quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Fecundas experiências comunitárias: breves notas

Fecundas experiências comunitárias: breves notas 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Temos sido constantemente instigados a compartilhar relatos de experiências comunitárias, das quais temos participado, ora na Paraíba ora em Pernambuco. Nas linhas que seguem, trataremos de compartilhar apenas uma delas, fornecendo breves notas. Aqui nos restringimos ao encontro realizado em Caruaru - PE. Trata - se do encontro da CPT Nordeste II, que teve lugar no esplêndido Santuário das CEBs, no Sítio Juriti, a poucos quilômetros de Caruaru.     


Nos dias 11, 12 e 13 de Agosto passados, a Comissão Pastoral da Terra, (CPT Nordeste II, composta por integrantes atuando nos Estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte), concluindo um módulo de formação Sobre a figura de Paulo Freire, e especialmente, do seu livro “Pedagogia do Oprimido”, promoveu o frutuoso debate sobre tal experiência de estudos, para a qual foram convidados e convidadas a participar os membros do conselho e da Coordenação. Importa assinalar que se tratou apenas do último encontro formativo acerca de “Pedagogia do Oprimido” em vista de avaliar e debater os aportes desta obra, em busca de uma leitura crítica de nossa realidade, como primeiro passo de enfrentamento e superação e de seus dilemas. 


Os estudos aí realizados foram sempre acompanhados de um clima de intensa participação de cooperação, de entusiasmo, de mútua ajuda, não faltando marcantes momentos de músicas, de cânticos e de oração. Desde o dia anterior, as pessoas foram chegando sempre bem acolhidas pela irmã Hermínia e com a participação ao longo do encontro, das pessoas responsáveis pela cozinha da casa. Os que chegaram no dia anterior, a exemplo de Pe. Hermínio Canova e de Tânia Sousa e outras já haviam trabalhado diversos aspectos da atual conjuntura, em uma dinâmica semelhante a de um Círculo de Cultura, em que diversos aspectos do atual cenário internacional e nacional foram puxados pelo Pe. Hermínio, com a colaboração de Plácido Júnior e várias outras pessoas.            


Realçando alguns dados biográficos sobre Paulo Freire, situando-o em seu contexto


À semelhança de tantos outros autores e autoras, também Paulo Freire (1921-1997) não viveu alheio nem isolado das condições históricas do seu tempo e de sua gente. Nascido em Recife de uma família de classe média, ainda criança teve que amargar, com sua família, as consequências da chamada crise de 1929 que afetou duramente a economia brasileira. Um dos seus efeitos também se refletiu sobre a família de Paulo Freire, forçada que se sentiu a mudar de residência e de cidade, indo morar em casa mais simples, situada no município de Jaboatão-PE.  


Contando com pais e irmãos afetuosos, Paulo Freire teve uma infância/adolescência de muito acompanhamento familiar e de intensa convivência com os colegas de rua. Foi alfabetizado em casa, inclusive servindo-se de gravetos para escrever a sombra da frondosa mangueira. Desde cedo, mostrou-se uma criança apaixonada pelo saber para o que nunca lhe faltou o incentivo dos pais e dos irmãos. Tendo concluído o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, a semelhança de tantos jovens de sua geração passou a cursar Direito pelo qual não nutria tanto interesse. Concluído o Curso de Direito, ao assumir sua primeira causa, resolveu desistir da carreira, decisão que encontrou apoio em sua esposa Elza Maia Costa Freire, que se revelaria de enorme influência sobre o marido na escolha de sua verdadeira vocação: a Educação, campo no qual Elza já militava. 


Desde então Freire passa a atuar em sucessivas experiências pedagógicas, especialmente no campo da Educação Popular no qual se mostraria exímio militante e pesquisador. Foi um dos integrantes do conhecido Movimento de Cultura Popular de Pernambuco, bem como a grande referência no que tange o processo de alfabetização de adultos, tornando-se famoso pela criação do sistema Paulo Freire. Para tanto, vale enfatizar seu compromisso com a Extensão Popular, graças sobretudo ao seu trabalho à frente do serviço de Extensão Cultural da então Universidade de Recife, do qual foi o criador.    


Tal foi a qualidade do trabalho realizado, também neste período (inícios dos anos 1960), que ele não tardaria a ser convidado pelo então Ministro da Educação, Paulo de Tarso Santos, a liderar Campanha Nacional de Alfabetização, em especial a que teve lugar em Angicos-RN, em 1963 que resultou famosa pelos frutos colhidos: ter conseguido alfabetizar cerca de 300 pessoas, em menos de 60 dias, graças a aplicação do seu conhecido método (o das palavras geradoras escolhidas pela sua Equipe, pela dinâmica criativa dos “círculos de cultura”). 


Em meio a um contexto de enorme efervescência política protagonizada, por um lado, crescente mobilização popular em defesa pelas “Reformas de Base” (Reforma Agrária, Reforma Urbana, Reforma Educacional, Reforma Bancária e outras) e, por outro lado, pela crescente reação da classe dominante, em conluio com o governo dos Estados Unidos, veio a ser instalado em 1ºde Abril de 1964, o tenebroso Golpe Empresarial-militar do qual resultaram perseguições e prisões (inclusive de Paulo Freire), cassações de lideranças políticas sindicais estudantis e populares,inaugurando um longo período de Ditadura que durou 21 anos. Centenas de brasileiros e brasileiras inclusive Paulo Freire tiveram que buscar asilo em outros países.    


Antes de partir para seu primeiro exílio, na Bolívia, como ele próprio narra em seu livro “pedagogia da pergunta” (Paz e Terra, 1985), elaborado em co-autoria com Antonio Faundez, Paulo Freire, juntamente com dezenas de intelectuais, teve que amargar 70 dias de prisão. Desta experiência, registra um episódio importante, relativo à conduta exemplar de um companheiro de cela Clodomir Morais, um comunista ateu, uma das principais lideranças das Ligas Camponesas, que era o último a fazer a refeição, pois se ocupava de distribuir primeiro a comida a todos os colegas. Após o período de prisão, houve por bem pedir exílio ao Governo da Bolívia daí seguindo, pouco tempo depois, para o Chile, onde permaneceu exilado por vários anos, tempo durante o qual, escreveu textos como “Educação como Prática da Liberdade” e “Extensão ou Comunicação?” Além de “Pedagogia do Oprimido” foi convidado a ocupar cargos de relevância no Governo Chileno, especialmente no campo da Educação Popular junto aos camponeses, em luta pela Reforma Agrária.


No final dos anos 60, em viagem feita aos Estados Unidos, entre vários interlocutores e interlocutoras, teve a oportunidade de encontrar-se, em Princeton, com o teólogo protestante Richard Shaull, orientador da Tese de Rubem Alves, primeiro teólogo a utilizar a expressão “Teologia da Libertação”. Naquela ocasião Paulo Freire despertou especial atenção em Richard Shaull por haver-lhe compartilhado os manuscritos originais de sua “Pedagogia do Oprimido". De tão positivamente impressionado, Shaull apressou-se em fotografar os originais daquele livro, empenhando-se em sua rápida publicação, razão pela qual o “Pedagogia do Oprimido” apareceu publicado, primeiro, em Inglês.


