quinta-feira, 31 de outubro de 2019

GRUPO KAIRÓS, 21 ANOS

GRUPO KAIRÓS, 21 ANOS
Em diálogo com Pe. José Comblin, pelas veredas do Movimento de Jesus

Alder Júlio Ferreira Calado

O Grupo Kairós Nós Também Somos Igreja alcança seus vinte e um anos, momento propício para o exercício de celebração, de rememoração, de avaliação da caminhada e de renovação de horizonte e compromissos. Alguns membros isolados do Grupo já acompanhavam a trajetória da Teologia da Enxada, desde seus inícios, em finais dos anos 60 e, por meio dela, os passos do Pe. José Comblin. Em 1998, na companhia do próprio Pe. José e da Missionária Mônica Muggler, inclusive com a presença do já Bispo emérito de Crateús, Dom Antônio Batista Fragoso, agora residindo em João Pessoa, formava-se um pequeno grupo de amigos e amigas de Pe. José passou a reunir-se mensalmente na residência dele, em Bayeux-PB, com o objetivo de dialogar e refletir sobre a conjuntura sócio-eclesial, bem como sobre textos produzidos pelo Pe. Combin. Foi o caso do livro recém-lançado, "Vocação para a Liberdade", recém-editado pela Paulus. Tratava-se de encontros mensais em que na sala de sua casa, as/os participantes cuidavam de compartilhar alegrias, angústias e esperanças daquele contexto sócio-eclesial, tendo, ao final, uma palavra de aprofundamento que se pedia a Pe. José, com perguntas e colocações que se lhes seguiam. Ao final, graças aos cuidados e sensibilidade de Mônica, o grupo era convidado a sentar-se à mesa para um café ou, ocasionalmente, a uma refeição. 

No texto que segue, cuidamos de rememorar, de modo avaliativo-prospectivo, a caminhada do grupo Kairós de 21 anos. Neste sentido, iniciamos fornecendo alguns elementos históricos de suas origens; em seguida, destacaremos aspectos organizativos do Kairós, inclusive em sua filiação ao IWMAC – International Moviment We Are Church, que data de 2009. Por último, faremos memória das principais atividades realizadas pelo Kairós, destacando em especial a organização, já em sua 9ª edição, da Semana Teológica Pe. José Comblin, da qual fazem parte as Jornadas Comunitárias. Em conclusão, sublinhamos alguns desafios enfrentados pelo Kairós.

Como nasce o Kairós/Nós Também Somos Igreja?



Dentre os primeiros participantes - um grupo de cerca de uma dezena, com variações ocasionais, aí se encontravam: Pe. José, Mônica, Dom Fragoso, João Fragoso, Ir. Ana Vigarani, José Brendan, José Hailton, Rolando Lazarte, Pe. Glênio, Pastor Osmar Ludovico, Isabelle Ludovico, Luiz Zadra, Genaro Ieno, Luciano Silva, Alder e outras pessoas com presença esporádica.

Tempos desafiantes, seja ao interno da Igreja Católica, já com um longo pontificado do Papa João Paulo II, com suas estratégias de esvaziamento da "Igreja na Base", seja no plano macrossocial, com o avanço e agravamento do Neoliberalismo no mundo. Tema, aliás, sobre o qual o próprio Pe. Comblin havia escrito um livro, “O Neoliberalismo – Ideologia dominante na virada do século, São Paulo: Loyola, 2000”, que fazia parte da célebre coleção "Teologia e Libertação", editada pela Loyola, com apoio de mais de cerca de 120 bispos da América Latina. 

Pouco antes da publicação deste livro, Comblin nos havia brindado com um outro de grande impacto no mundo cristão, intitulado “Cristãos Rumo ao Século XXI – Nova Caminhada de Libertação” (São Paulo, 1996). Como se percebe, vivíamos um tempo caracterizado, dentro e fora das Igrejas cristãs, por um clima de tensão, de incertezas, mas também de esperança. É neste contexto que as reuniões mensais deste grupo se desenrolavam, na casa do Pe. José Comblin.

No âmbito da Arquidiocese da Paraíba (João Pessoa), viviam-se os últimos e conturbados anos do governo de Dom Marcelo Carvalheira, a enfrentar resistências ao interno do próprio clero, relativamente a situações econômico-financeiras então enfrentadas e outras questões. Ao alcançar sua idade-limite, Dom Marcelo Pinto Carvalheira torna-se emérito, e os diocesanos passam a viver certa tensão, quanto a quem o sucederá: Dom Aldo Pagotto, que dá início, desde sua chegada, a uma sucessão de medidas autoritárias que o que passa a ser a marca principal de seu governo. De perfil fortemente conservador e mesmo reacionário, chegava a escandalizar sobre tudo pela perseguição por ele movida contra tudo que dissesse respeito a temas tais como Teólogia da Libertação, Pobres, CEBs, CPT, CEBI, em breve, à Igreja na Base. Posição que perdura até à sua renúncia provocada pelo seu envolvimento em episódios ligados a várias denúncias de co-participação em casos de escândalos homossexuais. 

Importa assinalar que este grupo se compunha de pessoas, em sua maioria, atuantes em diferentes atividades sócio eclesiais. Tratava-se de um grupo do qual faziam parte pessoas que trabalhavam como professoras e professores universitários (alguns já aposentados), alguns pastores, alguns padres, leigas e leigos animadores de comunidades..., a exemplo de Giovanni Pizzetti e Pe. Josenildo Lima.

A roda de partilhas e de notícias sobre a conjuntura sócio-eclesial e sobre os trabalhos de cada participante eram sentidos como um denso momento de abastecimento interior e de animação à continuidade da luta., diante de desafios intermináveis. Foi, por exemplo, o que se deu com o anúncio do Projeto de Transposição de água do São Francisco para quatro Estados do Nordeste (Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará). Em resistência a tal plano, tanto Pe. José Comblin como membros daquele grupo se engajaram em atividades de resistência, organizando, inclusive, manifestação em praça pública, em João Pessoa, com a presença também do próprio Pe. Comblin. Este passou a ser chamado para contribuir com sua  análise acerca do Projeto, em várias Estados do Nordeste. Numa dessas ocasiões, Comblin fazia questão de marcar bem sua posição, o que se pode perceber, inclusive, numa de suas mensagens, recebidas por um membro do Grupo:

Mais: com a decisão tomada pelo Bispo de Barra, Dom Luiz Flávio Cappio, da Diocese de Barra – BA, de marcar sua posição profética, fazendo duas greves de fome – a primeira, à margem do São Francisco, em Cabrobó – PE (por onde passaria a água desta Transposição), o que se deu no ano de 2005, e que durou onze dias; a segunda duraria o dobro, e foi realizada em Sobradinho _ BA, em 2007. Durante este testemunho profético, acompanhado de alguns membros do Grupo, Pe. José fez questão de testemunhar ao vivo sua solidariedade ao bispo em jejum de resistência, com ele mantendo conversas consistentes sobre aquela e outras questões e desafios sócio eclesiais. Foi de tal ordem a solidariedade prestada a Dom Luiz, que este não hesitou em fazer-lhe o pedido/convite para que Comblin se dispusesse a colaborar com o povo dos pobres da Diocese de Barra, para onde Comblin se mudaria. A missionária Mônica Muggler, também convidada pelo Bispo de Barra, também acatou o convite.

O Grupo Kairós seguia com suas reuniões mensais na casa do Pe. Comblin, até sua mudança para a Diocese de Barra. Pe. José muda-se para aquela diocese baiana, por volta de 2009. A partir de então, o Grupo passa a reunir-se semanalmente, na UFPB, numa sala de uma professora -a Profa. Aparecida, do Centro de Educação, que também passa a integrar o Grupo.

Após a mudança do Pe. José, o grupo Kairós passa a reunir-se semanalmente, numa sala da UFPB.

Mantendo uma frequência semanal de reuniões com cerca de uma dezena de integrantes, incluindo pessoas recém-chegadas, em especial com membros de outras denominações, fato que propiciou uma convivência ecumênica ainda maior. Uma das pessoas recém-chegadas ao Grupo foi o Pastor Luciano Batista de Souza, que se havia tornado amigo do Pe. José Comblin. Por iniciativa do Pastor Luciano, foram sendo convidadas outras pessoas evangélicas, tais como Joamingos, Daniel e outras. O grupo Kairós também passou a contar com outros novos membros, tais como: Angelina Oliveira, Aparecida Paes Barreto, Magdala Melo, Ricardo Brindeiro (“in memoriam”), Elias Cândido do Nascimento, João Batista Silva, Irm. Edleuza, Graça Xavier Batista, Efigênia Dias, Ellison Dias, além de presenças esporádicas de Pe. Antonio Paulo Cabral, Pe. Gedeón Oliveira, entre outros.  Nos anos mais recentes, temos contado, de modo mais frequente, com a participação dos seguinte membros: João da Cruz Fragoso, Elias Cândido do Nascimento, José Hailton Bezerra Lyra, Rolando Lazarte, Maria Ferreira Filha, Aparecida Paes Barreto, Ellison Dias, Gloria Carneiro, Ir. Maria Besen, Elenilson Delmiro dos Santos, Emanuel Soares, Assueros, Maria das Graças Nóbrega, Alder. 

