desafios atuais. 
Utopia, memória histórica e práxis constituem, por conseguinte, elementos-chave deste trabalho de base inspirado numa educação popular, de inspiração freiriana.
Com base nestes elementos, os protagonistas deste processo, Isto é, os educadores e Educandos - mulheres e homens - buscam pôr em prática estes princípios, por meio de sua contribuição em, pelo menos, três Campos de luta: o seu processo organizativo, o seu processo formativo e o seu compromisso de lutas.
No que toca ao processo organizativo, os protagonistas desta educação popular, em especial os movimentos sociais populares e outras organizações de base, cuidam de refletir este seu compromisso na forma de se organizarem, o que se faz, com base em procedimentos ou iniciativas tais como: 
  • Investimento na formação de grupos temáticos, de núcleos de ação, de pequenas comunidades ou conselhos populares - ou outro nome do gênero -, com o compromisso de, não apenas criarem estes espaços de vitalidade, mas sobretudo de mantê-los com intensa e Crescente participação;
  • Núcleos, células, conselhos, círculos de Cultura - ou que outros nomes tenham -, que se encontrem periodicamente, em busca de uma ampla e contínua participação de todos os seus membros, Especialmente nos processos de tomada de decisão. Não se trata, por outro lado, de núcleos isolados, mas organicamente conectados há outros núcleos, bem como a outras instâncias. Para tanto, torna-se fundamental a experiência do que se chama delegação, Isto é, a eleição de Delegados e delegadas que, sobre o controle de cada núcleo, são enviados a outras instâncias, com a tarefa de compartilharem as decisões tomadas pela base, em cada núcleo. 
  • Outra inquietação constante do processo organizativo, tem a ver com o papel da direção ou da coordenação. Uma vez eleitos e eleitas membros de uma coordenação ou de uma direção, estes membros não se tornam controladores dos núcleos nem das instâncias, uma vez que, sendo as decisões tomadas pela base, cumpre-lhes tão somente operacionalizar e aplicar as decisões tomadas pela base. Não se perpetuam neste cargo. Ocupando por algum tempo, previamente determinado, os membros de coordenação ou de direção, tão logo findo o prazo de sua gestão, cedem seus postos aos novos eleitos, enquanto os que saem voltam para a respectiva base, os da base são chamados a cargo de coordenação ou de direção. Estes mecanismos - da delegação e da alternância de cargos e funções - constituem verdadeiros elementos revolucionários, na medida em que se acham diametralmente opostos a tendência a uma pessoa ou a um pequeno grupo se eternizar em cargos de coordenação e de direção. Por outro lado, permitem aos membros da base participarem de tarefas de coordenação ou de direção, o quê confere uma relevante experiência do ponto de vista da formação crítica e de sua participação como protagonistas do mesmo processo de educação popular. 
  • Outro aspecto não menos importante é o do exercício da autonomia (coletiva e pessoal), frente ao mercado e frente ao Estado ou a outras instituições. Autonomia que é cultivada, sob vários aspectos, inclusive e a partir do seu cuidado com o auto financiamento, isto é, por meio de iniciativas de arrecadação de seus próprios membros, de alguma forma de contribuição (seja em espécie, seja alguma contribuição financeira regularmente recolhida), como meios de assegurar suas atividades regulares. O conjunto desses membros fica mais acreditado, fica mais fortalecido, quando se trata de formular suas críticas e seus questionamentos tanto aos representantes do mercado quanto aos representantes do Estado, de modo a zelar pela sua autonomia, não abrindo mão de sua crítica e autocrítica.
O processo formativo constitui um segundo espaço de embates permanente, para o conjunto dos protagonistas - de base ou de direção. O processo de formação conta com várias características dentre as quais podemos sublinhar: 
  • Trata-se, em primeiro lugar, de uma formação contínua: Diferentemente da formação oferecida pela Escola formal, que dura apenas alguns anos, o processo formativo protagonizado pela educação popular, por sua vez, se faz ao longo da vida, tanto do ponto de vista pessoal, quanto do ponto de vista coletivo;
  • Além disso, também se mostra empenhado no despertar contínuo da consciência crítica e autocrítica de todos os participantes;
  • A tarefa das educadoras e educadores é proporcionar ao conjunto de formandos e formandas oportunidades de auto descoberta, isto é, de tomada de consciência progressiva tanto de seus talentos, de suas habilidades, quanto também de seus limites. 
  • A educação popular também destaca a importância do compromisso contínuo de superação da velha dicotomia entre trabalho intelectual e trabalho manual, o que permite a todos fazerem de um tudo, ainda que sabendo da diferença no desempenho destas tarefas. Ao mesmo tempo, a educação popular também Propicia o exercício da Mística revolucionária, por força da qual cada membro, a partir das mais diversas atividades em que se sinta envolvido, é chamado a avaliar e Auto avaliar, dia após dia, seu desempenho geral, sua agenda de compromissos, o que lhe permite exercitar a renovação de seus compromissos fundamentais, tanto os de ordem organizativa, quanto o de caráter formativo, quanto o de sua participação nas diversas frentes de lutas. Trata-se de um compromisso de renovação interior, de um chamamento a cada um, cada uma, de ir tornando-se, dia após dia, um novo homem, uma nova mulher, comprometidos com a transformação da realidade, conforme os valores amplamente trabalhados nas tarefas do cotidiano, no trabalho de base.
Deste processo organizativo e desta participação formativa é que brota igualmente o compromisso de luta, de mobilização, agora favorecidas pela consistência que tanto a organização quanto a formação imprimem, nas ocasiões mais visíveis de mobilização e de luta. 
Eis algumas brevíssimas pistas fornecidas pela educação popular, por meio das quais, nossas organizações de base são historicamente chamadas a enfrentar os terríveis desafios que enfrentamos, inclusive no campo da axiologia do capitalismo, incidindo na ideologização do campo religioso.

