Acorda Brasil! Ainda é hora! (IX)
Alder Júlio Ferreira Calado
A despeito da persistência do risco eleitoral, já se pode perceber alguma possibilidade, no próximo dia 25/10, de reversão do trágico resultado obtido no primeiro turno das eleições. Graças à conjugação de fatores tais como: as crescentes mobilizações populares pelas ruas do País, a intensificação do uso das redes digitais, as recentes conquistas dos últimos dias, em especial a do fim da jornada de 44 horas, sem redução salarial, podemos, sim, vislumbrar algo positivo, no segundo turno.
Neste sentido, ao longo desses dias, vimos centrando a atenção na relevância do exercício continuado da memória histórica dos oprimidos, como um caminho eficaz contra o esquecimento e o desdém de nossa história recente, sobretudo no tocante à tragédia de horrores protagonizados pela Ditadura empresarial-militar, que durou tenebrosos 21 anos (1964-1985).
A este respeito, já tivemos oportunidade de convidar especialmente nossa jovem militância a revisitar relevantes episódios e instrumentos de luta de nossa resistência contra aquele regime tenebroso. Eis por que sugerimos a revisitação de algumas dezenas de filmes e documentários; de jornais e revistas de Esquerda; de livros históricos; de peças teatrais; de músicas - ferramenta a ser trabalhada principalmente de forma grupal/comunitária, como exercício mais fecundo e de maior alcance no exercício da memória histórica dos oprimidos. Desta feita, nas linhas que seguem, destacamos a importância dos intensos trabalhos realizados - e ainda em curso - pela Comissão Nacional da Verdade, convocada durante o Governo Dilma, feito que não deve ser excluído como um dos fatores de sua deposição pelo golpe de 2016. Os militares nunca aceitaram passivamente a formação da Comissão da Verdade. No que esteve ao alcance deles, trataram de responder com ódio contra a Presidenta.
A vitória eleitoral da Presidenta Dilma Rousseff, inclusive por conta de sua trajetória de militante de Esquerda, na juventude, foi interpretada pelos setores golpistas das Forças Armadas e demais forças da segurança como um gesto de “revanchismo”, o que passou a constituir-se mais um fator de ódio contra as forças de Esquerda, ainda que não representassem qualquer risco de mudança estrutural. As intensas mobilizações de junho de 2013, em grande parte, promovidas por forças da Direita, potencializam tal movimento de rejeição, ao qual os segmentos mais reacionários das Forças Armadas e “auxiliares” se juntariam, com visível protagonismo (restou célebre, por exemplo, o pronunciamento ameaçador feito pelo General Vilas Boas).
Ainda que passadas mais de quatro décadas, desde a instalação do Golpe de Estado de 1964, sem que quaisquer providências de punição aos responsáveis pela Ditadura, eis que, finalmente, o Governo Dilma decide instituir a Comissão Nacional da Verdade, destinada a apurar as profundas marcas de violência - prisões injustas, banimentos, torturas, ocultação de corpos de presos políticos que a Ditadura fez desaparecer, entre outros crimes - deixadas como legado por aquele regime de terror. Vale enfatizar que, diferentemente do que ocorreu a outros países latino-americanos também golpeados por semelhantes Ditaduras, Governos que não se limitaram a instituir uma mera Comissão da Verdade, mas também avançar, para além da apuração dos crimes cometidos, para medidas de justiça e penalização dos culpados, além de medidas de reparação às vítimas daquele regime, no caso do Brasil, no entanto, a Comissão Nacional da Verdade - formada por diversas sub-comissões nacionais, estaduais e municipais, além de sub-comissões formadas por entidades sindicais, por universidades e outras entidades da sociedade civil brasileira, do campo e da cidade - se limita apenas a mapear as situações de horror, dando publicidade à sociedade.
Cada vez mais tomamos consciência da necessidade e urgência - principalmente da parte dos jovens - de exercitarmos essa memória histórica, como antídoto ao esquecimento, o que representaria um estímulo à reprodução dos crimes. Portanto, mãos à obra! Prossigamos nossa tarefa de reverter o resultado do primeiro turno.
Voltamos a insistir no alerta profético contido na carta-mensagem de Dom Frei Luiz Cappio.
João Pessoa, 18 de outubro de 2026.