Reverente homenagem a José Comblin em seu natalício
Alder Júlio Ferreira Calado
Anteontem, 22 de março de 2026, além de comemorarmos o Dia Mundial da Água, também celebramos o aniversário natalício do Pe. José Comblin (1923-2011), cuja páscoa definitiva se deu em 27/03/2011. Com o propósito de prestar-lhe uma singela homenagem, houvemos por bem rememorar um texto precioso de sua lavra, intitulado “Saudades da América Latina”, um breve texto por ele escrito, em março de 2003, por ocasião das comemorações dos seus 80 anos. Este texto está publicado no livro “A Esperança dos Pobres Vive” (São Paulo: Paulus, 2003, pp 719-732). Nele, Pe. José se presta a rememorar sua longa passagem profética-missionária pela América Latina. Inicialmente na Arquidiocese de Campinas-SP, 1958-1962; em seguida Arquidiocese de Santiago-Chile, 1962-1965; Arquidiocese de Olinda e Recife-PE, (1965-1972), quando foi expulso do Brasil; Diocese de Talca-Chile, (1972-1980); Arquidiocese da Paraíba, (1980-2008); Diocese de Barra-BA, (2008-2011), correspondendo a 53 anos de trabalhos profético-missionários na América Latina, tendo trabalhado inclusive na Diocese de Riobamba, no Equador, a convite do Mons. Leônidas Poaño.
Neste texto, Comblin resume episódios mais impactantes de sua atuação missionária e de teólogo, na América Latina, iniciando por rememorar aspectos de suas origens como europeu (Belga). Ele se reconhece como um filho da Igreja tridentina (o concílio de trento se realizou entre 1545 e 1563), com seus bônus e ônus. A Igreja tridentina se lançava combativa e ameaçadora contra as “heresias” da Igreja Reformada, a cujo fieis a hierarquia tridentina reprovava, inclusive por meio das perseguições armadas. A despeito dos horrores sofridos pelas populações dos países do Norte da Europa, a Bélgica, país natal de Comblin, permaneceu um país católico. A partir das doutrinas tridentinas, incutidas nos vários espaços eclesiásticos, a começar pelos seminários, o alto clero católico traçava todo um programa de identitarismo católico, francamente hostil aos valores protestantes. Em certa medida, a formação inicial de Comblin e seus irmãos (dois irmãos e duas irmãs) resultou legatária desses valores, pelo menos em sua infância. Graças ao entusiasmo com que, desde cedo o animava aos estudos, e graças a excelência de seus estudos teológicos, especialmente os do Doutorado em teologia, na Universidade de Lovaina, Comblin recebeu e alimentou uma formação profundamente atualizada e inovadora, atenta aos sinais dos tempos e as realidades terrestres.
A longa e nefasta tradição tridentina deixará marcas nada exemplares, em longos séculos de caminhada obscurantista da Igreja Católica Romana, período durante o qual se afirmou o poder do clero sobre/contra os Leigos e Leigas, a imposição de regras Canônicas e doutrinas eclesiásticas pouco ou nada tendo a ver com o Evangelho.
A Resposta profética e propositiva dos cristãos Latino-Americanos irrompeu principalmente pelas vozes proféticas de uma geração de Bispos profundamente comprometidos com a causa libertadora dos oprimidos. Disto são testemunhos o compromisso assumido pelos signatários do Pacto das Catacumbas bem como seu empenho na realização da conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín (Colômbia, 1968), cujo Documento final, redigido em 16 capítulos, bem aponta a série de desafios a serem enfrentados - Justiça, Educação, Juventude, populações marginalizadas, entre outros temas abordados.
Também rememora, com entusiasmo, as origens de uma Teologia Latino-Americana autêntica, ciosa de sua autonomia em relação a uma longa tradição de colonialismo praticada desde a Europa.
Em síntese, eis alguns tópicos que trazemos à lembrança deste artigo da lavra de Comblin, buscando prestar-lhe nosso tributo de grande “profeta da Liberdade”.
João Pessoa, 22 de março de 2026 (publicado hoje, 24/03/2026, data de rememoração do martírio de Santo Oscar Romero).