quarta-feira, 27 de maio de 2026

José Comblin na origem da Teologia da Libertação: breves considerações

José Comblin na origem da Teologia da Libertação: breves considerações


Alder Júlio Ferreira Calado 


Não é a primeira vez - nem será a última - que buscamos compreender melhor as origens da Teologia da Libertação (TdL), e nelas o lugar do Teólogo José Comblin. Cada vez que revisitamos e descobrimos novas fontes, surge a necessidade de rever ou aprimorar a compreensão de como brota e se consolida a TdL. Nas linhas que seguem, ao descobrirmos novas fontes, cuidamos de revisitar a temática, com o propósito de incorporar novos elementos, em busca de uma melhor compreensão da gênese da TdL e, mais especificamente, do lugar de José Comblin neste processo. 


Tratamos de revisitar esta temática, iniciando com uma breve rememoração do que aqui se entende por Teologia da Libertação. Em seguida, cuidamos de aspectos fundamentais do contexto sócio histórico e eclesial dos anos 50 e 60. Por fim, buscamos entender melhor a participação de José Comblin, desde os primeiros passos de elaboração da TdL. 


Breves considerações sobre o que entendemos por Teologia da Libertação 


Começamos por assinalar o que não entendemos como Teologia da Libertação (TdL). Não se trata de uma moda, de uma mera corrente de produção teológica, entre tantas. A TdL finca suas raízes mais fundas na grande Tradição do Movimento de Jesus de Nazaré que, por sua vez, como o Enviado do Pai também bebe nas fontes libertadoras do Êxodo (cf., por exemplo Ex 3, 9 - 10 “Eis que o clamor dos filhos de Israel chegou a mim e também tenho visto a opressão com que os egípcios os oprimem. Vem agora, pois, e eu te enviarei a faraó, para que tires o meu povo, os filhos de Israel, do Egito”), e na tradição dos grandes profetas de Israel, como diversos teólogos o rememoram a exemplo do próprio José Comblin, em seu livro “A Profecia na Igreja” (São Paulo, Paulus, 2008). 


O movimento de Jesus, seguido pelas primeiras Comunidades cristãs, testemunha abundantemente o anúncio e as práticas de um Jesus profundamente comprometido com valores tais como: o Amor, a Justiça, a Misericórdia, a partilha, a compassividade, a libertação de toda sorte de escravidão (cf. Lc 4, 15-19). No séculos seguintes, a despeito de graves desvios da hierarquia da Igreja, nunca faltaram Movimentos Populares de Libertação, conhecidos, na Idade Média, como Movimentos Pauperísticos (os Patarinos, e Valdenses, os Cátaros, os Albigenses, os Apostólicos, as Beguinas, os Begardos, os Hussitas e outros) a denunciarem os graves desvios da hierarquia e a clamarem pelo retorno às origens da Tradição de Jesus.


De modo similar, com maior ou menor intensidade, isto também se dá nos séculos vindouros. A TdL, por tanto, (re)surge em linha continuação à Tradição de Jesus, não se tratando de uma corrente da moda…      


Teologia da Libertação: primeiros passos


Diante da estúpida reação do crescente fundamentalismo religioso, no Brasil e na América Latina, a tudo que diga respeito a temas como “Igreja dos Pobres” “Igreja na Base”, Concílio Vaticano II, Medellín, CEBs, e similares, resta compreensível o ódio destilado pelas Igrejas fundamentalistas contra a Teologia da Libertação, que condenam sem qualquer conhecimento ou argumento razoável sobre a mesma, limitando-se, de modo agressivo, a tomá-la como simples coisa do Diabo. Ao mesmo tempo, convém refutar certa compreensão simplista da TdL, entendendo-a como uma espécie de moda na produção Teológica. Aqui se trataria de uma corrente teológica tal como outras, sem entendê-la como um profundo apelo à refontalização, às raízes do Movimento de Jesus.


Eis por que convém rememorar brevemente os primeiros passos desta retomada da Teologia da Libertação, desde os anos 1960. Ainda nos anos 1940, havia surgido, na França, a experiência dos Padres Operários, como expressão mais forte do compromisso de evangelização da classe trabalhadora, que se estenderia pela Bélgica e pela Itália e, já nos anos 1960, também pelo Brasil. Ao mesmo tempo, a chamada Ação Católica Especializada (JAC, JEC, JIC, JOC e JUC) ganharia força crescente também no Brasil. Por outro lado, diversos teólogos desempenharam um papel relevante na reflexão teológica de compromisso com a causa libertadora dos pobres e a disposição de diálogo com o mundo moderno, a exemplo do que fizeram Yves Congar, (1904-1995), Emanuel de Lubac (1886-1991), Karl Rahner (1904- 1984).  


Importa lembrar que mesmo lidando com termos distintos (“Teologia da Revolução”, “Teologia da Esperança” e semelhantes), diversos teólogos protestantes e católicos já empregavam o termo “Libertação” ou “Salvação”, acentuando seus profundos laços semânticos. Neste sentido, nunca é demais reconhecer as valiosas contribuições a TdL vindas de diversas figuras de diferentes Igrejas protestantes (Presbiteriana, Metodista, entre outras), tais como Richard Shaull, Rubem Alves, Waldo César, Joaquim Beato, Jether Ramalho, mais tarde também Julio de Santa Ana, entre outros. Com efeito, sob o influxo de diversas experiências de vários movimentos latino-americanos, a exemplo de ISAL (Iglesia y Sociedad e sua Revista Cristianismo y Sociedad) dos anos 50 e 60, e sob a influência do Concílio Vaticano II, diversos teólogos latino-americanos, inclusive sob o patrocínio do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), iniciativas de incentivo a uma reflexão mais comprometida com os desafios sociais, políticos, econômicos e eclesiais da América Latina. Foram promovidas pelo CELAM, sob a presidência de Dom Manuel Larraín, Bispo de Talca, figura solícita às demandas dos pobres da América-Latina, o CELAM, à luz dos Documentos do Concílio Vaticano II, cuidou de promover, ora em Petrópolis (Rio de Janeiro), ora em Bogotá, ora no México, encontros com diversos teólogos comprometidos com as cousas libertadoras dos oprimidos. Nestes Encontros, o CELAM propunha diversos objetivos, como recorda Roberto Oliveros, “Ocasião para que um grupo de teólogos sul-americanos (se inclui o México) se conheçam melhor e intercambiem suas ideias. 2. Despertar através deste grupo nas diversas Faculdades, Professores de Teologia, etc..., uma atitude de interesse ativo, abrindo horizontes e definindo assuntos de pesquisa, de interesse latinoamericano. A idéia é que este encontro possa ser o ponto de partida de um trabalho de investigação teológica da problemática da Igreja latinoamericana. 3 Fazer um projeto de temas, pessoas a convidar e etc, de um provável curso de 20 ou 30 dias, em Julho de 1964, para professores de teologia latino-americanos, a cargo de três ou quatro dos grandes mestres europeus. Eleger alguns temas – é a sugestão de vários bispos do CELAM – de possíveis cartas pastorais do episcopado latinoamericano” (OLIVEROS, Roberto. Liberación y Teología).