João Pessoa, 17 de janeiro 2020.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

ECOS E DESDOBRAMENTOS, NO NORDESTE DA MARCHA DAS MULHERES: notas sobre as atividades das mulheres trabalhadoras, em Pernambuco

ECOS E DESDOBRAMENTOS, NO NORDESTE DA MARCHA DAS MULHERES: notas sobre as atividades das mulheres trabalhadoras, em Pernambuco

 Alder Júlio Ferreira Calado

Impactante e promissor é constatarmos que, em meio a sucessivos e crescentes retrocessos no panorama sócio-histórico atual, avanços significativos protagonizados pelas organizações e movimentos feministas, em escala local, estadual, nacional e internacional. Talvez, das organizações de base de nossa sociedade e dos movimentos sociais populares, as conquistas mais expressivas venham sendo protagonizadas pelas mulheres trabalhadoras. Também no Brasil, mais especialmente no Nordeste, têm sido significativas as conquistas realizadas por tais coletivos, particularmente relativas às protagonizadas pelas trabalhadoras rurais e pelas mulheres indígenas.
Em Brasília, nos dias 13 e 14 de agosto de 2019, uma experiência emblemática foi realizada: a Marcha das Margaridas, em mais uma edição (cf.http://www.contag.org.br/index.php?modulo=portal&acao=interna&codpag=630&ap=1&nw=1). Mais de 100.000 mulheres, procedentes de todas as regiões do país e delegadas de outros países. No mesmo período, realizou-se a Marcha das Mulheres Indígenas. Outros grupos, associações e organizações feministas também lá estiveram, a exemplo do MMTR - Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais - e SOS CORPO, para citarmos apenas dois exemplos. Ainda que já tenhamos refletido sobre os ganhos destas mobilizações, em textos precedentes, julgamos relevante e oportuno voltarmos à tona, desta vez considerando seus desdobramentos.
Com efeito, de volta às suas respectivas bases, nas várias regiões do país, estas mesmas organizações e movimentos feministas não cessam de empenhar-se em levar adiante suas lutas, abrangendo um leque considerável de atividades. Nas linhas que seguem, cuidamos de ressaltar algumas destas atividades, que vêm sendo realizadas, especialmente no Nordeste e o fazemos, também, com base em uma emissão radiofônica, num programa apresentado pelo jornalista Bruno Nogueira, que tratou de entrevistar representantes de tais organizações e movimentos, especialmente relativos ao estado de Pernambuco, até porque o programa intitulado "Ponto Fora da Curva" tem lugar na rádio Universitária da UFPE, não por acaso intitulada Rádio Paulo Freire.
Durante uma hora de conversas, em que o jornalista Bruno Nogueira entrevistou três importantes representantes, que também se haviam feito presentes e participantes da Marcha das Margaridas, em sua última edição. Trataram de compartilhar sua avaliação e seu plano de lutas seguidos pelos seus respectivos movimentos e organizações feministas.
Uma das perguntas dirigidas a uma das entrevistadas, solicitava o sentimento daquela representante acerca dos avanços que vêm sendo logrados, pelas mulheres, nos últimos tempos. Entre vários exemplos compartilhados de conquistas pelas trabalhadoras, especialmente as do campo, referem-se à conquista do direito à titularidade da parcela ou da terra atribuída a sua família. Antes, como se sabe, apenas ao chefe de família era reconhecido este direito. Sucede que, na enorme maioria das famílias de agricultores, cabe à mulher, à mãe de família, a responsabilidade maior, e às vezes única, na condução dos negócios relativos à família: os cuidados com alimentação dos filhos e filhas, com a saúde e educação da família, com o acompanhamento de turno das atividades de sua casa, enquanto o companheiro ou parceiro não se envolve neste nível de responsabilidade. Esta conquista representa um avanço significativo, sob vários aspectos em primeiro lugar, reconhece, de direito, a verdadeira posição ocupada pela mulher, na condução dos interesses dos filhos e da família, no cotidiano de sua vida. Por outro lado, em muitos casos, o companheiro ou parceiro nem chega a ter um vínculo jurídico formal, mesmo assim detém o privilégio da titularidade dos bens da família. Em outros casos, muitos chefes de família vivem parte considerável do tempo fora de casa, sem assumir as responsabilidades múltiplas de uma dona de casa, de uma trabalhadora rural. Além de corrigir tal situação, o reconhecimento jurídico de tal direito tem representado um conjunto de conquistas efetivas para a condição feminina, repercutindo também positivamente numa melhoria da qualidade de vida do conjunto da família.
A partir desta conquista, outros ganhos se sucedem, por exemplo, em casos de pequenos financiamentos públicos destinados à Agricultura Familiar, passa a ser a mulher titular da parcela, a responsável pela condução das responsabilidades, também neste particular. Trata-se, ainda, de um direito que propicia uma considerável mudança, para melhor, na condução dos bens da família e do próprio processo de produção familiar, à medida que vai facilitar uma busca de envolvimento, por parte da mulher, em outras atividades, para além das estritamente ligadas ao lar. Favorece, também, o envolvimento da mãe de família em outras atividades produtivas, desenvolvidas por outras mulheres do assentamento, em situação semelhante. Constitui mais uma oportunidade de sua inserção em atividades produtivas, de vários tipos, para além mesmo das atividades exclusivamente ligadas à agricultura. Formam-se grupos de mulheres, no assentamento, que se reúnem e se encontram, com frequência, visando a planejar uma pequena produção artesanal, partindo do reconhecimento de seus talentos artísticos, passando a envolver em mais e mais na produção de artigos artesanais, seja no tecido, seja na palha, seja no barro, seja em outros materiais, além de iniciativas as mais distintas, inclusive a floricultura e a venda de comidas caseiras. 
A este respeito, são consideráveis os relatos de experiência, dando conta dos ganhos obtidos, a partir desta conquista do direito à titularidade da parcela. Os ganhos, todavia, não cessam por aí. A melhoria crescente das condições de vida e de trabalho dessas mulheres chefes de família acarreta diversos ganhos, também, em seu processo organizativo e formativo, a medida que, trabalhando em mutirão, e passam a discutir assuntos específicos da condição feminina e, a partir dos exemplos de outras colegas, sua consciência crítica tende a aumentar, dia após dia. Diferentemente de sua situação anterior, a partir de agora, elas vão adquirindo uma consciência mais clara de sua condição de mulheres, de sua condição de trabalhadoras, de suas múltiplas potencialidades, de sua condição de cidadã. Como se pode perceber, trata-se de uma relevante conquista - a da titularidade da parcela - , pois lhes confere um protagonismo, a partir do qual sua consciência crítica vai favorecendo e fortalecendo sua condição de sujeitos de sua própria história. 