Durante as reuniões, a principal atividade (não a única) era a de refletir e debater vários livros, notadamente diversos livros do Pe. José Comblin, tais como:
Tempo da Ação, A Palavra, Vocação para a Liberdade, O Caminho, A Vida em busca da Liberdade, entre outros.

Além dos livros do Pe. José, diversos outros teólogos e teólogas foram objeto de reflexão, no Grupo. Dentre eles/elas:
- Hugo Echegaray. A Prática de Jesus; (vozes, 1982)
- Leonardo Boff. Saber Cuidar;
- Hans Kûng. 
- De Ivone Gebara, vários textos.
- Jean-Yves Leloup e outros.
- Normose;
- Eduardo Hoornaert. Origens do Cristianismo; A Missão do Povo Cristão; Em busca de Jesus de Nazaré
- Luiz Carlos Araújo. A Heresia primordial;
- José Hailton Bezzeira Lyra; (Espiritualidade)
-Teresa Forcades. O Feminismo na história da Teologia;
-José Antonio Pagola. Jesus, aproximação história

Iniciativa e coparticipação na organização das Semanas Teológicas Pe. José Comblin;
- Participação na organização e vivência das Jornadas Comunitárias.

Vinculação do grupo Kairós ao IMWAC
(International Moviment We Are Church).

Tal participação se dá a partir de 2009, graças a duas circunstâncias especiais: o arcebispo Dom Aldo Pagotto, em seu estilo polêmico de protagonista de sucessivos conflitos, desde que assumiu suas funções na Arquidiocese da Paraíba, logo se indisporia com diversos padres, a alguns chegando a suspender de ordem. Foi o caso também do Pe. Luiz Couto, que exercia o cargo de Deputado Federal. Sua suspensão se dava por motivos de duvidosa justificativa: o arcebispo alegava que o Pe. Luiz, em um boletim da Câmara de Deputados, tinha feito publicar uma nota na qual expunha uma posição supostamente indevida em relação à homossexualidade e ao celibato sacerdotal. Em defesa do Pe. Luiz, foi organizada uma série de atividades e de protestos, inclusive em praça pública, uma delas em frente ao Palácio Do Bispo, manifestação com amplo apoio popular de alguns movimentos e pastorais sociais. Nesse ambiente de tensão, um grupo foi até à casa de Comblin, em busca de conselhos. Na ocasião, Comblin se referiu, de passagem, à atuação de leigos e leigas do Chile, ligados ao Movimento Somos Tambíén IGlesia. Daí nasce a inspiração de se organizar uma página na internet, um blog, como nome Kairós/Nós Também Somos Igreja. Pouco tempo depois, para surpresa nossa, eis que recebemos uma mensagem da parte de Pedro Freitas, desde Portugal. dizia haver tomado conhecimento do nosso grupo Kairós, e que ele fazia parte do Movimento International Movement We Are Church, como membro do grupo de Portugal, ao mesmo tempo incentivando-nos a nos filiar ao mesmo movimento. Para tanto, eniou-nos o link da página eletrônica, do IMWAC, bem como endereço de contato do coordenador do IMWAC. Fraternalmente acolhidos, solicitaram-nos enviar-lhes nomes de representantes do Kairós, para fins de correspondência rotineira. Foram-lhes apresentados, inicialmente, os nomes de Rolando Lazarte e Alder Calado, aos quais foram acrescentados os nomes de Joseph Brendan McDonald, Aparecida Paes Barreto e Magdala Melo.  



O Grupo Kairós-NÓS TAMBÉM SOMOS IGREJA é um coletivo formado por leigas, leigos, religiosas, religiosos e ministros ordenados da Igreja Católica Romana, com sensibilidade ecumênica, integrado por membros de outras Igrejas cristãs e outras pessoas interessadas, animados pelo propósito de responder, com humildade e solicitude, à vocação missionária do Seguimento de Jesus, a serviço do Reino de Deus. Formado há dez anos, vem se encontrando periodicamente, na casa do Pe. José Comblin, para compartilhar suas angústias, desafios, alegrias, lutas, esperanças e projetos, como cidadãos e como cristãos.
Além dos momentos de partilha, o Grupo também se encontra periodicamente, em momentos fortes de oração, de retiro, de celebrações e diferentes atividades de caráter formativo. Tem tido como referência animadora de sua caminhada de Fé a Teologia da Libertação, da qual também é expressão a Teologia da Enxada, na perspectiva de teólogos como o próprio José Comblin, e contando com a inspiração profética de figuras como Oscar Romero, Helder Câmara, Gustavo Gutierrez, Antônio Batista Fragoso, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, entre outras.
Pela sua reconhecida atuação profética, há mais de meio século, no Brasil e na América Latina, Pe. José Comblin tem sido, desde o início do nosso Grupo, uma inspiração abençoada e sempre presente. Graças à resistência do Pe. José, o Grupo passou um bom tempo sem se identificar com um nome específico. Pretendia carregar o nome de José Comblin, em reconhecimento e homenagem pela sua incansável ação missionária entre os pobres do Brasil e da América Latina, desde 1958.
Mais recentemente, sentindo-se cada vez mais afinado com o promissor empenho do Movimento internacional “Nós também somos Igreja” (também conhecido como “Wir sind Kirche”) (Áustria: http://www.wir-sind-kirche.at/; Alemanha: http://wir-sind-kirche.de/), “We are Church” (http://www.we-are-church.org/”), a partir do qual se obtém informações sobre o Movimento atuando atualmente em mais de vinte países: “Nous sommes Église”, “Somos Iglesia”, “Noi siamo Chiesa”, movimento esse que já conta com dez anos de caminhada, o nosso Grupo houve por bem ajudar a engrossar as fileiras desse movimento, cujos principais objetivos (que fazemos nossos) são, entre outros: – retomar o impulso evangélico em direção a uma Igreja servidora e pobre, comprometida com a causa libertadora dos empobrecidos; – reafirmar, como ponto de partida, o espírito do Concílio Vaticano II, de modo a despertar em nós a leitura atenta dos sinais dos tempos; – o exercício da colegialidade nas principais decisões eclesiais; – reconhecer e promover o justo lugar dos leigos – especialmente das mulheres – na Igreja, nas instâncias de decisão; – a livre opção pelo celibato, no exercício de todos os ministérios (ordenados ou não); – valorização e avaliação positiva da sexualidade e afetividade, como dimensões da pessoa; – recuperar a radicalidade e simplicidade da mensagem, palavra e vida de Jesus; – a valorização da justiça social e dos direitos humanos; – a disposição para o diálogo.
Tendo em vista que esse Movimento ainda se acha incipiente no Brasil e na América Latina (no Chile, encontramos sinais animadores), embora já tenha dez anos de caminhada, nós queremos, em fraterno e fecundo diálogo com seus membros e representantes, em escala internacional, contribuir nessa direção, buscando dele participar com nosso rosto latino-americano e brasileiro, enfatizando a dimensão conciliar de uma Igreja servidora e pobre, na perspectiva anunciada em Medellín e Puebla, para que “a esperança dos pobres viva”, ao mesmo tempo em que também nós nos comprometemos em contribuir para a realização de uma Assembléia Mundial do Povo de Deus prevista para 2015, meio século após o encerramento do Concílio Vaticano II.
Não é objetivo do nosso Grupo propor nem insinuar uma “igreja paralela”. Manifestamos, na confiança e na liberdade que o Espírito de Jesus nos inspira, nosso compromisso com a permanente renovação da Igreja, na perspectiva do Seguimento de Jesus. Da nossa Igreja queremos fazer parte ativa, inclusive nas instâncias de decisão, junto com os demais membros da mesma Igreja, estando abertos ao diálogo fraterno com outras Igrejas cristãs e ao diálogo interreligioso, sentindo-nos todos como membros do mesmo Povo de Deus (https://kairosnostambemsomosigreja.wordpress.com/2009/08/22/quem-somos-3/).

Queridos irmãos e irmãs do Conselho do IMWAC,


A poucas horas do início do Encontro do Conselho do IMWAC, em Dublin, nós, membros da secção brasileira do IMWAC, reunidos em nosso encontro semanal, não tendo podido contar, desta vez, com representantes neste Encontro de Dublin, dirigimo-nos a todos vocês participantes deste Encontro, , para

* saudar fraternalmente/sororalmente cada um, cada uma de vocês, desejando-lhes um abençoado Encontro;

* agradecer a todos vocês, em especial aos queridos membros do WAC - Irlanda, pelo reconhecido empenho nos preparativos, no envio de seus relatos nacionais, bem como na disposição de acolher a todos em Dublin;

* ressaltar fortemente e agradecer aos membros do IMWAC, notadamente a Didier, pela fecunda iniciativa de participação no recente e abençoado Encontro em Chiang Mai, junto com nossos queridos irmãos e irmãs de distintos países da Ásia, ao mesmo tempo em que expressamos nosso desejo de que iniciativas como esta sejam priorizadas e se ampliem cada vez mais, de modo a permitir um diálogo contínuo e orgânico com os irmãos e irmãs de outros continentes, do que depende nosso testemunho de fidelidade ao espírito do Evangelho e ao próprio caráter de catolicidade de nossa Igreja, o que poderia implicar numa consulta/convite aos irmãos e irmãs da Ásia, de participação mais efetiva no IMWAC;

