Os Irmãos Apostólicos Franciscanos: breve nota sobre Fra Dolcino da Novara (1250-1307)
Alder Júlio Ferreira Calado
Este ano de 2026 vem sendo dedicado, na Igreja Católica Romana, à comemoração dos 800 anos do trânsito de Francisco de Assis (1226-2026), ocasião propícia para fazermos memória do denso legado deste verdadeiro seguidor de Jesus de Nazaré. Ao mesmo tempo, também assinala uma oportunidade favorável para avaliarmos como temos (ou não) seguido o legado de Francisco de Assis. Neste sentido, vale a pena revisitar algumas biografias mais densas de Francisco de Assis, a exemplo escrita por Ignácio Larrañaga, intitulada “O Irmão de Assis” (São Paulo: Paulinas, 1998).
Constatamos, com pesar, um distanciamento preocupante em relação aos feitos e ao legado de São Francisco. Vem predominando uma atitude de desconhecimento da vida de Francisco e seus primeiros companheiros. Com efeito, isto não se dá apenas nos dias de hoje. Ainda quando vivia, Francisco foi duramente contrariado por sucessivas tentativas de desrespeito e tentativas de cooptação, em vista dos objetivos fundamentais que Francisco alimentava, junto com seus primeiros companheiros. Os “grandes” da Instituição eclesiástica, de ontem e de hoje, nunca aceitaram a radicalidade de pobreza evangélica testemunhada e proposta por Francisco. Infelizmente tem prevalecido um desvirtuamento dos propósitos originais. Nem todos, porém, se distanciaram do ideal Franciscano. Ontem como hoje, sempre houve minorias que buscaram tomar a sério o programa de Francisco de Assis, que antes de ser de Francisco é o Programa de Jesus. Entre estas “minorias abraâmicas” (como chamava Dom Helder Câmara), incluem-se diversos movimentos pauperísticos, que floresceram principalmente durante a baixa Idade Média, a exemplo dos Valdenses, os Patarinos, dos Albigenses, dos Cátaros, dos “Apostolici”, das Beguinas, dos Begardos, dos Hussitas entre outros.
Nas linhas que seguem vamos nos ater apenas ao conhecido Movimento dos “Apostolici” (Apostólicos), e mais particularmente à figura de Fra Dolcino da Novara e Marguerita Bonisegna. Um grande desafio que encontramos, ao revisitar movimentos e figuras rebeldes às correntes dominantes em seu tempo, é a escassez de fontes, e, quando as há, são registradas pelos perseguidores, e portanto relatados conforme sua visão hostil. É também o caso de Fra Dolcino e de uma outra grande liderança feminina deste movimento - Margherita Boninsegna.
O Movimento dos Apostólicos fora fundado por Gherardo Segarelli, (1240 - 1300), um leigo devoto de Francisco de Assis que, inconformado com o distanciamento dos valores fundamentais vividos e pregados pelo Irmão de Assis, cuidou de reunir alguns seguidores, em busca de fazer justiça à memória de Francisco de Assis, ao mesmo tempo em que tratava de denunciar riqueza, o poderio, a devassidão da alta hierarquia e de sua traição aos valores fundamentais do Evangelho. Teve que pagar caro: foi martirizado em 1300.
O Movimento dos Apostólicos expandiu-se pela Lombardia (norte da Itália), atraindo milhares de peregrinos e despertando a irá do alto clero e dos poderosos da época. Mas o Movimento dos Apostólicos continuou se expandindo, graças ao trabalho itinerante de tantas pessoas, a exemplo de Fra Dolcino, de Margherita Bonisegnia, principais lideranças do Movimento.
Fra Dolcino, por sua vez, se mostrou um fiel discípulo e seguidor de Segarelli. Detentor de sólidos conhecimentos bíblicos, tratou de traduzir e de fazer chegar às mãos dos pobres, em sua própria língua, a palavra de Deus. Antes, a bíblia restava um privilégio da hierarquia, conhecedora do Latim , que restringia apenas ao clero o direito sagrado de ler (em Latim!) a Bíblia. Os apostólicos, ao contrário, se empenharam em tornar pública a Palavra de Deus, tornando - a ao alcance de grande número de fiéis. Estes, por sua vez, conhecedores da palavra de Deus, se sentiam também chamados a anunciá-la em praças públicas, o que era terminantemente vedado aos leigos e leigas pela hierarquia. Daí, a crescente perseguição por meio da organização de cruzadas, convocadas pelo Papa Clemente V, com a participação de vários Exércitos Feudais.
