quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

A Educação Popular na Universidade: Conquistas e Desafios

A Educação Popular na Universidade: Conquistas e Desafios


Alder Júlio Ferreira Calado*


A produção de saberes constitui uma marca fundamental do processo de humanização, desde tempos imemoriais. Da Ásia (China, Índia, Oriente Médio...), África, civilizações tais como a dos Astecas, dos Maias, dos Incas e, tempos depois, Europa, sucederam-se ou coexistiram múltiplos e diferenciados centros de produção de saberes: populares, filosóficos, artísticos, no campo do sagrado, científico - tecnológicos…

Parece consenso o reconhecimento de que, desde o século XI - e principalmente depois do século XVI - os centros de produção científica, em especial as Universidade, vêm ocupando lugar privilegiado ou exclusivo. A par das Universidades, estes centros se têm dedicado à produção de saberes técnico-científicos, voltados à preparação de quadros profissionais representativos dos interesses dos setores dominantes, secundarizando ou mesmo excluindo de seus espaços estudantes das camadas populares.

Os Estados Modernos aprimoraram esta função desenvolvendo especialmente a produção de saberes científicos, mas sempre na perspectiva de formação dos seus quadros da burguesia dos quais restaram excluídos, os setores populares, mantendo excepcionalmente parcelas insignificantes. Esta é uma marca precípua do Estado, organismo essencial destinado a viabilizar a dominação de uma classe social sobre as demais.

Nessas condições, sócio-históricas, que vêm prevalecendo na organização da vida acadêmica, não há como e por que estranhar-se objetivos e planos aí vigentes. Neste sentido, seguem cumprindo seu papel. Desde a Idade Média, as Universidades se têm prestado aos setores dominantes e dirigentes, o que as torna um espaço proibitivo ou fortemente restritivo ao acesso das camadas populares e em especial das mulheres. As universidades, sendo como eram - e como ainda são, em grande medida! - espaços destinados a prepararem os quadros dirigentes da classe dominante, revelam-se hostis ao protagonismo das classes populares e outros grupos sociais,tais como os quilombolas, os povos originários, as comunidades LGBTQI+.

Nos tempos Modernos, tal como sucedia desde a Antiguidade, o Estado segue sendo um instrumento fundamental, ao lado do Mercado, para viabilização do domínio de uma classe sobre as demais (dos antigos senhores sobre os escravos; dos senhores feudais sobre os servos; da burguesia sobre os trabalhadores e trabalhadoras…). Isto continua, ainda que de forma nuançada, no presente.

Nisto não há surpresa: ontem como hoje o Estado - ao lado do Mercado - segue cumprindo seu papel, inclusive na organização da Cultura e da Educação refém, que é das políticas governamentais (infraestrutura, saúde, transporte, legislação trabalhista, mídia, religião, segurança pública, organização fundiária, produção agrária, papel dos bancos, agronegócio, produção de commodities…). Da Educação Infantil à Pós-Graduação, sejam governamentais ou particulares, as Universidades são organizadas pelo Estado…


Conquistas/desafios; no caso do Brasil


Todavia há de se reconhecer que este modo de organização não se dá de modo linear, mas com idas e voltas, resultante de lutas e concessões que favoreceram aos interesses das camadas populares. Foi isto, por exemplo, o que se deu, mais recentemente, durante os governos Lula (1º e 2º) e Dilma, durante os quais diversas conquistas, inclusive no campo educacional, se registraram. 

No que diz respeito, especificamente, à Educação Popular, numa perspectiva marx-freire-dusseliana, resulta imperioso manter-se vigilante quanto aos limites da Educação Popular na Universidade, sem que se menosprezem suas potencialidades, a depender das circunstâncias histórico-culturais prevalecentes.

Neste sentido, sem negar ou subestimar o papel transformador da Educação Popular na Universidade, em tal contexto, importa ter sempre presentes suas potencialidades e seus limites. Comecemos pelos seus limites. Partindo do entendimento de que a Educação Popular corresponde ao processo de humanização, por conseguinte, do desenvolvimento do ser humano como um todo e de todos os seres humanos, esta Educação Popular supõe a construção processual de condições que permitam o exercício de um conjunto de dimensões - dimensão cósmica, dimensão de espacialidade, das relações sociais do Trabalho, de gênero, de etnia, geracionais, de dimensão econômica, da dimensão política, da dimensao cultural, ética, estética, erótico-afetiva, entre outras. Apostar, com todas as fichas, em que isto seja exequível a contento no atual modo de produção, de consumo e de gestão societal, não parece razoável.

Ao mesmo tempo, até para ousarmos superar o atual sistema, importa começarmos desde já, por meio da Educação Popular, posta em prática, nos limites das atuais possibilidades, ainda que de modo molecular.

A despeito de uma conjuntura sócio-histórica consideravelmente adversa, do ponto de vista das classes populares, no Brasil e em outros países, algumas conquistas merecem destaque. Limitamo-nos aqui a realçar avanços, no campo universitário, da Educação Popular e da Extensão Popular. Mesmo sabendo tratar-se de um espaço em disputa, de consideráveis desvantagens para as classes populares, diversas Universidades Públicas, localizadas nas 5 regiões brasileiras, dentre as quais, nos permitimos, destacar a Universidade Federal da Paraíba que  tem logrado avanços significativos no campo da Educação Popular e da Extensão Popular. 