Vale lembrar que tal iniciativa do CELAM se deu ainda em 1964, atinente ao Encontro em Petrópolis, o que atesta o compromisso profético daquela geração de Bispos, entre os quais Dom Manuel Larraín (Bispo de Talca, Chile) e Dom Helder Câmara. Note-se que, entre os teólogos convidados e participantes desses encontros, José Comblin era uma dos mais assíduos. Este Encontro apenas inaugurava uma sucessão de outros Encontros, com ou sem o protagonismo do CELAM, nos anos seguintes: Cuernavaca (México, 1965), Santiago (Chile, 1966), Montevidéu (Uruguai, 1967) e diversos outros realizados após a Conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín (Colômbia, 1968), em El Escorial (Espanha, 1972), no México, 1975, e, em seguida, importa sublinhar o impulso extraordinário da Teologia da Libertação, em escala intercontinental: na Tanzânia, em Agosto de 1976; em Gana, 1977; em Srilanka 1979 e em São Paulo (Brasil, 1980). No Encontro realizado em El Escorial, na Espanha, José Comblin foi dos primeiros a trazer sua reflexão, como bom estudioso da realidade brasileira e latino-americana, conforme podemos apreender pelos registros integrais das conferências e debates, em “Fé Cristã e Transformação Social na América Latina: Encontro de El Escorial, 1972”.


Vale também sublinhar o caráter ecumênico dos encontros intercontinentais, acompanhados atentamente também por José Comblin. Um de seus escritos - aparecido na Revista Mensaje, do Chile, faz uma avaliação do grande Encontro ecumênico de teólogos e teólogas da Libertação, realizado em São Paulo, em 1980.


Incentivado por Dom Severino Mariano de Aguiar, Bispo de Pesqueira-PE, um dos signatários do profético Manifesto publicado em 1973, contra a Ditadura empresarial militar, intitulado “Eu ouvi os clamores do meu povo”, tive a oportunidade de ler pela revista “Informations Catholique Internationale”, relevantes autores e reportagens acerca do que eram esses encontros internacionais de Teólogos latino-americano, a exemplo do que foi realizado em Cuernavaca (México, 1965). Lembremo-nos de que, antes do Encontro de Cuernavaca (México, 1965), já havia acontecido, em Petrópolis (Rio de Janeiro), em Março de 1964, do qual participaram diversos teólogos, inclusive José Comblin, vindos de diferentes países da América Latina; e também de que, após estes dois primeiros, outros tantos seguiram acontecendo. 


Eis os momentos-chave que revelam os principais passos relativos às origens da TdL, graças aos quais este modo de teologizar passou a ganhar força, em âmbito internacional. Uma vasta sucessão de teólogos e teólogas - da primeira e das novas gerações - vêm a assegurar um ritmo crescente de produção teológica, nas mais diversas áreas do conhecimento teológico, em uma perspectiva libertadora, e trazendo como novidade mais explícita uma crescente diversidade temática, de modo a suscitar o que hoje se chama “Teologias da libertação”, conforme bem o demonstra a coletânea “50 anos de Teologias da Libertação: memória, revisão e perspectivas e desafios” (São Paulo: Editora Recriar, 2022, 2 volumes), do qual participaram algumas dezenas de teólogos e teólogas, livro organizado por Emerson Sbardelotti, Edward Guimarães, e Marcelo Barros. Diversas outras iniciativas de grande alcance foram tomadas, das quais aqui citamos apenas cinco: a coletânea “Teologia e Libertação”, elaborada nos anos 1980, um alentado Projeto editorial, visando a cobrir os mais diversos campos teológicos, na perspectiva própria da TdL. O projeto inicial previa a elaboração de uma cinquentena de livros, com a participação de autores e autoras mais versados naquelas respectivas áreas. Dentre tais autores e autoras, podemos citar: George Pixley (A História de Israel a partir dos Pobres), Gustavo Gutiérrez, Juan Luis Segundo, Segundo Galilea, Jon Sobrino, Leonardo Boff, João Batista Libânio, Maria Clara Bingemer, José Comblin, Ivone Gebara, entre diversos outros e outras.


A despeito das fortes reações e da perseguição movidas pelo Vaticano, tentando proibir a continuidade das publicações, ainda foram publicados em torno de 35 volumes. Inicialmente pela Editora Vozes, e depois pela Loyola. 


Outro projeto impactante datado desde 1973, foi a constituição da Comision de Historia de la Iglesia Latinoamericana (CEHILA), coordenada por reconhecidos teólogos, a exemplo de Enrique Dussel, José Oscar Beozzo, Eduardo Hoornaert e outros. O projeto CEHILA revelou-se pelas décadas seguintes, uma conquista extraordinária da TdL, a medida que se empenhou criativamente em atualizar, de maneira crítica e libertadora - sempre a partir da perspectiva dos empobrecidos - a história das Igrejas Latinoamericanas e do Caribe de modo a recuperar seu rosto próprio, de sorte que cada País ou grupo de países na região tiveram reescrita sua própria história. Foram, a partir de então, publicados dezenas de livros, inclusive o de autoria de Eduardo Hoornaert, intitulado “História do Cristianismo na América Latina e no Caribe” (São Paulo, Paulus, 1994). A ideia inicial, aliás, era a de formar uma equipe ecumênica, encarregada de elaborar esta (re)escrita da história das Igrejas Latino Americanas e do Caribe, em uma perspectiva comum - seja quanto às Igrejas Católica, seja quanto às Igrejas reformadas. Ideia que não prosperou, razão pela qual se fez a parte.


Da CEHILA ainda importa rememorar a relevância do que se chamou CEHILA Popular, projeto coordenado por Eduardo Hoornaert, que consistia em fazer chegar o conhecimento das comunidades e do povo simples em linguagem adequada como se deu toda essa caminhada eclesial na América Latina, especificamente no Brasil, recorrendo ao cordel. Neste sentido, foram elaborados diversos folhetos de cordel acerca de muitas figuras de missionários populares e outros temas semelhantes, editados pela Vozes. Outro recurso de que se valeu a CEHILA Popular foi a promoção periódica de Encontros de poetas e Cantadores populares, especialmente no Agreste paraibano, animados por Frei Roberto Eufrásio de Oliveira e outros como uma proposta formativa de comunicação e vivência dos valores populares inspirados por uma perspectiva cristã da Libertação. Um texto dentre tantos, que suscitou especial interesse popular foi o elaborado por Maria Valéria Rezende, intitulado “Não se pode Servi a dois Senhores”, contando episódios relevantes, inclusive sobre a escravidão no Brasil. 


Uma terceira experiência desenvolvida, na América Latina, sob a perspectiva da Igreja na Base e da Teologia da Libertação tem sido a do Departamento Ecuménico de Investigación (DEI), com sede em San José da Costa Rica. O DEI segue sendo desde o seu início, umas das principais referências, não apenas das “Teologias da Libertação”, mas de toda uma rede profética latino-americana de formação de grupos comprometidos com a causa libertadora dos oprimidos e oprimidas. O DEI, desde 1972/1973, quando de sua oficialização, contou com a contribuição substanciosa de Hugo Assimann, Pablo Richard e Franz Hinkelammert - além de outras pessoas, a exemplo da Teóloga Elsa Támez. 