Além de propagar a leitura da Bíblia e o anúncio público da Palavra de Deus, as lideranças do Movimento também incentivaram as reuniões em casas, para aprofundamento do conhecimento da palavra de Deus. Por outro lado, graças também à influência de lideranças como a de Margherita Bonisegna, e em consequência dos ensinamentos do Evangelho, defendia - se o princípio de paridade de direitos entre homens e mulheres. Os Apostólicos, especialmente no período de 1303 a 1304, passaram a ser mais duramente perseguidos, assustava aos poderosos da época seu crescimento contínuo, chegando a reunir entre 3 e 4 mil seguidores a exercitarem o anúncio itinerante da palavra de Deus e dando testemunho dos valores do evangelho. À medida que cresciam as perseguições, os integrantes do Movimento foram obrigados a buscar um lugar de refúgio: o Monte Rubello, na região do Piemonte, da província de Biella. Esta região também lhes favorecia, por proporcionar-lhes, além de abrigo seguro, proximidade com zonas agricultáveis, de onde recolhiam víveres, pela solidariedade daqueles moradores.
Importa ressaltar o papel desempenhado por Margarita Bonisegna, também conhecida como Margarita de Trento. Uma leiga, que fiel a sua vocação, tornou-se uma forte liderança ao lado de Fra Dolcino, a propagar, de forma itinerante, a palavra de Deus e a testemunhar seu exemplo profético, denunciando os graves desvios do alto clero em conluio com os poderosos chefes feudais ao mesmo tempo que, junto com seus irmãos e irmãs de caminhada, cuidava de anunciar um novo tempo - de verdade, de justiça e de paz. Note-se que a força do Movimento também repousava na motivação alimentada, isto é na ênfase dada à Iminência escatológica, isto é, da chegada de um novo tempo, do Reino dos Céus a serem instalados também na Terra. Por conta de sua coragem profética, Margarita foi perseguida até mais do que os homens, dada a sua coragem de pregar o Evangelho, em público, junto com outras lideranças do movimento, a exemplo de Fra Dolcino. Vale ressaltar a dupla perseguição sofrida por Margarita: sua luta se dava, ao mesmo tempo, contra a ordem eclesiástica e a ordem patriarcal.
Em 1307 os integrantes dos apostólicos sofreram duras reveses por parte dos cruzados organizados pelo Papa Clemente V. Sua fúria maior se concentrou nas figuras das lideranças Fra Dolcino e Margarita de Trento, que foram presos, torturados e condenados à morte, em 1307.
Que ensinamentos podemos recolher do Movimento dos Apostólicos, e em especial de Fra Dolcino e de Margarita Boninsegna ?
Costumamos lembrar os principais destinatários destas linhas: os/as militantes dos Movimentos Populares comprometidos com as causas libertárias da humanidade, buscando estimular o contínuo exercício da memória histórica dos oprimidos e oprimidas de ontem e de hoje ao revisitarmos traços significativos do legado do Movimento dos Irmãos Apostólicos, em especial de seus protagonistas principais, tratamos de recolher preciosas lições que nos ajudem a melhor compreender e assumir melhor antigos e novos desafios enfrentados pelo planeta, pelos humanos e demais viventes. Cuidemos, pois, de realçar aspectos emblemáticos deste movimento.
Em primeiro lugar, uma constatação que não deve ser jamais menosprezada: a despeito da prevalência, através da história, das variadas formas de dominação exploração e marginalização de minorias sobre grandes maiorias, nunca deixou de haver, por parte de pessoas, de grupos e de movimentos, firmes atitudes de resistência e de enfrentamento em vista da superação de tais desafios. Eis por que nunca devemos desanimar diante dos desafios que enfrentamos, velhos e novos, buscando sempre examiná - los em perspectivas históricas. Outro aspecto que merece destaque, está ligado ao próprio exercício da memória histórica dos oprimidos, que rememorando as atitudes de Jesus de Nazaré e das primeiras Comunidades cristãs, animou os protagonistas do Movimento dos Irmãos Apostólicos, buscando reavivar aqueles valores.
João Pessoa, 21 de Abril de 2026