Graças a sua crescente influência, em âmbito internacional, Paulo Freire não tardarria a ser convidado a integrar a condução dos serviços educacionais promovidos pelo Conselho Mundial de Igrejas, uma enorme rede de Igrejas Protestantes, Organizadas em escala Mundial, com sede em Genebra, Suíça. Sempre trabalhando em equipe, a partir de então, Freire vai desenvolver um fecundo período de esteiras interlocuções com Educadores dos países africanos - ainda em processo de interdepentização e sua metrópole ocidental (Portugal). Passa então a viajar e a se corresponder com frequência, para diversos países, tais como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Destas vastas e fecundas experiências e colaboração ao processo de alfabetização, nestes países, vale destacar, pelo menos, dois casos: sua vasta correspondência com lideranças revolucionárias destes países, inclusive com Amílcar Cabral e os registros de seu trabalho e de sua Equipe com educadores e educadoras africanos, o que se pode conferir em seu conhecido livro “Cartas a Guiné-Bissau” (Paz e Terra, 1977).


Por força da Lei de Anistia (1979), além de tantos outros exilados em diversos países, Paulo Freire também retorna ao Brasil, em 1980, tendo trabalhado tanto na UNICAMP (Campinas-SP), quanto na prestigiada PUC de São Paulo, sob a animação profética de Dom Paulo Evaristo Arns (nascido menos de uma semana antes de Paulo Freire, em 14/09/1921), uma liderança preciosa como força de resistência contra a Ditadura Empresarial-Militar. Desde o seu retorno ao Brasil, Paulo Freire se dispôs incansavelmente a contribuir com grandes causas sociais, políticas e pedagógicas. Uma de suas contribuições se deu no contexto da fundação do Partido dos Trabalhadores, tendo sido ele um dos fundadores do PT. Em outra contribuição relevante, Paulo Freire esteve envolvido no grupo que fundou o CENTRU (Centro de Educação dos Trabalhadores Rurais), de cujas lideranças fizeram parte, além de Paulo Freire, figuras tais como Manoel da Conceição, (Maranhão), Margarida Maria Alves (Paraíba), e Luiz Silva (Paraíba). Movimento que atuou sobretudo no Nordeste, protagonizado por militantes populares e sindicais. 


Além disso Paulo Freire atendia a frequentes convites internacionais e nacionais, em diversos Estados brasileiros especialmente no Nordeste, sobre apenas dois deles, uma brevíssima notícia: em Juazeiro-BA a convite de Dom José Rodrigues então Bispo diocesano, ministrou curso de Educação Popular aos grupos pastorais daquela Diocese. A convite do conhecido teólogo José Comblin também esteve compartilhando instigantes reflexões com os jovens formandos do Centro de Formação Missionária, em Serra Redonda-PB. No entanto, sob conectar suas intensas atividades militantes e seu compromisso profissional, como docente e orientador, especialmente PUC-SP, oque não o impediu de atender ao convite da então Prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, para ocupar o cargo de Secretário de Educação da Cidade de São Paulo. Fumante contumaz, Paulo Freire foi acometido de problema pulmonar, vindo a falecer em 02 de Maio de 1997, aos 75 anos.   


Problematizando nossa leitura de “Pedagogia do Oprimido


Após o resumo detalhado de cada capítulo, feito pelas equipes e apresentado pela coordenadora dos trabalhos, cuidamos de exercitar uma reflexão problematizadora e dialogante com as pessoas participantes do Encontro, atentando especialmente para as principais categorias trabalhadas por Freire, neste livro: “Dialogicidade”, “Criticidade”,”Conscientização”, “Inédito viável”... Na visão de Paulo Freire, atitude mais fecunda característica das classes populares, vítimas de qualquer sistema de opressão - mormente no caso do modo de produção capitalista - é sua disposição ao diálogo, que há de ser travado com os iguais, com os semelhantes e com os diferentes, excluída apenas a viabilidade de se dialogar com os antagônicos pelo fato mesmo de estes se auto-excluírem do exercício do diálogo. Inútil e contraproducente tentar dialogar com a classe dominante - os grande grupos proprietários dos meios de produção tais como os grandes proprietários e controladores das “big techs” (as grandes plataformas), as grandes empresas transnacionais e nacionais, os banqueiros, o agronegócio, os grandes laboratórios, entre outros. Neste sentido convém sempre alertar de que todas as vezes em que as classes populares aceitaram “dialogar” ou fazer aliança com os setores dominantes da sociedade levaram sempre a pior. 


“Criticidade” constitui outra categoria - chave de “Pedagogia do Oprimido”, graças a qual as classes populares são instadas a passarem de uma “consciência ingênua” a uma “consciência crítica”, por meio do aprendizado comum da leitura de mundo, como condição necessária a busca de transformação da realidade. Eis oque constitui “Conscientização”. Em Freire, o conceito de criticidade se acha grávido do compromisso revolucionário. De pouco vale fazer - se uma análise crítica da realidade, se não for como exercício de sua transformação. Razão pela qual, em Freire, o conceito de “Inédito Viável” aparece como um farol a iluminar caminhos de transformação da realidade social, em busca da construção processual de um novo modo de produção, de consumo e de gestão societal, sempre em busca de uma nova sociedade alternativa à barbárie capitalista. 


João Pessoa, 24 de Setembro de 2026. 

  















       

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Ajudando a ressoar o Grito dos Excluídos/2026

Ajudando a ressoar o Grito dos Excluídos/2026


Alder Júlio Ferreira Calado


Pela 32º edição, realiza-se, nas mais diversas áreas do Brasil, mais um “Grito dos Excluídos e Excluídas”, um relevante acontecimento social resultante das frutuosas “Semanas sociais”, promovidas pela CNBB, entre 1993 e 1995, quando ainda convivíamos com uma geração de Bispos profetas. Durante a chamada Semana da Pátria, culminando no dia 07 de Setembro, após fecundos preparativos, e inspirados em um tema alusivo aos principais desafios da conjuntura brasileira, as classes populares tomam as ruas de centenas de municípios brasileiros, animadas pelas Pastorais Sociais, os Movimentos Populares e os Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, a protestarem e reivindicarem o cumprimento efetivo de políticas públicas.  


Neste ano, o Grito dos Excluídos e Excluídas tem por tema “Vida em Primeiro Lugar: Na defesa da Terra, da Paz, e Moradia, erguemos a voz: Mulheres vivas e Soberania!” a edição do Grito deste ano se realiza em uma conjuntura extremamente distópica, seja em escala mundial - célere avanço das forças nazi-fascistas liderado pelo Império americano-sionista, inclusive espalhando-se pela América Latina, seja pela grave ameaça perpretada mais uma vez, a frágil “Democracia” brasileira, mais uma vez ameaçada pela continuidade golpista, mais do que antes favorecida pela susseção de gigantescos escândalos financeiros promovidos pela “fina flor” da classe dominante: as grandes plataformas, os bancos privados, as diversas instâncias do Estado, com a cumplicidade da mídia hegemônica. 