Uma quarta iniciativa - desta vez, voltada ao esforço de aprofundamento teórico-prático da TdL - foi a elaboração, publicada em 1990, pela Editora Trotta, em dois alentados volumes, intitulada “Mysterium Liberationis”, organizada por Jon Sobrino e Ignacio Ellacuría, constante de 47 ensaios produzidos por teólogos e teólogas de amplo reconhecimento na área, dentre eles, cumpre destacar: Gustavo Gutierrez, Jon Sobrino, Ignacio Ellacuría, Roberto Oliveros, Ignacio Gonzales Faus, José Comblin, João Batista Libanio, Ana Maria Tepedino, Margarida Ribeiro Brandão, Ivone Gebara, Maria Clara Bingemer, Leonardo Boff, Juan Luis Segundo, Clodovis Boff, Paulo Suess, entre outros. Trata-se, com efeito, de uma iniciativa de ampla repercussão, em escala internacional. Note-se que José Comblin, também, aí teve reconhecida contribuição, havendo elaborado textos relativos a conceitos fundamentais da TdL, a exemplo dos conceitos “Espírito Santo” e “Graça”. Tanto o Primeiro quanto o segundo Tomo se nos afiguram de capital importância, seja pela qualidade teórico-metodológico, seja pela fecundidade temática, seja ainda pela extensão apresentada (cada Tomo compreende em torno de 650 páginas).   


Uma quinta iniciativa - que não é a última nem a menos importante que aqui trazemos - é o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI). Como o nome indica o CEBI embora fundado em 1979, conta com diversas iniciativas relevantes que precederam sua oficialização. Trata-se de iniciativas conjuntas, protagonizadas por figuras protestantes e católicas - mulheres e homens apaixonados pela compreensão contextualizada da Bíblia, recorrendo inclusive a diversas ciências sociais como instrumento de uma leitura mais aprofundada dos textos bíblicos. Neste sentido, em consequência do que a renovação que o Concílio Vaticano II trouxe à Igreja Católica e graças aos estudos promovidos pelas Igrejas Reformadas, os estudos bíblicos foram e continuam sendo uma fecunda fonte de renovação da Espiritualidade cristã, exercitada de modo ecumênico. 


O CEBI, graças à sua rica série de publicações, tem constituído uma fonte preciosa de estudos e de pesquisas para o povo cristão e de outras matrizes, graças também ao exercício do diálogo inter-religioso. Às pessoas interessadas, recomendamos que acompanhem toda uma série de vídeo de cursos de formação e de produção de textos que alimentam nossa espiritualidade da libertação - título aliás, de um livro de referência, da já citada Coletânea “Teologia e Libertação”, de autoria de Pedro Casaldáliga e José Maria Vigil, publicado em 1993, intitulado “Espiritualidade da Libertação”, pela Editora Vozes. 


Esperamos ter cumprido o nosso propósito de fornecer breves indicações da presença de José Comblin, nas Origens da Teologia da Libertação, para a qual contribuiu com dezenas de livros e centenas de artigos publicados em diversas revistas nacionais e internacionais. Vale ainda lembrar que a principal contribuição do teólogo José Comblin à Teologia da Libertação se deu especialmente no campo da Pneumatologia, com a publicação de uma meia dúzia de livros, resultantes de diligentes pesquisas: “O Espírito no Mundo” (Petrópolis: Vozes, 1978), “O Tempo da Ação: ensaios sobre o Espírito e a história” (Petrópolis: Vozes, 1982), “A Força da Palavra” (Petrópolis: Vozes, 1986), “Vocação para a Liberdade” (São Paulo: Paulus, 1998), “Povo de Deus” (São Paulo: Paulus, 2002), “A Vida: em busca da Liberdade” (São Paulo: Paulus, 2007), “O Espírito e a Libertação” (Petrópolis: Vozes, 1987), “O Espírito Santo e a Tradição de Jesus” (São Paulo: Paulus, 2023). 


Em meio a uma avalanche de acusações grosseiras quanto medíocres assacadas contra a Teologia da Libertação, por parte inclusive de Bispos e de um Clero com escasso compromisso profético, alegra-nos não apenas rememorar, mas seguir estudando, cada vez mais atentamente, teólogas e teólogos da Libertação, seja em tantos grupos presenciais (como o Kairós, que há 28 anos se reúne semanalmente para estudar Teologias da Libertação inclusive José Comblin), seja em grupos virtuais, a exemplo do Grupo Teologia da Libertação que a três anos se reúne a cada sexta-feira, das 19 às 21 horas, para estudar Teologias da Libertação, estando, no momento, lendo e discutindo comunitariamente o livro de Elisabeth Schüssler Fiorenza intitulado “Discipulado de Iguais: uma ekkesia-logia feminista crítica da libertação”.


João Pessoa, 27 de Maio de 2026                  



          



quarta-feira, 20 de maio de 2026

Triste quadra enfrentamos, desarmados - De elementos primários de enfrentamento

Triste quadra enfrentamos, desarmados 

De elementos primários de enfrentamento 


Alder Júlio Ferreira Calado


De atalho em atalho, Brasil se afoga

Só mirando a raíz, virá saída


A política de frente se esgotou 

A essência do “Centrão”: pilhar o Estado


O Congresso do crime se agiganta 

A saída nos vem pelos “de baixo”...


Com os “de baixo”, sigamos com esperança

Superando embusteiros e a Direita


Sucessivos gestores do Rio de Janeiro 

Na prisão, pelos crimes cometidos 


Eleitores do Rio são cobrados 

Maioria responde por tais fatos… 


É recorde a insania Sionista

De matança contínua dos Palestinos


Quase 80 são os anos do massacre 

De Israel contra o Povo Palestino 


Longa vida à Flotilha da Liberdade!

A Tiago e a todos os companheiros 


A Flotilha de volta à Palestina

Novamente é barrada por sionistas


Israel pagará pelos seus crimes 

Que, impune, inflige aos Palestinos 


Genocídio e massacre em Palestina 

Sionistas não cessam seus massacres  


Veja “Medo e Delírio em Brasília”

“Podcast” que traz o número 30  


Um dos planos necrófilos da Direita 

É votar anistia pros Golpistas 


Parlamento legisla pras elites 

As migalhas destina ao povo pobre 


Prioriza Projetos ou emendas

Que seus “lobbies” lhes ditam, sem rodeios 


Bem o ilustra o caso Ciro Nogueira

Cuja emenda foi ditada pelo Master  


Parlamento representa seus lobistas 

não ao Povo, que diz representar…


No enésimo escândalo do Banco Master 

Senador Bolsonaro é a “estrela”...


Cumprimentos a todo o magistério

Por vitória no piso salarial


Falta agora ao Senado confirmá-la

‘Inda é pouco, mas é passo importante


Não são todos os congressistas embusteiros

Exceções também há, embora poucas…


João Pessoa, 20 de Maio de 2026.



  

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Militância anti - sionista em escala internacional: o alcance da Flotilha da Liberdade

Militância anti - sionista em escala internacional: o alcance da Flotilha da Liberdade 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Domingo próximo passado, dia 10/05, após 9 dias de prisão e torturas sofridas nas masmorras do Sionismo em Israel foram libertados Thiago Ávila e Saif Abu Keshek. Ambos foram presos pelas forças repressoras de Israel por integrarem a tripulação de uma cinquentena de embarcações que formam a Flotilha da Liberdade com cerca de duzentos integrantes, mais uma vez empenhados em transportar víveres e medicamentos como doação ao Povo Palestino. Trata - se de uma militância que podemos chamar de não violência ativa.      