Nesta nova situação social, as trabalhadoras rurais também passam a experimentar um novo despertar de sua consciência de sua dignidade de mulher, nas cotidianas relações de gênero, no exercício da solidariedade com suas companheiras, em um contexto de extrema gravidade de violência de toda sorte praticada contra as mulheres no campo e na cidade, como o feminicídio, as cotidianas violências domésticas.
Por outro lado, convém que não superestimemos esses ganhos, sobretudo quando nos mantemos conscientes do peso estrutural do atual modo de produção, de consumo e de gestão societal. Aliviada determinada situação, as trabalhadoras do campo seguem conscientes de que desafios ainda maiores têm à sua frente. Lembramos, de passagem, dos últimos dados divulgados pelo IBGE, quanto à recente evolução do problema agrário no Brasil, a começar da estrutura fundiária para sublinharmos apenas um dado. É doloroso constatar que, nas últimas décadas, a concentração fundiária só tem aumentado: menos de 1% dos maiores proprietários de terra concentram cerca de 50% das mesmas terras, ao mesmo tempo em que o segmento dos pequenos proprietários de terra tiveram que enfrentar um decréscimo no percentual de terras sob seu controle. Contexto não menos doloroso tem a ver com o agravamento da atual conjuntura, sob os (des)governos Temer e Bolsonaro.
A quem se dê ao trabalho de acompanhar os tantos malfeitos praticados, custa acreditar nos efeitos devastadores de tal obscurantismo em curso. O governo Bolsonaro tem intensificado a criminalização dos movimentos sociais populares e dos sindicatos. A este respeito, os poucos centros de formação mantidos por alguns movimentos sociais populares, alvo predileto de sua política de desmonte, se veem sob crescentes ataques, a exemplo do que vem sofrendo o Centro de Formação Paulo Freire, organizado e mantido pelo MST, num dos seus assentamentos - o da antiga Fazenda Normandia em Caruaru - PE. Bolsonaro tenta, a todo custo, desmontar aquele Centro, que tem prestado relevantes serviços de formação, com um reconhecido alcance educativo de centenas de jovens trabalhadores e trabalhadoras de toda a região. Isto quer dizer que as conquistas acima sublinhadas ainda se acham longe de serem suficientes para oporem uma resistência à altura dos desmandos governamentais em curso. 
Consola-nos, por outro lado, acompanhar os desdobramentos da Marcha das Margaridas e de outros movimentos e organizações similares neste sentido. Neste sentido, aquelas mobilizações extraordinárias - referimos-nos às marchas das mulheres acima mencionadas - constituem ocasiões privilegiadas para reforçar dos compromissos com a sua causa, o que as tem levado a dar continuidade orgânica aos seus trabalhos, organizados nas diferentes regiões do país. No momento, as trabalhadoras rurais e outros segmentos feministas cuidam de reorganizar em reuniões e encontros visando a darem continuidade à próxima conferência nacional, precedida das conferências municipais e estaduais. Neste momento, as mulheres entrevistadas, no programa radiofônico acima citado, compartilham notícias dos passos que vêm sendo dados, no sentido de assegurarem os preparativos para as conferências municipais, em vista de uma melhor organização das conferências estaduais e da nacional. Para cada uma das quais é fundamental fazer-se uma escolha criteriosa das respectivas delegadas à conferência nacional, cujo tema já está sendo trabalhado: "mulheres e democracia".
Eis o que, juntamente com tantas outras experiências moleculares, em curso nas nossas “correntezas subterrâneas”, nos restitui a esperança, na luta, por uma nova sociedade.


João Pessoa, 10 de janeiro de 2019.

IGREJA CATÓLICA: MUITO A MUDAR! Que tal começar pelas relações de gênero?

IGREJA CATÓLICA: MUITO A MUDAR! Que tal começar pelas relações de gênero?


"Reformata, Ecclesia semper reformanda est"


Alder Júlio Ferreira Calado

Mantidos distantes e de consciência anestesiada, em face dos problemas centrais de sua(s) Igreja(s), Católicos e reformados em sua imensa maioria, continuam a seguir acriticamente as orientações de suas lideranças, quase todas masculinas, fazendo ouvidos moucos à sua vocação de copartícipes e corresponsáveis nos processos de decisão de suas respectivas Igrejas, deixando assim de escutar o que o Espírito Santo lhes tem a dizer. Em uma de suas tantas entrevistas concedidas, o teólogo José Comblin, desta vez ao jornalista da Rádio chilena Bio Bio, perguntado sobre o que achava que devia mudar na Igreja, não hesitou em responder, em seu tom irônico e hiperbólico: "todo"...  Nas linhas que seguem, é justamente este ponto que ousamos destacar.

As considerações que seguem, embora se destinem mais diretamente à Igreja Católica Romana, podem estender-se, em alguns pontos, a outras Igrejas Cristãs.

Um rápido olhar ao que se passa cotidianamente em nossas Igrejas é suficiente para nos darmos conta das manifestas disparidades presentes na Igreja Católica no que concerne, inclusive às relações de gênero. A esse respeito diversas vozes profetas se têm pronunciado, não faltando a de alguns cardeais. Um deles, Carlo Maria Martini, em sua última entrevista, não hesitou em afirmar que a Igreja Católica se encontra atrasada em 200 anos (Cf. 

