sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Diaconia como Práxis do existir

Diaconia como Práxis do existir 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Em Setembro, 26, alcançarei 

De missão diaconal, quarenta e nove 

Esta data, portanto, assim me move

A rever meu trabalho com a Grei

Se eu sirvo a Ruah ou sirvo à lei 

Trajetória avalio e aqui tento

Inclusive de riscos não sendo isento  

Vocação sem missão o que seria?

Quê pra mim representa Diaconia?

Sou chamado na massa a ser fermento 


Diaconia rima bem com profecia 

Nosso lema: tornar plenos os humanos

Da Mãe-Terra ser parte não causar danos 

Ministério denúncia-anuncia 

Do contraŕio, seu teor se esvazia 

Eis porque à Ruah eu canto e louvo 

Jesus veio para servir diz Texto Novo    

Dando graças pelas trilhas percorridas 

Junto aos pobres defendendo frágeis vidas 

E assim ensaiando, assim me movo 


João Pessoa, 26 de setembro de 2025 





segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Mulheres, na Sociedade e nas Igrejas: apontamentos a partir dos escritos de Elisabeth Schussler Fiorenza

 Mulheres, na Sociedade e nas Igrejas: apontamentos a partir dos escritos de Elisabeth Schussler Fiorenza

 

Alder Júlio Ferreira Calado

 

Não obstante múltiplas resistências opostas por grupos e movimentos oprimidos, explorados e marginalizados, profundas desigualdades sociais, econômicas, políticas e culturais - inclusive no campo religioso -, secularmente acumuladas, tendem a se perpetuar. Uma atenta consulta à literatura pertinente permite constatar diferentes aspectos deste processo: a despeito da tendência dominante à “naturalização”, importa, com efeito, não perdermos de vista a incidência neste processo de uma rede de fatores (econômicos, políticos e culturais), a apontarem, de forma concatenada, a presença de fatores de exploração de dominação e de marginalização no cotidiano das relações entre povos, classes e grupos sociais nas mais diferentes esferas da realidade. É assim que, ao nos debruçarmos sobre as relações processadas nas sociedades de classes - notadamente no modo de produção capitalista -, vamos percebendo mais claramente as raízes estruturais das mais diversas manifestações dessas profundas desigualdades que marcam o cotidiano entre grupos dominantes de um lado, e por outro lado, povos, classes sociais e grupos assujeitados - povos colonizados (povos originários, afro-ameríndios, povos tradicionais das florestas, das matas, das águas…), Mulheres, camponeses, operários, migrantes forçados, entre outros.

 

Cumpre, desde já, alertar que nas linhas que seguem, nos limitaremos a focar o fato das desigualdades sociais atinentes especialmente às mulheres, na perspectiva tratada pela Teóloga feminista da Libertação Elizabeth Schussler Fiorenza, em vários de seus escritos, sobretudo em seu livro “Discipulado de Iguais: por uma Ekklesia-logia feminista Crítica da Libertação” (Petrópolis, Vozes, 1993) e seu texto “Rumo ao Discipulado de Iguais: a Ekklesia de mulheres”, (Revista Estudos Teológicos, Harvard, 1996).

 

Desde o título destes apontamentos, resulta claro o propósito de examinar a condição das Mulheres, não apenas ao interno das Igrejas Cristãs como também no âmbito da sociedade. Comecemos por esta última. Nas diversas esferas da realidade social, restam evidenciadas múltiplas manifestações de desigualdades econômicas, políticas, de relações sociais de gênero, de etnia, geracionais, de procedência geográfica, entre outras. As respostas às perguntas que seguem, já permitem um aceno convincente acerca do iníquo cotidiano enfrentado pelas mulheres:

· Qual a evolução dos índices de feminicídio, no Brasil e em outros países?

· O que dizem as estatísticas oficiais acerca dos vários tipos de violências de que são vítimas as mulheres (físicas, psicológicas e tantas outras)?

· No plano econômico, que segmento demográfico sofre as consequências mais graves, no que diz respeito ao desemprego, aos mais baixos salários, aos sufocantes encargos de gerir, sozinhas, o cotidiano de penúria doméstica?

· Qual o setor da sociedade mais injustiçado pelo não reconhecimento ao seu trabalho doméstico?

· Sobre quem recai, com impactante frequência a responsabilidade exclusiva (o fenômeno da mãe solo) de dar conta da satisfação das necessidades de toda a família?

· Qual o lugar ocupado pelas mulheres, nos espaços públicos, onde são escandalosamente sub-representadas (nos órgãos estatais da Vereança ao Congresso)? Nos órgãos públicos executivos e do poder Judiciário?

· Mesmo nos espaços acadêmicos públicos e privados, quais as relações concretas no cotidiano de seu trabalho?

 

Estas são apenas algumas perguntas, com o propósito de trazer a tona as profundas desigualdades de que são vítimas as mulheres, no cotidiano societal.

 

O caso específico do lugar das Mulheres, nas Igrejas Cristãs

 

Também nestes apontamentos, se mostram organicamente vinculadas às relações acima apontadas, no plano societal, à análise específica de suas manifestações no âmbito da Igreja Católica Romana e, ao seu modo, de outras Igrejas cristãs. A despeito do enorme consenso ideológico secularmente predominante, na produção teológica hegemônica - no plano hermenêutico, nas formulações no âmbito teórico-metodológico, nos documentos do Magistério, nas normas canônicas, na Liturgia, nos compêndios teológicos adotados nos Seminários e nas Instituições de ensino controladas pela hierarquia clerical e outros meios disciplinares -, um mergulho crítico nas próprias fontes escriturísticas nos permite perceber toda uma vasta e complexa teia de relações opressivas do domínio patriarcal/hierarquizante/clerical/colonial a que as mulheres vêm sendo - e continuam - submetidas, durante séculos. Acerca desta teia opressiva tal é o grau de consenso ideológico que se tem mantido pelos beneficiários - perguntamo-nos pela serventia de um tal benefício… - desses privilégios, - os varões do clero -, que não apenas estes, como também as próprias vítimas, salvo exceções, são mantidas insensíveis/impassíveis quanto às iniquidades acumuladas das quais são vítimas.