* lamentar e expressar nossa profunda tristeza em relação ao episódio do (auto?)desligamento de nosso querido Rolando Lazarte, da lista de correspndência do Conselho do IMWAC, reconhecendo e agradecendo-lhe pela significativa contribuição por ele oferecida ao IMWAC, o que seguirá fazendo a Kairós/Nós Também Somos Igreja e a outros grupos;

* lamentar e manifestar nossa indignação com relação a práticas comunicativas demasiado rígidas demonstradas por alguns membros do IMWAC, por sua pouca sensibilidade no trato com o diferente, em especial em relação a temas ou pessoas "de longe", o que nos alerta contra um certo risco de eurocentrismo, conforme, aliás, já reconhecido, mais de uma vez, por alguns irmãos e irmãs europeus do próprio IMWAC;

* expressar a alguns e algumas de vocês nossa gratidão, por se haverem manifestado, em termos pessoais, sensíveis à posição de Rolando, tendo inclusive dele solicitado reconsideração quanto ao seu pedido de desligamento da lista do IMWAC, reconhecendo a importância de seus escritos e textos compartilhados, na lista do Conselho do IMWAC;

* agradecer pelo convte que nos é feito, de participar, via Skype, de uma vídeo-conexão, tendo inclusive Raquel se proposto a conduzir como intérprete esse momento. A este respeito, pouco antes do episódio de seu desligamento, ele já havia feito teste em sua casa, para nos receber, nessa ocasião, após o que não se sentiu mais à vontade de assim proceder. Por outro lado, João Fragoso, assíduo integrante do nosso Kairós (ele próptio irmão do conhecido Dom Fratoso, bispo de Cratéus, um dos signatários do famoso "Pacto das Catacumbas") também havia preparado o ambiente em sua casa, para nos receber, caso Rolando não pudesse, eis que há dois dias sofreu um sério problema de saúde (ele tem 80 anos), o que muito lamentamos, à medida que isto adia para outra ocasião nossa tão aguardada e preprarada vídeoconexão.

- agradecer a todos e, mais recentemente a Martha, pelo envio da Programão do Encontro, que vamos seguir, na medida do possível.

Que seja frutuoso o Encontro de Dublin, e que, solícitos, nós nos disponhamos a escutar o que o Espírito do Ressuscitado tem a nos dizer, a todos e a cada um, a cada uma.

Fraternalmente, sororalmente,

Kairós/Nós Também Somos Igreja
Secção Brasileira do IMWAC


INTERNATIONAL MOVEMENT WE ARE CHURCH(IMWAC)
KAIRÓS/ NÓS TAMBÉM SOMOS IGREJA (Brazilian Section of IMWAC)

ABOUT US AND OUR ACTIVITIES FOR A CHANGING WORLD (CHURCH AND SOCIETY)
SOBRE NÓS E NOSSAS ATIVIDADES EM UM MUNDO (IGREJA E SOCIEDADE) EM MUDANÇA

QUEM SOMOS
ABOUT US

            Kairós-Nós Também Somos Igreja, secção brasileira do IMWAC, constitui um bem diversificado Grupo de cristãos e cristãs,principalmente do Nordeste do Brasil, que se quer de caráter formativo, informativo, celebrativo e atuante. Com perspectiva ecumênica, há reuniões semanais e atividades regulares desenvolvidas por seus componentes, junto a diferentes movimentos e pastorais sociais, comunidades eclesiais e outras organizações de base de nossa sociedade.
            O Grupo foi iniciado em 1998, em torno de reuniões mensais na casa do teólogo Pe. José Comblin, a quem o grupo tem como principal referência em seu processo formativo sócio-eclesial. Devido ao interesse aí suscitado, e tendo em vista crescentes desafios atuais, o grupo decidiu, há vários anos, encontrar-se semanalmente, tendo como propósitos:
·        discernir, debater e ajudar a enfrentar os velhos e novos desafios, seja no âmbito macro-social, seja ao interno dos caminhos e descaminhos da Igreja Católica e de outras Igrejas Cristãs;
·        fortalecer e tornar mais afetivos e efetivos nossos laços organizativos, numa dimensão comunitária;
·        estudar e refletir sobre livros do teólogo José Comblin, em especial os dedicados à compreensão da missão do Espírito Santo no mundo, na perspectiva da Teologia da Libertação, da qual ele é uma das primeiras referências;
·        debater textos de outros teólogos e teólogas, tais como Hans Küng, Carlos Mesters, Ivone Gebara, Jon Sobrino, Leonardo Boff, Eduardo Hoornaert, Jean-Yves Leloup, Hugo Echegaray, etc.;
·        intercambiar e refletir sobre relatos de nossas experiências de cidadãos e de cristãos junto às pessoas e às comunidades de distintos espaços de que participamos;
·        fazer memória dos acontecimentos, numa perspectiva de mútua ajuda;
·        fazer intercâmbio com pessoas e grupos de outros lugares, regiões e países, notadamente com os grupos de cristãs e cristãos empenhados na luta por mudanças libertárias na sociedade e nas igrejas;
·        organizar periodicamente seminários, colóquios, fóruns de diálogo com outros sujeitos históricos.

SOBRE NOSSAS ATIVIDADES EM BUSCA DE UMA SOCIEDADE E DE UMA IGREJA EM MUDANÇA

I. O que entendemos por uma Igreja em mudança?

            Como filhos e filhas de Abraão, e sobretudo como discípulos e discípulas de Jesus, aprendemos que o Povo de Deus sempre foi e segue sendo um povo de caminheiros, de migrantes, de gente sempre a caminho, peregrinos em busca de um continuo processo de conversão: conversão da morte em vida, das trevas para a luz, da escravidão para a liberdade. Daí soar-nos familiar o que aprendemos da tradição: “Ecclesia semper reformanda”. Não apenas a comunidade eclesial, mas cada uma, cada um de nós é chamado a uma contínua e profunda renovação, não uma reforma superficial.
            Resta a saber: mudar, em que sentido, em que direção? Não se trata de mera adaptação aos valores hegemônicos de nossa época, de modo a tornar-nos agradáveis aos tempos de hoje. Não seria isto, por certo, ser homens e mulheres do nosso tempo! Trata-se, sim, de um incessante esforço de mudança, na perspectiva do Evangelho, no espírito do seguimento de Jesus, cujo apelo implica efetiva solidariedade e compromisso com a causa de libertação dos pobres, marginalizados e esquecidos, de uma clara opção por um estilo sóbrio de vida, fora dos altos padrões de consumo, e de modo a testemunhar amorosidade em relação à natureza, aos humanos e a toda a comunidade de viventes, em especial os mais desprezados: as crianças, as mulheres, os jovens, os povos indígenas, os povos afrodescendentes, os camponeses...
            A Igreja em mudança pela qual nos comprometemos, é a que se põe a serviço da causa libertadora dos pobres e pela dignidade da Mãe-Natureza. Isto requer profundas mudanças do atual paradigma eclesiológico, seja do ponto de vista de suas estruturas, seja sob a ótica de sua organização e de gestão, seja no que se refere ao estilo de vida de seus membros.
Não faz sentido, por exemplo, do ponto de vista evangélico, mantermos o atual modelo piramidal de Igreja, que mais se parece com uma estrutura imperial condenada por Jesus, em Mc 10, 42-45: “Entre vós, não será assim”. Precisamos inspirar-nos na forma de organização das primeiras comunidades cristãs, de feição horizontal, fraterna, solidária, protagonizada pelo povo dos pobres, atuando na liberdade e na autonomia das pequenas comunidades, orgânica e fraternalmente ligadas, por meio de periódicas assembléias, numa dimensão de serviço e não de poder de um sobre os demais.
Na tradição evangélica, em que buscamos inspirar-nos, não faz igualmente sentido uma Igreja organizada à feição de um Estado autoritário, com seus eficientes aparelhos de controle e repressão, hostis ao espírito de colegialidade. Queremos uma Igreja Povo de Deus, conforme o espírito do Concílio Vaticano II, uma Igreja formada por irmãos e irmãs portadores da liberdade do Espírito e dotados da mesma condição de igualdade para todos, para todas, conferida pelo Batismo e pelo discipulado de Jesus, que tendo vindo “para servir, não para ser servido”, também nos propõe, a nós membros de sua Igreja, a fazer o mesmo.

II O que vimos fazendo

            Temos desenvolvido uma agenda bastante diversificada, conforme, aliás, o não menos diversificado perfil do nosso Grupo, do qual fazem parte homens e mulheres, católicos em sua maioria, mas também pessoas de outras igrejas cristãs.
Nosso grupo é ecumênico e eclético. Dele fazem parte pessoas nascidas no Brasil e fora do Brasil; é formado por pessoas de diferentes etnias, gênero e faixas de idade, de distintos níveis de escolaridade e integrantes de diferentes movimentos e pastorais sociais e outras organizações de nossa sociedade.
            A partir desse perfil, podemos distribuir em três itens as atividades que temos desenvolvido: 1) as atividades rotineiras e de caráter intragrupal; 2) iniciativas de diálogo com outros grupos eclesiais e de outras igrejas; 3) atividades junto a movimentos sociais, a pastorais sociais e a outras organizações de base de nossa sociedade.

