quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Gratas lembranças de Pe. Noval

 Gratas lembranças de Pe. Noval 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Pesqueira, inícios dos anos 1960. Igreja Católica antes do Concílio Vaticano II. Bispo Diocesano: Dom Severino Mariano de Aguiar. Padres diocesanos dos quais me lembro Pe. José Cordeiro( Reitor do seminário São José), Pe. José Maria da Silva, (Vice-Reitor do Seminário e Assistente da JAC), Pe. Guilherme Andrada,(Diretor Espiritual e Professor de Francês e de Inglês), Pe. José Noval de Oliveira, (Pároco da Catedral), Pe. Fausto Ferraz (sucedeu a padre Aragão como chanceler da Cúria), Pe. José Cursino de Siqueira (Diretor do Colégio Cristo Rei), Pe. Heraldo Cordeiro (Pároco de Sanharó), Mons. Olímpio Torres, (Professor no seminário e no Colégio Cristo Rei), Pe. José Aragão, (Cúria Diocesana), CÔnego João Amâncio de Araújo Lima, (já Ancião, morando no Seminário), Cônego Antônio Duarte, (Pároco do Brejo da Madre de Deus), Pe. Assis Neves, (Pároco da Imaculada Conceição, em Belo Jardim), Pe. José Kerle e seu irmão Pe. Luis Kerle, (Vigários em Buíque), Pe. Rolando, (Vigário de Tupanatinga), Mons. Urbano Carvalho, (Pároco de Sertânia), Cónego Emanuel Vasconcelos (Pároco de Pedra), Pe. Pedro Gabriel (Pároco de Tacaratu), Padre Delson Cursino, (Diretor do Colégio Cardeal Arcoverde), os Frades Franciscanos: Frei Henrique (Porção), Frei Severino (Pároco da Imaculada Conceição, Pesqueira), Frei Jerônimo. (Pároco de Alagoinha).      


Pe. José Noval de Oliveira, Pároco da Catedral de Pesqueira-PE, nasceu em Triunfo-PE, Município integrante da Diocese de Pesqueira. Era um padre muito querido, especialmente pelos pobres de Pesqueira. No final dos anos 1950/inícios dos anos 60 minha avó materna, Maria, costumava me levar à Missa das 5 horas da manhã, celebrada pelo Pe. Noval, lembro-me que, em certas ocasiões Pe. Noval fazia homilia desde um púlpito situado no meio da nave central da Catedral. Em um tempo em que não se dispunha de serviço de som as homilias eram melhor escutadas, desde o púlpito. Criançinha eu ficava prestando atenção aos gestos que o padre fazia durante o sermão. De volta a casa, cobrindo-me com um pano (ao modo de casula), subia em um tamborete, tentava imitar palavras e gestos feitos durante a Missa. Certa vez, desequilibrei-me e tomei uma queda feia deixando grande cicatriz na testa, que perdurou por alguns anos. 


Zeloso Pastor, ele também promovia as vocações sacerdotais, inclusive estimulando as crianças a serem acólitos (“coroinhas”). Naquela época, antes do Concílio Vaticano II, a Missa era celebrada em Latim e ficando o celebrante, no altar, de costas para o povo. Com a ajuda do Sr. Mário, o sacristão, aprendi as respostas em Latim em diálogo com o celebrante. Ainda me lembro do diálogo: 


- Sacerdote: “Introíbo ad Altare Dei”

- Acólito: “Ad Deum qui laetificat juventutem meam”... e o sacerdote prosseguia a recitação dialogada do salmo 42/43… e assim seguia o diálogo inicial da Missa. Experiência que contribuiu para o despertar vocacional, e portanto para a entrada no Seminário São José em Pesqueira, aos 12 anos, ainda que se imponha reconhecer a imaturidade de uma criança para seguir este curso. 


