sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A força tóxica da mídia hegemônica: em busca de alternativas

 A força tóxica da mídia hegemônica: em busca de alternativas


Alder Júlio Ferreira Calado 


Tal é o domínio exercido pela mídia hegemônica sobre o cotidiano da vida da enorme maioria da população brasileira, que se sente quase inteiramente aprisionada pelo noticiário, pelas mensagens de whatsapp, redes sociais e pelas análises da mídia hegemônica, que, não raro, temos a impressão de que o povo brasileiro se orienta quase exclusivamente pelos valores da ideologia dominante, controlada por uma dezena de famílias proprietárias de canais de televisão,  de rádios, além de serem beneficiárias-mor das redes digitais, controladas pelos proprietários das grandes plataformas. Em breve, cumprindo o conhecido dito de Marx e Engels: “Em toda sociedade de classes, a Ideologia dominante é a Ideologia da classe dominante.”


Seja em âmbito internacional, seja no plano latino-americano e brasileiro à medida que se expandem os valores da Direita, cada vez mais prisioneira de suas influências se acha a enorme maioria da população. Este é o fator externo ao qual devemos acrescentar o fator interno, isto é, o progressivo afastamento da maioria das forças de Esquerda das relações orgânicas no campo e na cidade, com os setores das classes populares fenômeno que vem se agravando à medida que a enorme maioria das forças de Esquerda passou a concentrar sua atuação política quase tão-somente no processo eleitoral, e no ritmo parlamentar de modo a abandonar na prática, seu compromisso organizativo, formativo e de lutas em busca da construção de uma nova sociedade, alternativa à barbárie capitalista . 


Nas linhas que seguem cuidamos de rememorar brevemente a relevância da mídia alternativa como instrumento de resistência ao qual recorriam às forças de Esquerda, durante a Ditadura Empresarial-Militar. Em seguida, tratamos de ilustrar o papel político pedagógico que, também hoje, cumprem diversos canais, jornais e “podcasts”, no sentido de se contraporem à mídia dominante. 


A mídia alternativa como instrumento de resistência à Ditadura Empresarial-Militar. 


Por mais terrificante e duradoura, a ditadura Empresarial-Militar encontrou resistência multiforme das forças populares, quer recorrendo a uma resistência armada, graças a dezenas de organizações, quer combatendo o regime pela via política, graças a outros tipos de resistência, tais como o teatro (aqui, cumpre destacar a enorme contribuição dada por Augusto Boal, com o seu Teatro do Oprimido), a música e a mídia alternativa a qual destacamos nestas linhas. Importa lembrar os enormes obstáculos enfrentados por essas forças de resistência, o que, no entanto, não foi suficiente para calar sua voz. Enquanto salvo poucas exceções, a chamada “grande imprensa” (Jornais, rádios, televisões) se mostravam cúmplices e colaborativas das forças da tirania, facilitando inclusive a generalização da censura, grupos de militantes políticos, de intelectuais e de estudantes encontravam um jeito de resistir por meio de “charges” e de periódicos chamados de oposição.  


Resulta oportuno rememorar pelo menos alguns dos principais jornais e outros veículos que circularam legal ou clandestinamente, durante o regime militar. Podemos citar, por exemplo, entre os clandestinos:


  • “A Voz Operária”, do PCB, enquanto o PCdoB fazia circular o seu “ A Classe Operária”;

  •  “Política Operária”, “Ação Popular” e “Libertação”, lançados pela (Polop);

  • “O Guerrilheiro”, da (ALN);

  • “Tribuna da luta Operária” (PCdoB);

  •  “O Pasquim”, periódico que começou a circular nacionalmente em 1969. Tratava-se de um veículo satírico, no qual colaboraram intelectuais progressistas, tais como Ziraldo, Millôr Fernandes, Jaguar, entre outros; 

  • Em 1972, graças a um grupo de jornalistas progressistas em oposição às crueldades da tirania vigente, passa a circular o Jornal “Opinião”, que ousava tratar de temas e questões incômodas a Ditadura Empresarial-Militar;