Há algumas décadas, vêm atuando instâncias significativas nessa área, dentre as quais o NUPPO, Núcleo de Pesquisa e documentação da cultura popularhttps (//ufpb.br/nuppo), o SEAMPO, Serviço de Educação e Assessoria a Movimentos Populares (http://www.prac.ufpb.br/extelar/), a (TCI ) Terapia Comunitária Integrativa (http://www.cchsa.ufpb.br/cchsa/editores/noticias/rodas-de-terapia-comunitaria-integrativa-tci-online-do-ambito-da-ufpb), o NEDET, Núcleo de Extensão em Desenvolvimento Territorial e Agroecologia (https://issuu.com/nedetufpb/docs/_revista_01_ago_21_revis_o_fillipe/8), e aqui ressaltando, a atuação do Extelar - Grupo de Pesquisa em Extensão Popular. 

O EXTELAR, trabalhando em rede com outros grupos de pesquisa, especialmente na área de Educação Popular em Saúde e em Economia Solidária Popular, vem apresentando avanços significativos no campo da pesquisa em Educação Popular e em Extensão Popular. Vasta tem sido a gama de atividades desenvolvidas por este grupo de pesquisa associado a outros com semelhantes objetivos. Diversas publicações protagonizadas por pesquisadores e pesquisadoras do Extelar dão uma amostra da qualidade destes trabalhos. 

A despeito desta e de outras conquistas similares, nunca é demais lembrar os sérios limites de se trabalhar Educação Popular e Extensão Popular no âmbito acadêmico, controlado que é pelo Estado. Mesmo assim, sempre é possível contar com um certo percentual de docentes, pesquisadores e extensionistas, junto com estudantes e membros do corpo técnico-administrativo, empenhados em levar adiante vários projetos de Educação Popular e de Extensão Popular. 

Quanto aos desafios que a conjuntura nos apresenta, destacamos alguns deles. Um primeiro tem a ver com o enfrentamento de uma conjuntura pandêmica, agravada por todo um pandemônio sociopolítico, no Brasil e no mundo. Pandemônio que já dura alguns anos, protagonizado por fortes correntes ultradireitistas, com nítidas marcas neofascistas. Não bastasse o desafio de se trabalhar a educação popular e a extensão popular no campo acadêmico, cumpre acrescentar o peso especial da atual conjuntura sócio-histórica.

Em tempos menos desfavoráveis para os interesses das classes populares, a Educação Popular e a Extensão Popular já contariam com adversidades significativas. Uma das razões para lhe dar-se com Educação Popular nas Universidades - especialmente as Universidades mantidas pelo Estado, por lidarem com mais nitidez, com o entrelaçamento desejável entre docência, pesquisa e extensão. Sendo, como são, as Universidades, governamentais ou particulares controladas pelo Estado, parceiro orgânico do Mercado, dificilmente se pode apostar todas as fichas no trabalho da Educação Popular e da Extensão Popular, visando certa hegemonia. Com efeito, quando trabalhamos com Educação Popular, numa perspectiva marx-freire-dulceliana, parece uma tarefa complexa por em prática marcas relevantes de uma Educação Popular, que tome como prioridade balizas tais como: uma dimensão cósmica, uma dimensão ecológica, uma dimensão espacial, uma dimensão econômica, uma dimensão política, uma dimensão cultural, um trabalho a partir das relações com o sagrado, com a ética, com a estética, com a dimensão erótico-afetiva, com a dimensão das relações sociais de gênero, de étnia, de gerações, a dimensão do trabalho, entre outras. Neste sentido, importa igualmente reconhecer nos movimentos sociais populares aquele sujeito histórico mais apropriado para dar conta destes desafios. Referimo-nos, especialmente, aos movimentos sociais-populares e, particularmente, aqueles que trabalham com uma perspectiva de construção societal alternativa ao modo de produção, de consumo e de gestão societal dominante.

A despeito deste desafio, importa lembrar que estas dimensões já vêm sendo trabalhadas no chão do cotidiano das classes populares e dos movimentos sociais populares, ainda que de modo molecular. Com efeito, podemos observar, nas correntezas subterrâneas, diversas experiências de alternatividade que se acham em curso. Como exemplos ilustrativos, podemos citar as associações que compõem a ASA (Articulação do Semi-Árido), a qual se acham vinculadas dezenas de entidades comunitárias e de movimentos populares. Na esteira deste evento, podemos destacar como experiências inovadoras o empenho de vários desses grupos e comunidades em criar alternativas de convivência do Semi-Árido. Diversas são as tecnologias alternativas que vêm sendo utilizadas, nesta direção. É, também, o caso de muitas experiências de caráter agroecológico, bem como de catadores e catadoras de resíduos sólidos, coletivos feministas, de experiências inovadoras protagonizadas por movimentos populares ligados aos povos originários, das florestas, das águas, bem como por diversas comunidades quilombolas. 


Exemplos ilustrativos de tais conquistas/desafios

Educação Popular na Universidade é, sim, possível e necessária. São múltiplos os exemplos que podem ser enumerados, no Nordeste, ao longo do país, da América Latina e do mundo. Por outro lado, é prudente não superestimar o lugar da Educação Popular e da Extensão Popular no campo das relações universitárias. Se isto é um horizonte auspicioso testemunhado por docentes, discentes e técnicos administrativos, por outro lado, convém não esquecer que estes correspondem a um percentual simbólico, ainda longe de caracterizar as ações hegemônicas vivenciadas no campo acadêmico. 

