quarta-feira, 19 de agosto de 2026

José Comblin, no imediato pós Vaticano II - apontamentos a partir do seu livro “Os Sinais dos Tempos e a Evangelização” (São Paulo: Duas Cidades, 1968)

 José Comblin, no imediato pós Vaticano II - apontamentos a partir do seu livro “Os Sinais dos Tempos e a Evangelização” (São Paulo: Duas Cidades, 1968)


Alder Júlio Ferreira Calado  


Após os primeiros quatro anos de trabalho missionário, no Brasil (Campinas, 1958-1962), Comblin, atendendo a convite, vai ensinar na Universidade Católica do Chile, em Santiago. Acompanhar, com vivo interesse o que se passa no em torno do Concílio Vaticano II, ao mesmo tempo em que intensifica seus estudos e pesquisas sobre o Brasil e América Latina. Torna-se figura conhecida e apreciada, não apenas nos círculos eclesiais: mantém-se atento também ao que se passa na conjuntura chilena da época. Dado o conhecimento travado com Dom Manuel Larraín, então presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano), tornar-se-ia também conhecido de Dom Helder Câmara, feito Arcebispo de Olinda e Recife. Encerrado seu primeiro tempo de trabalho no Chile, Comblin é convidado por Dom Helder, então Secretário Geral da CNBB, a trabalhar na referida Arquidiocese, já a partir de 1965, como Diretor de Estudos do então CERENE II ( Seminário Regional Nordeste II) e, depois, ITER ( Instituto de Teologia de Recife).


Foi durante este período, que Comblin resolveu reunir textos diversos, em forma de artigos, e publicá-los em coletânea, sob o título acima indicado. Tratava de temas diversos, direta ou indiretamente atinentes àquele período pós-conciliar. Diversas questões ele levantava, sobretudo provocando Bispos, Padres e Leigos acerca da necessidade e urgência de aprofundar o conhecimento e o compromisso sobre a realidade brasileira. Para tanto, ele propunha situar o “status quaestionis” da Teologia frente à Evangelização, no contexto completo da realidade do Povo brasileiro, em sua ampla diversidade, inclusive tratando-se, não apenas de outras religiões, mas no interior do catolicismo. Não obstante a intenção renovadora do Concílio Vaticano II, e sem um conhecimento adequado das características das massas populares, não resultaria frutífera a tentativa de introduzir inovações inclusive no tocante à missão evangelizadora. 


A missão evangelizadora supõe, não apenas um conhecimento prévio das potencialidades e dos limites dos evangelizandos como também sua preparação, uma vez que “Todavia as Sagradas Escrituras não revelam os seus segredos à primeira leitura feita sem iniciação. O principiante que abre a Bíblia sem iniciação deixará de lado, sem perceber, a mensagem mais íntima e profunda.” (p.12). Neste sentido, o autor chama atenção para o risco da prática de uma Teologia que, superestimando o peso de certa tradição, acaba conferindo uma interpretação do Evangelho mas conforme as pretensões desta dita tradição do que se faz presente no texto bíblico.      


Para além da Teologia tradicional. Por exemplo, urgia conhecer o tipo e as raízes históricas do Catolicismo brasileiro. Inútil a tentativa de pretender-se aplicar as orientações constantes dos documentos do Concílio Vaticano II, sem antes conhecer diversos aspectos do Povo brasileiro: sua cultura, suas religiões, tipo de Catolicismo além de outros aspectos, como a Paróquia e seus limites e agentes pastorais. Vale assinalar, a este propósito, que no ano seguinte à publicação deste livro, teriam início as primeiras experiências da Teologia da Enxada, (1969): uma, localizada em Tacaimbó-PE, e outra em Salgado de São Félix-PB, de cujos estudos fazia parte o compromisso dos estudantes além de conviverem com as Comunidades rurais da região, anotando sistematicamente as características da cultura popular (a casa, os santos, as devoções, o trabalho, as plantas medicinais, o folclore, a música, a política, entre outras). Disto trata especificamente do livro do mesmo autor intitulado “Teologia da Enxada” (Vozes, 1977). 


sempre recorrendo a vários historiadores, antropólogos  e de outras áreas do conhecimento, propõe uma instigante tipologia do Catolicismo brasileiro. Não obstante a preocupação com os elementos culturais do povo, isto não é ainda suficiente para se tomar como evangelização. Adverte o autor: “Faltam-lhe elementos até fundamentais.” (p.15).


Criar as condições favoráveis à formação de teólogos e teólogas, do clero ou do laicato, eis o que Comblin passa a refletir. Parte da constatação de que, mais do que necessária, faz-se urgente preparar as condições para a fundação de um Centro Latino-Americano de Teologia, com o propósito de assegurar as condições necessárias de uma produção qualitativa de teologia, a partir da realidade latina-americana. Um Centro capaz de assegurar a formação sistemática de novos teólogos e teólogas latino-americanos, quer sejam do clero ou do laicado. Uma Teologia destinada a formar um quadro preparado de pesquisadores e pesquisadoras, dispostos a produzir uma Teologia aberta aos novos desafios do mundo e da Igreja. 


O autor não se limita a fazer mera crítica aos estudos da Teologia e da Filosofia, eis que ousa propor elementos fundamentais para a elaboração de um programa de estudos alternativo ao vigente. É assim que, tanto no que tange à teologia, quanto aos estudos propedêuticos, traz preciosas indicações (cf. pp. 43-44).  No capítulo IV, atinente à questão das vocações sacerdotais e religiosas Comblin inicia advertindo sobre o comportamento submisso das elites brasileiras às ordens e as práticas aqui transmitidas pelas elites euro-americanas, preferindo-as em vez de acreditar nas enormes potencialidades da população nativa. 


Sua proposta de programa tem sólida motivação e sólidas bases históricas. Com efeito, ao assinalar que o Catolicismo no Brasil não apresenta  propriamente traços da Igreja medieval, mas antes profundas marcas tridentinas combinadas com o processo de colonização - acerca do qual convém destacar a densa contribuição, que, na década seguinte, também oferece o historiador Eduardo Hoornaert (cf. o seu livro “Formação do Catolicismo Brasileiro”,  (Vozes, 1974); “O Cristianismo Moreno do Brasil” (Vozes, 1990) -, Comblin, além de listar e analisar as principais características e a evolução do Catolicismo brasileiro durante vários séculos ver (cap. ). Diferentemente da Igreja europeia Medieval - recheada  de heresias, de sublevações de movimentos pauperistos -, o processo de Colonização que orientou a evolução do catolicismo no Brasil se demarca pelas relações entre o clero em aliança com o Rei, de um lado e, por outro, por uma massa de fieis que lhes devota fiel obediência, além de ser um Catolicismo oficialmente controlado desde Roma e desde às metrópoles.


