quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

IGREJA DE CRATEÚS - CE (1964-1998):Uma experiência socioeclesial revolucionária

 



 Alder Júlio Ferreira Calado


Meu primeiro registro de 2021 destina-se a fazer memória da experiência revolucionária da Igreja católica de Crateús - CE, cujo primeiro bispo, Dom Antônio Batista Fragoso (Teixeira PB, 1920 - João Pessoa, 2006) completou 100 anos do seu natalício. 


Tudo quanto já se disse e se escreveu acerca da densa experiência e desta igreja e de seu primeiro bispo, ainda resulta pouco quando se trata de fazer-lhe justiça, seja no cenário brasileiro, seja no cenário internacional, ao menos quanto ao período situado entre 1964 e 1998. Aquelas e aqueles que se têm dado ao trabalho de pesquisa nos mais diversos campos sócio-eclesiais relativos a esta experiência atípica ou mesmo singular, podem atestar a excelência daquela experiência profético-missionária, de uma comunidade diocesana encravada nos Sertões dos Inhamuns, na fronteira entre o Ceará e o Piauí.


Não se trata de pretender-se exclusividade, pois, ao longo da história do cristianismo, mesmo tendo amplamente prevalecido as situações de inconsistência com a Tradição de Jesus, sempre estiveram presentes episódios e figuras profundamente coerentes com a mensagem do Evangelho e o Seguimento de Jesus. Assim aconteceu nas comunidades cristãs primitivas. Assim sucedeu com figuras da Patrística, a exemplo de João Crisóstomo e Basílio. Durante a Idade Média, essas “minorias abrâamicas” (expressão muito usada por Dom Helder Câmara) protagonizaram movimentos de resistência aos contra-testemunhos da hierarquia, responsável maior pela aliança entre o trono e o altar, especialmente a partir da era constantiniana, e mais particularmente do século XII ao século XV: a figura de Francisco de Assis e o movimento em torno dele; os Albigenses, os Valdenses, as Beguinas, os movimentos de resistência em torno dos teólogos Jan Huss e Thomas Müntzer, entre outros.


Também na segunda metade do século XX, estas figuras e grupos proféticos tiveram um relevante papel, especialmente na América Latina, a exemplo do compromisso profético das comunidades indígenas de Riobamba (Equador), animadas pelo Bispo Dom Leonidas Proaño, entre outras. No Brasil, experiências semelhantes também se dão, como no caso das comunidades da Prelazia de São Félix do Araguaia, animadas por Dom Pedro Casaldáliga. Mas aqui cuidamos de tratar especificamente da impactante experiência missionário-profética da Igreja de Crateús, especialmente no período entre 1964 e 1998.



Ao longo do ano de 2020, quando se celebra o centenário do natalício do seu primeiro Bispo, Dom Antônio Batista Fragoso, muitas histórias edificantes tem vindo à tona. Estas se somam a outras tantas escritas ou relatadas, em distintos períodos desta caminhada sócio-eclesial. As  breves notas que seguem têm como objetivo realçar outros aspectos que também reputamos relevantes na trajetória daquela comunidade eclesial. Tratamos de trazer à tona alguns exemplos ilustrativos de episódios marcantes da caminhada daquela gente. Ensaiando articulação com este ponto, cuidamos de buscar razões que estão por trás daquela caminhada eclesial recheada de compromisso profético e protagonismo libertador testemunhados pelos missionários e missionárias, atuantes naquela região - não se trata apenas de Crateús, sede da diocese, mas de certa forma de vários outros municípios em seu entorno -, tais como Ararendá, Crateús, Independência, Ipaporanga, Monsenhor Tabosa, Nova Russas, Novo Oriente, Quiterianópolis e Tamboril. De modo a oferecer alguns elementos concernentes à contribuição específica de Antônio Batista Fragoso como um verdadeiro fermento na massa frente ao reino de Deus e a sua justiça.


Da densa história da Comunidade eclesial de Crateús têm sido produzidos teses, livros, dissertações, trabalhos de conclusão de curso, vídeos, relatos em áudio, além de uma diversidade de documentos. As pessoas interessadas poderão, com sucesso, revisitar ou rever pontos decisivos desta caminhada. Nosso objetivo é bastante limitado: trazer à memória algumas situações ou episódios ilustrativos capazes de atestar a marca criativa e atípica da caminhada desta comunidade eclesial. Um dos pontos mais expressivos da Igreja de Crateús reside na formação e desenvolvimento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).


Em verdade, CEBs constituíram um fator decisivo para o admirável êxito missionário na/da comunidade Diocesana de Crateús, à medida que:

- correspondem ao núcleo organizativo da proposta evangélica;

- caracterizam o que de melhor se pode colher das conclusões das Conferências de Medellín (Colômbia, 1968) e Púebla (Mexico,1979);

- Suas atividades evangelizadoras não se limitam ao terreno eclesial, mas também se estendem ao plano macro-social; são animadas pelo espírito de irmandade, e não pelo viés hierarquizante (nelas, todos têm vez e voz - leigas, leigos, religiosas, religiosos, padres e bispos);

- Assumem o Reino de Deus e sua justiça como valor central de sua fé, antes que a instituição eclesiástica;

- Não correspondem propriamente a um setor pastoral ou a um movimento eclesial, a um serviço, mas principalmente a um modo de ser Igreja ou, como costumava dizer Dom Pedro Casaldáliga, "um modo de toda Igreja ser" .

Outro componente relevante que pode justificar o sucesso daquela missão profética, de que a Igreja de Crateús esteve marcada, tem a ver com a centralidade da causa libertadora dos pobres e desvalidos. Neste sentido, a Igreja de Crateús se mostrou de uma impressionante radicalidade, a começar pelo estilo de vida característico dos agentes de Pastoral, incluindo o Bispo. estes agentes (leigas,leigos, religiosas, religiosos, padres e bispo) costumavam viver e trabalhar em simples residências comuns, a partir de onde se locomoviam constantemente a acompanhar e animar os trabalhos mais distintos da agenda pastoral, tanto no campo como nas periferias urbanas. A este respeito, aliás, tornou-se célebre a fecunda experiência missionária (chamada de "o Ninho"), junto às vítimas da prostituição, acompanhadas in loco, pelo pe. Alfredinho, com todo o incentivo de Dom Fragoso. 