Há 50 anos atrás, mais precisamente durante a penúltima e a última sessões do Concílio Vaticano II (1962-1965), ao presidir a uma daquelas sessões, o cardeal belga Leo-Jozef Suenens ousou pedir aos padres conciliares que olhassem para seu lado (de um lado e de outro) e perguntou-lhe onde estavam as mulheres que correspondem à metade da Igreja… (Cf:
Como em todo legado humano - de avanços e de retrocessos, de conquistas e de reveses -, também do acervo judeu-cristão podemos recolher frutos de vida ou de morte, Vem-nos à memória, no momento, um trecho do Livro do Profeta Jeremias, mais precisamente  a narrativa de sua vocação: “, Olha, ponho-te neste dia sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares, e para derrubares, e para destruíres, e para arruinares; e também para edificares e para plantares.” (Jr 1,10). Algo semelhante também podemos dizer em relação ao Povo de Deus da Antiga e da Nova Aliança, bem como à Igreja em sua caminhada. Com efeito, ao revisitarmos sua trajetória podemos extrair de seu baú coisas admiráveis e outras nem tanto. Do mesmo baú, nós podemos retirar a bela experiência de vida das primeiras comunidades cristãs: de solidariedade, partilha fraterna, recolhendo de cada um o que cada um pode oferecer, e, ao mesmo tempo, distribuindo a cada qual, conforme suas necessidades.  Da mesma tradição, podemos, com alegria destacar o testemunho de figuras expressivas - a beleza de um Francisco de Assis e de uma Clara de Assis. O compromisso com o Evangelho testemunhado pelos Valdenses e pelas Beguinas. Ao mesmo tempo, desta tradição, podemos retirar coisas desagradáveis, correspondentes a muitos contratestemunhos apresentados pela mesma Mãe Igreja. Buscando resumir a extremo, podemos dizer que um dos maiores contratestemunhos tem a ver com sua instituição em forma de Estado. 

Eis uma longa e desafortunada história de contratestemunhos observáveis ao longo de sua história, durante séculos, e perdurando até ao presente. Durante a realização do Concílio Vaticano II, graças à amizade de Dom Helder com o Papa Paulo VI, que se conheceram antes de ele se tornar papa, Dom Helder teve a bendita iniciativa de sugerir ao Papa iniciativas tais como: deixar sua residência no Vaticano e ir morar numa residência mais simples; ousar afastar vários elementos pomposos da Igreja-Estado, entre outras. Certa vez, o Papa Paulo VI dirigiu-se a Dom Helder, solicitando que lhe entregasse por escrito essas e outras sugestões. Tempos depois, Dom Helder recebeu como resposta que suas sugestões eram preciosas, mas estavam fora do alcance do Papa, dado o peso extraordinário de sua estrutura.

Outro Episódio, do qual é protagonista O próprio Dom Hélder Câmara, remete-nos a um filme documentário, intitulado "o santo Rebelde", acerca do próprio Dom Hélder. Já no fim do referido documentário, aparece, legendada na tela, a narrativa de um de seus sonhos. Nele, Dom Hélder dizia ter sonhado que o Papa enlouquecera, e começava a atear fogo no Vaticano, adentrando o banco do Vaticano, saía com sacos de dinheiro e, do Alto da janela, distribuindo todo esse dinheiro na intenção dos pobres. Dirigindo-se aos diplomatas ali instalados, deles se despedia, pedindo que voltassem para seus respectivos países e assim por diante... No finalzinho desta narrativa, é ainda do próprio Dom Hélder o seguinte comentário acerca do sonho: "que cristãos somos nós, que para dizer a verdade, recorremos ao sonho... Mais de 50 anos passados, é a mesma Igreja Católica abençoada com a chegada do Papa Francisco, cujo testemunho tem sido amplamente reconhecido como alguém que tem feito muita diferença, na sombria história da igreja católica, a medida que, quase sete anos após Assunção de suas funções, não se cansa de chamar a igreja a conversão, não se limitando a dizer isto com palavras, mas principalmente pelo seu exemplo, pelas suas atitudes, percorrendo como profeta Missionário todos os continentes, bem como também por meio de seus escritos, dos quais “a Alegria do Evangelho e a Laudato sì” correspondem a sua mais densa mensagem Profética. Em que Pese este denso testemunho, muito pouca coisa tem mudado na velha estrutura eclesiástica. Seu formato de Estado segue muito pouco tocado. Sua forma de organização continua apresentando-se por meio da cúria Romana, dos Dicastérios, das nunciaturas, das estruturas diocesanas e paroquiais, sem alterações significativas, à vista. Refletindo sobre esta estrutura que segue sendo quase imutável, não obstante a tentativa feita durante a realização do Concílio Vaticano segundo, realizado entre 1962 e 1965, e apesar da tentativa feita na votação e aprovação de alguns de seus 16 documentos finais, inclusive a Constituição “Lumen gentium” e a constituição “Gaudium et Spes”, para citar apenas estes dois exemplos, a centralidade na condução da igreja e de suas decisões segue sendo A Hierarquia, em especial a Cúria Romana e os bispos em vez do Povo de Deus, como consta da ”Lumen gentium”. De lá para cá, tantas outras importantes iniciativas foram realizadas, sempre em busca de pôr em prática as decisões conciliares referindo-se a colegialidade, a participação dos leigos e leigas, ao enxugamento de sua pesada estrutura, e mesmo assim, muito pouca mudança podemos observar. Não nos esqueçamos, inclusive, de que durante estas décadas, tivemos momentos privilegiados, tais como o da realização da segunda conferência Episcopal latino-americana, realizada em Medellín, na Colômbia, em 1968 e a terceira Conferência Episcopal latino-americana, realizada 11 anos após, isto é, em 1979, no México. Momentos extraordinários de esperança e de busca de mudança na igreja católica, em especial no intenso chamamento a sua conversão à causa Libertadora dos pobres. Mesmo assim de lá para cá, mais de meio século se passou, e as estruturas eclesiásticas seguem rígidas com poucas alterações. Numa das raras iniciativas de caráter Pastoral- Profético foi o que passou a ser chamado de “Pacto das Catacumbas”, no qual cerca de 40 participantes, entre bispos, arcebispos e Cardeal e outros padres conciliares, num texto memorável, composto de treze pontos, comprometiam-se, de volta as suas respectivas dioceses, espalhadas por vários países dos cinco continentes, à abdicarem de serem reverenciados com  o pomposo tratamento de Excelências, a deixarem seus Palácios episcopais, indo morar em casas simples, mais perto do Povo, bem como sobretudo a passarem a levar uma um estilo de vida modesto. Com certeza, foi enorme o impacto desta iniciativa, realizada a menos de um mês do encerramento da última sessão do Concílio Vaticano Segundo tal foi o seu impacto que na realização tanto da conferência de Medellín, quanto na realização da conferência de Puebla, o pacto das catacumbas teve importante influência sobre o episcopado Latino Americano e sobre outros seguimentos da igreja católica. 
Por ocasião das comemorações dos 50 anos do mesmo pacto das catacumbas, foram produzidos livros e documentários sobre este acontecimento. Um deles teve a forma de um vídeo, no qual se ouviam algumas figuras originárias deste pacto das catacumbas. Um deles, Dom Antônio Batista Fragoso, Bispo de Crateús, Ceará, expressava seu sentimento acerca do pacto das catacumbas, destacando tratar-se de uma tentativa, por parte de seus signatários, de sublinhar a vocação da igreja católica a acolher e a apoiar a causa Libertadora dos pobres. Já o Concílio Vaticano Segundo havia destinado um lugar aquém do desejável. Este mesmo Bispo reconhecia que o Concílio Vaticano segundo muito havia avançado no que diz respeito ao diálogo com a modernidade, tendo-lhe, porém, faltado tratamento semelhante em relação a causa dos pobres. 
Subscrevendo as palavras de Dom Fragoso, mais de meio século depois, entendemos, por outro lado, oportuno registrar o quê, mesmo em relação a modernidade, muitas lacunas persistiram, nos próprios documentos conciliares. uma delas prende-se a questão da mulher na igreja. A este respeito, devemos lembrar que apenas 23 mulheres, das quais 10 religiosas e 13 leigas, foram convidadas, já nas últimas sessões de 1964 e 1965 a participarem como ouvintes das sessões conciliares. Há de se convir que 23 participantes ouvintes, no universo de mais de 2500 masculinos, não representam propriamente um fato extraordinário, para se dizer o mínimo. Ainda assim, vale destacar a coragem profética de alguns participantes do Concílio Vaticano segundo inclusive um que chegou a presidir algumas das aulas conciliares. Tratava-se do cardeal belga Leo Josephe Suenens, do qual relatamos o episódio. Tomando em conta esses registros, com alguns avanços e diversas lacunas, é que cuidamos, nas linhas que seguem, reafirmar enfaticamente a necessidade e a urgência de Profundas mudanças na na organização estrutural da Igreja Católica Romana. Vários aspectos, inclusive o ligado a sua estrutura Imperial, herdada do Império Romano, com base estatal ainda hoje funcionando são, com efeito, muitas as mudanças a serem empreendidas. Concentramo-nos, todavia, apenas em um aspecto: o lugar das mulheres na igreja, ou seja a necessidade e urgência de se repensar um sentido das relações de gênero, ao interno da Igreja Católica Romana. 
Neste sentido, ao final da sessão de encerramento da nona semana teológica Padre José comblin, realizada em outubro do ano passado, por sugestão de algumas uma das palestrantes, e acolhimento caloroso da maioria daqueles participantes, decidiu-se trabalhar o tema das mulheres na igreja, na realização da décima semana Padre José comblin. Também por esta razão, buscamos focar mais detidamente aspectos desta questão desafiadora.


