segunda-feira, 24 de setembro de 2018

TECENDO FIOS DE NOVA TEIA: notas sobre o IX Encontro Nacional da Raiz Movimento Cidadanista


TECENDO FIOS DE NOVA TEIA: notas sobre o IX Encontro Nacional da Raiz Movimento Cidadanista

Alder Júlio Ferreira Calado

Tive a alegria de participar, como convidado, da IX Teia (assim é que se chamam os encontros nacionais deste movimento), realizada, de 17 a 19/08/2018, em Arcoverde - PE, da recém criada Raiz Movimento Cidadanista (doravante chamarei apenas de Raiz). Trata-se de uma iniciativa de uma organização de base, já presente em vários Estados de todas as regiões do País, surgida em 2015, cujas marcas centrais podem ser resumidas, ao meu ver nas seguintes:

- Forte aposta e empenho na tecedura de relações sociais alternativas ao modelo capitalista vigente;

- Cultivo de uma mística revolucionária alimentada pelo legado dos povos originários, de nossas raízes afro-brasileiras, do compromisso com a promoção da dignidade do Planeta, dos humanos e de toda a comunidade dos viventes;

- Compromisso com o ensaio de novos passos de superação da velha política, por meio da inserção e desenvolvimento de relações, junto as classes populares, com vistas à construção de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal.

Para se apreender melhor o perfil deste novo movimento popular, sugiro acessar sua própria página virtual: http://raiz.org.br/ http://raiz.org.br/pernambuco-1a-teia-regional-do-nordeste

Quanto ao perfil de seus protagonistas, a Raiz compõe-se de membros oriundos das lutas sociais do período precedente ao Golpe de Estado de 1964; de outros militantes – mulheres e homens -, provenientes da luta de resistência contra a ditadura civil-militar; e ainda outros, mais recentes, que seguem participando como militantes de esquerda, nos embates das últimas décadas. Ainda que tendo surgido, como movimento social popular, em 2015, desde então, seus organizadores e organizadoras já tiveram 9 encontros, chamados “Teias, em âmbito nacional”, realizados em diversas regiões do país, inclusive no Nordeste.

Tratamos de explicitar, a seguir, suas principais motivações e bandeiras de lutas. A raiz surge do empenho em manifestar seu compromisso mudancista, a partir do melhor legado protagonizado, em escala mundial, pelos mais diversos povos, inclusive daqueles de quem procedemos, de modo mais direto. Revela-se forte o compromisso de zelar nossas raízes identitárias com os povos originários. Neste sentido manifesta-se como referencial sua adesão ao paradigma do Bem Viver (cf, por exemplo: https://www.youtube.com/watch?v=h4yK2ugTvWQ), expressão das ricas experiências vividas pelos povos Andinos e da própria Amazônia, consistindo fundamentalmente na busca incessante de uma convivência simbiótica com a mãe natureza, com Pachamama. Mais do que uma motivação ou um propósito, a raiz trata de desenvolver, desde o cotidiano de seus militantes, práticas efetivas que apontem nessa direção. Articulada a estas dimensões, a Raiz também centra forças num enfrentamento do Estado, entendendo-o como instrumento auxiliar do Mercado Capitalista, por meio da imposição de políticas econômicas e sociais nocivas ao Planeta, aos humanos e a toda a comunidade dos viventes. Durante a IX Teia, também se tratou esta questão, no quadro geral de suas demais bandeiras prioritárias, que cuidarei de analisar, em seguida.

Compromisso com a dignidade do Planeta, dos humanos, e de toda a comunidade dos viventes

Na IX Teia, bem como nos encontros precedentes (cf. relatos à proposito de seus documentos fundantes e dos encontros precedentes), é tocante a ênfase que se dá ao sentimento de pertença de seus membros a Mãe-Terra, bem como aos povos originários e às comunidades quilombolas, tratados como referência maior e fonte de inspiração de suas lutas, no dia a dia. Percebe-se um empenho marcante de seus membros em se sentirem parte da Mãe Natureza, na defesa e promoção de sua dignidade. Mais que com compromisso internacionalista, a luta pelo Eco socialismo constitui uma de suas principais referências, à medida que se fortalece a convicção do altíssimo poder destrutivo, necrófilo, do modo de produção capitalista, que tudo tenta transformar em mercadoria, pelo que se tem mostrado verdadeira ameaça ao planeta, aos humanos e a toda a comunidade dos viventes.

Experiências articuladas, animadas pelo eixo principal de Luta: ousar passos em direção a uma nova sociedade, alternativa ao modelo capitalista

Na própria programação da IX Teia, percebe-se a inquietação permanente de seus protagonistas – mulheres e homens -, em se manterem atentos ao rumo que perseguem, bem como aos caminhos que levam a este rumo, a ser construído, desde já, a partir das relações do cotidiano e do leque de ações programáticas em curso. Destas, foram compartilhadas principalmente as seguintes:

- Relatos de experiências de convivência alternativa com o Semiárido. Aqui, foram apresentadas e discutidas várias iniciativas moleculares de membros da raiz, em várias regiões do País, especialmente no sertão nordestino. Para tanto, a título de exemplo remetemos a uma série de reportagens protagonizadas por José Artur Padilha  https://www.youtube.com/watch?v=CCb1xR485S8  https://www.youtube.com/watch?v=o39WZlQ0b-w https://www.youtube.com/watch?v=SWpuwVRpTHM

- Também, no cariri cearense, foram relatadas promissoras experiências de permacultura, iniciativas igualmente presentes no protagonismo do Serta (http://www.serta.org.br/inicial/)

- Ainda que de passagem foram igualmente mencionadas iniciativas moleculares, no campo das terapias naturalistas e no das terapias comunitárias integrativas.

Trata-se apenas de algumas ilustrações, de caráter molecular, capazes de acenar para a busca de alternatividade, sempre conscientes, seus protagonistas, de novo, de que são passos embrionários, mas portadores de sementes alternativas ao modelo hegemônico desde que devidamente articuladas a centenas de experiências similares desenvolvidas por outros sujeitos sociais, especialmente outros movimentos sociais populares, animados por projetos de sociedade alternativa ao modo de produção, ao modo de consumo  e ao modo de gestão societal característico do modelo capitalista. Convém, ao final destes registros, lembrar a importância de outros Movimentos Sócias Populares, no campo e na cidade, espalhados pelo Brasil, pelo continente e pelo mundo. Em outras ocasiões, já tivemos oportunidade de nos debruçar sobre alguns deles, à exemplo do MCP – Movimento das Comunidades Populares, que já tem meio século de caminhada (cf. http://textosdealdercalado.blogspot.com/2016/06/movimento-das-comunidades-populares-40.html?q=mcp


João Pessoa 24 de setembro de 2018.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

UM REVOLUCIONÁRIO ENSINA PELO TESTEMUNHO: notas em torno do cap. IX - "Mestre de Vida" - do livro "Jesus, aproximação histórica", de autoria do teólogo José Antonio Pagola

UM REVOLUCIONÁRIO ENSINA PELO TESTEMUNHO: notas em torno do cap. IX - "Mestre de Vida" - do livro "Jesus, aproximação histórica", de autoria do teólogo José Antonio Pagola

Alder Júlio Ferreira Calado

O cap. IX - "Mestre de Vida" descreve, analisa e reflete sobre mais uma marca identitária da figura de Jesus de Nazaré, um revolucionário que ensina, quase sempre à contracorrente, pelo exemplo de sua vida. Neste capítulo, o autor do livro começa sublinhando que Jesus, além de ter sido reconhecido como "Curador da vida", "Poeta da Misericórdia", "Amigo dos Últimos" e outras títulos, também se manifesta como "Mestre de Vida", distinguindo-se profundamente dos guias de então, dos escribas e doutores da lei, à medida que não tratava de interpretar as centenas de preceitos da lei judaica, nem de referir-se a autoridades precedentes, mas aplicava-se em ensinar como quem tem autoridade. Autoridade que cuidava de cultivar por meio do que recolhia do Projeto do Pai, do Reino de Deus, uma proposta de profundo acolhimento e ternura para com os mais injustiçados, de todo tipo: as mulheres, os mendigos, os paralíticos, os surdos-mudos, os cegos, os marginalizados, os indesejáveis daquela sociedade. Destes Jesus fazia Sua grande prioridade: deles/delas se aproximou; curou-os, fez-se deles e delas acompanhar por onde andava, por aquelas aldeias da Galiléia; com eles/elas fazia refeição, compartilhava de suas alegrias, de suas tristezas, de seus sofrimentos, reacendendo neles e nelas as esperanças, graças à sua ação de compaixão, de ternura, chamando os sempre à conversão. Havia, porém, quem estranhasse sua atitude de tal proximidade com pessoas de má fama. Ele, então, responde: "Não são os sãos que precisam de médico, são os enfermos." Jesus ensinava com gestos, palavras, testemunhos.

