sexta-feira, 7 de março de 2025

Intérpretes do Brasil (XVI): A criatividade e o compromisso político de Darcy Ribeiro pelo Povo brasileiro


Alder Júlio Ferreira Calado 


Nesta série de textos de revisitação a diversos intérpretes do Brasil - homens e mulheres -, temos observado uma sequência atípica, nem sempre cronológica, até porque temos priorizado iniciar pelos mais recentes, buscando seguir a trilha marxiana, segundo a qual a chave anatómica do ser humano ajuda a melhor compreender a anatomia do macaco. Por outro lado, lembrado de que lidamos com seres inacabados, não estamos em busca de focar em gente perfeita, mas de rastrear figuras cuja trajetória testemunhe compromisso efetivo com a causa libertadora do nosso Povo. Darcy Ribeiro se apresenta, com efeito, portador de semelhante perfil: desde cedo, costumava repetir que sua vida constitui uma permanente busca de colar seu destino ao destino da humanidade. Ele se inclui na lista daqueles intelectuais tocados pelo compromisso histórico de lutar por um projeto de sociedade voltado para os interesses dos povos originários, ribeirinhos, comunidades quilombolas, agricultores, operários, estudantes, em breve, comprometido com os interesses dos “de baixo”.  Eis por que decidimos visitá-lo, desta vez. 


Darcy Ribeiro, pensador social, antropólogo, sociólogo, historiador, educador, militante e escritor brasileiro, tendo vivido em diversos países da América latina, como exilado (no Uruguai, na Venezuela, no Chile, e no Peru), nos quais se destacou como grande colaborador e militante da causa democrática, especialmente no campo da Educação, em particular na elaboração de projetos de Universidade.


Darcy Ribeiro, filho de Reginaldo Ribeiro dos Santos e Josefina Augusta da Silveira nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, em 26 de Outubro de 1922, tendo partido deste para outro plano, em 17 de Fevereiro de 1997, em Brasília. Após o ensino médio, decide iniciar o Curso de Medicina, do qual logo se afasta, preferindo cursar Antropologia, na Escola de Sociologia e Política, em São Paulo. Em seguida resolveu imergir, como Antropólogo,  em uma longa experiência de 10 anos (entre 1946 e 1956) de vivência na terra e nas comunidades indígenas do Pantanal, do Brasil Central e da Amazônia.  


É sobretudo a partir dos anos 60 que Darcy Ribeiro emerge na cena política, desde o início do Governo João Goulart, por quem foi nomeado, primeiro, como Ministro da Educação, após protagonizar como o principal fundador e Reitor da Universidade de Brasília (UnB). Dadas suas qualidades criativas, foi convidado pelo mesmo João Goulart para assumir a pasta de Ministro da Casa Civil, cargo no qual teve que enfrentar enormes desafios. Vivíamos, então, em um contexto de grande e crescente ebulição social e política, no qual crescem as mobilizações camponesas, operárias e estudantis pelas reformas de Base (A reforma Agrária, a Reforma Urbana, a Reforma da Educação, a Reforma Bancária, entre outras). Considerando o perfil das elites brasileiras, que Darcy Ribeiro costumava avaliar como das piores do mundo, não nos é difícil imaginar o reacionarismo desses setores e de seus aliados (os latifundiários, empresas multinacionais, sobretudo a serviço dos Estados Unidos, setores majoritários das Igrejas Cristãs, setores golpistas das Forças Armadas, entre outros), resultando no trágico golpe de estado de primeiro de abril de 1964, dando início a uma Ditadura empresarial militar, que duraria tenebrosos 21 anos.  


Diante das atrocidades cometidas pelos golpistas - subjugação do Congresso, crescentes restrições ao funcionamento da Justiça, prisões arbitrárias de diversas lideranças políticas, inclusive de governadores, de Professores Universitários, de estudantes e de uma multidão de sindicalistas e lideranças populares -, Darcy Ribeiro tal como tantas outras lideranças teve que recorrer ao exílio, primeiramente no Uruguai, depois na Venezuela, no Chile e no Peru. 


