sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Entrevista concedida ao Jornal da Paraíba, em 30/11/2003

 Entrevista concedida ao Jornal da Paraíba, em 30/11/2003

“O DESEMPREGO É A CRUELDADE MAIS PERVERSA DO CAPITALISMO

“O problema não é de hoje, mas acentuou-se, principalmente depois da era Thatcher/Reagan, com o neoliberalismo que, praticamente destruiu as iniciativas sociais do capitalismo. Venderam-se estatais e retiraram da lei prerrogativas e garantias, que a social-democracia, por exemplo, assegurava aos trabalhadores”. Para o professor Alder Júlio Ferreira Calado, doutor em Sociologia na França, essas contradições criam o espaço ideal para o próximo passo para quem não encontra absorção pelo mercado de trabalho: a marginalidade. Nesta entrevista, Alder Júlio fala sobre as iniciativas sociais que combatem e lutam para promover mudanças, como os movimentos sociais, que, segundo ele, surgiram no Brasil há séculos por causa do acúmulo de dívidas sociais, de âmbito estrutural, como trabalho, habitação e cidadania. Apesar da visão crítica, ele acredita na solidariedade, no "rio subterrâneo" formado por grupos comunitários, movimentos sociais, grupos eclesiais, onde há outros valores como a partilha e o resgate da natureza e do sagrado. Ele critica a mudança de rumo do PT ao chegar ao poder, diz que a Educação é um fator decisivo para o desenvolvimento humano e lembra que “nem toda vida interessa ao ser humano, mas a vida digna, a vida plena”, ao lembrar o Evangelho: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância”.

– Como se explica a proliferação de tantos movimentos sociais, no campo e nas cidades, no Brasil de hoje?

Alder: A sociedade brasileira, sobretudo no que se refere às camadas populares - das quais são expressão viva os movimentos sociais, carrega herdada do colonialismo, do escravismo muito forte. Legado que vai ser agravado, acrescentado dessa carga do capitalismo, que procura sempre cultuar a mania do chefe, a mania de desigualar as pessoas, de dividir, de apartar quem é "de bem" de quem não é.

– Esse âmbito estrutural quer dizer exatamente o quê?

Alder: Quando falo em âmbito estrutural quero dizer que há toda uma história carregada de dívidas sociais, do ponto de vista de trabalho, de habitação, do ponto de vista de cidadania no sentido mais pleno da palavra. Então, isso é uma dívida de caráter estrutural.

– E vem desde quando?

Alder: Desde a invasão do Brasil. Desde lá vem se acumulando, com o colonialismo, seguido do capitalismo, em que as pessoas passaram a ser tratadas como socialmente desiguais. Não estou falando em simples diferenças, porque distintos somos todos, e devemos ser, já que assim, somos complementares. Estou me referindo à desigualdade social. E a esse acúmulo, de caráter estrutural, junta-se o quadro conjuntural, que agrava determinadas dívidas sociais.

– E por que esse capitalismo dá certo em outros pedaços do mundo como a Europa e os Estados Unidos?

Alder: Eu diria que ele deu certo até certo ponto, quando existia a tal da social-democracia. Ela assegurava um segmento muito bem aquinhoado, do ponto de vista de um minúsculo contingente da população. Na Europa, especialmente na Escandinávia, nos anos 60, como que os operários viviam num certo paraíso de bem-estar social. Era o Estado do Bem-Estar Social. Mesmo assim, eu era crítico em relação a isso, porque esse estado de bem-estar social não se estendia para o conjunto dos trabalhadores de todos os países. As periferias sempre viveram nessa dependência tremenda. A social-democracia tinha a garantia desse bem-estar social a pequenos contingentes de operários, trabalhadores, sobretudo na Europa e particularmente no norte da Europa. Mas, com o agravamento do neoliberalismo, isso foi abandonado. Hoje é uma questão de pouca importância para o capitalismo.

– Volátil e volúvel...

Alder: Sem qualquer compromisso com nada. E pior, acumulando riquezas mais do que muitas nações reunidas. E ditando ordens, elaborando e implementando políticas econômicas e enfiando-as de goela abaixo nesses países, sob a complacência desses governos que não atuam de maneira digna, a defender a soberania nacional, como manda a Constituição desses países, que juraram cumprir e fazer cumprir.