 

A consolidação multi-secular da casta clerical, em íntima conexão com o poder secular imperial, se revela um fator determinante para a manutenção desta história de opressão contra o protagonismo das mulheres. Opressão, até hoje, mantida graças a um conjunto de estratégias historicamente aplicadas pelo patriarcalismo clerical, em confronto - aberto ou velado - com os valores mais evidentes da Tradição de Jesus. Nas próprias fontes neotestamentárias, desde que atentamente lidas e criticamente interpretadas, encontra-se farto material capaz de desvelar o lugar protagônico que as mulheres ocupavam nas primeiras comunidades cristãs, que se estendeu pelos primeiros séculos, não obstante certo tratamento androcêntrico a elas dispensados por algumas figuras da Patrística, sobretudo por conta da influência da Filosofia greco-romana então predominante. Nada obstante, cumpre lembrar que, mesmo o ambiente Patrístico reconhecia Maria Madalena como “a apóstola dos apóstolos”. Fazendo coro com vasta literatura hermenêutica academicamente reconhecida Elisabeth Schussler Friorenza fornece farto material atinente a fontes bíblicas especialmente neotestamentárias, das quais não nos ocupamos, nestas linhas, a não ser para sublinhar algumas passagens mais emblemáticas. Nos próprios Evangelhos canônicos, ressoa retumbante, na figura de Maria Madalena, o destacado lugar com que Jesus tratava as Mulheres:

· Neles percebemos, por exemplo, que, enquanto os varões fugiram da cena da Paixão de Jesus (com exceção de João), lá estavam as mulheres, inclusive Maria Madalena, como uma das testemunhas da crucificação e da tumba vazia no dia da Ressurreição (cf. Lucas 8,2);

· No relato da Ressurreição de Jesus, não foi primeiramente aos varões que jesus apareceu, mas a Maria Madalena (cf. Jo, 20, 11-18);

· Diversas passagens dos Evangelhos apontam que Jesus esteve sempre acompanhado, não apenas de varões, mas também de mulheres.

 

Igualmente, em outros escritos neotestamentários, especialmente nas Cartas paulinas, encontramos passagens emblemáticas que deslegitimam supostos fundamentos do sexismo estrutural, que se instalou - e ainda perdura -, nos espaços eclesiásticos. Só para mencionar, de passagem, dois casos:

· Na Carta de Paulo, dirigida às Comunidades da Galácia, por exemplo, está escrito: “Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus" (Gl 3,28);

· Chamam-nos, por exemplo, especial atenção as cerca de 10 mulheres citadas pelo Apóstolo Paulo, no capítulo 16 de sua Carta dirigida às Comunidades de Roma: “Febe, Priscila, Maria, Júnia, Trifena, Trifosa, Pérside, Júlia e a irmã de Nereu”. Outras passagens incluem Lídia, Evódia e Síntique.

 

Daí não se conclua, porém que não haja no conjunto dos textos bíblicos - inclusive nos escritos neotestamentários -, passagens recheadas de viés androcêntrico. Como recurso ilustrativo fixemo-nos apenas em quatro casos:

· Em passagens das próprias Cartas (deutero)paulinas a despeito de informações convincentes observáveis no próprio texto, podemos constatar uma posição de pouca empatia em relação ao papel de destaque profético e missionário exercido por diversas mulheres: Maria, Trifena, Pérside, Trifosa, Maria, Febe, Priscila, algumas das quais gozando de um reconhecimento comunitário igual ou até mais do que Paulo, até porque algumas delas o precederam na missão. (cf., por exemplo, a própria carta dirigida às comunidades de Roma).

· Passagens, por exemplo, de Cartas deuteropaulinas (1 Timóteo 2:11-14 e 1 Coríntios 14:34-35) são citadas proibindo as mulheres de pregar ou falar em público: “A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição” (1 Tm 2,11); “permaneçam as mulheres em silêncio nas igrejas, pois não lhes é permitido falar; antes permaneçam em submissão, como diz a lei.” (1 Cor 14, 34).

· Com semelhante contundência, também lemos na Carta do autor de 1 Pedro a seguinte exortação: “Mulheres: submetam-se aos seus maridos”. (1 Pe 3,1-7).

· Com base em outras informações, chegamos a saber da enorme contribuição prestada por diversas mulheres, sob várias formas, pelo bem da ação missionária. Entre essas fiéis colaboradoras se encontram, entre outras, a diácona Febe, Priscila, Maria, Trifena. Seja por meio de sua reconhecida dedicação missionária, seja pela substanciosa ajuda financeira, essas mulheres tiveram um lugar protagônico na ação missionária, junto às primeiras comunidades cristãs.

 

O protagonismo das mulheres nos séculos seguintes e na baixa Idade Média

 

Tantas outras mulheres seguiram contribuindo, de modo protagônico, nos primeiros séculos, inclusive no século IV, a exemplo de Egéria, considerada a primeira mulher escritora em língua latina, autora de “Itinerarium ad Loca Sancta” (Itinerário/Peregrinação aos Lugares Santos), documento que, além de sua relevância literária, compreende importantes elementos de catequese e de uma visão política do seu tempo. Trata-se de um documento composto de 49 capítulos, dividindo-se em duas partes: a primeira constituída de 23 capítulos descrevendo episódios da peregrinação rumo aos lugares santos da Palestina; a segunda, tratando das celebrações litúrgicas referentes ao calendário cristão (Epifania, Quaresma, Páscoa, Pentecostes…), além de escritos doutrinários e Catequéticos.