Refletindo sobre o sentido do Grito deste ano, tratamos de realçar as inquietações maiores contidas no lema da presente edição. A reafirmação de “Vida em primeiro lugar!” segue insistindo e resistindo ao sistema de morte - dos humanos e demais viventes -, em permanente agressão monstruosa aos nossos biomas, bem como às classes populares, das quais as Mulheres constituem a maioria, quer na sociedade, quer nas Igrejas, sem que tenhamos sinais promissores de efetiva mudança tanto na sociedade quanto nas Igrejas. Tanto nos espaços societais quanto no âmbito das próprias Igrejas cristãs, o que mais constatamos é a vasta prevalência de um silêncio ensurdecedor, dando a entender ser inútil esperar mudança mais consistente da parte da hierarquia das Igrejas Cristãs - um claro convite aos diversos Movimentos de Mulheres a ensaiarem passos mais ousados de reverem seu apoio substantivo as estruturas eclesiásticas vigentes. O que seria das Igrejas Cristãs sem a participação das mulheres? Com relação mais direta ao crescimento, no Brasil e alhures, dos índices de feminicídios e de outras formas de violência contra as mulheres, não temos o direito de nos resignar, mas o dever de nos juntarmos aos diversos Movimentos de Mulheres, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, a exemplo da Marcha Mundial de Mulheres, da Marcha das Margaridas, do Movimento das Mulheres Indígenas, Movimento das Mulheres Negras, entre outros.


Outra bandeira constante do lema do Grito deste ano acena para a luta pela Terra, no campo e na cidade. Já não é possível tolerar que em um país tão extenso, apenas pouco mais de 20% das terras agrícolas estejam cuidadas por quem nelas vive e trabalha: os trabalhadores e trabalhadoras da Agricultura Familiar. Não é aceitável que cerca de 80% das Terras Agricultáveis sejam controladas por uma pequena minoria da população, detentora-mor das riquezas do Agronegócio, que envenena o subsolo, os rios, a Terra, as plantas e os animais, inclusive os seres humanos. Menos ainda aceitável por conta dos gravíssimos conflitos daí recorrentes, haja vista os registros de assassinatos e de conflitos registrados pela CPT e pelo CIMI.


Moradia constitui outro sonoro grito. Já não é possível tolerar a existência de tanta gente sem casa, em um país tão rico em terras, em minérios, em florestas, em água, etc. Conforme dados de pesquisas feitas no âmbito da UFMG, e divulgados pela Agência Brasil, lidamos com dados escandalosos: eis que mais de 365 mil pessoas estão em situação de rua no Brasil. Como não reconhecer a relevância social do trabalho daqueles e daquelas que, pelo Brasil afora, a exemplo de Pé. Júlio Lancellotti que se batem dia a dia, ao lado do povo de rua, lutando pelo reconhecimento de sua dignidade?! E o que dizer de milhares de casas e apartamentos fechados, durantes longos períodos, apenas para atenderem ao luxo de famílias ricas? De fato, o problema de moradia constitui uma de nossas tremendas chagas sociais.


A luta por soberania constante, o lema desta trigésima segunda edição do Grito dos Excluídos e Excluídas, resulta ainda mais urgente, nesta quadra dantesca de crescentes ameaças do Império Americano-Sionista à autonomia dos Povos Latino-Americanos. Não bastassem suas investidas a tantos Países Latino-americanos, eis que também o Brasil se inclui como o próximo grande alvo dos ataques imperialistas, visando à pilhagem de nossas riquezas, especialmente de nossas terras raras. Cenário ainda mais tenebroso, quando sabemos a enorme rendição dos candidatos da Direita, em cínico apoio ao projeto imperialista.


Ajudemos a ampliar a Força do Grito, de todas as formas ao nosso alcance!


João Pessoa, 07 de Setembro de 2026.

sábado, 5 de setembro de 2026

O Estado como alvo predileto de pilhagem pela Direita: a escancarada privatização de fundos públicos

O Estado como alvo predileto de pilhagem pela Direita: a escancarada privatização de fundos públicos 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Favorecida ainda mais pela ascensão das forças nazi-fascistas, em escala internacional, inclusive no Brasil, a Direita brasileira segue encontrando, no processo eleitoral, terreno fértil para a sua expansão. Os Partidos de Direita protagonizam a corrida eleitoral, com amplas vantagens pela mídia hegemônica, com uma sucessão de candidatos e partidos a divulgarem toda sorte de mentiras que, uma vez repetidas “ad nauseam”, infelizmente acabam fazendo a cabeça de parte expressiva da população. Salvo exceções, as numerosas e dispendiosas pesquisas de opinião servem para sedimentar, na maioria dos eleitores e eleitoras, as ideias distorcidas da realidade.  


A mídia hegemônica esconde, desta forma, o que fundamentalmente, está em jogo, antes, durante e depois das eleições: os inúmeros processos de pilhagem pela classe dominante das riquezas do País. Com ou sem eleições, tendem a prosperar. Nas linhas que seguem, chamaremos a atenção para alguns dos casos mais escandalosos de rapinagem pelas forças da Direita, em andamento, no País. Em seguida, ousamos sugerir alguns procedimentos de resistência e enfrentamento da classe dominante, por parte das forças de Esquerda. 


A Direita investe no Estado como seu alvo predileto de rapinagem


Têm-se tornado uma praxe a divulgação da ideologia do “Estado mínimo” como a grande aspiração das forças de Direita. Um tremendo engodo! as forças de Direita, pela contrário, não funcionam sem a pilhagem contínua dos recursos e das instâncias do Estado. O próprio Estado têm como função precípua atender graças aos seus diversos aparelhos (o aparelho executivo, o aparelho legislativo, o aparelho judiciário e o aparelho repressivo), garantir os interesses da classe dominante, ainda que fazendo concessões de pouca monta a enorme maioria da população. De tantos meios a que recorre a classe dominante, um deles tem a ver com os grandes fundos públicos controlados pelo Estado. Trata-se de polpudas reservas amealhadas sob o controle do Estado que, em tese - apenas em tese -, se destinariam ao conjunto do povo brasileiro. 

Destes fundos públicos, os fundos destinados a pensão e aposentadoria dos trabalhadores e trabalhadoras o fundo reservado aos escandalosos juros da dívida pública o Fundo Partidário (atualmente, 4,9 bilhões de reais destinados ao financiamento dos partidos com representação na câmara e no senado: eis a razão pela qual há dezenas de partidos…), o Fundo Eleitoral, por sua vez monta, sempre conforme dados oficiais, a quase 5 bilhões de reais. Sob o pretexto de evitar o financiamento empresarial comete-se a barbaridade de dotar os partidos, de maneira proporcional ao número de suas bancadas no Senado e na Câmara, de quase 10 bilhões de reais, somando-se o Fundo Partidário com representação nas casas parlamentares. Convém lembrar que, “por debaixo dos panos” - e às vezes nem tanto -, as grandes empresas nunca deixaram de financiar parte expressiva dos deputados e senadores para não falarmos também nos demais entes da Federação. E oque dizer das insultuosas emendas parlamentares cujo montante alcança em torno de 50 bilhões de reais?.