1) Atividades internas do nosso Grupo – Aqui assinalamos as principais atividades que realizamos em nossos encontros semanais, já há vários anos:
·        informações compartilhadas de intervenções dos membros do Grupo em diferentes atividades junto a movimentos sociais e organizações de base;
·        reflexão sistemática e compartilhada de obras de teólogos e teólogas da Libertação;
·        partilha de situações de vida por parte dos componentes do Grupo;
·        frequentes debates sobre elementos da conjuntura sócio-eclesial (internacional, nacional e local);
·        confraternização e celebrações especiais em algumas datas emblemáticas.

2) Iniciativas de diálogo com outros grupos – Além de nossas atividades rotineiras, também promovemos ocasiões de debate e de diálogo com outros grupos sócio-eclesiais, tais como:
·        seminários de Teologia;
·        sessões de memória de figuras emblemáticas (Dom Oscar Romero; Dom Helder Câmara; Pe. José Comblin);
·        encontros de intercâmbio com outros grupos eclesiais (grupos de Ação Católica, Pastoral de Juventude do Meio Popular, Movimento dos Trabalhadores Cristãos, entre outros).

3) Atividades em diferentes movimentos sociais, pastorais sociais e organizações de base – Parte expressiva do Grupo mantém atividades regulares junto a diferentes sujeitos sociais, tais como:
·        Movimentos Sociais (Movimento das Comunidades Populares – MCP, inclusive com participação em seu Jornal das Comunidades Populares; Assembléia Popular, Sindicato dos Trabalhadores em Extensão Rural, Movimento dos Trabalhadores Cristãos – MTC);
·        Pastorais Sociais e movimentos eclesiais (Comissão de Pastoral da Terra, Pastoral da Juventude do Meio Popular, Pastoral Operária, entre outras).
·        Organizações de base (Associação Brasileira de Terapia Comunitária – ABRATECOM, Grupo de Assistência de Familiares e Amigos de Alcoólicos – ALANON, Cooperativismo inspirado na economia solidária, grupo de pesquisa sobre a América Latina contemporânea), educação popular.

III O que propomos aos demais participantes desse Encontro

            Dentre as principais inquietações e propostas aos demais membros do IMWAC, destacamos:
·        articular mais expressamente, e de maneira regular, nossas análises críticas concernentes à Igreja, de forma historicamente contextualizada, de modo a refletir também as injunções históricas e macro-sociais;
·        exercitar, com incessante autovigilância, o espírito de colegialidade, ampliando a participação de mais pessoas do IMWAC, nos processos decisórios;
·        priorizar nosso olhar analítico (seja em relação à Igreja ou à sociedade) a partir dos excluídos de nossas sociedades (as mulheres, os pobres, os negros, os migrantes, os trabalhadores rurais e urbanos, etc.);
·        ampliar, de modo mais efetivo, nossa ação, investindo mais e melhor no intercâmbio com irmãos e irmãs de outros continentes;
·        priorizar as relações concretas e horizontais, para bem além dos contatos virtuais;
·        atualizar as contribuições da Teologia da Libertação, e suas aplicações no empoderamento de pessoas e comunidades, ecofeminismo, ecologia, relações inter-étnicas, etc.
·        prevenir toda forma de violência pública ou privada, de várias maneiras, dentre elas: a criação de vínculos comunitários e o fortalecimento da auto-estima.
·        defesa irrestrita dos Direitos Humanos.
·         valorizar o diálogo inter-religioso e a prática de uma espiritualidade integrativa e includente, sem fronteiras ideológicas, institucionais ou doutrinárias.
·         valorizar a afetividade e a sexualidade, como dons de Deus, e como formas de felicidade e de comunhão;
·         tornar mais efetivo o uso das línguas (Espanhol e Francês) no IMWAC, incluindo o Português;
·         ampliar o direito de voto para além dos representantes oficiais, ou seja, a todos os membros do IMWAC participantes nas assembléias decisórias;




Outubro de 2012

Kairós-Nós Também Somos Igreja (KNTSI)
João Pessoa, Paraíba, Brasil



MEMÓRIA DAS SEMANAS TEOLÓGICAS PE. JOSÉ COMBLIN 


As Semanas Teológicas Pe. José Comblin emergem da disposição de um grupo de pessoas – entre padres, religiosas, leigos e leigas – que, preocupado em fazer memória do Padre e Teólogo José Comblin, tem o firme proposito de manter acesa a chama de sua espiritualidade; Comblin, como outros profetas latino-americanos ligados à Teologia da Libertação e sob o signo do Concílio Vaticano II, viveu fortemente o Evangelho de Jesus, perseguindo a causa libertária dos pobres rumo a construção do Reino de Deus.

A Primeira versão da Semana Teológica Pe. José Comblin, sob o título “Pe. José Comblin – memória, legado e vigência”, aconteceu em Outubro de 2011, o mesmo ano de sua morte (27 de Março de 2011), e, mais especificamente, procurou fazer essa memória.

A II Semana Teológica Pe. José Comblin, sob o título ”O legado da Teologia da Libertação e a contribuição de José Comblin”, ocorreu em Setembro de 2012. O reconhecido legado de Comblin incorporou-se à homenagem ao Concílio Vaticano II - os 50 anos Pós-Concílio e os desafios para o Cristianismo na América Latina e no Nordeste brasileiro - e à homenagem aos 40 anos da Teologia da Libertação. Ressaltando a Teologia da Enxada como memória das experiências da Igreja na Base no Nordeste, a II STPJC buscou dar visibilidade à Teologia Testemunhal no Nordeste a partir dos Jovens Teólogos e Teólogas da nossa região (os novos desafios e novos sujeitos).

A III Semana Teológica Pe. José Comblin, intitulada “O Espirito Santo e a Missão: o protagonismo das Juventudes”, aconteceu em outubro de 2013. O tema geral foi fruto da fecunda experiência de algumas Jornadas Comunitárias do campo e da cidade e inspirado no livro póstumo de Comblin “O Espírito Santo e a Tradição de Jesus”. Trabalhando com focos distintos, a III Semana prestigiou o ecumenismo, o protagonismo das mulheres nas igrejas cristãs, o compromisso socioambiental, as juventudes, na perspectiva das ações e da formação.

A IV Semana Teológica Pe. José Comblin ocorreu em 2014 e se diversificou em duas modalidades: uma, em parceria com a UNICAP (Universidade Católica, Recife, PE), compreendeu a “Semana de Estudos Pe. José Comblin”, com debates profícuos sobre o legado de Comblin; a outra na Paraíba, desenvolveu o tema “Por uma Igreja Renovada, Povo de Deus, na Alegria do Evangelho e na Tradição de Jesus: Um diálogo implícito entre Papa Francisco e José Comblin”. Naquele ano, além da convencional Plenária com a Exposição dialogante sob o tema central, se fortaleceu e se ampliou a experiência das Jornadas Comunitárias na cidade e no campo. No âmbito das Jornadas Comunitárias foram trabalhados trechos da exortação apostólica - A Alegria do Evangelho -, do Papa Francisco, especialmente quanto aos tópicos relativos ao Povo de Deus como centralidade da organização eclesial, fazendo uma interface com o legado combliniano.

A V Semana Teológica Pe. José Comblin, em 2015, tratou do tema “Por uma Igreja a serviço do Planeta e da Humanidade: a contribuição do Papa Francisco e do Pe. José Comblin”. Aqui foram ressaltados as questões socioambientais planetárias, centrando essencialmente os problemas que nos afligem mais de perto, em nossas vivências cotidianas. Nos fundamentos estiveram a Encíclica Laudato Sì e textos selecionados nas obras de Comblin. Ressalta-se que, no percurso de nossas atividades, fomos surpreendidos pela perda repentina do Pe. Josenildo, sempre presente e grande colaborador (como tantos outros) das diversas versões das Semanas Teológicas.

A VI Semana Teológica Pe. José Comblin, em 2016. A partir do grave e complexo problema mundial das migrações, voluntárias e forçadas, esta Semana aprofundou a dinâmica da fé cristã do "Povo de Deus desinstalado por um mundo sem fronteiras" e lembrou as "Afinidades entre as posições do Papa Francisco e do Pe. José Comblin sobre a condição de migrantes e refugiados". Toda a vida cristã, em particular a vida militante e religiosa/consagrada, é vida missionária, portanto desinstalada, atuando nas "periferias existenciais", junto aos empobrecidos e às comunidades que lutam por liberdade e autonomia, longe dos centros e das atrativas do ´poder´.

A VIIa SEMANA TEOLÓGICA PE. JOSÉ COMBLIN, em 2017, abordou um tema fundamental na Tradição Cristã, na vida das Igrejas e também na Sociedade em geral: “Instituição e Carisma, à luz da Tradição de Jesus”. A relação entre os dois polos - carisma e instituição – não sempre tem sido tranquila, inclusive se deu, e continua se dando, no meio de muitos problemas e tensões. Foram realizadas quatro Jornadas Comunitárias em grupos e comunidades da periferia e do campo; na Sessão de Encerramento houve a escuta da reflexão destes grupos e, em seguida, uma ampla e profunda reflexão bíblico e teológica.