Outro aspecto importante a enfrentar, tem a ver com o misto de conquistas e desafios, apresentado por algumas experiências exitosas, no plano da educação popular e da extensão popular, vivenciadas pela Inar Universidade. Aqui nos limitaremos a alguns desses desafios com um misto de conquistas. Ainda nos anos 90, experiências de educação popular e de extensão popular eram vivenciadas no campo acadêmico, em relação com as escolas públicas, com alguns movimentos populares e pastorais sociais e até com alguma referência sindical, a exemplo do conhecido e apreciado projeto Zé Peão, em uma fecunda parceria com os trabalhadores da construção civil, junto aos quais dessas experiências eram compartilhada, principalmente com os trabalhadores da construção civil em processo de letramento ou de alfabetização. Nos prédios em construção, reuniam-se regularmente dezenas de trabalhadores, à noite, acompanhados e orientados por professores e professoras da UFPB, membros do projeto Zé Peão. Experiência que tem atravessado décadas. Ainda neste campo, entre educação popular e extensão popular, também nos anos 90 e anos seguintes, alguns professores da UFPB, ainda quando os laços institucionais relativos às experiências de extensão popular eram bastante vagos, trabalhos de formação eram realizados, principalmente em Serra Redonda, com estudantes provenientes das pastorais de juventude e outras, com o objetivo de vivenciarem um processo formativo, do qual faziam parte estudos de realidade social, de psicologia, de dinâmica de grupo, além de outros temas relativos à formação cristão, dada a pertença de vários desses membros, ao campo das pastorais sociais. A Fundação Dom José Maria Pires, sediada no antigo Centro de Formação Missionária, em Serra Redonda, organizava essas experiências a partir de finais dos anos 90 e vários anos no correr dos anos 2000. 

Mais recentemente, em confluência com movimentos sociais populares do campo e algumas pastorais sociais, trabalhos de extensão vêm sendo realizados. Por meio de ofertas de cursos de formação, de reflexões sobre uma diversidade temática, compreendendo análise de conjuntura, educação popular, em saúde, agroecologia, direitos humanos, educação em saúde popular, economia solidária popular, trabalhos em conjunto com povos originários da região (potiguaras e tabajaras), trabalhos de educação popular e de extensão popular com os camponeses e camponesas da região do Vale de Mamanguape constituem exemplos ilustrativos de experiências fecundas realizadas em parceria entre a UFPB e comunidades de  povos originários, comunidades quilombolas, camponeses da região, pastorais sociais, a exemplo da CPT, com suas enriquecedoras feiras agroecológicas , testemunham um trabalho fecundo e desafiante da UFPB com vários setores da sociedade civil paraibana. 

Entendemos tratar-se de experiências que entendemos como conquistas, mas também como desafios. Como conquistas, pelo fato de representarem avanços consideráveis na parceria entre uma universidade pública - ufpb- e diversas organizações de base de nossa sociedade. Parceria feita com sujeitos históricos relevantes, a exemplo de vários movimentos populares, tais como o MST, o MPA, o movimento das comunidades populares, pastorais sociais do Campo, parceria com os povos originários da região, com as comunidades quilombolas, com os trabalhadores e trabalhadoras do campo, tendo a educação do campo como um horizonte de referência voltado para a educação popular e para a extensão popular. 

Consideramos também, tais experiências como desafios, à medida que, não obstante seus ganhos de qualidade, ainda se desenvolvem em um ritmo, aquém do desejável, seja por conta dos limites institucionais - a universidade, como antes mencionado,  é um campo de disputa, não tão favorável à classes populares - , seja pelo fato de que, como uma instituição organizada e controlada pelo estado, as potencialidades tornam-se aquém do que se deseja. Além disso, cumpre destacar, nestes últimos anos, numa conjuntura, multiplamente adversa, sobretudo a partir do golpe híbrido nos governos populares, situação agravada, pelo pandemônio do desgoverno Bolsonaro, bem como pelas graves consequências da pandemia. Aqui focamos, com mais ênfase, os trabalhos protagonizados pela UFPB, por tratar-se de uma universidade que acompanhamos com mais frequência e da qual temos mais registros, mas, cumpre lembrar que, junto com a UFPB, várias outras universidades, em diversas regiões do país, a exemplo da universidade de Goiás, também propiciam experiências de educação popular e de extensão popular, de grande alcance. 

Educação Popular na Universidade constitui um desafio a ser enfrentado, com lucidez, com coragem e com audácia, por um percentual ainda simbólico do conjunto de sujeitos da Universidade, mas, de todo modo, resta o convite a que, ano após ano, mais gente se incorpore a estas práticas de Educação Popular, no âmbito da Universidade. Para tanto, cumpre inovar dia após dia, as formas de trabalho, de tal modo que, seja no planejamento, seja na vivência dos componentes curriculares, seja nas atividades de pesquisa e de extensão, seja ainda na capacidade de interagir com os movimentos sociais populares e outras organizações de base de nossa sociedade, vamos conseguindo imprimir ritmos promissores, nesta perspectiva, de tal sorte que, o que representava o “Trivium” Medieval (a lógica, trabalhada como instrumento do bem-pensar; a gramática, instrumento trabalhado como a arte do bem-escrever; e a retórica, instrumento para se trabalhar melhor o falar, o comunicar) e o "Quadrivium" (a aritmética, a geometria, a astronomia e a música), base-curricular dos inícios da Universidade, se convertam, no campo da Educação Popular, em novos componentes curriculares, em que ênfase seja dada não tanto ao “bem-pensar” (a lógica), não tanto ao bem-escrever (gramática), não tanto ao discurso-rebuscado (a retórica), mas a enfatizar-se a Práxis, a Ortopraxia, a ousadia de transformar o mundo, quanto ao modo de produção, ao modo de consumo e ao modo de gestão societal, alternativos a toda sociedade de classes, e em harmonia com o planeta, de modo a tomar estas balizas como fundamento teórico-prático da atuação da Educação Popular e da Extensão Popular. 

Importa, não menos, ter presente que estes esforços devem ser compartilhados para além de cada país, para além da América Latina, sempre em conexão com outros tantos movimentos e iniciativas similares que se dão no mundo inteiro.