É por meio desta concepção e desta prática revolucionária no chão do dia a dia das pequenas comunidades, dos círculos bíblicos, dos núcleos e coletivos, funcionando de modo autônomo e interconectado que se vai gestando uma verdadeira alternativa de modelo eclesial e de modelo societal à medida que p protagonismo, nestes espaços, já não é privilégio de alguns e de autoridades, mas é um direito exercido por todos os seus participantes, em especial nas tomadas de decisões. E, quando se trata de viabilizar as decisões tomadas coletivamente e de baixo para cima, participantes destes espaços - leigas, leigos, religiosas, religiosos, padres, bispo - se sentem concernidos, isto é, tomam consciência de sua responsabilidade de cidadãs e cidadãos do Reino de Deus; cultivam sua autonomia em relação às estruturas hierarquizantes, cultivando um espírito de igualdade fundamental entre os participantes, bem como o sentimento de que são missionários e missionárias, antes de tudo, do Reino de Deus, e não meros funcionários de uma instituição eclesiástica; outro aspecto fundamental aí presente tem a ver com o processo formativo do conjunto de seus participantes. Trata-se, em primeiro lugar, de uma formação permanente, contínua, da qual todos os participantes se sentem co-responsáveis e protagonistas, de modo que a experiência como discípulos e discípulas não é uma relação autoritária, em que o mestre ensina ou transmite seu saber para os alunos. É uma formação caracterizada por densos conteúdos e por uma fecunda metodologia bem articulados; conteúdos que têm a ver tanto com os temas de formação cristã específica, quanto de relações sociais, políticas e culturais, correspondentes aos espaços societais.

Ainda no plano formativo, resultou deveras frutuoso o trabalho realizado pelo movimento de educação de base (especialmente no plano da alfabetização de adultos, experiência inspirada no sistema Paulo Freire). Com efeito, a diocese de Crateús empenhou-se enormemente em assegurar, durante vários anos, o trabalho de escolarização por meio do método. A este respeito, alguns episódios merecem registro, a exemplo de certo desentendimento entre os controladores do batalhão do exército lá implantado com o Bispo Diocesano, dada a opção freiriana daquele trabalho, que despertava nas pessoas adultas sua consciência cidadã, o exercício da consciência crítica, propiciada por aquele tipo de alfabetização. Por feliz coincidência, durante certo período, aquele batalhão do exército esteve sob o controle de um militar culto e sensível aos valores humanitários. Tratava-se do coronel, cuja esposa, filha do célebre Marechal Teixeira Lott, contribuía pessoalmente nos trabalhos de alfabetização. Isto acabou custando caro àquele militar, sobre quem se moveu algum tipo de perseguição, inclusive resultando em sua transferência.


Outro aspecto capaz de atestar o caráter revolucionário da proposta formativa implementada pelas distintas equipes de pastoral, em âmbito diocesano, refere-se à recusa do Bispo Diocesano, de fundar ou manter escolas católicas, sempre preferindo contribuir fortemente com a dimensão pública de todos os serviços, inclusive na área da educação. De tal sorte era a radicalidade do Bispo Diocesano, até mesmo no que diz respeito a instalar seminário em sua diocese, optando por que os jovens vocacionados ao presbitério tivessem uma formação assegurada pelos agentes pastorais daquela diocese, com o apoio de experiências formativas, gestados também no Regional Nordeste 2, mais precisamente por meio do DPA (Departamento de Pastoral e Assessoria), no qual foram formados vários padres de sua diocese.

Não é preciso mencionar as dificuldades enfrentadas pelo Bispo Diocesano, ante as constantes cobranças sofridas por colegas bispos, às quais ele sempre resistiu, de maneira respeitosa e firme. A sólida e longeva formação herdada pelo Bispo Diocesano e outros agentes de pastoral, do legado da Joc, tem muito a explicar sobre a qualidade de sua ação profético-missionária. Com efeito, a Ação Católica Especializada tem grande influência na formação militante de  Dom Fragoso. Isto pode ser observado, sob vários aspectos. O hábito de iniciar um trabalho, a partir da pesquisa e atenta observação da realidade ali encontrada, constitui um componente fecundo daquela ação, nos vários espaços eclesiais e sociais daquela comunidade. Conhecer profundamente a realidade que se pretendia evangelizar corresponde a um dos seus objetivos centrais, há uma estratégia comum de procedimento sócio-pastoral combinando pesquisa, observação participante e contínua presença, por meio inclusive de visitações.


Longe de se desenvolverem de forma espontaneísta ou fortuita, as atividades das diferentes equipes de coordenação pastoral e de seus respectivos agentes, tanto no âmbito rural quanto no âmbito das periferias urbanas, obedeciam a um admirável esforço organizativo, caracterizado pela preocupação de planejamento e de avaliação. Periodicamente, realizavam-se assembleias diocesanas e por áreas pastorais, em que era impactante o esforço de planejamento e de avaliação, por meio de assembleias dos delegados e delegadas das diferentes comunidades, das associações, dos serviços e dos movimentos eclesiais importa observar que, durante essas assembleias, as decisões eram tomadas rigorosamente pela base, ainda quando a posição de figuras como a do próprio Bispo não coincidisse com a posição majoritária dos membros da Assembleia. O Bispo, mesmo tendo a seu favor o amparo do direito canônico, preferia seguir as recomendações do Evangelho, no horizonte da igualdade. É de se esperar a sucessão de críticas que o Bispo sofria por parte de setores eclesiásticos locais, regionais e nacionais. Mesmo assim, não abriria mão de sua posição evangélica, sendo uma voz, um voto com e como os demais.


Chamava a atenção, no âmbito da igreja de Crateús, a presença constante de missionários e missionárias vindos de outros países e de outras regiões do Brasil, a colaborarem com o povo dos pobres de Crateús. Também neste ponto, os critérios de aceitação para se trabalhar com o povo dos pobres de Crateús eram emblemáticos. Sempre ouviam do Bispo a observação de que eram sempre bem vindos, os missionários e missionárias, àquela terra e àquela gente, mas, ao mesmo tempo, se pedia de cada um, de cada uma , que tivessem um período de aprendizado junto aos diferentes, antes de decidirem que iriam mesmo permanecer colaborando naquele trabalho. Este aspecto também propiciava um amplo intercâmbio regional, nacional e internacional, com efeitos frutuosos para ambas as partes.


