sexta-feira, 29 de abril de 2022

QUANDO A DOR PÕE À PROVA UM LUTADOR

 QUANDO A DOR PÕE À PROVA UM LUTADOR


Alder Júlio Ferreira Calado 


O relógio vira, então, um tempo eterno 

Quando a dor me visita corpo e alma 

É difícil encontrar o que me acalma

Primavera de vez se faz inverno

Sem ter bem ao alcance algo mais terno

A esperança, porém, não me ilude

Só me leva a tomar uma atitude

De fiar-me, de todo, ao Deus da vida 

Esta mãe carinhosa e desmedida

Que assim aja eu, e jamais mude


João Pessoa, 28 de Abril de 2022, 16.15


segunda-feira, 11 de abril de 2022

BRASIL, NA ANTE-SALA DA BARBÁRIE. É POSSÍVEL EVITAR O PIOR?


Alder Júlio Ferreira Calado



Estas notas estão sendo redigidas em um contexto internacional extremamente beligerante. O conflito em campos ucranianos já dura mais de 40 dias, sem sinal convincente de um cessar-fogo. Diante da guerra de versões, convém sempre conferir uma diversidade de fontes. Na semana passada, a senhora Lola Melnyck, nascida na Ucrânia, e de família russa, atualmente residente no Brasil, concedeu uma entrevista a Breno Altman de Opera Mundi, que julgamos oportuno conferir (link: https://www.youtube.com/watch?v=Cz8Tn08bB6Q ). Mas não é deste conflito que aqui tratamos. 


Resulta extremamente destrutivo o ritmo avassalador de desmantelamento do tecido social brasileiro. Impacta-nos profundamente o grau de degenerescência da frágil “democracia” brasileira. As instituições cada vez mais corroídas propiciam grave ameaça às condições de vida, de trabalho e de organização do povo brasileiro, graças à ganância incontrolável dos grandes grupos econômicos transnacionais e nacionais. Grave risco ou uma ante- sala para a barbárie, cujos sinais já podem ser observados, haja vista o poder deletério do bolsonarismo, fruto de sucessivos golpes, pelo menos, desde 2013/2015.


Ao observarmos a atual realidade brasileira, comparando-a à de uma década atrás, nos sentimos bestificados com a profundidade e a extensão dos estragos produzidos pelo Golpe a que vem sendo submetido o país, desde pelo menos 2015. Este sentimento nos remete a duas figuras. Comecemos por uma cômica, um personagem interpretado por Jô Soares, no programa “Viva o Gordo”, dos anos 80. Hospitalizado, havia vários anos, em coma, eis que de repente o personagem desperta, procurando notícias sobre o Brasil, durante o período do Coma. Seu interlocutor o informa de gritantes novidades, no cenário político. Tal é o choque que sente, que prefere retornar ao coma… Outra figura à qual nos sentimos remetido, é a de Florestan Fernandes. Em um de seus memoráveis artigos, publicado no Jornal do Brasil em 1º de Maio de 1990, intitulado “Um amargo quarto de século”, Florestan Fernandes se queixava de que, apesar de incessantes lutas nesses 25 anos, as coisas haviam se agravado consideravelmente para as classes populares. O sentimento que hoje experimentamos é muito pior. A realidade social brasileira tem se agravado cada dia mais. 


Faz parte do jogo democrático a convivência com dissensos e conflitos, bem como com situações de vulnerabilidade institucional. Não é disto, porém, que tratamos aqui. Tem, antes, a ver com todo um longo período de constantes ataques à nossa frágil “democracia”. Com efeito, desde pelo menos 2013, toda uma cultura de golpes vem se instalando crescentemente na sociedade brasileira, tendo-se aprofundado gravemente, desde 2015. 


Tais ataques alcançam praticamente todo o tecido social, desde a economia (as contas-reformas trabalhistas, previdenciárias, além das privatizações de empresas estatais estratégicas, desemprego estrutural, o iníquo sistema tributário extremamente regressivo e outros males, constituem exemplos emblemáticos), passando pelas gravíssimas crises socioambientais, sanitária (Covid-19), habitacional, da saúde, da educação, da segurança pública, entre outras, bem como pela esfera política (constantes retrocessos na governança, as setores populares sequestrados pelo Executivo e pelo Legislativo, as profundas contradições do judiciário, a cumplicidade dos militares…)


Diante deste quadro de devastação econômica, política, cultural, ética, somos remetidos a reflexão crítica proposta por Enrique Dussel, em seu livro “ Vinte teses de política”, em especial sua quinta tese, a que se debruça sobre “a fetichização do poder”.


Em sua quinta tese, com base em Karl Marx, Dussel nos apresenta magistralmente aspectos fundamentais das origens do atual desmantelamento do tecido social latino americano, também válida para o Brasil. Com efeito, as classes dominante e dirigente têm se empenhado, sem cessar, no esgarçamento do nosso tecido social. A fetichização constitui uma marca nítida de sua estratégia para a implantação de sementes de barbárie, fetichização que se constitui pela absolutização do poder, da “potestas”, em detrimento dos interesses da “potentia”, isto é, da sociedade correspondente aos interesses da classe dominada, dos trabalhadores e trabalhadoras, do povo dos pobres. É disto que ele trata quando se refere a uma sociedade “despotencializada” pelo Estado e seus aparelhos. A absolutização do poder, sob diferentes aspectos, faz irromper uma profunda inversão de valores, jogo no qual a mentira, a farsa, o ódio, a hipocrisia passam a ser os valores dominantes, em nossa sociedade.


A fetichização do poder tem, com efeito, graves consequências. O Estado brasileiro, tomado de assalto pelas instâncias do executivo, do legislativo, com a omissão ou cumplicidade também do judiciário e do Partido Militar, ao qual a sociedade brasileira deve tomar como o maior desafio para a Democracia brasileira. A partir daí, o poder vai se corrompendo, invertendo os objetivos declarados de representatividade do povo brasileiro. Os próprios eleitos, submetidos ao poderio econômico, por meio do financiamento de suas respectivas campanhas eleitorais, não bastassem as gravíssimas consequências dos chamados fundo partidário e fundo eleitoral, resultando em um verdadeiro assalto aos empobrecidos. Por meio de projetos tirânicos de usurpação do poder e dos interesses da enorme maioria do povo brasileiro, deliberam leis profundamente iníquas, agravando a miséria, as desigualdades sociais, implantando um caos, um retrocesso a demandar, para sua superação, trabalhos de gerações. Assim sucedeu com a contrarreforma trabalhista, rasgando a CLT, que já não era o ideal para a classe trabalhadora, implicando um aumento enorme das condições de trabalho, da precarização da vida de milhões de brasileiros e brasileiras. Uma das marcas desta iniquidade pode ser representada pelo chamado “trabalho intermitente”, em que o direito ao trabalho fica extremamente comprometido, uma vez que a força de trabalho vendida pelos trabalhadores e trabalhadoras, apenas em parte muito ínfima, é atendida. A contrareforma trabalhista consititui uma marca profunda da crueldade da classe dominante e dirigente brasileira, formada por descendentes da Casa Grande, do Escravismo, dos Senhores de Terra e Latifúndio, dos que alimentam ódio ao povo trabalhador, aos povos originários, aos negros e negras, aos favelados, aos periféricos. Sinal evidente desta barbárie se encontra nas longas filas para aquisição de ossos nos monturos em que o lixo é jogado, onde se encontram pessoas em busca de comida. Precisamente em uma conjuntura em que os principais bancos obtiveram lucros escandalosos…