Por uma igreja renovada também nas relações de gênero
 Tal como tudo o que é humano, também a igreja (Católica ou Reformada) é continuamente chamada a renovar-se, a reconhecer e buscar superar seus próprios limites. Neste sentido, a Igreja Católica (e as demais cristãs) tem um longo caminho a percorrer, se sente verdadeira discípula-missionária de Jesus de Nazaré, que veio “não para ser servido, mas para servir”. Instituída, como vem há séculos, desde o Imperador Constantino (século IV), assumindo a forma de um Estado, não sinaliza fidelidade ao Seu Mestre, mas, antes, se rende aos caprichos do poder de uns poucos sobre o conjunto dos membros da Igreja, assumindo, como acima mencionado, território próprio, chefes distantes do povo, estrutura financeira pomposa (Banco do Vaticano), sistema judiciário orientado pelo seu famigerado  Direito Canônico, estrutura diplomática (Nunciatura) semelhante ao de outros Estados, além de outros elementos organizativos, tais como Dioceses e Paróquias (aludindo a uma estrutura do Império Romano).
Tendo em vista a complexidade e a extensão dos elementos a serem tomados em conta, neste processo de renovação, no presente item, cingimo-nos apenas aos aspectos concernentes às relações de gênero ao interno da Igreja Católica, mesmo sabendo de suas conexões orgânicas com tantos outros elementos a serem igualmente objeto de mudança.
Tratamos, em seguida, de compartilhar alguns pontos e questionamentos, no sentido de buscar contribuir com o enfrentamento exitoso deste desafio.
Partimos da própria condição humana na qual Jesus se incarnou, tornando-se partícipe das circunstâncias históricas, bem como de nossas angústias, alegrias, lutas e esperanças que todos experimentamos, ao longo do processo de humanização. Ao irmanizasse tão radicalmente, Jesus nos  acena e nos convida a seguirmos seu exemplo, nas relações do dia-a-dia, envolvendo também as relações de gênero. Neste sentido, compartilhamos algumas perguntas, do tipo:
- O que nos dizem os Evangelhos sobre o modo como Jesus atuava no meio de sua gente, ao percorrer os caminhos e as aldeias da Galileia?
- Em sua vasta itinerância pelas estradas da Galileia, de quem Ele se acompanhava? Somente de homens? Quantas mulheres sempre o acompanharam, bem além de sua mãe, de Maria Madalena, de Marta e Maria e de tantas outras?
- Que papel mulheres e homens seguidores de Jesus desempenhavam, na distribuição das tarefas e serviços, durante Sua missão itinerante?
- E nas primeiras comunidades cristãs, nas contínuas reuniões e encontros de comemoração da Ceia do senhor, como se dava a organização destes momentos, inclusive no que se refere à bênção dos alimentos e sua distribuição, sua partilha?
- Onde está escrito, nos textos neotestamentários, que cabia somente a homens abençoar a Ceia do senhor, ou mesmo presidir, com exclusividade?
- Onde encontrar fundamento sólido para a defesa de argumento, segundo o qual somente a varões coubesse a tomada de decisões relativas ao conjunto das comunidades?
- Terá sido esta uma iniciativa inspirada na Tradição de Jesus de Nazaré ou, antes, na tendência crescente, sobretudo desde o século IV, com a intervenção do Imperador Constantino, de se conferir privilégios a alguns homens (o clero), em detrimento do conjunto de membros das comunidades cristãs?
- Como comprovar a consistência deste modo secular de proceder, desde o espírito fraterno e de partilha legado por Jesus e pelas comunidades primitivas?
- E o que dizer com relação a tantos avanços que, pela animação do próprio Espírito do ressuscitado, se fizeram e vem se fazendo ao longo de nossa história?
- Como justificar, em pleno século XXI, à luz de tantas mudanças positivas observáveis em nosso mundo, no que diz respeito às relações de gêneros, de etnia, de geração, e tantas outras, que teimemos em seguir praticando o sexismo, o racismo, a gerontocracia e outros vícios evangelicamente insustentáveis?
- No que toca mais explicitamente às estruturas internas da Igreja Católica Romana, como justificar que suas decisões centrais, tomadas nos mais variados campos (administrativo, disciplinar, jurídico, litúrgico, pastoral, ministerial, etc., etc., etc.?) continuem sendo privilégio de um percentual mínimo da parcela do Povo de Deus componente da mesma Igreja Católica Romana?
Por outro lado, faz-se urgente compreender o longo tempo (talvez abusivo) que se vem tomando, sem que iniciativas  a altura da necessária retificação de tal rumo e de tal modo de organizar-se, venham sendo tomadas. Não esqueçamos as vozes proféticas que, há mais de cinquenta anos, vêm clamando nesta direção. Em especial, as mulheres, as mais diretamente afetadas por tal estrutura androcêntrica. Neste sentido, convém especial atenção a múltiplas iniciativas que as mulheres – leigas e religiosas – vêm apresentando há décadas, especialmente por meio de sua reconhecida contribuição às pesquisas teológicas, particularmente no campo da teologia feminista.
Esta contribuição merece ser tomada mais a sério, eis que, não raramente, figuras masculinas, representativas da estrutura eclesial, cometem deslizes, dando inclusive a entender que tenha havido um processo de inclusão crescente das mulheres na Igreja, quando sabemos que quase todas essas iniciativas (concessões) estão longe de alcançar seus justos reclamos. Elas não se contentam com uma participação figurativa, mas exigem respeito a sua condição de mulher, a sua condição de católicas, ao seu direito de decidirem, junto com os homens da mesma Igreja, sobre os rumos e a forma de organização do conjunto de Católicas e Católicos.
João Pessoa/Olinda 05 de janeiro de 2020.