Em mais uma edição, a gloriosa Flotilha da Liberdade retoma sua ação revolucionária molecular, testemunhando, ao mesmo tempo, sua profunda solidariedade ao Povo Palestino e seu incessante combate ao Estado genocida de Israel. No final do mês passado, acompanhamos mais uma investida de solidariedade às vítimas Palestinas do genocídio cometido pela tirania sionista com a extrema cumprincidade do Governo do Estados Unidos. Reunindo várias dezenas de militantes internacionalistas, procedentes de diversos países, cujo objetivo tem sido o de coletar e transportar uma boa quantidade de mantimentos e medicamentos para o sofrido Povo de Gaza, como um gesto de solidariedade internacionalista. 


Importa ter sempre presentes os principais traços desta iniciativa revolucionária molecular. Um primeiro elemento a sublinhar: o efetivo gesto de solidariedade internacionalista ao Povo Palestino, vítima a mais de 8 décadas, do genocídio sionista agravado nos últimos anos, com a cumpricidade das potências imperialistas. Outro traço a merecer destaque é o rompimento do silenciamento e da passividade com que o mundo “civilizado” assiste a este genocídio, a infelicitar milhões de Palestinos, seja pelo assassinatos de mais de 70 mil pessoas, parte expressiva de crianças e mulheres, além de centenas de milhares de feridos, de inúmeras destruições de Hospitais, de Escolas, de Universidades, do extremo racionamento de água e de comida… tudo isto é quase silenciado pela mídia hegemônica. 


Enquanto isto, os canais de televisão e de rádio, além de grande parte das redes digitais, continuam sendo meras correias de transmissão das informações repassadas pelo Sionismo. Contamos, felizmente, com a cobertura de canais e blogs alternativos, a exemplo de “Opera Mundi”, “Brasil de Fato”, “ICL”, “Farol Brasil”, “Brasil 247”, além de figuras perseguidas pelo Sionismo, a exemplo de Breno Altman. 


Cuidamos de reconhecer, de público, a relevância de iniciativas como a da Flotilha da Liberdade, inclusive da densa contribuição de integrantes brasileiros, como Thiago Ávila, a quem felicitamos pela tão fecunda e corajosa militância. 


João Pessoa, 14 de Maio de 2026


    

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Continuidade Golpista: o protagonismo do Congresso



Alder Júlio Ferreira Calado 


A sanha golpista, na história da sociedade brasileira, a persegue desde os inícios da chamada República. No centro das iniciativas golpistas, os militares. Ao se constituírem em forças armadas - Marinha, Exército e Aeronaútica - sempre se empenharam em passar como donas do País, atribuindo-se inclusive o papel de “Poder moderador”. Ainda que isto não estivesse inscrito nas constituições do País, mesmo assim nunca deixaram de ameaçar a ordem constitucional. O que temos visto ao longo de mais de um século é uma vasta sequência de tentativas de golpe, algumas das quais - como em 1964 - resultaram certeiras, infelicitando-nos por mais de 20 tenebrosos anos. 


Mesmo após a frágil retomada democrática, as principais lideranças das Forças Armadas trataram de minar, ao seu modo, as instâncias civis do Estado brasileiro, algo que se tornou mais explícito após as manifestações de Junho de 2013 durante o Governo Dilma Rousseff. Tais lideranças militares, em conluio com forças imperialistas, e apoiadas por lideranças de setores entreguistas dominantes brasileiros - de claro perfil escravagista -, voltam a ameaçar a vida democrática da sociedade brasileira, valendo-se de múltiplos expedientes, um dos quais servindo-se de um mal militar - assim chamado inclusive pelo ex-Presidente General Geisel -, empenham-se em fazer oposição crescente a presidenta Dilma, acusando-a artificialmente de crime de responsabilidade, jamais comprovado pelos fatos. 


O que se tem visto desde então é o ascenso no Brasil e no mundo de um ruidoso movimento ultra-direitista, de perfil fascistizante. No caso específico do Brasil, o retrocesso institucional, permitindo toda uma sucessão de arbítrios de perseguições, por meio de instrumentos tais como o “Lavajatismo” -  do qual se tornou símbolo execrável a figura do Juiz Sérgio Moro -, cuja atuação Judicial de parcialidade, além de ter sido responsável pela gravíssima crise da Petrobrás e de importantes empresas petroleiras do Brasil cuja quebradeira implicou além de altíssimo desemprego, na condenação do ex presidente Luiz Inácio da Silva, principal concorrente à eleição de Presidente naquele ano (2018).


Tal a parcialidade do então Juiz Moro que, havendo decretado a prisão de Lula, não exitou em aceitar o convite do então candidato Jair Bolsonaro a ser seu futuro Ministro da Justiça, numa demonstração inequívoca de parcialidade política… Estava, então, escancarada a porta para a vitória do Bolsonarismo, cujo Governo empregou milhares de militares, com a clara intenção de fazer retornar - agora pelo voto! - o regime militar que tanto infelicitou o povo brasileiro. 


Usurpação de Poderes pelo Congresso, como estratégia golpista 


Desde a perseguição ao Governo Dilma Rousseff, notadamente  no início de sua segunda gestão, o congresso brasileiro reforçou sua pretensão hegemônica de ação legislativa, sobretudo graças à atuação do então Presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Desde então e prosseguindo com Temer e Bolsonaro, tal investida de usurpação dos Poderes da República tomaria contornos cada vez mais ameaçadores aos demais poderes (o Executivo e o Judiciário). E de forma intencional, haja vista reiteradas declarações de Bolsonaro e seus apoiadores, da crescente aposta na força usurpadora do Congresso. 


O principal mecanismo que potencializou -  e continua favorecendo exponencialmente - tal pretensão hegemônica é a farra das emendas secretas e mesmo as demais emendas parlamentares tornadas possíveis graças à usurpação pelo congresso da prerrogativa de execução do orçamento pelo Presidente da República. Este mecanismo de usurpação têm anulado os efeitos práticos da chamada Frente Ampla, cujos integrantes ligados ao “Centrão” não hesitam em “trair o Governo”, para aliar-se a ultra-Direita. É isto o que têm sucedido repetidamente. 


É neste contexto que também situamos as mais recentes e esdrúxulas deliberações tomadas pelo Senado - a rejeição de Jorge Messias como indicado pelo Presidente Lula como Ministro do STF - e, sobretudo, e pela aprovação pelo Congresso da derrubada do veto do Presidente Lula ao insano Projeto impropriamente chamado de Projeto da dosimetria, escandalosa tentativa de anistiar os golpistas legitimamente condenados. 