A crueldade da classe dominante e dirigente no Brasil não se limita à contra reforma trabalhista. Avança, voraz e predadora, também no campo previdenciário, de cuja recente contra reforma resulta quase impossível aposentadoria para grande número de trabalhadores e trabalhadoras. Igualmente tem-se mostrado perversa esta mesma classe dominante e dirigente, em muitas outras esferas. Na saúde, por exemplo, os governantes se mostram cúmplices dos controladores da saúde privada, injetando nas instâncias privadas de saúde as mais vantajosas verbas, à custa da degradação da saúde pública. O mesmo sucede no campo da educação, em que do tesouro nacional saem gordas verbas para aumentar o privilégio em escolas particulares, sempre em detrimento da educação pública.


Gritante ainda é o que se tem feito na esfera sócio-ambiental: uma crescente devastação das condições ambientais, graças ao expansionismo territorial do agronegócio, sobre a Amazônia e sobre as terras indígenas, aliadas às grandes empresas de mineração, aos garimpos ilegais, à rede de instâncias controladoras dos agrotóxicos que se tem derramado letalmente sobre o nosso solo, sobre o subsolo, sobre nossas fontes e rios, sobre a flora, sobre nossos animais e sobre os humanos, em que numerosas pesquisas vêm dando conta do espantoso número de câncer em trabalhadores e trabalhadoras que atuam sob a égide do agronegócio.


Por mais que nos espante e escandalize cada item da vasta e crescente lista de escândalos e delitos cometidos com frequência inédita pelo atual desgoverno Bolsonaro e seus cúmplices, vale a pena observar que cada um desses graves delitos merece ser detalhadamente estudado, como condição de um entendimento mais aprimorado da letalidade da atual ou das atuais políticas governamentais. Para fins de ilustração, limitamo-nos a apenas um de centenas de exemplos de delitos cometidos impunes pelo atual desgoverno. Referimo-nos à esfera sócio ambiental. Em recente ação movida por alguns partidos políticos contra a criminosa política ambiental conduzida pelo atual desgoverno e em julgamento pelo STF, tivemos a oportunidade de ouvir atentamente o voto proferido pela ministra Carmen Lúcia um estendo e substancioso voto, inspirado também em um relevante vídeo produzido por especialistas no campo socioambiental a mostrar a letal transformação, graças  a atitudes omissivas e comissivas realizadas pelo governo bolsonaro, do qual o ex-ministro Ricardo Sales é o maior exemplo de descompromisso com a causa socioambiental, para tanto recomendamos acompanhamento tanto por voto da ministra Cármen Lúcia como do vídeo acima mencionado.


A fetichização do poder também se tem feito no campo da cultura, na esfera religiosa. De fato, temos vivido, no Brasil, uma perigosa inversão de valores, em que os princípios elementares de verdade, de justiça, de honradez tem dado lugar a estratégias vulpinas baseadas na mentira, na introjeção do medo como arma de dominação, em fake news, no espalhamento do ódio de classe, de cor, na xenofobia seletiva, todos os dias protagonizados pela mídia hegemônica, a serviço da barbárie do Capital, sem falar no mal provocado pelo fundamentalismo religioso. Diante de um quadro tão sombrio, ainda há lugar para esperançamento?



É possível evitar o pior?

É possível que alguns estejam tomados de desespero, diante deste dantesco cenário. Olhando, porém, em perspectiva histórica, não devemos esquecer que, sim, a humanidade já experimentou, em outros períodos, situações iguais ou piores. No caso específico da sociedade brasileira, por mais tenebroso que se mostre o cenário atual, é tarefa nossa empenharmos em evitar o pior, como o primeiro passo para uma retomada, em novo estilo, do Trabalho de Base. Neste sentido, visando a contribuir com o debate, ousamos submeter a discussão algumas propostas de enfrentamento do quadro atual.


Em recente artigo escrito por Frei Betto, “cadê o povo?” (cf. https://domtotal.com/artigo/9907/2022/03/cade-o-povo/ ), ele traz a tona, além de uma rememoração dos feitos trágicos produzidos pelo Desgoverno Bolsonaro, uma lista pertinente de forças, de movimentos populares e de outras organizações de base em nossa sociedade, instando-as a enfrentarem este desafio.


Não se trata, como ele mesmo lembra, de negar iniciativas fecundas que andam acontecendo, nas correntezas subterrâneas: alguns movimentos populares, coletivos feministas, lutas populares nas favelas, etc. Sucede que, por mais heróicas e combativas, apenas tais organizações não são suficientes para um enfrentamento exitoso dos atuais desafios. Em verdade, estas forças de mobilização apresentam um simbolismo alvissareiro, mas ainda estão distantes de um nível desejável de mobilização social, como já tivemos nos Brasil, em décadas passadas. É certo que, nunca antes, chegamos a tal grau de degenerescência institucional, em que as classes dominantes e dirigentes que tem se apresentado com tanta voracidade, com tanta gana de poder e de riqueza, a custa das maiorias empobrecidas. Os escândalos mais recentes protagonizados pelo Ministério da Educação (ingerência de Pastores em falcatruas repugnantes, superfaturamento de ônibus escolares…) constituem apenas uma pontinha do iceberg de pilhagem do dinheiro público, levada a efeito nas diversas esferas, da economia, da política, da cultura, todos invariavelmente sob o signo da impunidade, a começar da figura do presidente da república, com sua vastíssima lista de delitos impune, graças a crescente corrosão das instituições e ao cúmplice silêncio e inércia de nossas organizações de base.


Em vista de uma posição proativa de nossas organizações de base, movimentos populares, pastorais sociais, forças de esquerda, podem ser úteis alguns passos a serem empreendidos.


Trabalho de base em novo estilo: o quê? para quê? como?


A expressão “trabalho de base” é amplamente conhecida pelas forças de mudança, especialmente pelos movimentos sociais, que trabalham na perspectiva da construção de uma nova sociedade alternativa da barbárie capitalista, mesmo assim, vale a pena destacar o sentido de “trabalho de base”, que temos preconizado. Significa, principalmente, a realização contínua da principal tarefa de transformação social, que deve caracterizar a rotina daqueles e daquelas que se comprometem com a construção de uma nova sociedade, alternativa ao capitalismo. Significa o cuidado permanente com a formação de núcleos populares, de células, de conselhos populares, de pequenas comunidades, de círculos de cultura ou que outro nome tenha, no sentido de firmar um amplo movimento de construção das bases sociais, políticas, econômicas, políticas e culturais, em vista desta transformação social. Não se trata - eis a razão da insistência da expressão “em novo estilo” em simplesmente criar estes núcleos, mas de mantê-los fortalecidos, ao longo do tempo, com três objetivos fundamentais: 

- criar e manter o compromisso organizativo desses núcleos populares; 

- Encetar um amplo e permanente programa de formação destes sujeitos sociais;

- Estimular, a partir das bases anteriores, um programa permanente de lutas dinamicamente conectados com as tarefas organizativa e formativa;


Não se trata aqui, de pretender-se reinventar a roda, até porque em doses moleculares isto tem acontecido, ontem e hoje, em diferentes experiências protagonizadas pelo que chamamos de correntezas subterrâneas, isto é experiências levadas a termo por alguns movimentos sociais populares, por associações, por cooperativas, pro organizações de base da nossa sociedade. Trata-se sim, de ampliar essas experiências, tanto do ponto de vista quantitativo, quanto do ponto de vista qualitativo.