O compromisso assumido pelos signatários do pacto das catacumbas, encontro realizado pouco antes do encerramento da última sessão do Concílio Vaticano II, nos arredores de Roma, e mais precisamente na catacumba de Santa Domitila, referia-se ao esforço de cada signatário de visitar seus irmãos, ainda que em países e continentes diferentes. Dom Fragoso foi um dos que cumpriram fielmente este compromisso, tendo visitado, em diferentes países, seus irmãos signatários do mesmo pacto. Dom Fragoso chegou a visitar mais de 60 países, comprovando, também aí, a importância que conferia às relações internacionais, do que muito compartilhou e aprendeu, para o bem inclusive dos integrantes de sua comunidade diocesana de Crateús. Também aí, Dom Fragoso mostrava-se fiel ao seu lema episcopal -  "Opporte illas aducere" (“é preciso atrair as outras ovelhas”).


Quanto mais lemos, ouvimos e cavamos uma já notável diversidade de fontes e documentos relativos à caminhada da igreja de Crateús, no período examinado, mais nos convencemos da pertinência do adjetivo "revolucionária" que estamos atribuindo à experiência sócio-eclesial de Crateús, experiência que combina uma dinâmica ação coletiva comum e a contribuição individual atípica da parte de seu primeiro Bispo. Seus bons frutos resultam desta feliz combinação. A contribuição pessoal de Dom Fragoso na construção desta experiência resulta de um percurso extraordinário feito por este Bispo. Sua postura crítica em relação ao Golpe de Estado de 1964, justamente em um contexto em que grande parte do episcopado brasileiro rendia loa ao regime militar, atribuindo-lhe a missão de salvar o Brasil do perigo comunista (João Goulart, um comunista?). A dimensão profética deste Bispo que foi dos pouquíssimos a ter a coragem de protestar publicamente contra este golpe civil militar de 1964. Sua nomeação como primeiro Bispo de Crateús não seria um acaso. Embora Dom Fragoso tenha feito de Crateús sua grande seara de compromisso com o povo dos pobres do Sertão do Inhamuns, a intenção dos poderosos, dentro e fora da Igreja Católica, era antes de puni-lo, enviando-o para Crateús, em vez de nomeá-lo Arcebispo de São Luís, quando o titular estava prestes a ausentar-se definitivamente. Por certo, sua intensa atividade profética, como Bispo auxiliar, era suficiente para alertar as autoridades civis e eclesiásticas, com relação ao risco que correriam mantendo-o como Bispo de São Luís. Ledo engano! A história vem mostrar que, indo para Crateús, sua profética missão teria um efeito exponencial, graças ao tipo de organização e de formação que ele com sua brava e seleta equipe de agentes de pastoral conseguiram propor e implementar, naquela diocese.


Fiel à sua vocação de pastor, bem como às raízes camponesas de sua formação, principalmente nos últimos anos de seminário, em que entra em contato com pensadores criativos e críticos, a exemplo do Monsenhor Josef Cardim e da influência de Teilhard de Chardin, Dom Fragoso apresenta todo um percurso pastoral e de cidadania, profundamente alimentado pelos valores do Reino de Deus e sua justiça, assumindo de modo radical a causa libertadora do povo dos pobres, sempre observando com espírito comunitário, em todas as suas atividades. Dom Fragoso é uma fiel testemunha de quem vivencia, em seu cotidiano, um profundo ethos comunitário, de raiz evangélica.


Teve que enfrentar momentos tormentosos, perseguições, ameaças, de que dão prova tantas entrevistas e tantos relatos que escreveu, inclusive em um de seus livros de referência, "Évangile et révolution sociale", escrito em 1969, publicado pela CERF, Paris, mesmo antes do famoso livro escrito pelo padre José comblin, "Théologíe de la Révolution" (Paris: PUF, 1970)


Articulando a caminhada comunitária de quantas e quantos protagonizaram a igreja de Crateús, por mais de três décadas, e a atuação pessoal de seu primeiro Bispo, tratamos de destacar, resumidamente, os principais aspectos de aprendizado que podemos recolher desta experiência sócio-eclesial que reputamos revolucionária.

Um primeiro aspecto a sublinhar tem a ver com a convicção de que, mesmo em situações profundamente hostis, é possível e desejável marchar à contracorrente do modelo dominante, dentro e fora dos espaços eclesiais.


A experiência da igreja de Crateús nos ensina a valorizarmos as fontes do Seguimento de Jesus, da Tradição de Jesus, animando-nos a uma constante refontização e de conversão. Quando avaliamos esta experiência com o adjetivo "revolucionária", o primeiro valor que tomamos em conta é justamente do processo de conversão, pessoal e comunitária. Isto requer um exercício contínuo de uma Mística revolucionária, desde o chão do nosso cotidiano.


A experiência sócio-eclesial da igreja de Crateús também nos ensina a relevância e a potencialidade do trabalho em equipe, da colegialidade, da força transformadora das pequenas comunidades, dos núcleos, dos conselhos populares, dos círculos bíblicos, dos círculos de cultura, a serem mantidos continuamente de modo autônomo - protagonizados por todos os seus participantes, principalmente nas tomadas de decisões - de forma também conectada a outras instâncias, com as quais tais decisões são partilhadas, sempre com a prevalência das deliberações tomadas de baixo para cima, sem viés hierarquizante.


Outro aspecto que recolhemos como um ensinamento, por parte da igreja de Crateús vem da convicção de que a Tradição de Jesus se mostra incompatível com uma organização de igreja na base de uma estrutura estatal. Nada, no Evangelho, na Tradição de Jesus, autoriza que os discípulos e discípulas de Jesus se organizem à maneira de um estado: "entre vocês, não será assim " (CF. Mc 10,42 - 45).


Sob os mais diferentes aspectos, trabalhados de forma organicamente articulada, a experiência e a proposta pastoral da igreja de Crateús nos brindam com seu precioso legado, graças ao qual podemos compreender melhor qual a razão que levou a igreja de Crateús a testemunhar tão profundamente sua vocação profético missionária, conforme os critérios do Reino de Deus e sua justiça, fazendo-se uma igreja pobre com os pobres, colocando estes como alvo predileto de sua ação. Do legado da igreja de Crateús podemos recolher fecundos ensinamentos, inclusive, para nos fortalecermos, hoje, no enfrentamento dos tremendos desafios que nos cercam, seja no plano econômico, sanitário, ecológico, seja ao interno de nossa igreja católica e demais igrejas cristãs.


Um desses ensinamentos tem a ver com com a comprovação de que é possível, mesmo em tempos sombrios e tenebrosos, afirmar-se e testemunhar os valores do Reino de Deus e sua justiça, na perspectiva da Tradição de Jesus e seu seguimento.



