quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Fecundas experiências comunitárias: breves notas

Fecundas experiências comunitárias: breves notas 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Temos sido constantemente instigados a compartilhar relatos de experiências comunitárias, das quais temos participado, ora na Paraíba ora em Pernambuco. Nas linhas que seguem, trataremos de compartilhar apenas uma delas, fornecendo breves notas. Aqui nos restringimos ao encontro realizado em Caruaru - PE. Trata - se do encontro da CPT Nordeste II, que teve lugar no esplêndido Santuário das CEBs, no Sítio Juriti, a poucos quilômetros de Caruaru.     


Nos dias 11, 12 e 13 de Agosto passados, a Comissão Pastoral da Terra, (CPT Nordeste II, composta por integrantes atuando nos Estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte), concluindo um módulo de formação Sobre a figura de Paulo Freire, e especialmente, do seu livro “Pedagogia do Oprimido”, promoveu o frutuoso debate sobre tal experiência de estudos, para a qual foram convidados e convidadas a participar os membros do conselho e da Coordenação. Importa assinalar que se tratou apenas do último encontro formativo acerca de “Pedagogia do Oprimido” em vista de avaliar e debater os aportes desta obra, em busca de uma leitura crítica de nossa realidade, como primeiro passo de enfrentamento e superação e de seus dilemas. 


Os estudos aí realizados foram sempre acompanhados de um clima de intensa participação de cooperação, de entusiasmo, de mútua ajuda, não faltando marcantes momentos de músicas, de cânticos e de oração. Desde o dia anterior, as pessoas foram chegando sempre bem acolhidas pela irmã Hermínia e com a participação ao longo do encontro, das pessoas responsáveis pela cozinha da casa. Os que chegaram no dia anterior, a exemplo de Pe. Hermínio Canova e de Tânia Sousa e outras já haviam trabalhado diversos aspectos da atual conjuntura, em uma dinâmica semelhante a de um Círculo de Cultura, em que diversos aspectos do atual cenário internacional e nacional foram puxados pelo Pe. Hermínio, com a colaboração de Plácido Júnior e várias outras pessoas.            


Realçando alguns dados biográficos sobre Paulo Freire, situando-o em seu contexto


À semelhança de tantos outros autores e autoras, também Paulo Freire (1921-1997) não viveu alheio nem isolado das condições históricas do seu tempo e de sua gente. Nascido em Recife de uma família de classe média, ainda criança teve que amargar, com sua família, as consequências da chamada crise de 1929 que afetou duramente a economia brasileira. Um dos seus efeitos também se refletiu sobre a família de Paulo Freire, forçada que se sentiu a mudar de residência e de cidade, indo morar em casa mais simples, situada no município de Jaboatão-PE.  


Contando com pais e irmãos afetuosos, Paulo Freire teve uma infância/adolescência de muito acompanhamento familiar e de intensa convivência com os colegas de rua. Foi alfabetizado em casa, inclusive servindo-se de gravetos para escrever a sombra da frondosa mangueira. Desde cedo, mostrou-se uma criança apaixonada pelo saber para o que nunca lhe faltou o incentivo dos pais e dos irmãos. Tendo concluído o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, a semelhança de tantos jovens de sua geração passou a cursar Direito pelo qual não nutria tanto interesse. Concluído o Curso de Direito, ao assumir sua primeira causa, resolveu desistir da carreira, decisão que encontrou apoio em sua esposa Elza Maia Costa Freire, que se revelaria de enorme influência sobre o marido na escolha de sua verdadeira vocação: a Educação, campo no qual Elza já militava. 


Desde então Freire passa a atuar em sucessivas experiências pedagógicas, especialmente no campo da Educação Popular no qual se mostraria exímio militante e pesquisador. Foi um dos integrantes do conhecido Movimento de Cultura Popular de Pernambuco, bem como a grande referência no que tange o processo de alfabetização de adultos, tornando-se famoso pela criação do sistema Paulo Freire. Para tanto, vale enfatizar seu compromisso com a Extensão Popular, graças sobretudo ao seu trabalho à frente do serviço de Extensão Cultural da então Universidade de Recife, do qual foi o criador.    