Espanta-nos especialmente nos últimos anos, a fragilidade das forças de transformação social, de não terem prosseguido, de modo desejável o fortalecimentos destas experiências, se por um lado, podemos debitar a Covid-19 parte das razões deste enfraquecimento, por outro lado, é preciso reconhecer parcela significativa de responsabilidade que recai sobre estas forças de transformações sociais. Atribuir o recuo destas forças sociais apenas a crise sanitária não ajuda o processo de autocrítica, haja vista que em diversas experiências de mobilização popular, em países latino americano se deram também durante a Covid-19. Também, importa destacar um certo atrelamento incondicional as forças partidarias da parte de diversos sujeitos sociais populares, de modo a superestimarem o papel partidário em detrimento de uma construção popular de autonomia dos movimentos sociais populares e de outras organizações de bases de nossa sociedade. Tal atrelamento tem - devemos reconhecê-lo - enorme responsabilidade no inexplicável recuo que tivemos na mobilização dos movimentos populares e outras forças, justamente quando as forças neo-fascistas vem ameaçando, a olhos vistos e sob diversos aspectos, a organização de nossa sociedade civil, sem contar os profundos estragos econômicos, políticos, culturais, éticos que seguem ameaçando letalmente nosso povo. 



Tendo em vista que sobre estas tarefas listadas de nossas organizações de base, em especial dos movimentos populares, importa lembrar que já tivemos a oportunidade de contemplá-los em textos anteriores publicados em http://textosdealdercalado.blogspot.com/, cuidamos aqui de explicitar brevemente cada um desses compromissos. Com relação ao compromisso organizativo, convém lembrar que se trata não apenas de criar dezenas, centenas de núcleos  populares no campo e na cidade, mas também de mantê-los em viva atuação e de aprimorar-los. Nestes espaços, importa trabalhar com os distintos protagonistas várias dimensões deste compromisso organizativo. O primeiro tem a ver com a promoção incessante do exercício da autonomia, tanto em relação ao mercado capitalista quanto ao seu Estado. Neste sentido, o alerta quanto a necessidade de retomada do trabalho de base, “em novo estilo" convém destacar que a experiência recente e menos recente de um atrelamento partidário, ainda que se trate de partidos de esquerda, não surtiu os frutos desejáveis. Não se trata de estabelecer um muro entre forças partidárias e movimentos sociais. Isto não tem cabimento. Trata-se, porém, de tomar consciência dos riscos enormes para os movimentos populares de se transformarem, ainda que por meio de seus dirigentes, meras correias de transmissão. Esta experiência amarga nós tivemos, e devemos estar vigilantes para não reedita-la. Autonomia diante do estado e seus aparelhos, diante das várias expressões da força do mercado capitalista, deve nos ajudar a firmar nossa posição de autonomia, sobretudo diante da consciência dos profundos e crescentes limites dos espaços estatais, governamentais. Quando se trata de lutar por uma nova sociedade, alternativa à barbárie capitalista.


Esta autonomia, assim como em passado ainda recente, nos chama para a necessidade de exercitarmos o autofinanciamento para o desenvolvimento de nossas atividades. E com relação ao processo eleitoral em curso, o que fazer?


É conhecida, em várias oportunidades, nossa posição crítica em relação a um balanço positivo em relação aos processos eleitorais, no Brasil e alhures. Lembramo-nos, por exemplo, do que escrevemos, a este respeito, em um texto de 2006. Esta posição continuamos a sustentar. Porém, em se tratando de uma conjuntura completamente atípica, a que vivemos no Brasil, de uma gravíssima ameaça à continuidade da barbárie decidimos, desde 2018, suspender provisoriamente esta nossa posição profundamente crítica dos processos eleitorais como ferramenta principal de mudança. Assim como em 2018, também neste ano, vamos comparecer às urnas, mais do que para eleger o candidato do PT, para derrotar o representante da barbárie. Disto já tínhamos dado sinal, em outro texto, logo após a eleição de Bolsonaro, clamando por socorro, donde o título “SOS Brasil” (Cf. textosdealdercalado.blogspot.com).


Esta decisão de suspender nosso juízo acerca da fragilidade do processo eleitoral como instrumento principal de mudança social não invalida nossa posição de uma participação crítica no processo eleitoral em curso. Não nos negamos a participar dele, mas de modo bastante próprio. Que contribuição temos a oferecer neste sentido? Segue, abaixo, uma lista de critérios ou propostas, em relação ao processo eleitoral. Destaquemos algumas dessas propostas.


  • Formação e manutenção de comitês populares de luta, no campo e nas periferias urbanas, destinados a empreender uma discussão crítica acerca dos limites e do engodo do processo eleitoral, haja vista eleições precedentes.

  • A estes comitês populares de luta também se propõe a tarefa de esboçar um programa de governo, que corresponda às verdadeiras necessidades materiais e imateriais, bem como as aspirações do povo trabalhador;

  • Este esboço de programa implica a discussão dos grandes entraves conjunturais, o tabuleiro das forças dominantes e dirigentes, bem como da posição das classes populares, frente aos atuais desafios;

  • Começar a debater, desde já, ainda que a médio prazo a possibilidade de reinstalar o processo constituinte, dada a caducidade, em pontos fundamentais da atual constituição, desfigurada que tem sido por sucessivas emendas protagonizadas pelos governos golpistas;

  • Na discussão programática, priorizar aspectos fulcrais, tais como: o enfrentamento da dívida pública extorsiva a que o povo brasileiro vem sendo impunemente submetida, a exigência de uma política tributária que se contraponha frontalmente ao que se abate hoje sobre as classes populares, situação em que a carga mais pesada de impostos recai sobre os mais empobrecidos por meio dos impostos indiretos, dos quais a enorme maioria do povo nem sequer tem consciência, enquanto os ricos praticamente ficam isentos de pagamento de impostos, ou simplesmente os sonegam. Acerca desta crueldade, importa trazer à discussão diferente estudos e pesquisas à nossa disposição;

  • Impõe-se discutir as bases de privilégio que caracterizam a classe dominante e a classe dirigente. Importa arrolar um número espantoso de privilégios ultrajantes, ainda assegurados aos diversos membros do parlamento do executivo, do judiciário, dos setores militares, sem falar dos odiosos dos setores dominantes de nossa sociedade, das grandes transnacionais atuando nos mais diversos ramos da economia, da saúde, da educação, da cultura, e até na esfera religiosa…

  • Outro ponto a merecer destaque tem a ver com o crescimento espantoso das desigualdades sociais, sempre atentando às suas raízes;

  • Vale, ainda, destacar a importância de se lutar contra a presença de setores religiosos fundamentalistas, no âmbito do estado;

  • Trazer à discussão, nestes mesmos comitês populares de luta, a prioridade de fortalecimento das organizações populares, dos movimentos populares, de associações e cooperativas fiéis aos interesses dos trabalhadores e trabalhadoras;

  • Priorizar a discussão internacionalista, situando a luta de classes, em âmbito mundial, especialmente com relação aos conflitos geopolíticos e geoeconômicos em curso.

