quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Grito dos Excluídos e Excluídas/ 2023: Promover a vida e a libertação

Grito dos Excluídos e Excluídas/ 2023: Promover a vida e a libertação 


Alder Júlio Ferreira Calado


Em todo o Brasil, especialmente nas principais cidades, têm lugar, no próximo dia 07/09, a 29ª edição do Grito dos excluídos e excluídas, expressão prática que tem sua origem nas Semanas Sociais organizadas pela CNBB, entre 1993 e 1994. Desde 1995, o Grito dos excluídos e excluídas vem acontecendo, protagonizado, no início pela CNBB, bem como por outras Igrejas cristãs componentes do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic) e, em seguida, também por diversas organizações de base de nossa sociedades civil (Associações, Sindicatos de Trabalhadores, Movimentos Populares…). 


O tema desta 29ª Edição do Grito dos excluídos e excluídas é “A Vida em Primeiro Lugar” com sub-tema questionando: “Você tem fome e sede de quê?” inspirados e inspiradas pelo tema e subtema, o Grito costuma ser organizado e preparado, ao longo de meses, por diversas equipes de militantes e coordenadores eclesiais e da sociedade civil, munidos de materiais de reflexão crítica sobre os grandes desafios da atualidade, bem como da formação de equipes setoriais encarregadas de preparar blocos temáticos, faixas e cartazes, equipes de animação, de divulgação, de programação do Ato, de custeio, etc.


Em João Pessoa, por exemplo, o Grito dos excluídos e excluídas, em todas as suas edições, tem acontecido, graças ao compromisso de militantes eclesiais e de outras organizações populares e movimentos sociais, cujos representantes começam os preparativos, alguns meses antes do dia. Nas primeiras edições do Grito, ora na Cúria, ora no Mosteiro de São Bento, com o relevante suporte pastoral de Bispos como Dom José Maria Pires e Dom Marcelo Pinto Carvalheira, e graças a contribuição das Pastorais Sociais, o Grito dos excluídos e excluídas, seja no dia 07 de Setembro ou em alguns dias antes, se fazia com um grande número de participantes, a marcharem pelas ruas do centro da Cidade, com carro de som e muita animação, dando o seu recado, apresentando suas denúncias e suas aspirações. Nessas ocasiões é sempre lembrada a figura de Ricardo Brindeiro, a animar todo o trajeto, com suas músicas tocadas ao violão e suas palavras de ordem.


Na metade da década de 2000, eis que, com a mudança de Bispo, o novo Arcebispo, Dom Aldo Pagotto, em oposição à CNBB, tentou em vão proibir a realização do Grito dos excluídos e excluídas no âmbito de João Pessoa, mesmo assim contra a vontade do Bispo, o Grito nunca deixou de acontecer. Com efeito, alguns meses antes de 07 de Setembro, em uma sala cedida pelo SINTRICOM, realizavam-se aí SEMANALMENTE, as reuniões preparatórias do Grito, graças à contribuição de jovens da Consulta Popular, das Pastorais Sociais e de outros Movimentos Populares. Nessas reuniões preparatórias, vale lembrar a participação efetiva de pessoas tais como Gleison, Marquinho, Elias Candido, Ricardo Brindeiro, entre outras.                   


Nos últimos anos, com tristeza, constatamos um certo recuo da Igreja Católica local, em apoiar firmemente a construção do grito dos excluídos e excluídas. Mesmo assim, como aconteceu no ano passado, os movimentos populares vêm tomando a frente e realizando o Grito. É o que deve acontecer, mais uma vez, amanhã, 7 de setembro. Ainda na segunda-feira próximo-passada, foi realizada mais uma reunião preparatória do Grito, da qual participaram cerca de 40 representantes de vários movimentos populares e sindicais.


A programação do Grito dos Excluídos e Excluídas, em João Pessoa,  prevê concentração em frente ao Liceu Paraibano, a partir das 8h00 da manhã do dia 07 de Setembro. Mais uma vez, os participantes do 29º Grito dos Excluídos e Excluídas manifestarão, pelas ruas do centro da cidade, seu protesto contra as profundas desigualdades sociais, a enorme concentração de renda, de terra, e de riquezas em mãos de tão poucos, à custa da penúria de imensas maiorias, no tocante à alimentação, habitação, saúde, educação e tantas outras políticas públicas em falta ou insuficientes para garantirem os direitos elementares à enormes parcelas da população.