Fracassada a política de frente ampla   


Parece claramente esgotada a política de frente ampla, ilusória tentativa de se governar com o apoio do “centrão”, verdadeiro covil da extrema Direita, composta, em sua maioria, de representantes dos segmentos dominantes, descendentes e continuadores do regime escravocrata. Resta, em vão, seguir apostando nesta via, em vez de se fazer o que se deve: retomar o diálogo com os movimentos populares, sem os quais em vão se procura mendigar apoio de traidores da Pátria. Com efeito, as sucessivas e amargas derrotas do Governo por conta desta mal fadada aliança com representantes dos grandes monopólios do Capitalismo (brasileiro e internacional), salvo poucas exceções, só tem agravado as condições de vida da maioria do povo brasileiro. Não se trata de ignorar ou de negar avanços pontuais, arrancados a duras penas, em alguns setores de nossa vida econômica e social, mas de reconhecer, diante das privilegiadas condições do solo, do subsolo, da diversidade e grandeza das riquezas do nosso País, o quanto deixamos de avançar…               


João Pessoa, 6 de maio de 2026


sexta-feira, 24 de abril de 2026

O Movimento das Comunidades Populares em ação

 O Movimento das Comunidades Populares em ação 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Sobre este Movimento já tivemos a oportunidade de escrever vários textos, em nosso blog (textosdealdercalado.blogspot.com), comentando diferentes aspectos de sua mais que cinquentenária existência (foi fundado em 1969, lá se vão 56 anos!), inclusive rememorando tratar - se de um Movimento que sucedeu a JAC (Juventude Agrária Católica), tendo desde então atuado sob diversas denominações (Movimento de Evangelização  Rural)  CTI - Corrente Sindical de trabalhadores Independentes; MCL - Movimento de Comissões de Lutas MCP -  Movimento das Comunidades Populares, nome com o qual vem atuando desde a primeira década deste século. 

  

Trata - se de um Movimento popular que apresenta características comuns a outros Movimentos (organização pela Base, organização por setores, encontros periódicos, etc.) e características específicas, tais como auto - manutenção, ênfase de participação efetiva de todos os militantes, compromisso orgânico com as múltiplas tarefas correspondentes aos diversos setores - Juventude, Crianças e Adolescentes,      


A convite da Coordenação local do MCP (Movimento das Comunidades Populares), tivemos a alegria de participar, dia 19/04/2026, na sede do movimento em Santa Rita - PB, de mais um Encontro realizado, para tratar de várias atividades nacionais (AN) assumidas pelo Movimento, em decorrência do seu I Congresso realizado em Feira de Santana - BA, em Julho de 2024. Deste Encontro de Santa Rita participaram mais de 20 dirigentes e militantes, procedentes de Maceió, em Anadia e São Miguel (em Alagoas); de São Lourenço da Mata e Itambé (em Pernambuco); de Carrapateiras, de Caiana, Cajazeiras, de Mogeiro, Santa Rita, (da Paraíba), desde a manhã do sábado, 18/04. pedindo perdão pela omissão de vários nomes, ouso lembrar algumas presenças: Luis Alves, Liro, Chico Malta, Tiago, Domitila, Domitila de Itambé, Dedé, o outro Dedé, Zequinha, Silvia, Ceiça e várias crianças a brincarem.


Da pauta do Encontro constavam diversos pontos, tais como o andamento das Escolas animadas pelo MCP, em Maceió, em São Lourenço da Mata - PE, em Itambé - PE e em Santa Rita - PB. Parte expressiva do sábado foi tomada pela avaliação dessas Escolas, seja do ponto de vista de sua infraestrutura seja quanto a sua administração e aos seus resultados, seja quanto à situação de suas respectivas professoras. No Domingo, foi apresentado um relato circunstanciado do que se havia debatido no Sábado. 


Após o relato abriu - se o debate aos participantes sobre os esforços de institucionalização destas escolas foram apresentadas diversas sugestões, principalmente visando a não prejudicar a situação dos alunos e professores (estas, em número de 26). Outro aspecto que também demandou intensa discussão, teve a ver com a necessidade de reforma a ser feita na estrutura da escola (especialmente a construção de banheiros para as crianças) de Santa Rita como cumprimento das exigências legais. Tendo em vista a urgência desta reforma, tratou - se de saber de onde e como viriam os recursos financeiros para tal reforma. Várias sugestões foram apresentadas contando inclusive com o aporte do GIC (grupo de Investimento Coletivo) e de contribuições voluntárias dos militantes, a exemplo da oferta prometida por um dos militantes: a doação de um bode… 


Da pauta também constou o item relativo ao Encontro Nacional de Crianças e Adolescentes do MCP, realizado em Feira de Santana - BA do qual participaram 11 crianças, 15 adolescentes, diversos jovens e pessoas adultas responsáveis por acompanhar as crianças e adolescentes, além da Coordenação num total de cerca de 60 pessoas seguiu - se um relato circunstanciado do Encontro, com diversas observações e perguntas. Na sequência, já à tarde - após um saboroso almoço comunitariamente preparado, para conhecimento e preparação, de responsabilidade de todos, tratou - se de dois grandes Encontros Nacionais a serem realizados em Feira de Santana - BA, no segundo semestre de 2026: um, relativo ao Encontro Nacional de jovens, enquanto o segundo consistirá em um grande mutirão de construção, em Matinha - distrito de Feira de Santana, de uma casa de acolhimento de pessoas pobres, mutirão que também contará de uma vintena de jovens escoteiros de Luxemburgo, que virão passar algumas semanas em Feira de Santana.




Eis um breve resumo do que pudemos recolher. Aproveitando o ensejo, cuidamos de ressaltar alguns traços bem específicos deste Movimento. Até com base na presença dos participantes destes encontros chamam a atenção os profundos laços familiares observáveis no Encontro: quase todos os participantes estavam acompanhados de familiares: pais, mães, irmãos e irmãs, filhos, filhas, algo raro de acontecer em outros Movimentos Populares. Mas, o traço que mais nos tem despertado a atenção, vem sendo o compromisso do MCP com vivenciar, de modo orgânico, os diversos setores em que se distribui: leva a sério o compromisso com sua auto manutenção à medida que segue vivendo dos próprios recursos, haja vista a fecunda vista do GIC (Grupo de Investimento Coletivo) prioriza o trabalho de base de seus militantes mulheres homens; não tem vinculação orgânica com os partidos convencionais; seu programa de lutas e construído desde as bases do campo e da cidade; atua com força em solidariedade com as Lutas Camponesas, Operárias, dos Povos Indígenas e Quilombolas, mantém diversos programas culturais, aproveitando inclusive as festas do calendário; comprometer - se com a vivência das artes, dos esportes e do lazer busca vivenciar religiões de libertação.


João Pessoa, 24 de Abril de 2026                                      


terça-feira, 21 de abril de 2026

Os Irmãos Apostólicos Franciscanos: breve nota sobre Fra Dolcino da Novara (1250-1307)

Os Irmãos Apostólicos Franciscanos: breve nota sobre Fra Dolcino da Novara (1250-1307) 


Alder Júlio Ferreira Calado


Este ano de 2026 vem sendo dedicado, na Igreja Católica Romana, à comemoração dos 800 anos do trânsito de Francisco de Assis (1226-2026), ocasião propícia para fazermos memória do denso legado deste verdadeiro seguidor de Jesus de Nazaré. Ao mesmo tempo, também assinala uma oportunidade favorável para avaliarmos como temos (ou não) seguido o legado de Francisco de Assis. Neste sentido, vale a pena revisitar algumas biografias mais densas de Francisco de Assis, a exemplo escrita por Ignácio Larrañaga, intitulada “O Irmão de Assis” (São Paulo: Paulinas, 1998). 