  • Neste conjunto de propostas submetidas ao debate, destacamos também a relevância teórico-prática dos procedimentos, da metodologia. Isto vale, por exemplo, ao lidar-se com as questões de gênero, de etnia, de geração, de espacialidade, etc. Resultam pouco eficazes ou infecundas as experiências de Trabalho de Base em qualquer uma dessas dimensões, se não se priorizar a costura incessante dessas várias dimensões, inclusive e sobretudo a dimensão de Classe Social (afinal, esta tem cor, tem sexo, tem idade, tem proveniência geográfica, etc.). 


Ainda no que toca ao debate eleitoral, importa, entre tantas medidas ou propostas, insistir em uma política de estocagem de produtos básicos, especialmente os que compõem a cesta básica, como alternativa contra os critérios de mercado. Eis apenas poucos aspectos que submetemos à apreciação e à discussão, inclusive durante o processo eleitoral, por parte dos integrantes das classes populares.


Como de hábito, nos dirigimos especialmente aos jovens do meio popular do campo e das periferias urbanas, eis por que lhes recomendamos algumas sugestões de textos e leituras:


ACOSTA, Alberto. O bem viver: uma Oportunidade Para Imaginar Outros Mundos. Ed Autonomia Literária. 2016.


Betto, Frei. Cadê o povo? https://domtotal.com/artigo/9907/2022/03/cade-o-povo/


CHAUI, Marilena. A ideologia da competência: volume 3. São Paulo: Ed. Autêntica. 2014.


___________. Vídeo O QUE É IDEOLOGIA? - Palestra https://www.youtube.com/watch?v=C3wv_vpRjzk


DOWBOR, Ladislau. A era do Capital Improdutivo: a Nova Arquitetura do Poder, sob Dominação Financeira, Sequestro da Democracia e Destruição do Planeta. Editora Autonomia Literária. 2018.


___________. https://dowbor.org/


DUSSEL, Enrique. 20 teses de política. Ed Expressão Popular. 2007.


GABRIELLI, J. S.; AUGUSTO JR., Fausto.; ALONSO JR., Antônio. Ed. Expressão Popular. Operação Lava Jato: crime, devastação econômica e perseguição política. https://www.youtube.com/watch?v=S1MsQIluZvk


HOORNAERT, Eduardo. Helder Câmara, uma vida que se fez Dom. São Paulo: Paulus. 2022.


MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A desordem mundial. Ed. Civilização Brasileira. 2016.


MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano. Ed. Civilização brasileira. 2005.


LOWY, Michael. O que é o ecossocialismo?. Ed. Cortez. 2014.


OLIVEIRA, Manfredo. Fundamentos filosóficos de um projeto de sociedade. https://www.ihu.unisinos.br/617682-fundamentos-filosoficos-de-um-projeto-de-sociedade-artigo-de-manfredo-de-oliveira 



Vídeos:

LOLA MELNYCK: DE UMA RUSSA-UCRANIANA, COM AMOR - 20 Minutos Entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=Cz8Tn08bB6Q


LETÍCIA PARKS: QUEM É O PROLETARIADO? - 20 Minutos Entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=C2l-esaDRo0&list=PL_Q9S5SSNNLgAh3NPYfxrV--NR1-BfuS5&index=6

 


João Pessoa, 11 de abril de 2022.


quarta-feira, 30 de março de 2022

UM BIÓGRAFO À ALTURA DO BIOGRAFADO: breves considerações acerca do livro de Eduardo Hoornaert: “Helder Câmara, uma vida que se fez Dom”

                                        UM BIÓGRAFO À ALTURA DO BIOGRAFADO:

breves considerações acerca do livro de Eduardo Hoornaert:

“Helder Câmara, uma vida que se fez Dom” *


Alder Júlio Ferreira Calado


A editora Paulus acaba de publicar uma biografia sobre Dom Helder Câmara, elaborada pelo historiador Eduardo Hoornaert.


Acabo de ler, ou melhor, de ouvir a leitura completa de uma biografia atípica acerca da veneranda figura de Helder Câmara. Com efeito, o biógrafo Eduardo Hoornaert se mostra muito atento, ao escrever uma biografia de Dom Helder, que, por várias razões, não se apresenta como “mais uma biografia”. Hoornaert surpreende na elaboração desta biografia, por várias razões.


A atipicidade de sua biografia resulta, primeiramente, do método utilizado. “Paralaxis” é um termo grego, muito apreciado pelo autor, que diz respeito a um determinado objeto que, ao se mover, apresenta alterações; e dependendo da posição em que se coloque o observador daquele objeto, este vai apresentando alterações. Como exímio historiador, Hoornaert, expressando ou não esta metodologia, a põe em prática em seus escritos e em seus pronunciamentos. Neste sentido, ele nos faz evocar Antoine de Saint Exupéry, para quem "todo ponto de vista é a vista de um ponto”. A condição de historiador constitui, também neste caso, um fator decisivo para a excelência do desempenho do autor, ao nos apresentar a figura de Helder Câmara, ao longo de sua trajetória existencial, como alguém atípico, no sentido de desbordar constantemente do comum dos humanos, ao revelar-se “avis rara”, seja no tocante às suas relações eclesiais, seja sobretudo no tocante à sua paixão pela humanidade. Outras biografias de Dom Helder tiveram reconhecida relevância, mas o livro do historiador Hoornaert aparece como um escrito diferenciado, a começar pela metodologia aplicada para a elaboração desta biografia.


Outro aspecto a ser observado, na excelência desta biografia, tem a ver com a capacidade do biógrafo de aplicar profusamente uma abordagem literária, profundamente complementar, do labor histórico. A utilização de técnicas da linguística e da literatura constitui uma marca fortemente criativa e que bem se mostra adequada à narração e à interpretação de uma figura incomum como a de Helder Câmara. Além disto, ou por conta disto, Hoornaert não se limita a descrever uma cronologia de fatos e acontecimentos protagonizados por Dom Helder. Isto também ele faz, com maestria. Mas, vai muito além deste aspecto, é capaz de ler as entrelinhas, de ir além das palavras, de dar-se conta do que vem por trás das palavras. Isto parece tanto mais relevante, quando a gente se reporta aos predicados do biografado, alguém que se apresenta excepcional, em sua trajetória existencial. Daí o sentido do título destas notas.