Graças à credibilidade política do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, o povo brasileiro evitou a continuidade e o aprofundamento de um governo neofascista. Reconhecendo os limites e alguns deslizes do governo Lula, não podemos ignorar avanços razoáveis, em oito meses de governo.


Reconhecendo o empenho e a disposição do atual Governo, em construir políticas públicas destinadas a combater a fome, o alto “déficit” de moradias, a enorme violência praticada contra os jovens, os pretos, as mulheres periféricas, a dívida social secularmente acumulada pela classe dominante brasileira não podemos recuar na luta por um novo Brasil, com soberania popular, com justa distribuição da renda, da terra, das riquezas nacionais que se acham injustamente concentradas nas mãos de menos de 1% de nossa população.

Em todo o Brasil, vamos, sim, expressar nossos clamores por uma sociedade em harmonia com a mãe-natureza, economicamente justa, politicamente participativa nas decisões e culturalmente respeitosa da diversidade.      


João Pessoa, 06 de setembro de 2023.

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Traços da Mãe África: Em busca de nossas raízes XII

 Traços da Mãe África: Em busca de nossas raízes XII


Alder Júlio Ferreira Calado


Angola por um angolano contemporâneo. Trata-se do Agrônomo Fernando Pacheco, um dos coordenadores da ADRA - Associação de Desenvolvimento Rural e do Meio Ambiente -, recém-convidado pelo Centro Paulo Freire - Estudos e Pesquisas, a proferir conferência por ocasião do V Colóquio Internacional Paulo Freire, realizado em Recife, de 19 a 22 setembro próximo findo.

A conferência do Agrônomo Fernando Pacheco teve por título “Angola: construindo cidadania, num país em reconstrução - a experiência da ADRA”. Em estilo elegante e objetivo, o conferencista organizou sua fala em quatro momentos. Começou situando o contexto angolano. Fez questão de sublinhar os fortes laços tecidos entre Angola e Brasil, mais até em relação a Portugal. Ao reconhecer a diversidade étnica lá existente, lembrou também com ênfase a vigência de um substrato comum ao povo angolano, graças a dois fatores: a Comunidade Banto e, com ganhos e perdas, a presença de igrejas cristãs.

Lembrou que o processo de colonização portuguesa tem caráter relativamente recente (últimos cem anos). Mal conseguiu conquistar sua independência de Portugal, teve que enfrentar guerra civil e forças apoiadas pela África do Sul. Razão principal: a cobiça do petróleo, do qual Angola é o segundo país africano em produção.

A construção da cidadania se dá aos trancos e barrancos. Os estragos provocados pela guerra explicam parte da situação de penúria da maioria da população do país, que ocupa 160º lugar no IDH (índice de Desenvolvimento Humano), que mede a qualidade de vida. Outro fator tem a ver com as políticas governamentais, de que decorrem tanto a sub-utilização das terras angolanas como o baixo índice de industrialização, o que implica a importação “de quase tudo”. Situação que se complica, inclusive num governo dito de esquerda, que, como tantos outros (fala, Brasil…), tem implementado políticas francamente neoliberais. Funcionando como enclave, a produção de petróleo se faz a serviço de interesses de grandes grupos econômicos, sem compromisso sequer com a geração de empregos para os nativos.

Como em outras regiões do mundo, o grande problema da democracia burguesa reside no seu faz-de-conta. Limita-se a atender a meras formalidades, que pouco ou nada tê a ver com o grosso da população, principalmente as populações ruais. Resultado: a institucionalização das desigualdades. Uma pequena minoria se locupleta das benesses “democráticas”, à custa da miséria e da penúria da maioria.

É nessa apertada margem de ação, que a ADRA busca se mover, fazendo o que está ao seu alcance. Embora visando a um ação cidadã, protagonizada pelas maiorias mantidas à margem da distribuição das riquezas produzidas, as conquistas se dão, com mais força, no campo das iniciativas que permitem aos camponeses uma sobrevivência digna.