Trata-se, com efeito, de um sistema essencialmente corrupto. Surreal, neste sentido, passa a ser a corrupção um dos temas dominante da mídia comercial e dos próprios segmentos da Direita. Chega a ser inclusive a marca essencial dos grandes empresários lançarem contra as forças de Esquerda, em busca de aparentar comportamento honesto quando a própria corrupção constitui o fator mais relevante do seu enriquecimento. Não raramente, tal estratégia logra êxito junto às camadas populares, bombardeadas que são vinte e quatro horas por dia, pela televisão, pelo rádio, pelos jornais, a introjetarem essa ideologia. Assim resulta altamente vantajosa para a burguesia tal estratégia, à medida que inculcar na cabeça da maioria da população a ideia é mesmo a convicção de que é a esquerda a grande vilã dos escândalos financeiros e outros que engordam fundamentalmente a burguesia.


Pistas de resistência e de enfrentamento da Direita 


Sem desconhecer que o inacabamento constitui uma marca dos humanos - daí os vícios, inclusive a corrupção -, temos repetido, à saciedade, a essência corrupta do modo de produção capitalista, fundamentalmente sustentado pela violência, pela mentira e pelo cinismo. Para tanto, a classe dominante se empenham em esconder, aos olhos da classe trabalhadora seu infindável repertório de estratégias e táticas de ocultar sua essência de corrupção, valendo-se, para tanto, dos aparelhos de Estado (Executivo, Legislativo, Judiciário e repressivo), bem como da mídia hegemônica para ludibriar a consciência dos “de baixo”, de modo a fazê-los crer em suas mentiras corriqueiras uma as quais, a de que a corrupção é obra das forças que se opõem a sua dominação. 


Eis por que se faz necessário e urgente dotar as classes populares de instrumentos que lhes permitam a formação da consciência crítica como primeiro passo de uma resistência eficaz a tal estado de coisas. Trata-se de ajudar os “de baixo” a fazerem uma “leitura de mundo” (Paulo Freire), aprendendo e exercitando análise de conjuntura, recorrendo a fontes de informação alternativas à mídia hegemônica, de modo a perceberem as raízes mais profundas deste sistema de opressão. Tal processo formativo também implica o constante exercício da memória histórica dos oprimidos, como uma condição para fortalecer nossos compromissos cotidianos como processo de transformação social, a parte de nós mesmos. Ao mesmo tempo, somos instados a aprimorar o processo organizativo e de lutas, sempre em busca de ir superando nossos próprios limites por meio da autocrítica. 


João Pessoa, 05 de Setembro de 2026                  

                   

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A força tóxica da mídia hegemônica: em busca de alternativas

 A força tóxica da mídia hegemônica: em busca de alternativas


Alder Júlio Ferreira Calado 


Tal é o domínio exercido pela mídia hegemônica sobre o cotidiano da vida da enorme maioria da população brasileira, que se sente quase inteiramente aprisionada pelo noticiário, pelas mensagens de whatsapp, redes sociais e pelas análises da mídia hegemônica, que, não raro, temos a impressão de que o povo brasileiro se orienta quase exclusivamente pelos valores da ideologia dominante, controlada por uma dezena de famílias proprietárias de canais de televisão,  de rádios, além de serem beneficiárias-mor das redes digitais, controladas pelos proprietários das grandes plataformas. Em breve, cumprindo o conhecido dito de Marx e Engels: “Em toda sociedade de classes, a Ideologia dominante é a Ideologia da classe dominante.”


Seja em âmbito internacional, seja no plano latino-americano e brasileiro à medida que se expandem os valores da Direita, cada vez mais prisioneira de suas influências se acha a enorme maioria da população. Este é o fator externo ao qual devemos acrescentar o fator interno, isto é, o progressivo afastamento da maioria das forças de Esquerda das relações orgânicas no campo e na cidade, com os setores das classes populares fenômeno que vem se agravando à medida que a enorme maioria das forças de Esquerda passou a concentrar sua atuação política quase tão-somente no processo eleitoral, e no ritmo parlamentar de modo a abandonar na prática, seu compromisso organizativo, formativo e de lutas em busca da construção de uma nova sociedade, alternativa à barbárie capitalista . 


Nas linhas que seguem cuidamos de rememorar brevemente a relevância da mídia alternativa como instrumento de resistência ao qual recorriam às forças de Esquerda, durante a Ditadura Empresarial-Militar. Em seguida, tratamos de ilustrar o papel político pedagógico que, também hoje, cumprem diversos canais, jornais e “podcasts”, no sentido de se contraporem à mídia dominante. 


A mídia alternativa como instrumento de resistência à Ditadura Empresarial-Militar. 


Por mais terrificante e duradoura, a ditadura Empresarial-Militar encontrou resistência multiforme das forças populares, quer recorrendo a uma resistência armada, graças a dezenas de organizações, quer combatendo o regime pela via política, graças a outros tipos de resistência, tais como o teatro (aqui, cumpre destacar a enorme contribuição dada por Augusto Boal, com o seu Teatro do Oprimido), a música e a mídia alternativa a qual destacamos nestas linhas. Importa lembrar os enormes obstáculos enfrentados por essas forças de resistência, o que, no entanto, não foi suficiente para calar sua voz. Enquanto salvo poucas exceções, a chamada “grande imprensa” (Jornais, rádios, televisões) se mostravam cúmplices e colaborativas das forças da tirania, facilitando inclusive a generalização da censura, grupos de militantes políticos, de intelectuais e de estudantes encontravam um jeito de resistir por meio de “charges” e de periódicos chamados de oposição.  


Resulta oportuno rememorar pelo menos alguns dos principais jornais e outros veículos que circularam legal ou clandestinamente, durante o regime militar. Podemos citar, por exemplo, entre os clandestinos:


  • “A Voz Operária”, do PCB, enquanto o PCdoB fazia circular o seu “ A Classe Operária”;

  •  “Política Operária”, “Ação Popular” e “Libertação”, lançados pela (Polop);

  • “O Guerrilheiro”, da (ALN);

  • “Tribuna da luta Operária” (PCdoB);

  •  “O Pasquim”, periódico que começou a circular nacionalmente em 1969. Tratava-se de um veículo satírico, no qual colaboraram intelectuais progressistas, tais como Ziraldo, Millôr Fernandes, Jaguar, entre outros; 

  • Em 1972, graças a um grupo de jornalistas progressistas em oposição às crueldades da tirania vigente, passa a circular o Jornal “Opinião”, que ousava tratar de temas e questões incômodas a Ditadura Empresarial-Militar;

  • O Jornal “Movimento” também constitui mais uma pedra no caminho da Ditadura, cuja reação pode ser avaliada pelo exorbitante número de censuras á que foi submetido, ensejando inclusive enorme prejuízos econômicos ao bravo grupo de Jornalistas que mantiveram movimento por alguns anos. Conforme a Redação do Jornal, eis o balanço tenebroso imposto pela Ditadura: “6 mil artigos e ilustrações vetados, 4,5 milhões de palavras proibidas, prejuízo de milhões de cruzeiros. O objetivo do regime claramente era o de inviabilizar o jornal.”;

  • Dando conta da enorme resistência animada pela Arquidiocese de São Paulo, na figura profética de Dom Paulo Evaristo Arns e outras como o Reverendo Jaime Wright e Júlio de santa Ana, importa reconhecer o relevante papel desempenhado pelo Jornal arquidiocesano “O São Paulo”, não bastassem o relevantíssimo Projeto “Brasil nunca mais”, extensa pesquisa de cerca de 10 mil páginas, bem resumidas pelo clássico livro “Brasil nunca mais” (Vozes, 1985);

  • Jornal “Em tempo”, nascido em 1978 reunindo importantes figuras de intelectuais de esquerda, em sua maioria ligadas ao então nascente Partidos dos Trabalhadores, mais ligados a tendência “Democracia Socilaista”;   

  • Jornal “A hora do Povo”, semanário vinculado ao MR8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro).