Graças a esta metodologia, aliada a uma acuidade de análise, baseada, além de preciosas fontes secundárias, também em fontes primárias, como a que recolhe das “cartas conciliares”, escritas às centenas por Dom Helder, e compartilhadas a uma equipe que ele mantinha como interlocutora privilegiada. Além das 275 cartas conciliares, escritas e compartilhadas por Dom Helder, com a sua equipe, de 1962 até inícios dos anos 80, Hoornaert também trata de recolher elementos de outras biografias, em especial as que foram elaboradas por pessoas mais próximas de Dom Helder, dentre as quais as de Marcelo Barros (Dom Helder Camara, profeta para os nossos dias); Zildo Rocha (Irmão dos pobres e meu irmão. Presença de dom Helder em minha vida); Joseph de Broucker (La violence d´un pacifique) e Marcos de Castro (Dom Helder, misticismo e santidade).


Outro aspecto ainda merece realce: a perspicácia do autor, no sentido de, partindo dos relatos do próprio Dom Helder, tratar de contextualizar, de modo criativo, acentuando possíveis fontes de inspiração de Dom Helder em autores de diferentes séculos. Neste particular, a biografia elaborada por Hoornaert apresenta-se relativamente singular, à medida que consegue apresentar diversos diálogos implícitos de Dom Helder com outros tantos autores, em diferentes séculos do cristianismo.


E em relação ao biografado, o que dizer? Exercitando a memória da leitura que me foi feita, trato de pôr em relevo os aspectos da trajetória existencial de Helder Câmara que mais fortemente me impactaram, no transcurso da leitura dos seus 12 capítulos. Cuido, por conseguinte, de, ao rememorar os principais capítulos do livro, expressar aspectos e traços mais impressionantes que colho da leitura desta biografia.


É tocante observar a precocidade vocacional do biografado, ainda que não fosse uma exceção - era comum a entrada até de adolescentes para o Seminário - não deixa de nos surpreender este fato. Influenciado pela sua mãe, D. Adelaide, mais do que pelo seu pai, em função da vida religiosa que ele respira desde muito cedo, sente-se tocado a uma escolha pelo sacerdócio. Ainda adolescente vai ser matriculado no famoso seminário da Prainha, em Fortaleza. Desde então, vai ter que conviver com um regime de muita disciplina, de uma formação conservadora, apesar de contar com alguns formadores que ele aprecia. É, portanto, condicionado a uma vida de fechamento para o mundo, para as realidades terrestres, em razão de uma rígida obediência às leis eclesiásticas. Dada, por outro lado, a formação que teve em sua família, conseguia lidar relativamente bem com a disciplina seminarística então reinante. Além dos laços familiares, sua veia poética muito o ajuda, nesta direção. Desde cedo, revela-se um leitor voraz, o que lhe permite um exercício bastante salutar, dentro daquele regime dominante.


Uma marca pouco conhecida da trajetória de Dom Helder é a sua estreita ligação com as ideias integralistas então reinantes no Brasil, sob a inspiração de intelectuais tais como Gustavo Barroso, Plínio Salgado, Alceu de Amoroso Lima, entre outros. Sobretudo de 1931 a 1936/37, Helder se revela um exímio militante da causa integralista. Para tanto, sua capacidade extraordinária de comunicação, além de certa tendência ao estrelismo, Padre Helder vai assumir um papel relevante na divulgação das ideias integralistas, baseadas em valores tais como Deus, Pátria, Família, entre outros. Vale notar que, acerca deste período, o biógrafo se vale de preciosas fontes, para indicar o relevante papel intelectual e religioso cumprido por Padre Helder, sobretudo neste período.


Em uma de tantas palestras feitas pelo teólogo José Comblin, desta feita por ocasião do centenário de Dom Helder Câmara, homenagem prestada por grupos e pessoas amigas de Dom Helder, em João Pessoa, o palestrante aludia a cinco surpreendentes conversões vividas por Dom Helder. Também nesta biografia, Hoornaert, de forma criativa e com palavras próprias, narra momentos fortes de conversão vivenciados por Dom Helder, no que o biógrafo enxergava seu processo evolutivo, desde um reacionário - período que dura em torno de 12 anos - a uma posição revolucionária que ele vai vivenciando, sobretudo a partir de meados dos anos 40.


Dentre esses momentos fortes de conversão, cumpre ressaltar alguns, como ilustração. Um desses momentos fortes ocorre quando da árdua preparação à organização do congresso eucarístico mundial, no Rio de Janeiro, arquidioceses da qual Dom Helder era bispo auxiliar. Ele se destacou como o principal organizador deste congresso, juntamente com a contribuição valiosa de um grupo de mulheres. Este trabalho o levou a uma quase exaustão, dado o modo como se empenhou, visando a apresentação de um congresso que considerava de enorme importância para a vida da Igreja Católica.


Quando da realização deste Congresso Eucarístico Mundial, em que todos os esforços envidados por Dom Helder e sua seleta equipe pareciam alcançar o auge de satisfação, eis que, ao final daquele Congresso, dele se aproxima o Cardeal Gerlier para confidenciar-lhe algo inesperado. Após enaltecer as qualidades de organizador reveladas por Dom Helder, o Cardeal lhe pergunta como silenciar uma cena intrigante: enquanto aquele Congresso Eucarístico se realizava, era visível uma cena deprimente, nos morros e favelas expostas a quem quisesse enxergar. De modo didático, o Cardeal provocava Dom Helder, como se lhe perguntasse: é este o fruto desejável pela Igreja Católica, ao louvar e adorar a Jesus na hóstia, e silenciar toda aquela miséria sofrida justamente por aqueles que representavam o próprio Jesus crucificado? Dom Helder, ao ouvir essas palavras, sente-se profundamente tocado, como se estivesse diante do próprio Jesus. Esta iniciativa do Cardeal Gerlier proporcionou uma das grandes conversões de Dom Helder, que a partir de então, passa a mudar profundamente suas atitudes perante os pobres, perante os deveres mais profundos do seu ministério.


Desde então, redireciona suas leituras e sua agenda pastoral. Passa a ter um olhar mais atento àquela realidade, de flagrantes desigualdades, me que ⅔ da humanidade padecendo fome e miséria enquanto uma pequena minoria tinha um tratamento privilegiado.


Outro aspecto relevante, em sua trajetória, tem a ver com sua participação como bispo auxiliar do Rio de Janeiro, durante todas as sessões do Concílio Vaticano II (1962 a 1965).


Dois fatos merecem especial destaque, durante este período: seu papel de instigador, de articulador de vários bispos provenientes das mais distintas regiões do mundo, no sentido de angariar convicções e votos para a aprovação dos documentos conciliares, especialmente voltados à defesa e a promoção dos direitos dos pobres. Embora não atuasse propriamente nas famosas aulas conciliares, empenhava-se profundamente em reunir diferentes grupos de Bispos para refletirem, sob a inspiração dos principais teólogos conciliares comprometidos com a causa da justiça, no sentido de fortalecer uma corrente ainda minoritária, no universo dos cerca de 2500 bispos participantes, de um grupo minoritário que sustentasse a causa dos pobres. Este esforço se culmina na realização, nos arredores de Roma, mais precisamente na catacumba de Domitila, de uma reunião de 40 Bispos que, há poucos dias do encerramento do Concílio Vaticano II, ou seja, mais precisamente no dia 16 de novembro de 1965, estes Bispos, após a celebração da Ceia do Senhor, firmam o famoso “Pacto das Catacumbas”, expresso em um texto composto com 13 itens, assumindo o compromisso de, ao retornarem às suas respectivas dioceses, não mais morarem em palácios, levarem uma vida cotidiana mais próxima do povo, dos pobres, seja quanto ao morar, seja quanto ao vestir, seja quanto ao uso de transporte, seja quanto à sua fidelidade a causa do Evangelho.