Nesse sentido, a AGRA promove iniciativas em distintas áreas socias do campo. No caso de sua intervenção no âmbito da educação escolar, por exemplo, busca partir de ações cidadãs no interior da escola, protagonizadas pelos docentes e discentes, articulando tais ações com a participação das comunidades em torno da escola, visando a integrar escola e comunidade. O passo seguinte consiste em articular as ações educativas, no âmbito das regiões.

O relato das experiências da ADRA nos remete aos limites impostos pelo Capitalismo e seus aliados (de fora e do próprio país), deixando pouca margem a uma ação transformadora de alcance substantivo. Em todo caso, vale saudar os protagonistas da AGRA, por continuarem apostando na possibilidade de mudança, para além dos limites que os “donos do poder” costumam impor.


João Pessoa, outubro de 2005


quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Traços da Mãe África: Em busca de nossas raízes XI

 Traços da Mãe África: Em busca de nossas raízes XI


Alder Júlio Ferreira Calado


A enorme lista de famosos escritores africanos inclui o nigeriano Wole Soyinka, agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1986. Nascido em 1934, em Abiakuta, perto de Ibadan, no Noroeste da Nigéria, Wole Soyinka faz seus estudos até parte da Universidade, na própria Nigéria, rumando, em seguida, como tantos outros escritores africanos, para a Inglaterra, mais precisamente para Leeds, onde conclui seus estudos universitários e cursa a pós-graduação, tendo concluído o seu doutorado, em 1973. Sua vasta produção literária, que aparece em Inglês, é composta por uma vintena de obras, entre peças teatrais, romances, poesia, ensaios e escritos autobiográficos. 

Já nos anos 60, dedica-se à produção e à apresentação de peças dramáticas. São dessa época trabalhos como: The Swamp Dwellers e The Lion and the Jewel. Peças, antes mesmo de publicadas, levadas ao palco, sendo ele mesmo também ator. Ainda durante esse período, destaca-se como fundador do sugestivo Grupo de Teatro “Masks”, É também fundador da “Orisun Theatre Company”. Atuou como professor de várias universidades, dentro e fora de seu país: Ibadan, Lagos, Ife, Cambridge, Sheffield, Yale, ensinando Literatura Comparada.

Inspirando-se na mitologia de sua tribo “Ioruba-com-Ogun”, deus do aço e da guerra, em sua criação dramatúrgica, Soyinka costuma associar ação, música e dança. Outras peças de sua lavra são: A Dancing in the Forest (que as autoridades nigerianas interpretam como uma crítica contra a corrupção generalizada no país, ao mesmo tempo em que intelectuais lhe recrimina o apelo à técnica européia); a comédia The trial of Brother Jero, além de tragédias políticas The Road, The Strong Beer, Kongi’s Harvest.

Seu primeiro romance, The Interpreters, data de 1965. Nele, seis intelectuais nigerianos refletem sobre suas experiências africanas. Outro romance seu intitula-se Season of Anomy. Que data de 1973, e alude à suas experiências como preso político. À semelhança de outros notáveis escritores africanos, também Soyinka desenvolveu atividade de militância contra o governo autoritário de seu país, em razão da qual teve que amargar quase dois anos de prisão.

De sua produção poética, convém destacar seu longo poema intitulado Ogun Abibiman (1976) e Mandela’s Earth and Other Poems, além da coletânea intitulada Idanre and Other Poems. Merecem igualmente especial menção dois de seus livros: Madmen and specilist (1970) e Death and the king horseman (1975). Este último foi traduzido para o Francês. Como ensaísta, publicou, em 1976, Myth, Literatura and the African World. Publicou também sua obra autobiográfica, intitulada Aké: the year of Childhood.

Após cerrado combate, nas trincheiras literárias, contra a ditadura do seu país, que o condenaria à morte “por traição”, Soyinka sobrevive e, em 1986, recebe o Prêmio Nobel de Literatura, sendo o primeiro africano a ser contemplado por essa honraria. Não deixam de ser positivamente surpreendentes suas declarações a propósito do prêmio recebido, afirmando senti-lo como “mais um prêmio”, e alertando de que tal premiação não lhe confere imunidade às balas, como supõem não poucos.