  • O Jornal “Movimento” também constitui mais uma pedra no caminho da Ditadura, cuja reação pode ser avaliada pelo exorbitante número de censuras á que foi submetido, ensejando inclusive enorme prejuízos econômicos ao bravo grupo de Jornalistas que mantiveram movimento por alguns anos. Conforme a Redação do Jornal, eis o balanço tenebroso imposto pela Ditadura: “6 mil artigos e ilustrações vetados, 4,5 milhões de palavras proibidas, prejuízo de milhões de cruzeiros. O objetivo do regime claramente era o de inviabilizar o jornal.”;

  • Dando conta da enorme resistência animada pela Arquidiocese de São Paulo, na figura profética de Dom Paulo Evaristo Arns e outras como o Reverendo Jaime Wright e Júlio de santa Ana, importa reconhecer o relevante papel desempenhado pelo Jornal arquidiocesano “O São Paulo”, não bastassem o relevantíssimo Projeto “Brasil nunca mais”, extensa pesquisa de cerca de 10 mil páginas, bem resumidas pelo clássico livro “Brasil nunca mais” (Vozes, 1985);

  • Jornal “Em tempo”, nascido em 1978 reunindo importantes figuras de intelectuais de esquerda, em sua maioria ligadas ao então nascente Partidos dos Trabalhadores, mais ligados a tendência “Democracia Socilaista”;   

  • Jornal “A hora do Povo”, semanário vinculado ao MR8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro).


Breves considerações acerca de alguns veículos de comunicações alternativos da atualidade  


Graças aos avanços tecnológicos, ainda que hegemonizados pelas forças de Direita, podemos contar com uma variedade de canais, “blogs” e outros instrumentos virtuais, por meio dos quais podemos acompanhar criticamente os grandes embates e dilemas que cercam nossa realidade atual seja em escala mundial, seja em ambito latino-americano e brasileiro. Aqui nos limitaremos a mencionar apenas alguns destes veículos com propósito de instigar nossa militância a acompanhar mais de perto como se dá hoje a luta de classes, dotando-nos de instrumentos de uma análise mais criteriosa de nossa realidade, capaz de nos fornecer elementos, em busca  de sua transformação. Eis alguns exemplos destes veículos da atualidade:


  • “Brasil 247”, canal progressista mais ligado à corrente petista;

  • Jornal “Brasil de Fato”, instrumento virtual ligado ao MST;

  • “Opera Mundi”, canal e “blog” de análise da realidade, em perspectiva marxista, graças principalmente à atuação de Breno Altman;

  • O PCB já há algum tempo opera no seguinte portal: https://pcb.org.br/portal2/

  • “ICL notícias” canal e “blog” progressista que conta com o excelente grupo de jornalistas críticos e competentes, atuando inclusive por meio da revista “Liberta”;

  • “Farol Brasil”, canal relativamente recente, de orientação marxista, próximo ao PCBR, com atuação principal de Mauro Lopes e Jones Manoel;

  • A UP (Unidade Popular) também conta com o seu portal: https://unidadepopular.org.br/blog/up-oficializa-candidatura-de-samara-martins-a-presidencia-com-chapa-100-feminina ;

  •  O PSTU opera em seu portal: https://www.pstu.org.br/

  • O PCO disponhe igualmente de seu espaço virtual: https://causaoperaria.org.br/

  • Podcast “Fórum de Teresina“, que corresponde ao veículo político da Revista Piauí. Traz semanais análises políticas bem fundamentadas do que se passa no Brasil e no mundo;

  • Podcast “Medo e Delírio em Brasília“, veículo de crítica mordaz e bem humorada feita contra a Direita brasileira. 

  • Podcast História Preta;

  • Podcast Todo dia História Negra.