Sempre fiel ao Projeto do Reino de Deus, de cujos valores se alimentava pela sua comunhão com o Pai e pela inspiração do sopro divino, cuidava de testemunhar, por onde passava, fazendo bem, e seguido por homens e mulheres, em sua dinâmica de Missionário itinerante. Despontava como um guia que destoava, a olhos vistos, dos mestres convencionais do seu tempo – os doutores da lei, os escribas... Estes recolhiam sua autoridade dos textos sagrados, que bem manipulava, conforme suas conveniências. Esta era sua grande estratégia, que lhes permitia manter e ampliar seu prestígio e seu domínio sobre as consciências do povo de seu tempo. Em meio a uma população em sua grande maioria, desprovida dos códigos de leitura e escrita, tais mestres reinavam incólumes, à medida que monopolizavam os textos sagrados e sua respectiva interpretação, impondo centenas de preceitos e obrigações, um verdadeiro fardo para o cotidiano de sua gente, sem que eles fossem capazes de mover um só dedo para aliviar este fardo. Tratava-se de uma estrutura social e cultural que, privilegiando um pequeno percentual daquela população – grandes proprietários de terra, a casta sacerdotal, os beneficiários romanos e locais dos pesados imposto que faziam recair nos ombros dos “debaixo” -, mantendo e buscando perpetuar tal “status quo”.

É neste contexto que desponta um revolucionário desconcertante, sobre vários aspectos:

- Não hauria Sua autoridade do controle da lei, nem dos valores tradicionais então dominantes; em palavras, mas sobretudo em gestos, rompia com os fundamentos daquela tradição, à medida que exercitava sua solidariedade radical com os explorados, os oprimidos, os marginalizados de seu tempo, deles e delas se aproximando, fazendo com eles e elas refeições públicas, curando-os, dirigindo-lhes palavras que recaíam direto em seu coração e em sua mente, ao mesmo tempo em que cuidava de denunciar as graves injustiças daquela sociedade, apontando suas raízes econômicas, políticas e culturais, sem deixar de acusar os principais responsáveis (cf. Mt 23).

O autor do livro, como de hábito nos faz passear por uma série de fontes bíblicas (vétero-testamentárias e neotestamentárias), além de outras fontes históricas ou literárias, descrevendo e refletindo densos traços do perfil de Jesus.

Diferentemente da tradição vétero-testamentária, inclusive parte expressiva dos Salmos, que apresentava Deus como um vingador, como alguém que vinha para eliminar os opressores, Jesus, por seu lado, descrito como “Mestre” de vida, cheio de compaixão e de ternura à desapontar a raigadas expetativas de quem O imaginava um Messias vingador, empenhado em mudar o mundo pelo emprego da violência contra os maus, pela bala ou pela faca. Aqui, nos vem à lembrança um canto ainda hoje executado, por ocasião da Semana Santa, em várias comunidades: “eles queriam um grande Rei/que fosse forte e dominador/e por isso não creram nelE/e mataram o Salvador.”. Diferente deste perfil, Jesus se apresentava como um revolucionário movido pela compaixão e solidariedade com todos os que viviam sob o peso da opressão, da exploração e da marginalização, ao mesmo tempo em que demonstrava uma atitude de não se pagar o mal com o mal, no que trouxe surpresa e até decepção para muitos que O admirava, pois não entendiam como seguir a recomendação de Jesus, de se “amar os inimigos e rezar por eles”, recusando a proposta do “Mestre de vida”, de preferir tentar tocar o coração também dos maus, até porque, justamente por ser “Mestre de vida”, Jesus conhecia profundamente nossa condição humana, estava côncio de que também nós, que nos julgamos “bons”, carregamos nossas maldades e nossas misérias, no sentir, no pensar e no agir, razão por que aos Seus discípulos e discípulas, de ontem e de hoje, Jesus advertia: “Não julguem, para não serem julgados”, enquanto no Pai Nosso, Ele nos ensina a orar: "Perdoai as nossas ofensas, como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.”

Este ensinamento de Jesus sacode o conjunto de Seus ouvintes, a começar pelos Seus discípulos mais próximos: como, assim, amar os inimigos, quando a Lei só nos mandava amar o próximo? Um escândalo! E não será o último. Outros virão. É o caso da estranha relativização que Jesus expressava, em gestos e palavras, em relação à rigidez do código de purificação, cegamente seguido pelos observadores da Lei. Há, com efeito, uma gama de episódios relatados nos textos evangélicos, a indicarem, da parte de Jesus, uma postura crítica, sob vários aspectos:
- Ora a relativizar os critérios de conduta então dominantes, e tendentes a absolutizar os códigos de purificação: não é o entra, mas o que sai do interior da pessoa, que caracteriza a sanidade do seu sentir, do seu pensar, do seu agir;
- ora a contestar a atitude daqueles que o acusam de andar com, e fazer-se rodear, inclusive em refeições, de gente de má fama: Jesus dá mostras evidentes de que, de um lado, são os enfermos que precisam de quem os cure, e, de outro lado, de que é Sua bondade que contagia os que O rodeiam, e não os malfeitos dos que Ele acolhe, com ternura e compaixão de Pastor, que O contaminam...;
- ora cuidando de desmascarar, com sua iracúndia profética, atitudes hipócritas.

 A marca revolucionária inaugurada por Jesus, por outro lado, não se exaure em suas reprimendas contra toda ordem estabelecida de exploração, de dominação, de marginalização, mas sobretudo em Suas atitudes e palavras prenhes de alternatividade, reveladoras da Proposta do Reino de Deus e Sua justiça.  Daí as reiteradas passagens evangélicas em que faz questão de acentuar o que é DECISIVO, na Proposta do "Mestre de Vida": o Amor, a Compaixão, tornados práticas efetivas, para bem além de palavras e discursos jogados ao vento. Com efeito, de que valeria o discurso doutrinário, elaborado com as mais refinadas técnicas da retórica ou dos sedutores procedimentos de "Marketing", ante, por exemplo, o episódio de assalto enfrentado pelo samaritano, que, diferentemente da casta sacerdotal e dos homens da Lei, cuida de socorrer o ferido, com práticas efetivas, de quem são provas os cerca de 8 verbos utilizados no relato deste episódio.

Destacamos, neste capítulo, as atitudes revolucionárias de Jesus de Nazaré, mostradas em gestos, palavras e testemunhos desconcertantes, não apenas para a sociedade daquele tempo, mas também para as sociedades atuais, inclusive ao interno das Igrejas Cristãs, também estas tentadas a rejeitar os ensinamentos fundamentais do “Mestre de vida”...

João Pessoa, 19 de setembro de 2018.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

UM JOVEM NOS INTERPELA, DESDE AS ENTRANHAS DO NOSSO SER SOCIAL: revisitando os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, de Karl Marx


UM JOVEM NOS INTERPELA, DESDE AS ENTRANHAS DO NOSSO SER SOCIAL: revisitando os Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, de Karl Marx


Alder Júlio Ferreira Calado

Também neste ano de 2018, coincidindo com as comemorações dos 200 anos do natalício de Karl Marx, este continua a despertar fortes interesses, por toda parte, de um lado,  provoca  incessantes frustrações às vãs expectativas dos que se têm empenhado em seu definitivo silenciamento (quantas vezes Marx já foi sepultado! Que defunto teimoso!), por outro lado, também não cessam as vozes daquelas e daqueles que o reconhecem atual, fecundo, vivente, razão por que se põem a revisitá-lo, buscando atualizá-lo, diante de aspectos e fatos novos e desafios da contemporaneidade. E, ao revisitá-lo, perguntam-se:

- O que levaria alguém de classe média, a aceitar viver na penúria quase ao longo de sua vida com graves repercussões sobre a própria família (3 de seus filhos morreram, na penúria), por assumir tão radicalmente por décadas a fio, o compromisso de ajudar a desvendar as profundas raízes socioeconômicas e culturais em que vive mergulhada a humanidade, sobre o peso do modo de produção capitalista?
- O que levaria a alguém a manter-se fiel ao projeto de investigação das raízes perversas deste sistema, ocupando-se, por toda vida, em pesquisar suas causas, enfrentando toda sorte de adversidades (perseguições, sucessivos exílios, tratado como apátrida)?
- Têm ou não fundamento máximas de sua escolha, tais como: “Nihil humani a me alienum puto” – “Nada do que é humano me é estranho”; “De omnibus dubitandum” – “Devemos duvidar de tudo”?
- O que move alguém, ao longo do seu labor investigativo, a manter-se contínuo observador e leitor assíduo de uma infinidade de autores, clássicos e contemporâneos, de todas as correntes de pensamento, e referências dos mais diversos campos de saberes, do que é prova a imensa lista de notas que produziu, enquanto redigia milhares de páginas ao longo de sua vida?
- E o quê dizer de sua vasta obra, parte da qual ainda nem veio a público e que tantos insistem em condenar, sem sequer tê-la lido?
Aqui destacamos apenas uma dessas obras, produzida em sua juventude: “Os Manuscritos Econômico- Filosóficos de 1844”. Intrigante é percebermos que tal obra só tenha vindo à público, em 1932, graças ao trabalho de uma equipe de pesquisadores de alto nível intelectual, da qual fazia parte G. Lukács. Fato que se dá não apenas em relação a esta obra.  Há, com efeito, escritos vários da lavra de Marx ainda por virem a público. Digno de reconhecimento, a este respeito, tem sido o empenho hercúleo de uma equipe de pesquisadores, em publicar a íntegra das obras de Marx e Engels, iniciativa conhecida pela sigla MEGA (“Marx unt Engels Gesamtausgabe” – Edição Completa de Marx e Engels, cf. https://www.youtube.com/watch?v=d1SngcUKD8M).

A propósito especificamente de seu empenho em exercitar ampla interlocução com autores de vários tempos e lugares, e de distintas correntes de pensamento, convém sublinhar o vasto espectro de clássicos e contemporâneos, lidos e anotados por Marx. Seu interesse de observador perspicaz, vai dos antigos filósofos gregos – não é à-toa sua escolha temática de Demócrito e Epicuro como referências de sua tese doutoral - , passando por poetas latinos (uma de suas máximas preferidas ele extrai de Terêncio), por figuras paradigmáticas, como Shakespeare (ver, por exemplo, como aparece nos “Manuscritos”, emblemática citação sobre o dinheiro, presente na tragédia Shakespeariana “Timão de Atenas”), por figuras exponenciais da literatura francesa, até à sua atitude de decompor com rigor científico obras de clássicos da economia, tais como Adam Smith, David Ricardo, Jean Baptiste Say.

Impactante, contudo, foi e tem sido polêmica a recepção dos “Manuscritos de 1844”, em várias partes do mundo, de um lado alguns de seus críticos, à exemplo de Louis Althusser, (cf. “Pour Marx”) avaliando-o como um escrito sem muito a contribuir com o legado marxiano; outros, por outro lado – e não são poucos – a saudarem com entusiasmo a densa contribuição do Jovem Marx. Entre estes últimos, podem ser destacadas figuras tais como: Henri Lefebvre (segundo Amdré Tosel “ele foi um dos primeiros a dar importância aos Manuscritos de 1844, a sublinhar a função central da práxis, e a da teoria da alienação”), Jean Paul Sartre (confira “Siuations”- materialisme et revolution) Marcuse (cf. “Los manuscritos econômicos-filosoficos de Marx: nuevas fonte para la interpretacion de los fundamentos del materialismo histórico”), Michael Lowy (cf.“ A teoria da revolução no jovem Marx”, focando o conjunto da produção do jovem Marx), István Mészáros, (cf. ‘A educação em Mészáros: trabalho, alienação e emancipação, Erich Fromm (cf. “O conceito marxista de homem”), Perry Anderson (cf. “Considerações sobre o marxismo ocidental”), entre outros.

Uma leitura mais cuidadosa dos manuscritos econômicos filosóficos de 1844, de autoria de Karl Marx, permite vislumbrar a genialidade do autor, já aos seus 26 anos. Os conceitos aí desenvolvidos constituem um atestado do equívoco reiteradamente cometido, de se pretender estabelecer um muro intransponível entre o jovem Marx e o Marx maduro. Uma leitura igualmente atenta das obras mais tardias de Marx, inclusive “O Capital”, também permite conferir uma linha de continuidade (ainda que comportando alguma descontinuidade pontual) entre o mesmo autor dos “Manuscritos” e suas obras mais tardias. Certa vez, questionado acerca da continuidade ou descontinuidade de sua obra, o próprio Marx expressa uma autoavaliação de sua obra, assumindo-a como um “Tout artistique”, isto é, assim como não faz sentido examinar uma obra de arte aos pedaços decompondo-a em partes estanques e desconexas, também não faz sentido não se reconhecer o caráter conectivo de sua obra. Nesse sentido, ajuda-nos a entender tal linha de continuidade, mais do que uma aposta em meros resultados uma atenção acurada ao processo de pesquisa a que Marx se entregou, durante décadas a fio.

Outro aspecto impactante com que saímos da leitura dos manuscritos, é a verificação de sua forte atualidade, pelo menos em relação a conceitos-chave ali desenvolvidos. O objetivo destas linhas é ressaltar nos manuscritos marxianos de 1844, vários traços de intrigante continuidade e vigência, no atual cenário capitalista, de crescente globalização. Para tanto, cuidamos de destacar várias passagens que julgamos mais significativas e portadoras de atualidade, confrontando diversas passagens dos “Manuscritos” com elementos conjunturais e estruturais do momento atual.  Da vasta gama de conceitos tratados por Marx, nos Manuscritos de 1844, elegemos focar apenas quatro: “Trabalho”, “Alienação”, “Ser Social” e “Dinheiro.

No modo de produção capitalista, para o trabalhador, o que significa o trabalho?  

No espectro da obra geral de Marx, convém ter sempre presente, antes de tudo, a centralidade do conceito “Trabalho”. E, antes mesmo de nela assumir uma conotação negativa, cumpre destacar sua profunda positividade. Em Marx, o trabalho corresponde à marca principal do Ser humano, à medida que por esta atividade, ele próprio vai se fazendo, vai auto-organizando-se, seja enquanto individuo seja como partícipe do gênero humano. Trata-se aqui de um contínuo exercício de “auto-poiêsis”. No caso dos “Manuscritos” e demais obras, Marx restringe-se analisar o “Trabalho”, tal como exercido no modo de produção capitalista.
 Em se tratando, no caso, de relações sociais no horizonte de uma sociedade de classes, e mais precisamente, numa sociabilidade capitalista, bem diversas passam a ser as características do Trabalho, como teremos oportunidade de sublinhar, a partir do próprio texto dos “Manuscritos”. Comecemos por uma longa, mas bem eloquente citação:

“A economia Política oculta a alienação na natureza do trabalho por não examinar a relação direta entre o trabalhador (trabalho) e a produção. Por certo, o trabalho humano produz maravilhas para os ricos, mas produz privação para o trabalhador. Ele produz palácios, porém choupanas é o que toca ao trabalhador. Ele produz beleza, porém para o trabalhador só fealdade. Ele substitui o trabalho humano por maquinas, mas atira alguns dos trabalhadores a um gênero bárbaro de trabalho e converte outros em máquinas. Ele produz inteligência, porém também estupidez e cretinice para os trabalhadores. (...) O que constitui a alienação do trabalho? Primeiramente, ser o trabalho externo ao trabalhador, não fazer parte de sua natureza, e por conseguinte, ele não se realizar em seu trabalho mas negar a si mesmo, ter um sentimento de sofrimento em vez de bem-estar, não desenvolver livremente suas energias mentais e físicas mas ficar fisicamente exausto e mentalmente deprimido. O trabalhador, portanto, só se sente à vontade em seu tempo de folga, enquanto no trabalho se sente contrafeito. Seu trabalho não é voluntário, porém imposto, é trabalho forçado. Ele não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer outras necessidades. Seu caráter alienado é claramente atestado pelo fato, de logo que não haja compulsão física ou outra qualquer, ser evitado como uma praga. O trabalho exteriorizado, trabalho em que o homem se aliena a si mesmo, é um trabalho de sacrifício próprio, de mortificação. Por fim, o caráter exteriorizado do trabalho para o trabalhador é demonstrado por não ser o trabalho dele mesmo mas trabalho para outrem, por no trabalho ele não se pertencer a si mesmo mas sim a outra pessoa.” (...)
“Chegamos à conclusão de que o homem (o trabalhador) só se sente livremente ativo em suas funções animais - comer, beber e procriar, ou no máximo também em sua residência e no seu próprio embelezamento - enquanto que em suas funções humanas se reduz a um animal. O animal se torna humano e o humano se torna animal. Comer, beber e procriar são, evidentemente, também funções genuinamente humanas. Mas, consideradas abstratamente, à parte do ambiente de outras atividades humanas, e convertidas em fins definitivos e exclusivos, são funções animais.”
Em toda sociedade de classes – e em grau maior, no modo de produção capitalista – não há horizonte de verdadeira realização do ser humano, na medida em que ele se sente desintegrado do/no seu trabalho. Ele se sente partido, cindido do que produz e da riqueza, fruto do seu trabalho. Sobre o processo de produção não exerce qualquer controle. Passa a ser mera peça na e para a engrenagem do Capital, como bem sugere aquela cena do filme de Chaplin, “Tempos Modernos”, em que o trabalhador se transforma em mero apertador de parafusos...

