terça-feira, 7 de abril de 2026

Em memória de Gregório Bezerra, de João Pedro Teixeira e de todas as vítimas da ditadura empresarial - militar

 Em memória de Gregório Bezerra, de João Pedro Teixeira e de todas as vítimas da ditadura empresarial - militar


Alder Júlio Ferreira Calado 


Centenas foram as vítimas fatais da Ditadura Empresarial - Militar, que infelicitou o Povo brasileiro, durante tenebrosos 21 anos. Com efeito, o Golpe de Estado de 1º de Abril de 1964 que, espalhando o terror, a tortura, os assassinatos, as prisões, os banimentos e a perseguição a milhares de brasileiros e brasileiras - do campo e da cidade; estudantes, camponeses, operários, governantes, membros de Igrejas Cristãs - durariam dolorosos 21 anos, de 1964 a 1985.


Exercitar a memória histórica desse período - e de outros - constitui uma tarefa fundamental para todos os que lutam por um Brasil justo, solidário e comprometido com a causa libertadora dos oprimidos a saga desta ditadura implicou terríveis retrocessos em nossa sociedade, à medida que fez imperar o medo, a censura e várias outras formas de violência. Numerosas e dilacerantes foram as formas de repressão utilizadas pelos protagonistas da Ditadura Empresarial - Militar, desde sua instalação pelo famigerado Golpe de Estado de primeiro de Abril de 1964. Aflige - nos considerar os sérios riscos que corremos, nas eleições passadas, de termos de volta - e ainda pior: pela via eleitoral - a repetição desse regime… Nas linhas que seguem, em homenagem a todas as vítimas da Ditadura, trataremos de prestar um tributo especial à figura de Gregório Bezerra e de João Pedro Teixeira pelo heroísmo e pela resiliência com que se portaram diante das perseguições e dos tormentos de que foram vítimas.


Comecemos por Gregório Bezerra, que nasceu em 13 de Março de 1900, no Município de Panelas - PE, foi um camponês nordestino, de família de agricultores sem terra. Desde cedo, sentiu - se profundamente tocado pela sede de Verdade e Justiça. Ainda muito jovem, começou a participar de manifestações e de greves, em Recife, tendo por isso sido preso várias vezes entrando para o Exército. Já adulto conseguiu alfabetizar - se e muito se empenhou, desde então, em tomar a sério a leitura de Jornais e de textos políticos sob a influência do partido Comunista do Brasil (PCB), do qual se tornaria um fiel militante, ao longo de sua vida em razão de sua militância, em condição de clandestinidade, foi preso várias vezes. Nos inícios dos anos 60, graças a certa abertura, muito se engajou nas lutas dos trabalhadores rurais, especialmente em Pernambuco. Nos dias que antecederam o Golpe de 64, acabou preso, quando se solidariza com os camponeses da Mata Sul de Pernambuco (especialmente em Água Preta, perto de Palmares) , razão pela qual recebeu ordem de prisão, tendo sido conduzido a Recife, onde foi impiedosamente torturado, inclusive sendo obrigado a caminhar descalço em cima de soda Cáustica, depois de haver sido longamente espancado e ficar ensanguentado. Achando pouco seus torturadores amarraram cordas em seu pescoço, e puxando - as, uma a sua direita, outra à sua esquerda e outra para atrás pelas ruas de Recife a proferir -lhe insultos e impropérios incitando o povo a espancá - lo, sob os protestos inclusive da esposa de um dos torturadores…


Após experimentar anos de prisão, ele foi finalmente resgatado, graças aos organizadores do sequestro do Embaixador dos Estados Unidos, realizado em 04/09/1969, que exigiram para o resgate do Embaixador a libertação de 15 presos políticos, dos quais o nome de Gregório Bezerra figurava como o primeiro da lista. Gregório Bezerra passou o seu exílio na URSS, tendo retornado, em 1979, por conta da Lei da Anistia. Ele ainda teve tempo de registrar e publicar suas Memórias, (em 2 volumes, que li e reli, profundamente emocionado) vindo a falecer em 21/10/1983.


Outra figura a quem prestamos nossa homenagem chama - se João Pedro Teixeira que nasceu em 04/03/1918 em Pilõezinhos - PB. Desde cedo, mostrou - se solidário aos trabalhadores sem terra, especialmente por conta das frequentes humilhações e injustiças por eles sofridas pelos seus patrões, grandes latifundiários que os mantinham como escravos em suas propriedades obrigando - os a trabalharem sem qualquer Direito trabalhista.


Antes dos 30 anos, enamorou - se de Elisabeth Teixeira, contra a vontade de seu pai, um proprietário de terras que desprezava João Pedro, por ser pobre e negro. Eles tiveram que fugir, para se casarem. Ao mesmo tempo, os recém casados se mostravam muito solidários com o sofrimento dos trabalhadores sem terra. Em meados dos anos 50, foi fundada, em Vitória de Santo Antão - PE o primeiro núcleo das Ligas camponesas, que anos depois , João Pedro e outros companheiros (João Alfredo Dias, mais conhecido como Nego Fuba; Pedro Fazendeiro e outros) também fundaram em Sapé. A Liga de Sapé graças ao empenho e a luta constante, de João Pedro e seus companheiros se tornaria a mais importante da região, sendo motivo de crescente oposição e perseguição por parte dos latifundiários da região especialmente o famigerado Grupo Da Várzea, que, diante da resistência dos camponeses da região e do crescimento da Liga de Sapé trataram de planejar o assassinato de João Pedro Teixeira, executado em 02 de Abril de 1962, quando, ao decer do onibus vindo de João Pessoa e trazendo livros e cadernos para os filhos, foi executado a tiros a mando do Grupo da Várzea.


O assassinato de João Pedro Teixeira suscitou uma imensa onde de revolta e de solidariedade, pela região, pelo País e pelo mundo seu funeral contou com numerosas presenças de figuras famosas, a exemplo, do Deputado Francisco Julião além da demosntração de solidariedade a família de João Pedro, por parte do Governo de Cuba, que se prontificou a acolher toda a família naquele País tendo um de seus filhos sido educado na Ilha, onde cursou Medicina. 


Em solidariedade e em memória ativa aos trabalhadores e trabalhadoras do Campo, foi fundado (e permanece em plena atividade) o Memorial das Ligas e das Lutas Camponesas no Município de Sapé, mais precisamente na Comunidade de Antas, na mesma casa em que residiram João Pedro, Elizabeth e seus 11 filhos. Recomendamos vivamente constantes visitas ao Memorial, onde se acha vasto material sobre as Ligas Camponesas, especialmente a de Sapé, e seus protagonistas, e seu respectivo site: https://www.ligascamponesas.org.br/


Exercitar a memória histórica dos oprimidos significa renovação e a atualização de nossos compromissos de militantes engajados nas lutas sociais e nos Movimentos Populares, na construção de uma nova sociedade, alternativa à barbárie capitalista.   


João Pessoa, 07 de Abril de 2026               

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