A VIIIª Semana teológica Pe. José Comblin teve sua conclusão no dia 15 de Setembro, no Mosteiro São Bento, em João Pessoa. O tema foi: “Medellín 50 anos, vocação e missão das leigas e dos leigos à luz da tradição de Jesus”. Os participantes escutaram o relato/síntese da reflexão de quatro grupos de base e comunidades sobre o tema. Em seguida apreciaram com atenção a colocação de Alzirinha Rocha de Souza, doutora em teologia e responsável do Centro de Pesquisa e Documentação José Comblin (da Universidade Católica de Recife) sobre “Medellín, memória e atualidade para a América Latina e para o mundo”. Vanderlan Paulo, doutor em história e educação popular, falou sobre o impacto de Medellín na Igreja da Paraíba e na prática pastoral de Dom José Maria Pires.


NAS TRILHAS DE PUEBLA, POR UMA IGREJA EM SAÍDA: aportes da IX Semana Teológica Pe. José Comblin 

NAS TRILHAS DE PUEBLA, POR UMA IGREJA EM SAÍDA: aportes da IX Semana Teológica Pe. José Comblin 


Culminando a nona edição da semana teológica Padre José Comblin  (IX STPJC), realizou-se, sábado, dia 5 do corrente, a sessão de encerramento da referida semana que, porém, se estende por alguns meses. A sessão de encerramento aconteceu, em João Pessoa, no Centro Pastoral do São Bento, com a participação de representantes, delegados e delegadas eleitos nas respectivas jornadas comunitárias, além de vários outros grupos eclesiais, tais como do Movimento Fé e Política, do Grupo de Espiritualidade Dom Hélder Câmara, da CPT, da Coordenação do Setor Social da Arquidiocese da Paraíba, de Religiosas inseridas no meio popular, e de outros grupos, amigos e amigas do Pe. José Comblin, vindos da Paraíba, de Pernambuco, do Ceará e de São Paulo. 

As linhas que seguem têm o propósito de destacar pontos relevantes da experiência vivenciada, nos últimos meses, e, em especial, na Sessão de Encerramento da IX STPJC. Em primeiro lugar, compartilhamos o que entendemos como sendo os pontos mais relevantes experienciados nas Jornadas Comunitárias; em seguida, restringimo-nos a sublinhar pontos-chave recolhidos, durante a Sessão de Encerramento. 

Das cinco jornadas planejadas, foram realizadas quatro: a da UFPB (animada pelo grupo Kairós), a de Santa Rita (animada pelo grupo Grupo de Espiritualidade Dom Hélder Câmara), a de Café do Vento (animada pelas várias comunidades daquela redondeza, tendo como referência o centro de formação Pe José Comblin) e a dos Bancários (animada pelos membros da Comunidade Paroquial Menino Jesus de Praga) , todas focando o tema central da IX STPJC. “Nas trilhas de Puebla por uma Igreja em saída, com Jesus, Francisco e José” (e tantas Marias e Margaridas!).

Cada uma das Jornadas, tendo em comum a temática proposta, contou com o protagonismo de seus organizadores e organizadoras, inclusive no que diz respeito à metodologia utilizada. A cada uma coube a escolha de um dos três textos propostos, como reflexão sobre o tema: o primeiro texto correspondia a algumas páginas do Documento final de Puebla; um segundo, de autoria do Pe. José Comblin, cuidava de fazer uma análise crítica desta III Conferência Episcopal Latino Americana; o terceiro texto proposto apresentava trechos da Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”, da lavra do Papa Francisco. Houve, também, quem preferisse centrar atenção especial no documentário “Pacto das Catacumbas”.

Das leituras e, sobretudo das reflexões, então compartilhadas, podemos ressaltar os seguintes pontos:


Puebla confirmou o compromisso assumido em Medellín, no que diz respeito à opção pelos pobres, inclusive especificando os diversos rostos de pobres (crianças, jovens, pessoas idosas, povos indígenas, camponeses, operários, desempregados...);


Apesar dos ganhos, a Igreja na Base passou a enfrentar crescentes estratégias de perseguição das CEBs, das pastorais sociais, da Teologia da Libertação, num quadro de desmonte promovido durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI;


Contundentes testemunhos e depoimentos da parte de leigas e leigos foram escutados, nestas jornadas, contra a tendência de clericalismo em voga, bem como forte crítica ao tipo de Formação ministrada nos seminários;


Ao mesmo tempo, veio à tona a reflexão crítica sobre o modelo de paroquialização das CEBs, tornando-as mais reféns do modelo Paroquial, tolhendo-lhes a força profética dos membros, com ampla tendência à resignação apenas a atos devocionais e ao culto, em detrimento de sua missão junto aos mais necessitados, que vivem afastados da paróquia;


Em que pese a densa contribuição de Puebla, importa reconhecer o relativo silêncio referente às mulheres, além da ausência compreensível de temas hoje candentes, tais como os desafios socioambientais, dos migrantes, o da comunidade LGBTIQ, das redes sociais…


A culminância desta 9ª Edição da Semana Teológica Padre José Comblin se deu na sessão de encerramento, realizada no dia 5 de outubro, desde a oração inicial, conduzida pelo Padre Hermínio Canova, focada no tema central da 9ª STPJC, passando pela calorosa acolhida aos participantes da sessão, bem como as pessoas palestrantes convidadas. Foi feita breve memória das semanas precedentes, bem como dos principais temas já trabalhados, dentre os quais juventude, missão, formação, migrantes, entre outros. Em seguida, foram convidadas as pessoas responsáveis por oferecer uma síntese do que se havia trabalhado nas diversas jornadas comunitárias: Aparecida (pelo grupo Kairós, na jornada realizada na UFPB, no dia 11.08), Flávio (pelo grupo de espiritualidade Dom Helder Câmara, em Santa Rita, no dia 08.09), João Batista (pelas comunidades participantes em Café do Vento, no dia 15.09) e Josinaldo (pelo setor social, em Bancários, dia 18.09). A partir de então, são convidadas as pessoas que que vão contribuir com o debate: o teólogo cearense Padre Francisco de Aquino Junior, a professora Elinaide de Carvalho e a professora Ivoneide. Da reflexão oferecida pelo Padre Junior., podemos destacar os seguintes pontos:

atravessamos um contexto histórico caracterizado por uma noite escura, que tratamos de enfrentar confiantes na Esperança do Amanhecer;


o acontecimento puebla e, antes dele, o de Medellín, constituem momentos privilegiados na história recente de nossa igreja. Em Medellín e em Puebla, com efeito, encontrou-se o campo missionário apropriado para afirmação da identidade de uma igreja latino-americana, chamada a recepcionar o Concílio Vaticano segundo, ao seu modo, com denso protagonismo;


Tanto Medellín quanto Puebla, também inspiradas no pacto das catacumbas, passaram a levar a sério dois clamores chave do Concílio Vaticano segundo: o da centralidade do Povo de Deus na organização eclesial e a opção pelos pobres;


Tal protagonismo tornou-se forte, por conta das leigas e dos Lagos que, pouco a pouco, foram tomando consciência de sua condição de sujeitos missionários, com vocação própria, marcada pela igualdade comum conferida pelo batismo, que nos chama ao exercício da profecia, do sacerdócio e da cidadania.


Neste sentido, Vale destacar a importância do significado trabalhado pelo Concílio Vaticano segundo do conceito de Reino de Deus, entendido como Horizonte maior de nossa fé, do qual a igreja é chamada a ser um instrumento a serviço de sua realização;


Cumpre ainda destacar a importância da colegialidade, bem como da vocação específica das leigas e dos leigos, como partícipes na construção do Reino de Deus e sua justiça, por meio de sua ação cidadã, tanto ao interno da igreja, quanto no meio da sociedade, buscando trabalhar as realidades terrestres, com sua autonomia reconhecida nos documentos conciliares.


Parte significativa das ações tomadas pelo Papa Francisco, ainda que recebidas por não poucos como inovações discutíveis, constitui uma retomada do espírito do Concílio Vaticano II, cujas resoluções  centrais sofreram longa interrupção, durante os pontificados precedentes. O cerne das decisões recentemente tomadas pelo Bispo de Roma, tem a ver com a aplicação pastoral das deliberações do Vaticano II, fazendo centrar no Povo de Deus e não na hierarquia, a responsabilidade da vida eclesial trazendo os Leigos e Leigas como corresponsáveis pela organização e pela missão da Igreja no mundo.


Tanto a  opção pelos pobres quanto as constantes críticas feitas pelo Papa Francisco ao clericalismo vão por exemplo nesta direção de retomar o espírito do Vaticano II e das principais Conferências Episcopais Latino Americanas (Medellín, Puebla e Aparecida).


Quanto à contribuição oferecida pela Professora Elinaide Carvalho, enfatizou também lacunas ou ausências sentidas no Documento de Puebla, expressão de uma posição que segue hegemônica, na Igreja Católica Romana. Reconhecendo o espírito e a posição de renovação que o Papa Francisco vem mostrando, pelo relevante segmento eclesial das Mulheres, tem se pronunciado criticamente em relação ao lugar que as Mulheres seguem ocupando na Igreja mesmo no governo do Papa Francisco. As iniciativas, neste sentido, vem sendo aquém do que esperam e reivindicam as Mulheres, a exemplo do movimento "Católicas pelo direito de decidir".