 

Bem mais tarde, já na baixa Idade Média (séculos XIII, XIV e XV), diversos coletivos femininos e diversas figuras femininas individuais se mostraram igualmente como protagonistas, no âmbito da “Ekklesia”, dos quais cumpre destacar o Movimento das Beguinas, formado por centenas de milhares de mulheres que sentindo-se vocacionadas à vida religiosa, recusaram-se a pronunciar votos de obediência ao clero, preferindo organiza-se comunitariamente e de forma autônoma para se dedicarem à oração, a os trabalhos manuais e ao serviço dos pobres e dos doentes. Entre tantas Beguinas figuram nomes tais como a Mística Hadewijch de Antuérpia, Matilde de Magdeburgo, Marguerite Porete e Beatriz de Nazaré, já tivemos várias oportunidades de rememorar traços significativos do Movimento das Beguinas (cf. texdosdealdercalado.blogspot.com)

 

Além destas, outras mulheres surgiram, a exemplo de Christine de Pizan (1363-1430) e de Isabel de Vilhena (1430-1490). Quanto à primeira, trata-se de uma célebre intelectual e escritora ítalo-francesa - diz-se ter sido a primeira mulher a viver de sua propria produção -, que se empenhou fortemente na defesa e na promoção do protagonismo das mulheres, ao mesmo tempo em que se combatia a misoginia de que eram vítimas as escritoras e intelectuais. Sua principal obra é “A Cidade das Damas”. Com relação a Isabel de Vilhena, é considerada uma protofeminista, saudada pelo seu talento de escritora, e reconhecida principalmente pela sua famosa obra “Vita Christi”. Trata-se de uma obra composta por 49 capítulos, divididos em duas partes: a primeira, que vai até o capítulo 23, descreve relevantes episódios da peregrinação rumo aos lugares santos da Palestina; a segunda parte, que vai até ao capítulo 29, inclui escritos doutrinários e catequéticos.

 

A consolidação do Papado, sobretudo a partir da era constantiniana só consegue agravar o domínio clerical de exclusão das mulheres (e dos demais membros do Laicato) inclusive por meio de uma organização eclesiástica colada às conveniências do Império Romano e suas estruturas organizativas, das quais o modelo Diocese se tem mostrado extremamente funcional, em relação ao qual o modelo Paróquia passou a ter outro significado diferentemente do sentido vivenciado nas primeiras Comunidades, o termo “Paróquia” passa a designar um território subordinado e complementar da “Diocese”, como esclarece o recente artigo firmado por Eduardo Hoornaert (cf. https://eduardohoornaert.blogspot.com).

 

Que estratégias principais têm sido utilizadas pela casta clerical para manter o domínio patriarcal/hierárquico/clerical/colonial?

 

A despeito da resistência profética oposta pelas mulheres, coletiva ou individualmente, nos séculos seguintes, o sexismo clerical - que Elisabeth Schussler Fiorenza avalia como “pecado estrutural” -, o domínio clerical não cessou de prevalecer. Para tanto, recorreu a diferentes estratagemas:

· A manutenção e fortalecimento da estrutura organizativa piramidal, graças ao modelo monárquico (o Papado);

· O recurso a estratégias políticas e administrativas do Império Romano, meio pelo qual a hierarquia, afastando-se cada vez mais do espírito comunitário dos textos e práticas e do movimento de jesus e das primeiras Comunidades Cristãs, passou a impor normas drásticas de obediência seja por meio de sucessivas leis e decretos, seja pela imposição do código de Direito Canônico, seja de símbolos litúrgicos atinentes a estrutura militar do Império Romano (haja vista os paramentos da Missa, antes do Concílio Vaticano II);

· Adoção de uma espécie de “operação borracha”, mediante a qual o clero se empenha, tal como o faziam diversas figuras de varões do contexto imperial secular, em usurpar, fraudar ou apossar-se da autoria feminina de importantes textos literários e sagrados;

· A prática de se manter as mulheres em situação de subordinação, de exploração econômica;

· A proibição do acesso às mulheres, do direito a frequentar a escola e os cursos de teologia;

· A proibição feita às mulheres, de acessarem aos ministérios ordenados;

· O controle pelo clero das atividades eclesiásticas de segundo ou terceiro escalões, reservada às mulheres;

· A cooptação, pelo clero, de figuras femininas generosas e talentosas, para cumprirem tarefas em favor do clero.

 

Longa seria a lista de estratégias utilizadas pelo clero - e, ao seu modo, pelos pastores e varões de outras Igrejas Cristãs -, com a finalidade de manterem o domínio patriarcal/hierarquizante/clerical/colonial. Mesmo nos dias que correm, essa estrutura piramidal se mantém largamente em voga a despeito de algumas conquistas pontuais alcançadas pelas mulheres, tanto no âmbito societal quanto ao interno dos espaços eclesiais.

 

Que passos ensaiar, visando à superação processual deste quadro?

 

Por mais forte e longeva que seja uma opressão, vale sempre lembrar que, além de histórica (portanto mutável), toda opressão corresponde a uma relação social entre dois pólos: o pólo dominante e o pólo dominado. A eficácia da dominação recai NA RELAÇÃO entre os dois pólos, e não necessariamente no pólo dominador. Onde e quando o pólo dominado ousa resistir, a dominação não se completa. Assim tem sucedido ao longo da História, a diferentes povos, classes e grupos sociais. Assim, também, em relação às Mulheres, seja no âmbito societal, seja ao interno das Igrejas Cristãs. Nas próximas linhas, sempre a partir das teses fundamentais sustentadas por Elisabeth Schussler Fiorenza, cuidaremos de sintetizar passos e condições - já dados ou a serem dados, pelas Mulheres -, na Sociedade e nas Igrejas, em busca do reconhecimento efetivo dos direitos das mulheres a um tratamento equânime em todos os espaços - públicos e privados de que participam.