Foi, por exemplo, no período do exílio no Uruguai, que Darcy Ribeiro, com a ajuda de sua então companheira, Berta Ribeiro, Etnóloga, que ele vai se dedicar a uma profícua atividade de pesquisador e de escritor, ao mesmo tempo em que dava sequência a outros escritos já publicados. Nesta época, concluiu seu livro “A Universidade necessária” (seguido por tantos outros, tais como: “Os Índios e a Civilização”, “As Américas e a Civilização – Processo de Formação e Causas do Desenvolvimento Cultural Desigual dos Povos Americanos” (1970), “Os Brasileiros – Teoria do Brasil (1972)  “Uirá, sai à procura de Deus” (1974), “Configurações Histórico-Culturais dos Povos Americanos (1975), “Maíra” (1976), “Diários Índios – Os Urubus-Kaapor” (Companhia das Letras, 1996), “O Processo Civilizatório – Etapas da Evolução Sócio-Cultural” (1968), “O Dilema da América Latina – Estruturas do Poder e Forças Insurgentes “ (1978), “ O Mulo (1981) “Utopia Selvagem” (1982), “Migo”(1988) “O Povo Brasileiro – A Formação e o Sentido do Brasil” (1995).)


Como antes anotado, o percurso existencial de Darcy Ribeiro se mostra multifacetado: antropólogo, sociólogo, educador, agente político, pesquisador, escritor, militante político, múltiplas atividades desenvolvidas com muito empenho e paixão. Como antropólogo, não agiu apenas como cientista social, mas assumiu como suas as causas indígenas. Como educador, deixou suas principais marcas na criação da UnB e, 20 anos mais tarde, na concepção e implementação dos CIEPS (Centros Integrados de Educação Pública) (bem como na lei de diretrizes (Lei de Diretrizes de Base da Educação), na década de 1990). Como agente político, igualmente desempenhou sempre com brilhantismo, diferentes funções públicas: a de Ministro da Educação, no Governo João Goulart, a de Chefe da casa Civil do mesmo presidente, a de Vice-Governador do Rio de Janeiro, na gestão brizola (1983 a 1987), a de Senador da república pelo estado do Rio de Janeiro (1991 a 1997, ano em que falece, aos 74 anos).


Como militante político, filiado, em sua juventude ao PCB (Partido Comunista do Brasil); em seguida, até o governo João Goulart, ao PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e, após a chamada “redemocratização”, ao PDT (Partido Democrático-Trabalhista). Tendo exercido reconhecida influência para além das fileiras partidárias. Importa, ainda, tomar em consideração sua militância política e de intelectual, também exercida - agora como exilado -, em âmbito latino-americano, seja no Uruguai (principalmente na esfera Universitária), seja na Venezuela (também, no campo educacional), seja notadamente no Chile, onde foi importante assessor político do Presidente Allende, seja Perú, seja ainda no México. Cumpre, não menos, destacar que cada uma destas funções ele exerceu sempre de forma articulada e animada pelo seu compromisso constante de contribuir para a construção de uma nova humanidade. 


O que aprendemos do legado de Darcy Ribeiro 


Como costumamos fazer, na revisitação dos que temos tratado como “Intérpretes do Brasil”, também no caso de Darcy Ribeiro, tivemos a oportunidade de, além de relemos páginas de alguns textos seus, acessar diversas páginas virtuais, de modo a conferirmos diversas entrevistas, documentários e outras falas suas, dentre as quais conferimos duas entrevistas por ele concedidas ao  programa Roda Viva em diferentes momentos: Darcy Ribeiro no Roda Viva Retrô (1991);

Darcy Ribeiro no Roda Viva Retrô (1995) ; o documentário contendo depoimentos de diversos amigos e amigas, além de autoridades, sobre Darcy Ribeiro; 

Documentário sobre Darcy Ribeiro (2000);