Breves considerações acerca de alguns veículos de comunicações alternativos da atualidade  


Graças aos avanços tecnológicos, ainda que hegemonizados pelas forças de Direita, podemos contar com uma variedade de canais, “blogs” e outros instrumentos virtuais, por meio dos quais podemos acompanhar criticamente os grandes embates e dilemas que cercam nossa realidade atual seja em escala mundial, seja em ambito latino-americano e brasileiro. Aqui nos limitaremos a mencionar apenas alguns destes veículos com propósito de instigar nossa militância a acompanhar mais de perto como se dá hoje a luta de classes, dotando-nos de instrumentos de uma análise mais criteriosa de nossa realidade, capaz de nos fornecer elementos, em busca  de sua transformação. Eis alguns exemplos destes veículos da atualidade:


  • “Brasil 247”, canal progressista mais ligado à corrente petista;

  • Jornal “Brasil de Fato”, instrumento virtual ligado ao MST;

  • “Opera Mundi”, canal e “blog” de análise da realidade, em perspectiva marxista, graças principalmente à atuação de Breno Altman;

  • O PCB já há algum tempo opera no seguinte portal: https://pcb.org.br/portal2/ ; 

  • “ICL notícias” canal e “blog” progressista que conta com o excelente grupo de jornalistas críticos e competentes, atuando inclusive por meio da revista “Liberta”;

  • “Farol Brasil”, canal relativamente recente, de orientação marxista, próximo ao PCBR, com atuação principal de Mauro Lopes e Jones Manoel;

  • A UP (Unidade Popular) também conta com o seu portal: https://unidadepopular.org.br/blog/up-oficializa-candidatura-de-samara-martins-a-presidencia-com-chapa-100-feminina ;

  •  O PSTU opera em seu portal: https://www.pstu.org.br/ ; 

  • O PCO disponhe igualmente de seu espaço virtual: https://causaoperaria.org.br/ , 

  • Podcast “Fórum de Teresina“, que corresponde ao veículo político da Revista Piauí. Traz semanais análises políticas bem fundamentadas do que se passa no Brasil e no mundo;

  • Podcast “Medo e Delírio em Brasília“, veículo de crítica mordaz e bem humorada feita contra a Direita brasileira. 

  • Podcast História Preta;

  • Podcast Todo dia História Negra.


Não obstante a variedade de canais alternativos resta lamentável constatar o pequeno número de intelectuais e estudantes e mesmo de militantes que se mantêm alimentados por estas fontes, inclusive como critério de acompanhamento crítico-propositivo de nossa realidade, boa parte preferindo contentar-se com as informações e os debates promovidos pela mídia hegemônica. Tomara que estas breves considerações consigam mexer positivamente na sensibilidade militante de eventuais leitores e leitoras destas linhas 


João Pessoa, 28 de Agosto de 2026

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Continuidade da ameaça golpista: considerações críticas a partir do relato do Brigadeiro Carlos de Almeida Batista Júnior

Continuidade da ameaça golpista: considerações críticas a partir do relato do Brigadeiro Carlos de Almeida Batista Júnior 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Em setembro próximo, a Editora Autêntica estará lançando o livro “Eu disse não: uma trincheira anti-golpista”, de autoria do já citado Brigadeiro, ex-comandante da Aeronáutica. A partir de depoimentos deste e de outros oficiais das Forças Armadas, bem como de informações prévias fornecidas pela Editora Autêntica sobre o já mencionado livro, além de reflexões compartilhadas por estudiosos do tema, tomo a liberdade de avançar algumas considerações críticas sobre os iminentes riscos da continuidade golpista. Neste sentido, constitui uma aberração a insistência descabida de qualquer projeto de anistia, como estão a promover todos os candidatos da Direita. Somente a ideia deste pleito deve ser tomada como um escandaloso acinte aos mais elementares princípios democráticos. Inaceitável, com efeito, a naturalização pela mídia comercial de tal pleito. Resulta em escancarada hipocrisia o pretexto da “pacificação”. A mera propaganda do projeto de anistia representa verdadeira abominação à medida que escancara os portões a continuidade golpista.


Depoimentos de oficiais e comandantes das Forças Armadas revelam quão perto chegamos de um novo golpe militar, durante todo o Governo Bolsonaro, cuja eleição tanto se deveu ao protagonismo de numerosos grupos influentes das Forças Armadas, bem como de amplos setores das forças de segurança. Pouco ou quase nada aprendemos do histórico golpista do militarismo brasileiro desde a chamada “Proclamação da República”, ela própria instalada através de um golpe.  


Desde então, a sociedade brasileira passa a ser vítima constante de golpes e de tentativas de golpes, sem que seus responsáveis - a não ser recentemente, e ainda que de modo aquém do devido - tenham sido exemplarmente punidos. E a mera punição não alcança, com eficiência, a raiz do mal. As Forças Armadas bem como as forças de segurança seguem necessitadas de profundas e urgentes reformas, por vezes vagamente prometidas, mas nunca realizadas. Salvo exceções, desde os seus inícios, segue hegemônica a ideia de que os militares constituem os tutores da nação, razão pela qual se sentem acima dos cidadãos não fardados, à exceção da classe dominante (latifundiários, donos do agronegócio, banqueiros, e seus patrões dos Estados Unidos).


Os militares de altas patentes vivem como privilegiados, até contam com respaldo legal, uma vez que o aparato legal de sua organização não obedece às leis que regem os cidadãos comuns. Constitui um corpo à parte dispondo de toda sorte e privilégios - pelo menos, no que diz respeito às altas patentes.


Nas últimas décadas, sobretudo, vêm exorbitando crescentemente de suas funções, pretendendo impor ordens à sociedade civil sem que mesmo governos progressistas se tenham empenhado em conter seus arroubos ditatoriais. Mesmo atualmente, o Ministro da Defesa, embora tendo o dever constitucional de defender a Nação brasileira, mais se apresenta como um exímio defensor dos interesses das Forças Armadas. Algo complicadíssimo, inclusive nestes tempos de interferência aberta do Governo dos Estados Unidos na política do Brasil.