sábado, 28 de dezembro de 2019

CAPITALISMO E BARBÁRIE: manifestações e desdobramentos recentes no Brasil


CAPITALISMO E BARBÁRIE: manifestações e desdobramentos recentes no Brasil 



Alder Júlio Ferreira Calado

Hoje, bem mais do que em décadas passadas, o Capitalismo segue ameaçando a vida do planeta e dos humanos, sob as mais diversas formas. Também no Brasil, têm-se multiplicado, a olhos vistos, os sinais de barbárie, principalmente no (des)governo Bolsonaro. Todas as esferas da vida social não cessam de ser afetadas. Nas linhas que seguem, cuidaremos de compartilhar nossas reflexões avaliativo-prospectivas deste macabro cenário, que se acha organicamente vinculado a semelhantes manifestações, em tantos outros países. Trataremos, igualmente, de buscar despertar e fortalecer a consciência crítica e autocrítica de nossas organizações de base, comprometidas com a construção de condições, em vista de uma nova sociedade, alternativa à barbárie do atual modo de produção, de consumo e de gestão societal.
 Sinais de barbárie se multiplicam, mundo afora 
No plano da produção, constata-se uma sucessão de políticas econômicas destinadas a disponibilizar, ainda mais profundamente, os bens e riquezas do Brasil, expondo-os à voracidade e aos caprichos do grande capital, nacional e internacional, de modo privilegiado, de seus setores financistas (organicamente articulados aos demais setores do capitalismo). 
Escandaloso sinal de barbárie observa-se, quando o Brasil, uma das nove maiores potências mundiais, chega a ocupar o penúltimo pior lugar no “ranking” das desigualdades sociais. Sinais de barbárie se dão, quando, durante anos a fio, se mantém o importante parque industrial parcialmente ocioso, em que pese a constatação de mais de 12 milhões de desempregados, além de outros tantos milhões de subempregados, “desalentados”, jovens que nem trabalham e se acham fora da escola com a cumplicidade explícita ou tácita da burguesia industrial, que prefere manter ociosos seus bens industriais, a mantê-los em funcionamento, até porque encontram acolhida tentadora nos paraísos fiscais, onde podem até depositar suas fortunas, ganhando mais com o seu capital parasitário do que investidos na produção industrial. Sinais de barbárie se dão quando a imensa riqueza de nossa biodiversidade, as nossas matas e florestas, nosso rico subsolo, nossas grandes extensões de terras agricultáveis são devastadas, seja pelos desmatamentos criminosos, seja pela expansão do extrativismo mineral ilegal, seja pela expansão de terras destinadas à pecuária e ao agronegócio, seja pela criminosa invasão de terras indígenas e de Comunidades Quilombolas. Sinais de barbárie acontecem quando se submete a vocação industrial do nosso país à condição de mero fornecedor de ‘’commodities’’, gerando altas margens de lucros aos grandes exportadores do agronegócio, enquanto vários desses mesmos produtos exportados acabam ficando fora do alcance de parcelas significativas de nossa população, daí resultando encarecimento dessas matérias-primas, no âmbito local.
As manifestações de barbárie, todavia, não param por aí. Não satisfeitas com escandalosos margens de lucros, “as elites do atraso”, as oligarquias multibilionárias empenham-se em ampliar ainda mais sua lucratividade, sempre à custa do crescente empobrecimento da enorme maioria de nossa população. Referimo-nos ao setor financista, cujas margens de lucro, em determinadas operações, tais como as do cartão de crédito ou do cheque especial, alcançam as nuvens, com uma lucratividade correspondendo a mais de 300% cobrados como juros nos cheques especiais. Um verdadeiro assalto legalizado! Por outro lado, os setores dominantes de nossa sociedade seguem com sua sede insaciável de lucro. Desde o governo Temer, tais setores têm pressionado no sentido de agravamento das condições precárias da enorme maioria do povo trabalhador. Desta vez, impondo goela abaixo dos trabalhadores e das trabalhadoras profundas alterações nas leis de proteção ao trabalho, impropriamente chamadas de "reforma trabalhista". Recorrendo a uma insana publicidade, feita inclusive com recursos públicos, não hesitam em rasgar parte expressiva da CLT, sob o pretexto de modernização, com o firme propósito de retirar direitos trabalhistas fundamentais de parcelas expressivas de trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. Para tanto, não hesitaram em anunciar tal desmonte, prometendo a criação de empregos, que não vieram (pelo menos, na proporção esperada). Em dezenas de artigos da nova lei trabalhista, resultam claros os prejuízos, bem como a retirada de direitos, em benefício dos “de cima”. Ainda, sob a alegação de modernização das leis trabalhistas, introduziram na legislação o famigerado “trabalho intermitente”, sob a égide do qual ficam os grandes empresários à vontade para terem trabalhadores destituídos de direitos fundamentais, à medida que o trabalho intermitente permite aos empregadores se comprometer em apenas pagarem o correspondente às horas trabalhadas. Verdadeira barbárie!
O exemplo ilustrativo, acima mencionado, corresponde a um dentre tantos outros que atestam a violenta retirada de direitos trabalhistas. Retirada de direitos na área sócio-econômica, que também está longe de esgotar outras políticas nocivas, recém implantadas. Já no (des)governo Bolsonaro, o pacote de maldades contra a imensa maioria do povo brasileiro tem sequência em outras tantas Medidas Provisórias e mesmo em desmontes impropriamente chamados de reformas, como no caso da Reforma da Previdência Social. Aqui também, a enorme maioria dos empobrecidos acabou pagando caro, enquanto os segmentos realmente privilegiados tais como os bancos, resultaram beneficiados, ainda mais.