Diálogos Impertinentes - A Utopia (com Rubem Alves) (1995);


Antes de lembrarmos, em alto relevo, brilhantes contribuições, recolhidas da revisitação do legado de Darcy Ribeiro, tal como registramos quanto as demais figuras de intérpretes do Brasil - homens e mulheres -, também reconhecemos suas insuficiências, seu inacabamento, algumas das quais por ele mesmo reconhecidas. Ao trazermos à tona relevantes contribuições do seu legado, em distintos planos da realidade brasileira e latino-americana, tomamos a liberdade de mencionar alguns traços de seu perfil que não consideramos propriamente exemplares. Um deles tem a ver com o seu rasgo de megalómano, dada a sua elevada auto-estima. Certa vez, por exemplo, uma de suas colaboradoras se negou a trabalhar com ele respondendo com ironia justificativa que “Deus não precisa de ajuda”... Ao mesmo tempo, impõe-se reconhecer sua atitude contida, ao retomar contato com sua colaboradora, informando-lhe, do outro lado da linha telefônica, que “é Deus quem lhe fala e lhe está pedindo ajuda”. 


Outro aspecto dissonante, de que se tem registro na biografia de Darcy Ribeiro, tem a ver com a enorme insatisfação de expressivos setores da Esquerda contra sua posição de liderança - ele era, então, Senador do PDT pelo Rio de Janeiro -, no processo de discussão e deliberação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), durante o qual assumiu uma posição de conciliação com setores liberais, no âmbito do sistema de ensino brasileiro, aprovação que abriu caminhos para os avanços do ensino particular, no Brasil, alinhados com a política educacional propagada pelo Banco Mundial.


Tratamos, agora, de destacar pontos de seu percurso existencial que consideramos mais relevantes. Um primeiro aspecto a ressaltar de seu legado, nos remete à sua paixão em defesa da causa dos povos originários, luta organicamente conectada ao seu profundo empenho em assegurar a elaboração de um projeto de Nação, contraposto ao legado das elites brasileiras contra quem não economizava palavras duras de indignação e revolta, considerando-as as piores elites do mundo ocidental. Elites filhas do escravismo brasileiro que nunca se dispuseram a pensar em um Brasil para o povo brasileiro.


Ao mesmo tempo, importa reconhecer seu denso legado bibliográfico, que bem reflete seus valores mais cultivados, enquanto um intelectual disposto a oferecer o melhor de si à causa libertadora do povo brasileiro e latino-americano. Imponhe-se, não menos, reconhecer seu empenho e sua luta por assegurar às classes populares seu sagrado direito a uma escola de qualidade, em tempo integral. Neste sentido, Darcy Ribeiro se acha entre os grandes pensadores brasileiros a priorizar, a exemplo de Anísio Teixeira (1900-1971), Florestan Fernandes (1920-1995) e de Paulo Freire (1921-1997), a luta pela Educação, em uma perspectiva libertadora.


Também aprendemos com Darcy Ribeiro a buscar incessantemente manter vivos os nossos sonhos de liberdade e de libertação, não apenas em uma dimensão pessoal, mas também como Povo. De fato, não obstante algum tropeço, Darcy Ribeiro constitui uma inspiração para o nosso compromisso e a nossa persistência de enfrentarmos, pessoal e coletivamente os desafios do nosso tempo. Rememorando, por exemplo, sua ação política, no conturbado período do Governo João Goulart, constatamos a firmeza de seu compromisso com a causa das reformas de base, principalmente a reforma agrária, pela qual muito lutou, inclusive como Ministro da Casa Civil, não devendo ainda subestimar seu protagonismo pessoal na formulação de relevantes iniciativas, no campo da Educação, a começar pela sua proposta de Universidade, na fundação da UnB, como também na criação e implementação dos CIEPS, buscando  assegurar tempo integral de Escola para todas as crianças e adolescentes, como passos decisivos, na construção de uma sociedade voltada para os interesses da maioria do Povo brasileiro.   


João Pessoa 07 de Março de 2025


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