Graças à naturalização pública, especialmente pela mídia comercial e pelas redes digitais, comandadas pela Direita, a enorme maioria da população, principalmente os segmentos mais jovens, quase não esboça maior estranhamento desta situação, porque aumenta ainda mais o risco da continuidade golpista. Faz-se urgente trazer a público este debate, com vistas a reduzir o potencial golpista do militarismo brasileiro, ao mesmo tempo, urge não menos, ousar, reformar os aparelhos repressivos no Estado. Seja introduzindo profundas modificações, em sua atual organização, tanto no plano de sua formação, quanto na necessidade de romper o profundo isolamento da vida comum dos cidadãos e das cidadãs, seja ainda modificando os critérios e a ascensão profissional. As Forças Armadas e as Forças de Segurança não podem sentir-se como se fossem donas ou tutoras da Nação brasileira. Devem ficar fora do exercício político e de gestão. A gestão do país compete aos civis, não aos militares.


Neste sentido, com base em diversos especialistas em assuntos militares, cuidamos de assinalar, de modo breve, alguns aspectos a constarem de um programa de reformas nas Forças Armadas e nas demais forças integrantes do aparelho repressivo do Estado.


Um primeiro ponto tem a ver com a necessidade e urgência de se modificar o famigerado artigo 142 da Constituição, que se apresenta com uma redação ambígua, dando margem a uma interpretação segundo a qual as forças armadas podem atuar como se exercessem um tal poder moderador… Importa, sim, definir de modo claro, as funções das Forças Armadas: de zelar pela soberania nacional e pelas nossas fronteiras. Outra modificação necessária é a de destituir a Polícia Militar de sua função “auxiliar” das Forças Armadas, passando a ser subordinadas ao poder civil do Ministério de Segurança Pública. Outra alteração necessária diz respeito à formação dos quadros militares, de modo que sua organização curricular seja determinada, com exceção de sua formação exclusivamente militar, ao poder civil (no caso, ao Ministério da Segurança Pública).


Outros aspectos ainda merecem modificações, a exemplo da revisão crítica das narrativas hegemônicas sobre a História das Forças Armadas e da própria sociedade brasileira. Aí ainda prevalece um perigoso hiato entre os militares e a sociedade civil. Outro caso a merecer profunda reforma, tem a ver com a promoção para o generalato, atualmente ainda protagonizada exclusivamente pelo alto comando das forças armadas, um caminho descolado dos critérios democráticos, a exigirem a participação de representantes da sociedade civil, nessa promoção. E que tal abrir caminho para uma participação mais democrática das mulheres e dos negros, nos diversos escalões militares?


Eis um debate a merecer continuidade e aprofundamento. Nas linhas acima, apenas esboçamos alguns dos nossos desafios. 


João Pessoa, 26 de Agosto de 2026.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

José Comblin, no imediato pós Vaticano II - apontamentos a partir do seu livro “Os Sinais dos Tempos e a Evangelização” (São Paulo: Duas Cidades, 1968)

 José Comblin, no imediato pós Vaticano II - apontamentos a partir do seu livro “Os Sinais dos Tempos e a Evangelização” (São Paulo: Duas Cidades, 1968)


Alder Júlio Ferreira Calado  


Após os primeiros quatro anos de trabalho missionário, no Brasil (Campinas, 1958-1962), Comblin, atendendo a convite, vai ensinar na Universidade Católica do Chile, em Santiago. Acompanhar, com vivo interesse o que se passa no em torno do Concílio Vaticano II, ao mesmo tempo em que intensifica seus estudos e pesquisas sobre o Brasil e América Latina. Torna-se figura conhecida e apreciada, não apenas nos círculos eclesiais: mantém-se atento também ao que se passa na conjuntura chilena da época. Dado o conhecimento travado com Dom Manuel Larraín, então presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano), tornar-se-ia também conhecido de Dom Helder Câmara, feito Arcebispo de Olinda e Recife. Encerrado seu primeiro tempo de trabalho no Chile, Comblin é convidado por Dom Helder, então Secretário Geral da CNBB, a trabalhar na referida Arquidiocese, já a partir de 1965, como Diretor de Estudos do então CERENE II ( Seminário Regional Nordeste II) e, depois, ITER ( Instituto de Teologia de Recife).


Foi durante este período, que Comblin resolveu reunir textos diversos, em forma de artigos, e publicá-los em coletânea, sob o título acima indicado. Tratava de temas diversos, direta ou indiretamente atinentes àquele período pós-conciliar. Diversas questões ele levantava, sobretudo provocando Bispos, Padres e Leigos acerca da necessidade e urgência de aprofundar o conhecimento e o compromisso sobre a realidade brasileira. Para tanto, ele propunha situar o “status quaestionis” da Teologia frente à Evangelização, no contexto completo da realidade do Povo brasileiro, em sua ampla diversidade, inclusive tratando-se, não apenas de outras religiões, mas no interior do catolicismo. Não obstante a intenção renovadora do Concílio Vaticano II, e sem um conhecimento adequado das características das massas populares, não resultaria frutífera a tentativa de introduzir inovações inclusive no tocante à missão evangelizadora. 


A missão evangelizadora supõe, não apenas um conhecimento prévio das potencialidades e dos limites dos evangelizandos como também sua preparação, uma vez que “Todavia as Sagradas Escrituras não revelam os seus segredos à primeira leitura feita sem iniciação. O principiante que abre a Bíblia sem iniciação deixará de lado, sem perceber, a mensagem mais íntima e profunda.” (p.12). Neste sentido, o autor chama atenção para o risco da prática de uma Teologia que, superestimando o peso de certa tradição, acaba conferindo uma interpretação do Evangelho mas conforme as pretensões desta dita tradição do que se faz presente no texto bíblico.      


Para além da Teologia tradicional. Por exemplo, urgia conhecer o tipo e as raízes históricas do Catolicismo brasileiro. Inútil a tentativa de pretender-se aplicar as orientações constantes dos documentos do Concílio Vaticano II, sem antes conhecer diversos aspectos do Povo brasileiro: sua cultura, suas religiões, tipo de Catolicismo além de outros aspectos, como a Paróquia e seus limites e agentes pastorais. Vale assinalar, a este propósito, que no ano seguinte à publicação deste livro, teriam início as primeiras experiências da Teologia da Enxada, (1969): uma, localizada em Tacaimbó-PE, e outra em Salgado de São Félix-PB, de cujos estudos fazia parte o compromisso dos estudantes além de conviverem com as Comunidades rurais da região, anotando sistematicamente as características da cultura popular (a casa, os santos, as devoções, o trabalho, as plantas medicinais, o folclore, a música, a política, entre outras). Disto trata especificamente do livro do mesmo autor intitulado “Teologia da Enxada” (Vozes, 1977). 


sempre recorrendo a vários historiadores, antropólogos  e de outras áreas do conhecimento, propõe uma instigante tipologia do Catolicismo brasileiro. Não obstante a preocupação com os elementos culturais do povo, isto não é ainda suficiente para se tomar como evangelização. Adverte o autor: “Faltam-lhe elementos até fundamentais.” (p.15).