Vê-se que se trata de um escritor polêmico, cujos escritos não deixam a ninguém indiferente, à medida que provocam e instigam o leitor, a leitora, quaisquer que sejam suas opções políticas e filosóficas. A quem interessar possa, seguem os endereços de duas páginas virtuais, em que também me baseei para o presente texto:



João Pessoa, agosto de 2005


terça-feira, 29 de agosto de 2023

Mongólia, destino da próxima viagem apostólica de Francisco

 Mongólia, destino da próxima viagem apostólica de Francisco


Alder Júlio Ferreira Calado 


Surpreendente e impactante a escolha da Mongólia como próximo País a ser visitado pelo Bispo de Roma, em sua 43º viagem apostólica pelos cinco continentes, sendo este o 54º país. O que terá movido Francisco, desta vez, a escolher visitar esta terra e essa Gente? O que há na Mongólia, que justifique a visita de um Papa?


As linhas que seguem, tem o propósito de trazer breves anotações sobre a Mongólia e sua gente, em busca de captar as razões evangélicas da escolha de Francisco. A Mongólia, da qual pouco se ouve falar, é um país situado na Ásia Centro-oriental, limitando-se com a Rússia e a China. Possui uma área de 1564 km² e uma população de 3.463.144 habitantes, ou seja, um País com uma área um pouco maior do que a do Estado de Mato Grosso, comportando uma população um pouco maior do que a do mesmo Estado brasileiro.  


A Mongólia tem uma longa história de relações de conflitos e de invasões sofridas por povos da vizinhança, tendo-se firmado nas primeiras décadas do século XX, quando recebeu forte influência política da então URSS, o que explicou sua organização política de corte socialista até o final do século XX. Com a dissolução da URSS, sua política passou por alterações, sendo hoje regida por um sistema parlamentarista semi-presidencialista.


Do ponto de vista econômico, suas bases repousam sobre uma produção agropastoril, produz e exporta carne (de cavalo, além de outros tipos de carne) e na mineração, em que se afirma como produtora e exportadora de minérios de grande valor de mercado, tais como ouro, prata, carvão, ferro, fluorspar, entre outros. Sua população, inclusive por conta do seu território acidentado, também se caracteriza por uma presença marcante de grupos nômades e pastoris, enquanto sua capital Ulaanbaatar abriga 45% da população.


No plano religioso, a Mongólia já teve, desde o século XIII marcas do Cristianismo, inclusive sob a influência do nestorianismo. No entanto, há muito tempo, o Budismo e o Islamismo são praticados por parte significativas da população, ao tempo em que o Agnosticismo atrai um percentual considerável da população enquanto o Cristianismo é professado por um percentual mínimo da população, formada por algumas denominações, especialmente Luteranos, Presbiterianos, Adventistas e outras denominações Protestante enquanto o Catolicismo, cuja única catedral se situa na capital (tendo mais outras 3 Igrejas no interior do País), compreende menos de 1500 católicos (em uma população de cerca de 3.500.000 habitantes).


A despeito das reconhecidas dificuldades econômicas, características do País, o IDH da Mongólia chega a 0,739, não tão distante de países latino-americanos, enquanto graças às conquistas do regime socialista, a Mongólia conta com uma estrutura de saúde pública, de transporte gratuito e de um invejável índice de alfabetização, correspondendo a cerca de 98% da população. No ensino superior, a Mongólia se destaca pelo seu lugar privilegiado no que diz respeito ao amplo acesso de parcela significativa de sua população.


Dado o reconhecido perfil missionário-profético do Bispo de Roma, podemos perceber a grande oportunidade que terá de iniciar/prosseguir um fecundo diálogo inter-religioso, como gesto de um discípulo de Jesus que veio anunciar a Boa Nova do Reino Deus a toda a humanidade. Neste sentido, sua atenção pastoral não se restringe a pequena comunidade de católicos - menos de 1.500 pessoas - nem a outras denominações cristãs, mas tem o propósito de exercitar um diálogo fraterno com representantes de diversos segmentos da população, adeptos de religiões como o Budismo, Islamismo, o Xamanismo, além de outras parcelas consideraveis da população Mongol que não professam qualquer religião.