 

No caso específico dos espaços eclesiais, a autora propõe pelo menos quatro encaminhamentos:

· Investir, com firmeza e de modo continuado, no processo de formação teológica feminista de Libertação, de preferência visando aos graus mais elevados de qualificação;

· Aplicar, nas atividades litúrgicas e ministeriais, os achados a que se chega, no processo formativo continuado;

· Vivenciar, no dia-a-dia uma espiritualidade feminista libertadora, conciliando-a com os aprendizados do cotidiano;

· Manter-se alerta quanto aos riscos de cooptação pelas práticas patriarcais/hierárquicas/clericais/coloniais.

 

Quanto a primeira recomendação, na qual ela insiste reiteradamente, em seus escritos, Elisabeth Schussler Fiorenza sustenta a necessidade e a urgência, por parte das Mulheres, de se dedicarem a um processo ininterrupto de formação, em todos os campos de saberes - como dizia o Poeta José Martí, “O Conhecimento Liberta” -, seja quanto aos desafios da realidade social, seja especialmente quanto aos enormes desafios eclesiais. Neste sentido, urge acumular profundos conhecimento históricos, teológicos (desde a hermenêutica histórico-crítica, os estudos bíblicos, a Criação, a Cristologia, e Pneumatologia, a Eclesiologia, a Teologia Ministerial, a Liturgia, os documentos Magisteriais, os documentos jurídicos, a estrutura de formação do clero entre outros temas). Trata-se aí de exercitar uma eficaz arma da crítica, sem a qual não serão capazes de se contraporem, à altura, ao secular domínio clerical.

 

No que tange à liturgia e as atividades ministeriais do cotidiano, a recomendação por ela proposta é de buscarem aplicar/adaptar a tais atividades, seus novos aprendizados, enquanto se empenham igualmente em fazer refletir a aplicação desses mesmo aprendizados no exercício cotidiano de sua Espiritualidade feminista crítica de Libertação. Somente assim, lograrão manter-se mais vigilantes quanto aos sérios riscos tanto de cooptação pelos varões do clero, quanto aos riscos de reproduzirem, nas relações do cotidiano, situações contraditórias que almejam superar.

 

Um tema também por ela enfrentado, tem a ver com a recusa secular feita pela hierarquia do direito das Mulheres vocacionadas ao exercício ministerial, em todos os graus. Em que pese sobre isto a reserva que a própria Elisabeth Schussler Fiorenza expressa - ela alerta para o risco de que tal inclusão implique o fortalecimento da estrutura piramidal da Igreja -, ela recomenda que, em sendo esta a opção das vocacionadas, que elas pleiteiem começando pelo grau Episcopal, com o que poderiam contribuir para a reparação ou redução de históricas desigualdades. Ainda assim ela se mostra reticente mesmo quanto a esta opção, não apenas pelo receio de assim contribuírem para a manutenção da estrutura piramidal - assim mantendo o modelo organizativo e hierárquico: “Papa-Bispos-Presbíteros-Diáconos-Leigos” -, deixando assim de ousar propor um modelo organizativo alternativo ao domínio patriarcal-hierárquico, clerical-colonial.

 

A propósito desta última recomendação, resulta útil e oportuna a proposta enunciada por Eduardo Hoornaert, em seu já mencionado texto recém-escrito - “O modelo Diocese vai passar?” -, em que sugere como saída a via ecumênica, a ser compartilhada por diferentes denominações e pelo avanço do diálogo inter-religioso. De todos os modos, convém manter-nos abertos e em constante busca, para sabermos o que a Divina Ruah nos inspira a agir diante de antigos e novos desafios.

 

João Pessoa, 22 de Setembro de 2025 



sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Paulo Freire circunda a “Pátria Grande” Atiçando centelhas de resistência!

Paulo Freire circunda a “Pátria Grande”

Atiçando centelhas de resistência!

 

Alder Júlio Ferreira Calado

 

Julgamento histórico de Generais

Faz justiça às vítimas da Ditadura 


A figura do boi esquartejado 

Só desvela a retórica do “Pavão”...


Diletante e fugidio, o voto de Fuchs 

Absorve até mesmo o ex-Presidente…


O espaço do Qatar foi violado 

Pelo Estado terrorista de Israel 


Os critérios e as leis instituídas  

È a classe dominante que determina 


Parlamento é inimigo do País:

Idólatra a bandeira do Império!  


Escondendo sua boca desdentada 

O leão do Império ruge à toa


O destino do Império é a lixeira 

Que a História reserva às tiranias


Lei prevê que o salário assegure 

Sete itens vitais para quem trabalha:


Alimento, roupa, casa, saúde, escola

O transporte e ainda o seu lazer 


Zero seja a tarifa de transporte 

Extensiva ao conjunto da semana


Pretextando defender imunidade

Deputados ainda aumentam privilégios  

  

Parlamento de costas para o povo 

Só legisla em sua própria causa


Cidadãos se sentindo mais que os outros 

Deputados se blindam da Justiça 


Votação de Anistia só induz 

Os golpistas a tramarem novos golpes 


Presidente da Câmara cria a fama 

De faltar com a palavra, com frequência 


Quem, de regra, não cumpre o que promete

Perde a honra e chafurda sua vida 


Anistia sem sentença publicada 

Soa qual confissão do próprio crime


Faz-se urgente alertar a nosso Povo:

O “Centrão” não é Centro: é a Direita!


Hugo Mota, em vão, prega a anistia 

Com a Direita, insiste em votação


Meio termo inexiste neste caso:

“Não se pode servir a dois senhores”!  


Ao Congresso não cabe julgamento: 

À Justiça, tão só cabe julgar!


No Domingo que vem, Povo na rua:

Contra a PEC da Blindagem e Anistia  


João Pessoa, 19 de setembro de 2025


 





 





 




    

 


terça-feira, 9 de setembro de 2025

Traidores da Pátria mostram a cara: A Bandeira que erguem, é a do Império!

Traidores da Pátria mostram a cara: 

A Bandeira que erguem, é a do Império!


Alder Júlio Ferreira Calado 


Qual é mesmo a pátria Bolsomínia?

