Fazendo memória de Camilo Torres: notas a partir de seus “Escritos sobre Cristianismo e Revolução"*
Alder Júlio Ferreira Calado
Mal havia sido concluído o Concílio Vaticano II (dezembro de 1965), e prosseguia, deletério, o “rumor de botas”, no Brasil e, em seguida, no Cone Sul. Os Movimentos sociais (os Estudantes, os Camponeses, os Operários e outros segmentos sociais) ensaiavam a resistência possível. Na Colômbia, contra uma elite econômica das mais perversas da América Latina, apoiada pela hierarquia da Igreja Católica, ecoavam vozes proféticas de resistência e de enfrentamento. Entre elas, a voz profética de um sacerdote: Camilo Torres Restrepo (1929 - 1966).
A impactante reverência ainda hoje despertada pela figura revolucionária de Camilo Torres em militantes jovens e adultos de nossa Pátria Grande e de tantas outras regiões do mundo não implica qualquer desconhecimento das conjunturas então vividas e as de hoje. No entanto, a figura de Camilo Torres segue sendo uma fagulha luminosa para a nossa caminhada atual, especialmente inspirados no exemplo do “Amor eficaz” por ele testemunhado como a grande marca de sua vocação martirial, em defesa e promoção dos interesses e das mais profundas aspirações do povo oprimido.
Nas linhas que seguem, tratamos de rememorar aspectos relevantes do seu sentir, do seu pensar, e do seu agir, como ser humano, como cidadão, como cristão e como revolucionário. Para tanto nos servimos da leitura atenta do livro “Escritos sobre cristianismo e revolução”, publicado pela Editora Alma Revolucionária, após outras publicações, no México e em outros países inclusive no Brasil, nos inícios dos anos 80 , pela Editora Global, com prefácio do grande Revolucionário Pedro Casaldáliga. O prefácio da última edição é da lavra de Marcelo Barros, teólogo da Libertação comprometido com a causa revolucionária de nossa “Pátria Grande”.
O livro que comentamos, vem distribuído em 8 capítulos dos quais nos limitaremos a compartilhar breves extratos de autoria do próprio Camilo Torres. Cuidamos de mencionar os títulos (com breves comentários dos capítulos).
O capítulo 1º traz como título “O Ideal de Servir (1947 - 1954)”. Importa ressaltar a marca diaconal que caracteriza, desde o início, o sentido do ministério presbiteral. Dele lemos palavras de compromisso tais como: “Não devemos nos santificar apenas para nós mesmos. Devemos tornar santos os outros. Devemos preparar suas almas para que Deus as receba puras. Relacionar cada ato de nossa vida com almas, para a glória de Deus. Temos que ser luz do mundo. É urgente que tomemos consciência de nossa responsabilidade” (p. 63).
O capítulo 2º sob o título “Apologia do Cristianismo Ideal (1956)”, resultante de uma entrevista abordando diversos temas sociais e econômicos. O capítulo 2 traz o que já no final da pergunta, o entrevistado é o que considera de mais relevante da fé cristã: “Uma coisa é que o ser humano seja livre por natureza, e outra é que o seu livre arbítrio não pode ser cerceado ou mesmo destruído por circunstâncias exteriores. Portanto, Abbé Pierre, com base na melhoria econômica e social, pretende conseguir uma melhoria moral e uma cristianização mais direta e objetiva da vida espiritual”. (p.79)
O capítulo 3º se intitula “Em busca do humanismo cristão” (1956 - 1963) por ocasião de um grande evento nacional, realizado na Colômbia, em 1956, reunindo os capelães de todas as Universidades do País. Camilo Torres, desde a França, enviou sua contribuição. Nela, sustentava por exemplo, “A Universidade sempre teve o papel de formar os líderes de um país, tanto sob o ponto de vista científico, como sob o ponto de vista ético. Sob o ponto de vista científico, provendo os futuros profissionais com os conhecimentos indispensáveis para investigar e resolver os problemas específicos de seu país, de sua sociedade. Sob o ponto de vista ético, em dois sentidos: orientando suas preocupações científicas mais para servir a Deus e ao próximo do que a si próprios; e ensinando-os a empregar essa ciência sem prejuízo dos direitos de Deus e dos demais seres humanos” (p. 103).
O capítulo 4º se intitula “A essência do cristianismo e o compromisso com uma mudança de estruturas” (1964), “O trabalho apostólico consiste em todo aquele que oriente as pessoas para que tenham uma vida sobrenatural. Este trabalho é sempre eficaz, ainda que seus resultados não sejam visíveis. No entanto, há vários indícios da existência da vida sobrenatural que condicionam a ação apostólica. É imṕortante que a ação apostólica seja orientada de modo a produzir esses indícios como meios e não como fins”, (p. 134).