Tal foi a qualidade do trabalho realizado, também neste período (inícios dos anos 1960), que ele não tardaria a ser convidado pelo então Ministro da Educação, Paulo de Tarso Santos, a liderar Campanha Nacional de Alfabetização, em especial a que teve lugar em Angicos-RN, em 1963 que resultou famosa pelos frutos colhidos: ter conseguido alfabetizar cerca de 300 pessoas, em menos de 60 dias, graças a aplicação do seu conhecido método (o das palavras geradoras escolhidas pela sua Equipe, pela dinâmica criativa dos “círculos de cultura”). 


Em meio a um contexto de enorme efervescência política protagonizada, por um lado, crescente mobilização popular em defesa pelas “Reformas de Base” (Reforma Agrária, Reforma Urbana, Reforma Educacional, Reforma Bancária e outras) e, por outro lado, pela crescente reação da classe dominante, em conluio com o governo dos Estados Unidos, veio a ser instalado em 1ºde Abril de 1964, o tenebroso Golpe Empresarial-militar do qual resultaram perseguições e prisões (inclusive de Paulo Freire), cassações de lideranças políticas sindicais estudantis e populares,inaugurando um longo período de Ditadura que durou 21 anos. Centenas de brasileiros e brasileiras inclusive Paulo Freire tiveram que buscar asilo em outros países.    


Antes de partir para seu primeiro exílio, na Bolívia, como ele próprio narra em seu livro “pedagogia da pergunta” (Paz e Terra, 1985), elaborado em co-autoria com Antonio Faundez, Paulo Freire, juntamente com dezenas de intelectuais, teve que amargar 70 dias de prisão. Desta experiência, registra um episódio importante, relativo à conduta exemplar de um companheiro de cela Clodomir Morais, um comunista ateu, uma das principais lideranças das Ligas Camponesas, que era o último a fazer a refeição, pois se ocupava de distribuir primeiro a comida a todos os colegas. Após o período de prisão, houve por bem pedir exílio ao Governo da Bolívia daí seguindo, pouco tempo depois, para o Chile, onde permaneceu exilado por vários anos, tempo durante o qual, escreveu textos como “Educação como Prática da Liberdade” e “Extensão ou Comunicação?” Além de “Pedagogia do Oprimido” foi convidado a ocupar cargos de relevância no Governo Chileno, especialmente no campo da Educação Popular junto aos camponeses, em luta pela Reforma Agrária.


No final dos anos 60, em viagem feita aos Estados Unidos, entre vários interlocutores e interlocutoras, teve a oportunidade de encontrar-se, em Princeton, com o teólogo protestante Richard Shaull, orientador da Tese de Rubem Alves, primeiro teólogo a utilizar a expressão “Teologia da Libertação”. Naquela ocasião Paulo Freire despertou especial atenção em Richard Shaull por haver-lhe compartilhado os manuscritos originais de sua “Pedagogia do Oprimido". De tão positivamente impressionado, Shaull apressou-se em fotografar os originais daquele livro, empenhando-se em sua rápida publicação, razão pela qual o “Pedagogia do Oprimido” apareceu publicado, primeiro, em Inglês.


Graças a sua crescente influência, em âmbito internacional, Paulo Freire não tardarria a ser convidado a integrar a condução dos serviços educacionais promovidos pelo Conselho Mundial de Igrejas, uma enorme rede de Igrejas Protestantes, Organizadas em escala Mundial, com sede em Genebra, Suíça. Sempre trabalhando em equipe, a partir de então, Freire vai desenvolver um fecundo período de esteiras interlocuções com Educadores dos países africanos - ainda em processo de interdepentização e sua metrópole ocidental (Portugal). Passa então a viajar e a se corresponder com frequência, para diversos países, tais como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Destas vastas e fecundas experiências e colaboração ao processo de alfabetização, nestes países, vale destacar, pelo menos, dois casos: sua vasta correspondência com lideranças revolucionárias destes países, inclusive com Amílcar Cabral e os registros de seu trabalho e de sua Equipe com educadores e educadoras africanos, o que se pode conferir em seu conhecido livro “Cartas a Guiné-Bissau” (Paz e Terra, 1977).