Bem o mostra a bandeira do Império…


Uma afronta extremada à nossa Pátria:

Adorar a bandeira do Império


É gritante esta afronta da Direita: 

Dia 7, clamar intervenção…


A bandeira do Império bem o mostra

Qual a Pátria real dos Bolsomínions 


Justo após os açoites do Império

Se dispõem a beijar o seu chicote


Bolsomínio Tarcísio tira a máscara 

E se torna um assecla do Trumpismo 


Anistia só faz trazer à tona 

Ameaça ao golpismo continuado 


E já passa da hora a Reforma 

A ser feita nas hastes militares 


Segmentos armados fiquem fora 

Das disputas política do País 


A disputa política é dos civis 

Militar que, o queira, deixe a farda!


Encontrados na própria Faria Lima

Sugestivos sinais de falcatruas…


Fortes traços de crimes do combustível

Farejados entre os “grandes” das fintechs… 


Neste 7 de setembro, no Brasil

Excluídos vão à rua protestar


Pelo fim da escala 6 por 1

Exigindo que os ricos paguem impostos


E que os pobres fiquem isentos de impostos

Seu lugar tem que ser no orçamento


O Império ameaça o Caribe 

Pretextando combater o narcotráfico


Seu intento, porém: Venezuela

Como diz a cantiga popular: ele está de olho é no petróleo dela…


Singra os mares a Flotilha da Liberdade 

Carregada de víveres aos Palestinos 


São bem mais de 40 embarcações 

E, em Tunes outras 20 se somaram!


O maior dos eventos solidários

Que os Povos atestam aos Palestinos 


Militantes de peso a acompanham:

Dos 500, 13 seguem do Brasil.


João Pessoa, 09 de setembro de 2025


 



   



 


 






 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Nesta quadra sombria, resistimos Enfrentando velhos, novos desafios!

Nesta quadra sombria, resistimos 

Enfrentando velhos, novos desafios! 


Alder Júlio Ferreira Calado


Covardia dos “grandes” do Ocidente 

Se renderem aos caprichos do Trumpismo 


Espalhando a cizânia pelo mundo 

O Império precipita seu declínio 


A lição da Bolívia é incontestável

Desunida, a Esquerda é derrotada 


Democratas cometem suícidio

Quando deixam agir a ultra-Direita 


Foi certeiro o que fez Venezuela

Refutando o retorno da Direita 


Faz-se urgente cultivar mais empatia 

Com os nossos irmãos da Pátria Grande 


É uma farsa a liberal-democracia

Só garante privilégios dos “De cima”  

 

Holocausto palestino às escancaras 

Os humanos o assistem, passivamente


Nossos pósteros vão cobrar-nos muito caro 

Pela nossa omissão ante o massacre 


Exceções são escassas, mas as temos

Do Iêmen , há sinais de resistência


Israel e Ocidente tem bomba atômica

Mas proíbem que outros os imitem…   


Ocidente fustiga o Irã

A pretexto de evitar a bomba atômica…


O'Império ameaça Venezuela 

Enfrentando resistência de milhões


A Europa aprofunda vassalagem 

Aos ditames do Império Trumpiano


Mas que isto, os vassalos do Brasil 

Qual Tarcísio, prestam culto ao Império  


Violando as leis mais comezinhas

Parlamento conspira contra o povo 


A extrema- Direita, com Tarcísio 

Cooperando como massacre do Império 


A pretexto de punir o narcotráfico 

O Império ameaça Venezuela 

 

Capital financeiro está por trás 

Do gigante escândalo das FINTECH


Esses bancos digitais escondem os crimes

De empresários ligados ao PCC 

   

Abortado o Projeto da impunidade 

Que a Direita queria emplacar? 


Julgamento do Golpe terá início

Dia 02 já vem vindo. Acompanhemos 


Abusivas emendas parlamentares

Meros caixas para eleger tais candidatos

 

O perigo reside em apostar

Que se vença o golpismo pelas urnas… 


Valdemar, Presidente do PL 

“Profetiza” destino de Bolsonaro 


Cultuado será, qual Che Guevara…

Com retrato estampado, em camisetas


Revoltante é a câmara não cassar 

O mandato de Eduardo Bolsonaro


A traição que comete contra o Brasil 

Nos obriga a tratá-lo como tal 


Para blindar dos seus crimes mais comuns

Parlamento extrapola imunidade


ALEPE, em Recife um despautério:

Conceder a Damares honraria 


Exitosa, a ação policial 


Que desbanca o crime organizado 


João Pessoa, 01 de Setembro de 2025



  



 

  




  


    


 

sábado, 30 de agosto de 2025

Uma Educadora Popular Paraíbana: Breves Notas Sobre Aspectos Da Trajetória De Vida De Maria Salete Van Der Poel

 Uma Educadora Popular Paraíbana: Breves Notas Sobre Aspectos Da Trajetória De Vida De Maria Salete Van Der Poel

 

Alder Júlio Ferreira Calado 

 

Nosso amigo comum Luiz Gonzaga Gonçalves e eu temos sido, reiteradas vezes, convidados pela Educadora Popular Maria Salete Van der Poel, a exercitarmos uma interlocução sobre seus recentes escritos - livros e outros textos. Desta feita, propôs-nos tecer considerações a propósito da sua autobiografia, ainda em construção. Também de minha parte, acolhi, com alegria, seu instigante convite. 

 

Desde meu ingresso, por concurso público, para a UFPB, em João Pessoa, mais precisamente para o Departamento de Metodologia da Educação, no Centro de Educação, em 1992, travei conhecimento com Salete e com Cornelis, seu marido, tendo eu tido a oportunidade de substituí-la na disciplina Prática de Ensino de Sociologia da Educação. Ainda na primeira metade dos anos 90, tive a honra de prefaciar um de seus livros (escrito em co-autoria com Cornelis). Seguiram-se os contatos ainda que já não mais em função de atividades profissionais. Acompanhei a crescente inserção do casal recém aposentado (Cornelis havia trabalhado no Departamento de Ciências Sociais, no CCHLA/UFPB, tendo exercido inclusive a Coordenação do PPGSCS, do qual foi fundador, com relevante contribuição, conforme atestam as Atas daquele Programa de Pós-Graduação. 