Mantendo-se sempre empenhado em abordar os atuais desafios eclesiais, e em perspectiva histórica o autor foca, no cap. VI,  as modificações que a aliança Igreja-Estado (República) operou, em relação à Paróquia. Situa os principais fatores componentes desta evolução, atribuindo também às ordens religiosas práticas diferenciadas, tanto em relação ao relativo abandono das Paróquias rurais quanto à atenção priorizada pelos Jesuítas às instituições de ensino, tal como se fazia no Catolicismo europeu do século XIX.  

A coletânea de textos produzida por Comblin, situada na segunda metade dos anos 1960 - portanto, logo após a conclusão do Concílio Vaticano II - segue tratando temas desafiantes, naquela conjuntura. O tema concernente aos Padres como parte expressiva da coletânea, entende o autor ser urgente trabalha-se uma compreensão crítica dos sacerdotes, inclusive como condição para uma “aplicação” adequada dos documentos conciliares. Trata, então, de priorizar uma abordagem pastoral do Múnus Sacerdotal sem subestimar uma abordagem teológica. O autor, mais do que uma reflexão teológico-pastoral, oferece propostas concretas como pistas de enfrentamentos práticos dos novos desafios.  


Na sequência, o autor empenha-se em vislumbrar a figura dos sacerdotes do futuro, em busca de um entendimento, a partir de uma leitura consciente dos sinais dos tempos, das características que o povo esperará encontrar nos futuros Padres. No que for essencial, a figura do sacerdote não sofrerá modificação: seguirá sendo um Ministro da palavra, dos Sacramentos e de outras atividades que lhe são próprias. Todavia, será instado a prestar mais atenção a novas demandas, a que não estava acostumado. Será chamado a conhecer melhor as pessoas em volta, de modo a conhecer melhor suas condições sociais, econômicas e psicológicas, sem o que já não mais contará com o apreço do povo de quem cuida. Daí se preparar, em tempo, para uma formação sacerdotal que atenda ao perfil adequado do Padre de amanhã. Neste sentido, Comblin reconhece a valorosa contribuição do Concílio Vaticano II - especialmente no documento especificamente dirigido aos presbíteros, a partir do qual tenta esboçar as qualidades adequadas dos futuros presbíteros. Quanto às marcas fundamentais do sacerdócio, não se vislumbra mudança. No entanto, quanto às marcas acidentais importa tomar na devida conta os traços conjunturais, componentes da pessoa do sacerdote, agora chamado a especializar sua formação, adaptando-se positivamente às novas exigências do tempo. A este respeito, em 1975, na Exortação Apostólica “Evangelii Nuntiandi” , o Papa Paulo VI advertia: “Os Homens deste tempo prestam mais atenção às testemunhas do que aos mestres. E se também prestam atenção aos mestres é porque eles são testemunhas”. (EN, n. 41 ). 


A obediência, tal qual adotada no âmbito eclesiástico, constitui outro tema enfrentado pelo autor. Parte da constatação de um crescente mal-estar inter-geracional. Os jovens Padres, por exemplo, apresentam crescente dificuldade de obedecer aos superiores enquanto estes estranham o comportamento dos jovens, afinal, a obediência foi, ao longo de séculos, a via tradicional de regulação das relações clericais. Para destrinchar as principais marcas do sentido da obediência, Comblin, além de recorrer à Cristologia, também revisita a tradição monástica e a força das leis eclesiásticas. 


No entendimento do autor, faz-se urgente avaliar, à luz também do atual contexto histórico o que indicam os sinais dos tempos, na apreciação deste fenômeno. Neste sentido, entre diferentes argumentos de que se vale, um deles tem apelo direto à Cristologia, o autor sublinha a relevância da obediência observada por Jesus diante do seu Pai, mas não diante das autoridades de seu tempo, em relação a que se mostrou bastante insubordinado, sobre o que nos remete ao Novo Testamento. “ Quase todos os livros do Novo Testamento exaltam a obediência de Jesus na vida e na Morte . O Salvador exige de seus discípulos a mesma obediência total e incondicional (...) Os autores espirituais fazem-no com certa facilidade, porque supõem que a vontade dos superiores coincide com a vontade de Deus, e até manifestam a vontade de Deus (...)Na realidade, a obediência de Jesus ao Pai é em si algo que não se identifica com uma obediência a um superior humano (...) Várias vezes na vida de Jesus aparece um conflito entre a vontade de Deus e a vontade das autoridades humanas. Jesus não se submeteu às exigências das autoridades de seu povo no que se refere a sua missão ``. (p. 158). 


No capítulo X, o autor propõe uma instigante reflexão sobre a Filosofia da História e a Salvação, cuidando de sublinhar potencialidades e limites da Filosofia da História reconhecendo inclusive sua insuficiência e seus limites para uma reta-interpretação do sentido da Salvação, ao mesmo tempo em que não deixa de reconhecer também valiosas intuições trazidas por distintas Escolas histórico-filosóficas. Ressalta, em especial, o peso exercido pela Filosofia greco-romana, ao longo da cristandade, destacando seu crescente distanciamento das fontes evangélicas. 


Tocados pelas principais conclusões do Concílio Vaticano II, os bispos brasileiros, após a elaboração provocadora de um Plano de Emergência, (1962-1965),  por meio da CNBB, cuidaram de propor seu Plano de Pastoral de conjunto, quadrienal, a ser vivenciado de 1966 a 1970. Nele, são propostas seis linhas de ação, das quais a segunda tratava da evangelização, enquanto a terceira focava a ação catequética - ambas tomadas como alvo de análise pelo autor, dadas suas afinidades. No capítulo XI, Comblin dedica-se a examinar cuidadosamente, sobretudo, a Segunda Linha. Reconhece o esforço positivo dos bispos brasileiros, de recepcionar o Concílio Vaticano II, conforme as condições do Catolicismo brasileiro, em suas potencialidades mas principalmente em suas fragilidades, devidas à complexidade histórico-social da população Católica do Brasil. O objetivo central do autor é problematizar o sentido e o alcance da formulação da Linha dois, para oque empenha-se em discutir teológica e pastoralmente os termos como vem redigida a segunda Linha. Em sua percepção, o foco da Linha dois, embora se apresente como Evangelização, caracteriza-se fundamentalmente pelo objetivo de converter ao Cristianismo, os que andam afastados da Igreja. Neste sentido, o autor entende pouco presente o núcleo da Evangelização, para além dos destinatários cristãos, de modo a tomar em conta também o processo de secularização, no Brasil e no mundo. Por tanto, a exigir atenção, não apenas aos católicos afastados, mas também aos não cristãos e aos envolvidos em outras expressões religiosas e mesmo os que não professam qualquer confissão religiosa.