Por força da Lei de Anistia (1979), além de tantos outros exilados em diversos países, Paulo Freire também retorna ao Brasil, em 1980, tendo trabalhado tanto na UNICAMP (Campinas-SP), quanto na prestigiada PUC de São Paulo, sob a animação profética de Dom Paulo Evaristo Arns (nascido menos de uma semana antes de Paulo Freire, em 14/09/1921), uma liderança preciosa como força de resistência contra a Ditadura Empresarial-Militar. Desde o seu retorno ao Brasil, Paulo Freire se dispôs incansavelmente a contribuir com grandes causas sociais, políticas e pedagógicas. Uma de suas contribuições se deu no contexto da fundação do Partido dos Trabalhadores, tendo sido ele um dos fundadores do PT. Em outra contribuição relevante, Paulo Freire esteve envolvido no grupo que fundou o CENTRU (Centro de Educação dos Trabalhadores Rurais), de cujas lideranças fizeram parte, além de Paulo Freire, figuras tais como Manoel da Conceição, (Maranhão), Margarida Maria Alves (Paraíba), e Luiz Silva (Paraíba). Movimento que atuou sobretudo no Nordeste, protagonizado por militantes populares e sindicais. 


Além disso Paulo Freire atendia a frequentes convites internacionais e nacionais, em diversos Estados brasileiros especialmente no Nordeste, sobre apenas dois deles, uma brevíssima notícia: em Juazeiro-BA a convite de Dom José Rodrigues então Bispo diocesano, ministrou curso de Educação Popular aos grupos pastorais daquela Diocese. A convite do conhecido teólogo José Comblin também esteve compartilhando instigantes reflexões com os jovens formandos do Centro de Formação Missionária, em Serra Redonda-PB. No entanto, sob conectar suas intensas atividades militantes e seu compromisso profissional, como docente e orientador, especialmente PUC-SP, oque não o impediu de atender ao convite da então Prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, para ocupar o cargo de Secretário de Educação da Cidade de São Paulo. Fumante contumaz, Paulo Freire foi acometido de problema pulmonar, vindo a falecer em 02 de Maio de 1997, aos 75 anos.   


Problematizando nossa leitura de “Pedagogia do Oprimido


Após o resumo detalhado de cada capítulo, feito pelas equipes e apresentado pela coordenadora dos trabalhos, cuidamos de exercitar uma reflexão problematizadora e dialogante com as pessoas participantes do Encontro, atentando especialmente para as principais categorias trabalhadas por Freire, neste livro: “Dialogicidade”, “Criticidade”,”Conscientização”, “Inédito viável”... Na visão de Paulo Freire, atitude mais fecunda característica das classes populares, vítimas de qualquer sistema de opressão - mormente no caso do modo de produção capitalista - é sua disposição ao diálogo, que há de ser travado com os iguais, com os semelhantes e com os diferentes, excluída apenas a viabilidade de se dialogar com os antagônicos pelo fato mesmo de estes se auto-excluírem do exercício do diálogo. Inútil e contraproducente tentar dialogar com a classe dominante - os grande grupos proprietários dos meios de produção tais como os grandes proprietários e controladores das “big techs” (as grandes plataformas), as grandes empresas transnacionais e nacionais, os banqueiros, o agronegócio, os grandes laboratórios, entre outros. Neste sentido convém sempre alertar de que todas as vezes em que as classes populares aceitaram “dialogar” ou fazer aliança com os setores dominantes da sociedade levaram sempre a pior. 