Outro aspecto que o período conciliar também aparece como relevante tem a ver com o início de suas célebres cartas conciliares, circulares que ele redigia, dirigindo-as a um seleto grupo de mulheres, no Rio de Janeiro, às quais ele escreverá, de 1962 a cerca de 1980, em torno de 275 cartas circulares, não por acaso, o biógrafo Eduardo Hoornaert explora, em seu trabalho, múltiplos relatos de capital importância, colhidos destas cartas circulares.


Outro ponto relevante a destacar: sua coragem profética de denunciar os crimes da ditadura empresarial-militar brasileira. Denúncias contra assassinatos de adversários e vítimas da ditadura, inclusive religiosos e padres, a exemplo do Pe. Antônio Henrique Pereira Neto, em 1969, de Frei Tito Alencar, denunciando ainda prisões e torturas nos subterrâneos da ditadura empresarial-militar. Esta sua atitude profética rendeu-lhe além de duras perseguições no brasil, também numerosos convites feitos por diferentes figuras do episcopado internacional, especialmente da Europa, principalmente para proferir conferências sempre muito concorridas. Em certas ocasiões, tal era o número de frequentadores, que os organizadores se viam obrigados a mudar o lugar da conferência, como aconteceu em Paris, em 1970.


Acerca desta movimentada agenda de viagens pelo mundo, importa registrar que o enorme apreço internacional dirigido ao então Arcebispo de Olinda e Recife, que figuras da Cúria Romana com possível anuência do própria Papa Paulo VI, não exitou em dirigir a Dom Helder correspondência questionando a legitimidade destas viagens internacionais, alegando estar usurpando a função petrina. Situação tanto mais embaraçosa, quando por várias vezes, Dom Helder foi recebido pelo Papa Paulo VI, velho amigo ainda do tempo em que não havia assumido o papado.


No tocante a estes laços de amizade, vale a pena, com base nas Cartas Circulares, rememorar um fato curioso. Dada sua vocação profética, nas conversas com o Papa Paulo VI, ele por mais de uma vez, questionou o Papa sobre as estranhas funções de Estado exercidas pela Igreja Católica, diferentemente do espírito do Evangelho (Mc 10, 42-45: Jesus chamou-os e disse: “Vocês sabem: aqueles que se dizem governadores das nações têm poder sobre elas, e os seus dirigentes têm autoridade sobre elas. Mas entre vocês não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês, e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos.”). A certa altura, o Papa chegou a pedir a Dom Helder que lhe mandasse por escrito seu questionamento acompanhado de sugestões tais como a de entregar o prédio do Vaticano aos cuidados da ONU, indo o Papa residir em uma casa mais simples. Dom Helder não se fez de rogado, e enviou por escrito o que lhe havia dito por palavra. O Papa terá mudado de posição? Isto fica muito evidenciado em um dos poemas escritos por Dom Helder, no qual se lê:


“O SONHO DE DOM HÉLDER


Sonhei que o Papa enlouquecia 

E ele mesmo ateava fogo 

Ao Vaticano 

E à Basílica de S. Pedro... 

Loucura sagrada, 

Porque Deus atiçava o fogo 

Que os bombeiros 

Em vão 

Tentavam extinguir. 

O Papa, louco, 

Saía pelas ruas de Roma, 

Dizendo adeus aos Embaixadores 

Credenciados junto a ele; 

Jogando a tiara no Tibre; 

Espalhando pelos pobres 

O dinheiro todo 

Do Banco do Vaticano... 

Que vergonha para os cristãos! 

Para que um papa 

Viva o Evangelho, 

Temos que imaginá-lo 

Em plena loucura!... “


Acerca ainda destes tempos de chumbo, especialmente após a decretação pela ditadura empresarial-militar do famigerado AI-5, vale ressaltar a coragem profética de Dom Helder, também no que diz respeito aos seus escritos e pronunciamentos. Datam deste conturbado período livros corajosos que apareceram, inicialmente, apenas em francês, já que proibidos no Brasil. Dentre outros: “Révolution dans la paix”; “Spirale de violence”; “Le Désert est fertile”.


Quanto aos seus pronunciamentos, cumpre rememorar não apenas suas conferências, mas especialmente sua fala cotidiana, na rádio Olinda “Um Olhar Sobre a Cidade”. Tratava-se de um momento diário enormemente apreciado também pelas centenas de comunidades espalhadas pela Arquidiocese de Olinda e Recife (e para além desta região), mais conhecidas como “encontro de irmãos”, densa experiência de animação das CEBs da região. Trata-se de um período de intenso crescimento das CEBs, no Brasil e na América Latina. Causa indignação, no entanto, a terminante proibição da Ditadura empresarial militar, de sequer o nome de D. Hélder Câmara pudesse ser publicado pela imprensa. 

A despeito de todas essas adversidades, vale destacar a tenacidade de D. Hélder, o que se pode explicar pela sua mística revolucionária (tinha o hábito de colocar o relógio para despertá-lo às 02h00 da madrugada, para exercitar essa mística, seja pela oração, seja pela composição de poemas (às centenas). Não menos importante é o humor que o caracterizava. São diversas as histórias acerca disto. Apenas uma delas como ilustração: Num período de ascenso da “Revolução feminista”, expressa também no Brasil, conta-se que foi perguntado por um/a jornalista do que achava do topless. De pronto, D. Hélder respondeu algo como: eu não estou preocupado com quem tendo o que vestir, se desnuda, mas com quem não o que vestir… 


Eduardo Hoornaert, em sua biografia, reserva os últimos capítulos a uma interpretação grandiosa do legado de Dom Helder, no qual situa a paixão de Dom Helder pelas minorias, suas “minorias abraâmicas", bem como o espírito revolucionário de Dom Helder, sua mística revolucionária.


A título de arremate 


Ao final desta leitura, pude entender melhor o que de D. Helder dizia Comblin: dele se deve publicar tudo. Rememorando os feitos de Dom Helder, sinto-me impactado, ao compará-lo ao que hoje predomina no perfil geral do episcopado e demais ministros ordenados brasileiros, sempre ressalvando as honrosas exceções. Parece haver também aí, uma preocupante escassez de profecia… Nesse sentido, o quê dizer do apelo feito por Dom Helder, já enfermo, no leito, ao ser visitado por alguns teólogos, entre os quais, Marcelo Barros: "não deixem cair a profecia” (remetendo-nos a 1Ts 5, 19-21)?


Sinto-me agradecido a Eduardo Hoornaert pela arte do seu trabalho, bem como a diversos outros biógrafos de Dom Helder. Que este livro nos desperte cada vez mais o sentimento de compromisso com a causa libertadora do povo dos pobres.