A partir da próxima quinta-feira, 31/08, o Papa Francisco chegará à capital da Mongólia, e, como anuncia seu programa de visita apostólica - a 43ª -, terá até o dia 04/09, a oportunidade de semear a boa nova, mais uma vez, sinalizando a perspectiva de um crescente movimento de evangelização, à luz do Seguimento de Jesus em terras e gentes da Ásia, como o teólogo José Comblin já havia prenunciado em seu livro póstumo “O Espírito Santo e a Tradição de Jesus “.


João Pessoa 29/08/2023                


segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Traços da Mãe África: Em busca de nossas raízes X


Traços da Mãe África: Em busca de nossas raízes X


Alder Júlio Ferreira Calado


Estamos dando prosseguimento à materia tratada, no número precedente de ABIBIMAN, acerca de elementos relativos à produção literária de escritoras africanas. Reportamos-nos, de passagem, a um aspecto crucial do processo de produção literária - a incidência e o alcance dos condicionamentos politicos-ideológicos, enfrentados especialmente pelas escritoras africanas. Agostinho Neto, a seu tempo, já havia alertado para o mesmo desafio, em relação mais direta aos escritores.

A questão central é a seguinte: em meio às estratégias de ocidentalização dos stilo africano de produção literária - das mais sutis às mais evidentes - como manter e ser fiel aos traços identitários dos escritores e escritoras africanos e de sua respectiva produção literária?  no caso específicos das mulheres escritoras?

Vimos, em artigos precedentes, como a herança colonial (na África e alhures) implica uma multiplicidade de graves condicionamentos materiais e imateriais para os povos invadidos, expropriados, escravizados e re-educados conforme a frade de valores das metrópoles. Inclusive no campo da produção literária, salvo no caso de um processo de extrojeção do colonizador da alma dos povos invadidos, a tendência dominante é a de seguir-se a “cartilha!” do dominador.

As estratégias de produção e difusão da ideologia do dominador sobre os povos dominados são, não raro, carregadas de requintes de sedução. As táticas de domesticação são de uma astúcia, a toda prova. Inclusive aquelas que não hesitam em apelar para o discurso do respeito à “autonomia”, à “autodeterminação”, até à “recuperação da identidade” dos povos colonizados…

Situação multiplamente agravada, no caso das escritoras. As relações de gênero, nos países africanos como entre nós, estão longe de benegiciar as mulheres enquanto produtoras intelectuais. Para dizer o mínimo. O aprimoramento do seu ofício-alvo requer prosseguimento dos estudos. Nas (ex?) colônias, o ensino superior é jóia rara para poucos privilegiados. Ir estudar na metrópole - se e quando se consegue - tem seus encantos, mas tem seu preço… Conquistar aí condições favoráveis de sobrevivência digna já não é fácil, e o que dizer do sonho de afirmar-se como escritora? E, no caso de encontrar oportunidades propícias ao desenvolvimento de suas potencialidades, quais as condições que lhes são, direta ou indiretamente, impostas?

A despeito desses e de tantos outros entraves, alegra-nos saber de mulheres escritoras africanas honradas que, alcançando notoriedade internacional, pela qualidade de sua produção literária, se mantêm fiéis à causa libertária de sua Gente, resistindo, também lá, aos sedutores apelos dos “mensalões literários”...


Julho, 2005

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Traços Da Mãe África: Em Busca de Nossas Raízes (IX)

 Traços Da Mãe África: Em Busca de Nossas Raízes (IX)


Alder Júlio de Freitas Calado


No vasto e multifacetado universo lliterário africano, que, em artigos precedentes, mal começamos a florar, perguntamo-nos, agora, qual vem sendo o lugar ocupado pelas mulheres escritoras? O que para elas tem significado fazer literatura no feminino? Qual é o perfil dessas escritoras? Como vêm ascendendo a um universo tão marcado - não só na África, aliás - pela ampla hegemonia masculina? O que vêm tematizando em seus romances, em seus contos, em suas peças teatrais, em breve, em seus escritos? Mesmo sabendo dos limites - inclusive de espaço -, ousamos ensaiar alguns passos na direção dessas questões.