Criar as condições favoráveis à formação de teólogos e teólogas, do clero ou do laicato, eis o que Comblin passa a refletir. Parte da constatação de que, mais do que necessária, faz-se urgente preparar as condições para a fundação de um Centro Latino-Americano de Teologia, com o propósito de assegurar as condições necessárias de uma produção qualitativa de teologia, a partir da realidade latina-americana. Um Centro capaz de assegurar a formação sistemática de novos teólogos e teólogas latino-americanos, quer sejam do clero ou do laicado. Uma Teologia destinada a formar um quadro preparado de pesquisadores e pesquisadoras, dispostos a produzir uma Teologia aberta aos novos desafios do mundo e da Igreja. 


O autor não se limita a fazer mera crítica aos estudos da Teologia e da Filosofia, eis que ousa propor elementos fundamentais para a elaboração de um programa de estudos alternativo ao vigente. É assim que, tanto no que tange à teologia, quanto aos estudos propedêuticos, traz preciosas indicações (cf. pp. 43-44).  No capítulo IV, atinente à questão das vocações sacerdotais e religiosas Comblin inicia advertindo sobre o comportamento submisso das elites brasileiras às ordens e as práticas aqui transmitidas pelas elites euro-americanas, preferindo-as em vez de acreditar nas enormes potencialidades da população nativa. 


Sua proposta de programa tem sólida motivação e sólidas bases históricas. Com efeito, ao assinalar que o Catolicismo no Brasil não apresenta  propriamente traços da Igreja medieval, mas antes profundas marcas tridentinas combinadas com o processo de colonização - acerca do qual convém destacar a densa contribuição, que, na década seguinte, também oferece o historiador Eduardo Hoornaert (cf. o seu livro “Formação do Catolicismo Brasileiro”,  (Vozes, 1974); “O Cristianismo Moreno do Brasil” (Vozes, 1990) -, Comblin, além de listar e analisar as principais características e a evolução do Catolicismo brasileiro durante vários séculos ver (cap. ). Diferentemente da Igreja europeia Medieval - recheada  de heresias, de sublevações de movimentos pauperistos -, o processo de Colonização que orientou a evolução do catolicismo no Brasil se demarca pelas relações entre o clero em aliança com o Rei, de um lado e, por outro, por uma massa de fieis que lhes devota fiel obediência, além de ser um Catolicismo oficialmente controlado desde Roma e desde às metrópoles.


Mantendo-se sempre empenhado em abordar os atuais desafios eclesiais, e em perspectiva histórica o autor foca, no cap. VI,  as modificações que a aliança Igreja-Estado (República) operou, em relação à Paróquia. Situa os principais fatores componentes desta evolução, atribuindo também às ordens religiosas práticas diferenciadas, tanto em relação ao relativo abandono das Paróquias rurais quanto à atenção priorizada pelos Jesuítas às instituições de ensino, tal como se fazia no Catolicismo europeu do século XIX.  

A coletânea de textos produzida por Comblin, situada na segunda metade dos anos 1960 - portanto, logo após a conclusão do Concílio Vaticano II - segue tratando temas desafiantes, naquela conjuntura. O tema concernente aos Padres como parte expressiva da coletânea, entende o autor ser urgente trabalha-se uma compreensão crítica dos sacerdotes, inclusive como condição para uma “aplicação” adequada dos documentos conciliares. Trata, então, de priorizar uma abordagem pastoral do Múnus Sacerdotal sem subestimar uma abordagem teológica. O autor, mais do que uma reflexão teológico-pastoral, oferece propostas concretas como pistas de enfrentamentos práticos dos novos desafios.  


Na sequência, o autor empenha-se em vislumbrar a figura dos sacerdotes do futuro, em busca de um entendimento, a partir de uma leitura consciente dos sinais dos tempos, das características que o povo esperará encontrar nos futuros Padres. No que for essencial, a figura do sacerdote não sofrerá modificação: seguirá sendo um Ministro da palavra, dos Sacramentos e de outras atividades que lhe são próprias. Todavia, será instado a prestar mais atenção a novas demandas, a que não estava acostumado. Será chamado a conhecer melhor as pessoas em volta, de modo a conhecer melhor suas condições sociais, econômicas e psicológicas, sem o que já não mais contará com o apreço do povo de quem cuida. Daí se preparar, em tempo, para uma formação sacerdotal que atenda ao perfil adequado do Padre de amanhã. Neste sentido, Comblin reconhece a valorosa contribuição do Concílio Vaticano II - especialmente no documento especificamente dirigido aos presbíteros, a partir do qual tenta esboçar as qualidades adequadas dos futuros presbíteros. Quanto às marcas fundamentais do sacerdócio, não se vislumbra mudança. No entanto, quanto às marcas acidentais importa tomar na devida conta os traços conjunturais, componentes da pessoa do sacerdote, agora chamado a especializar sua formação, adaptando-se positivamente às novas exigências do tempo. A este respeito, em 1975, na Exortação Apostólica “Evangelii Nuntiandi” , o Papa Paulo VI advertia: “Os Homens deste tempo prestam mais atenção às testemunhas do que aos mestres. E se também prestam atenção aos mestres é porque eles são testemunhas”. (EN, n. 41 ). 


A obediência, tal qual adotada no âmbito eclesiástico, constitui outro tema enfrentado pelo autor. Parte da constatação de um crescente mal-estar inter-geracional. Os jovens Padres, por exemplo, apresentam crescente dificuldade de obedecer aos superiores enquanto estes estranham o comportamento dos jovens, afinal, a obediência foi, ao longo de séculos, a via tradicional de regulação das relações clericais. Para destrinchar as principais marcas do sentido da obediência, Comblin, além de recorrer à Cristologia, também revisita a tradição monástica e a força das leis eclesiásticas. 


No entendimento do autor, faz-se urgente avaliar, à luz também do atual contexto histórico o que indicam os sinais dos tempos, na apreciação deste fenômeno. Neste sentido, entre diferentes argumentos de que se vale, um deles tem apelo direto à Cristologia, o autor sublinha a relevância da obediência observada por Jesus diante do seu Pai, mas não diante das autoridades de seu tempo, em relação a que se mostrou bastante insubordinado, sobre o que nos remete ao Novo Testamento. “ Quase todos os livros do Novo Testamento exaltam a obediência de Jesus na vida e na Morte . O Salvador exige de seus discípulos a mesma obediência total e incondicional (...) Os autores espirituais fazem-no com certa facilidade, porque supõem que a vontade dos superiores coincide com a vontade de Deus, e até manifestam a vontade de Deus (...)Na realidade, a obediência de Jesus ao Pai é em si algo que não se identifica com uma obediência a um superior humano (...) Várias vezes na vida de Jesus aparece um conflito entre a vontade de Deus e a vontade das autoridades humanas. Jesus não se submeteu às exigências das autoridades de seu povo no que se refere a sua missão ``. (p. 158). 