– No Brasil, essa perspectiva seria diferente, agora, após a eleição de um político cujas origens estão nas camadas mais populares?

Alder: Eu sou um de tantos e tantas que lutaram no interior dessas forças, desde o seu início, no sentido de que elas viessem a desaguar, não nisso em que hoje a gente está metido, mas noutra realidade que a gente gostaria, e da qual não abdiquei pessoalmente. E comigo estão muitas pessoas de luta, mas a grande maioria do partido optou por outro caminho, da concessão, do aliancismo. E isso faz com que as bandeiras históricas sejam perdidas de vista, enquanto muitos se contentam com as chamadas políticas compensatórias.

– Mas será que daria para remar contra a maré?

Alder: É uma boa pergunta. Depende do povo, da conscientização, da nossa capacidade de protagonismo coletivo, que o nosso povo tenha. Evidente, que você sendo o presidente e todo o povo que não está nada acompanhando isso aí, você não poderia tomar atitude cujas conseqüências depois a maioria do povo não arcasse, não respaldasse e fugisse da luta, a reclamar: "Por que você decidiu uma coisa nos colocando nessa posição", porque certamente qualquer opção mais política que prezasse a soberania nacional, por exemplo, implicaria algum tipo de reação. Só que essa reação seria muito menos custosa do que o preço que nós estamos pagando agora.

– As famosas contradições do capitalismo?

Alder: Eu gosto muito dessa palavra. Porque não é invenção. É simplesmente constatação. O capitalismo se mexe a partir de contradições. Sem contradições não existe o capitalismo.

– E quando se avalia a questão social, os movimentos, qual o peso do desemprego?

Alder: O desemprego é uma de uma série de variáveis que caracteriza a estrutura e a conjuntura atuais. O desemprego, por exemplo, vai fazer com que uma parcela considerável de pessoas que antes viviam no campo e dele foram expulsas para as cidades, e aqui chegando, não encontram absorção nem da parte da indústria, nem do comércio e nem de outras atividades. Aí a marginalidade é o próximo passo. Então, o desemprego é uma das crueldades mais perversas, no meu entender, cometidas pelo capitalismo aos seres humanos. Porque, veja, mesmo dentro do capitalismo havia a promessa do pleno emprego, isso na social-democracia. Nunca se garantiu, mas se apontava como meta o pleno emprego. Isso foi abandonado de maneira terrível pelo neoliberalismo, a partir da era Thatcher/Reagan, dos anos 80 para cá, de maneira infernal, a ponto de não quererem saber, de modo algum, de garantir emprego. Tanto é verdade que o segmento que hoje hegemoniza o capitalismo, é força mais parasitária, que é o segmento financista da especulação.

– Qual é esse preço?

Alder: Veja só: um dos grandes programas do governo atual é o Fome Zero. O orçamento desse programa é entre R$ 20 bilhões e R$ 40 bilhões, ou seja, em torno de US$ 12 bilhões, em quatro anos de governo. Ora, para se ter uma idéia, quanto é que apenas de serviços da dívida estamos pagando por ano? Em torno de US$ 120 bilhões? Ou seja, o orçamento do Fome Zero seria então a décima parte do que a gente está pagando de serviço da dívida...

– O que nos remete, novamente, à história da especulação financeira e da voracidade do mercado...

Alder: Claro. Com certeza. A gente está abrindo mão de uma riqueza enorme que o Brasil tem. Da riqueza de terras, - somos o quinto maior do mundo em tamanho. E terras planas. Não é como o Canadá e a China, que são maiores do que o Brasil, mas, no caso do Canadá, partes expressivas são tomadas por geleiras. Nós temos terras que, "em se plantando, tudo dá", de norte a sul, de leste a oeste. Temos subsolo riquíssimo, com metais preciosos e petróleo. E onde está essa riqueza toda? Nós temos um mar enorme - a faixa marítima é de milhares de quilômetros. Temos rios caudalosos, de cachoeiras, volumosos. Temos água doce, que é um bem raro. Temos um parque industrial dos melhores da América Latina. O povo às vezes estuda isso aí, mas não retém. A propaganda é tão grande em cima de um Brasil que não dá certo, que até o presidente diz: o Brasil é pobre. Pobre coisa nenhuma! Pobre é o povo, mas o País é rico.