Não obstante a variedade de canais alternativos resta lamentável constatar o pequeno número de intelectuais e estudantes e mesmo de militantes que se mantêm alimentados por estas fontes, inclusive como critério de acompanhamento crítico-propositivo de nossa realidade, boa parte preferindo contentar-se com as informações e os debates promovidos pela mídia hegemônica. Tomara que estas breves considerações consigam mexer positivamente na sensibilidade militante de eventuais leitores e leitoras destas linhas 


João Pessoa, 28 de Agosto de 2026

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Continuidade da ameaça golpista: considerações críticas a partir do relato do Brigadeiro Carlos de Almeida Batista Júnior

Continuidade da ameaça golpista: considerações críticas a partir do relato do Brigadeiro Carlos de Almeida Batista Júnior 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Em setembro próximo, a Editora Autêntica estará lançando o livro “Eu disse não: uma trincheira anti-golpista”, de autoria do já citado Brigadeiro, ex-comandante da Aeronáutica. A partir de depoimentos deste e de outros oficiais das Forças Armadas, bem como de informações prévias fornecidas pela Editora Autêntica sobre o já mencionado livro, além de reflexões compartilhadas por estudiosos do tema, tomo a liberdade de avançar algumas considerações críticas sobre os iminentes riscos da continuidade golpista. Neste sentido, constitui uma aberração a insistência descabida de qualquer projeto de anistia, como estão a promover todos os candidatos da Direita. Somente a ideia deste pleito deve ser tomada como um escandaloso acinte aos mais elementares princípios democráticos. Inaceitável, com efeito, a naturalização pela mídia comercial de tal pleito. Resulta em escancarada hipocrisia o pretexto da “pacificação”. A mera propaganda do projeto de anistia representa verdadeira abominação à medida que escancara os portões a continuidade golpista.


Depoimentos de oficiais e comandantes das Forças Armadas revelam quão perto chegamos de um novo golpe militar, durante todo o Governo Bolsonaro, cuja eleição tanto se deveu ao protagonismo de numerosos grupos influentes das Forças Armadas, bem como de amplos setores das forças de segurança. Pouco ou quase nada aprendemos do histórico golpista do militarismo brasileiro desde a chamada “Proclamação da República”, ela própria instalada através de um golpe.  


Desde então, a sociedade brasileira passa a ser vítima constante de golpes e de tentativas de golpes, sem que seus responsáveis - a não ser recentemente, e ainda que de modo aquém do devido - tenham sido exemplarmente punidos. E a mera punição não alcança, com eficiência, a raiz do mal. As Forças Armadas bem como as forças de segurança seguem necessitadas de profundas e urgentes reformas, por vezes vagamente prometidas, mas nunca realizadas. Salvo exceções, desde os seus inícios, segue hegemônica a ideia de que os militares constituem os tutores da nação, razão pela qual se sentem acima dos cidadãos não fardados, à exceção da classe dominante (latifundiários, donos do agronegócio, banqueiros, e seus patrões dos Estados Unidos).


Os militares de altas patentes vivem como privilegiados, até contam com respaldo legal, uma vez que o aparato legal de sua organização não obedece às leis que regem os cidadãos comuns. Constitui um corpo à parte dispondo de toda sorte e privilégios - pelo menos, no que diz respeito às altas patentes.


Nas últimas décadas, sobretudo, vêm exorbitando crescentemente de suas funções, pretendendo impor ordens à sociedade civil sem que mesmo governos progressistas se tenham empenhado em conter seus arroubos ditatoriais. Mesmo atualmente, o Ministro da Defesa, embora tendo o dever constitucional de defender a Nação brasileira, mais se apresenta como um exímio defensor dos interesses das Forças Armadas. Algo complicadíssimo, inclusive nestes tempos de interferência aberta do Governo dos Estados Unidos na política do Brasil.


Graças à naturalização pública, especialmente pela mídia comercial e pelas redes digitais, comandadas pela Direita, a enorme maioria da população, principalmente os segmentos mais jovens, quase não esboça maior estranhamento desta situação, porque aumenta ainda mais o risco da continuidade golpista. Faz-se urgente trazer a público este debate, com vistas a reduzir o potencial golpista do militarismo brasileiro, ao mesmo tempo, urge não menos, ousar, reformar os aparelhos repressivos no Estado. Seja introduzindo profundas modificações, em sua atual organização, tanto no plano de sua formação, quanto na necessidade de romper o profundo isolamento da vida comum dos cidadãos e das cidadãs, seja ainda modificando os critérios e a ascensão profissional. As Forças Armadas e as Forças de Segurança não podem sentir-se como se fossem donas ou tutoras da Nação brasileira. Devem ficar fora do exercício político e de gestão. A gestão do país compete aos civis, não aos militares.