Ao capítulo seguinte - o 12 - o autor dedica 30 páginas focando os desafios da Catequese. Rememorando os fundamentos da linha três do Plano Pastoral de conjunto da CNBB, Comblin cuida de refletir sobre diversos aspectos do tema, começando por assinalar a considerável distância entre os ensinamentos catequéticos oficiais e valores vivenciados pelo povo católico brasileiro, em seu dia-a-dia. Enquanto o primeiro sublinha aspectos doutrinários e teológicos, a enorme maioria dos católicos brasileiros, em seu cotidiano se mostra mais interessado nos santos, nas promessas, nas festas de padroeiros e coisas do gênero, de modo a  pouca atenção dedicar aos aspectos da Catequese oficial que lhe é ensinada, considerada mais abstrata, baseada em conceitos e dogmas. O autor sugere a utilização de uma metodologia mais adequada para o ensinamento do núcleo da fé cristã, com ênfase no conhecimento das pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo (este parecendo menos conhecido do que os Santos), além do sentido e da prática das grandes virtudes cristãs - a Fé, a Esperança e o Amor. 


No capítulo XIII, o autor enfrenta o desafio de compreender melhor diferentes facetas do Catolicismo brasileiro, enfatizando suas influências recebidas do Catolicismo europeu, bem como outras formas de sua vivência encarnadas por seu povo de modo a destacar suas diferenças. 


O autor conclui a coletânea, com o capítulo XIV, discorrendo ainda sobre a multiplicidade de vivências da Fé, no âmbito do Catolicismo popular brasileiro. Amplamente fundamentado em diversos Antropólogos brasileiros, Comblin começa por destacar a profunda relação do Catolicismo popular com as religiões de matriz africana, sublinhando as adaptações feitas pela população afro-descendentes, de modo a conviver costumeiramente com este sincretismo religioso. Também assim procede o autor, ao refletir sobre a vertente indígena do mesmo catolicismo. Ele ainda aponta outras expressões do Catolicismo brasieliro a exemplo do Catolicismo sertanejo e do Catolicismo praticado pela classe média brasileira. A inquietação central do autor é a de contribuir no sentido de que os agentes de Pastoral tomem em consideração prévia tais dados da realidade, antes de se dedicarem a aplicação das Linhas propostas pelo plano pastoral de Conjunto e, antes disto para trabalharem, de modo fiel, o processo de Evangelização. 


Relevância e atualidade de um “apreciador de urgências”


Em 2003, ao celebrar seus 80 anos, dentre tantas homenagens, Comblin foi contemplado com um poema certeiro, da lavra de Irmã Agostinha Vieira de Melo, intitulado “Apresador de Urgências”, que vale a pena revisitar (cf. “A Esperança dos Pobres Vive”. São Paulo: Paulus, 2003, pp. 213-214). Eis uma marca forte da trajetória deste exímio teólogo. Já em meados dos anos 1960, quando da publicação desta coletânea de textos produzidos por Comblin podemos observar a relevância e a atualidade importantes deste autor a exemplo de outras figuras luminares, José Comblin continua despertando o mesmo interesse, em nossos dias, bem como em séculos vindouros.


João Pessoa, 19 de Agosto de 2026               




                         


  


  


  


 


    

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O Bagaço da Cana vem da Direita. Superá-la está ao nosso alcance


O Bagaço da Cana vem da Direita

Superá-la está ao nosso alcance


Alder júlio Ferreira Calado


O bagaço da cana é quem trabalha 

Amargando uma vida infeliz 

produzindo as riquezas do País 

Mas vivendo na ponta da navalha

E o terror sem saber como se atalha 

Aos tiranos do mundo se coroa 

Hoje imperam, sem trava, “numa boa”

E o Estado os protege, em demasia 

Delegado que é da burguesia 

Eis porque seu poder se estende a atoa.

 

No quesito moral, há crimes vários

Cometidos à Esquerda e à Direita 

Não importa quem seja, não se aceita

segue imensa a gula por denário 

Neste mundo, têm mais vez os salafrários

Diferenças sentindo nestas “seitas”

Ser mais críticos convém-nos, desta feita

Os valores roubados são imensos 

Rouba mais a Direita - é consenso 

A Direita amealha mais “receita”.


Nossa terra tanto mais, em agonia 

Os eventos extremos são mais frequentes 

No Brasil e no mundo, penam as gentes 

A extrema Direita mais se alia 

De valores humanos está vazia 

Crescem as vítimas da ação da “besta-fera”

Arrastando consigo ovelhas meras 

Eis um traço distópico, destrutivo:

Aos tiranos submete-se o cativo 

Estranhíssimos sinais - os são deverás.   


A Direita só dos ricos cuida bem 

Haja vista os escândalos financeiros   

Que sofremos de Janero a Janeiro 

Sejam  Master, Emendas e coisa além

Vigorosa denúncia nos convém 

Merecer boa análise nos parece

Contra os crimes, só combate, e menos prece

Os autores, quem são, importam menos

Passar pano em culpado: beber veneno…

Faz escuro, mas um dia amanhece…


João Pessoa 07 de Agosto de 2026


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Ecumenismo de base como alternativa aos dilemas presentes: CEBs como exemplo ilustrativo

Ecumenismo de base como alternativa aos dilemas presentes: CEBs como exemplo ilustrativo 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Nos anos de 1950, restavam profundamente hostis, não apenas as relações entre Católicos e Protestantes, como também em referência àquelas pessoas ligadas a religiões não cristãs, principalmente às religiões de matriz Africana. Um rápido lançar de olhos nas páginas da REB (Revista Eclesiástica Brasileira) daquela época permite constatar, por meio de vários artigos, tal realidade. De 1957 data a encíclica “Fidei donum”, subscrita pelo papa Pio XII, a convocar os Bispos europeus a enviarem sacerdotes para o Terceiro Mundo, com o propósito de acudirem em missão as Igrejas particulares da África e da América Latina, empenhando-se em combater o Comunismo e o avanço das Igrejas Protestantes e as religiões de matriz Africana. Neste contexto, importantes Dioceses europeias (na Itália, na Bélgica, na Espanha…) organizam espaços de preparação dos futuros enviados. Foi assim que surgiram experiências tais como as do “Seminário per America Latina”, na Itália, algo similar também ao que se passou na Bélgica e na Espanha, resultando no envio de centenas de missionários para a África e para a América Latina inclusive o Brasil.         


O Concílio Vaticano II convocado pelo Papa João XXIII em 1959, e realizado de 1962 a 1965, consciente das profundas e  urgentes reformas “Reformata Ecclesia semper reformanda est” pretendia ser apenas um ponto de partida, não propriamente um ponto de chegada. Em seus 16 Documentos conclusivos - 4 Constituições, 9 Decretos e 3 Declarações - ele aponta nesta direção, mas não sob os mesmos critérios . Por exemplo, os Decretos sobre a Missão (“Ad Gentes”), sobre o Ecumenismo (“Unitatis Redintegratio”) e sobre o diálogo inter-religioso (“Nostra Aetate”) indicam caminhos valiosos, relativos a Evangelização e a Missão como essenciais ao seguimento de Jesus, o que supõe reconhecimento e o respeito pelos valore não cristãos de que são portadores outros povos e nações, aos quais o Espírito Santo também tem muito a dizer, donde o chamado ao exercício da interculturalidade. Ainda longe de serem concretizados, a despeito inclusive de sua incipiência.