“Criticidade” constitui outra categoria - chave de “Pedagogia do Oprimido”, graças a qual as classes populares são instadas a passarem de uma “consciência ingênua” a uma “consciência crítica”, por meio do aprendizado comum da leitura de mundo, como condição necessária a busca de transformação da realidade. Eis oque constitui “Conscientização”. Em Freire, o conceito de criticidade se acha grávido do compromisso revolucionário. De pouco vale fazer - se uma análise crítica da realidade, se não for como exercício de sua transformação. Razão pela qual, em Freire, o conceito de “Inédito Viável” aparece como um farol a iluminar caminhos de transformação da realidade social, em busca da construção processual de um novo modo de produção, de consumo e de gestão societal, sempre em busca de uma nova sociedade alternativa à barbárie capitalista. 


João Pessoa, 24 de Setembro de 2026. 

  















       

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Ajudando a ressoar o Grito dos Excluídos/2026

Ajudando a ressoar o Grito dos Excluídos/2026


Alder Júlio Ferreira Calado


Pela 32º edição, realiza-se, nas mais diversas áreas do Brasil, mais um “Grito dos Excluídos e Excluídas”, um relevante acontecimento social resultante das frutuosas “Semanas sociais”, promovidas pela CNBB, entre 1993 e 1995, quando ainda convivíamos com uma geração de Bispos profetas. Durante a chamada Semana da Pátria, culminando no dia 07 de Setembro, após fecundos preparativos, e inspirados em um tema alusivo aos principais desafios da conjuntura brasileira, as classes populares tomam as ruas de centenas de municípios brasileiros, animadas pelas Pastorais Sociais, os Movimentos Populares e os Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, a protestarem e reivindicarem o cumprimento efetivo de políticas públicas.  


Neste ano, o Grito dos Excluídos e Excluídas tem por tema “Vida em Primeiro Lugar: Na defesa da Terra, da Paz, e Moradia, erguemos a voz: Mulheres vivas e Soberania!” a edição do Grito deste ano se realiza em uma conjuntura extremamente distópica, seja em escala mundial - célere avanço das forças nazi-fascistas liderado pelo Império americano-sionista, inclusive espalhando-se pela América Latina, seja pela grave ameaça perpretada mais uma vez, a frágil “Democracia” brasileira, mais uma vez ameaçada pela continuidade golpista, mais do que antes favorecida pela susseção de gigantescos escândalos financeiros promovidos pela “fina flor” da classe dominante: as grandes plataformas, os bancos privados, as diversas instâncias do Estado, com a cumplicidade da mídia hegemônica. 


Refletindo sobre o sentido do Grito deste ano, tratamos de realçar as inquietações maiores contidas no lema da presente edição. A reafirmação de “Vida em primeiro lugar!” segue insistindo e resistindo ao sistema de morte - dos humanos e demais viventes -, em permanente agressão monstruosa aos nossos biomas, bem como às classes populares, das quais as Mulheres constituem a maioria, quer na sociedade, quer nas Igrejas, sem que tenhamos sinais promissores de efetiva mudança tanto na sociedade quanto nas Igrejas. Tanto nos espaços societais quanto no âmbito das próprias Igrejas cristãs, o que mais constatamos é a vasta prevalência de um silêncio ensurdecedor, dando a entender ser inútil esperar mudança mais consistente da parte da hierarquia das Igrejas Cristãs - um claro convite aos diversos Movimentos de Mulheres a ensaiarem passos mais ousados de reverem seu apoio substantivo as estruturas eclesiásticas vigentes. O que seria das Igrejas Cristãs sem a participação das mulheres? Com relação mais direta ao crescimento, no Brasil e alhures, dos índices de feminicídios e de outras formas de violência contra as mulheres, não temos o direito de nos resignar, mas o dever de nos juntarmos aos diversos Movimentos de Mulheres, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, a exemplo da Marcha Mundial de Mulheres, da Marcha das Margaridas, do Movimento das Mulheres Indígenas, Movimento das Mulheres Negras, entre outros.