– Professor, voltando aos movimentos sociais, que avaliação pode ser feita do apoio da Igreja nessa luta? Isso não politiza os movimentos e deixa até a indicação de que eles podem transformar-se em partidos políticos?

Alder: É verdade. Pode até acontecer, e seria um pleito justo, legítimo. Se um movimento desses que queira transformar-se em partido. É uma legitimidade. Na democracia representativa, o partido político não é um canal democrático? Então, nada contra. O problema é que eu não sei se alguns desses movimentos - aqui me refiro àqueles mais organizados, do ponto de vista político, mais consistentes - têm essa vontade. Por quê? Porque desacreditam cada vez mais nos canais da chamada democracia formal, representativa. Vem ano, passa ano, e as coisas não melhoram, mas se agravam. Há um risco muito grande de parcelas significativas desses movimentos perderem a crença na democracia formal, tal como ela vem acontecendo. As promessas se acumulam e os resultados são poucos ou nulos. Então, hoje algumas igrejas cristãs, principalmente a Católica – mas não podemos deixar de reconhecer o trabalho de outras igrejas, que também têm uma preocupação social semelhante, como os setores que você mencionou, a exemplo da CPT, do Cimi – uma organização extraordinária atuando junto aos povos indígenas. Então, se tem tido uma contribuição grande, principalmente na parte da formação.

– E a posição da Justiça em relação aos sem-terra, de certa forma radical?

Alder: A gente não pode esquecer que o Estado procura manter os interesses de quem de fato domina. A Justiça é um aparelho do Estado, tal como o Legislativo, o próprio Executivo, tal como outras forças também. De modo que a Justiça, de certa forma, cumpre esse papel, de um poder que busca manter os interesses de quem detém as riquezas. A contradição é que grande parte dessa esfera judicial é formada pelas universidades públicas e aprende outros conceitos, mas quando vai para a Justiça faz exatamente outra coisa. Isso está evidente, basta ver os critério de julgamento. Quando se trata de alguém de uma força ou de bastante prestígio econômico, aí a agilidade de fato está à vista. Basta fazer uma consulta nas cadeias, por exemplo. Quem está preso? O pobre, o preto, o discriminado. Quantos punidos há, que tenham o CPF volumoso? Essas injustiças se acumulam, mas não no Judiciário apenas, mas em todo o sistema, que parece corroído, por dentro.

– E a imprensa nesse contexto?

Alder: A imprensa também, a gente sabe, que é um componente importante de poder. Até se fala em quarto poder... Tem um papel muito importante nessa formação de sociedade. Embora não pertença ao Estado, a gente sabe que a imprensa funciona, em boa dose, graças ao financiamento do Estado.

– O relacionamento é muito estreito...

Alder: É promíscuo, a gente sabe disso. Agora, em todas essas instâncias governamentais e do Estado, há pessoas sérias, que têm um compromisso social reconhecido. Mas o fato de a gente distinguir essas exceções não nos dá direito de negar que a estrutura como um todo orgânico atua na velha direção de buscar garantir interesses - e até ampliá-los - a quem já domina. A imprensa, no entanto, faz parte disso, à exceção da imprensa alternativa, a exemplo da Revista Caros Amigos, Brasil de Fato...

– O maior movimento hoje no País é o MST. Que papel está resguardado à reforma agrária?

Alder: A reforma agrária é uma bandeira que se vem empunhando há muito tempo, não é de hoje. É uma bandeira que foi iniciada após a invasão, com a resistência dos indígenas, com os movimentos populares, ao longo do Brasil-colônia. Hoje isso continua. As Ligas Camponesas tiveram seu papel muito importante, no qual a Paraíba desponta como um Estado privilegiado, nessa condução das lutas, haja vista nomes como João Pedro Teixeira, Nego Fubá, Pedro Fazendeiro e tantos outros – Elizabeth Teixeira, que é viva ainda. É a continuação das lutas, embora com distinções e descontinuidade. Não é uma continuação mecanicista, mas é um movimento que procura, ao mesmo tempo, sem perder de vista essas lutas, trazer seu aporte.

