Subsídios para o primeiro encontro da Escola de Formação Missionária de João Pessoa, em sua retomada
Como temos compartilhado, a Escola de Formação Missionária de João Pessoa, antes com sede em Santa Fé, Solânea-PB, cujas atividades foram encerradas em 2025, está sendo retomada, a partir do final de junho/primeira semana de julho de 2026, no Alto do Mateus, em João Pessoa, graças ao acordo firmado com a Comunidade Padre Mazza. Neste sentido, já fizemos circular um “folder”, elaborado por uma Equipe animada por Claudemir Silva e Ulisses, do qual provavelmente todos tomaram conhecimento.
Dentre as diversas tarefas suscitadas por esta retomada, figura o compromisso de compartilharmos alguns subsídios a serem trabalhados por ocasião da retomada de nossa escola.
Começamos por explicitar nosso jeito de trabalhar os diferentes temas propostos por nossa escola como ficam patentes, inclusive no “Folder”, estaremos a priorizar temas que se nos afiguram de impactante atualidade, tais como:
O dilema socioambiental;
A urgência com os cuidados com a Mãe Terra, inclusive pela via da Agroecologia, do Ecossocialismo e do Bem-Viver
A emergência do desafio das relações sociais de gênero;
O impacto das novas tecnologias e das Big-Techs, inclusive do uso da Inteligência Artificial;
O tratamento adequado das relações étnico-raciais e geracionais;
As ambiguidades atuais das relações com o Sagrado.
Como trabalhar nossa Escola de Formação Missionária?
Com base em diversas reflexões comunitárias acerca da retomada de nossa Escola, ousamos ensaiar novos passos, quanto à forma de abordar os conteúdos de nossos componentes curriculares: em vez de lidarmos com “disciplinas”, decidimos trabalhar os vários temas, mutuamente conectados, a partir de um deles. Para tanto, torna-se desejável que a equipe de formadores e formadoras trabalhe em conjunto. Escolhe-se qualquer um dos temas e, a partir dele, trataremos de observar as múltiplas conexões com os demais temas.
Por exemplo, podemos iniciar com um tema profundamente desafiante como é a questão do feminicídio e das múltiplas formas de violências praticadas contra as mulheres (físicas, psicológicas, morais etc.). Com a contribuição de um membro da Equipe, o tema é apresentado (sob diferentes perspectivas, dados estatísticos, evolução do problema, situação atual no Brasil e no mundo, formas de resistência). Quem estiver lidando mais diretamente com este tema, tem a missão de motivar a participação de todos nesse debate, até porque se trata do desafio mais urgente a ser enfrentado, haja vista os escandalosos índices de feminicídio no Brasil - chegando a 4 assassinatos de mulheres POR DIA, além das variadas formas de violência de que as mulheres têm sido vítimas. A este respeito, há notícias dando conta de que hoje 187 casos de violências contra as mulheres acontecem por dia.
Após essa motivação embasada em dados estatísticos, vale a pena abordar esta problemática, em perspectiva histórico-cultural na formação da sociedade brasileira, recorrendo a primorosas contribuições de várias historiadoras, Filosóficas, Antropólogas, sociológicas, brasileiras, a exemplo de Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo, Marilena Chaui, entre outras. A este respeito, recomendamos a leitura conjunta de artigos produzidos por estas intelectuais brasileiras. Após cada leitura, vale provocar cada participante a relatar por escrito suas experiências e seu aprendizado acerca do tema.
Em seguida (pode até ser no segundo ou terceiro dia), é a vez da intervenção dos demais formadores e formadoras, a partir do ponto de vista de sua respectiva especialidade (Bíblia, Teologia Feminista, Eco-Feminismo, desafios sócio-Ambientais, Eco-Socialismo, Relações étnico-raciais, Novas tecnologias e outras).