João Pessoa, 7 de janeiro de 2021.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

DA PERPLEXIDADE À OUSADIA DE ENSAIOS PROSPECTIVOS: por uma sociabilidade alternativa

  

Alder Júlio Ferreira Calado

 

Não terá sido a primeira vez na história, nem será a última, que, diante da complexidade e magnitude dos desafios conjunturais/estruturais, experimentamos sensação de perplexidade e impotência. Por mais que nos impacte a conjuntura atual – e ela é, de fato, atípica! -, não nos cabe render-nos ante a complexidade e amplitude de seus desafios, que, aliás, vão bem além da própria conjuntura. Os seres humanos – já lembrava o mais original dos filósofos da práxis  - não sendo meros produtos das circunstâncias, mas também seus protagonistas (Tese III, sobre Feuerbach), não se colocam problemas para os quais não se sintam historicamente instados a superá-los. Entre acertos do passado, ensaios do presente e ousadias prospectivas, haveremos de encontrar pistas de alternatividade.

 

Colhidos no olho do furacão, com ou sem surpresa (há, sim, vozes que já vêm alertando sobre isso, há um bom tempo), de uma crise gigantesca, que se tem revelado mais própria de uma “mudança de época”, é compreensível aí prevalecer, por certo tempo, o sentimento de perplexidade, quando não de impotência. Bem ou mal, vínhamos regendo-nos, durante décadas e décadas,  por paradigmas hegemônicos, que nos eram relativamente familiares e aos quais estávamos acostumados. Por vezes, até tínhamos a impressão de que, conforme os traços do problema surgido, já contávamos em nossa caixa de ferramentas teóricas com a(s) ferramenta(s) adequada(s) à sua superação, ainda que parcial. Até parecia que tínhamos as respostas dos problemas. Eis que, de repente, mudam as questões, e sentimos fugir terra dos nossos pés. Enfrentamos questões de novo tipo. Por mais forte que seja a tendência a cedermos ao imobilismo, nosso instinto de sobrevivência nos impele a buscar ensaiar passos de alternatividade à atual conjuntura (ou estrutura). Já não contamos ao nosso favor com a eficácia de nossa velha caixa de ferramentas. Por outro lado, alguns/algumas dentre nós já alertavam, há certo tempo, para sinais de esgotamento de paradigmas hegemônicos. E até mostravam possibilidades alternativas em germe, presentes em experiências moleculares recentes e ainda em curso. De modo que hoje percebemos que nem tudo agora deve partir da estaca zero. Por certo, mesmo as micro-experiências bem sucedidas, em sua busca de alternatividade, não são suficientes para dar conta satisfatoriamente dos desafios de monta hoje à nossa frente. Mas, também é verdade que podem e devem ser um bom começo, um aperitivo promissor em nossa busca de pistas mais consistentes que nos ajudem a enfrentar com êxito os desafios do momento, a curto, médio e longo prazos.

As linhas que seguem têm o propósito de continuar contribuindo com o debate sobre a natureza das crises atuais, no Brasil (e fora do Brasil), na perspectiva de superação. Para tanto, cuidamos de 1) registrar e analisar sucessivos sinais de perplexidade, de  uma espécie de estado de choque; 2) apontar experiências grávidas de alternatividade que, pelo fato de serem ainda moleculares, não têm despertado a devida atenção; e 3) ensaiar pistas de alternatividade, a curto, médio e longo prazos.

 

1)      Uma situação que nos deixa perplexos e imobilizados...

Bons tempos, aqueles em que, conjuntura após conjuntura, sempre arranjávamos uma saída “de algibeira”, e, apesar dos obstáculos intervenientes, acabávamos “acertando”, no final das contas. Dentro do próprio sistema, acabávamos encontrando pistas ou remendos intra-sistêmicos“salvadores”. Já então, pelo menos da parte de um pequeno segmento, sucedia a necessidade de não esperar pelas forças do Estado (nem do Mercado, tão pouco), mas, antes, tratava-se de fazer pressão, por meio da articulação partidária, sindical e popular – espécie de tripé da resistência. “Nós, Trabalhadores do campo”, dizia um documento da época (relativo ao III Encontro Nacional de Trabalhadores da CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), “cansamos de pedir Reforma Agrária”, afirmando que, dali em diante, seriam eles próprios a exigir Reforma Agrária e a buscar sua concretização. Isto por volta de 1979, quando nascia o Movimento Pro-PT. Até certa altura dos anos 80, prevalecia tal sentimento entre os movimentos populares, sindicais e partidários de esquerda. Depois, tal convicção seria substituída pela crescente aposta na conquista de espaços governamentais (da esfera municipal ao plano nacional). Desde então, vem prevalecendo a aposta maciça na força transformadora desses espaços, em proporção direta e crescente ao aparecimento de sucessivos obstáculos. Neste caso, a estratégia ia mudando: agora, diante de um problema, bastava uma nova candidatura ou uma convenção mais consistente, capaz de mudar dirigentes e renovar quadros, mantendo-se, porém, a mesma estrutura organizativa (já verticalizada), enquanto se desmantelavam promissores ensaios formativos. Em breve, as saídas eram encontradas ao interno do próprio sistema, desistindo-se, na prática, do sonho de uma nova sociedade.

Se, antes, tanto o plano do PT quanto o da CUT mostravam-se ciosos de sua autonomia relativa, frente ao Mercado e frente ao Estado, bem como do seu amplo investimento organizativo e formativo, sendo seu intento organizar desde a base – sendo esta, palavra de ordem -, tais princípios foram sendo negligenciados, nos anos seguintes. Se, nas origens, por exemplo, fundar núcleos com autonomia e interconectados, cujas decisões fossem tomadas desde baixo, e cujos delegados levassem para as demais instâncias as decisões tomadas pelos núcleos, disto se vai progressivamente distanciando... No plano formativo, é sabido do maciço investimento em iniciativas tais como a do Instituto Cajamar, bem como em iniciativas, no plano popular/sindical, como a da fundação do CENTRU (Centro de Educação dos Trabalhadores Rurais). Tais iniciativas organizativas e formativas correspondiam a uma espécie, digamos, de “cláusulas pétreas” da organização popular/sindical. Conquistas expressivas que, no âmbito eclesial (“Igreja na Base”), eram reforçadas por iniciativas correlatas, tais como o CIMI (Centro Indigenista Missionário), a CPT (Comissão Pastoral da Terra), CPO (Comissão Pastoral Operária), ACR (Ação dos Cristãos no Meio Rural), MER (Movimento de Evangelização Rural, hoje um movimento popular autônomo: o MCP – Movimento das Comunidades Populares), a ACO (Ação Católica Operária), hoje MTC (Movimento de Trabalhadores Cristãos), cuja contribuição ao meio urbano se compara à da ACR, no meio rural, PJMP (Pastoral de Juventude do Meio Popular), entre outras. O próprio MST surge nesse contexto.