 

A essa altura, Salete havia feito um longo percurso como educadora popular, pelo menos desde sua iniciativa de fundar, em Campina Grande, um Instituto de Educação voltado para o Ensino Fundamental, quando ainda não havia concluído o Curso de Magistério. Daí por diante, prosperou no campo da Educação, especialmente voltada para as séries iniciais do Ensino Fundamental. Desde então, não tem cessado de militar, seja como alfabetizadora, seja como cidadã, vivenciando sua condição como uma militante a serviço da emancipação dos oprimidos de ontem e de hoje. Ao cabo de décadas de militância teórico-prática como educadora popular, e frequentemente solicitada a registrar sua história de vida, houve por bem acolher a recomendação de amigos, conhecidos, leitores e leitoras, a registrar sua história de vida.

 

Já às vésperas de completar seus 89 anos, e já não gozando de condições ideais de saúde, Salete encontrou força, coragem e criatividade para registrar significativos momentos de sua vida de educadora, para o que recorreu a duas ferramentas primorosas: a via dos fragmentos e o modo de exposição do seu vivido. Quanto a este último, inspirando-se na linguagem musical, decidiu distribuir seus relatos em três momentos dinamicamente interconectados: o do prelúdio, o do interlúdio e o do pós-lúdio. Quanto à segunda ferramenta - a dos fragmentos -, buscou sólida inspiração teórica em clássicos de reconhecida contribuição, seja no âmbito de clássicos internacionais da Teoria Literária (Mikhail Bakhtin, Walter Benjamin, Fernando Pessoa, entre outros), seja no âmbito nacional (Graciliano Ramos, Augusto dos Anjos, entre outros).

 

Considerações acerca de seu “Prelúdio”

 

Resulta deveras impactante ler ou ouvir, a viva voz, os relatos de infância trazidos à tona pela própria autora soam como estivesse mergulhada nesse universo de encantos, envolvida pelo idílico ambiente rústico da fazenda de seu avô, próxima a Campina Grande. Tem prazer em compartilhar os mínimos detalhes daquele ambiente, a começar do casarão - a “Casa Grande” -, sua estrutura arquitetônica, dos diversos compartimentos, a mobília, os objetos da casa, o relógio, bem como os afazeres cotidianos de seus moradores, em especial de duas domésticas de quem aquela criança de 6/7 anos vivia tão próxima, e com quem tantas coisas aprenderá. Ao ouvir tais relatos, vinha-me à mente a letra da canção de Jessie Quirino, “Da cumeeira de Aroeira lá da Casa Grande”. 

 

Outra marca, inclusive em sua infância, vêm da forte temporal de sua mãe, sempre a imprimir forte traço na convivência com as pessoas da casa ou da vizinhança. Sobre seu pai fala menos, restando relatos mais profundos de admiração pela mãe e pelas irmãs, em especial sua irmã Enilda, parceira de trabalho e de ideais, especialmente no campo Educação, da Cultura e das Artes. Quanto ao rico aprendizado com as pessoas que trabalhavam na casa, destaca com ênfase seu espírito espontâneo e livre como lhe contavam suas histórias. Graças a essas companhias, a criança aprende um conjunto de experiências do cotidiano das relações empregado-patrão, dos afazeres da casa, das virtudes e vícios dos adultos, a contemplação da natureza e dos animais.  

 

Salete também compartilha experiências de seu mundo encantado da escola, especialmente do mundo acadêmico. Antes, porém, nos conta de prazeres e desprazeres acumulados, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, enfatizando relatos de experiências protagonizadas por alguns de seus Professores e Professoras, ilustrando momentos de encantos proporcionados por alguns de seus Mestres e Mestras de reconhecida competência, em suas respectivas áreas de conhecimento.  

 

Salete foi também precoce no campo do trabalho. Ainda não havia concluído o Ensino Médio (Magistério), e em busca de dar passos na direção de sua autonomia econômica com a ajuda de seu avô, de sua mãe e de sua irmã, Salete monta, em uma sala cedida pelo seu avô, uma Escola de alfabetização. Iniciando com poucos alunos, a Escola vai prosperando, inclusive, no aumento do número de alunos e alunas, graças ao entusiasmo e à competência técnica da jovem professora e, por outro lado, ao reconhecimento e a promoção de sua iniciativa, também assumida por várias outras famílias, de modo a alcançar notoriedade na cidade.



Durou cerca de uma década a experiência protagonizada por Salete, à frente do Instituto que levava seu nome. Sentia-se motivada a aprofundar seus conhecimentos, bem como a ampliar sua atuação no campo da Educação Popular, graças também a ebulição social e política dos inícios dos anos 1960 - tempos de intensa mobilização de diversos segmentos da sociedade brasileira, a clamarem pelas reformas de base: a Reforma Agrária a Reforma da Educação, entre outras. Ao mesmo tempo, sentia-se provocada a dar sua contribuição especial, no campo da Educação Popular inclusive graças aos laços por ela tecidos com a JEC (Juventude Estudantil Católica) e com a JUC ( Juventude Universitária Católica), atuação fortalecida pela influência exercida pelo setor progressista da Igreja Católica com o qual travou sólido conhecimento. A este propósito merece especial atenção o relato circunstanciado que faz acerca da força mobilizadora dos secundaristas e dos universitários, em apoio e promoção dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade. 



Em consequência dessas lutas estudantis, camponesas e operárias pelas reformas de base, e graças à crescente reação das forças da Direita, não tardaria a instalação de uma longa e perversa Ditadura Empresarial-Militar, iniciada com o Golpe Civil-Militar de 1964.