Constatamos, com pesar, um distanciamento preocupante em relação aos feitos e ao legado de São Francisco. Vem predominando uma atitude de desconhecimento da vida de Francisco e seus primeiros companheiros. Com efeito, isto não se dá apenas nos dias de hoje. Ainda quando vivia, Francisco foi duramente contrariado por sucessivas tentativas de desrespeito e tentativas de cooptação, em vista  dos objetivos fundamentais que Francisco alimentava, junto com seus primeiros companheiros. Os “grandes” da Instituição eclesiástica, de ontem e de hoje, nunca aceitaram a radicalidade de pobreza evangélica testemunhada e proposta por Francisco. Infelizmente tem prevalecido um desvirtuamento dos propósitos originais. Nem todos, porém, se distanciaram do ideal Franciscano.  Ontem como hoje, sempre houve minorias que buscaram tomar a sério o programa de Francisco de Assis, que antes de ser de Francisco é o Programa de Jesus. Entre estas “minorias abraâmicas” (como chamava Dom Helder Câmara), incluem-se diversos movimentos pauperísticos, que floresceram principalmente durante a baixa Idade Média, a exemplo dos Valdenses, os Patarinos, dos Albigenses, dos Cátaros, dos “Apostolici”, das Beguinas, dos Begardos, dos Hussitas entre outros. 


Nas linhas que seguem vamos  nos ater apenas ao conhecido Movimento dos “Apostolici” (Apostólicos), e mais particularmente à figura de Fra Dolcino da Novara e Marguerita Bonisegna. Um grande desafio que encontramos, ao revisitar movimentos e figuras rebeldes às correntes dominantes em seu tempo, é a escassez de fontes, e, quando as há, são registradas pelos perseguidores, e portanto relatados conforme sua visão hostil. É também o caso de Fra Dolcino e de uma outra grande liderança feminina deste movimento - Margherita Boninsegna. 


O Movimento dos Apostólicos fora fundado por Gherardo Segarelli, (1240 - 1300), um leigo devoto de Francisco de Assis que, inconformado com o distanciamento dos valores fundamentais vividos e pregados pelo Irmão de Assis, cuidou de reunir alguns seguidores, em busca de fazer justiça à memória de Francisco de Assis, ao mesmo tempo em que tratava de denunciar riqueza, o poderio, a devassidão da alta hierarquia e de sua traição aos valores fundamentais do Evangelho. Teve que pagar caro: foi martirizado em 1300.


O Movimento dos Apostólicos expandiu-se pela Lombardia (norte da Itália), atraindo milhares de peregrinos e despertando a irá do alto clero e dos poderosos da época. Mas o Movimento dos Apostólicos continuou se expandindo, graças ao trabalho itinerante de tantas pessoas, a exemplo de Fra Dolcino, de Margherita Bonisegnia, principais lideranças do Movimento.  


Fra Dolcino, por sua vez, se mostrou um fiel discípulo e seguidor de Segarelli.  Detentor de sólidos conhecimentos bíblicos, tratou de traduzir e de fazer chegar às mãos dos pobres, em sua própria língua, a palavra de Deus. Antes, a bíblia restava um privilégio da hierarquia, conhecedora do Latim , que restringia apenas ao clero o direito sagrado de ler (em Latim!) a Bíblia. Os apostólicos, ao contrário, se empenharam em tornar pública a Palavra de Deus, tornando - a ao alcance de grande número de fiéis. Estes, por sua vez, conhecedores da palavra de Deus, se sentiam também chamados a anunciá-la em praças públicas, o que era terminantemente vedado aos leigos e leigas pela hierarquia. Daí, a crescente perseguição por meio da organização de cruzadas, convocadas pelo Papa Clemente V, com  a participação de vários Exércitos Feudais. 


Além de propagar a leitura da Bíblia e o anúncio público da Palavra de Deus, as lideranças do Movimento também incentivaram as reuniões em casas, para aprofundamento do conhecimento da palavra de Deus. Por outro lado, graças também à influência de lideranças como a de Margherita Bonisegna, e em consequência dos ensinamentos do Evangelho, defendia - se o princípio de paridade de direitos entre homens e mulheres. Os Apostólicos, especialmente no período de 1303 a 1304, passaram a ser mais duramente perseguidos, assustava aos poderosos da época seu crescimento contínuo, chegando a reunir entre 3 e 4 mil seguidores a exercitarem o anúncio itinerante da palavra de Deus e dando testemunho dos valores do evangelho. À medida que cresciam as perseguições, os integrantes do Movimento foram obrigados a buscar um lugar de refúgio: o Monte Rubello, na região do Piemonte, da província de Biella. Esta região também lhes favorecia, por proporcionar-lhes, além de abrigo seguro, proximidade com zonas agricultáveis, de onde recolhiam víveres, pela solidariedade daqueles moradores. 


Importa ressaltar o papel desempenhado por Margarita Bonisegna, também conhecida como Margarita de Trento. Uma leiga, que fiel a sua vocação, tornou-se uma forte liderança ao lado de Fra Dolcino, a propagar, de forma itinerante, a palavra de Deus e a testemunhar seu exemplo profético, denunciando os graves desvios do alto clero em conluio com os poderosos chefes feudais ao mesmo tempo que, junto com seus irmãos e irmãs de caminhada, cuidava de anunciar um novo tempo - de verdade, de justiça e de paz. Note-se que a força do Movimento também repousava na motivação alimentada, isto é na ênfase dada à Iminência escatológica, isto é, da chegada de um novo tempo, do Reino dos Céus a serem instalados também na Terra. Por conta de sua coragem profética, Margarita foi perseguida até mais do que os homens, dada a sua coragem de pregar o Evangelho, em público, junto com outras lideranças do movimento, a exemplo de Fra Dolcino. Vale ressaltar a dupla perseguição sofrida por Margarita: sua luta se dava, ao mesmo tempo, contra a ordem eclesiástica e a ordem patriarcal. 


Em 1307 os integrantes dos apostólicos sofreram duras reveses por parte dos cruzados organizados pelo Papa Clemente V. Sua fúria maior se concentrou nas figuras das lideranças Fra Dolcino e Margarita de Trento, que foram presos, torturados e condenados à morte, em 1307. 


Que ensinamentos podemos recolher do Movimento dos Apostólicos, e em especial de Fra Dolcino e de Margarita Boninsegna ?         


Costumamos lembrar os principais destinatários destas linhas: os/as militantes dos Movimentos Populares comprometidos com as causas libertárias da humanidade, buscando estimular o contínuo exercício da memória histórica dos oprimidos e oprimidas de ontem e de hoje ao revisitarmos traços significativos do legado do Movimento dos Irmãos Apostólicos, em especial de seus protagonistas principais, tratamos de recolher preciosas lições que nos ajudem a melhor compreender e assumir melhor antigos e novos desafios enfrentados pelo planeta, pelos humanos e demais viventes. Cuidemos, pois, de realçar aspectos emblemáticos deste movimento. 


Em primeiro lugar, uma constatação que não deve ser jamais menosprezada: a despeito da prevalência, através da história, das variadas formas de dominação exploração e marginalização de minorias sobre grandes maiorias, nunca deixou de haver, por parte de pessoas, de grupos e de movimentos, firmes atitudes de resistência e de enfrentamento em vista da superação de tais desafios. Eis por que nunca devemos desanimar diante dos desafios que enfrentamos, velhos e novos, buscando sempre examiná - los em perspectivas históricas. Outro aspecto que merece destaque, está ligado ao próprio exercício da memória histórica dos oprimidos, que rememorando as atitudes de Jesus de Nazaré e das primeiras Comunidades cristãs, animou os protagonistas do Movimento dos Irmãos Apostólicos, buscando reavivar aqueles valores. 