        Concepção de ser social nos “Manuscritos” de 1844

Sempre lembrados de que as categorias aqui priorizadas (“Trabalho”, “Ser social”, “Alienação”, “Dinheiro”) e outras tantas, no conjunto da obra de Marx, devem ser compreendidas em sua dinâmica interconexão, aqui destacamos, com um propósito didático, seu enfoque específico sobre a natureza social do ser humano. E me permito citar mais um trecho dos “Manuscritos”:
“Ainda quando realizo trabalho cientifico, etc., uma atividade que raramente posso conduzir em associação direta com outros homens, efetuo um ato social, por ser humano. Não é só o material de minha atividade - como a própria língua que o pensador utiliza - que me é dado como um produto social. Minha própria existência é uma atividade social. Por essa razão, o que eu próprio produzo, o faço para a sociedade, e com a consciência de agir como um ser social. ”

Com efeito, o trabalho, ainda quando realizado individualmente comporta uma dimensão coletiva, inclusive de caráter societal. Por esta razão a cisão imposta pelo modo de produção capitalista entre o trabalhador e o seu produto, implica necessariamente uma experiência de alienação. Por vezes, tal experiência se expressa de modo tão profundo, que o próprio trabalhador acaba “naturalizando” esta cisão como se observa, por exemplo, no conhecido poema de Baudelaire, “le spleen de Paris”, em que o autor descreve o comportamento de seres humanos que marcham, sob o peso de um monstro agarrado ao seu pescoço e oprimindo seu tórax, sem que o oprimido esboce reação, tal é o grau de introjeção que ele acaba naturalizando, e, perguntado para onde marcham, responde apenas “para um lugar qualquer”. Tal reação nos faz remeter ao conhecido filme “Queimada”, uma de cujas personagens, José Dolores, costumava dizer: “É melhor saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir.”


É difícil ler-se passagens como estas, acerca do que Marx pôde observar, em 1844, e não conectá-las, de algum modo, com as condições atuais, de profunda opressão, a que seguem submetidos os trabalhadores e trabalhadoras. Com efeito, continua e se aprofunda o hiato ou fosso entre o trabalhador e sua atividade laboral, em verdade, o que hoje, se vive, por exemplo, no Brasil de Temer, sob sucessivas políticas de desmonte das condições de trabalho, ressoa, de modo clamoroso, o processo de alienação em curso, não apenas no Brasil, mas por todo mundo submetido ao modo de produção capitalista. A este respeito, desponta sugestivo o vídeo intitulado “de la servitude moderne” (cf. https://www.youtube.com/watch?v=VOfPUnCOUGI), bem como vale a pena revisitarmos o denso poema de Vinicius de Moraes intitulado “Operário em Construção”, do qual ressaltamos os seguintes versos: “Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão. Como um pássaro sem asas Ele subia com as casas Que lhe brotavam da mão. Mas tudo desconhecia De sua grande missão: Não sabia, por exemplo Que a casa de um homem é um templo Um templo sem religião Como tampouco sabia Que a casa que ele fazia Sendo a sua liberdade Era a sua escravidão.”, “De fato, como podia Um operário em construção Compreender por que um tijolo Valia mais do que um pão? Tijolos ele empilhava Com pá, cimento e esquadria Quanto ao pão, ele o comia... Mas fosse comer tijolo! E assim o operário ia Com suor e com cimento Erguendo uma casa aqui Adiante um apartamento Além uma igreja, à frente Um quartel e uma prisão: Prisão de que sofreria Não fosse, eventualmente Um operário em construção.”, “À mesa, ao cortar o pão O operário foi tomado De uma súbita emoção Ao constatar assombrado Que tudo naquela mesa - Garrafa, prato, facão - Era ele quem os fazia Ele, um humilde operário, Um operário em construção. Olhou em torno: gamela Banco, enxerga, caldeirão Vidro, parede, janela Casa, cidade, nação! Tudo, tudo o que existia Era ele quem o fazia Ele, um humilde operário Um operário que sabia Exercer a profissão.”


Vale, ressaltar a força semântica das linguagens artísticas, inclusive da poesia, por meio da criação empreendida por Vinicius de Moraes, em seu poema acima mencionado, podemos entrever, por exemplo, relevantes passos de como se dá a passagem entre as condições de alienação e o processo de “Consciência de Classe”. Tudo começa pela experiência da brutal exploração sofrida pelo trabalhador, vítima do modo de produção capitalista. Toda via, mesmo nesta dolorosa experiência, o trabalhador “cava” um espaço de liberdade ao ousar pensar sobre sua condição e vai descobrindo quantas potencialidades se acham “escondidas” em sua atividade laboral. Passa, então, a rememorar uma gama de produtos que passam pelas suas mãos, e aí se vê como um produtor, ao mesmo tempo em que se revolta ao descobrir que o seu trabalho, ao oprimi-lo é fonte de enriquecimento para o patrão. Vai-se forjando, assim, sua Consciência de Classe, sobretudo quando também descobre que não é um trabalhador isolado, mas que, ao seu lado, há incontáveis outros trabalhadores e trabalhadoras com quem pode contar, na luta contra sua exploração individual e coletiva.

Partindo destas inspirações poéticas, oferecidas por Baudelaire e Vincius de Moraes, sigamos dialogando com o Jovem Marx, buscando conferir coincidências apreciáveis, inclusive no que toca as potencialidades humanas destruídas pela sociabilidade capitalista, a partir mesmo da deformação da capacidade perceptiva dos humanos, à medida que tal sistema alija os sentidos materiais e imateriais. Vejamos isto no seguinte trecho dos “Manuscritos”:
   
“Consideremos, a seguir, o aspecto subjetivo. O sentido musical do homem só é despertado pela música. A mais bela música não tem significado para o ouvido não-musical, não é um objeto para ele, porque meu objeto só pode ser a corroboração de uma de minhas próprias faculdades. Ele só pode existir para mim na medida em que minha faculdade existe por si mesma como capacidade subjetiva, porquanto o significado de um objeto para mim só se estende até onde o sentido se estende (só faz sentido para um sentido adequado). Por essa razão, os sentidos do homem social são diferentes dos do homem não-social. E só por intermédio da riqueza objetivamente desdobrada do ser humano que a riqueza da sensibilidade humana subjetiva (um ouvido musical, um olho sensível à beleza das formas, em suma, sentidos capazes de satisfação humana e que se confirmam como faculdades humanas) é cultivada ou criada. Pois não são apenas os cinco sentidos, mas igualmente os chamados sentidos espirituais, os sentidos práticos (desejar, amar, etc.), em suma, a sensibilidade humana e o caráter humano dos sentidos, que só podem vingar através da existência de seu objeto, através da natureza humanizada. O cultivo dos cinco sentidos é a obra de toda a história anterior. O sentido subserviente às necessidades grosseiras só tem um significado restrito. Para um homem faminto, a forma humana de alimento não existe, mas apenas seu caráter abstrato como alimento. Poderia muito bem existir na mais tosca forma, e é impossível afirmar de que modo essa atividade de alimentar-se diferia da dos animais. O homem necessitado, assoberbado de cuidados, não é capaz de apreciar o mais belo espetáculo. O vendedor de minerais só vê seu valor comercial, não sua beleza ou suas características particulares; ele não possui senso mineralógico. Assim, a objetificação da essência humana tanto teórica quanto praticamente, é necessária para humanizar os sentidos humanos, e também para criar os sentidos humanos correspondentes a toda a riqueza do ser humano e natural. (...)
A resolução das contradições teóricas somente é possível através de meios práticos, somente através da energia prática do homem. Sua resolução não é, de forma alguma, portanto, apenas um problema de conhecimentos, mas um problema real da vida, que a filosofia foi incapaz de solucionar exatamente porque viu nele um problema puramente teórico. (...)

