50 anos de buscas e achados, no caminho da Diaconia
Alder Júlio Ferreira Calado
Esse texto se achava praticamente concluído — mas ainda não postado —, há 1 mês atrás, quando tive que adiar a postagem para priorizar o enfrentamento dos graves riscos corridos pela sociedade brasileira, em face do trágico resultado do primeiro turno eleitoral, razão por que, ao longo da campanha do segundo turno, optei por elaborar e postar, a cada dois dias, um texto, tendo ao final conseguido postar 12 textos. Afastado o risco da vitória bolsonarista, posso agora retomar e postar o texto comemorativo dos meus 50 anos de vida diaconal.
No dia 26 de setembro de 2026 próximo passado, tive a graça de completar 50 anos de vida diaconal. Especialmente agradecido ao Deus de Jesus de Nazaré e às irmãs e irmãos da Caminhada, sinto-me profundamente impactado pelo exercício da memória (pessoal e coletiva) das buscas, do aprendizado e dos achados, durante essas cinco décadas. Acerca do sentido da Diaconia, retenho alguns significados especiais. Aquele do qual me sinto especialmente alimentado, em minha espiritualidade reino-cêntrica, é o que tem a ver com a vivência de uma práxis existencial cósmico-planetário-humanizante. Antes de proceder de um rito sacramental — o da Ordem —, pervade toda a existência de mulheres e homens vocacionados a testemunharem o Amor a toda a ancestralidade cósmico-planetária, em comunhão com os humanos e os demais viventes, em forma de serviço.
A grande força motriz deste processo é a Divina Ruah, o Espírito de Jesus Ressuscitado, e seu Movimento, a inspirar toda a humanidade e os demais viventes, rumo a uma vida plena. Rememorando com atenção os principais traços do projeto de Jesus e de seu Movimento, sentimo-nos mais fortalecidos a perceber e a seguir o que Jesus de Nazaré hoje nos revela e inspira, pela Divina Ruah, a nos comprometer mais e mais com a causa libertadora dos oprimidos. Quem são, para nós, os oprimidos de hoje? Em primeiro lugar, nos impactam as dores da Mãe-Terra, enormemente agredida pelos humanos, especialmente pelos grandes responsáveis pelo modo de produção capitalista. Chegamos a uma situação limite em que, a despeito dos que ousam atentar para o aviso de “incêndio” — para usar a expressão cunhada por Walter Benjamin —, (cf. Michael Löwy) em seu livro Walter Benjamin, aviso de incêndio: uma leitura de teses sobre o conceito da história (Boitempo, 2005), os diversos componentes da classe dominante, em escala internacional e nacional, não cessam de manter e até de agravar os fatores degradantes de vida no Planeta.
Dentre os humanos, as mulheres constituem a maioria dos oprimidos. Sem olvidarmos tantos outros segmentos oprimidos — os Povos Originários, os negros, os camponeses, os operários, os periféricos, os migrantes forçados, os sem-teto, as vítimas de homofobia, as pessoas com deficiência, os idosos, as crianças, entre outras —, importa lembrar que as mulheres assumem, quase sempre, os primeiros lugares entre as vítimas de homicídios, de múltiplas formas de violência, entre os desempregados, os que recebem menores salários, os que são excluídos da tomada de decisões nas Igrejas, nas principais instituições da sociedade e entre os que amargam, em seu dia a dia, uma tríplice jornada de trabalho.
Jesus de Nazaré e seu Movimento (desde as primeiras comunidades cristãs), a partir de seus gestos, palavras e sinais, constituem a grande fonte da Diaconia do Reino de Deus. Isto resulta claro em múltiplas situações narradas pelos Evangelhos e demais textos do Segundo Testamento, inclusive no conhecido episódio no templo, quando lhe foram entregues os escritos do profeta Isaías, onde se lê: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos, e restauração da vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4,18-19). A Diaconia em Jesus se faz igualmente presente por ocasião do episódio da última Ceia, quando, cingindo-se a cintura com uma toalha, passa a lavar os pés dos seus discípulos, ensinando-lhes a fazer o mesmo, isto é, a servir; afinal, “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos” (cf., respectivamente, Jo 13,12-14 e Mt 20,28).
No que toca às Igrejas cristãs, infelizmente, através de séculos, isto se tem cumprido raramente, sobretudo a partir da era constantiniana. A despeito de uma longa sequência de testemunhas proféticas, a denunciarem os graves desvios da hierarquia distanciando-se dos ensinamentos de Jesus e de seu Movimento, tem prevalecido uma profunda escassez de profecia em nossas Igrejas. Nesses graves e recentes desvios da hierarquia em relação à Tradição de Jesus, talvez o mais grave e duradouro continua sendo seu “pecado estrutural” (Elisabeth Schüssler Fiorenza) de exclusão das mulheres como sujeitos eclesiais, em conjunto com os homens (o clero). Estendem-se por séculos os clamores femininos contra tal injustiça, sem que, passados tantos séculos, quase nada se tenha tenso avançado — ou sem que quase nada se tenha avançado — acerca deste item; e aqui não se trata apenas de sua exclusão do sacramento da ordem, a despeito de que, nos escritos neotestamentários (a exemplo de Rm 16,1-2), se acham referências à atuação de diaconisas.