Neste sentido, com base em diversos especialistas em assuntos militares, cuidamos de assinalar, de modo breve, alguns aspectos a constarem de um programa de reformas nas Forças Armadas e nas demais forças integrantes do aparelho repressivo do Estado.


Um primeiro ponto tem a ver com a necessidade e urgência de se modificar o famigerado artigo 142 da Constituição, que se apresenta com uma redação ambígua, dando margem a uma interpretação segundo a qual as forças armadas podem atuar como se exercessem um tal poder moderador… Importa, sim, definir de modo claro, as funções das Forças Armadas: de zelar pela soberania nacional e pelas nossas fronteiras. Outra modificação necessária é a de destituir a Polícia Militar de sua função “auxiliar” das Forças Armadas, passando a ser subordinadas ao poder civil do Ministério de Segurança Pública. Outra alteração necessária diz respeito à formação dos quadros militares, de modo que sua organização curricular seja determinada, com exceção de sua formação exclusivamente militar, ao poder civil (no caso, ao Ministério da Segurança Pública).


Outros aspectos ainda merecem modificações, a exemplo da revisão crítica das narrativas hegemônicas sobre a História das Forças Armadas e da própria sociedade brasileira. Aí ainda prevalece um perigoso hiato entre os militares e a sociedade civil. Outro caso a merecer profunda reforma, tem a ver com a promoção para o generalato, atualmente ainda protagonizada exclusivamente pelo alto comando das forças armadas, um caminho descolado dos critérios democráticos, a exigirem a participação de representantes da sociedade civil, nessa promoção. E que tal abrir caminho para uma participação mais democrática das mulheres e dos negros, nos diversos escalões militares?


Eis um debate a merecer continuidade e aprofundamento. Nas linhas acima, apenas esboçamos alguns dos nossos desafios. 


João Pessoa, 26 de Agosto de 2026.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

José Comblin, no imediato pós Vaticano II - apontamentos a partir do seu livro “Os Sinais dos Tempos e a Evangelização” (São Paulo: Duas Cidades, 1968)

 José Comblin, no imediato pós Vaticano II - apontamentos a partir do seu livro “Os Sinais dos Tempos e a Evangelização” (São Paulo: Duas Cidades, 1968)


Alder Júlio Ferreira Calado  


Após os primeiros quatro anos de trabalho missionário, no Brasil (Campinas, 1958-1962), Comblin, atendendo a convite, vai ensinar na Universidade Católica do Chile, em Santiago. Acompanhar, com vivo interesse o que se passa no em torno do Concílio Vaticano II, ao mesmo tempo em que intensifica seus estudos e pesquisas sobre o Brasil e América Latina. Torna-se figura conhecida e apreciada, não apenas nos círculos eclesiais: mantém-se atento também ao que se passa na conjuntura chilena da época. Dado o conhecimento travado com Dom Manuel Larraín, então presidente do CELAM (Conselho Episcopal Latino Americano), tornar-se-ia também conhecido de Dom Helder Câmara, feito Arcebispo de Olinda e Recife. Encerrado seu primeiro tempo de trabalho no Chile, Comblin é convidado por Dom Helder, então Secretário Geral da CNBB, a trabalhar na referida Arquidiocese, já a partir de 1965, como Diretor de Estudos do então CERENE II ( Seminário Regional Nordeste II) e, depois, ITER ( Instituto de Teologia de Recife).


Foi durante este período, que Comblin resolveu reunir textos diversos, em forma de artigos, e publicá-los em coletânea, sob o título acima indicado. Tratava de temas diversos, direta ou indiretamente atinentes àquele período pós-conciliar. Diversas questões ele levantava, sobretudo provocando Bispos, Padres e Leigos acerca da necessidade e urgência de aprofundar o conhecimento e o compromisso sobre a realidade brasileira. Para tanto, ele propunha situar o “status quaestionis” da Teologia frente à Evangelização, no contexto completo da realidade do Povo brasileiro, em sua ampla diversidade, inclusive tratando-se, não apenas de outras religiões, mas no interior do catolicismo. Não obstante a intenção renovadora do Concílio Vaticano II, e sem um conhecimento adequado das características das massas populares, não resultaria frutífera a tentativa de introduzir inovações inclusive no tocante à missão evangelizadora. 