João Pessoa, 13 de novembro de 2021


*Alder Júlio Ferreira Calado Nordestino, de Pesqueira - PE, terra dos Xukurus, povo do qual se sente, ele próprio, um Xukuru desaldeado. Trabalhador na área da Realidade Social e da Educação Popular. Desde meados dos anos 60, vem acompanhando, como um aprendiz, como militante e como pesquisador, os Movimentos Sociais Populares, especialmente no Nordeste. Como pesquisador e membro do Centro Paulo Freire, de Pernambuco, tem priorizado estudos inter-transdisciplinares, na perspectiva de um novo modo de produção, de consumo e de gestão societal. É autor de vários livros, é assíduo no blog textosdealdercalado.blogspot.com .


PS: Este texto corresponde à transcrição (por conta das condições de vista do autor) de sua exposição a título de síntese, do tema que lhe foi proposto, por ocasião do VIII Seminário Internacional Universidade e Educação Popular. 



sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

FORMADOR QUE SE PREZE, NUNCA CESSA / DE FAZER FORMAÇÃO CONTINUADA

 FORMADOR QUE SE PREZE, NUNCA CESSA 

DE FAZER FORMAÇÃO CONTINUADA


Alder Júlio Ferreira Calado


Ensaiando intervir, no dia a dia

Compartilho meus achados de dezembro


Centenário ditoso, o celebrado

Do legado fecundo de Paulo Freire

https://www.cepe.com.br/noticias/cepe-anuncia-lancamentos-de-livros-em-homenagem-a-paulo-freire


Bem frutíferas as obras de CEDHOR

Santa Rita agradece os seus agentes

https://www.fundobrasil.org.br/projeto/centro-de-defesa-dos-direitos-humanos-dom-oscar-romero-cedhor-paraiba/


“Novo jeito de toda Igreja ser”

Clamam as CEBs também na Paraíba

https://cebsdobrasil.com.br/articulacao-continental-das-comunidades-eclesiais-de-base-o-que-e/


O sistema bancário brasileiro

É o antro de assaltantes mais perversos 


Karl Marx é autor contemporâneo 

Mais que ontem ele segue atual

https://www.youtube.com/watch?v=m_3jJwJ2cK8


O jaleco foi rasgado por Queiroga

Pois traiu do Ofício o juramento


O setor financista faz rapina

E mantém-se impune e agraciado


Se era péssima a fama militar

Desgoverno Bolsonaro a fez mais grave


A tragédia Bolsonaro tem por trás

O Partido Militar que o pariu


Biografia de Marx, em família

Nos dá conta de sua humanidade

https://diplomatique.org.br/review/amor-e-capital-a-saga-familiar-de-karl-marx-e-a-historia-de-uma-revolucao/


Erro crasso manter impunemente

Militares que traem nosso país


O Império trafica  mão de obra 

E acusa a China de exploração


Inimigo do povo é a burguesia

Do Partido Militar são sempre os pobres


Ladislau põe a nu os mil trambiques

Da barbárie financista, contra nós

https://dowbor.org/

https://www.youtube.com/watch?v=hUZpxPoWgFo


Contundentes indícios contra Moro

TCU investiga, com cuidado…


A memória é caminho libertário

Pra quem tem compromisso com os pobres


A amnésia é caminho suicida

Que induziu a barbárie Bolsonaro…


Eu os convido a rever Documentário

Sobre os males perversos da ditadura






João Pessoa, 31 de dezembro de 2021






terça-feira, 21 de dezembro de 2021

SABER BEM É SABER DESDE A RAIZ CAPITAL É A RAIZ DOS GRANDES MALES

 SABER BEM É SABER DESDE A RAIZ

CAPITAL É A RAIZ DOS GRANDES MALES



ALDER JÚLIO FERREIRA CALADO



As conquistas na Lei são parciais!

Quem garante direitos? Povo na rua!


O Império sequestrou Democracia

É urgente reavê-la, dia a dia


Inflação galopeia contra a gente

E, impune, Guedes ganha no “paraíso”…


Mídia hipócrita se quer imparcial

Desnudá-la é preciso toda hora


O Império só promove ditaduras

A imprensa burguesa é porta-voz


J. Assange é punido pelo Império

Põe à mostra as vísceras do sistema

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/estados-unidos-ganham-apelacao-para-extradicao-de-julian-assange/


A imprensa burguesa oculta fatos

Se os divulga, impõe sua versão


Se era péssima, mais grave hoje é

Confiança do povo em generais


Só na força mais bruta se sustentam

Da razão e da moral estão distantes


Quanto mais se declaram patriotas

Mais e mais se aproximam do Império

Se fez bem em punir grandes corruptos

Lava-jato destruiu a economia

https://www.expressaopopular.com.br/loja/produto/operacao-lava-jato-crime-devastacao-economica-e-perseguicao-politica/


A pretexto de extinguir corrupção

Despejou o bebê com água suja


O Império faz guerra, não quer paz

U$800 bilhões pra isto emprega

https://www.poder360.com.br/internacional/senado-dos-eua-aprova-orcamento-de-us-768-bilhoes-para-defesa-em-2022/ 


A quem serve hackear os dados públicos?