Tão ou ainda mais importante do que essa rede de organizações de base era sua forma de organização: pela base, a partir de nucleamentos (mantidos autônomos e interconectados entre si e com as demais instâncias), direção colegiada, rodízio de cargos e funções, autonomia financeira (viviam dos próprios tostões, arrecadados entre seus sócios), compromisso com a formação contínua de seus coordenadores e do pessoal da base, exercício de uma mística revolucionária, com o propósito de preservar e fortalecer seu compromisso de classe, presença atuante nas lutas sociais, entre outras características de sua organização.

Sobretudo a partir dos anos 90, essas iniciativas foram empalidecendo, quando não abandonadas. Em troca, prevalecia a corrida desvairada aos espaços governamentais. “Por razões táticas”, dizia-se. Tática que não tardaria a virar estratégia. Seus melhores dirigentes e militantes qualificados – centenas, milhares de homens e mulheres –, instados a compor um vasto leque de gestores, assessores em um sem-número de cargos e funções governamentais, nas diferentes esferas de poder, foram trocando a atuação nas ruas e nas lutas populares do campo e da cidade pelos espaços estatais. Foram seduzidos rapidamente pelos sucessivos êxitos eleitorais: câmaras de vereadores, prefeituras, assembleias legislativas, secretarias estaduais e órgãos correlatos, câmara de deputados, senado, presidência, ministérios, cargos do alto escalão... O mal, a essa época, não era que também fizessem política partidária, mas o fato de reduzirem às atividades partidárias e governamentais seu agir político, em desfavor do fortalecimento das lutas sociais do campo e das periferias urbanas. Uma sangria enorme para os movimentos populares, além de sobre eles exercerem uma influência danosa. Daí por diante, não poucos dirigentes/coordenadores de movimentos de referência foram também deixando-se cooptar, seduzidos pelos espaços palacianos. Esses dirigentes , por sua vez, antes zelosos pela sua autonomia frente ao Mercado, frente ao Estado e seus aparelhos, agora desfalcados de aliados históricos, iriam refletir essa sangria, sob várias formas. Uma delas: sob a influência dos antigos companheiros de lutas – agora, companheiros de Governo -, não apenas refrearam sua utopia e suas lutas, como também foram deixando cooptar-se, pela corrida de parte de seus dirigentes aos espaços governamentais. Opção que se revelaria gravíssima, no transcorrer dos anos, sobretudo por afetar sua visão de mundo, seu estilo de vida, seu compromisso de classe, este agora reduzido a mero discurso, já que suas práticas não conseguiram esconder a lição da sabedoria popular, de que “Quem come do meu pirão, prova do meu cinturão”. Ante situações fortemente contraditórias num governo de composição interclassista, como seguir assumindo posições de relativa autonomia? Impossível. O trágico disto é sabermos que ninguém com formação política, como é o caso de tantos dirigentes de movimentos populares e sindicais, faz este caminho inocentemente... Pior: com argumentos falaciosos (por ex.: confundindo origem de classe com posição de classe), arrastam atrás de si um número considerável de militantes de base.

Colhendo o que foi plantado...

Em se tratando de opções graves, suas consequências não tardam a aparecer: alargamento do arco de alianças com todo tipo de agremiação partidária, sob a alegação da “necessidade” de ganhar a eleição e, após o pleito, de garantir governabilidade, fingindo para si não ter, tal opção, consequências  graves: aliancismo, financiamento pelo Mercado e pelo Estado de suas ações, negligenciamento e abandono dos núcleos, verticalização das relações, abandono do processo formativo, distanciamento das bases, aceitação de financiamento empresarial, submissão a decisões de poucas pessoas ou pequenos grupos dirigentes, perda da consciência de classe, individualismo, superestimação de estrelas... Dai para a eclosão de grandes e sucessivos escândalos foi um pulo...

A partir dessas considerações que esperamos nos provoquem um ensaio autoavaliativo, que tal fazer-nos algumas questões, de passagem?

- A partir da compreensão e da experiência organizativa e formativa das origens dessas forças, é defensável atribuir as responsabilidades pela cadeia de malfeitos apenas ao conjunto de dirigentes?

- Tivessem as instâncias de base cumprido seu papel, haveria lugar para tantos abusos de gestão?

- Até que ponto o progressivo abandono da prática de se assegurar alternância de cargos e funções não constitui parte da explicação dos vícios de gestão atuais?

- Estamos conscientes das consequências ético-políticas do abandono do autofinanciamento, escandalosamente substituído pelo financiamento do Mercado e de seu Estado?

- Se é certo que fomos protagonistas e testemunhas de práticas ético-políticas exemplares, características das origens de nossa trajetória popular, sindical e partidária, o quê nos levou a fechar os olhos, cúmplices, diante de uma sucessão de sinais evidentes de ruptura desses valores, ao ponto de irmos sendo aliciados justamente pela cultura que sempre combatêramos?

- À parte a heroica resistência de pequenos grupos, que terminaram expulsos ou afastando-se do partido, que iniciativas de solidariedade se esboçaram, tanto em relação a ex-companheirxs resistentes quanto a uma cobrança de responsabilidades feita pelas instâncias de base aos dirigentes do partido?

- Qual a atitude autocrítica tomada pelas distintas instâncias do partido? Trataram de chamar os principais responsáveis para uma autoavaliação ou, em vez disso, seguiram com eles afinadas, por mais evidentes que fossem os desatinos cometidos, em série? Neste caso, fazendo ouvidos moucos ao conhecido dito aristotélico: “Amicus Plato, sed magis amica veritas” (“Platão é meu amigo, porém mais amiga é a verdade”)...

- Que posição se tomou em relação aos graves e crescentes sinais de irregularidades político-administrativas? Quem foi punido internamente?

- Qual o papel exercido, nesses conflitos, por intelectuais de referência, inclusive vários ligados à “Igreja na Base”? De contribuírem para uma reflexão autocrítica ou a de quase tudo atribuir à mídia burguesa ou à direita tucana e seus aliados?

- Que posição se tomou, desde a primeira eleição de 2002, frente à famigerada “Carta aos Brasileiros”?