A missão evangelizadora supõe, não apenas um conhecimento prévio das potencialidades e dos limites dos evangelizandos como também sua preparação, uma vez que “Todavia as Sagradas Escrituras não revelam os seus segredos à primeira leitura feita sem iniciação. O principiante que abre a Bíblia sem iniciação deixará de lado, sem perceber, a mensagem mais íntima e profunda.” (p.12). Neste sentido, o autor chama atenção para o risco da prática de uma Teologia que, superestimando o peso de certa tradição, acaba conferindo uma interpretação do Evangelho mas conforme as pretensões desta dita tradição do que se faz presente no texto bíblico.      


Para além da Teologia tradicional. Por exemplo, urgia conhecer o tipo e as raízes históricas do Catolicismo brasileiro. Inútil a tentativa de pretender-se aplicar as orientações constantes dos documentos do Concílio Vaticano II, sem antes conhecer diversos aspectos do Povo brasileiro: sua cultura, suas religiões, tipo de Catolicismo além de outros aspectos, como a Paróquia e seus limites e agentes pastorais. Vale assinalar, a este propósito, que no ano seguinte à publicação deste livro, teriam início as primeiras experiências da Teologia da Enxada, (1969): uma, localizada em Tacaimbó-PE, e outra em Salgado de São Félix-PB, de cujos estudos fazia parte o compromisso dos estudantes além de conviverem com as Comunidades rurais da região, anotando sistematicamente as características da cultura popular (a casa, os santos, as devoções, o trabalho, as plantas medicinais, o folclore, a música, a política, entre outras). Disto trata especificamente do livro do mesmo autor intitulado “Teologia da Enxada” (Vozes, 1977). 


sempre recorrendo a vários historiadores, antropólogos  e de outras áreas do conhecimento, propõe uma instigante tipologia do Catolicismo brasileiro. Não obstante a preocupação com os elementos culturais do povo, isto não é ainda suficiente para se tomar como evangelização. Adverte o autor: “Faltam-lhe elementos até fundamentais.” (p.15).


Criar as condições favoráveis à formação de teólogos e teólogas, do clero ou do laicato, eis o que Comblin passa a refletir. Parte da constatação de que, mais do que necessária, faz-se urgente preparar as condições para a fundação de um Centro Latino-Americano de Teologia, com o propósito de assegurar as condições necessárias de uma produção qualitativa de teologia, a partir da realidade latina-americana. Um Centro capaz de assegurar a formação sistemática de novos teólogos e teólogas latino-americanos, quer sejam do clero ou do laicado. Uma Teologia destinada a formar um quadro preparado de pesquisadores e pesquisadoras, dispostos a produzir uma Teologia aberta aos novos desafios do mundo e da Igreja. 


O autor não se limita a fazer mera crítica aos estudos da Teologia e da Filosofia, eis que ousa propor elementos fundamentais para a elaboração de um programa de estudos alternativo ao vigente. É assim que, tanto no que tange à teologia, quanto aos estudos propedêuticos, traz preciosas indicações (cf. pp. 43-44).  No capítulo IV, atinente à questão das vocações sacerdotais e religiosas Comblin inicia advertindo sobre o comportamento submisso das elites brasileiras às ordens e as práticas aqui transmitidas pelas elites euro-americanas, preferindo-as em vez de acreditar nas enormes potencialidades da população nativa. 


Sua proposta de programa tem sólida motivação e sólidas bases históricas. Com efeito, ao assinalar que o Catolicismo no Brasil não apresenta  propriamente traços da Igreja medieval, mas antes profundas marcas tridentinas combinadas com o processo de colonização - acerca do qual convém destacar a densa contribuição, que, na década seguinte, também oferece o historiador Eduardo Hoornaert (cf. o seu livro “Formação do Catolicismo Brasileiro”,  (Vozes, 1974); “O Cristianismo Moreno do Brasil” (Vozes, 1990) -, Comblin, além de listar e analisar as principais características e a evolução do Catolicismo brasileiro durante vários séculos ver (cap. ). Diferentemente da Igreja europeia Medieval - recheada  de heresias, de sublevações de movimentos pauperistos -, o processo de Colonização que orientou a evolução do catolicismo no Brasil se demarca pelas relações entre o clero em aliança com o Rei, de um lado e, por outro, por uma massa de fieis que lhes devota fiel obediência, além de ser um Catolicismo oficialmente controlado desde Roma e desde às metrópoles.