Outra bandeira constante do lema do Grito deste ano acena para a luta pela Terra, no campo e na cidade. Já não é possível tolerar que em um país tão extenso, apenas pouco mais de 20% das terras agrícolas estejam cuidadas por quem nelas vive e trabalha: os trabalhadores e trabalhadoras da Agricultura Familiar. Não é aceitável que cerca de 80% das Terras Agricultáveis sejam controladas por uma pequena minoria da população, detentora-mor das riquezas do Agronegócio, que envenena o subsolo, os rios, a Terra, as plantas e os animais, inclusive os seres humanos. Menos ainda aceitável por conta dos gravíssimos conflitos daí recorrentes, haja vista os registros de assassinatos e de conflitos registrados pela CPT e pelo CIMI.


Moradia constitui outro sonoro grito. Já não é possível tolerar a existência de tanta gente sem casa, em um país tão rico em terras, em minérios, em florestas, em água, etc. Conforme dados de pesquisas feitas no âmbito da UFMG, e divulgados pela Agência Brasil, lidamos com dados escandalosos: eis que mais de 365 mil pessoas estão em situação de rua no Brasil. Como não reconhecer a relevância social do trabalho daqueles e daquelas que, pelo Brasil afora, a exemplo de Pé. Júlio Lancellotti que se batem dia a dia, ao lado do povo de rua, lutando pelo reconhecimento de sua dignidade?! E o que dizer de milhares de casas e apartamentos fechados, durantes longos períodos, apenas para atenderem ao luxo de famílias ricas? De fato, o problema de moradia constitui uma de nossas tremendas chagas sociais.


A luta por soberania constante, o lema desta trigésima segunda edição do Grito dos Excluídos e Excluídas, resulta ainda mais urgente, nesta quadra dantesca de crescentes ameaças do Império Americano-Sionista à autonomia dos Povos Latino-Americanos. Não bastassem suas investidas a tantos Países Latino-americanos, eis que também o Brasil se inclui como o próximo grande alvo dos ataques imperialistas, visando à pilhagem de nossas riquezas, especialmente de nossas terras raras. Cenário ainda mais tenebroso, quando sabemos a enorme rendição dos candidatos da Direita, em cínico apoio ao projeto imperialista.


Ajudemos a ampliar a Força do Grito, de todas as formas ao nosso alcance!


João Pessoa, 07 de Setembro de 2026.

sábado, 5 de setembro de 2026

O Estado como alvo predileto de pilhagem pela Direita: a escancarada privatização de fundos públicos

O Estado como alvo predileto de pilhagem pela Direita: a escancarada privatização de fundos públicos 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Favorecida ainda mais pela ascensão das forças nazi-fascistas, em escala internacional, inclusive no Brasil, a Direita brasileira segue encontrando, no processo eleitoral, terreno fértil para a sua expansão. Os Partidos de Direita protagonizam a corrida eleitoral, com amplas vantagens pela mídia hegemônica, com uma sucessão de candidatos e partidos a divulgarem toda sorte de mentiras que, uma vez repetidas “ad nauseam”, infelizmente acabam fazendo a cabeça de parte expressiva da população. Salvo exceções, as numerosas e dispendiosas pesquisas de opinião servem para sedimentar, na maioria dos eleitores e eleitoras, as ideias distorcidas da realidade.  


A mídia hegemônica esconde, desta forma, o que fundamentalmente, está em jogo, antes, durante e depois das eleições: os inúmeros processos de pilhagem pela classe dominante das riquezas do País. Com ou sem eleições, tendem a prosperar. Nas linhas que seguem, chamaremos a atenção para alguns dos casos mais escandalosos de rapinagem pelas forças da Direita, em andamento, no País. Em seguida, ousamos sugerir alguns procedimentos de resistência e enfrentamento da classe dominante, por parte das forças de Esquerda. 


A Direita investe no Estado como seu alvo predileto de rapinagem


Têm-se tornado uma praxe a divulgação da ideologia do “Estado mínimo” como a grande aspiração das forças de Direita. Um tremendo engodo! as forças de Direita, pela contrário, não funcionam sem a pilhagem contínua dos recursos e das instâncias do Estado. O próprio Estado têm como função precípua atender graças aos seus diversos aparelhos (o aparelho executivo, o aparelho legislativo, o aparelho judiciário e o aparelho repressivo), garantir os interesses da classe dominante, ainda que fazendo concessões de pouca monta a enorme maioria da população. De tantos meios a que recorre a classe dominante, um deles tem a ver com os grandes fundos públicos controlados pelo Estado. Trata-se de polpudas reservas amealhadas sob o controle do Estado que, em tese - apenas em tese -, se destinariam ao conjunto do povo brasileiro. 