“Conflitos com a estrutura eclesiástica”, o 5º capítulo põe em foco as estruturas sociais injustas que causam a opressão e a exploração aos pobres do País, por conta dos privilégios concedidos aos ricos, com a complacência da alta hierarquia da Igreja. Eis como se expressa Camilo Torres:
“Nosso povo é, em sua maioria, católico. Eu diria que, mais do que católico, é um povo de batizados, porque se a essência do catolicismo, tal como a essência do cristianismo, é o amor, tanto que São Paulo nos diz que aquele que ama seu próximo cumpre a lei, então teríamos um país dilacerado pela violência, um país onde as viúvas, os órfãos, os pobres são oprimidos”, (p. 169).
O capítulo 6º foca as “Opções radicais como exigências de sua fé”, em que Camilo Torres justifica, de modo profundo, as razões que o levaram a suspender temporariamente o exercício de sua Ministério Sacerdotal, destacando os fundamentos evangélicos que o levaram a esta posição revolucionária, dada a eficácia do amor cristão. Neste capítulo ele afirma:
“Um verdadeiro cristão deve colaborar com todos aqueles revolucionários que se propuserem a mudar as atuais estruturas sociais, injustas e opressoras. É essa mudança que caracteriza o mundo de hoje. O que está acontecendo na Colômbia faz parte disso. E o fator determinante é a pressão que vem de baixo, tanto aqui como no Vietnã. Por isso, a intervenção dos Estados Unidos no Vietnã, que é um verdadeiro crime, não poderá prevalecer, por mais armas que utilizem e por mais gente que matem. Eles serão derrotados. (...) Claro; digo e repito. O cristão, como tal, se quiser realmente ser cristão, e não apenas por palavras, deve participar ativamente nas mudanças, A fé passiva não basta, para aproximar - se concretamente, vivenciar o sentimento da fraternidade humana. Esse sentimento se manifesta, hoje, nos movimentos revolucionários dos povos, na necessidade de unir os países fracos e oprimidos, para pôr fim à exploração. Em tudo isso, a posição está claramente deste lado, e não do lado dos opressores” (p. 221 - 222).
“Elementos para os diálogos com o marxismo” - eis o que figura como título do capítulo 7º, do qual expomos parte do seu início:
“A partir de diversos escritos de Camilo, reunimos aqui os trechos que nos revelam, mais claramente, sua posição sobre o marxismo, que pode ser resumida nestes pontos. No campo filosófico, existem incompatibilidades entre marxismo e cristianismo. Por trás do anticomunismo da sociedade se escondem os mecanismo de defesa da classe dominante, por trás anticomunismo da Igreja, que aparece como se fosse a sua tarefa principal, se esconde um profundo desvio da sua missão, que é a de tornar o amor, para a qual lhe serviriam muitos elementos do marxismo. Aspectos técnicos do marxismo: seus postulados socioeconômicos não são incompatíveis com a fé cristã e são aceitáveis. A crítica feita ao cristianismo pelo marxismo, que o acusa de entorpecer a consciência dos oprimidos e de legitimar sistemas injustos, denuncia, de forma legítima, as deformações do cristianismo. Há muitos elementos comuns aos marxistas e cristãos, tanto sob o ponto de vista econômico, político e social, como sob o ponto de vista filosófico, por serem ambos “humanismo”.” (p. 233 e 234).
O último capítulo deste livro tem por título “Palavras de ordem”, que vale a pena reproduzir, por completo, ao final do qual trataremos de registrar algumas observações analíticas acerca do conjunto do livro. Vamos à transcrição deste último capítulo:
“Frente Unido (frente Unida), nº 2, em 2 de Setembro de 1965. Consideramos como principal objetivo da luta revolucionária a união e a organização da classe popular colombiana para a tomada do poder. Apoiamos a união em torno do espírito e das linhas gerais da plataforma da Frente Unida do Povo. Defendemos uma organização popular de baixo para cima dos vilarejos distantes para o povoado, dos bairros ao centro, do campo à cidade. Para isto, é necessário organizar toda a classe popular colombiana em grupos de 5 ou 10, sem distinção entre filiados a estes grupos e movimentos, com a única condição de que aceitem as linhas gerais da plataforma da Frente Unida do Povo”.
“A primeira palavra de ordem para estes comandos da Frente Unida será a de discutir e divulgar a plataforma. Esta não foi entregue aos colombianos como um dogma ou como um programa definitivo. É uma proposta a ser debitada pela classe popular colombiana, para que esta classe a aplicará, quando estiver no poder. A segunda palavra de ordem será divulgar a plataforma por todos os meios: seja impressa, seja por mimeógrafo, a máquina, à mão, gritando - a pelos campos e ruas da Colômbia, lendo - a ao ouvido do compatriota analfabeto. A terceira palavra de ordem será organizar a distribuição e o financiamento do jornal Frente Unido. A oligarquia não financiará nem distribuirá uma publicação destinada a acabar com ela. Em um jornal revolucionário, são mais importantes as numerosas e pequenas contribuições dos pobres do que as contribuições impuras e suspeitas dos ricos”.