*Este texto é resultado de uma gravação de áudio, feita pelo autor e digitada por Eliana Alda de Freitas Calado, Heloíse Calado Bandeira e Luciana Calado Deplagne, enquanto coube a Elizabete Santos de Pontes a leitura integral do livro para o autor. A elas, também a Eliana pela revisão do trabalho, registro meus agradecimentos.


João Pessoa, 30 de março de 2022.



quinta-feira, 24 de março de 2022

SEM JUSTIÇA, EM VÃO SE BUSCA A PAZ: ponderações e questionamentos acerca do atual conflito bélico entre Rússia e OTAN, nos campos de batalha de Ucrânia

 SEM JUSTIÇA, EM VÃO SE BUSCA A PAZ:

ponderações e questionamentos acerca do atual conflito bélico entre Rússia e OTAN, nos campos de batalha de Ucrânia


Alder Júlio Ferreira Calado

Alcançamos, neste 24 de março de 2022, um mês do início dos ataques bélicos a Ucrânia, provenientes da Rússia. A mídia hegemônica continua a repercutir, tal como um alto falante amplificado as versões sobre o conflito convenientes à OTAN. Algumas redes sociais e canais alternativos têm buscado situar o conflito, de modo mais crítico, sem santificar a Rússia ou Putin nem muito menos canonizar a OTAN e os Estados Unidos. 

Acerca deste conflito, importa, em primeiro lugar, reconhecer que não se iniciou no dia 24 de fevereiro próximo passado. Remonta, com efeito, pelo menos a 2014. Sem buscar perceber este conflito, não como apenas um produto, mas como um processo, temos que recuar, até mesmo, para aquém de 2014. De fato, os conflitos bélicos da atualidade podem ser melhor percebidos, desde o início da chamada Guerra Fria, contrapondo, de um lado, os Estados Unidos e a Europa Ocidental, e, por outro lado, os países componentes da ex União das Repúblicas Socialistas Soviéticas URSS, opondo frontalmente os valores do Socialismo Soviético aos do Capitalismo Ocidental.

A Guerra Fria era o ambiente propício para a deflagração ideológica de propaganda dos valores correspondentes a cada polo em conflito. Neste sentido, é que se deve lembrar, de um lado a formação do bloco capitalista, mais precisamente das forças armadas ocidentais, representadas pelo Organização do Tratado do Atlantico Norte (OTAN), compreendendo, ainda na segunda metade dos anos 40, em torno de 14 membros, e, por outro lado, em resposta e reação a estas forças armadas do Ocidente, a criação do Pacto de Varsóvia, originado poucos anos após a criação da OTAN, e compreendendo todos os membros da ex-URSS.

Com o declínio progressivo do ideário sustentado pela ex-URSS, chegando a sua dissolução completa em 1991, e já não tendo mais sentido a Guerra Fria, e também não a continuidade da OTAN, pois havia sido dissolvido o pacto de Varsóvia, era de se esperar que a OTAN, enquanto tal, também se desfizesse. Isto se revela tanto mais esperado, que o então chefe do Departamento de Estado - correspondente a algo como o Ministério das Relações Exteriores -, dos EUA, James Baker, veio assegurar publicamente, em um dos encontros com lideranças russas, Boris Iéltsin, que a OTAN não avançaria sequer uma polegada, a partir dalí, em direção ao leste europeu. Dava-se, então, como resolvido o impasse, de modo a já não ameaçar a segurança da Rússia de então.

Promessa descumprida, mais de uma vez. Aquela época a OTAN se constituía de 14 membros, eis que nos dias atuais, a OTAN já conta com 30 membros, estendendo-se até os Países Bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia). De modo a praticamente cercar a Rússia, só faltando à OTAN conquistar a Ucrânia para fechar o cerco. Por conta deste desrespeito a um acordo oral firmado pelos dirigentes das principais potências, a Rússia passou a se manifestar contrária a este quadro, passando, desde então, a tomar iniciativas que, em tempos normais, seriam condenadas por todos: a Rússia passou a anexar a Criméia, depois a controlar a Geórgia. Com relação a Ucrânia, até 2014, estava no governo um presidente de boas relações com a Rússia. No entanto, em 2015, sob a influência e manobra dos Estados Unidos, este governo foi destituído por um Golpe, resultando daí uma situação deveras periclitante para a paz. Não resultaram positivos alguns passos empreendidos pela Rússia, no sentido de conter o avanço incontrolável por parte da OTAN, ameaçando cercar a Rússia, sobretudo com a contribuição explícita do governo da Ucrânia. Ao mesmo tempo, algumas áreas da Ucrânia mais próximas da Rússia, são habitadas por populações que se reconheciam etnicamente russas, sendo, por isso, constantemente atacadas por forças milicianas, com a complacência do exército da Ucrânia, essas regiões: a de Donetsk e de Luhansk. Igualmente, no plano político-ideológico, grupos neonazistas passavam a ter uma visibilidade cada vez maior, na Ucrânia, sendo protagonistas de vários episódios sangrentos contra trabalhadores e trabalhadoras que se identificavam com a Rússia.

É assim que, a partir de 2021, a Rússia, que se preparara militarmente durante anos, para um enfrentamento exitoso desta situação, passa a cobrar do governo da Ucrânia que respeite o tratado de Minsk, pelo qual as regiões as regiões do Donbass onde se localizam as áreas de Donetsk e de Luhansk, fossem reconhecidas como não apenas regiões separatistas, mas como repúblicas autônomas. Enquanto isso a OTAN continuava a fomentar armas de guerra à Ucrânia como já havia fomentando todos os países em volta da Rússia, nações antes pertencentes a ex - URSS. O governo da Rússia dirigi-se a OTAN, cobrando o cumprimento dos acordos de Minsk. 

Recebendo negativas do Ocidente, Putin declara uma “operação militar especial” em território da Ucrânia, com os objetivos de defender a região de Donbass, buscar desnazificar a Ucrânia e exigir do governo da Ucrânia a desmilitarização do território, o que implicava não pertencer a OTAN.

A guerra continua, durante esses dias, com saldos terríveis de vítimas, de crianças, de mulheres, de civis, tanto vítimas fatais quanto centenas de feridos. Por outro lado, forma-se no Ocidente uma ampla rede de defesa a crítica do que vem acontecendo na Ucrânia, de modo a fazer crer que, neste conflito, a Rússia seja a única culpada, sem qualquer reconhecimento de responsabilidade por parte dos EUA ou da OTAN como co-protagonistas deste conflito.

Nas linhas que seguem, gostaríamos de fazer alguns questionamentos acerca de como o Ocidente em geral, inclusive os grupos cristãos, vêm analisando este drama.

No caso dos católicos, a palavra de ordem não ultrapassa o grito “PAZ! PAZ!”, indicando a Rússia como única transgressora. Pretende-se, uma paz, a qualquer custo, desde que a OTAN e os EUA estejam tomados como inocentes. Até mesmo a maior parte dos discursos proferidos pelos principais representantes da Igreja Católica também vão nesta mesma direção.

Assim agindo, parece haver um bizarro esquecimento de que sem justiça, em vão se busca a paz. Neste sentido, é lamentável o esquecimento da máxima que caracteriza, inclusive, os discursos dos últimos Papas, também do próprio Papa Francisco. Discursos dirigidos contra a guerra, contra a corrida armamentista, contra o armamento nuclear. Trata-se aí sim, de jamais dissociar a busca da paz pelo cumprimento da justiça. Lema importante, inspirado no profeta Is 32,17a: “O fruto da justiça será a paz”. 