Mantendo-se sempre empenhado em abordar os atuais desafios eclesiais, e em perspectiva histórica o autor foca, no cap. VI,  as modificações que a aliança Igreja-Estado (República) operou, em relação à Paróquia. Situa os principais fatores componentes desta evolução, atribuindo também às ordens religiosas práticas diferenciadas, tanto em relação ao relativo abandono das Paróquias rurais quanto à atenção priorizada pelos Jesuítas às instituições de ensino, tal como se fazia no Catolicismo europeu do século XIX.  

A coletânea de textos produzida por Comblin, situada na segunda metade dos anos 1960 - portanto, logo após a conclusão do Concílio Vaticano II - segue tratando temas desafiantes, naquela conjuntura. O tema concernente aos Padres como parte expressiva da coletânea, entende o autor ser urgente trabalha-se uma compreensão crítica dos sacerdotes, inclusive como condição para uma “aplicação” adequada dos documentos conciliares. Trata, então, de priorizar uma abordagem pastoral do Múnus Sacerdotal sem subestimar uma abordagem teológica. O autor, mais do que uma reflexão teológico-pastoral, oferece propostas concretas como pistas de enfrentamentos práticos dos novos desafios.  


Na sequência, o autor empenha-se em vislumbrar a figura dos sacerdotes do futuro, em busca de um entendimento, a partir de uma leitura consciente dos sinais dos tempos, das características que o povo esperará encontrar nos futuros Padres. No que for essencial, a figura do sacerdote não sofrerá modificação: seguirá sendo um Ministro da palavra, dos Sacramentos e de outras atividades que lhe são próprias. Todavia, será instado a prestar mais atenção a novas demandas, a que não estava acostumado. Será chamado a conhecer melhor as pessoas em volta, de modo a conhecer melhor suas condições sociais, econômicas e psicológicas, sem o que já não mais contará com o apreço do povo de quem cuida. Daí se preparar, em tempo, para uma formação sacerdotal que atenda ao perfil adequado do Padre de amanhã. Neste sentido, Comblin reconhece a valorosa contribuição do Concílio Vaticano II - especialmente no documento especificamente dirigido aos presbíteros, a partir do qual tenta esboçar as qualidades adequadas dos futuros presbíteros. Quanto às marcas fundamentais do sacerdócio, não se vislumbra mudança. No entanto, quanto às marcas acidentais importa tomar na devida conta os traços conjunturais, componentes da pessoa do sacerdote, agora chamado a especializar sua formação, adaptando-se positivamente às novas exigências do tempo. A este respeito, em 1975, na Exortação Apostólica “Evangelii Nuntiandi” , o Papa Paulo VI advertia: “Os Homens deste tempo prestam mais atenção às testemunhas do que aos mestres. E se também prestam atenção aos mestres é porque eles são testemunhas”. (EN, n. 41 ). 


A obediência, tal qual adotada no âmbito eclesiástico, constitui outro tema enfrentado pelo autor. Parte da constatação de um crescente mal-estar inter-geracional. Os jovens Padres, por exemplo, apresentam crescente dificuldade de obedecer aos superiores enquanto estes estranham o comportamento dos jovens, afinal, a obediência foi, ao longo de séculos, a via tradicional de regulação das relações clericais. Para destrinchar as principais marcas do sentido da obediência, Comblin, além de recorrer à Cristologia, também revisita a tradição monástica e a força das leis eclesiásticas. 