João Pessoa, 21 de Abril de 2026

terça-feira, 14 de abril de 2026

Fazendo memória de Camilo Torres: notas a partir de seus “Escritos sobre Cristianismo e Revolução"

Fazendo memória de Camilo Torres: notas a partir de seus “Escritos sobre Cristianismo e Revolução"*


Alder Júlio Ferreira Calado 


Mal havia sido concluído o Concílio Vaticano II (dezembro de 1965), e prosseguia, deletério, o “rumor de botas”, no Brasil e, em seguida, no Cone Sul. Os Movimentos sociais (os Estudantes, os Camponeses, os Operários e outros segmentos sociais) ensaiavam a resistência possível. Na Colômbia, contra uma elite econômica das mais perversas da América Latina, apoiada pela hierarquia da Igreja Católica, ecoavam vozes proféticas de resistência e de enfrentamento. Entre elas, a voz profética de um sacerdote: Camilo Torres Restrepo (1929 - 1966).  


A impactante reverência ainda hoje despertada pela figura revolucionária de Camilo Torres em militantes jovens e adultos de nossa Pátria Grande e de tantas outras regiões do mundo não implica qualquer desconhecimento das conjunturas então vividas e as de hoje. No entanto, a figura de Camilo Torres segue sendo uma fagulha luminosa para a nossa caminhada atual, especialmente inspirados no exemplo do “Amor eficaz” por ele testemunhado como a grande marca de sua vocação martirial, em defesa e promoção dos interesses e das mais profundas aspirações do povo oprimido. 


Nas linhas que seguem, tratamos de rememorar aspectos relevantes do seu sentir, do seu pensar, e do seu agir, como ser humano, como cidadão, como cristão e como revolucionário. Para tanto nos servimos da leitura atenta do livro “Escritos sobre cristianismo e revolução”, publicado pela Editora Alma Revolucionária, após outras publicações, no México e em outros países inclusive no Brasil, nos inícios dos anos 80 , pela Editora Global, com prefácio do grande Revolucionário Pedro Casaldáliga. O prefácio da última edição é da lavra de Marcelo Barros, teólogo da Libertação comprometido com a causa revolucionária de nossa “Pátria Grande”. 


O livro que comentamos, vem distribuído em 8 capítulos dos quais nos limitaremos a compartilhar breves extratos de autoria do próprio Camilo Torres. Cuidamos de mencionar os títulos (com breves comentários dos capítulos). 

O capítulo 1º traz como título “O Ideal de Servir (1947 - 1954)”. Importa ressaltar a marca diaconal que caracteriza, desde o início, o sentido do ministério presbiteral. Dele lemos palavras de compromisso tais como: “Não devemos nos santificar apenas para nós mesmos. Devemos tornar santos os outros. Devemos preparar suas almas para que Deus as receba puras. Relacionar cada ato de nossa vida com almas, para a glória de Deus. Temos que ser luz do mundo. É urgente que tomemos consciência de nossa responsabilidade” (p. 63). 


O capítulo 2º sob o título “Apologia do Cristianismo Ideal (1956)”, resultante de uma entrevista abordando diversos temas sociais e econômicos. O capítulo 2 traz o que já no final da pergunta, o entrevistado é o que considera de mais relevante da fé cristã: “Uma coisa é que o ser humano seja livre por natureza, e outra é que o seu livre arbítrio não pode ser cerceado ou mesmo destruído por circunstâncias exteriores. Portanto, Abbé Pierre, com base na melhoria econômica e social, pretende conseguir uma melhoria moral e uma cristianização mais direta e objetiva da vida espiritual”. (p.79)


O capítulo 3º se intitula “Em busca do humanismo cristão” (1956 - 1963) por ocasião de um grande evento nacional, realizado na Colômbia, em 1956, reunindo os capelães de todas as Universidades do País. Camilo Torres, desde a França, enviou sua contribuição. Nela, sustentava por exemplo, “A Universidade sempre teve o papel de formar os líderes de um país, tanto sob o ponto de vista científico, como sob o ponto de vista ético. Sob o ponto de vista científico, provendo os futuros profissionais com os conhecimentos indispensáveis para investigar e resolver os problemas específicos de seu país, de sua sociedade. Sob o ponto de vista ético, em dois sentidos: orientando suas preocupações científicas mais para servir a Deus e ao próximo do que a si próprios; e ensinando-os a empregar essa ciência sem prejuízo dos direitos de Deus e dos demais seres humanos” (p. 103). 


O capítulo 4º se intitula “A essência do cristianismo e o compromisso com uma mudança de estruturas” (1964), “O trabalho apostólico consiste em todo aquele que oriente as pessoas para que tenham uma vida sobrenatural. Este trabalho é sempre eficaz, ainda que seus resultados não sejam visíveis. No entanto, há vários indícios da existência da vida sobrenatural que condicionam a ação apostólica. É imṕortante que a ação apostólica seja orientada de modo a produzir esses indícios como meios e não como fins”, (p. 134). 


 “Conflitos com a estrutura eclesiástica”, o 5º capítulo põe em foco as estruturas sociais injustas que causam a opressão e a exploração aos pobres do País, por conta dos privilégios concedidos aos ricos, com a complacência da alta hierarquia da Igreja. Eis como se expressa Camilo Torres:

 “Nosso povo é, em sua maioria, católico. Eu diria que, mais do que católico, é um povo de batizados, porque se a essência do catolicismo, tal como a essência do cristianismo, é o amor, tanto que São Paulo nos diz que aquele que ama seu próximo cumpre a lei, então teríamos um país dilacerado pela violência, um país onde as viúvas, os órfãos, os pobres são oprimidos”, (p. 169). 


O capítulo 6º foca as “Opções radicais como exigências de sua fé”, em que Camilo Torres justifica, de modo profundo, as razões que o levaram a suspender temporariamente o exercício de sua Ministério Sacerdotal, destacando os fundamentos evangélicos que o levaram a esta posição revolucionária, dada a eficácia do amor cristão. Neste capítulo ele afirma: 

“Um verdadeiro cristão deve colaborar com todos aqueles revolucionários que se propuserem a mudar as atuais estruturas sociais, injustas e opressoras. É essa mudança que caracteriza o mundo de hoje. O que está acontecendo na Colômbia faz parte disso. E o fator determinante é a pressão que vem de baixo, tanto aqui como no Vietnã. Por isso, a intervenção dos Estados Unidos no Vietnã, que é um verdadeiro crime, não poderá prevalecer, por mais armas que utilizem e por mais gente que matem. Eles serão derrotados. (...) Claro; digo e repito. O cristão, como tal, se quiser realmente ser cristão, e não apenas por palavras, deve participar ativamente nas mudanças, A fé passiva não basta, para aproximar - se concretamente, vivenciar o sentimento da fraternidade humana. Esse sentimento se manifesta, hoje, nos movimentos revolucionários dos povos, na necessidade de unir os países fracos e oprimidos, para pôr fim à exploração. Em tudo isso, a posição está claramente deste lado, e não do lado dos opressores” (p. 221 - 222). 