“O Jornal custa um preso: o peso semanal da revolução (um pouco menos que o valor de uma cerveja), que se destina não apenas ao financiamento da edição, mas do aparato político mínimo e necessário à tomada do poder por parte da classe popular. A Frente Unida será como o fio condutor que uniram os comandos populares e criará uma grande rede, que sustentará toda a organização da classe trabalhadora e camponesa. A quarta palavra de ordem será eleger os chefes dos comandos, formar comandos na zona rural, comandos de Aldeias e Vilarejos distantes, comandos de fábricas, comandos de bairros, de municípios e de departamento para que, no final do ano, possamos reunir uma grande convenção popular em Bogotá - que eleja um comando nacional da revolução - e determinar as táticas seguintes para o ataque definitivo ao poder”.
“A esta convenção não deverão comparecer os mais poderosos, nem os mais ricos, nem os mais instruídos, nem os de “boa família”, nem os chefes políticos opressores e seus sectários. A esta convenção compareceram os fracos, os ignorantes, os imprudentes - segundo a visão da oligarquia -, os que não são bem - nascidos, os famintos, os mal vestidos, mas que têm o ideal da revolução na consciência e o fogo da luta por seus irmãos em seu coração e em seus braços”.
“Por ora, os comandos municipais, regionais e departamentais, que forem eleitos, serão provisórios. Dele participarão, sem discriminação, todos os colombianos, a título eminentemente pessoal. Podem ser representantes de sindicatos de trabalhadores, camponeses e estudantes, podem ser do grupo dos não alinhados politicamente. Nos comandos provisórios da Frente Unida ninguém será considerado pelo que representa, mas sim pelo seu trabalho na revolução. Por ora, a eficácia na organização será aprovada com palavras de ordem provenientes do comitê provisório que funciona a nível nacional. Quando for construído o comando nacional da Frente Unida, como resultado da convenção em Bogotá, este dará, as palavras de ordem revolucionária e determinará os passos táticos rumo à tomada do poder pela classe popular. A tomada do poder poderá ser súbita ou progressiva. Tudo depende, por um lado, da unidade e organização da classe popular; e por outro lado, da atitude - beligerante ou - não da oligarquia. A classe popular não decide sobre o modo como será feita a tomada do poder; decidiu que haverá de tomá - la cedo ou tarde. A oligarquia é que deve decidir como irá entregá - lo. Se entregá - lo pacificamente, a classe popular o tomará pacificamente. Se não quiser entregá - lo por bem, a classe popular tomará por mal”.
“Pela união da classe popular, até a morte.
Pela organização da classe popular, até a morte.
Pela tomada do poder para a classe popular, até a morte”… (p. 259 - 262)
O Quê recolher do legado de Camilo Torres?
Sessenta e seis anos após a entrega martirial de Camilo Torres, vivemos uma conjuntura histórica - internacional, latino - americana e nacional de profundos e crescentes impasses econômicos, políticos, culturais e religiosos -, a nos desafiarem, a todo momento enquanto humanos, enquanto trabalhadores e trabalhadoras, enquanto cidadãs e cidadãos e enquanto cristãos. Mesmo sabendo não serem propriamente idênticos - por exemplo, no que tange às estratégias militares -, da trajetória vivida por Camilo Torres e os que abraçaram a Frente Unida da Colômbia, somos instados a fazer densa memória, buscando assumir o compromisso revolucionário conforme as exigências de hoje. Um primeiro aspecto a destacar deste compromisso revolucionário é a fidelidade à causa libertadora dos oprimidos, embasados na constante busca de eficácia do amor às vítimas não há lugar para sentimento “morno”. Precisamos testemunhar efetivamente, nas lutas do dia a dia, nosso compromisso libertário com as grandes e pequenas causas do Planeta, dos humanos e dos demais viventes.
Uma forma eficaz de assumir e renovar tal compromisso revolucionário consiste justamente no exercício cotidiano da memória histórica dos oprimidos, em busca de inspiração e de instrumentos fecundos para enfrentar de modo exitoso os antigos e novos desafios. Para tanto, precisamos seguir exercitando uma leitura crítica e contínua do mundo de hoje, recorrendo a fontes alternativas de informação e de análise, ao mesmo tempo em que seguimos comprometidos com os processos permanentes de organização, de formação e de lutas, buscando inclusive superar a tendência a tudo esperar dos processos eleitorais, de fôlego curto e ilusório ainda que não devamos desprezá - lo de todo, especialmente correndo o risco de retorno dos golpistas da ultra - Direita.
João Pessoa, 14 de Abril de 2026.
* Este texto foi digitado por Elizabete Santos de Pontes, e revisado por Eliana Calado. Ao expressar seu agradecimento, o autor também agradece à Dra. Zélia Cristina Pedrosa do Nascimento por me haver presenteado com este livro.
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