Por sua vez, a Professora Ivoneide centrou sua reflexão, destacando a perspectiva da juventude, em Puebla. No segmento protagonizado pelos jovens, tem-se observado um relativo hiato entre o que se faz nas paróquias e o que desejam os jovens. Eles querem ter mais voz e vez, ter participação nas decisões enquanto a onda clericalista segue colocando o padre no centro da vida paroquial, de modo a inviabilizar a ação missionária nas periferias bem como o protagonismo dos jovens.


A despeito dos obstáculos para uma melhor viabilização da proposta do Papa Francisco, na perspectiva de uma 'Igreja em saída", importa ter presentes suas iniciativas proféticas, de largo alcance renovador, dentro e fora dos espaços eclesiais merecendo destaque entre elas: sua ação profética não se restringe aos espaços eclesiais, mas estende-se pelos quatro cantos do mundo por onde tem peregrinado, como o tem feito por meio de suas 31 viagens apostólicas, em seis anos. Sua enorme sensibilidade à causa socioambiental bem expressa em sua Exortação Apostólica "Laudato Sìi".

Sua incansável confiança no protagonismo dos pobres, testemunhado, por exemplo em sua iniciativa de promover encontros mundiais de representantes dos movimentos populares dos vários continentes. 

A organização de um Sínodo Especial sobre os desafios da região panamazonica, a testemunhar seu empenho pastoral em defesa e promoção da causa socioambiental ("nossa casa comum"). 
Por iniciativa sua, já estão agendadas para os primeiro semestre de 2020, em Roma, encontros com economistas comprometidos com uma proposta alternativa de economia, e um outro encontro com Educadores e Educadoras, chamados a refletirem sobre a importância de uma formação de uma educação mais eficaz, quanto aos compromissos evangélicos pela justiça e pela paz.

Importa assinalar a recepção positiva da sugestão apresentada por Elinaide, Jéssica e outras participantes (e por todos acolhida) de se dedicar à próxima X STPJC a temática das mulheres e seu lugar na Igreja.

Em síntese, as STPJC têm sido, e hão de continuar sendo, ocasiões especiais de partilha e de renovação de compromissos com a causa do Reino de Deus e sua justiça.
Correndo risco de omissão de alguns nomes, ousamos externar nossos agradecimentos a quantos e quantas vêm colaborando, direta ou indiretamente, na realização dessas Semanas e respectivas jornadas comunitárias. Um reconhecimento especial aos convidados para distintas mesas de diálogo, desde a Primeira Semana, dentre os quais: Eduardo Hoonaert, Mônica Maria Muggler, João Batista Magalhães, Agenor Brighenti, Carlos Susin, Josenildo Francisco Lima (”in memoriam”), Pastor Luciano Batista de Sousa, Vanderlan Paulo Oliveira, Irmã Elisângela Belo, , Hermínio Canova, Artur Peregrino, Jeane Tranquilino, Gilbrás, Sebastião Armando Gameleira, Francisco Aquino Júnior, Elinaide Carvalho, dentre outras pessoas.
Antes de enunciar alguns desafios ora enfrentados pelo Grupo Kairós, fazemos questão de destacar a linha de continuidade e os vínculos fraternos que nos unem a toda a vasta família combliniana, no âmbito da caminhada da Teologia da Enxada: desde o Seminário Rural, passando pelo Centro de Formação Missionária (Serra Redonda), pelo Centro de Formação de Missionárias Populares, pela Associação de Missionários e Missionárias do Campo, pela Associação de Missionários e Missionárias do Nordeste, pela Fraternidade do Discípulo Amado, pela Associação Árvore, pelo Grupo de Peregrinos e Peregrinas do Nordeste, pelas Escolas de Formação Missionária, pelo Grupo José Comblin (Café do Vento), Centro de Pesquisa e Documentação José Comblin (UNICAP - PE).
Desafios atuais do grupo IMWAC: A despeito de uma caminhada frutuosa, percebe-se a presença de reiteradas dificuldades, na caminhada do Kairós. Em parte, têm a ver com os embaraços comuns de qualquer grupo ou organização. Por outro lado, importa ter presentes também dificuldades internas que desafiam a continuidade do Grupo. Destaquemos algumas:
- nesses 21 anos, é notável o rodízio de membros, além de visitantes eventuais, sem que se tenha mantido um núcleo perseverante composto sobretudo de pessoas enfrentando limites (na saúde, na idade...);
- há uma notável circulação de pessoas pelo grupo, sem que isto signifique um compromisso estável;
- por conta destas e de outras limitações, percebe-se um ímpeto menor de pessoas a assumirem tarefas coletivas regulares, o que representa alguma sobrecarga para poucos membros, na contribuição efetiva de tarefas tais como: participação regular junto com outros grupos, na organização e participação das atividades relativas à organização da semana teológica Pe. José Comblin e das respectivas Jornadas Comunitárias;
- se, de um lado, se tem mostrado positiva e vigorosa a participação dos membros do grupo Kairós nas reuniões semanais com muito afinco e envolvimento; por outro lado, em diversas tarefas ligadas a outros espaços, a frequência se limita a pouca gente;
- sobretudo durante as últimas décadas, vale destacar um exitoso esforço de conexão do Kairós com outros grupos e organizações, tais como: o IMWAC (inclusive, com participação de delegação nossa), contatos significativos com os membros da comunidade de Petrópolis (Wanderley, Ana, Leopoldo, Thomaz e outros), trabalho conjunto em atividades com o grupo José Comblin (comunidades de Café do Vento, com Pe. Hermínio Canova, João Batista, Jéssica, Jardene e outras) com a equipe de coordenação da escola de formação missionária de Mogeiro, participação em atividade organizadas pelo centro de pesquisa e documentação José Comblin, com o setor social da Arquidiocese entre outras. 

João pessoa, 31 de outubro de 2019. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

BIOMAS - PROPRIEDADE DE UM POVO/NAÇÃO OU BEM COMUM DA HUMANIDADE? Considerações em torno do caso da Amazônia

BIOMAS - PROPRIEDADE DE UM POVO/NAÇÃO OU BEM COMUM DA HUMANIDADE? Considerações em torno do caso da Amazônia

Alder Júlio Ferreira Calado

Em face dos índices assustadores de deterioração da qualidade de vida do Planeta e dos humanos, bem como do acirramento de práticas e discursos insanos da parte de figuras sociopatas, assistimos ao recrudescimento, em escala mundial do antagonismo entre dois principais modelos de desenvolvimento: de um lado, o modelo predatório embasado na exploração incondicional dos bens da Terra (megaprojetos hidrelétricos, exploração predatória das florestas, indústria extrativista de minérios, expansão indiscriminada de áreas agropastoris em função do agronegócio, etc); e, de outro, um modelo de ecologia integral, fundado em uma convivência respeitosa e fraterna entre os humanos e toda a comunidade dos viventes. 

Nos últimos tempos, graças a revelações de dados espantosos dando conta do agravamento da crise climática, de debate, inclusive, na mais recente conferência realizada na ONU, trazendo revelações fundadas em dados por institutos e entidades de amplo reconhecimento científico internacional, a exemplo do INPE do Brasil, acerca do crescimento desmedido de registros de desmatamento na Amazônia, eis que se tem elevado o tom dos discursos inflamados em acusação a órgãos científicos e em defesa de sua legitimidade. 

Em meio a este fogo cruzado de confrontos, eis que está programada, já há algum tempo a realização em Roma, iniciado a partir de domingo, dia 6 do corrente - e estendendo-se ao longo de três semanas -, do Sínodo dos Bispos convocado pelo Papa Francisco, acerca dos desafios enfrentados pela região pan-amazônica, envolvendo nove países, inclusive o Brasil. Do referido Sínodo devem participar em torno de 180 bispos e outros convidados. O que está em jogo neste acontecimento? 

Nas linhas que seguem, tratamos de, primeiro, fornecer breve notícia sobre o bioma amazônico. Em seguida, rememoramos de passagem alguns dados sobre em que ponto se encontram as condições dos biomas mais ameaçados. Posteriormente, cuidamos de ressaltar as principais marcas dos projetos de desenvolvimento em disputa no Brasil e em outros países. Por último, tratamos de centrar atenção nos traços axiais do paradigma alternativo do Bem Comum da Humanidade, à luz das teses sustentadas por François Houtart.

Biomas em agonia



Em socorro aos gritos da terra, das matas, das águas e das gentes, levanta-se uma voz profética em defesa da vida.

O Sínodo dos bispos vai tratar das enormes dificuldades que cercam e infelicitam aquela terra e aquelas gentes, focando desafios e números a clamarem por respostas urgentes. Dentre estes desafios que serão debatidos, podemos destacar: a disputa de dois modelos de desenvolvimento (o modelo predatório e o modelo sócio-ambiental), o alto índice de assassinatos registrados na região, vitimando principalmente ativistas dos direitos humanos, a produção extrativista mineral, feita em prejuízo da Terra das Águas e daqueles habitantes, a exploração devastadora da madeira, inclusive com o propósito de desmatar áreas a serem depois exploradas pela pecuária extensiva em função do agronegócio, a instalação de mega projetos, relativos à construção de hidrelétricas, trazendo enormes prejuízos a região e seus habitantes, a construção de ferrovias e rodovias devastando terras indígenas, desrespeitando as condições de Equilíbrio sócio-ambiental daquela região. Além disto, o Sínodo dos bispos tratará das condições de saúde precarizadas bem como da falta de estrutura, de saneamento das áreas urbanas da região e ainda das condições do sistema prisional montado naquela região.