Na sociabilidade capitalista, o quê representa o Dinheiro, na constituição do “Ser social”?

Componente relevante da/na engrenagem capitalista, o dinheiro se manifesta como elemento (de)formador do ser humano, no contexto da sociabilidade capitalista. Nos “Manuscritos”, Marx também recorre a Shakespeare, para ilustrar as perversas potencialidades do dinheiro, nas sociedades de classes. Sabe-se, por outro lado, que bem antes de Shakespeare, tais propriedades do dinheiro foram demonstradas em versos e prosas. Na Idade Média – para não recuarmos mais no tempo, alguns movimentos populares, a exemplo dos Goliardos (cf., por ex., http://textosdealdercalado.blogspot.com/2018/06/movimentos-libertarios-do-segundo.htm ), já se mostravam mordazes em suas críticas aos miraculosos poderes do dinheiro. Em uma de suas poesias, assim se expressavam, a este respeito:
“O dinheiro reina, soberano, sobre a terra/ É admirado por reis e pelos grandes/ A ordem episcopal, venal, lhe rende homenagem/ O dinheiro é o juiz dos grandes concílios/ O dinheiro faz a guerra, e quando quer, obtém a paz/ O dinheiro é que faz os processos, para que sua conclusão dele dependa/ O dinheiro compra e vende tudo, dá e toma de volta o que deu/ (...) Graças ao dinheiro, o idiota se torna incontestável falante/ O dinheiro compra médicos, adquire amigos prestimosos/ (...) torna barato o que é caro, e suave o que é amargo.”
Havia, sim, um sentimento generalizado de protesto contra as injustiças quer das condições de trabalho, quer do significado do dinheiro, entre os trabalhadores e trabalhadoras medievais, como o lembra Le Goff:
“Nós estamos sempre a tecer panos de seda/ E nem por isso seremos melhor vestidas/ (...) Mas, os nossos salários enricam/ Aquele para quem nós trabalhamos.” 
 No caso específico dos “Manuscritos”, recorrendo a Shakespeare, Marx assim se expressa:
“Shakespeare ressalta particularmente duas propriedades do dinheiro:
(1) ele é a divindade visível, a transformação de todas as qualidades humanas e naturais em seus antônimos, a confusão e inversão universal das coisas; ele converte a incompatibilidade em fraternidade;
(2) ele é a meretriz universal, o alcoviteiro universal entre homens e nações.
O poder de inverter e confundir todos os atributos humanos e naturais, de levar os incompatíveis a confraternizarem, o poder divino do dinheiro reside em seu caráter como a vida espécie alienada e auto-alienadora do homem. Ele é a força alienada da humanidade.
O que sou incapaz de fazer como homem, e, pois, o que todas as minhas faculdades individuais são incapazes de fazer, me é possibilitado pelo dinheiro. O dinheiro, por conseguinte, transforma cada uma dessas faculdades em algo que ela não é, em seu antônimo.”(...)

E o que propõe o Jovem Marx?

Diante deste quadro dantesco alimentado pela lógica do Capital, o Jovem Marx acena para uma saída, que supõe como alternativa, a construção de uma nova sociedade, ou, em seus próprios termos:

“(3) O comunismo é a abolição positiva da propriedade privada, da auto-alienação humana e, pois, a verdadeira apropriação da natureza humana através do e para o homem. ele é, portanto, o retorno do homem a si mesmo como um ser social, isto é, realmente humano, um regresso completo e consciente que assimila toda a riqueza da evolução precedente. O comunismo como um naturalismo plenamente desenvolvido é humanismo e como humanismo plenamente desenvolvido é naturalismo. É a resolução definitiva do antagonismo entre o homem e a natureza, e entre o homem e seu semelhante. É a verdadeira solução do conflito entre existência e essência, entre objetificação e auto-afirmação, entre liberdade e necessidade, entre indivíduo e espécie. É a resposta ao enigma da História e tem conhecimento disso.”

Eis algumas notas despretensiosas a propósito dos Manuscritos de 1844. Não se trata – bem o sabemos – de engessar os escritos marxianos (nem de ninguém), mas de seguirmos buscando, a partir deles, pistas que nos ajudem a enfrentar melhor os desafios presentes.


João Pessoa, 10 de Setembro de 2018.


sábado, 8 de setembro de 2018

SUBVERTENDO AS RELAÇÕES MACHISTAS DO MODELO PATRIARCAL: resumo do capítulo 8º- "Amigo da Mulher" -, do livro "Jesus, aproximação histórica", de autoria do teólogo José Antonio Pagola

SUBVERTENDO AS RELAÇÕES MACHISTAS DO MODELO PATRIARCAL: resumo do capítulo 8º- "Amigo da Mulher" -, do livro "Jesus, aproximação histórica", de autoria do teólogo José Antonio Pagola

Alder Júlio Ferreira Calado
 
Milênios se passam, sem que tenham mudanças substantivas as relações sociais de opressão, a que seguem submetidas as mulheres, sob distintas formas. Aqui, ali, algumas conquistas, arrancadas a duras penas. Mesmo assim, isto não tem sido suficiente para fazer face às escabrosas estatísticas, relativas às mais distintas formas de violência contra as mulheres - dos altos índices de feminicídios, estupros, às desigualdades sócio-econômicas e culturais (desemprego, níveis discrepantes salariais pela mesma função exercida por homens e mulheres, postos de chefia, sem contar as múltiplas formas de discriminação, de que são vítimas no dia-a-dia...) E como se dava isto, no tempo de Jesus? Ele próprio como agia, frente a tais desigualdades? É o que nos oferece o teólogo José Antonio Pagola, no capítulo oitavo, do seu livro "Jesus, aproximação histórica", que vai a seguir resumido.

Este capítulo tem como título, "Amigos das Mulheres". O autor começa a situar o lugar social em que as mulheres se sentem inseridas:
- são as principais vítimas do código de pureza então reinante: por conta da menstruação (ou mesmo do parto, onde o sangue flui, interpretado como um elemento de impureza, as mulheres são avaliadas como seres dos quais se deve manter distância, para não se contaminar;
- são tratadas como propriedade dos homens, devendo-se limitar a servir a todas as suas vontades, inclusive as ligadas às relações sexuais;
- seu papel resumia-se em passarem da dominação do pai à dominação do marido;
- eram-lhes proibidos os espaços públicos: não podiam circular sozinhas ou acompanhadas por homens, nem participar de atos públicos, tinham limites até na participação na sinagoga;
- as que ousassem sair deste circuito social, eram postas à margem da sociedade, sendo empurradas para a prostituição ou a situações de profunda humilhação.
 
É nesse contexto, que Jesus aparece como subversivo deste código misógino. Aproxima-se das mulheres. É seguido por um número expressivo delas, em suas caminhadas pelas aldeias da Galileia. Rompe interditos consolidados: conversa com as mulheres, inclusive com aquelas que nem pertenciam ao seu povo (vide exemplo do seu famoso diálogo com a samaritana); mantém laços de profunda amizade, a exemplo das irmãs Marta e Maria; entretém com Maria Madalena uma profunda relação afetiva, a ponto de ter sido considerada "a apóstola dos apóstolos", tendo que enfrentar o ciúme dos apóstolos.

Entre as páginas 265 e 275, situam-se três tópicos:
- "Um olhar diferente", "Espaço de dominação masculina" e "Discípulas de Jesus". No primeiro destes três tópicos, "Um olhar diferente", o autor, sempre bem fundamentado em diferentes fontes evangélicas (e bíblicas, em geral), segue analisando a postura de Jesus, em relação às mulheres, num contexto sócio-histórico extremamente hostil à dignidade das mulheres. É precisamente aí, que o "profeta do Reino de Deus" se põe a testemunhar uma solidariedade explícita às vítimas do patriarcalismo dominante, no que não teme em afrontar corajosamente as regras do jogo daquela sociedade, ao mostrar-se claramente em defesa e na promoção da dignidade daquelas vítimas. E o faz, em sucessivas circunstâncias e por métodos revolucionários;
- quando a norma dominante era a de tomar-se distância das mulheres, por força dos interditos de impureza, Jesus ousava delas aproximar-se, com elas falar, curar as que Lhe suplicavam cura; 
- quando as leis proibiam que as mulheres fossem acompanhas ou acompanhassem grupos de homens, Jesus se mostrava por elas cercado, a contar-lhes histórias, a partir de uma linguagem com a qual elas se mostravam identificadas;
- enquanto os doutores da lei, no afã de transmitir suas normas - em nome de Deus - cuidavam de multiplicar preceitos e preconceitos, Jesus tratava de pronunciar parábolas, a partir da experiência própria das mulheres, como sucede em relação à do fermento na massa, a da alegria do achado da moeda,após a varredura da casa, etc.; 
- aliás, tal pedagogia era amplamente empregada por Jesus, não apenas em relação às mulheres. Ele a usava, também, com os homens, com os agricultores, lembra o autor, dando como exemplo a parábola do semeador e a da recomendação que Jesus lhes fazia, de que, em sua ida ao campo, contemplassem os lírios do campo, que não tecem, e aos quais o Pai veste com roupa de beleza superior à que vestia Salomão; e que contemplassem os pássaros, que não têm celeiro, e aos quais o Pai não deixa faltar alimento.