Em “Ad gentes”, já em seu Proêmio, lemos afirmações contundentes acerca da destinação universal da Missão. Com efeito, os primeiros números deste Documento trazem afirmações convincentes, não apenas sobre o caráter universal da vocação missionária da Igreja, como também revelando textos fundantes da Sagrada Escritura, transpondo limites meramente eclesiais. Aí também vem claro o reconhecimento da legitimidade de outras crenças e expressões religiosas, implicando a superação de preconceitos étnicos e outros. Algo semelhante também lemos em “ Unitatis Reditegrantions”, a clamar pela reintegração da Unidade dos cristãos e cristãs, sempre tendo presente a destinação universal da Palavra. No Decreto “Nostra Aetate”, o Concílio Vaticano II, nos convida a ir mais longe dispondo-nos ao contínuo exercício do diálogo inter-religioso, que supõe enorme abertura ao diálogo intercultural entre povos e nações aos quais também se revela a Divina Ruah. Infelizmente, neste quesito, pouco avançamos. Ao revés, involuímos, haja vista o crescente fechamento, com raras exceções das Igrejas Cristãs, no Brasil e na América Latina.


Um enorme desafio se abre para os cristãos e cristãs comprometidos com a Tradição de Jesus com o seu segmento. Cada vez mais parece vã a expectativa de mudança de cenário, a partir da iniciativa da hierarquia Católica e de outras Igrejas cristãs, seduzidas que se acham, salvo exceções, pela religião de Mercado, cada vez mais atraídas pela auto-referencialidade alimentada pelas suas estratégias de culturalismo, de devocionismo e outros atrativos multitudinários, a exemplo, no tocante a Igreja Católica, do fenômeno Frei Gilson. Neste cenário entendemos oportuna iniciativa do CEBI de trabalharmos, este ano, a leitura contextualizada do Livro do Profeta Daniel para a qual vale a pena ouvirmos a reflexão proposta pelo Teólogo Rafael Rodriguez, do CEBI, para cujo acesso recomendamos o link https://www.youtube.com/watch?v=YDeUlZW-VC4


Não se trata apenas do fenômeno Frei Gilson, mas de um amplo conjunto de práticas cada vez mais distanciadas do Movimento de Jesus. Referimo-nos, por exemplo, ao multi-secular tratamento dispensado pelas Igrejas cristãs às Mulheres, mantidas excluídas e marginalizadas das decisões eclesiais, não bastasse o fato de já serem excluídas das decisões tomadas, no âmbito societal como se não fossem, também elas, sujeitos eclesiais e sociais. Neste sentido, há mais de meio século, têm se levantado vozes femininas de teólogas de reconhecida competência e profundidade, a exemplo de Elisabeth Schussler Fiorenza, Ivone Gebara, Nancy Cardoso, Odja Barros, Romi Bencke, Lusmarina Garcia, entre outras. Os grandes impasses eclesiásticos da atualidade não param por aí. Estendem-se a outros campos - os escândalos sexuais, como a pedofilia, os escândalos financeiros e tantos outros. Diante de tantos desatinos, cada um mais grave que os outros, de nossa parte, se  pretendemos nos manter fieis à Tradição de Jesus, somos chamados a ensaiar passos de alternatividade a esta atual conjuntura sócio-eclesial.


As CEBs como alternativa ecumênica a este cenário de retrocesso 


As CEBs se preparam para o seu 16º Intereclesial, a acontecer em Julho de 2027, no Espírito Santo, Estado onde tiveram lugar os dois primeiros Intereclesiais (1975 e 1976), em um contexto histórico de grandes desafios, dos quais o mais relevante consiste no enfrentamento da Ditadura Empresarial Militar. A despeito dos entraves, a Igreja Católica Romana, no Brasil e na América Latina, contava com uma geração de bispos comprometidos com a causa libertadora dos empobrecidos, embalados que se achavam pelos ventos proféticos de Medellín. Neste período, com efeito, brotaram múltiplas experiências de missão e evangelização enraizadas na Boa Nova do Reino de Deus e sua Justiça: o surgimento do CIMI (1972), da Comissão de Justiça e Paz (1972) das PCIs (no nordeste, e no Brasil) e alhures, da CPT (1974), a CPO (1976), dos CDDH,  da PJMP (1978), do CEBI (1979), entre outras iniciativas frutuosas. Também durante este período, a Teologia da Libertação dava passos relevantes. 


Isto não quer dizer que a expansão das CEBs, para além de suas conhecidas potencialidades proféticas, não enfrentassem também limites, dos quais o mais inquietante fosse sua organização com profundos vínculos hierárquicos. Limite este que vem tendo relevantes desdobramentos nos dias atuais sobretudo após os quase 35 anos de pontificados conservadores do Papa João Paulo II e do Papa Bento XVI, implicando crescentes retrocessos doutrinais, pastorais, teológicos, litúrgicos e sociais. 


Ao tempo em que saudamos os avanços pontuais da caminhada das CEBs destacando sua resistência, também expressamos algumas inquietações sobre os desafios atuais enfrentados pelas CEBs. Na esteira da atual onda regressiva de amplos segmentos de Igrejas Cristãs, inclusive a Católica Romana, cresce a tendência a uma paroquialização das CEBs, cujos integrantes cada vez mais se acham envolvidos em tarefas da Paróquia, em prejuízo das atividades missionárias das CEBs, em seu compromisso com a causa libertadora dos empobrecidos e empobrecidas, principalmente diante das urgências enfrentadas, na sociedade e nas Igrejas, pelas Mulheres. Não raramente, as CEBs são tratadas como mais um componente pastoral sem atenção maior às suas especificidades missionárias, mais ligadas a tarefas como círculos bíblicos, leitura popular da Bíblia, participações em mutirões, animação das lutas sociais, entre outras.


Preocupa-nos fortemente a perda de uma autonomia relativa das CEBs frente a hierarquia eclesiástica dada a cada vez mais certa subordinação aos desígnios  hierárquicos. Algo similar também se passa nos órgãos do Laicato, bem como em outros do gênero. Mais de 60 anos após a conclusão do Concílio Vaticano II, teria sido mais do que razoável esperarmos, da parte da CNBB, passos mais avançados do exercício da colegialidade para além do segmento episcopal, de modo a abrir-se a uma organização mais flexível admitindo inclusive o surgimento de outras conferências (a dos Leigos e Leigas; a dos Presbíteros; a dos Diáconos) a exemplo do que já se passa com a CRB, de maneira a demonstrar uma convivência fraterna/sororal com todos os segmentos do Povo de Deus. O que se passa, contudo, é o aparente fechamento do segmento episcopal como sujeito exclusivo das deliberações a todos concernentes.