Pra que serve a ABIN, neste sentido?

https://mundoconectado.com.br/noticias/v/22093/site-do-ministerio-da-saude-e-hackeado-conectesus-e-dados-sobre-vacinas-fora-do-ar


Um desastre no Haiti foi o Brasil

Sob as ordens de Heleno contra os pobres…


Sob efeito anestésico (?), faz narrativas

Que desbordam o real, cai no ridículo

https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2021/12/15/general-heleno-afronta-o-stf-mas-nao-canta-mais-se-gritar-pegar-centrao.htm


Quem ubica na força seus projetos

Só semeia a barbárie, a irrazão…


Incontável, a frequencia de delitos 

Que, impune, comete o presidente 


Bolsonaro se mostra réu confesso

General esbraveja STF

https://www.poder360.com.br/governo/bolsonaro-diz-que-ripou-iphan-apos-interdicao-de-obra-da-havan-de-hang/ 


Decisão acertada toma a ANVISA

O Ministro recusa-se a cumprir…


Ocidente tortura J. Assange

Por seus feitos em prol da humanidade

https://apublica.org/2020/02/relator-da-onu-o-caso-de-julian-assange-e-um-enorme-escandalo-se-ele-for-condenado-sera-uma-sentenca-de-morte-para-a-liberdade-de-imprensa/ 


No estéril deserto do Império

Só vicejam a tortura e a barbárie


Quem votou no necrófilo presidente

Tem o dever de seu erro reparar


Faz “apenas” quinhentos e dez anos

Do profético sermão de Montesinos


A notícia necrófila mais recente:

Guedes visa roubar FGTS


Um tributo merece V. Delgaltti:

Pôs à mostra quem são Moro e Dallagnol


Em Washington, aluguel de Sérgio Moro

Mensalmente, cinquenta mil reais…


No desmonte de empresas brasileiras

Lava-jato conchavou com o Império


J. Assange e Delgatti são heróis

Ante os alvos da mentira do Império


Viva o Chile com Boric! Parabéns!

Sua vitória é derrota pro nazismo…


M. Queiroga, traindo o juramento

Só renega a ciência e apoia atraso


Se o povo faz fila atrás de osso

Burguesia superlucra, em pandemia


O Ocidente cristão se quer “mocinho”

O terror espalhando em todo o mundo…


Descobrindo raízes mais profundas

De Francisco de Assis e seu legado

(ler livro de Ignácio Larrañaga, “O irmão de Assis”, de 1998)


A América Latina, pouco a pouco

Se refaz dos golpismos da Direita


Como tantos, Francisco é mal contado:

Prevalecem as versões angelicais…


É do Papa Francisco o aniversário:

Seus benditos oitenta e cinco anos


Há pessoas das quais não aprecio

A distância entre o ser e o parecer


Legalistas extremas nos detalhes

São devassas em pontos axiais 


Uma parte de quem diz ser Freireano

Só se nutre de interesses terciários


Ultrajante a sequência de delitos

Que, impune, pratica o presidente


Arthur Lira, parceiro de Bolsonaro

Com o silente PGR a seu favor 


A Justiça britânica, qual pirata

Vem retendo o ouro da Venezuela


Maioria congressista assalta o erário 

Com o "orçamento oculto", faz a farra


Orçamento em tempo eleitoral

Vira “festa”... às favas a República!


João Pessoa, 21 de dezembro de 2021






sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

IV DOMINGO DO ADVENTO DE 1511: TRIBUTO A FREI ANTONIO MONTESINOS

 IV DOMINGO DO ADVENTO DE 1511: TRIBUTO A FREI ANTONIO MONTESINOS


ALDER JÚLIO FERREIRA CALADO


Como outros períodos da História, também a Modernidade se acha impregnada de luzes e trevas. Ao lado de valores tais como o da emancipação humana frente à teocracia, a cultura do absolutismo e dos avanços científico-tecnológicos, também se fizeram presentes valores tenebrosos, como o do processo de colonização das gentes do continente americano, em especial, os povos originários e, em seguida, de significativos contingentes do continente africano aqui escravizados.

Nascia o famigerado “pacto colonial”, aliança macabra entre as metrópoles colonialistas e a Igreja, em que a espada (poder temporal) e a cruz (poder eclesiástico) vieram de braços dados, para conquistar as terras, as gentes e suas riquezas, ricas experiências com a natureza e com o Sagrado.

A cruel experiência iniciada na atual República Dominicana, nas primeiras décadas de 1500, prosseguiu e se agravou enormemente, durante os séculos vindouros, seja no México (Astecas, Maias), seja na América Central, seja na América do Sul (especialmente, no Peru, contra os Incas, seja na Bolívia, no Paraguai, no Chile, no Brasil...). Tratou-se, além de trabalhos forçados e escravização em massa nas minas e nos canaviais,  de um genocídio de populações indígenas, estimado em mais de 70 milhões, dos quais 8 milhões nas minas de Potosí-Bolívia, algo muito superior ao famigerado Holocausto da II Guerra Mundial.

É neste contexto que aporta à “Santo Domingo” - atual República Dominicana - um grupo de missionários dominicanos, entre os quais, o rei Pedro de Córdoba, coordenador do grupo, Frei Antônio Montesinos, figura referencial destas linhas.

Se é verdade que sua “missão” nestas novas terras e em meio a estas novas gentes, consistia de acordo com o Pacto Colonial, em "cristianizar" os “infiéis”, não menos certo é que a vivência concreta dos dominicanos, diante deste pacto, provocou profunda reviravolta de sua postura frente àquele massacre aos povos indígenas.

  Por mais obedientes que pudessem ser as autoridades eclesiásticas e reais, bem mais lhes falou o Evangelho.

Quem sabe, não os tenha tocado profundamente aquela passagem extraída do Livro dos Atos dos Apóstolos: "É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!” ? O fato é que, revoltados com os maus tratos, a inclemência, os castigos infligidos aos nativos, a imposição de trabalhos forçados, a mais cruel escravidão, a invasão de suas terras, de seus bens, a avidez de conquista do ouro e da prata, o desrespeito às crenças desses povos - tudo isto os levou a romperem com o “pacto colonial”.

Em consequência, trataram aqueles dominicanos de denunciar aqueles graves crimes, por meio de uma homilia. Elegeram seu confrade Antonio Montesinos para proferir aquela homilia, justamente no IV domingo de advento, mais precisamente em 21 de dezembro de 1511.