Ainda na segunda metade dos anos 1960, ela houve por bem dar prosseguimento aos seus estudos, desta vez enfrentando o Vestibular para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru (FAFICA), onde cursou Pedagogia, graças à qual conseguiu refinar, especialmente no plano teórico, seu trabalho profissional e seu compromisso de militância, tendo antes atuado vivamente como Educadora Popular, como integrante da Equipe de Coordenação, em Campina Grande, da Ceplac (Campanha de Educação Popular da Paraíba, no caso, em Campina Grande), que se desenvolveu entre 1961 e 1964, tendo caído abortada pelo Golpe Civil-Militar de 1964 tratou-se de uma experiência de Letramento de Adultos, sob a coordenação geral de Paulo Freire e sua Equipe, com articulação orgânica com outras experiências Alfabetização de Adultos, em outros Estados, a exemplo do que se passou em Angicos-RN. Tais experiências constituem a marca mais notável do Sistema Paulo Freire, cuja metodologia se baseia no despertar crítico- libertador dos seus participantes, em uma perspectiva emancipadora e de protagonismo por parte dos estudantes - pessoas jovens e adultas do meio popular do campo e das periferias urbanas. 



As forças políticas e militares, assustadas com o potencial libertário daquelas experiências de Educação Popular, trataram de abordá-la, perseguindo e prendendo seus promotores. Tempos sombrios também Salete, junto com os demais integrantes daquela experiência formativa teve que enfrentar e amargar seguidas prisões e perseguições, durante vários anos. 



A despeito de inúmeras adversidades, Salete logra ser admitida como aluna do Mestrado em Educação Popular, da Universidade Federal da Paraíba, orientando seus estudos e sua pesquisa, na perspectiva pedagógica de Paulo Freire, para a avaliação criteriosa de uma experiência pioneira de alfabetização de adultos, em situação de privação de liberdade, por ela animada junto a apenados na Penitenciária do Roger, bairro de João Pessoa, durante alguns anos. Esta sua experiência de educadora Popular, de notável repercussão na área resultou objeto de sua Dissertação de Mestrado, e na publicação pela Editora Vozes, em 1981 do Livro intitulado “Alfabetização de Adultos: Sistemas Paulo Freire Estudo de caso num presídio”. Sua Dissertação de Mestrado contou com a orientação de uma pesquisadora da UFPE, Astrogilda Cavalcante, profunda conhecedora do sistema Paulo Freire que reconheceu a excelência da pesquisa realizada por Salete, juntamente com os demais membros.



A este mesmo propósito, mais recentemente, encorajada por amigos, ao saberem que ela conservava intactos diversos cadernos anotações e registros dos materiais utilizados naquela experiência vivenciada há 40 anos, relatada em seu livro acima mencionado, salete houve por bem sistematizar aqueles registros, publicano-os sob o título “Vidas Aprisionadas relatos de uma prática educativa” (Editora Vozes, 2018).


Experiências vividas em seu “interlúdio”  



Após enfrentar e vencer diferentes percalços, notadamente por conta de seu trabalho como Educadora Popular, em tempos de ditadura civil-militar, ela consegue finalmente ser admitida para o quadro docente da Universidade Federal da Paraíba, mas precisamente para o Centro de Educação, no Departamento de Metodologia da Educação, assumindo a docência de Prática de ensino da Sociologia da Educação, ofício que desenvolveu até a sua aposentadoria, em 1992. 



Uma das marcas mais fortes do interlúdio de Salete teve a ver com a parceria também intelectual firmada com seu marido, Cornelis Van der Poel, especialmente no período de sua aposentadoria. Em pelo menos dois campos - no aprofundamento teórico-metodológico da Educação Popular e na animação da longeva e fecunda experiência de animação, à frente de uma Associação Comunitária voltada para o letramento de adultos, no Agreste Paraibano -, tal parceria prosperou notavelmente. No primeiro caso, Salete e Cornelis decidiram mergulhar fundo no estudo e na pesquisa de teóricos da Educação e da linguística, especialmente de figuras Russas, a exemplo de Mikhail Bakhtin. Deste exercício resultaram vários livros por eles editados, em parceria. 

“Letramento de pessoas jovens e adultas na perspectiva sócio-histórica” (Editora A União. 1997);

“Trajetória de uma militância educacional: do sistema freireano ao letramento sócio-histórico”. (ufpb/oikos, 2007);              

“Prática de Leiturização com trabalhadores e trabalhadoras” (Oikos editora, 2010)

“Rede municipal de ensino em construção” (Marconi, 2001)



No que toca à segunda experiência em parceria, protagonizada por Salete e Cornelis, cumpre destacar a qualidade de seu trabalho, alguns de cujos frutos vale ressaltar. A parceria se deu, no agreste paraibano, com várias turmas de jovens e adultos, empenhados no letramento, sob a ótica de um referencial teórico metodológico alternativo às experiências convencionais de alfabetização de adultos, por diversas razões. Coerentes com o referencial teórico que buscava ir além do sistema freireano, ao refletir práticas de letramento também iluminadas por autores como Bakhtin, educadores e educandos preferem lidar mais com o letramento do que a mera alfabetização, comumente exercitada. Em consequência, as próprias palavras geradoras eram colhidas das experiências de vida e de trabalho compartilhadas pelos educandos e educandos. Neste sentido, já não fazia sentido recorrer a cartilhas e materiais de alfabetização de adultos, que não fossem produto dos próprios educandos e educandas. Eram elas e eles, mediados por seus educadores, a exercitarem o letramento, a partir de suas próprias vivências. Tal experiência se acha bem relatada, por exemplo, em seus livros acima mencionados. A propósito também, desta experiência, importa lembrar a fecunda conexão que Cornelis e Salete mantinham com o pessoal da Rede latino americana de alfabetização de jovens e adultos a exemplo do que para eles representa CEAAL (Conselho de Educação Popular da América Latina e Caribe), sobre o qual recomendamos acessar https://www.google.com/search?q=cuando+fue+creado+ele+consejo+de+educacion+popular+latinoamericano+y+caribeno+%3F&rlz=1CANTYF_enBR1128&oq=cuando+fue+creado+ele+consejo+de+educacion+popular+latinoamericano+y+caribeno+%3F+&gs_lcrp=EgZjaHJvbWUyBggAEEUYOdIBCTkxNjkxajBqNKgCALACAQ&sourceid=chrome&ie=UTF-8&safe=active&ssui=on  


Após a partida de Cornelis, Salete se mantém ativa, seja na participação de eventos ligados à EJA, a exemplo de sua contribuição aos fóruns estaduais de EJA, seja na produção e publicação de seus textos. Mesmo alcançada pelos problemas de saúde, aos seus 89 anos, segue comprometida com a causa militante da educ

ação popular. 