Destes fundos públicos, os fundos destinados a pensão e aposentadoria dos trabalhadores e trabalhadoras o fundo reservado aos escandalosos juros da dívida pública o Fundo Partidário (atualmente, 4,9 bilhões de reais destinados ao financiamento dos partidos com representação na câmara e no senado: eis a razão pela qual há dezenas de partidos…), o Fundo Eleitoral, por sua vez monta, sempre conforme dados oficiais, a quase 5 bilhões de reais. Sob o pretexto de evitar o financiamento empresarial comete-se a barbaridade de dotar os partidos, de maneira proporcional ao número de suas bancadas no Senado e na Câmara, de quase 10 bilhões de reais, somando-se o Fundo Partidário com representação nas casas parlamentares. Convém lembrar que, “por debaixo dos panos” - e às vezes nem tanto -, as grandes empresas nunca deixaram de financiar parte expressiva dos deputados e senadores para não falarmos também nos demais entes da Federação. E oque dizer das insultuosas emendas parlamentares cujo montante alcança em torno de 50 bilhões de reais?.


Trata-se, com efeito, de um sistema essencialmente corrupto. Surreal, neste sentido, passa a ser a corrupção um dos temas dominante da mídia comercial e dos próprios segmentos da Direita. Chega a ser inclusive a marca essencial dos grandes empresários lançarem contra as forças de Esquerda, em busca de aparentar comportamento honesto quando a própria corrupção constitui o fator mais relevante do seu enriquecimento. Não raramente, tal estratégia logra êxito junto às camadas populares, bombardeadas que são vinte e quatro horas por dia, pela televisão, pelo rádio, pelos jornais, a introjetarem essa ideologia. Assim resulta altamente vantajosa para a burguesia tal estratégia, à medida que inculcar na cabeça da maioria da população a ideia é mesmo a convicção de que é a esquerda a grande vilã dos escândalos financeiros e outros que engordam fundamentalmente a burguesia.


Pistas de resistência e de enfrentamento da Direita 


Sem desconhecer que o inacabamento constitui uma marca dos humanos - daí os vícios, inclusive a corrupção -, temos repetido, à saciedade, a essência corrupta do modo de produção capitalista, fundamentalmente sustentado pela violência, pela mentira e pelo cinismo. Para tanto, a classe dominante se empenham em esconder, aos olhos da classe trabalhadora seu infindável repertório de estratégias e táticas de ocultar sua essência de corrupção, valendo-se, para tanto, dos aparelhos de Estado (Executivo, Legislativo, Judiciário e repressivo), bem como da mídia hegemônica para ludibriar a consciência dos “de baixo”, de modo a fazê-los crer em suas mentiras corriqueiras uma as quais, a de que a corrupção é obra das forças que se opõem a sua dominação. 


Eis por que se faz necessário e urgente dotar as classes populares de instrumentos que lhes permitam a formação da consciência crítica como primeiro passo de uma resistência eficaz a tal estado de coisas. Trata-se de ajudar os “de baixo” a fazerem uma “leitura de mundo” (Paulo Freire), aprendendo e exercitando análise de conjuntura, recorrendo a fontes de informação alternativas à mídia hegemônica, de modo a perceberem as raízes mais profundas deste sistema de opressão. Tal processo formativo também implica o constante exercício da memória histórica dos oprimidos, como uma condição para fortalecer nossos compromissos cotidianos como processo de transformação social, a parte de nós mesmos. Ao mesmo tempo, somos instados a aprimorar o processo organizativo e de lutas, sempre em busca de ir superando nossos próprios limites por meio da autocrítica. 


João Pessoa, 05 de Setembro de 2026