Na abordagem do tema bíblico, por exemplo, recorrendo a excelentes livros e vídeos produzidos, inclusive, pelo CEBI e pelo Instituto Humanitas (IH) que se pode refletir sobre os profundos estragos provocados por uma compreensão fudamentalista da Bíblia por conta de uma leitura não contextualizada dos escritos tanto do Primeiro quanto do Segundo Testamentos. Podem ser escolhidas diversas passagens bíblicas impregnadas de profunda carga patriarcalista que, bem examinadas à luz das práticas e dos ensinamentos de Jesus de Nazaré e seu Movimento, podem ser facilmente desmontadas em favor do reconhecimento do verdadeiro lugar das Mulheres.
Quem dentre os integrantes da Equipe de Formação trabalhar a dimensão étnico-racial, por sua vez, terá oportunidade de sublinhar fatos e acontecimentos dando conta das relações opressivas de que são vítimas as mulheres, em seu dia-a-dia, seja pelo fato de serem Afro-descendentes seja pelo fato de serem Indígenas. Todas estas, quando comparadas aos homens também vítimas de descriminação, apresentam um grau ainda maior como vítimas das relações sociais vigentes. Basta que comparemos a quantidade de homens e de mulheres vítimas, por exemplo, do desemprego, dos baixos salários, da sub-representação no Executivo, no Parlamento, no Judiciário, nas lideranças empresariais, nas Forças Armadas e em outros tantos postos de lideranças, inclusive nos movimentos sociais.
A outro Formador ou Formadora mais diretamente empenhado/empenhada na compreensão do que se passa com as novas gerações - tão freneticamente aficionadas as redes digitais - caberá a tarefa de mostrar e de refletir sobre as conexões entre as relações sociais de gênero e as atitudes predominantes das novas gerações tanto em suas potencialidades, quanto em seus limites. Trata - se de provocar os participantes/as participantes acerca de suas próprias atitudes e relações com as redes digitais, inclusive no tocante às relações sociais de gênero: como lidam com as redes digitais? O que elas aprendem sobre as relações sociais de gênero? Quais as fontes de informação que costumam acompanhar diariamente? Que leituras têm feito - e quais autores e autoras têm lido? A partir de sua vivência de cada dia, que experiências podem relatar, especialmente as mulheres, sobre as diversas formas de violência que observam ou das quais eventualmente se sentem vítimas? Que atitudes assumem, em casos concretos? Que aspectos positivos encontro, nas redes digitais, sobre as relações cotidianas entre mulheres e homens? Que aspectos negativos lhes parecem mais frequentes? Que diferenças percebem entre o comportamento das pessoas mais velhas e dos filhos e filhas mais novos?
Há ainda outros aspectos a serem explorados neste exercício de interconexões. É o caso, por exemplo, das relações de espacialidade, decorrentes do fato de quem vive no Nordeste e de quem é de outra região ou país; de quem vive no campo ou na cidade (e aqui, entre quem vive nas periferias áreas consideradas “nobres”); de quem vive na Caatinga ou na Zona da Mata; e assim por diante. Cada território imprime em seus viventes marcas específicas, que precisam ser tomadas em conta, para um aprendizado comum e maior respeito na convivência.
Enfocando agora, mais diretamente, as conexões entre as diversas formas de violência praticadas contra as mulheres, de um lado, e, por outro lado, as formas de organização capitalista, que experiências concretas podem ser compartilhadas, de modo a exemplificar como o sistema capitalista, seja pelo Mercado, seja pelo Estado, condiciona ou até determinar as práticas violentas diariamente cometidas contra as mulheres (e também contra os pobres, os pretos, os periféricos além de contra os demais seres do Planeta)?
Um outro enfoque pode ser suscitado por mais um Formador ou Formadora: O que o cuidado com a Mãe-Terra tem a nos oferecer, no que se refere ao tratamento respeitoso das mulheres e dos demais viventes? Em suas experiências na lida agro-ecológica lhe tem ensinado a este respeito?
Um aspecto que também se apresenta, na exposição e discussão de cada tema, é o de buscar conectar dinamicamente as dimensões das relações sociais de gênero, de etnia e de classe, como o faz, por exemplo, Elisabeth Schussler Fiorenza, em sua relevante obra “Discipulado de Iguais: Ekklesias de Mulheres” (Por uma Teologia Feminista Crítica da Libertação). Buscando analisar criticamente os profundos danos causados pelo patriarcalismo, pelo racismo e pelo Capitalismo, a autora apresenta proféticas denúncias contra o clericalismo, a organização hierárquica das Igrejas Cristãs, bem como das sociedades de classe, como a nossa.