João Pessoa, 30 de agosto de 2025

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Um dia especial, no cotidiano do Movimento das Comunidades Populares (MCP), no Nordeste

Um dia especial, no cotidiano do Movimento das Comunidades Populares (MCP), no Nordeste 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Atendendo a mais um convite da coordenação do MCP paraibano, tive a alegria de participar de mais um Encontro deste Movimento, realizado em Cabedelo - PB, nos dias 16 e 17 próximo-passados. Tratava-se de um Encontro especial de avaliação e de comemoração dos quatro anos da fecunda experiência, em âmbito nordestino (Alagoas, Pernambuco e Paraíba) do GIC (Grupo de Investimento Coletivo), uma das múltiplas marcas do MCP, iniciativa que, na região Sudeste (especialmente no Rio), já alcança décadas. Por conta de outra agenda já comprometida (Encontro mensal de reflexão e de estudos com o grupo Caminhos de Liberdade, junto à Comunidade do Mutirão, em Bayeux), dele só pude participar no Domingo. 

Já tive  várias oportunidades, no blog textosdealdercalado.blogspot.com, de compartilhar diversos textos sobre o MCP. O Movimento das Comunidades Populares, nascido em 1969, sucedâneo da JAC (Juventude Agrária Católica), e que, desde então, tem atuado no Brasil sob diferentes denominações conjunturais (MER- Movimento de Evangelização Rural; CSI - Corrente Sindical Independente; MCL - Movimento das Comissões de Lutas; e, desde 2009, MCP – Movimento das Comunidades Populares), organizado em diversas regiões do País, com sede em Feira de Santana-BA, onde teve lugar, no ano passado seu I Congresso Nacional.


O MCP ainda vive sob o calor e entusiasmo do seu recente Congresso realizado em 2024. As principais marcas do MCP são a fidelidade aos interesses da Classe Trabalhadora; a tomada de decisões pela Base; a autonomia - econômica, política, e ideológica, tanto em relação ao Mercado Capitalista, como em relação ao Estado e seus aparelhos. Organiza-se em vários setores - lutas pela Saúde, Moradia, pela Educação, pela Cultura, protagonizadas pelos seus militantes do Campo e das periferias urbanas, nas lutas em defesa e promoção dos Povos Originários, das Comunidades quilombolas, dos Camponeses, dos operários, dos Desempregados e das maiorias oprimidas de nossa sociedade. Diferentemente de outros movimentos populares, o MCP tem optado pela não-filiação a partidos institucionalizados.


As linhas que seguem, têm o propósito de pôr em relevo alguns aspectos das atividades realizadas neste Encontro, em especial no tocante à avaliação da experiência dos quatro anos de funcionamento do GIC – Grupo de Investimento Coletivo. A partir de cinco questões trabalhadas em pequenos grupos. Os participantes debateram e refletiram sobre o funcionamento e os frutos colhidos por esta experiência, bem como acerca dos desafios encontrados e o modo como os diversos grupos do GIC se organizam para superar as deficiências.


Importa assinalar o sentido maior desta experiência, no quadro geral do MCP: ousando uma alternativa à lógica do sistema bancário burguês – enraizada na obtenção de lucros extorsivos -, os membros do MCP apostam na força dos tostões compartilhados investidos no GIC, como forma alternativa de reserva para financiamento de pequenos projetos coletivos ou mesmo de alcance individual. Por exemplo, um desses membros do GIC relatou, com alegria, que dos tostões que ele investira, há alguns anos, chegou a recolher, como resultado, o valor suficiente para adquirir algumas tarefas de terra e vários bodes para criar. Importante, ainda, ressaltar que, no conjunto de questões propostas para reflexão em pequenos grupos, duas delas instigavam os participantes a relatarem os seus esforços de identificar e de corrigir falhas de procedimentos quanto aos objetivos perseguidos pelo GIC, de modo a entendê-lo, não como um fim em si mesmo, mas como um instrumento a serviço do MCP, no que diz respeito ao exercício de sua autonomia econômica, com desdobramentos em suas lutas políticas e culturais. 


Ao mesmo tempo, os participantes - mulheres homens e crianças - mostraram-se sensíveis, na metodologia do Encontro, de modo a combinarem tempos de trabalho, de estudos, de reflexão, de convivência e de lazer, razão pela qual também se mostraram bem-sucedidos na escolha do local do Encontro e na repartição das tarefas. 


Tal dinâmica permitiu, inclusive, a um grupo de veteranos do Movimento, a realizarem, espontaneamente, uma animada roda de conversas, compartilhando suas memórias mais vivas, nesta trajetória cinquentenária do MCP, reconhecendo conquistas assim como momentos de debilidades, com muita abertura ao exercício da autocrítica. 


Impactou- me, em resumo, a persistência dos militantes do MCP, em buscarem caminhos alternativos de superação das mais diversas manifestações mortíferas do atual modo de produção, de consumo e de gestão societal, razão pela qual, sempre abertos a lerem criticamente a realidade e ao diálogo com outras forças populares, mantendo-se fiéis ao seu compromisso com as causas libertárias do Planeta, dos humanos e dos demais viventes.


João Pessoa 19 de Agosto de 2025.