Outra forma, sob a qual tem lugar as manifestações de barbárie, estende-se por outras áreas, como as medidas de criminalização dos movimentos sociais e sindicais, entre outros. Em que pese certa posição de distanciamento ante o (des)governo, por parte do Congresso Nacional, este segue firme em sucessivas aprovações aprofundando as maldades neoliberais, tão ao gosto do ministro Paulo Guedes, grande admirador do modelo chileno de Pinochet, hoje em plena ruína. Neste sentido, enganam-se profundamente os que interpretam as atitudes dos presidentes da Câmara Federal e do Senado, como sendo dissociadas do plano Bolsonaro. Na verdade, as “elites do atraso”, inclusive representadas no Congresso Nacional, a despeito de seus comentários críticos em relação aos esdrúxulos rompantes do Presidente Bolsonaro, acabam alinhadas e satisfeitas com sua política econômica.
Ainda no plano político, a cada dia, são noticiadas medidas de profundas agressões à saúde (ver a autorização pelo órgão respectivo de dezenas de agrotóxicos já proibidos em vários países do mundo), as constantes agressões dirigidas às Universidades, a desorganização impressa pelo atual Ministro da Educação a vários setores, indicando que também este Ministro se acha intimamente alinhado às políticas de desmonte não apenas no tocante às ações de desmonte na área educacional, como também no que diz respeito ao desmonte institucional em vários campos.
No caso da cultura, vimos observando, durante o atual (des)governo, uma sucessão de medidas de forte ataque às instituições culturais, a exemplo do que se tem dado na política relativa ao cinema e às artes. Prosseguindo no mesmo campo, medidas grotescas têm sido tomadas, visando atacar a dignidade do povo negro, tal como se deu no caso da nomeação de uma figura completamente dissociada da causa Negra, para ocupar a presidência da Fundação Palmares, assumindo, o recém-nomeado, inclusive, atitudes racistas condescendentes à escravidão, no ataque acintoso à dignidade do povo negro.
Um outro traço repugnante do trágico legado bolsonarista - em verdade, expressão do macabro paradigma da pós-verdade - se faz presente no chamado negacionismo, isto é, na estúpida contestação a dados científicos consolidados, tais como o da esfericidade da Terra, a teoria evolucionista, entre outros. Embalado por esse clima, o legado bolsonoriano arroga-se o direito de definir, conforme suas conveniências de momento o que é e o que não é verdade, tudo feito pelas vias mais ridículas e grotescas. Nesse sentido, em tal paradigma não cabe sequer a noção de ética. Isto se comprova de vários modos. Um deles é pela sistemática atitude, por parte do atual Presidente, de voltar atrás, em relação a afirmações, a acusações ou a promessas feitas, A palavra dada nada vale, ou vale muito pouco, para gente desse tipo. O trágico deste contexto não se resume a quem assim se comporta, na condição de Presidente do Brasil, mas, antes, no público que o apóia, inclusive formado por parcelas significativas de gente que se diz cristã. Um Cristianismo sem Jesus ou contra Jesus...
No mesmo plano da cultura, situam-se frequentes aberrações religiosas, em que pessoas e grupos supostamente em nome de deus, não hesitam em pregar a violência como meio de correção dos vícios (alheios!) não hesitando em preconizar verdadeiras cruzadas modernas contra os infiéis... não se apercebem de sua própria condição humana, também eivada de limites e insuficiências, sucumbindo à tentação de monopolizarem a verdade sua e dos seus. um dos casos desta tendência se acha na percepção de vícios como a corrupção. "eu não sou corrupto. os meus também não." Corruptos são os outros, corruptos são os políticos: a Globo vive a denunciar, quase todos os dias. como se a própria Globo e outros canais de televisão e de rádio devessem ser imunes e portadores da verdade e de isenção!
Podemos começar tentando uma posição crítica em relação ao fenômeno da corrupção. O que se tem visto, no primeiro ano de Governo Bolsonaro, é uma sucessão de casos comprometedores, seja no âmbito do Partido pelo qual se elegeu, seja ao interno de sua própria família. Acerca deste ponto, cumpre assinalar que, no campo da Direita, nada de estranho se tem a registrar. Ao longo de nossa história política, a corrupção nunca deixou de ser um vício característico principalmente das forças ligadas ao “status quo” aqui e ali, também se tem notícia de casos a pessoas ou grupos de Esquerda. Há, contudo, de se estranhar a frequência e o volume de recursos desviados, atribuídos a forças de esquerda. Tal situação nos leva a uma reflexão (auto)crítica sobre o caso específico da corrupção. 
Construindo condições de um novo horizonte societal, por caminhos compatíveis
Após havermos tentado um breve exercício avaliativo de nossas atuais condições sócio-históricas, cujo resultado apresenta para nós a certeza de que não há saída humanizadora, nos quadros impostos pelo Capitalismo, cuidaremos, neste item, de fazer um exercício prospectivo, a partir da ótica dos de baixo, isto é, das forças sociais de transformação, em busca de lançarmos sementes de uma nova sociedade, de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal comum, alternativo à barbárie capitalista. O propósito é, portanto, compartilhar nossa compreensão quanto às urgências, desafios e tarefas, relativas às nossas organizações de base, em especial os movimentos sociais populares, partindo de iniciativas e experiências já existentes, ainda que proporção molecular, bem como o de externar algumas dúvidas em relação à compreensão hegemônica, alimentada por expressivas forças de transformação, acerca dos caminhos de resistência amplamente priorizados, sem articulação orgânica com nossos compromissos com passos consistentes em direção ao horizonte almejado.