Os clamores das mulheres vão muito além: requerem a condição de partícipes, ao lado dos homens, das decisões relativas à organização da Igreja, à sua participação em todos os ministérios, em condição de igualdade, bem como na sua atuação e definição doutrinal, litúrgica, no exercício da teologia e da tarefa de ensinar, tal como já se passa com o clero masculino. Importa ressaltar que, tal como na esfera eclesial, as mulheres lutam por direitos iguais também na esfera societal.
Ao longo destas décadas, vivenciei momentos mais fortes de experiência diaconal, dos quais me permito rememorar alguns deles. Antes e depois de minha ordenação diaconal, destaco minha convivência com diversos grupos do Bairro São Geraldo, em Arcoverde, com os quais tive a alegria de participar do projeto de construção de casas populares, construídas em mutirão, com a ajuda de uma entidade belga (“Entraides et Fraternité”). Foi uma experiência marcante e de muito aprendizado, da qual também fizeram parte vários jovens integrantes da Pastoral da Juventude de Meio Popular (PJMP). Com diversos destes integrantes — mulheres e homens —, ainda hoje mantenho vivos contatos, graças aos encontros virtuais que já há 6 anos mantemos às segundas-feiras, a título de um grupo de formação permanente intitulado “Direitos Iguais”, em que já tivemos a oportunidade de ler mais de 10 livros, versando sobre diferentes temáticas, desde a conjuntura política, passando pela história, pelo Movimento de Jesus, pela Teologia da Libertação, entre outros. Atualmente, nos encontramos na metade da leitura do livro As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Além dos encontros virtuais mantidos com este grupo, também participamos, com outros grupos, de encontros semanais sobre a realidade social e a Teologia da Libertação, às quartas e sextas-feiras.
Desde a década de 1980 até hoje, sigo participando de diversas experiências promovidas pelos protagonistas da Teologia da Enxada, em especial na Escola de Formação Missionária, atualmente funcionando no Alto do Mateus, em João Pessoa, bem como do curso de formação permanente mantido pela CPT, no Centro de Formação Pe. José Comblin, em Café do Vento (Sobrado - PB). Outra atividade que continua sendo muito frutuosa em minha experiência diaconal tem sido a combinação diária de momentos fortes de oração (em torno de 40/50 minutos) com o acompanhamento diuturno da realidade internacional, latino-americana e brasileira, sempre com o compromisso de compartilhar minhas buscas e meus achados por meio do blog de textos aldercalado.blogspot.com. A perda de visão não tem afetado minha condição de leitor voraz, nem a de meus escritos diários, graças à generosa ajuda que me têm prestado familiares (Eliana, Luciana, Eloíse, Gabriel, Eleonora, Ágda, Antônio Souza) e amigos e amigas, a exemplo de Elizabete Santos e Aparecida Paes Barreto, entre outras. Ainda tenho a remarcar, neste processo, a enorme satisfação de participar, há 28 anos, das reuniões de estudo do Grupo Kairós, todas as quintas-feiras, em que nos dedicamos à leitura dos livros de José Comblin e de outros teólogos e teólogas da libertação. No momento, após havermos concluído o livro Discipulados de Iguais, de Elisabeth Schüssler Fiorenza, já nos encontramos na metade de outro livro desta autora: Caminhos da Sabedoria: Uma Introdução à Interpretação Bíblica Feminista. Além de Comblin, do qual já lemos cerca de 30 livros, também estudamos livros de autoria de Eduardo Hoornaert, de Gustavo Gutiérrez, Ivone Gebara, Hans Küng, de Leonardo Boff, Frei Betto e José Antônio Pagola, entre outros.
Mais um grupo de que tenho participado de forma presencial a cada mês é o “Caminhos da Liberdade”, composto por uma dúzia de integrantes da Comunidade do Mutirão, em Bayeux, já há 4 anos. No mais, além de participar dos encontros das CEBs na Diocese de Pesqueira, e de atender a frequentes convites acadêmicos (Grupo Estelar da UFPB, do Centro Paulo Freire e da Cátedra Paulo Freire, ambos da UFPE), também participo de encontros virtuais às segundas, quartas e sextas-feiras, onde lemos e refletimos sobre livros da Teologia da Libertação.
Eis um breve apanhado do que tenho buscado ao longo desses 50 anos. No mais, tenho que pedir dando graças à Divina Ruah por me manter ativo no horizonte da diaconia; ao mesmo tempo, expresso meus agradecimentos a tanta gente pelas orações por mim, bem como pelas mensagens afetivas que recebi de tanta gente querida.
João Pessoa, 26 de outubro de 2026.