– Por que na Ásia - nos tigres asiáticos - o capital encontrou terra mais fértil?

Alder: A educação faz a diferença. O investimento que esses países têm assegurado à Educação tem sido qualquer coisa muito longe em relação aos países do Terceiro Mundo, particularmente ao Brasil e à América Latina. Lá, o investimento é grande. Na Coréia do Sul, por exemplo, é espantoso. Você pega o índice de jovens que acessam a universidade, não tem nada comparado em relação ao Brasil, por exemplo. De modo que a educação faz a diferença. Não que legitime politicamente, porque muitas vezes se trata de uma educação voltada para a produtividade do capital, mas do ponto de vista de que a população aceda à escola, tenha escolaridade adequada para depois pensar no que pode ser e até em seus projetos alternativos. No caso nosso, é um abandono por completo. É uma privatização generalizada, na saúde, na educação. Olha, no caso da universidade, a gente tinha nos anos 60, em torno de setenta e cinco por cento das universidades sob o controle do Estado, públicas. Hoje, estamos vendo uma inversão. É exatamente o contrário, 3/4 pertencem à iniciativa privada, enquanto 1/4 é que o Estado continua, de má vontade, a financiar.

– E que papel o senhor acha que está reservado à solidariedade...

Alder: Enormemente. É fruto de um processo de formação.

– Essa educação de hoje só estimula a competição, em desrespeito mesmo a valores como a amizade. Pegam crianças que estudaram juntas desde o pré-escolar e quando chegam ao terceiro ano, dizem que elas são concorrentes, quando elas mesmas dizem que não querem tratar o amigo como um competidor...

Alder: Muito bem colocado, porque a gente tem educação e tem formação que é algo mais amplo. A educação está na cabeça da gente, muitas vezes, associada a escolarização, o que é uma parte da educação. Mas não é tudo, nem o principal. Os filhos da gente se guiam muito mais pela televisão – bem ou mal, e eu acho que mal – do que pela escola, por exemplo. E mais do que isso: mais importante do que a escola é a própria vida. E aí a gente nota essas contradições. De um lado a grade de valores dominante, como a concorrência desenfreada, o individualismo...

– O ter. Hoje o que vale é a grife e não o vestir-se, por exemplo...

Alder: O imediatismo... a chantagem que a mídia passa para as crianças que pressionam os pais por aquilo que querem. Os mecanismos de seleção de mercado. A gente tem essa grade de valores. Mas para dizer a verdade é bom que a gente veja o outro lado. O lado que, inspirado na imagem de João Batista Libânio, também passei a chamar de "rio subterrâneo". A gente está vendo esse rio de superfície, a sociedade, às vistas da gente, mas a gente está pouco vendo aquele que corre por baixo. Quando falo por baixo, me refiro a grupos comunitários, movimentos sociais, grupos eclesiais... Nesse rio subterrâneo há outros valores, como a solidariedade, a partilha, o resgate da natureza, do sagrado, não como um sagrado tido como um "toma lá, dá cá", como muitas vezes o televangelismo apresenta, banaliza o sagrado, trazendo o céu na mesma medida do mercado. Isso é uma degeneração do sagrado.

– Quer dizer, apesar da visão cientificista na metodologia de invenção, o senhor acredita nos valores desse rio, e que esses valores podem revolucionar o mundo?

Alder: Acredito na força dessa água, e é o que me mantém vivo, porque se ficasse nesse rio que corre na superfície, eu estaria envenenado, possivelmente, sendo alguém completamente tomado pelo ter, por uma vida de trevas e o suicídio talvez seria o caminho. Porque a vida enquanto ter não nos oferece o deleite da plenitude que nos encaminha. A vida vegetativa não é a vocação do ser humano. Ele nasceu para ser feliz, para a liberdade. Então, nem toda vida interessa ao ser humano, mas a vida digna, a vida plena. O Evangelho diz assim: "Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância". Não é essa vida que o capital quer derramar por aí.


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