Lembro-me que nas férias, Pe. Noval convidava o grupo de Seminaristas de Pesqueira - entre os quais, Leonildo, Expedito, além de mim e outros - para frequentar a Casa Paroquial todos os dias, à tarde, após termos feito leituras e orações, na Catedral, lendo inclusive capítulos da famosa “Imitação de Cristo”. Em seguida rumávamos para a Casa Paroquial, sendo recebidos por ele e pelas secretárias da casa (“Sá” Marta e Minervina, minha tia paterna) que nos servia um saboroso sorvete, enquanto líamos o Jornal do dia, mas só nos era permitido ler as páginas esportivas…


Pe. Noval levava uma vida modesta de muita dedicação aos serviços da Igreja, sendo muito simpatizado pelos seus paroquianos, seus sermões transpareciam sua postura de devoção e de misericórdia. A casa paroquial ficava situada perto da Catedral, na praça Dom José Lopes, primeiro Bispo da Diocese. 


 Pe. Noval não possuía automóvel e circulava a pé pela cidade. Atendia, com assiduidade as diversas capelas rurais, transportando-se de carro. 


Uma de tantas histórias acerca da generosidade do Pe. Noval, diz bem de sua postura misericordiosa. Certa vez uma jovem, atribulada pelas enormes contrariedades pelas quais estava passando, decidiu procurar em confissão, o aconselhamento do Pe. Noval. A jovem, recém chegada do sítio com o propósito de dar prosseguimento aos estudos, já tendo obtido êxito no exame de Admissão, enfrentava um dilema de difícil solução: vivia na casa de uma família conhecida de sua mãe a quem se ofereceram para acolher em sua casa aquela jovem. Em troca, contaria com os préstimos da jovem costureira, bem como no atendimento da bodega, mantida na casa. 


No correr dos dias, a jovem se viu assoberbada de trabalhos sem tempo para os estudos. Não bastasse tal situação, ela ainda tinha que cuidar da filha - criança da dona da casa, que apresentava sérios transtornos. Certo dia, foi à Igreja com a criança. Enquanto ajoelhada, a jovem se concentra em suas orações, a criança sem nada avisar, desaparece de sua vista. Extremamente preocupada, retorna a casa da família, onde finalmente se achava a criança que havia dito à mãe que fora abandonada pela jovem…


Ao ouvir atentamente o relato dramático feito pela jovem em confissão, Pe. Noval trata de dissuadi-la de retornar ao sítio, animando-a a prosseguir seus estudos. Pedindo que nada dissesse em casa - ele conhecia bem a família, entregou-lhe certa quantia de dinheiro, dizendo tratar-se de uma ajuda para a compra de livros e material escolar. Era assim, humilde e compassivo o Pe. Noval.


Já com idade avançada e acometido de asma, Pe. Noval foi tratar-se em Recife, onde veio a falecer alguns anos depois. Deixou profundas marcas de um Pastor humilde, compassivo e caridoso. Tantas vezes, como acólito, escutei-o a recitar, em latim, as orações fúnebres. Agora, sou eu a repetir aquelas palavras: 

(Requiem aeternam dona tibi, Domine?

(Et lux perpetua luceat tibi)

(Requiesce in pace.)

(Amen!)  


João Pessoa, 15 de Janeiro de 2026.

        

Um comentário:

  1. Alder, sendo Alder em Pesqueira.

    desde a memória, é mais do que um simples registro biográfico: ele se constrói como um pequeno lugar de origem. A figura do Pe. José Noval de Oliveira aparece não apenas como personagem histórico da Igreja de Pesqueira, mas como presença afetiva, mediadora entre o sagrado e a vida cotidiana, sobretudo dos pobres. A memória não o descreve; o recorda, e recordar, aqui, é fazer viver novamente.
    A lembrança da Missa das cinco da manhã, conduzida pela avó Maria, introduz um dado essencial: a fé transmitida não por discursos, mas por gestos repetidos, por hábitos silenciosos. A avó funciona como primeira catequista, aquela que leva pela mão e, sem saber, inscreve no corpo da criança uma experiência que o tempo não apaga. A Catedral deixa de ser apenas um espaço arquitetônico e se torna um cenário inaugural, onde o olhar infantil aprende a ver.
    A queda e a cicatriz funcionam como metáfora final poderosa. Toda tentativa de subir, de imitar o sagrado, traz consigo o risco da queda. A cicatriz na testa, visível, duradoura, torna-se um sinal inscrito no corpo, quase um estigma às avessas: não marca o fracasso, mas a seriedade do gesto. É como se a memória dissesse que toda vocação nasce ferida, e que a fidelidade se constrói não apesar das marcas, mas através delas.

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