Chegado o dia, Frei Antonio Montesinos se põe no púlpito e começa a fazer graves denúncias das autoridades daquela ilha, acusando-os de estarem em pecado mortal. Na homilia Frei Antonio Montesinos enumerou vários exemplos concretos de maus tratos sofridos pelos nativos, em oposição frontal ao espírito do evangelho. 

Terminada a Missa, as mais altas autoridades daquela ilha dirigiram-se à casa dos frades dominicanos, e, atendidos pelo seu prior Frei Pedro de Cordoba, despejaram-lhe toda sorte de queixas contra Frei Antônio Montesinos, exigindo a presença deste. Reivindicavam do frade pregador sua retratação, no mesmo púlpito, no domingo seguinte. Tanto Frei Pedro, quanto Frei Antonio comprometeram-se a voltar ao tema, no domingo seguinte.

No entanto, ao retornar ao púlpito no domingo seguinte, como combinado, Frei Antonio Montesinos não apenas manteve todas as acusações feitas no domingo precedente, como empenhou-se em detalhá-las mais profundamente.

Graças aos escritos de Frei Bartolomeu de las Casas, desde a Espanha, temos o registro ou relato destas duas homilias, que fazemos questão de transcrever, nas linhas que seguem:


“SERMÃO PROFÉTICO DO DOMINICANO ANTÔNIO MONTESINOS EM DEFESA DOS ÍNDIOS 

Os primeiros dominicanos chegaram em 1510 à ilha Espanhola. Até fins de 1511 tinham chegado três grupos de dominicanos em Santo Domingo e a comunidade local compreendia 18 frades. A prática missionária de um só ano foi suficiente para reconhecerem que o maior obstáculo para conversão e catequese dos índios não era sua idolatria, mas a injustiça praticada contra eles. Não o índio pagão, mas o colonizador cristão estava em pecado mortal. Naquele memorável 4°. Domingo de Advento, os dominicanos convidaram o governador Diego Colombo, os oficiais do Rei e os juristas letrados para a sua Igrejinha de palha. Montesinos era apenas porta-voz de sua comunidade religiosa que em conjunto tinha preparado e assumido o sermão e suas conseqüências. Santo Domingo, 4° Domingo de Advento, 1511 Tendo chegado o domingo e a hora de pregar, subiu a púlpito o sobredito padre Frei Antônio Montesinos, tendo como tema e fundamento de seu sermão, que já levava escrito e assinado pelos demais: Ego vox clamantis in deserto. Tendo feito sua introdução e dito algo referente à matéria do tempo do advento, começou a exaltar a esterilidade do deserto das consciências dos espanhóis desta ilha e a cegueira em que viviam; o grande perigo que corriam de sua condenação, não dando atenção aos pecados gravíssimos em que com tanta insensibilidade estavam continuamente mergulhados e neles morriam. Em seguida volta a seu tema, falando assim: "Para vo-lo dar a conhecer, subi aqui, eu que sou voz de Cristo no deserto desta ilha, e por isso convém que com atenção, não qualquer, mas com todo o vosso coração e com todos os vossos sentidos, a ouçais; a qual será a maior nova que jamais ouvistes, a mais áspera e dura, a mais espantosa e perigosa que jamais imaginastes ouvir". Exaltou esta voz por um bom tempo com palavras muito pungentes e terríveis, que lhes fazia estremecer as carnes e que lhes parecia que já estavam no juízo divino. Explicou-lhes qual era e qual o conteúdo daquela voz, de maneira tão grande e universalmente encarecida: "Esta voz, disse ele, é que todos estais em pecado mortal e nele viveis e morreis por causa da crueldade e tirania que usais com estas gentes inocentes. Dizei, com que direito e com que justiça tendes em tão cruel e horrível servidão estes índios? Com que autoridade tendes feito tão detestáveis guerras a estas gentes que estavam em suas terras mansas e pacíficas, onde tão infinitas delas, com mortes e estragos nunca ouvidos, tendes consumido? Como os tendes tão oprimidos e fatigados, sem lhes dar de comer nem curá-los em suas enfermidades em que incorrem pelos excessivos trabalhos que lhes dais e morrem, dizendo melhor, os matais, para tirar e adquirir ouro cada dia? E que cuidado tendes de que alguém os doutrine, conheçam seu Deus e criador, sejam batizados, ouçam missa, guardem as festas e domingos?" "Eles não são homens? Não têm almas racionais? Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos? Não entendeis isto? Não percebeis isto? Como estais dormindo sono tão profundo e tão letárgico? Tende certeza que no estado em que estais não vos podeis salvar mais do que os mouros ou turcos que não têm e não querem a fé de Jesus Cristo". Finalmente, de tal maneira explicou a voz que antes muito exaltara que os deixou atônitos,  muitos como que fora dos sentidos, outros mais empedernidos e alguns um tanto compungidos, mas nenhum, pelo que verifiquei depois, convertido. Concluído seu sermão, desce do púlpito com a cabeça não muito baixa, porque não era homem que quisesse mostrar temor, assim como não o tinha, nem se preocupava muito por desagradar os ouvintes, fazendo e dizendo o que segundo Deus lhe parecia conveniente. Com seu companheiro vai a sua casa de palha onde talvez não tivesse o que comer senão sopa de couve sem azeite, como algumas vezes lhes acontecia. Tendo saído, a igreja encheu-se de murmúrio, que, segundo creio, mal deixaram acabar a missa. Pode-se bem imaginar que não foi lido leitura do Menosprecio del mundo às mesas de todos naquele dia. Tendo acabado de comer, não devendo ter sido muito gostosa a comida, reúne-se toda a cidade na casa do Almirante, segundo nesta dignidade e ofício real, D. Diego Colombo, filho do primeiro que descobriu estas índias, especialmente os funcionários do rei, tesoureiro e contador, feitor e vedor, e concordam em ir repreender e assustar o pregador e os outros, que o castigavam como homem escandaloso, semeador de doutrina nova, nunca ouvida, condenando todos, e que tinha falado contra o rei e seu domínio que tinha nestas índias, afirmando que não podiam ter os índios, tendo eles sido dados pelo rei, e estas eram coisas gravíssimas e irremissíveis. Chamam à portaria, o porteiro abre, dizem-lhe que chame o vigário e aquele frade que tinha pregado tão grandes desvarios; sai só o vigário, padre venerável, Frei Pedro de Córdoba; dizem-lhe com mais autoridade do que humildade que mande chamar o que tinha pregado. Responde, pois era prudentíssimo, que não havia necessidade, que se sua senhoria e mercês mandavam algo, ele era prelado daqueles religiosos e ele responderia. Insistem muito com ele para o mandar chamar; ele, com grande prudência e autoridade, com palavras muito modestas e graves, como era seu costume falar, se escusava e desviava. Finalmente, porque era dotado pela divina Providência, entre outras virtudes naturais e adquiridas era pessoa tão