Nas origens de várias dessas organizações, pareciam bem mais claros pontos hoje esquecidos ou desconsiderados. E isto não se expressava apenas no pensamento então dominante, mas também se refletia em suas respectivas práticas, não obstante seus limites. O quê, então, se tinha claro? Refresquemos a memória em torno de alguns deles:

- tinha-se claro que o Estado era (e continua sendo) o braço político do Mercado, ou seja, um dos componentes essenciais do modo de produção capitalista. A depender da conjuntura, até se podia ensaiar nele passos de resistência, mas jamais o assumindo-o como caminho próprio em busca da construção de uma nova sociedade;

- tinha-se claro que a construção de uma nova sociedade era um longo processo, a ser alcançado a longo prazo, mas dando desde já os primeiros passos – de alternatividade à velha ordem;

 

2) Experiências moleculares recentes e em curso, grávidas de alternatividade

 

Sabemos que não venceremos os impasses que nos cercam, se nos restringirmos a expressar ruidosamente nossas queixas (não raro, apenas  contra agentes externos...) ou se continuarmos a priorizar, de modo quase exclusivo, as questões ditadas pelas agendas oficiais (Executo, Legislativo, etc.). Por essas vias pouco ou nada lograremos. Há necessidade e urgência de cavocarmos outras possibilidades, alternativas a esses rumos e caminhos intra-sistêmicos. Como dizia a personagem José Dolores, do filme “Queimada”, “É melhor saber para onde ir, sem saber como do que saber como e não saber para onde ir.” E nem se trata apenas de reinventar o agir político, estritamente. É claro que nos sentimos no dever histórico de responder à complexidade dos impasses atuais, por outras vias, sim. Mas, não devemos esquecer que nem tudo parte da estaca zero. Entre nós – por vezes, até desconhecidas ou pouco acompanhadas e valorizadas – gestam-se experiências inovadoras, em relação à lógica do sistema imperante. Cada um, cada uma de nós conhece ou já ouviu relatos acerca de tais experiências moleculares, normalmente em curso nas “correntezas subterrâneas”.

 

3) Buscando e ensaiando pistas mais ousadas de alternatividade, a curto, médio e longo prazos

Impelidos pela convicção de que o atual modelo de organização societal não se presta a remendos intra-sistêmicos, se queremos salvar os humanos e a comunidade dos viventes, reconhecendo e promovendo a dignidade do Planeta, só nos resta ousar buscar e ensaiar pistas de alternatividade, a curto, médio e longo prazos, na perspectiva de construção contínua de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal, que se façam em harmonia com o Planeta.

No item precedente, tivemos a oportunidade de oferecr um primeiro ensaio, um aperitivo, por meio de experiências moleculares que apontam nessa direção, a despeito de seus limites. Neste tópico, buscamos ampliar o nosso esforço prospectivo, vislumbrando novas possibilidades, a curto, médio e longo prazos, e de modo incessante, uma vez que deve tratar-se de uma revolução em processo ininterrupto.

A) Por um novo modo de gestão societal

Seguem tendo um lugar de reconhecido io destaque as relações de produção. Em determinados modos de produção ainda mais do que em outros. Isto resulta tanto mais fecundo quanto se tome em conta a necessária interação dinâmica presente entre as diferentes esferas da realidade social. Seria um exercício de mera abstração tomar-se isoladamente qualquer uma das esferas da realidade social - econômica, política e cultural. Nenhuma delas subsiste por si mesma, em si mesma, para si mesma, de forma separada. Entre todas há um inevitável entrelaçamento de relações, sem que isto reduza a importância de nenhuma delas. Ao contrário: fortalece cada uma delas, à medida que se trata uma expressão do próprio movimento da realidade. Não poucos despautérios têm sido cometidos, ao longo da história recente e menos recente, graça a certa tendência, por vezes hegemônica, de se tentar dissociar, no mundo concreto, alguma dessas esferas, inclusive a econômica, uma das outras. O economicismo – de trágicas consequências - é uma das formas assumidas de tal tendência.

Nesse sentido, por uma opção didática de exposição, aqui trato de começar a tecer algumas considerações de caráter enunciativo acerca de um modo alternativo de gestão societal, a partir do seguinte questionamento: que tipo de gestão de sociedade somos historicamente instados a ir construindo, que seja capaz de atender razoavelmente aos interesses, às necessidades (materiais e imateriais), às aspirações, aos desejos do conjunto da sociedade ou, pelo menos, da maioria de seus membros?

Um princípio irrenunciável, quanto a isto, é que o enfrentamento de tal desafio não seja obra de uns poucos pensantes, mas resultado e expressão do sentir, do pensar, do querer e da ação do conjunto – ou, pelo menos, da maioria - dos membros da sociedade, em especial (mas não apenas) do conjunto dos seus produtores e produtoras. Produtores e produtoras, aqui, correspondem tão-só ao conjunto daqueles e daquelas que vivem do seu trabalho, nas mais diferentes áreas e setores da economia. Nesse sentido, cabe ao mesmo conjunto dos membros da sociedade – a partir de suas organizações de base – definir um leque variado de questões, tais como: assegurar espaços de protagonismo de gestão societal, por meio de conselhos autônomos e interconectados com as respectivas instâncias (conselhos mantidos por ambiente de trabalho, por moradia, por ambiente de estudo, etc.); por quem e como serão tomadas as decisões gerais de gestão societal? Assegurada a prerrogativa do conjunto da sociedade, de tomar as decisões de gestão, a que instâncias intermediárias entre o conjunto dos membros e os executores de suas respectivas decisões, caberá concretizar as decisões tomadas? Como isto se fará: por que delegações, com que periodicidade de função, tendo que órgãos societais de controle, com poder inclusive de substituir, por motivos justificáveis, os delegados/delegadas antes do fim do seu mandato? Que mecanismos adotar para evitar-se o continuísmo de delegação, de um lado, e, de outro, para garantir que quem tenha cumprido seu mandato de delegado/delegada, retorne para a base, e quem é da base cumpra seu tempo de delegação, em alguma das instâncias executoras das decisões tomadas pelo conjunto dos membros? Quê formação interessa ao conjunto desses membros? Como será organizado processo formativo, que deverá ser contínuo e a ser cumprido por membros da b ase e delegados e delegadas?

Insistindo em que essas linhas não sejam tomdas senão como uma pro-vocação ao desafio de irmos ensaiando passos em direção à construção de uma sociabilidade alternativa à ordem vigene, a curto, médio e longo prazos, reitero o caráter apenas enunciativo, sabidamente parcial, limitado e provisório.