Partimos d euma constatação: também em solo africano, vem sendo cada vez maior a participação das mulheres como autoras de titulos literários. Basta que se recorra a alguns mecanismos de busca na internet, e logo aparece uma série de sites, em Inglês, em Francês, em Espanhol, em Italiano, em Português, contendo listas de nomes de escritoras dos mais distintos países da África. Sites que não se limitam a listar nomes. Também fornecem dados biográficos, seus principais livros, páginas antológicas, comentários e críticas sobre vários deles. Entre outros, consultamos, por exemplo: http://www.arts.uwa.edu.au/AFLIT/FEMEChomeEN.html Aparecem às dezenas, e por país.

Fato deveras auspicioso, em que pese ainda persistir o desequilíbrio de gênero. Parece um fenômeno cuja evolução vem se firmando, sobretudo, a partir das últimas décadas. Elementos do perfil dessas autoras o confirmam. Por exemplo, sua faiza etária. Embora encontremos autoras nascidas nos anos 30 e 40, uma parte significativa é formada por jovens escritoras, nascidas nos anos 60 e 70. São procedentes de diferentes países. Trazem em comum, em grande parte, o fato de terem tido que migrar para as ez(?)-metrópoles para assegurarem o prosseguimento de seus estudos universitários. Fato que tem consequências significativas, em sua trajetória existencial e de escritoras.

Se, por um lado, dificilmente obteriam êxito garantido, caso tivessem permanecido em seus respectivos países - embora isso posa ter acontecido a algumas -, por outro lado, não se deve desconsiderar o preço que têm de pagar por tal migração. Autores como Agostinho Neto já levantavam essa preocupação. O problema dos condicionamentos ideológiccos a que, não raro, terminam cedendo. O seu êxito também vai depender da forma como tais escritoras se inserem no universo de valores ocidentais. Vale, porém, lembrar, da parte de várias escritoras, sua capacidade de resistência à sedução metropolitana, e de se manterem fiés aos bons valores de sua Gente.

Ao focarmos aleatoriamente, por exemplo, trajetórias de escritoras como Mouna-Hodan AHMED, Mariam ABDOU, Gisèle HOUNTONDJI, podemos ter um recorte, ainda que simbólico, desses desafios, AHMED nasceu em Djibouti, em 1972. Concluídos o primário e o ensino médio, parte para a França, a fim de fazer curso superior. Seu principal romance Les Enfats du khat tematiza a situação das crianças envolvidas com a planta “khat”, um vegetal alucinógeno considerado referência de uma droga leve. Atualmente, leciona Francês num liceu de Djibouti, e dedica-se a escrever, pois afirma que “Eu escrevo para ser melhor com os outros.” ABDOU, por sua vez, nasceu em Madagascar, no final dos anos 70, aos sete anos, teve que migrar para a França, onde presta vestibular (o “Bac”, como lá se diz) para o Curso de Teatro, e, por meio de seus contatos com Benjamim Jelus-Rosette, fundador do “Teatro Negro”, vai se firmando nos recitais e em montagem de peças de dramaturgia tematizando o cotidiano dos Negros, em peças também apresentadas por atrizes e atores Negros.

De sua parte, Gisèle HOUNTONDJI, nascida no Benin, em 1954, apresenta um percurso semelhante. Após fazer curso primário e médio em sua terra natal, segue, também ela, para a França, para fazer um curso superior, enfrentando um leque de desafios, inclusive o racismo. Conseguiu viajar por vários países, na África (especialmente pelos países limitrofes ao Benin), na Europa e na América do Norte. Considera-se uma “cidadã do mundo”. Sua principal obra é o romandce intitulado Une Citronelle dans la neige. No site acima mencionado, encontra-se disponibilizado um breve e instigante conto seu, intitulado Daniel. De volta à terra natal, a autora atua como intérprete de conferência.

Ao buscarmos fazer uma leitura crítica desses e doutros escritos, um instrumental valioso a não se dispersas é o recurso a áreas como a Sociologia, a História, a Antropologia, além da Linguística, dadas as interfaces como cada autora constrói as tramas de suas obras literárias. Voltaremos ao assunto, na próxima edição de ABIBIMAN.


segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Traços da Mãe África: Em busca de nossas raízes VIII

 Traços da Mãe África: Em busca de nossas raízes VIII


Alder Júlio Ferreira Calado


Damos prosseguimento à nossa breve incursão pelo universo literário africano, destacando algumas figuras proeminentes, nesse campo. Cuidamos, desta feita, de pôr em relevo alguns elementos bibliográficos do poeta angolano Agostinho Neto. Nasceu em 1922, em Catete, Angola, onde cursou seus estudos elementares e de nivel médio. Em razão da ausência, nas colônias, de escolas de ensino superior, teve, como vários de seus conterrâneos, que prosseguir seus estudos em Lisboa, onde cursou medicina.