venerável e tão religiosa que com sua presença mostrava ser digno de toda reverência. Vendo o Almirante e os demais que com argumentos e palavras muito autoritários o padre vigário não se convencia, começaram a abrandar, humilhando-se, e lhe pedem que o mande chamar porque lhe querem falar estando presente e perguntar como e em que se fundamentavam para se decidir a pregar uma coisa tão nova e tão prejudicial, em desserviço do Rei e dano de todos os habitantes daquela cidade e de toda esta ilha. Vendo o santo varão que iam por outro caminho e que moderavam o brio com que tinham chegado, mandou chamar o dito padre frei Antônio Montesinos. Maldito o medo com que veio. Sentados todos, o Almirante primeiro propõe por si e por todos sua questão, dizendo que, tendo aquele padre sido ousado em pregar coisas em tão grande desserviço do rei e dano de toda aquela terra, afirmando que não podiam ter os índios, tendo eles sido dados pelo rei, que era senhor de todas estas índias, especialmente tendo os espanhóis conseguido aquelas ilhas com muitos trabalhos e subjugado os infiéis que as tinham; e porque aquele sermão tinha sido tão escandaloso e em tão grande desserviço do rei e prejudicial a todos os habitantes desta ilha, que determinassem que aquele padre se retratasse de tudo o que tinha dito; caso não o fizesse, eles poriam o remédio que fosse conveniente. O padre vigário respondeu que o que aquele padre tinha pregado fora parecer, vontade e consentimento seu e de todos, depois de muito bem examinado e conferido entre eles, e com muito conselho e madura deliberação se tinha decidido que fosse pregado como verdade evangélica e coisa necessária para a salvação de todos os espanhóis e dos índios  desta ilha, os quais viam perecer cada dia, sem ter deles mais cuidado do que se fossem animais do campo; eram obrigados a isso por preceito divino em primeiro lugar pela profissão que tinham feito no batismo como cristãos e depois por serem frades pregadores da verdade; achavam que nisso não estavam desservindo ao rei, que para cá os tinha enviado para pregar o que achassem que era necessário pregar às almas, para o servirem com toda fidelidade, e que tinham certeza que, se Sua Alteza fosse bem informado a respeito do que aqui acontecia e o que sobre isso eles tinham pregado, se consideraria bem servido e lhes daria as graças. Foi de pouco proveito a fala e os argumentos dela que o santo homem apresentou em justificação do sermão para satisfazê-los e aplacá-los da alteração que tinham recebido ao ouvir que não podiam ter índios, como os tinham tiranizados, porque aquele não era caminho para que sua cobiça se fartasse; porque, tirados os índios, ficavam defraudados de todos os seus desejos e aspirações; e assim, cada um dos que estavam ali, mormente os principais, dizia, dirigido ao propósito, o que desejava. Todos concordavam que aquele padre se retratasse no domingo seguinte do que tinha pregado e chegaram a tanta cegueira que lhes disseram que, se não o fizesse, preparasse suas tralhas para embarcar e ir para Espanha. O padre vigário respondeu: "Certamente, senhores, nisso teremos muito pouco trabalho". E era certamente assim porque suas coisas não eram senão os hábitos de tecido grosseiro e muito tosco que vestiam, e umas mantas do mesmo tecido com que se cobriam de noite; as camas eram umas varas colocadas sobre forquilhas que chamam cadalechos; e sobre elas alguns feixes de palha; e o que era usado para a missa e alguns livros, podendo talvez caber tudo em duas arcas. Vendo em quão pouco os servos de Deus tinham todas as espécies de ameaças que lhes faziam, tomaram a abrandar, como que pedindo-lhes que tomassem a examinar o assunto e, bem examinado, fosse moderado em outro sermão a ser dito para satisfazer o povo que ficara e estava sobremaneira escandalizado. Finalmente, insistindo muito em que fosse moderado o que fora pregado no primeiro sermão e o povo sossegado, concederam os padres, para se despedir deles e dar fim a suas frívolas importunações, que fosse assim em boa hora, que o mesmo padre frei Antônio Montesinos tomaria no domingo seguinte a pregar e voltaria ao assunto e diria, sobre o que tinha pregado, o que melhor lhe parecesse e, na medida do possível, se esforçaria em os satisfazer e tudo o que foi dito fosse explicado. Tendo combinado isto, foram embora alegres com esta esperança. Eles, ou alguns deles, logo publicaram que tinham combinado com o vigário e os outros frades que no domingo seguinte aquele frade havia de se desdizer de tudo o que tinha dito; e não foi preciso convidá-los para ouvir aquele segundo sermão, porque não havia uma única pessoa em toda a cidade que não se encontrasse na igreja, convidando uns aos outros para que fossem ouvir aquele frade, que havia de desdizer tudo o que tinha dito no domingo passado. Chegada a hora do sermão, tendo subido ao púlpito, o tema para fundamento de sua retratação e desmentido foi uma sentença do Santo Jó, no cap. 36, que começa: Repetam scientiam meam a principio et sermones meos sine mendatio esse probabo: ''Tomarei a referir desde seu princípio minha ciência e verdade, que no domingo passado vos preguei e aquelas minhas palavras, que tanto vos amarguraram, mostrarei serem verdadeiras". Tendo ouvido seu tema, os mais avisados imediatamente perceberam onde ia parar, e foi muito sofrimento deixá-Io continuar. Começou a fundamentar seu sermão e a relatar tudo o que no sermão passado tinha pregado e a corroborar com mais argumentos e autoridade o que afirmou de ter injusta e tiranicamente aquelas pessoas oprimidas e fatiga das, tomando a repetir sua ciência, que tivessem como certo não poderem se salvar naquele estado; por isso se remediassem com o tempo, fazendo-os saber que a nenhum deles confessariam, mais do que aos que andavam assaltando, e que comunicassem aquilo e escrevessem a quem quisessem para Castela; em tudo isso tinham certeza que serviam a Deus e não pequeno serviço faziam ao Rei. Acabado o sermão, foi para sua casa, e todo o povo na igreja ficou alvoroçado, grunhindo e muito pior do que antes indignado contra os frades, considerando-se, da vã e iníqua esperança que tiveram de que o dito frade se retrataria, defraudados, como se o frade não se retratasse, a lei de Deus, contra a qual eles agiam oprimindo e extirpando estas pessoas, tivesse mudado. fonte impressa: LAS CASAS, Bartolomé de. Historia de las Indias (1559). Madrid, 1875/1876 , liv. 3, cap. 4 e 5. SUESS, Paulo (org.). A Conquista Espiritual da América Espanhola. 200 documentos – Século XVI. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 407 – 411.”