Com efeito, para mencionarmos apenas os Papas mais recentes, vale a pena rememorar passagens célebres de seus discursos e de seus escritos. Comecemos pelo Papa João XXIII, em cuja Encíclica Social “Pacem in Terris” escrita em 1963, em pleno clima de Guerra Fria.

No ano anterior, em 1962, o mundo foi vítima de enorme tensão, por conta da instalação em Cuba, por parte da ex-URSS de mísseis apontando para os EUA, conflito que foi diplomaticamente solucionado. É neste contexto de tensão, que se pode ler na “Pacem in Terris”, sobretudo os números 110, 111 e 112, a posição profética do Papa João XXIII. Eis o que ele escrevia, em rápidas palavras:  “Costuma-se justificar essa corrida ao armamento aduzindo o motivo de que, nas circunstâncias atuais, não se assegura a paz senão com o equilíbrio de forças: se uma comunidade política se arma, faz com que também outras comunidades políticas porfiem em aumentar o próprio armamento. E, se uma comunidade política produz armas atômicas dá motivo a que outras nações se empenhem em preparar semelhantes armas, com igual poder destrutivo.” (n.110). Eis o que diz o número seguinte da Encíclica “Já que as armas existem e, se parece difícil que haja pessoas capazes de assumir a responsabilidade das mortes e incomensuráveis destruições que a guerra provocaria, não é impossível que um fato imprevisível e incontrolável possa inesperadamente atear esse incêndio. Além disso, ainda que o imenso poder dos armamentos militares afaste hoje os homens da guerra, entretanto, a não cessarem as experiências levadas a cabo com uns militares, podem elas pôr em grave perigo boa parte da vida sobre a terra.” (n.111). No número 112 da mesma Encíclica, o Papa João XXIII se mostra assertivo ao afirmar: “Eis por que a justiça, a reta razão e o sentido da dignidade humana terminantemente exigem que se pare com essa corrida ao poderio militar, que o material de guerra, instalado em várias nações, se vá reduzindo duma parte e doutra, simultaneamente, que sejam banidas as armas atômicas; e, finalmente, que se chegue a um acordo para a gradual diminuição dos armamentos, na base de garantias mútuas e eficazes.” (n.12).

É triste, porém, constatar que passados 60 anos, a corrida armamentista não só não se conteve, mas tem evoluído de modo catastrófico. Hoje, são vários os países que detêm armas nucleares: EUA, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, Israel, Coreia do Norte. Destes países, Estados Unidos e Rússia detém quase 90% destes armamentos. Não é à toa que o orçamento dos EUA consagra parte significativa dos gastos com armamento: só para 2022 o Senado dos EUA aprovou um orçamento de US$ 768 bilhões para “defesa”... e o quê dizer de suas bases militares instaladas em cerca de 80 países pelo mundo.


Retomando os posicionamentos mais recentes da Igreja Católica, importa ter presentes as palavras do Concílio Vaticano II, nos termos da Constituição Pastoral "Gaudium Et Spes”: “A corrida aos armamentos. É verdade que não se acumulam as armas científicas só com o fim de serem empregadas na guerra. Com efeito, dado que se pensa que a solidez defensiva de cada parte depende da sua capacidade de resposta fulminante, esta acumulação de armas, que aumenta de ano para ano, serve, paradoxalmente, para dissuadir possíveis inimigos. Muitos pensam que este é hoje o meio mais eficaz para assegurar uma certa paz entre as nações. Seja o que for deste meio de dissuasão, convençam-se os homens de que a corrida aos armamentos, a que se entregam muitas nações, não é caminho seguro para uma firme manutenção da paz; e de que o pretenso equilíbrio daí resultante não é uma paz segura nem verdadeira.” (N.81).


Apenas dois anos após o encerramento do Concílio Vaticano II, Paulo XI publica a memorável Encíclica Social intitulado "Populorum Progressio" (sobre o desenvolvimento dos povos), na qual se lê: “Por outro lado, quem não vê que um tal fundo facilitaria a reconversão de certos esbanjamentos que são fruto do medo ou do orgulho? Quando tantos povos têm fome, tantos lares vivem na miséria, tantos homens permanecem mergulhados na ignorância, tantas escolas, hospitais e habitações, dignas deste nome, ficam por construir, torna-se um escândalo intolerável qualquer esbanjamento público ou privado, qualquer gasto de ostentação nacional ou pessoal, qualquer recurso exagerado aos armamentos. Sentimo-nos na obrigação de o denunciar. Dignem-se ouvir-nos os responsáveis, antes que se torne demasiado tarde.” (N. 53).



Posição parecida se observa nos escritos e pronunciamentos dos Papas seguintes, inclusive de João Paulo II e Bento XVI. No entanto, cumpre destacar vários pronunciamentos incisivos de denúncia feita pelo Papa Francisco, em diferentes circunstâncias, a exemplo do que se lê no discurso pronunciado em sua visita apostólica ao Japão, em 2019: “O uso da energia atômica para fins bélicos é, hoje mais do que nunca, um crime, não só contra o homem e a sua dignidade, mas contra qualquer possibilidade de futuro na nossa Casa comum. O uso da energia atômica para fins de guerra é imoral, assim como a posse de armas atômicas é imoral, como eu disse dois anos atrás. Seremos julgados por isso.” (Papa Francisco no Memorial da Paz em Hiroshima, 24 de novembro de 2019) https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-08/hiroshima-nagasaki-holocausto-nuclear-papa-francisco.html 


No entanto, os pronunciamentos mais recentes do Papa Francisco não parecem ultrapassar o sentimento de indignação contra a guerra, mas sem tocar propriamente nas raízes da Guerra, de modo a deixar entender a opinião pública que o problema da guerra depende, quase somente, da posição intransigente do presidente da Rússia. Neste sentido, gostaríamos de suscitar a um questionamento:

  • Por que nos posicionamentos públicos das autoridades da Igreja Católica, não se tem a assumir uma posição profética, de modo a conectar a paz com a justiça, e, portanto, não apenas a expressão de votos pela paz, como também a indicação das raízes deste conflito? 


Clamar pela paz e pelo socorro às vítimas é tarefa incontestável, imediata. Mas, desconectada de um contexto mais amplo não pode incorrer no risco de uma responsabilização unilateral das forças em conflito?

  • Do ponto de vista do Evangelho, não parece inevitável clamar-se pela paz, perguntando-se pelas causas e pela responsabilidade de todos os lados ouvidos?

  • Especificamente neste conflito, o Papa Francisco tem-se cercado de conselheiros, também não ocidentais?

  • O justo clamor por socorro às vítimas não deveria ser acompanhado pelo alerta contra os riscos de socorro seletivo?

  • Perseguindo, sem cessar, a busca de um desarmamento geral, também perguntamos? Enquanto este objetivo não for alcançado, será que alguma potência pode tem o direito de proibir que outros países também se armem?


João Pessoa, 24 de Março de 2022.