No que tange mais especificamente as CEBs, acompanhamos, não faz muito, certo esforço de parte da CNBB, até de mudar a tradicional designação das Comunidades Eclesiais de Base para “Comunidades Eclesiais Missionárias” buscando excluir a expressão “de Base”, em clara tentativa de abrir mão do trabalho de base, tão profundamente associados às CEBs. Eis por que entendemos oportuno realçar o caráter ecumênico das CEBs, de modo que tantos seus membros, quanto suas diversas coordenações venham a ser assumidas por membros eleitos de diversas Igrejas cristãs, a exemplo do que já se passa na organização das campanhas da Fraternidade, com Coordenação alternada a cada 5 anos com o CONIC. 


O caminho ecumênico já não pode ser tomado como uma mera opção eventual, mas como a via mais consequente da Tradição de Jesus. Já não se trata de uma espécie de estratégia da qual se lança mão, em situações de aperto. Antes, corresponde a uma exigência evangélica, corroborada inclusive em diversos documentos-chave do próprio Concílio Ecumênico Vaticano II, como acima referidos. As décadas pós-conciliares constituem preciosa fonte de inspiração para o movimento ecumenico, inclusive no Brasil neste âmbito diversas figuras ligadas às Igrejas Protestantes históricas se apresentam com enorme contribuição, desde os anos 1950. Também após o Concílio Vaticano II, estreitaram-se entre Protestantes e Católicos. Aqui lembramos, de passagem, nomes tais como os de Richard Shaull, Rubem Alves, Waldo César, Jether Pereira Ramalho, Julio de Santa Ana, para mencionar apenas alguns. Continua ressoando fortemente o livro de Júlio de Santa Ana intitulado “Ecumenismo e Libertação”. 


Nesta busca, dada a atual conjuntura sócio-eclesial, recheada de fundamentalismos, a prática ecumênica de base se apresenta como alternativa a ser reforçada, inclusive no âmbito da caminhada das CEBs.


João Pessoa, 23 de julho de 2026





sexta-feira, 17 de julho de 2026

Retomada da Escola de Formação Missionária, em João Pessoa: primeiros passos

Retomada da Escola de Formação Missionária, em João Pessoa: primeiros passos


Alder Júlio Ferreira Calado 


Como previsto, realizou-se em João Pessoa - mais precisamente no Centro Pastoral Pe. Mazza, no bairro Alto do Mateus -, de 28/06 a 05/07 o primeiro módulo desta Escola, com a participação de uma dúzia de iniciantes, tendo contado com mais de uma dúzia de visitantes, interessados em acompanhar os primeiros passos da nossa Escola. Com o generoso acolhimento das Irmãs coordenadoras do Centro na tarde do domingo, 28/06, foram chegando os primeiros participantes inclusive os membros da Coordenação desta Escola, a começar de Pe. Hermínio Canova. 


Na segunda-feira, 29/06 com a presença da Coordenação e dos Educadores e Educadoras da Escola (Pe. Hermínio, de Sobrado-PB; Ronaldo, do CEBI-PB, e professor da UFCG; Marcos, do CEBI/João Pessoa-PB; Glória, do CEBI, João Pessoa-PB; Glaudemir, da AMMC, Bayeux-PB; Lucinha, da AMMC, João Pessoa-PB), bem como das demais pessoas participantes (Mabel Dias, João Pessoa-PB; Ângela, de Mirandiba-PE; Socorro, de Itabaiana-PB; Jéssica, de Sertãozinho-PB; Pe. Wancelei, de João Pessoa-PB; Alder, de João Pessoa-PB; Tânia, da CPT, João Pessoa-PB; Carlos e Edna, da CPT, Palmares-PE), aos quais nos dias seguintes se somariam Pe. Gabriele, de Cruz do Espirito Santo-PB; Ivone, CEBI, Campina Grande-PB; e outras pessoas que nos visitaram: Pe. Alexandre, Edjane, Socorro Borges, Inez Trombini do Grupo Kairós, Pe. Marcos, Pe. Dário Vaona e Lindolfo, todos de João Pessoa-PB; além de Lúcio, de Belém-PB.


Após o primeiro momento mais forte de Espiritualidade, animado por Glória, foi proposta uma roda de apresentações. Em seguida, Alder foi convidado pelo Pe. Hermínio, a fazer uma breve memória da experiência das escolas de Formação Missionária, sua proposta formativa, seus conteúdos, sua metodologia, seus momentos desafiantes, seu jeito de trabalhar em diferentes conjunturas. Começou por situar historicamente os principais desafios da atual conjuntura sócio-eclesial, começando por incluir as Escolas de Formação Missionária como uma das iniciativas inspiradas na Pedagogia de José Comblin, lembrando tratar-se apenas de uma dentre dúzia de experiências missionárias e formativas animadas por José Comblin e um número de Educadores e Educadoras, sempre trabalhando em conjunto, desde a experiência do Seminário Rural (Pilõezinhos-PB, 1981-1982), Centro de Formação Missionária (Serra Redonda-PB, 1983 a inícios da década de 2000), Centro de Formação de Missionárias Populares (Mogeiro-PB, 1986 aos anos 90), Associação dos Missionários e Missionárias do Campo (Serra Redonda-PB e Serra da Catita-AL, 1995 ao presente), Fraternidade do Discípulo Amado (Serra Redonda-PB, Serra da Catita-AL e Abreu e Lima-PE, 1994 ao presente), Curso da Associação Árvore (Agreste-PB, 1995 a inícios da década de 2000), entre outras experiências. 


Outro desafio apontado por Alder, em sua rememoração, tratou de realçar um outro aspecto pertinente a esta retomada da Escola de Formação Missionária, relativo à questão metodológica. Diferentemente das experiências passadas, esta Escola busca trabalhar não mais a partir de “disciplinas”, mas a partir de temas devidamente conectados: temas considerados mais urgentes de nossa realidade, apresentados de modo conectado com outros temas. Por exemplo, o tema que hoje se apresenta de reconhecida urgência, têm a ver com o feminicídio e outras formas de violência contra as mulheres. Tratamos de compreender melhor diferentes aspectos desta trágica realidade, recorrendo, não apenas as estatísticas, como também a diferentes análises de pesquisadoras em diferentes esferas de saberes, ao mesmo tempo em que cuidamos de examinar esta problemática à luz da Sagrada Escritura (Primeiro e Segundo Testamentos) e do ponto de vista, não apenas das relações sociais de gênero, mas também do ponto de vista das relações sociais de etnia, geracionais, espaciais e de classe social. 


Chegou a vez de convidar a Jornalista Mabel Dias, doutoranda em Antropologia, pela UFPE, cuja tese em construção é voltada, sobretudo, a compreender como hoje funcionam as redes digitais tóxicas que abrigam diversos blogs e canais abertamente misóginos, que se ocupam de perseguir e atacar perfis femininos, sob a ótica da “machosfera”. O tema pesquisado pela Jornalista Mabel Dias têm, com efeito, despertado, crescente interesse. Ela já havia apresentado o esboço de sua pesquisa para militantes da CPT, com intensa repercussão. Mais uma vez, não apenas o tema como também o amplo repertório de textos e análises por ela trazidos atraíram a atenção e a curiosidade das pessoas presentes. Além da gravidade e atualidade do índices de feminicídio e das formas múltiplas de violência contra as mulheres, chamou a atenção o amplo repertório de sintomas apresentados pela autora, o que muito enriqueceu a qualidade do debate que acompanhou ou se seguiu a exposição da pesquisadora. 