No tópico seguinte, "Um espaço sem dominação masculina", o autor descreve as condições concretas de dominação patriarcal, a que eram as mulheres submetidas, seja por seus pais, seja por seus maridos, e com o aval do conjunto da sociedade,com poucas exceções. Jesus, por Sua vez, segue rompendo normas, transgredindo práticas estabelecidas, e fazendo-o, por meio de práticas eficazes, que calavam profundamente os mais aferrados àquele sistema dominante. Por exemplo, no caso do episódio da mulher flagrada em adultério, e levada pra Jesus, para que Ele a condenasse publicamente à morte por apedrejamento, Ele não hesita em dizer aos acusadores: "Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra", uma forma genial de desmascarar os acusadores, adúlteros e hipócritas...

No terceiro tópico - "Discípulas de Jesus" - , Pagola cuida de trazer à tona vários episódios dos Evangelhos, mostrando o protagonismo de várias mulheres, dentre as quais, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e José, Salomé, Marta e Maria, por quem Jesus mostrava grande afeto, e que acompanharam seu grupo de discípulos e discípulas. No caso de Maria Madalena, com um protagonismo especial, tendo sido a primeira pessoa a quem Jesus se revela como Ressuscitado. Outro ponto forte do discipulado feminino está no fato de que, diferentemente dos discípulos, que fugiram, quando da crucifixão de Jesus, elas firmemente se puseram presentes.

O último tópico deste capítulo versa sobre a especificidade de Maria Madalena, como amiga de Jesus. O autor, com base em diferentes fontes evangélicas, atesta o lugar especial que Maria Madalena teve no conjunto dos seus discípulos e discípulas, apesar de ela ter sofrido muita resistência da parte dos próprio apóstolos, inclusive de Pedro, por estranharem o fato o lugar que Jesus reservava à Maria Madalena. 

Será, que tais formas de opressão, de exploração e de marginalização das mulheres são coisas só do passado? E hoje, a despeito de sua organização em movimento sociais e e suas lutas, que lugar lhes é reservado, em nossa sociedade? E em nossas Igrejas Cristãs, que lugar elas ocupam? 

João Pessoa, 8 de Setembro de 2018.  

terça-feira, 28 de agosto de 2018

AÇÃO LIBERTADORA DESDE O CHÃO DOS OPRIMIDOS: Resumo do Capítulo VII "Defensor dos últimos", do livro de José Antonio Pagola. "Jesus, aproximação histórica"

O capítulo sétimo, adiante resumido, trata da preferência de Jesus pelos pobres, os doentes, os necessitados, os pecadores... O autor destaca a situação socioeconômica reinante na Galiléia e arredores, inclusive nos principais centros urbanos, tais como Cesaréia e Séforis. Ao assinalar as extremas desigualdades sociais aí reinantes, em especial entre o modo de vida das elites urbanas e a pungente penúria da vida dos camponeses da Galiléia, o autor vai mostrando, com fundamento nos textos bíblicos, sobretudo nos Evangelhos, bem como em autores especialistas no campo estudado, como Jesus tratava de exercitar incansavelmente sua solidariedade com os últimos daquela sociedade, ao tempo em que cuidava de desmascarar os mecanismos de opressão política, de exploração econômica e de marginalização cultural, de que eram vítimas os empobrecidos. E Jesus o fazia, como de hábito, por meio de parábolas. Uma delas, a do pobre Lázaro e a do rico que se banqueteava, insensível ao sofrimento dos pobres. Enquanto o rico epulão – acompanhado de seus comparsas, deliciava-se em seus banquetes Nababescos, a massa sobrante dos pobres da cidade e do campo – dos quais Lázaro constitui uma representação emblemática -, se arrastava, coberto de feridas, que os cães vinham lamber, atrás de migalhas jogadas ao chão pelos banqueteadores. Tempo depois, Lázaro vem a falecer, e é acolhido por Abraão. Também, o rico vem a morrer, e vai para o “Sheol” (lugar da infelicidade), onde, ao avistar Lázaro, agora feliz, na companhia de Abraão, no Paraíso, e a este se dirige, suplicando que Abraão mande a Làzaro, de volta à terra, até seus irmãos, para avisá-los do lugar terrível em que ele, o rico insensível ao sofrimento dos pobres, agora se acha, pedindo que Lázaro vá advertir seus irmãos, para evitarem de fazer o mal. Mas, intervindo, Abraão declara haver um abismo insuperável entre ele e Lázaro, e que não adianta que Lázaro desça para advertir os irmãos do rico, pois lá eles têm os profetas, então que os escutem. O rico contesta, afirmando que eles só escutariam, se lhes fosse enviado um morto, ao que Abraão retruca, dizendo que, se eles não escutam os vivos, tampouco escutariam um morto. Ao recorrer à parábola, como seu instrumento pedagógico predileto, o autor afirma que a intenção de Jesus é menos a de descrever a vida no além, e mais a de denunciar as injustiças sociais clamorosas daquela sociedade.

Outras parábolas e episódios evangélicos são ainda mencionados pelo autor, sempre com o propósito de mostrar que os últimos são os prediletos da ação misericordiosa de Jesus: os leprosos, os cegos, os coxos, os surdos, as mulheres marginalizadas, os pobres, os pecadores, os injustiçados, em favor de quem sempre agiu, e por causa de quem foi acusado de “comilão” e “beberrão”. Um Jesus tão humano – é o que o autor cuida de nos mostrar, bem fundamentado na Sagrada Escritura e em vasta documentação pesquisada.

Como em toda sociedade de classes, também a Galiléia do tempo de Jesus achava-se marcada pela segregação e por profundas desigualdades sociais. Na base daquela pirâmide social, estavam os desvalidos, os indesejáveis, a massa sobrante, os "Zé-Ninguém", os desclassificados, os que viviam à margem: mendigos, vítimas da prostituição, aleijados, cegos, leprosos... Eram vítimas de múltipla segregação: econômica, política, cultural, religiosa. Viviam explorados pelos grandes latifundiários de então, trabalhando (se e quando encontravam algum trabalho, como diaristas). Mal conseguiam obter o pão de cada dia. Também sofriam o peso da dominação de classe, de religião e dos valores predominantes. Eram igualmente desprezados em sua vida cultural, sendo-lhes vedada a participação em eventos privativos dos puros. Eram, portanto, segregados também pela religião, vítimas da cruel vigência de 2 códigos que regiam o cotidiano das relações sociais de então: o código da exclusão sócio-econômica e o código da santidade (ou da "pureza").

no que diz respeito ao código da santidade, viviam excluídos dos espaços considerados puros, em especial do templo, a grande marca dos puros (dos sacerdotes, dos fariseus, enfim, dos "puros"). A novidade irrompe nas práticas e no estilo de um profeta chamado Jesus. Não apenas sua pregação, mas sobretudo suas práticas se confrontavam fortemente com os valores dominantes. Não apenas porque acolhia ternamente os "debaixo", mas a eles se misturava, conversando, fazendo refeições e brindando, donde a acusação e o estranhamento dos que com ele se escandalizavam, chamando-O de "comilão", "beberrão", cúmplice dos pecadores.

É, sobretudo, no tópico seguinte - "amigo dos pecadores"-, que o autor cuida de descrever o comportamento de Jesus face a esse conturbado contexto. Enquanto, de um lado, imperavam as práticas de segregação, Jesus aparecia como um verdadeiro rebelde a esses valores dominantes. Diferentemente da lógica ritualística, característica do Antigo Testamento, em que segundo o livro do levítico e outros, vigia o código de santidade (o essencial é cumprir centenas de normas para se mantes santo), Jesus, por sua vez, contrapunha um outro código - o código da compaixão. Em consequência desta reviravolta trazida por Jesus, a santidade se traduzia, não pelas formalidades ritualísticas praticadas em nome de Deus mas pelas práticas de compaixão, de acolhimento, de solidariedade com as vítimas daquele sistema: os pobres, os mendigos, os paralíticos, os cegos, os surdos, os leprosos, as mulheres...   