“Elementos para os diálogos com o marxismo” - eis o que figura como título do capítulo 7º, do qual expomos parte do seu início:

“A partir de diversos escritos de Camilo, reunimos aqui os trechos que nos revelam, mais claramente, sua posição sobre o marxismo, que pode ser resumida nestes pontos. No campo filosófico, existem incompatibilidades entre marxismo e cristianismo. Por trás do anticomunismo da sociedade se escondem os mecanismo de defesa da classe dominante, por trás anticomunismo da Igreja, que aparece como se fosse a sua tarefa principal, se esconde um profundo desvio da sua missão, que é a de tornar o amor, para a qual lhe serviriam muitos elementos do marxismo. Aspectos técnicos do marxismo: seus postulados socioeconômicos não são incompatíveis com a fé cristã e são aceitáveis. A crítica feita ao cristianismo pelo marxismo, que o acusa de entorpecer a consciência dos oprimidos e de legitimar sistemas injustos, denuncia, de forma legítima, as deformações do cristianismo. Há muitos elementos comuns aos marxistas e cristãos, tanto sob o ponto de vista econômico, político e social, como sob o ponto de vista filosófico, por serem ambos “humanismo”.” (p. 233 e 234).  


O último capítulo deste livro tem por título “Palavras de ordem”, que vale a pena reproduzir, por completo, ao final do qual trataremos de registrar algumas observações analíticas acerca do conjunto do livro. Vamos à transcrição deste último capítulo: 

“Frente Unido (frente Unida), nº 2, em 2 de Setembro de 1965. Consideramos como principal objetivo da luta revolucionária a união e a organização da classe popular colombiana para a tomada do poder. Apoiamos a união em torno do espírito e das linhas gerais da plataforma da Frente Unida do Povo. Defendemos uma organização popular de baixo para cima dos vilarejos distantes para o povoado, dos bairros ao centro, do campo à cidade. Para isto, é necessário organizar toda a classe popular colombiana em grupos de 5 ou 10, sem distinção entre filiados a estes grupos e movimentos, com a única condição de que aceitem as linhas gerais da plataforma da Frente Unida do Povo”. 


“A primeira palavra de ordem para estes comandos da Frente Unida será a de discutir e divulgar a plataforma. Esta não foi entregue aos colombianos como um dogma ou como um programa definitivo. É uma proposta a ser debitada pela classe popular colombiana, para que esta classe a aplicará, quando estiver no poder. A segunda palavra de ordem será divulgar a plataforma por todos os meios: seja impressa, seja por mimeógrafo, a máquina, à mão, gritando - a pelos campos e ruas da Colômbia, lendo - a ao ouvido do compatriota analfabeto. A terceira palavra de ordem será organizar a distribuição e o financiamento do jornal Frente Unido. A oligarquia não financiará nem distribuirá uma publicação destinada a acabar com ela. Em um jornal revolucionário, são mais importantes as numerosas e pequenas contribuições dos pobres do que as contribuições impuras e suspeitas dos ricos”.


“O Jornal custa um preso: o peso semanal da revolução (um pouco menos que o valor de uma cerveja), que se destina não apenas ao financiamento da edição, mas do aparato político mínimo e necessário à tomada do poder por parte da classe popular. A Frente Unida será como o fio condutor que uniram os comandos populares e criará uma grande rede, que sustentará toda a organização da classe trabalhadora e camponesa. A quarta palavra de ordem será eleger os chefes dos comandos, formar comandos na zona rural, comandos de Aldeias e Vilarejos distantes, comandos de fábricas, comandos de bairros, de municípios e de departamento para que, no final do ano, possamos reunir uma grande convenção popular em Bogotá - que eleja um comando nacional da revolução - e determinar as táticas seguintes para o ataque definitivo ao poder”.


“A esta convenção não deverão comparecer os mais poderosos, nem os mais ricos, nem os mais instruídos, nem os de “boa família”, nem os chefes políticos opressores e seus sectários. A esta convenção compareceram os fracos, os ignorantes, os imprudentes - segundo a visão da oligarquia -, os que não são bem - nascidos, os famintos, os mal vestidos, mas que têm o ideal da revolução na consciência e o fogo da luta por seus irmãos em seu coração e em seus braços”.


“Por ora, os comandos municipais, regionais e departamentais, que forem eleitos, serão provisórios. Dele participarão, sem discriminação, todos os colombianos, a título eminentemente pessoal. Podem ser representantes de sindicatos de trabalhadores, camponeses e estudantes, podem ser do grupo dos não alinhados politicamente. Nos comandos provisórios da Frente Unida ninguém será considerado pelo que representa, mas sim pelo seu trabalho na revolução. Por ora, a eficácia na organização será aprovada com palavras de ordem provenientes do comitê provisório que funciona a nível nacional. Quando for construído o comando nacional da Frente Unida, como resultado da convenção em Bogotá, este dará, as palavras de ordem revolucionária e determinará os passos táticos rumo à tomada do poder pela classe popular. A tomada do poder poderá ser súbita ou progressiva. Tudo depende, por um lado, da unidade e organização da classe popular; e por outro lado, da atitude - beligerante ou - não da oligarquia. A classe popular não decide sobre o modo como será feita a tomada do poder; decidiu que haverá de tomá - la cedo ou tarde. A oligarquia é que deve decidir como irá entregá - lo. Se entregá - lo pacificamente, a classe popular o tomará pacificamente. Se não quiser entregá - lo por bem, a classe popular tomará por mal”.


“Pela união da classe popular, até a morte.

Pela organização da classe popular, até a morte.

Pela tomada do poder para a classe popular, até a morte”… (p. 259 - 262)     


O Quê recolher do legado de Camilo Torres?  


Sessenta e seis anos após a entrega martirial de Camilo Torres, vivemos uma conjuntura histórica - internacional, latino - americana e nacional de profundos e crescentes impasses econômicos, políticos, culturais e religiosos -, a nos desafiarem, a todo momento enquanto humanos, enquanto trabalhadores e trabalhadoras, enquanto cidadãs e cidadãos e enquanto cristãos. Mesmo sabendo não serem propriamente idênticos - por exemplo, no que tange às estratégias militares -, da trajetória vivida por Camilo Torres e os que abraçaram a Frente Unida da Colômbia, somos instados a fazer densa memória, buscando assumir o compromisso revolucionário conforme as exigências de hoje. Um primeiro aspecto a destacar deste compromisso revolucionário é a fidelidade à causa libertadora dos oprimidos, embasados na constante busca de eficácia do amor às vítimas não há lugar para sentimento “morno”. Precisamos testemunhar efetivamente, nas lutas do dia a dia, nosso compromisso libertário com as grandes e pequenas causas do Planeta, dos humanos e dos demais viventes. 


Uma forma eficaz de assumir e renovar tal compromisso revolucionário consiste justamente no exercício cotidiano da memória histórica dos oprimidos, em busca de inspiração e de instrumentos fecundos para enfrentar de modo exitoso os antigos e novos desafios. Para tanto, precisamos seguir exercitando uma leitura crítica e contínua do mundo de hoje, recorrendo a fontes alternativas de informação e de análise, ao mesmo tempo em que seguimos comprometidos com os processos permanentes de organização, de formação e de lutas, buscando inclusive superar a tendência a tudo esperar dos processos eleitorais, de fôlego curto e ilusório ainda que não devamos desprezá - lo de todo, especialmente correndo o risco de retorno dos golpistas da ultra - Direita. 


João Pessoa, 14 de Abril de 2026.


* Este texto foi digitado por Elizabete Santos de Pontes, e revisado por Eliana Calado. Ao expressar seu agradecimento, o autor também agradece à Dra. Zélia Cristina Pedrosa do Nascimento por me haver presenteado com este livro.