No dia seguinte após um momento mais forte de Espiritualidade, inclusive graças a leitura de um poema de Agostinha Vieira de Melo, poeta e teóloga Feminista, tivemos a alegria de contar com a densa exposição feita pelo Prof. Ronaldo, da UFCG e membro da Coordenação do CEBI regional cujo eixo principal foi mostrar como os textos bíblicos (tanto o Primeiro quanto o Segundo Testamentos) tratam a condição da mulher, focando sua dimensão protagônica, desde que feitas tais leituras de modo contextualizado, de maneira a situar cada episódio do ponto de vista histórico, e em relação também a outras nações vizinha ao povo hebreu. Em diálogo com o expositor, intervieram diferentes pessoas, especialmente no tocante a urgência de aprofundar e expandir a leitura contextualizada da Bíblia, não apenas no tocante aos desafios relativos às mulheres, mas também a tantos outros desafios presentes, tais como: 

  • As relações étnico-raciais;

  • As  relações geracionais, haja vista inclusive o enorme desafio de se contar com a participação mais intensa das juventudes;

  • As relações sociais de classes, a exigirem uma compreensão melhor da contribuição do paradigma marxista como chave de interpretação das íntimas conexões dos atuais desafios, inclusive relativamente a expansão da onda fudamentalista das religiões, ao interno da Igreja Católica Romana.


Também, no decorrer da semana, foi enfrentado o tema das redes digitais, bem como a crescente influência das grandes plataformas digitais a potencializarem, cada vez mais, suas influências maléficas sobre crescentes segmentos de nossa população. Ao mesmo tempo, graças também à fecunda participação de Ivone, da Coordenação do CEBI, múltiplos aspectos de intersecção entre a situação das mulheres, os textos bíblicos e as novas tecnologias digitais vieram à tona, contribuindo notavelmente para uma compreensão mais efetiva dos desafios que hoje enfrentamos. 


O domingo, dia 05/07, foi dedicado à avaliação dos trabalhos realizados, bem como ao planejamento das atividades a serem realizadas durante o intervalo entre este módulo e o próximo, a ter lugar, no mesmo local (Centro Pastoral Pe. Mazza, no Alto do Mateus, em João Pessoa, de 10 a 17 de Janeiro do próximo ano). Para fazer uma reflexão autocrítica, os participantes foram distribuídos em pequenos grupos chamados a avaliar: conteúdos trabalhados, metodologia, participação, assim como sugestões de tarefas a serem realizadas pelos participantes durante o intervalo até o próximo módulo. Não se tratou aqui de se fazer um relatório, mas de fornecer alguns elementos de alguns aspectos considerados mais relevantes a compartilhar.   


João Pessoa, 17 de Julho de 2026.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Incidência do metabolismo empresarial nos esportes: o caso do futebol

Incidência do metabolismo empresarial nos esportes: o caso do futebo


Alder Júlio Ferreira Calado


A Copa do Mundo, edição 2026, ganha sua reta final. A seleção brasileira, pela sexta vez consecutiva, está fora. Disto não trataremos. O propósito das linhas que seguem é outro: destacar as influências preponderantes -quase sempre negativas- que o modo empresarial de se organizarem os esportes, vem exercendo consequência e intensidade cada vez maior. Aqui trataremos, ainda que de passagem, apenas do que se passa no futebol. 


Em princípio, os esportes se situam, fundamentalmente, no plano lúdico, na esfera dos valores estéticos. O que jogadores e jogadoras, em todas as modalidades de esporte, e seus respectivos espectadores e espectadoras mais apreciam é a performance, é a criatividade, é o empenho de cada atleta, em particular e no conjunto, no desempenho de suas atividades. No entanto, tal é a força da sociedade capitalista, de penetrar todas as esferas de sociabilidade -inclusive na esfera religiosa-, que também os esportes acabam rendendo-se às suas influências de modo a envolver atletas e torcidas em um processo de subordinação da própria essência esportiva aos seus valores: o lucro, o dinheiro, os interesses empresariais que acabam superando, além  da estrita paixão estética, valores também de outra ordem, como servir os interesses de cada nação. Tempo houve em que podíamos respirar ares menos tóxicos, na esfera esportiva, quando a enorme variedade de esportes ainda não estava tão submetida profundamente aos ditames do Capital. 


Vale rememorar, a este respeito, imagens que nos vêm do final dos anos 50 aos anos 70, quando os valores estéticos do futebol, apreciados tanto por atletas quanto pelas torcidas, não se achavam tão contaminados nem assujeitados pelos os valores de mercado. Época em que a paixão pela arte, os símbolos nacionais, o amor pátrio estavam acima dos interesses dos mercados. Nas últimas décadas, contudo, observamos de uma copa a outra profundas mudanças neste cenário e de forma crescente. O chamado “mercado da bola” vai assumindo, cada vez mais, posição capital: a crescente internacionalização do futebol, os contratos milionários de jogadores , os escândalos crescentes de dirigentes da Fifa e de federações nacionais, como a do Brasil, o surgimento de empresas de aposta como as Bets e assemelhadas vêm transformando, cada vez mais o futebol em um negócio, com gravíssimas consequências para o chamado “futebol arte”. Os atletas já não se acham tocados interiormente como antes, pelo amor a camisa de sua seleção sente-se mais e mais influenciados pelas cobranças e pressões dos times aqui pertencem; mudam os parâmetros que antes caracterizavam seu perfil de jogadores, inclusive muito deles viram empresários, a bola já não é sua única sustentação - e por vezes, nem mesmo a principal -, imbuídos que estão da Gula por dinheiro e por fama, cenário em que salvo exceções, a pertença nacional se converte em mero detalhe.


Nosso objetivo principal é o de alertar quanto ao poder de penetração do modo capitalista de organização social. Em seu desenvolvimento consegue alcançar quase todas as esferas da vida, graças ao metabolismo de que é possuidor, tendo claro o alcance deste potencial metabólico, temos mais condições de organizar melhor nossa resistência, não apenas em relação ao futebol e aos esportes, como também em todas esferas da vida. Eis uma tarefa hercúlea da qual somos chamados a nos ocupar, a cada dia. 