O capítulo "Defensor dos últimos" encerra-se com uma longa e pertinente reflexão sobre a atitude de Jesus em relação aos marginalizados, aos discriminados, aos desvalidos: atitude de compaixão, de acolhimento, de profundo respeito pela sua dignidade de pessoas e de incentivo à recuperação de sua auto-estima, sabendo-se como filhas e filhos de Deus muito amados. Eis por que cai como uma luva aquela parábola do rei que preparou um grande banquete para os seus amigos - pessoas privilegiadas pela sua condição sócio-econômica, tendo com elas ajustado data. Ao preparar o grande banquete, envia seu servo a confirmar a festa junto aos mesmos convidados. Estes, porém, um após outro, se põem a desculpar-se, inventando os mais deferentes motivos, para não irem ao banquete. Contrariado com a recusa, o rei torna a enviar seu servo, desta vez, a quem encontrasse pelas praças e pelas ruas, convidando a todos, independentemente de sua condição: cegos, coxos, mendigos. Nem esta ordem tendo surtido o efeito desejado, mandou o rei que o servo voltasse e compelisse a trazer quem encontrasse, inclusive os forasteiros. Em sua reflexão, o autor deixa clara a proposta do Reino de Deus: acolher a todos em Seu banquete, sem qualquer discriminação. Eis por que Jesus se mostra amigo dos pecadores, tendo mesmo chegado a advertir os que se têm como "puros", de que os publicanos e as prostitutas os precederão, no Reino dos Céus, e que não são os sadios que precisam de médico, mas sim os doentes. 


João Pessoa, 28 de agosto de 2018.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Igreja e Realidade Social: Problemas e Perspectivas "Pontos do curso ministrado por Alder Júlio Ferreira Calado", junto à comunidade Paroquial de Manaíra - João Pessoa - PB (Julho - Setembro, 2006)


COMUNIDADE PAROQUIAL DE SÃO PEDRO PESCADOR

CURSO DE FORMAÇÃO CONTÍNUA
TEMA: A REALIDADE SOCIAL À LUZ DA BÍBLIA E DA DOUTR. SOC. IGR. MINISRANTE: Alder Júlio Ferreira Calado
DIAS: 12, 19 e 26/07 e 02/09/2006

PROPOSTA DO CURSO


          A iniciativa busca dar seqüência à demanda da Comunidade Paroquial, de assegurar aos membros dos distintos setores, serviços, movimentos e associações da Paróquia, cursos, seminários ou oficinas, que lhes permitam a contínua atualização e aprofundamento de temas relevantes para a sua formação teológico-pastoral e de cidadã(o)s.
          Neste ano, após várias semanas seguidas de estudos sobre o Evangelho de Marcos, animados pelo Diácono Valter Paiva, a Equipe responsável está oferecendo um breve curso sobre a atual realidade brasileira e internacional, à luz dos ensinamentos bíblicos e da Doutrina Social da Igreja.
          O curso vem sendo oferecido pelo Diácono Alder Júlio F. Calado, sociólogo, em quatro semanas seguidas, sempre às quartas-feiras, das 19h30 às 21 horas.

TEMAS TRATADOS

          Tendo em vista tratar-se de um mini-curso (apenas quatro sessões), a proposta é de buscar fazer uma rápida abordagem dos seguintes tópicos:

1 - Aproximação conceitual sobre o sentido de “Realidade social” e de “Doutrina Social da Igreja” (Foi o assunto da primeira sessão).

2 – Principais desafios da atual realidade social

3 – Um olhar sobre tais desafios à luz dos ensinamentos bíblicos, da tradição e da Doutrina Social da Igreja.

4 – Que pistas podemos, enquanto cristãos e cristãs, recolher desses ensinamentos para um enfrentamento crítico-propositivos dos desafios atuais?


DINÂMICA

          As sessões começam com uma breve exposição pelo ministrante acerca do tópico da respectiva noite. Em seguida, faz-se uma rodada de intervenções por parte das pessoas presentes. Cabe ao ministrante tentar “costurar” os pontos mais relevantes socializados na discussão.




COMUNIDADE PAROQUIAL DE SÃO PEDRO PESCADOR

CURSO DE FORMAÇÃO CONTÍNUA
TEMA: A REALIDADE SOCIAL À LUZ DA BÍBLIA E DA DOUTR. SOC. IGR. MINISRANTE: Alder Júlio Ferreira Calado
DIAS: 12, 19 e 26/07 e 02/09/2006



1A. SESSÃO (12/07/2006): APRESENTAÇÃO DA PROPOSTA E DISCUSSÃO DOS CONCEITOS ELEMENTARES DO CURSO


- Apresentação e discussão sobre os temas e dinâmica propostos para o Curso
- Conceitos básicos a serem trabalhados:
* Realidade Social: Conjunto das relações que nos envolvem nas distintas circunstâncias do existir, e das quais também somos expressão e protagonistas, no dia-a-dia. São constituídas de três esferas básicas:

a esfera econômica: diz respeito às atividades de produção, nos distintos setores que compõem o processo de produção: o setor primário (agricult., pecuária, extrativismo); o setor secundário (artesanato e indústria) e setor terciário (o da circulação dos produtos e dos bens, via serviços e comércio);
a)    a esfera política: envolve as realações de poder, como este se acha estruturado e como é exercido. Envolve relações com o Estado e as micro-relações da Oikía;
b)    a esfera cultural: (envolve as relações que implicam valores, idéias, ideologias, interesses, crenças, etc.).

* Doutrina Social da Igreja: É também conhecida por outros nomes: Ensinamento Social da Igreja, Magistério Social da Igreja, etc. Não tendo, embora, valor de dogma, apresenta a posição oficial da hierarquia da Igreja sobre temas de natureza social, econômica, política e cultural. Suas raízes mais fundas estão fincadas nos ensinamentos bíblicos e nos ensinamentos pastorais das gerações de cristãos dos primeiros séculos, na tradição dos chamados Padres da Igreja...
Essa expressão passou a ser consagrada, a partir do final do século XIX, com a publicação da Encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, em 1891. Daí por diante, outros papas também se pronunciariam sobre os desafios da conjuntura de sua época: Pio XI (1931: Quadragésimo Anno), João XXIII (1961: Mater et Magistra, e 1963: Pacem in Terris); Paulo VI (1967: Populorum Progressio; 1971: Octogesima Adveniens), João Paulo II (1981: Sollicitudo Rei Socialis; 1991: Centesimus Annus), Bento XV (2006: Deus Charitas est). Além de se pronunciar por meio de encíclicas sociais, cartas apostólicas e outros instrumentos, convém ainda destacar a importância de outros pronunciamentos como alguns documentos conciliares (Gaudium et Spes, Apostolicam Actuositatem...) e alguns documentos das conferências episcopais regionais (a exemplo do Documento de Medellín, do Documento de Puebla) e nacionais.

COMUNIDADE PAROQUIAL DE SÃO PEDRO PESCADOR

CURSO DE FORMAÇÃO CONTÍNUA
TEMA: A REALIDADE SOCIAL À LUZ DA BÍBLIA E DA DOUTR. SOC. IGR. MINISRANTE: Alder Júlio Ferreira Calado
DIAS: 12, 19 e 26/07 e 02/09/2006


2a SESSÃO DO CURSO SOBRE REALIDADE SOCIAL
(MANAÍRA, PARÓQUIA DE S. PEDRO PESCADOR, 19/07/2006)

PRINCIPAIS DESAFIOS DA ATUAL REALIDADE SOCIAL


1. NA ESFERA ECONÔMICA
- Concentração de riqueza, de rendas, de terras...
- Hegemonia do capital financeiro, o mais parasitário do Capitalismo
- A política de endividamento
- A política de privatização do patrimônio nacional, nos países periféricos


2. NA ESFERA POLÍTICA
- O império das transnacionais e seus aliados do G-7
- A perda de soberania dos Estados nacionais
- A subserviência dos governos ao império do Capital
- A impotência dos partidos para mudar tal espectro


3. NO PLANO DA CULTURA
- O império da mídia
- A inversão de valores
- O império das religiões de mercado
- A desintegração da família

4. TRECHOS BÍBLICOS QUE AJUDAM A DISCERNIR

O Sl 115 nos convida a discernir os sinais dos tempos, à luz do Projeto de Deus, aguçando o alcance de nossos sentidos: olhos, ouvidos, coração, etc.