Que traços destacar da região Amazônica compartilhada por nove países da América do Sul, inclusive o Brasil? Quais os desafios mais salientes desta vasta e complexa região? Como vivem suas populações aborígenes, ribeirinhos, povos das florestas, das águas e outras comunidades tradicionais? Que dificuldades maiores enfrentam essas populações e a própria região? Como se apresenta na atualidade? Que projetos em disputa podem ser observados na Amazônia atual? Que forças de um lado e de outro representam cada um desses projetos?

O bioma amazônico está contido em vasta área da América do Sul, passando por nove países: Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa. O mesmo bioma ocupa área maior ou menor, nesses países. No caso do Brasil, por exemplo, a Amazônia ocupa quase metade de sua área. Vivem neste bioma, em torno de 35 milhões de habitantes, dos quais mais de 25 milhões só na Amazônia brasileira. Em todo o bioma amazônico, gente e natureza se acham umbilicalmente relacionadas, de sorte que as condições de uma parte refletem-se necessariamente na outra, seja para o bem, seja para o mal. Estima-se em cerca de 2 milhões de espécies, parte das quais extremamente ameaçadas, enquanto milhares de tantas outras se acham extintas ou em via de extinção.
Da considerável variedade de suas gentes, povos originários, ribeirinhos, Comunidades Quilombolas, comunidades de coletores de frutos da região, etc. -temos recebido crescentes reclamações, por meio de documentos, de cartas, de testemunhos, de depoimentos, dando conta de infortúnios provocados por grileiros, garimpeiros, madeireiros, representantes e agentes de grandes empresas de mineração e do agronegócio, representantes governamentais empenhados em construções de hidroelétricas e megaprojetos. Isto não vem de hoje, embora se trate de um cenário que se vem agravando, nos últimos tempos, especialmente a partir do governo Bolsonaro.
Atentando-se melhor à natureza e aos procedimentos com que se dão tais ataques, percebemos que não se trata de ataques perpetrados apenas por pessoas ou grupos isolados, dentro ou fora da região. Importa ter presente conjunto de forças sociais mais graúdas, que estão por trás das ações de pessoas ou de pequenos grupos. Em cada um desses ataques, ao analisarmos as ações, vamos percebendo que interesses maiores se acham em jogo, por exemplo, na implantação de megas empresas hidrelétricas, concebidas e construídas sem qualquer consulta verdadeira aos povos da região - muito ao contrário, à revelia e contra seus interesses - vamos observando a atuação seja do Estado, seja das grandes empresas transnacionais, aparecendo como um dos principais protagonistas destes ataques. Para tanto, usa-se e abusa-se de toda sorte de pretensa justificativa, sendo a mais frequente a da necessidade de atendimento às demandas do Progresso do crescimento econômico, pouco ou nada tendo a ver com as populações locais. O que se constata, não raramente, é a atuação do Estado e seus aparelhos em benefício, principalmente, das grandes transnacionais a que se subordina o Estado. Algo bastante similar se passa, também, em relação a outros projetos, tais como o da mineração, da extração ilegal de madeira, expansão desenfreada das áreas destinadas à pecuária extensiva.

Em busca de um paradigma alternativo: apontamento sobre o paradigma do Bem Comum da humanidade.

É sabido que o modo de produção capitalista desde suas origens, e em suas diversas manifestações, tem sido caracterizado pela sua extrema voracidade de expansão territorial, pelos quatro cantos do mundo. Em sua avidez de acúmulo de bens, produtos e riquezas sucede, todavia, que nos últimos tempos, graças à prevalência de seu setor rentista e seus paraísos fiscais, tem se manifestado extremamente obsessivo, levando sua cobiça e sua ganância a extremos por uma astuciosa combinação de estratégias de devastação, se vem produzindo verdadeiro massacre e agressões ao planeta e a seus viventes. A crescente crise climática constitui um exemplo ilustrativo que reflete os níveis de sua ganância e seu ímpeto necrófilo. Ainda que ocorra a prevalência de seu setor financista, cabe ter presentes suas íntimas relações com seus demais setores, seja seu setor industrial, seja seu setor comercial e outros. Trata-se, em verdade, de faces distintas da mesma moeda, expressões diversificadas do mesmo modo de produção. É assim que, combinando uma série de estratégias, o modo de produção capitalista apresenta uma sucessão de iniciativas de pilhagem, nos quatro cantos do mundo, inclusive na América Latina, na Amazônia, no Brasil. Isto estende-se, naturalmente, por outras regiões do planeta. Fixemos, porém, atenção prioritária ao caso do Brasil, da Amazônia, que também pertence a mais oito países, além do Brasil.

Neste sentido, as políticas econômicas traçadas e implementadas, com a imprescindível parceria do Estado, diversas políticas econômicas vêm sendo implantadas, como estratégia nociva de exploração predatória de todo o ambiente, das matas, do solo do subsolo, das Águas, da produção pecuária extensiva, de atividades de extrativismo mineral, desenvolvidas à custa e em detrimento dos interesses dos povos originários, das Comunidades ribeirinhas, das Comunidades Quilombolas, em breve, dos povos das águas, das florestas, vítimas da crescente ambição pelo acúmulo de riquezas vegetais, animais, minerais, agrícolas e de outras formas de produção capitalista. Pouco ou nada interessa se suas políticas econômicas provocam estragos irreparáveis ao ambiente ou agentes que aí vivem e trabalham. Tudo é feito em nome de seu projeto necrófilo, de sua cobiça e de sua idolatria ao deus Mamon, a riqueza pela riqueza. 

As recentes manifestações do Grito dos Excluídos, promovido pela CNBB, já há 25 anos, traduziram, por meio de textos, faixas e cartazes, o significado desta realidade, a partir mesmo do tema escolhido para o grito dos excluídos, em 2019: "este sistema não vale: lutamos Por Justiça, direitos e liberdade ". Trata-se, com efeito, de uma insuportável estrutura social, econômica, política e cultural que só beneficia uma ínfima minoria de cidadãos e cidadãs, a custa e em detrimento da enorme maioria da população.

É cada vez mais urgente que ousemos, olhos fitos no horizonte alternativo que nos propomos alcançar, empreendermos passos concretos, em busca de irmos alcançando, ainda que molecularmente, esta direção. Neste sentido, é que nos valemos das teses propostas, em seu livro já mencionado por François Houtart., acerca do paradigma do Bem-Comum da humanidade, focando com mais ênfase aspectos referidos no último capítulo de seu livro: por uma “Declaração universal do bem comum da humanidade”.

François Houtart parte de constatações impactantes acerca das graves crises, recentes e menos recentes, enfrentadas pela humanidade, inclusive pelas principais forças da esquerda, na América Latina, indicando suas insuficiências ante os desafios e dilemas apresentados pelo Capitalismo, atualmente hegemonizado pelo subsistema financeiro, sempre cuidando de apontar suas afinidades orgânicas com os demais setores do Capitalismo. Ao debruçar-se especificamente sobre a trajetória recente percorrida pelos governos populares na América Latina - que ele chama, a justo título, de pós-neoliberais -, constata, fundado em dados concretos da própria CEPAL, a funcionalidade destas experiências, em relação ao próprio Capitalismo, apontando, inclusive, o retrocesso destes países em relação ao seu processo de industrialização. Todas essas experiências, a despeito de terem proporcionado avanços pontuais numa agenda popular, centraram sua política econômica nos discutíveis ganhos em cima das “commodities”, contribuindo assim para alimentar a voracidade acumulativa das grandes corporações transnacionais, ocasionando profundos estragos socioambientais.

Por esta e tantas outras razões, e fundados em análises sociológicas percucientes, produzidas por vários autores e autoras, é que propõe como paradigma alternativo o que ele chama de bem-comum da humanidade. De início, cuida de explicitar o sentido atribuído à categoria “bem-comum da humanidade”, distinguindo-a tanto da categoria “bens-comuns” quanto da categoria apenas “bem-comum”. Com relação à primeira, reconhece que há uma respeitável tradição de lutas sociais pelos bens-comuns , protagonizadas pelos movimentos sociais, nos quatro cantos do mundo: em busca de garantir um caráter republicano (“res publica”) de bens e serviços, é enorme a lista de lutas sociais nesta direção. A própria noção de “bem-comum” alcança múltiplas correntes da sociedade civil, em diversos tempos e lugares. Por sua vez, a categoria “bem-comum da humanidade” segue guardando consideráveis pontos e aspectos comuns com os conceitos acima referidos. 


A grande especificidade do paradigma do bem comum da humanidade, sua marca por excelência, tem a ver com a extraordinária ampliação do seu alcance, de modo a contemplar não apenas esta ou aquela nação, este ou aquele povo, grupo social, comunidade, classe social, mas toda a humanidade, daí seu caráter universal sem perder de vista as afinidades que segue guardando com o conceito de bens comuns ou mesmo de bem comum. O alcance deste paradigma do bem comum da humanidade estende-se, com efeito, a todos os grupos humanos e a todos os membros da Comunidade dos viventes, de modo a abrigar diferentes espécies vegetais e animais e mesmo o reino mineral. Por outro lado, o paradigma do bem comum da humanidade trata de estender seu objetivo, visando a assegurar as condições materiais de existência dos humanos, bem como as bases materiais da vida de todos os viventes neste sentido, extrapola o alcance dos outros dois conceitos correlatos, à medida que põe maior acento no conjunto dos humanos e de todos os viventes. neste sentido, Já não basta assegurar os bens comuns de uma nação, de um povo, de uma comunidade, mas trata-se de assegurar-se a base material da vida, em toda a sua extensão: dos humanos, da flora, da fauna, das águas dos rios, das matas, dos oceanos, do solo do subsolo, da atmosfera, em breve, as condições de vida do planeta e dos humanos. 