https://www.youtube.com/watch?v=EpM6FjQGylg 


EM MEMÓRIA DE ANTONIO MONTESINOS

EM DEFESA DAS VÍTIMAS DA COLÔNIA


ALDER JÚLIO FERREIRA CALADO


Quem me inspira esta data aniversária

Que incide também no Advento?

De memória fazer segue o intento

De quem foi convertido em mero pária

Das figuras dantescas, sanguinárias

A pilhar as riquezas dessas gentes

Reduzindo a escravas cruelmente

E em nome do deus dos Espanhóis

Através de estratégia a mais feroz

Implantando o terror em corpo e mente


Faz quarenta mil anos - até mais

Que nativos habitam o continente

Aí vivendo em paz harmonicamente

E quinhentos também, da invasão faz

De europeus que de ouro, vêm atrás

Seu legado, porém, é homicida

Escravizam os nativos, lhes tiram a vida

Do que diz o Evangelho, faz o contrário

O seu crime é horrendo, faz um calvário

Espalharam o mal, são ecocidas.


Foi no quarto Domingo do Advento

Na República atual Dominicana

Que episódio exemplar daí emana

Mil e quinhentos e onze não é isento

Da homilia profética - um monumento

Proferida por Antonio de Montesinos

Dominicano valente, profeta fino

Acusando homicidas da elite

Desumanos cristãos não admite 

Muito longe ecoou aquele sino…


Nestas terras, nas águas, nas florestas

Nossas gentes viviam o “bem-viver”

Sem no ouro ou na prata os olhos ter

O seu modo de viver bem o atesta

Muito antes da saga indigesta

A feliz relação com o Ambiente

Com ele agindo, de modo permanente

A cultura, a fé nos ancestrais

Nos faziam viver clima de paz

Tudo altera, a invasão dos inclementes…


Vindo em busca de riquezas, ouro e prata

Espanhóis desbravando o Oceano

E em La Española, chegam insanos

Abordando os nativos - forma, ingrata

Esta gente invasora, então, destrata

“Requerimiento” lê pra eles, em Latim

A invasão colonial se deu assim

Documento dizia do Rei a Terra

As riquezas também ele encerra

Os nativos tiveram triste fim


Diz o rei, “Doravante”, tudo isto é meu

Doravante, povos, terras, são colonos

É lei minha, esta lei não abandono

E os Índios tornando escravos seus

Adorando, inclusive, o mesmo deus

Todo o mundo servindo, submisso

Isto é meu e eu firmo um compromisso

Mas, os povos indígenas dizem não

Resistindo, o tempo todo lutarão

Até hoje, Índio enfrenta tudo isso.


Caravelas, canhões, armas letais

Militares, na praia, desembarcando

Atendendo às ordens do comando

Dos nativos se apossam mais e mais

E roubando, de vez, a sua paz

Em atitude de guerra, invadem tudo

Os nativos, porém, não ficam mudos

Como podem, resistem, São contidos

Preferindo ao seu Deus prestar ouvidos

Seu projeto tinha este conteúdo


E se pondo no púlpito, assim diz:

Ó, vós todos, ouvi-me atentamente

Coisa igual nunca ouvistes precedente

O que vós praticais, neste país

Contra as gentes daqui vos insurgis?

Vós tratais essas gentes como escravos

Espancais, explorais, seus jovens bravos

Às piores condições os reduzis

Tudo em nome do ouro, dos rubis

E de fome os matais, sem desagravo


João Pessoa, 17 de dezembro de 2021.