quarta-feira, 12 de março de 2025

José Ignacio González Faus


Alder júlio Ferreira Calado


Parceiros e protagonistas da Teologia da Libertação: Um tributo a José Ignácio González Faus (1933-2025). Impactados com a notícia da partida do teólogo espanhol José Ignacio González Faus, nesta sexta-feira próximo-passada, (07/03/2025), cuidamos, nas linhas que seguem, de prestar-lhe uma modesta homenagem, destacando algumas das principais marcas de seu legado. Ele nasceu em Valência, Espanha em 1933. Buscando responder a sua vocação presbiteral, optou pela formação jesuítica, tendo realizado seus estudos no Pontifício  Instituto Bíblico, em Roma (1965-66) e concluído  seu doutorado na Universidade de Innsbruck, Áustria em 1968. Contemporâneo das fecundas experiências de renovação eclesial, propiciadas pelo Concílio II (1962-1965) e especialmente pelo contexto profético vivenciado na américa-latina, desde a Conferência de Medellín (1968) e pela de Puebla (1979),

    

Não foi por acaso sua longa e reconhecida contribuição com experiências de formação. Sua vasta produção teológica traz profundas afinidades com a Teologia da Libertação, na América latina. Foi autor de um amplo conjunto de obras, de que ressaltamos as seguintes: A Humanidade de Deus: Ensaios sobre Cristologia (1974); A nova humanidade: ensaio sobre cristologia (1974); Acesso a Jesus (1979) e Projeto Irmão: visão do homem do crente (1989). Seus últimos livros são: O rosto humano de Deus (2008), Outro mundo é possível... Desde Jesus (2009) e Heresias do catolicismo atual (2013). Em 2018, a editora Cristianisme i Justícia reeditou sua obra Vigários de Cristo: os pobres.

Outra marca forte a ser realçada do seu legado, tem a ver com sua reconhecida contribuição às experiências formativas na américa latina, especialmente em El Salvador, junto a outros teólogos jesuítas como Ignácio Ellacuría e Jon Sobrino, entre outros. Sua contribuição se deu, durante vários anos, desde 1980. Participava como um dos integrantes do corpo docente da Universidad Centroamericana (UCA), da qual era Reitor a figura martirizada de Ignacio Ellacuría (quando da chacina cometida pelo exército salvadorenho da qual resultaram 8 vítimas, inclusive Ignacio Ellacuría, sendo 6 jesuítas e duas leigas). Em um dos artigos constante do livro “50 anos de teologias da libertação: Memórias, Revisão, Perspectivas e Desafios” (dois volumes, editora recriar, 2022), Jon Sobrino rememora, no último texto do volume 2 desta obra, densos momentos de uma experiência formativa então vivenciada, em que professores e estudantes, protagonizaram um verdadeiro espaço formativo de educação popular, no qual todos se sentem protagonistas, no estudo, na exposição, no debate e no aprendizado comum, dos grandes desafios de sua gente, na perspectiva do movimento de Jesus. Com grande entusiasmo, os participantes davam testemunho da eficácia dos temas estudados, todos voltados a uma busca de compreensão e de efetivo compromisso com a causa libertadora dos empobrecidos. Entre os protagonistas dessa experiência formativa, também se encontrava, González Faus. 

Embora rara, essa não foi uma experiência única na américa latina daquele contexto histórico, motivado, por um compromisso com a causa dos pobres. São característicos da igreja latino americana de Medellín (1968) e Puebla (1979), em um contexto, no qual a Teologia da Libertação  se mostrava em grande esplendor e em que vários teólogos e teólogas inclusive europeus contribuíram efetivamente, com reconhecida qualidade. Dentre esses teólogos europeus, podemos lembrar nomes tais como José Comblin, Eduardo Hoornaert, entre outros (ambos Belgas, atuando sobretudo no Brasil); Ivan Illich, (Austríaco); Franz Hinkelammert (da Alemanha); Giuglio Girard (Itália); Jon Sobrino, Ignacio Ellacuría, José Virgil, Victor Codina (estes, nascidos na Espanha) - todos europeus a exemplo de José Ignacio Gonzales Faus - vivendo e trabalhando na América Latina ou colaborando com a produção teológica latino-americana. Todos desempenharam um papel relevante na elaboração e no testemunho desse novo modo de fazer teologia, na América Latina e para além deste continente. No Caso específico da experiência pedagógica vivenciada em El Salvador, sob a coordenação de Ignacio Ellacuría, e da qual também ṕarticipou José Ignacio Gonzales Faus, eis um fragmento do relato feito por Jon Sobrino: “Dois dias por semana todos os estudantes e todos os professores encontravam-se durante três horas. Todos tivemos de preparar os tópicos e sempre éramos incentivados a discuti-los coletivamente. Isto envolveu um estudo pessoal durante a semana, acompanhado de alguma atividade pastoral ou política, sempre num contexto crsitão.” (p.257).   

Essas linhas correspondem ao nosso jeito modesto de registrar a páscoa definitiva de González Faus, manifestando gratidão à Divina Ruah, por haver inspirado e conduzido esse nosso irmão no bom combate anunciado e testemunhado pela Boa Nova de Jesus de Nazaré.

Em homenagem a Ignacio Gonzales Faus compartilhamos abaixo o link que dá acesso ao “Testamento deste teólogo”, por ele elaborado, em 2024, cuja leitura recomendamos vivamente: eis o link:

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/649191-um-testamento-espiritual-o-que-eu-aprendi-artigo-de-jose-i-gonzalez-faus  



João Pessoa, 12/03/2025 


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