No entendimento do autor, faz-se urgente avaliar, à luz também do atual contexto histórico o que indicam os sinais dos tempos, na apreciação deste fenômeno. Neste sentido, entre diferentes argumentos de que se vale, um deles tem apelo direto à Cristologia, o autor sublinha a relevância da obediência observada por Jesus diante do seu Pai, mas não diante das autoridades de seu tempo, em relação a que se mostrou bastante insubordinado, sobre o que nos remete ao Novo Testamento. “ Quase todos os livros do Novo Testamento exaltam a obediência de Jesus na vida e na Morte . O Salvador exige de seus discípulos a mesma obediência total e incondicional (...) Os autores espirituais fazem-no com certa facilidade, porque supõem que a vontade dos superiores coincide com a vontade de Deus, e até manifestam a vontade de Deus (...)Na realidade, a obediência de Jesus ao Pai é em si algo que não se identifica com uma obediência a um superior humano (...) Várias vezes na vida de Jesus aparece um conflito entre a vontade de Deus e a vontade das autoridades humanas. Jesus não se submeteu às exigências das autoridades de seu povo no que se refere a sua missão ``. (p. 158). 


No capítulo X, o autor propõe uma instigante reflexão sobre a Filosofia da História e a Salvação, cuidando de sublinhar potencialidades e limites da Filosofia da História reconhecendo inclusive sua insuficiência e seus limites para uma reta-interpretação do sentido da Salvação, ao mesmo tempo em que não deixa de reconhecer também valiosas intuições trazidas por distintas Escolas histórico-filosóficas. Ressalta, em especial, o peso exercido pela Filosofia greco-romana, ao longo da cristandade, destacando seu crescente distanciamento das fontes evangélicas. 


Tocados pelas principais conclusões do Concílio Vaticano II, os bispos brasileiros, após a elaboração provocadora de um Plano de Emergência, (1962-1965),  por meio da CNBB, cuidaram de propor seu Plano de Pastoral de conjunto, quadrienal, a ser vivenciado de 1966 a 1970. Nele, são propostas seis linhas de ação, das quais a segunda tratava da evangelização, enquanto a terceira focava a ação catequética - ambas tomadas como alvo de análise pelo autor, dadas suas afinidades. No capítulo XI, Comblin dedica-se a examinar cuidadosamente, sobretudo, a Segunda Linha. Reconhece o esforço positivo dos bispos brasileiros, de recepcionar o Concílio Vaticano II, conforme as condições do Catolicismo brasileiro, em suas potencialidades mas principalmente em suas fragilidades, devidas à complexidade histórico-social da população Católica do Brasil. O objetivo central do autor é problematizar o sentido e o alcance da formulação da Linha dois, para oque empenha-se em discutir teológica e pastoralmente os termos como vem redigida a segunda Linha. Em sua percepção, o foco da Linha dois, embora se apresente como Evangelização, caracteriza-se fundamentalmente pelo objetivo de converter ao Cristianismo, os que andam afastados da Igreja. Neste sentido, o autor entende pouco presente o núcleo da Evangelização, para além dos destinatários cristãos, de modo a tomar em conta também o processo de secularização, no Brasil e no mundo. Por tanto, a exigir atenção, não apenas aos católicos afastados, mas também aos não cristãos e aos envolvidos em outras expressões religiosas e mesmo os que não professam qualquer confissão religiosa.


Ao capítulo seguinte - o 12 - o autor dedica 30 páginas focando os desafios da Catequese. Rememorando os fundamentos da linha três do Plano Pastoral de conjunto da CNBB, Comblin cuida de refletir sobre diversos aspectos do tema, começando por assinalar a considerável distância entre os ensinamentos catequéticos oficiais e valores vivenciados pelo povo católico brasileiro, em seu dia-a-dia. Enquanto o primeiro sublinha aspectos doutrinários e teológicos, a enorme maioria dos católicos brasileiros, em seu cotidiano se mostra mais interessado nos santos, nas promessas, nas festas de padroeiros e coisas do gênero, de modo a  pouca atenção dedicar aos aspectos da Catequese oficial que lhe é ensinada, considerada mais abstrata, baseada em conceitos e dogmas. O autor sugere a utilização de uma metodologia mais adequada para o ensinamento do núcleo da fé cristã, com ênfase no conhecimento das pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo (este parecendo menos conhecido do que os Santos), além do sentido e da prática das grandes virtudes cristãs - a Fé, a Esperança e o Amor. 