B) Por um novo modo de produção  

Os diferentes modos de produção constituem também mostruários de como, a cada mudança de época, os seres humanos aplicaram-se, durante décadas – ou até século -, na busca de superar, ou melhor dito, de irem superando, práticas e mecanismos do sistema produtivo então vigente, nem sempre (ou quase nunca) tendo claros os traços completos do modo de produção “dos seus sonhos”. Em verdade, foram dando passos, foram tateando nessa direção. O que temos como certo é que não se conformaram com o modo de produção dominante. Foram atrás de pistas de alternatividade. Nesse sentido, partiram de pistas orientadoras, de perguntas-chave tais como: quê lugar deve ter o processo produtivo, entre nós, articulado às outras esferas de nossa realidade? Tomando em consideração nossas características geográficas e sócio-econômicas, quais são nossas prioridades de produção? O quê queremos produzir? Que impacto tal plano de produção pode ter para o nosso Planeta? Como vamos pôr em prática nosso processo produtivo? Por que, para que, para quem desejamos produzir?

 

C) Por um novo modo de consumo

Se antes, em épocas recentes e menos recentes, bastava centrar a atenção apenas no modo de produção, hoje já não mais pode nem deve ser assim. A ideologia do progresso sem limites fez e faz estragos profundos ao Planeta, aos humanos e a toda a comunidade dos viventes. Ideologia que nutriu, desde seus inícios, não apenas os protagonistas do modo de produção capitalista. Também em experiências socialistas, tal ideologia “deitou e rolou”... Hoje, temos mais claros os custos desta tragédia e quem paga a conta desse progresso.

Quando nos damos ao trabalho de analisar a relação (tão cara ao sistema dominante) entre custos e benefícios, nos espantamos com os resultados desse modelo: aquecimento climático, crise hídrica, crise de energia, desflorestamentos, morte de rios e fontes de água, envenenamento de lençóis freáticos, contaminação do subsolo, devastação da biodiversidade, extinção de centenas de espécies vegetais e animais, envenenamento dos vegetais (inclusive da alimenta de humanos e outros animais, multiplicação de doenças daí advindas, etc., etc.

De uma análise desse quadro, não resta dúvida de que, tão importante quanto envidarmos esforço na construção processual de um modo de gestão societal alternativo e de um novo modo de produção, é igualmente assumirmos como urgente um novo modo de consumo. E aqui convém assinalar que para tanto se tornam fundamentais, não apenas os esforços coletivos de gestão, de produção e de consumo, como também resultam indispensáveis e urgentes os esforços também individuais de estilo de vida. Não apenas em relação à nossa responsabilidade pessoal no que tange à manutenção e fortalecimento de certas culturas necrófilas – de acumulação de bens, de desperdício (de água, de alimento, de energia...), de aquisição de supérfluos -, como também de nossa mudança pessoal de estilo de vida. Viver contente com pouca coisa, a exemplo do que fazem tantos povos tradicionais (sem que isto signifique tentativa de copiar sua forma de organização), a exemplo dos cultivadores do “Buen Vivir”. Nesse sentido, a recente encíclica social do Papa Francisco – “Laudato si´” representa um momento privilegiado do pensar/viver alternativo ao modelo vigente. Outro marco referencial a cultivar: a proposta do “Bem Comum da Humanidade”, bem expressa nas palavras de um conferencista, ao defender que:

A quem interessar possa, destaco os principais pontos da intervenção de FrançoisHoutart, sociólogo belga, um andarilho das boas causas.

 

 

* O pronunciamento se dá em Roma, por ocasião da segunda conferência sobre o BemComum da Humanidade.

 

* A noção de Bem Comum mostra-se importante atualmente por comportar uma leitura holística, capaz de comportar os mais distintos aspectos da reaidade, numa visão de conjunto que permite apreender/compreender distintos aspectos da realidade.

 

* Trata-se de uma leitura de conjunto que busca compreender as relações com a Natureza, a proteção dos bens materiais, omodo de produção, a Democracia, as organizações sociais, políticas  e culturais, pois todos constituem aspectos da mesma realidade.

 

* Perspectiva que se opõe completamente àda lógica do sistema capitalista que promove uma ampla segmentação, ao separar cada esfera - ecoNõmica, social, política, cultural -da realidade

 

* Sem uma visão integrativa da realidade, fica difícil compreender a importância e o alcance desse novo paradigma anticapitalista e voltado à construção da sociedade pós-capitalista.  

 

* As várias dimensões mencionadas da realidade comportam também os diferentes aspectos próprios do Bem Comum. Todos esses bens são  patrimônio da humanidade, tais como a terra, os mares, as florestas, etc. Eis por que não podemos aceitar que isto seja propriedade privada, porque se trata de BemComum da Humanidade. 

 

* Importa reconhecer a primazia do Público, quando se trata dos bens públicos, das fontes de riqueza, dos serviços públicos. A solidariedade é mais importante do que os direitos individuais, Deve ser atendido, primeiro, o interesse comum. Garantido este,  parte-se para o atendimento dos direitos individuais.

 

* A terceira dimensão do Bem Comum é a Vida: a vida do Planeta, a vida dos seres humanos. Eis ovalor fundamental que inspira o novo paradigma. 

Eis o "link":

http://www.youtube.com/watch?v=xT8-qWnKz_U

 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

PRESENÇA DE PEDRO

 (Em memória de Pedro Aguiar)


Aquela alegria

Que vinha de dentro

Talvez fosse o centro

Da sua Utopia

Pois sempre vivia

De bem com a Gente

Servindo contente

Ao Povo rural

Querendo, afinal

Que assuma o batente.

Alder Júlio


(Texto gestado no trecho Recife-Caruaru,

Em 16 de maio de 2004, no 30º dia de sua

Partida, junto com Ivonete, sua esposa, e

Victor, seu filho)


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

O BLOQUEIO É ARMA DELETÉRIA DE QUE O IMPÉRIO ABUSA, IMPUNEMENTE

 O BLOQUEIO É ARMA DELETÉRIA

DE QUE O IMPÉRIO ABUSA, IMPUNEMENTE


Alder Júlio Ferreira Calado


Os piratas são bandos bem armados

Que espalham terror aos viajantes

Extorquindo riquezas fascinantes

Escapando ao controle do Estado

Aumentando o infortúnio dos roubados

Da fortuna e do lucro tão prementes

O sistema atual é recorrente

Só aumenta dos povos a miséria

O BLOQUEIO É ARMA DELETÉRIA

DE QUE O IMPÉRIO ABUSA, IMPUNEMENTE

 