Uma primeira tarefa histórica para nossas organizações de base tem a ver com o seu compromisso de manter aceso o horizonte de uma nova sociedade que se vai construindo passo a passo a partir das relações do dia a dia. Uma nova sociedade que se vai revelando às antípodas do modelo hegemônico, em tudo que estiver ao alcance dos seus protagonistas.
Há, com efeito, em curso - e já há algum tempo- diversas experiências de reconhecido potencial alternativo ao modelo vigente. No plano da agroecologia e da permacultura, por exemplo, tem sido amplamente reconhecido caráter inovador e de grande potencial transformador de várias das experiências protagonizadas por alguns de nossos movimentos sociais populares do campo. Em várias regiões do Brasil, iniciativas revolucionárias têm vindo a lume, seja no cuidado com a qualidade das sementes, com o manejo da terra e da água, seja com os critérios quanto ao quê e ao como plantar e cultivar, seja com relação à distribuição dos produtos.
Já há alguns anos, vários movimentos sociais do campo vem protagonizando as feiras agroecológicas, com reconhecido sucesso, pelo seu potencial inovador, carregado de alternatividade frente à lógica mercantil hegemônica. Outras tantas iniciativas também se acham em curso, seja nas organizações feministas, seja nas iniciativas de organização do povo negro, seja nas experiências protagonizadas pelos povos indígenas, seja por meio de experiências inovadoras em curso em tantas comunidades e favelas espalhadas pelo nosso país ao mesmo tempo. Cumpre ressaltar a importância capital do modo como tais experiências são construídas, trazendo em comum alguns procedimentos dignos de nota. A forma de organização apresentada em cada uma delas - umas mais aprimoradas do que outras - tem a ver com seu potencial de alternatividade ao modelo hegemônico vigente. Em comum, observamos nelas uma aposta gradual na força do mutirão, no potencial associativo alcançado, no planejamento coletivo, na repartição das tarefas, no processo avaliativo, nos periódicos encontros e reuniões, com o objetivo de retificação de caminhos e de aprimoramento das mesmas iniciativas.
Trata-se, em geral, de experiências organizativas estreitamente vinculadas ao esforço formativo de seus membros. Atenção especial é dispensada aos trabalhos desenvolvidos, que não se resumem a planejar e a avaliar aspectos exclusivamente organizativos, mas também cuidam de tornar estes encontros espaços de formação da consciência crítica dos participantes. Alguns princípios que norteiam a caminhada e o espírito destas experiências: a coordenação colegialmente exercida; estímulo ao protagonismo de todos os membros; especialmente na tomada de decisões; espírito de trabalho em equipe; preocupação em alternar periodicamente o quadro de coordenação ou de direção; o cuidado com o autofinanciamento, muitas vezes, realizado pela partilha de produtos agrícolas, no esforço de superação da velha dicotomia entre trabalho intelectual e trabalho manual, no esforço de tocar a experiência por meios próprios, de modo a preservar a autonomia frente ao mercado capitalista e seu Estado…
Semelhante cuidado também se dá, quanto ao processo formativo dos mesmos protagonistas. Observa-se, também aí, o cuidado com uma formação permanente dos membros da base e dos membros da coordenação. A memória histórica vem, com frequência, a figurar na pauta desses encontros periódicos. Rememoram-se lutas e conquistas do passado recente e menos recente, também os reveses experimentados, durante momentos de conflitos. Ao mesmo tempo, cuida-se de exercitar uma mística revolucionária, a iniciativa de reverenciar grupos e pessoas de referência, no que diz respeito ao seu testemunho e a sua contribuição. Trata-se, portanto, de um esforço de vivência pessoal e comunitária da Práxis, isto é, do compromisso com o horizonte almejado, buscando cumprir passos, estratégias e táticas, correspondentes à magnitude dos desafios atuais.
Há, contudo, situações que suscitam dúvidas em não poucos dos membros desses movimentos sociais. Dúvidas que tem a ver com o sentimento ainda amplamente dominante, especialmente, nos membros de direção e de coordenação desses movimentos populares, no que se refere à participação político partidária, numa conjuntura extremamente complicada, por várias razões. Vale a pena seguir apostando cegamente nos espaços governamentais, como o meio principal de transformação, dentro do horizonte almejado? Sucessivas experiências de revés não têm sido suficientes ainda para nos advertir da armadilha e do campo minado em que os espaços governamentais têm representado, a julgar pelos sucessivos escândalos em que, não raramente, nos vemos metidos? Não estamos a sugerir que coloquemos entre parênteses o Estado e seus aparelhos, tampouco que as forças sociais de transformação abandonem abruptamente os espaços governamentais, mas, sim, que levemos mais a sério as amargas lições que extraímos de uma participação acrítica no processo eleitoral e no funcionamento ordinário do parlamento e outras instâncias do Estado. Não nos esqueçamos de que, nem sempre, em nossa história dita republicana, nossas organizações de base estiveram a ocupar os espaços governamentais. Não apenas durante a Velha República, mas também em distintos períodos, no final da década de 30 até 45, não se deu tal participação, nem por isto, nossas organizações de base deixaram de fazer a resistência possível. Nosso apelo é no sentido de que se invertam as prioridades organizativas, formativas e de mobilização que hoje predominam, em busca de uma retomada, em novo estilo, do trabalho de base. Isto é pedir demais?

 João Pessoa, 28 de dezembro de 2019.








g