No capítulo X, o autor propõe uma instigante reflexão sobre a Filosofia da História e a Salvação, cuidando de sublinhar potencialidades e limites da Filosofia da História reconhecendo inclusive sua insuficiência e seus limites para uma reta-interpretação do sentido da Salvação, ao mesmo tempo em que não deixa de reconhecer também valiosas intuições trazidas por distintas Escolas histórico-filosóficas. Ressalta, em especial, o peso exercido pela Filosofia greco-romana, ao longo da cristandade, destacando seu crescente distanciamento das fontes evangélicas. 


Tocados pelas principais conclusões do Concílio Vaticano II, os bispos brasileiros, após a elaboração provocadora de um Plano de Emergência, (1962-1965),  por meio da CNBB, cuidaram de propor seu Plano de Pastoral de conjunto, quadrienal, a ser vivenciado de 1966 a 1970. Nele, são propostas seis linhas de ação, das quais a segunda tratava da evangelização, enquanto a terceira focava a ação catequética - ambas tomadas como alvo de análise pelo autor, dadas suas afinidades. No capítulo XI, Comblin dedica-se a examinar cuidadosamente, sobretudo, a Segunda Linha. Reconhece o esforço positivo dos bispos brasileiros, de recepcionar o Concílio Vaticano II, conforme as condições do Catolicismo brasileiro, em suas potencialidades mas principalmente em suas fragilidades, devidas à complexidade histórico-social da população Católica do Brasil. O objetivo central do autor é problematizar o sentido e o alcance da formulação da Linha dois, para oque empenha-se em discutir teológica e pastoralmente os termos como vem redigida a segunda Linha. Em sua percepção, o foco da Linha dois, embora se apresente como Evangelização, caracteriza-se fundamentalmente pelo objetivo de converter ao Cristianismo, os que andam afastados da Igreja. Neste sentido, o autor entende pouco presente o núcleo da Evangelização, para além dos destinatários cristãos, de modo a tomar em conta também o processo de secularização, no Brasil e no mundo. Por tanto, a exigir atenção, não apenas aos católicos afastados, mas também aos não cristãos e aos envolvidos em outras expressões religiosas e mesmo os que não professam qualquer confissão religiosa.


Ao capítulo seguinte - o 12 - o autor dedica 30 páginas focando os desafios da Catequese. Rememorando os fundamentos da linha três do Plano Pastoral de conjunto da CNBB, Comblin cuida de refletir sobre diversos aspectos do tema, começando por assinalar a considerável distância entre os ensinamentos catequéticos oficiais e valores vivenciados pelo povo católico brasileiro, em seu dia-a-dia. Enquanto o primeiro sublinha aspectos doutrinários e teológicos, a enorme maioria dos católicos brasileiros, em seu cotidiano se mostra mais interessado nos santos, nas promessas, nas festas de padroeiros e coisas do gênero, de modo a  pouca atenção dedicar aos aspectos da Catequese oficial que lhe é ensinada, considerada mais abstrata, baseada em conceitos e dogmas. O autor sugere a utilização de uma metodologia mais adequada para o ensinamento do núcleo da fé cristã, com ênfase no conhecimento das pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo (este parecendo menos conhecido do que os Santos), além do sentido e da prática das grandes virtudes cristãs - a Fé, a Esperança e o Amor. 


No capítulo XIII, o autor enfrenta o desafio de compreender melhor diferentes facetas do Catolicismo brasileiro, enfatizando suas influências recebidas do Catolicismo europeu, bem como outras formas de sua vivência encarnadas por seu povo de modo a destacar suas diferenças. 


O autor conclui a coletânea, com o capítulo XIV, discorrendo ainda sobre a multiplicidade de vivências da Fé, no âmbito do Catolicismo popular brasileiro. Amplamente fundamentado em diversos Antropólogos brasileiros, Comblin começa por destacar a profunda relação do Catolicismo popular com as religiões de matriz africana, sublinhando as adaptações feitas pela população afro-descendentes, de modo a conviver costumeiramente com este sincretismo religioso. Também assim procede o autor, ao refletir sobre a vertente indígena do mesmo catolicismo. Ele ainda aponta outras expressões do Catolicismo brasieliro a exemplo do Catolicismo sertanejo e do Catolicismo praticado pela classe média brasileira. A inquietação central do autor é a de contribuir no sentido de que os agentes de Pastoral tomem em consideração prévia tais dados da realidade, antes de se dedicarem a aplicação das Linhas propostas pelo plano pastoral de Conjunto e, antes disto para trabalharem, de modo fiel, o processo de Evangelização. 


Relevância e atualidade de um “apreciador de urgências”


Em 2003, ao celebrar seus 80 anos, dentre tantas homenagens, Comblin foi contemplado com um poema certeiro, da lavra de Irmã Agostinha Vieira de Melo, intitulado “Apresador de Urgências”, que vale a pena revisitar (cf. “A Esperança dos Pobres Vive”. São Paulo: Paulus, 2003, pp. 213-214). Eis uma marca forte da trajetória deste exímio teólogo. Já em meados dos anos 1960, quando da publicação desta coletânea de textos produzidos por Comblin podemos observar a relevância e a atualidade importantes deste autor a exemplo de outras figuras luminares, José Comblin continua despertando o mesmo interesse, em nossos dias, bem como em séculos vindouros.


João Pessoa, 19 de Agosto de 2026               




                         


  


  


  


 


    

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O Bagaço da Cana vem da Direita. Superá-la está ao nosso alcance


O Bagaço da Cana vem da Direita

Superá-la está ao nosso alcance


Alder júlio Ferreira Calado


O bagaço da cana é quem trabalha 

Amargando uma vida infeliz 

produzindo as riquezas do País 

Mas vivendo na ponta da navalha

E o terror sem saber como se atalha 

Aos tiranos do mundo se coroa 

Hoje imperam, sem trava, “numa boa”

E o Estado os protege, em demasia 

Delegado que é da burguesia 

Eis porque seu poder se estende a atoa.

 

No quesito moral, há crimes vários

Cometidos à Esquerda e à Direita 

Não importa quem seja, não se aceita

segue imensa a gula por denário 

Neste mundo, têm mais vez os salafrários

Diferenças sentindo nestas “seitas”

Ser mais críticos convém-nos, desta feita

Os valores roubados são imensos 

Rouba mais a Direita - é consenso 

A Direita amealha mais “receita”.


Nossa terra tanto mais, em agonia 

Os eventos extremos são mais frequentes 

No Brasil e no mundo, penam as gentes 

A extrema Direita mais se alia 

De valores humanos está vazia 

Crescem as vítimas da ação da “besta-fera”

Arrastando consigo ovelhas meras 

Eis um traço distópico, destrutivo:

Aos tiranos submete-se o cativo 

Estranhíssimos sinais - os são deverás.   


A Direita só dos ricos cuida bem 

Haja vista os escândalos financeiros   

Que sofremos de Janero a Janeiro 

Sejam  Master, Emendas e coisa além

Vigorosa denúncia nos convém 

Merecer boa análise nos parece

Contra os crimes, só combate, e menos prece

Os autores, quem são, importam menos

Passar pano em culpado: beber veneno…

Faz escuro, mas um dia amanhece…


João Pessoa 07 de Agosto de 2026