Pouca gente acompanha mais de perto

Os estragos letais de um embargo

Que aos punidos só restam mais amargos

O império os isola, qual deserto

Sua vida tornando algo incerto

São os povos que sofrem, os mais carentes

De recursos, de bens pra suas gentes

Golpeadas, enfim, em sua artéria

O BLOQUEIO É ARMA DELETÉRIA

DE QUE O IMPÉRIO ABUSA, IMPUNEMENTE

 

É o caso de Cuba, bravo povo

Que aos caprichos do Império já não cede

Nem adora seu deus, em sua sede

Preferindo investir em algo novo

Dos humanos buscando um renovo

Apesar dos ataques persistentes

Tem mostrado avanços de sua gente

Em saúde, instrução, outras matérias 

O BLOQUEIO É ARMA DELETÉRIA

DE QUE O IMPÉRIO ABUSA, IMPUNEMENTE



Se tornando destrutivo o bloqueio

Relevante tarefa se revela

Tudo mostra as gravíssimas sequelas

Que as nações mais altivas sofrem em cheio

É preciso mostrar - e sem rodeio

Os efeitos perversos persistentes

De que sofrem, aflitas, nossas gentes

A pretexto que parece até pilhéria

O BLOQUEIO É ARMA DELETÉRIA

DE QUE O IMPÉRIO ABUSA, IMPUNEMENTE


O que leva a potência principal

Castigar uma ilha tão pequena

A mantê-la meio século nesta arena

Qual foi mesmo seu pecado e grande mal?

Foi negar-se ao Império, ser serviçal!

Por tocar seu projeto autonomamente

Refutando amarras a outra gente

Mesmo à custa de golpe em sua artéria

O BLOQUEIO É ARMA DELETÉRIA

DE QUE O IMPÉRIO ABUSA, IMPUNEMENTE

 

Verdadeira tragédia é o bloqueio

Para todo país que é punido

Agravando no povo o seu gemido

Pois nenhum dos setores fica alheio

No processo econômico duro freio

Combater tal mazela faz-se urgente

Conclamando  os “debaixo” a ampla frente

Todo o esforço se faz contra a miséria

O BLOQUEIO É ARMA DELETÉRIA

DE QUE O IMPÉRIO ABUSA, IMPUNEMENTE


De efeito similar, outras medidas

O sistema impõe, bem amiúde

Mesmo tendo outros nomes, não ilude

Consequências terríveis, desmedidas

Carreando infortúnel às suas vidas

Sequestrando de povos bens correntes

Descontrole causando àquela gente

Venezuela é exemplo, na matéria

O BLOQUEIO É ARMA DELETÉRIA

DE QUE O IMPÉRIO ABUSA, IMPUNEMENTE



João Pessoa, 16 de dezembro de 2020.


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

HÁ PROFETAS CLAMANDO POR JUSTIÇA SEGUE VIVA DOS POBRES A ESPERANÇA

                        HÁ PROFETAS CLAMANDO POR JUSTIÇA

SEGUE VIVA DOS POBRES A ESPERANÇA


Alder Júlio Ferreira Calado


Reunidos estamos pra louvar

Ao Espírito que opera maravilha

Sua Luz em Comblin tão forte brilha

Testemunha fiel e exemplar

Da América Latina fez seu lar

Junto aos pobres se pondo sem tardança

Ao combate profético bem se lança

As centelhas do Reino ele atiça

Há profetas clamando por justiça

Segue viva dos pobres a esperança


Sobre ele olhares mui diversos

Recuperam histórias tão marcantes

De quarenta, cinqüenta anos antes

Retratá-lo também desejo em verso

Dele ainda há muito ponto imerso

Desse sábio “ice-berg” tão discreto

Não se disse metade do alfabeto

Muitas vozes juntando em mutirão

Nosso esforço já não será em vão

De fazer-lhe um retrato mais completo


Recordando seu tempo de estudante

Lá na Bélgica, sua terra de nascença

Lembra mestres de alma livre, densa

Um dos quais de atitude bem marcante

Era um sábio, seguindo sempre avante

Indo às aulas em sua bicicleta

Cujo exemplo de vida tão completa

Em silêncio, aos simples refletia

E José recolheu com alegria

Como aluno do Reino, e bom atleta.


De sua obra tão vasta produzida

Destacar alguns livros vale a pena

Pela forma incisiva, mas serena

Corresponde do autor à própria vida

O primeiro dos livros nos convida

A seguir de Jesus Ressuscitado

Os sinais pra viver sempre ao seu lado

Abraçando também a sua cruz

Do contrário, a folclore se reduz

O propósito de todo batizado


Outros temas se seguem, sem demora

Como a paz, a justiça, a liberdade

Computar tantas obras, quem há-de?

Traduções se sucedem mundo afora

A polêmica se faz também sonora

Quando enfrenta questões essenciais

Ao lembrar: sem justiça não há paz

Inclusive ao interno da Igreja

Mais partilha entre os membros se deseja

“Impossível”, respondem os curiais.


Lá do ITER estórias contam suas

Das conversas com amigos, boa gente

Pe. Nércio era um desses. Renitente...

Contestado, teimoso, não recua 

´Inda mais, quando estava em sua “lua”

Com Comblin o debate era “feroz’

Pela carga de humor de sua voz

- “Do que eu penso, você não me demove.

De um a cem, eu discordo noventa e nove”...

- “Um por cento ainda resta para nós...”


De virtudes Comblin é um tratado

Nosso Deus cumulou-o fartamente

É profeta e doutor tão competente

Destemido, sereno, humorado

Muda sempre, mantendo sempre o lado

Dos sinais do Espírito é viva antena

Traduzindo o difícil em coisa amena

Defendendo do pobre a primazia

Que o Supremo Valor nos irradia

“Seu critério nos salva ou nos condena”.


Há profetas clamando por justiça

Segue viva dos pobres a esperança

Quem espera, é verdade, sempre alcança

(A não ser que se aposte em prática omissa

Ou se entregue dos ricos à cobiça)

Profetisas, as temos entre nós

E bem alto ressoa a sua voz

Das instâncias de base vem seu grito

Para além do espaço tão restrito

E do tom punitivo dos reinóis...


Zé faz parte de um grande movimento

Como um rio que corre sob um chão

Ao sistema insistindo em dizer “Não!”

Aos sinais do Espírito estando atento

Solidário dos pobres ao lamento

Empunhando do Reino as bandeiras

Produzindo suas obras tão certeiras

Percorrendo esse vasto continente

E formando uma base consistente

Peregrino incansável, sem fronteiras...


João Pessoa, 22 de março de 2003.