João Pessoa, 13 de Julho de 2026               
































quarta-feira, 8 de julho de 2026

Para além de um cenário terrificante: a força revolucionária das correntezas subterrâneas

Para além de um cenário terrificante: a força revolucionária das correntezas subterrâneas


Alder Júlio Ferreira Calado 


A conjuntura internacional, latino-americana e brasileira segue revelando-se profundamente trágica, tanto para os nossos biomas quanto para os humanos e demais viventes. Cada vez mais deletérias continuam sendo as práticas do Império americano-sionista nas mais diferentes esferas da realidade, sobretudo desde o Governo Trump, em aliança profunda com o Governo genocida de Israel, contando com a cumplicidade dos Governos Europeus, salvo uma ou outra excessão. Ainda ontem, dia 07 de julho de 2026, não bastassem a estupidez e ato ridículo de Trump em “reinvidicar” do atual presidente da FIFA, a reconsideração da expulsão do jogador Folarin Balogun de modo a permitir sua escandalosa participação no jogo contra a seleção belga, tivemos a notícia da retomada abrupta dos bombardeios contra o Irã, bem como contra o Líbano, da  parte de Israel. 


Da política econômica à socioambiental, da política tecnológico-digital das grandes  plataformas à política de reconquista colonial mais agressiva, aplicada à América Latina, tal Império só tem agudizado sua extrema gula de apoderar-se do mundo inteiro, razão pela qual não cessa de aumentar seu poderio militar, agigantando cada vez mais seu orçamento na indústria de armamentos bélicos, de expansão infinda de potentes bases militares mundo afora. 


A América Latina continua sendo um alvo predileto desta política necrófila. Do México à Patagônia, passando pela América Central e o Caribe (com ênfase em Cuba), a política estadunidense não cessa de semear o terror, ora prometendo anexar o Panamá, ora intensificando suas agressões a Cuba (não bastasse o criminoso bloqueio mantido e agravado, há quase 65 anos), ora bombardeando impunemente dezenas de embarcações de pescadores, no Mar do Caribe, ora sequestrando o presidente da Venezuela e sua esposa, como forma de controle imperialista daquele país - cuja população, alías, também hoje sofre as trágicas consequências dos recentes abalos sísmicos a gerarem milhares de mortes, feridos e desaparecidos -, ora ainda interferindo nos processos eleitorais e na política interna de quase todos os países sul-americanos, fazendo questão de explicitar seu plano de intervenção em todo o continente.    


A sociedade brasileira também enfrenta graves consequências provocadas pelo Império americano-sionista, não sem a funesta colaboração das forças direitistas. Não bastassem os ataques tarifários, as forças componentes do Estado brasileiro - especialmente o legislativo e o judiciário em orgânica sintonia com os interesses do grande Capital - não cessam de gerar escândalos cada vez maiores contra a economia popular, a exemplo do orçamento secreto, do Banco Master, do roubo aos aposentados e pensionistas do INSS, da Operação Carbono Oculto. Importa ainda salientar o peso negativo de forças religiosas - principalmente as que se reivindicam de cristãs -, a potencializarem de modo exponencial, o alcance destrutivo das forças dominantes.     


No entanto, nosso propósito principal, nas linhas que seguem, é o de focar nas potencialidades das “correntezas subterrâneas”. Estamos por demais habituados a nos reger pelo que observamos nas águas e superfície, sem nos darmos conta do que se passa nas águas subterrâneas. Muitas vezes, de tão presos às dimensões conjunturais, nem sempre percebemos nossa desatenção quanto a perspectiva histórica de longa duração, razão pela qual nos tornamos inclinados a fazer uma leitura de mundo parcial e bastante limitada, em que temos muita dificuldade de perceber criticamente os sinais da história que não se situem ao alcance imediato de nossa vista. Eis por que somos chamados a centrar atenção também no que se passa nas correntezas subterrâneas da história. Aqui, vamos conferir um apreço especial ao que temos chamado de “forças moleculares revolucionárias”. 


Do local ao âmbito mundial, podemos constatar numerosos sinais de alternatividade molecular a sociabilidade  dominante nas distintas esferas da realidade, das quais focaremos apenas algumas. Na esfera planetária por exemplo, abundam experiências e iniciativas de tocante cuidado com a Mãe-terra. A começar por nossos povos originários, são múltiplos os sinais alternativos à barbárie capitalista. Neste sentido, cumpre atentar para as densas contribuições, seja de povos Indígenas espalhados pelo mundo no continente americano, inclusive na américa latina e no Brasil, seja em relação a figuras com rica experiência de vida, a exemplo de Ailton Krenak sobre quem já tivemos oportunidade de refletir (cf. textosdealdercalado.blogsport.com). 


Tanto do ponto de vista prático, quanto do ponto de vista teórico, importa tomar em consideração avanços significativos, como são os casos do paradigma do “Buen vivir” e do Eco-Socialismo, o qual tem na figura de Michael Lowy sua inspiração mais destacada, inclusive graças ao “Manifesto por uma Revolução Ecossocialista”, de sua lavra em co-autoria com Jùlia Câmara (Editora Boitempo 2025), documento aprovado no XVIII Congresso da Quarta Internacional, realizado na Bélgica, em fevereiro de 2025 (maiores informações ver Revista Movimento, cf. https://movimentorevista.com.br) reconhecendo tratar-se de um escrito para além de uma proposta de caráter exclusivamente ambiental, mas também propugnando uma revolução de modo de produção, de consumo e de gestão societal, alternativo a barbárie capitalista, de modo a focar na produção de valores de uso - e não de valores de troca -, visando a atender às verdadeiras necessidades dos humanos e demais viventes, e não voltado à acumulação ilimitada de bens. 


Ainda no plano planetário, importa conhecer ou revisitar uma vasta lista de experiências de convivência harmônicas com nossos mais distintos biomas, tal como acontece, por exemplo, em nosso semiárido nordestinos, aqui destacando especialmente experiências comunitárias frutuosas, no campo das tecnologias alternativas de convivência no bioma caatinga, na organização de Bancos de sementes-crioulas, das cisternas comunitárias, as bem sucedidas práticas agro-ecológicas (inclusive com suas feiras agroecológicas), as barragens subterrâneas entre outras. 


Na esfera das relações sociais de gênero, a despeito do escandaloso crescimento dos índices de feminicídio, das múltiplas formas de violência contra as mulheres e da expansão ameaçadora da misoginia, das formas tóxicas de masculinidade cada vez mais presente nas redes digitais - de que é prova a chamada “machosfera” -, cabe lembrar o extraordinário avanço, também no Brasil da consciência feminista e de suas lutas libertárias, protagonizadas por diversos grupos e movimentos feministas (Marcha Mundial de Mulheres, cf. https://marchamundialdasmulheres.org.br/ ; O Movimento das Mulheres Indígenas cf. https://apiboficial.org/2026/02/27/carta-manifesto-e-pauta-de-reivindicacoes-do-movimento-das-mulheres-indigenas-do-medio-xingu/ ; O Moviemnto das Mulheres Negras cf. https://www.ancestralidades.org.br/biografias-e-trajetorias/movimento-de-mulheres-negras ; O Movimeto das Mulheres Camponesas cf. https://mmcbrasil.org/). Aqui também, importa ter presentes as lutas libertárias no campo do Sagrado a exemplo da Teologia Feminista da Libertação e da Teologia Eco-feminista, ambas formuladas como propósta ecúmenica, a envolverem integrantes de diversas confissões em diálogo com múltiplas expresões não religiosas. No Âmbito especificamente católico, convém ter presente, por exemplo o “site” https://catolicas.org.br/, enquanto diversos são os “sites” abrigando tendências ecumenicas, como o faz o site do CEBI (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, cf. https://cebi.org.br/). Cumpre igualmente considerar a relevância das lutas de resistência contra a homofobia (LGBTQIA +, comportando uma diversidade de “sites”). 