No capítulo XIII, o autor enfrenta o desafio de compreender melhor diferentes facetas do Catolicismo brasileiro, enfatizando suas influências recebidas do Catolicismo europeu, bem como outras formas de sua vivência encarnadas por seu povo de modo a destacar suas diferenças. 


O autor conclui a coletânea, com o capítulo XIV, discorrendo ainda sobre a multiplicidade de vivências da Fé, no âmbito do Catolicismo popular brasileiro. Amplamente fundamentado em diversos Antropólogos brasileiros, Comblin começa por destacar a profunda relação do Catolicismo popular com as religiões de matriz africana, sublinhando as adaptações feitas pela população afro-descendentes, de modo a conviver costumeiramente com este sincretismo religioso. Também assim procede o autor, ao refletir sobre a vertente indígena do mesmo catolicismo. Ele ainda aponta outras expressões do Catolicismo brasieliro a exemplo do Catolicismo sertanejo e do Catolicismo praticado pela classe média brasileira. A inquietação central do autor é a de contribuir no sentido de que os agentes de Pastoral tomem em consideração prévia tais dados da realidade, antes de se dedicarem a aplicação das Linhas propostas pelo plano pastoral de Conjunto e, antes disto para trabalharem, de modo fiel, o processo de Evangelização. 


Relevância e atualidade de um “apreciador de urgências”


Em 2003, ao celebrar seus 80 anos, dentre tantas homenagens, Comblin foi contemplado com um poema certeiro, da lavra de Irmã Agostinha Vieira de Melo, intitulado “Apresador de Urgências”, que vale a pena revisitar (cf. “A Esperança dos Pobres Vive”. São Paulo: Paulus, 2003, pp. 213-214). Eis uma marca forte da trajetória deste exímio teólogo. Já em meados dos anos 1960, quando da publicação desta coletânea de textos produzidos por Comblin podemos observar a relevância e a atualidade importantes deste autor a exemplo de outras figuras luminares, José Comblin continua despertando o mesmo interesse, em nossos dias, bem como em séculos vindouros.


João Pessoa, 19 de Agosto de 2026               




                         


  


  


  


 


    

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O Bagaço da Cana vem da Direita. Superá-la está ao nosso alcance


O Bagaço da Cana vem da Direita

Superá-la está ao nosso alcance


Alder júlio Ferreira Calado


O bagaço da cana é quem trabalha 

Amargando uma vida infeliz 

produzindo as riquezas do País 

Mas vivendo na ponta da navalha

E o terror sem saber como se atalha 

Aos tiranos do mundo se coroa 

Hoje imperam, sem trava, “numa boa”

E o Estado os protege, em demasia 

Delegado que é da burguesia 

Eis porque seu poder se estende a atoa.

 

No quesito moral, há crimes vários

Cometidos à Esquerda e à Direita 

Não importa quem seja, não se aceita

segue imensa a gula por denário 

Neste mundo, têm mais vez os salafrários

Diferenças sentindo nestas “seitas”

Ser mais críticos convém-nos, desta feita

Os valores roubados são imensos 

Rouba mais a Direita - é consenso 

A Direita amealha mais “receita”.


Nossa terra tanto mais, em agonia 

Os eventos extremos são mais frequentes 

No Brasil e no mundo, penam as gentes 

A extrema Direita mais se alia 

De valores humanos está vazia 

Crescem as vítimas da ação da “besta-fera”

Arrastando consigo ovelhas meras 

Eis um traço distópico, destrutivo:

Aos tiranos submete-se o cativo 

Estranhíssimos sinais - os são deverás.   


A Direita só dos ricos cuida bem 

Haja vista os escândalos financeiros   

Que sofremos de Janero a Janeiro 

Sejam  Master, Emendas e coisa além

Vigorosa denúncia nos convém 

Merecer boa análise nos parece

Contra os crimes, só combate, e menos prece

Os autores, quem são, importam menos

Passar pano em culpado: beber veneno…

Faz escuro, mas um dia amanhece…


João Pessoa 07 de Agosto de 2026