No que se refere aos estudos de obras desta autora, recomendamos iniciar por um texto seu (de cerca de 13 páginas) disponível na internet em forma de PDF, sobre o qual já tivemos oportunidade de comentar, em nosso blog textosdealdercalado.blogspot.com.
Outro aspecto constitutivo de nossa formação, como humanos e como cristãos, nos remete ao exercício contínuo da memória histórica dos oprimidos, inclusive da caminhada recente e menos recente de nossa ação missionária, especialmente no Nordeste. Com efeito, desde o Concílio Vaticano II (1962 - 1965), e sobretudo desde o Pacto das Catacumbas (1965) e mais diretamente desde a II Conferência Episcopal Latino Americana de Medellín (1968), uma intensa e crescente ação missionária junto aos pobres teve lugar também entre nós, graças aos trabalhos conjugados das CEBs das PCIs, do CIMI, da CPT, da CPO e de outras Pastorais Sociais e serviços eclesiais (Comissão Justiça e Paz, CDDH, etc.). É vasto e profundo o legado destas experiências, a merecer nossa constante atenção e compromisso. A título de ilustração didática limitamo - nos a oferecer dois exemplos de materiais que muito nos ajudam, nesta rememoração:
Os livros e os relatos elaborados por Frei Roberto Eufrásio de Oliveira, e os textos que relatam, no caso da Paraíba, fecundas experiências pastorais a exemplo da que ficou conhecida como “Igreja Viva”, relatada em livro de autoria do Pe. Gabriele Giacomelli, entre diversos outros.
Ao mesmo tempo, cumpre lembrar a disponibilidade de vasta literatura, inclusive da autoria de José Comblin e de diversas pessoas integrantes da Equipe de Formação das Escolas de Formação Missionária do Nordeste e de outras regiões. Entre autores e autoras componente da Equipe de Formação de nossas Escolas lembramos e recomendamos os textos elaborados por Frei Roberto Eufrásio de Oliveira, João Batista Magalhães, Mônica Muggler (especialmente seu livro “José Comblin, uma vida guiada pelo Espírito”) Glaudemir Silva, Luis Barros, bem como de várias outras pessoas, inclusive estudantes de nossas Escolas. A serem estudados oportunamente, conforme o tema tratado. Ainda sobre este ponto, importa lembrar a qualidade dos textos produzidos no “site” teologianordeste.net onde encontramos preciosos artigos de diversos autores e autoras dentre os quais: Eduardo Hoornaert, Ivone Gebara, Juliana Henrique, Pe. Hermínio Canova e diversos outros.
Vale, por fim, uma palavra sobre a necessidade de garantir a continuidade do processo formativo, para além dos encontros ou dos módulos específicos por meio de tarefas e estudos a serem feitos durante os períodos entre um módulo e outro. Com efeito, precisamos do interesse e o compromisso de aprofundarmos os conteúdos trabalhados, durante os encontros presenciais e virtuais. Para tanto convém que Formador/Formadora, ao final de cada módulo, proponha um programa de estudos e de tarefas sobre o aprofundamento de cada conteúdo trabalhado em cada módulo.
Cabe a cada Formador/Formadora propor as formas de trabalhos e de estudos a serem vivenciados pela turma, durante os meses de intervalo entre um módulo e outro. Por exemplo, determinado Formador/Formadora pode umas dez questões a serem trabalhadas, por cada participante ou em pequenos grupos, acerca de determinado tema tratado durante cada módulo. Pode, ainda, por exemplo, propor um tema desafiante a ser desenvolvido pelos participantes, seja de forma individual ou em pequenos grupos.
Eis apenas um primeiro texto, elaborado a título de subsídio, com o propósito de ajudar os/as participantes nos estudos de nossa Escola de Formação Missionária de João Pessoa. Outros virão.
João Pessoa, 03 de Fevereiro de 2026.