Aqui nos limitamos a registrar algumas experiências moleculares impregnadas de força revolucionária molecular, às quais nossos destinatários prioritários - jovens militantes das classes populares - são chamados a acrescentar tantas outras iniciativas, nestas e em diversas outras esferas de nossa realidade, sempre buscando compartilhar as razões de nossa esperança.


João Pessoa, 08 de Julho de 2026.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Barbaridades do Império Americano - Sionista: novo caso de violência contra a Flotilha da Liberdade e outras atrocidades

Barbaridades do Império Americano - Sionista: novo caso de violência contra a Flotilha da Liberdade e outras atrocidades 


Alder Júlio Ferreira Calado 


As potências ocidentais, quando não cúmplises diretamente das barbáries praticadas pelo Império Americano-Sionista, mantêm um silêncio ensurdecedor sobre as atrocidades em série praticadas contra a humanidade. O Estado-pirata de Israel, em conluio com o Governo dos Estados Unidos, continua protagonizando todo tipo de atrocidades, não apenas contra o Povo Palestino, mas também contra outros povos do Oriente Médio. Sem o apoio financeiro e militar dos Estados Unidos, o Estado Sionista de Israel não poderia perpetrar a incessante série de crimes impunes que vem praticando, não apenas contra o martirizado Povo Palestino, já há décadas, mas também contra outros povos do Oriente Médio. Com efeito, contra as mais elementares leis do direito internacional, o Governo de Israel segue cometendo barbaridades contra o Líbano, contra a Síria, contra o Iraque, contra o Irã e outros povos. 


O propósito central das linhas, que seguem, é o de denunciar algumas das múltiplas e crescentes atrocidades do Império Americano-Sionista, a fortiori durante o Governo Trump, em íntima aliança com o aterrador Governo sionista de Israel. Uma primeira denúncia expressamos contra as seguidas atrocidades cometidas pelo Governo genocida de Israel contra a ação de solidariedade, prestada aos Palestinos, pela Flotilha da Liberdade, uma organização pacífica formada por militantes internacionalistas, que, há mais de uma década, recolhem víveres e medicamentos, transportando-os em embarcações, em solidariedade ao Povo Palestino. Os militantes da Flotilha da Liberdade continuam sofrendo toda sorte de violência e obstruções nas embarcações da Flotilha em águas internacionais: prisões ilegais de seus tripulantes, sequestros, torturas, abusos sexuais, difamação de forma reiterada, e ao arrepio do Direito Internacional.


A este respeito, cumpre trazer à tona diversas repercussões que circularam pela imprensa alternativa, à exemplo de Brasil de Fato. Em uma de suas reportagens, noticia que “mais de 20 barcos da flotilha civil - que transportavam mantimentos e ajuda humanitária com destino à Faixa de Gaza - foram tomados de assalto”. Foram aprisionadas de 175 a 211 ativistas, jornalistas e tripulantes de várias nacionalidades, incluindo quatro brasileiros. Há relatos sobre as condições de sequestros, onde foram encontrados severos hematomas nos braços e costas, vários deles foram ainda obrigados a ficarem horas e horas ajoelhados com as mãos amarradas. Consta, segundo testemunhas, que ativistas não europeus sofreram violências ainda maiores. Membros da organização relataram que uma das embarcações foi convertida em uma prisão flutuante com o uso de contêineres e arame farpado. Dezenas de denúncias foram formalizadas, por tripulantes de diferentes nacionalidades, relatando casos de abusos psicológicos, revistas íntimas abusivas e agressões sexuais graves ocorridas a bordo. O Governo do Brasil, junto a outros 11 países, assinou uma declaração conjunta, classificando o tratamento aos ativistas como "degradante e humilhante", além de apontar a operação no Mediterrâneo como uma violação do direito internacional. Países da União Europeia passaram a discutir sanções diplomáticas contra autoridades de Israel envolvidas na custódia.


As forças militares de Israel interceptaram embarcações da missão humanitária Global Sumud Flotilla no final de abril de 2026, resultando em fortes denúncias de espancamento, tortura e agressão física e sexual contra dezenas de tripulantes e ativistas. O episódio gerou intensa repercussão internacional e forte crise diplomática. Da edição precedente da Flotilha, também participaram alguns brasileiros, dentre os quais se tem destacado a figura de Thiago Ávila, que já se tornou um alvo predileto das atrocidades do Governo genocida de Israel. Thiago e outras vítimas têm amargado em sua pele as atrocidades do Governo israelense, não apenas contra não palestinos, mas também as extremas violações de que são vítimas centenas de Palestinos - sobretudo jovens - das barbáries cometidas nas masmorras israelenses. 


Sobretudo desde o início do Governo Trump, os povos amargam sucessivas atrocidades perpetradas, em escala mundial, pelo Império Americano-Sionista. Das sucessivas e graves violações sofridas pelos povos do mundo inteiro, pela sanha assassina do Império Americano-Sionista, além do caso acima descrito relativamente à Flotilha da Liberdade, limitamo-nos a rememorar apenas algumas destas incursões imperiais: 

  • Ameaças reiteradas contra a soberania até de países aliados (Canadá, Groenlândia, Panamá…)

  • A insana estratégia do tarifaço, iniciativa perversa que deixaria ruborizados os piratas mais violentos de outros tempos;

  • As investidas Sionistas-Imperiais contra o Irã e seus aliados;

  • O sequestro escandaloso feito pelas forças imperiais norte-americanas contra o presidente venezuelano;

  • Os bombardeios assassinos - que seguem escandalosamente impunes - cometidos pelo Governo dos EUA, contra dezenas de embarcações, no Caribe, dos quais já resultaram centenas de morte;

  • A crescente interferência do Governo dos EUA em diversos países latino-americanos: Venezuela, Argentina, Colômbia, Paraguai, Chile, Peru, entre outros;

  • Desastrada política econômica interna aos EUA, que tem agravado, mais e mais, a situação econômica do próprio País;

  • Por último, mas não menos importante, a perversidade do bloqueio norte-americano contra o Povo Cubano, feito há mais de 60 anos, agora agravado por sucessivas ameaças contra a Ilha, que tem contado com a solidariedade de tantos povos, em escala mundial.


Ainda que tenhamos nos limitado a exemplificar apenas uma pequena parte das atrocidades cometidas pelo Império Americanos-Sionista, insistimos na relevância e na urgência de nossa posição de resistência. 


João Pessoa, 17 de junho de 2026