Ainda estudante, não tardaria a engajar-se no movimento pela emancipação de sua terra e de sua Gente, razão pela qual teve que amargar a prisão, da qual, movido pelo sonho de Liberdade, conseguiria fugir, para integrar, mais tarde, o Movimento Popular pela Libertação da Angola - MPLA, do qual seria eleito presidente. Como presidente também seria eleito da República Popular de Angola, após sua emancipação, em 1975. Bastem esses elementos biográficos para se ter uma idéia da natureza predominante de sua produção literária: o compromisso político de libertação de Angola e dos Angolanos, da África e dos Africanos.

Juntamente com personalidades como Lúcia Lara e Orlando de Albuquerque, viria a fundar a revista Movimento, em 1950. Nela e em tantos outros periódicos publicou sua vasta produção poética.

Agostinha Neto costumava externar sua inquietação quanto à função política exercida pela língua, na produção literária. Guardava, a propósito, uma posição crítica diante do que chamava de “literatura aculturada”, por entender que, mesmo quando aborda uma temática anticolonialista, “dependia de padrões europeus, sendo ela, de certo modo, um ramo da literatura portuguesa, tanto pela sua técnica como pela sua língua de composição” (cf. Hamilton, in África, Vol 7. Ano II Lisboa, Jan-Mar, Revista Trimestral, p. 211, 1980. Cit. por D. J. Cazombo, http://www.afropress.com/domingos02.htm).

Daí todo o seu empenho em valorizar e promover o uso das línguas nativas, como veículo adequado de comunicação do sentir, do pensar e do agir do escritor, visto que “por vezes, pega-se a ler ou a escutar um órgão da informação e eu fico, imediatamente, com a sensação de que não é pra mim que estão a falar. Não é para o povo de Angola. Está-se a falar para outra gente. Isso não pode ser”, chegando à conclusão de que “setor da cultura, o setor dos escritores, dos artistas plásticos, necessita de uma certa adaptação à realidade” (Ibidem).

De sua vasta produção poética, podemos mencionar: “Quitanda”, “Voz de Sangue”, “Mussanda Amigo”, “Contratados”, “Aspiração”, “Poesia Africana”, “Fogo e Ritmo”, “Kina-xixi”, “Noite”, “Consciencialização”, “Civilização Ocidental”, “Adeus à Hora da Largada”. Em “Quitandeira”, por exemplo, Agostinho Neto alude ao cotidiano de sofrimento e de sonho de uma vendedora de frutas, em sua luta pela sobrevivência, sendo por vezes forçada a também vender o corpo como meio de sobrevivência. O sonho de liberdade, porém, é uma constante em sua lida de quitandeira.

Este é o seu poema intitulado “Contratados”: “Longa fila de carregadores/ domina a estrada/ com os passos rápidos. / Sobre o dorso/ levam pesadas cargas./ Vão olhares longiquos/ corações medrosos/ braços fortes/ sorrisos profundos como águas profundas./ Largos meses os separam dos seus/ e vão cheios de saudades/ e de receio/ mas cantam./ Fatigados/ esgotados de trabalhos/ mas cantam./ Cheios de injustiças/ calados no imo das suas almas/ e cantam./ Com gritos de protestos/ mergulhados nas lágrimas do coração/ e cantam. /Lá vão/ perdem-se na/ distância/ na distância se perdem os seus cantos tristes, / Ah!/ eles cantam…”

Falecido em 1979, Agostinho Neto permanece vivo na memória do seu povo, tido como um dos intelectuais mais reverenciados, não apenas em Angola, nem somente na África. O mundo dos pobres lhe presta homenagem, sobretudo, pelo seu testemunho de poeta revolucionário comprometido com a causa dos oprimidos, e marcado por um admirável motivação ética, bem expressa em sua conhecida afirmação: “Não basta que seja pura e justa a nossa causa, é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós”.


Abril, 2005