Rm 12, 2: “Não se amoldem às estruturas deste mundo”

1Ts 5, 21: “Examinem todas as coisas e retenham o que é bom.”

Mc 10, 42-45: alerta-nos para não reeditarmos as estruturas de dominação características dos nossos tempos, convidando-nos a apostar na pedagogia do serviço: “Entre vocês não seja assim.”



COMUNIDADE PAROQUIAL SÃO PEDRO PESCADOR (MANAÍRA)
CURSO DE FORMAÇÃO CONTÍNUA
TEMA: A REALIDADE SOCIAL À LUZ DA BÍBLIA E DA DOUTR. SOC. IGR. MINISRANTE: Alder Júlio Ferreira Calado
DIAS: 12, 19 e 26/07 e 02/09/2006

3a. SESSÃO (DIA 26/07/2006)

UM OLHAR SOBRE TAIS DESAFIOS À LUZ DOS ENSINAMENTOS BÍBLICOS, DA TRADIÇÃO E DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA.

*Conceito de Bem Comum: “Consiste no conjunto de todas as condições de vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral  da personalidade humana.” (Pacem in Terris, p. 36)

*Sobre o destino universal dos bens e das riquezas: Gaudium et Spes, N. 69

*Sobre o direito de quem, estando em extrema necessidade, recorrer a quem tem, para satisfazer suas necessidades: Gaudium et Spes, n. 69

*Sobre o direito de propriedade: Populorum Progressio, n. 23

* Sobre o esbanjamento público ou privado: Populorum Progressio, n. 53.

* Sobre o dever de se distinguir “Caridade” de Justiça: Apostolicam Actuositatem, n. 8.

* A concentração de riquezas é um escândalo: Populorum Progressio, nn. 9 e 33.

* Conceito de desenvolvimento integral: Populorum Progressio, n. 42.

* Garantia de emprego pleno: Pacem in Terris, p. 36 e Octogésima Adv., n. 14,

* Defesa da destruição de todas as armas atômicas: Pacem in Terris, p. 55.

* Condenação da concentração de riquezas e do “imperialismo do dinheiro”: Mater et Magistra, nn. 32 e 33.

* Sobre o protagonismo dos agricultores: Mater et Magistra, n. 141.

* Denúncia das multinacionais: Octogésima Adveniens, n. 44.

* O Cristianismo não se confunde com nenhum sistema político, inclusive a Democracia: Octogésima Adveniens, n. 34 e Centesimus Annus, n. 13.

* A Democracia formal reedita erros do Socialismo real: Centesimus Annus, n. 46.
COMUNIDADE PAROQUIAL SÃO PEDRO PESCADOR (MANAÍRA)
CURSO DE FORMAÇÃO CONTÍNUA
TEMA: A REALIDADE SOCIAL À LUZ DA BÍBLIA E DA DOUTR. SOC. IGR. MINISRANTE: Alder Júlio Ferreira Calado
DIAS: 12, 19 e 26/07 e 02/09/2006

4a. SESSÃO (DIA 02/08/2006)

QUE PISTAS PODEMOS, ENQUANTO CRISTÃOS E CRISTÃS, RECOLHER DESSES ENSINAMENTOS PARA UM ENFRENTAMENTO CRÍTICO-PROPOSITIVOS DOS DESAFIOS ATUAIS?

          Pistas são, como se sabe, vestígios, sinais indicativos de algo ou de alguém que se busca. Não são “receita”. Enquanto cristã(o)s e cidadã(o)s, somos chamados a, não apenas conhecer melhor os problemas sociais que nos afligem, mas sobretudo a buscar enfrentá-los e superá-los. Como tentativa, portanto, é que devemos entender a indicação das seguintes pistas, considerando as reflexões que temos feito, durante essas quatro semanas sucessivas por nós vivenciadas.

- Buscar responder ao apelo evangélico do “Vigiem e orem” (Mc 14, 38) – Manter-nos antenados aos sinais que o Espírito de Deus nos inspira, por meio dos acontecimentos do dia-a-dia. Ver melhor o que não conseguimos enxergar bem, ou nem chegamos a perceber. Ouvir coisas distintas daquelas às quais nos habituamos, sucumbindo à mesmice à mediocridade, à lógica do “menos ruim”. Sentir tantas coisas que estão acontecendo e que, por não nos mexermos, não percebemos, e em relação às quais nada fazemos. Em breve: aprimorar sem cessar nossa capacidade perceptiva. Ir atrás das “correntezas subterrâneas”...

- Manifestar nossa indignação ante as injustiças praticadas por parte de quem quer que seja e cometidas não importa contra quem, deve ser um primeiro passo. Gesto que nasce do nosso incessante esforço de conhecer melhor a realidade por suas causas. Isto implica, entre outras atitudes, buscar acercar-nos de fontes fidedignas. Pretender conhecer bem o Brasil pelos telejornais é passar atestado de desinteligência... Sugestões de fontes alternativas: Revista Caros Amigos; Sem Fronteira, Mundo Jovem, Brasil de Fato, entre outras. Sites interessantes: alainet.com , andes.org.br , cnbb.org.br (análise de conjuntura), servicioskoinonia.com

- Ir além da indignação – Esta constitui um primeiro passo importante. Mas, não é suficiente. Não queremos apenas denunciar. Precisamos anunciar, por gestos, palavras e atitudes criativas, que um outro mundo é possível. Para sermos, porém, levados a sério por quem nos ouve, temos que dar provas convincentes de que estamos mesmo engajados para valer, buscando começar a mudança por nós mesmos. Sermos melhores hoje do éramos ontem, e amanhã, do que somos hoje.

- Ousar para nós um programa de formação contínua – Se desejamos mesmo mudar o mundo, começando de nós, precisamos aprender, aprender e aprender incessantemente. Nossa educação é lacunosa. Não criamos o hábito de seguir aprofundando nossa visão de mundo, de sociedade, de ser humano, de Igreja. Isso exige estudo continuado, formação incessante, tanto no plano social como no plano teológico. Que tal organizarmos um plano de leituras para os próximos quatro anos, a partir dos temas que mais nos interessem acerca da realidade social e da Igreja?  Autores e autoras tais como Paulo Freire, Milton Santos, José Comblin, Pedro Casaldáliga, Frei Betto, Leonardo Boff, Eduardo Hoornaert, Rubem Alves, Elsa Tamez, Ivone Gebara, Marcelo Barros, César Benjamin, Ricardo Antunes, entre tantos outros e outras. São igualmente fecundas produções como as do CEBI, da CEHILA, do DEI (órgão de pesquisa ecumênica, da Costa Rica), etc.

- Buscar fecundar os nossos bons achados, em qualquer área de saber, sendo conseqüentes e testemunhando no dia-a-dia com práticas coerentes. – No Projeto de Deus, todo bom aprendizado tem que se traduzir em ações concretas. Não vale aprender por aprender, mas aprender para mudar, para ser melhor, para tornar melhores a nós mesmos e as pessoas com quem vivemos.

- Estender nossa tenda para além de nossa casa – Assim, vamos amar de tal modo nossa família, que vamos buscar ampliar essa família, buscando que muito mais gente dela faça parte: a família humana, sentindo o Planeta como a casa de todos os viventes. As relações com o Estado (política partidária, Governo, eleições, Parlamento) constituem uma dimensão importante de nossa atividade política, mas, não apenas não devem esgotar nossas atividades de cidad(ã)os, como também, dependendo da conjuntura  - e este parece ser o caso atual - devem ser relativizadas, à medida que podemos encontrar espaços alternativos com maior potencial transformador, como, por exemplo, ajudando a organizar os movimentos sociais populares, os principais protagonistas de transformação social alternativa.

- Compreender melhor as potencialidades e principalmente os profundos limites de instituições como Estado, Governo, Parlamento, Partido, etc., em comparação com outros sujeitos sociais de maior poder de mudança.

- No plano eclesial, tomando como referência definitiva o Evangelho, e vencendo a tentação de obediência cega às suas estruturas (contrariando inclusive o alerta de At 5, 29), exercitar uma leitura orante da Sagrada Escritura, e tirar as conseqüências práticas que o Espírito nos comunica, Ele que é o Doador dos Dons. Leitura orante que pode ser ajudada por um plano de leituras sobre História da Igreja (Hoornaert, Comblin, Beozzo, por ex.) e outros temas correlatos.




 João Pessoa, 10 de julho de 2006.