Tal paradigma implica situações e condições especiais tais como: um modo de produção diametralmente antagônico ao modo de produção capitalista e a todo modo de produção baseado em dominação de classes. E, implica, não apenas, um modo de produção alternativo a qualquer sistema de dominação, mas demanda igualmente um novo modo de consumo, alternativo ao modo de produção capitalista ou de dominação de classes cujo consumismo acaba resultando em Privilégio de poucos, em detrimento da satisfação das carências e necessidades fundamentais de grandes maiorias, além nem dos danos imensos provocados a toda a comunidade dos viventes e do planeta. E, implica igualmente, um novo modo de gestão societal, a medida que já não faz sentido organizar a vida da sociedade pela via do Estado o mesmo de uma nação ou povo, requerendo um modo de gestão societal, em escala planetária.

Convém, todavia, assinalar que a Proposta elaborada por vários movimentos populares, em distintos fóruns internacionais, coordenados, em grande medida, também por François Houtart, contempla a figura do Estado, ainda que distinto do conceito hegemônico. 

Em uma observação preliminar que assinalamos a respeito do profundo alcance socioambiental  da Proposta adiante resumida, diz respeito à grandiosidade do empenho laborioso que, por décadas a fio, marcou a vida militante de François Houtart. Como sociólogo, dedicou sua vida a pesquisar, de forma participativa e militante os mais relevantes dilemas enfrentados pelas classes populares, nos quatro cantos do mundo. Para tanto, viajou por mais de 75 países dos diferentes continentes, a observar, dialogar com diferentes pesquisadores comprometidos com as classes populares. Um rápido olhar sobre sua bibliografia já é suficiente para se ter uma ideia de seu compromisso ético político. Em consequência, integrou diferentes organizações de pesquisa e de intervenção espalhadas pelo mundo, tendo sido co-fundador de iniciativas de grande alcance inovador, tais como distintos fóruns, inclusive Fórum Social Mundial. Não é por acaso, que também lhe tenha sido confiada a coordenação do projeto do bem comum da humanidade, alvo deste texto. 



Em breves linhas, cuidamos de assinalar aspectos axiais do projeto pelo Bem Comum da Humanidade, disponíveis, na integra, no seguinte link (https://educacioncienciabuenvivir.files.wordpress.com/2016/09/houtart-el-bien-comc3ban-de-la-humanidad.pdf). Eis, a seguir, alguns tópicos da justificativa e apresentação do referido projeto: 

“Vivimos tiempos en los que los seres humanos se dan cuenta que constituyen la parte consciente de una naturaleza capaz de vivir sin ellos, sin embargo, continúan destruyéndola progresivamente. La visión del desarrollo que conduce a una depredación de esta magnitud, apuesta por un progreso lineal en un planeta inagotable. Esta visión segmenta la realidad y destruye la percepción de conjunto (holística) del universo. Ignora la reproducción de la naturaleza, particularmente de las otras especies vivientes, para concentrarse exclusivamente en el crecimiento del género humano (antropocentrismo). Banaliza las culturas, destruye las utopías e instrumentaliza las espiritualidades. En su versión capitalista, lleva a la explotación, la injusticia y un crecimiento inequitativo entre clases sociales, géneros y pueblos. En su versión socialista del siglo XX, olvida la reconstrucción del vínculo con la naturaleza e ignora la organización democrática de las sociedades. Se trata (1) de pasar de la explotación de la naturaleza, como recurso natural, al respeto de la tierra como fuente de toda vida; (2) de privilegiar el valor de uso sobre el valor de cambio en la actividad económica; (3) de introducir el principio de la democracia generalizada en todas las relaciones humanas, incluidas las relaciones entre hombres y mujeres y en todas las instituciones sociales, y (4) de promover la interculturalidad para permitir a todas las culturas, los saberes, las filosofías y religiones esclarecer la lectura de la realidad; participar en la elaboración de la ética necesaria a su permanente construcción; y contribuir en las anticipaciones que permiten decir que «otro mundo es posible». Ese es el paradigma del «Bien Común de la Humanidad» o del «Buen Vivir», como posibilidad, capacidad y responsabilidad de producir y reproducir la existencia del planeta y la vida física, cultural y espiritual de todos los seres humanos en el mundo. Se trata de un objetivo, una utopía en el sentido utópico positivo de la palabra: aquello que nos hace avanzar. A todos los niveles, desde los comportamientos personales hasta la organización internacional, y dentro de todos sectores de relación con la naturaleza y con la cultura, la utopía deberá concretizarse dentro de las transiciones; concebidas no como simples adaptaciones del sistema a las nuevas demandas ecológicas y sociales, si no como pasos al frente adaptados a cada situación. Ciertamente, no son las declaraciones las que cambian el mundo, sino las luchas sociales. Sin embargo, junto a la crisis de la Tierra y el clamor de los explotados, se puede contribuir en la precisión de los objetivos y unir las múltiples luchas que tienen lugar hoy día por todo el mundo. De ahí, la propuesta de una Declaración Universal. Cada artículo está dividido en tres partes: estado de la cuestión (bien jurídico); la acción necesaria y la sanción.” 

Lições a recolher do paradigma do Bem Comum da humanidade
Ao mesmo tempo em que observamos o crescimento dos impasses e dilemas que nos cercam, sentimos a necessidade de enfrentarmos, com garra e esperança, conscientes de que o gênero humano só enfrenta os desafios para os quais busca e encontra saídas. Na atual “mudança de época” diante dos tremendos dilemas enfrentados, somos historicamente chamados a encará-los pela raiz, e não a conta-gotas. Eis por que nos desperta esperança o paradigma do bem comum da humanidade, profundamente afinado com o Bem-Viver.Que tarefas podemos priorizar, inspiradas neste paradigma? Destaquemos as seguintes:
- Sedimentar definitivamente nossa consciência (coletiva e pessoal) de que, em sua fase de profunda decadência, o Capitalismo já não comporta remendos: somos historicamente chamados a ousar ações radicalmente alternativas à sua lógica;
- O paradigma alternativo, que somos chamados a construir, demanda o fortalecimento da consciência e de nossa postura práxica de novos sujeitos históricos, alimentados pela ação transformadora das forças de mudança (movimentos populares, organizações de base...);
- As mudanças almejadas se apresentam caracterizadas pela ação ininterrupta dos novos sujeitos históricos, capazes de enfrentar, em sua integridade, as diversas dimensões da realidade social: socioambientais, econômicas, ético-políticas, culturais, de modo a impregnar um amplo leque de ações transformadoras, incluindo relações sociais de gênero, étnicas, geracionais, de espacialidade, relações cósmicas, relações com o Sagrado...

João Pessoa, 18 de outubro de 2019.

sábado, 12 de outubro de 2019

NAS TRILHAS DE PUEBLA, POR UMA IGREJA EM SAÍDA: aportes da IX Semana Teológica Pe. José Comblin

NAS TRILHAS DE PUEBLA, POR UMA IGREJA EM SAÍDA: aportes da IX Semana Teológica Pe. José Comblin 

 Alder Júlio Ferreira Calado

Culminando a nona edição da semana teológica Padre José Comblin  (IX STPJC), realizou-se, sábado, dia 5 do corrente, a sessão de encerramento da referida semana que, porém, se estende por alguns meses. A sessão de encerramento aconteceu, em João Pessoa, no Centro Pastoral do São Bento, com a participação de representantes, delegados e delegadas eleitos nas respectivas jornadas comunitárias, além de vários outros grupos eclesiais, tais como do Movimento Fé e Política, do Grupo de Espiritualidade Dom Hélder Câmara, da CPT, da Coordenação do Setor Social da Arquidiocese da Paraíba, de Religiosas inseridas no meio popular, e de outros grupos, amigos e amigas do Pe. José Comblin, vindos da Paraíba, de Pernambuco, do Ceará e de São Paulo. 

As linhas que seguem têm o propósito de destacar pontos relevantes da experiência vivenciada, nos últimos meses, e, em especial, na Sessão de Encerramento da IX STPJC. Em primeiro lugar, compartilhamos o que entendemos como sendo os pontos mais relevantes experienciados nas Jornadas Comunitárias; em seguida, restringimo-nos a sublinhar pontos-chave recolhidos, durante a Sessão de Encerramento. 

Das cinco jornadas planejadas, foram realizadas quatro: a da UFPB (animada pelo grupo Kairós), a de Santa Rita (animada pelo grupo Grupo de Espiritualidade Dom Hélder Câmara), a de Café do Vento (animada pelas várias comunidades daquela redondeza, tendo como referência o centro de formação Pe José Comblin) e a dos Bancários (animada pelos membros da Comunidade Paroquial Menino Jesus de Praga) , todas focando o tema central da IX STPJC. “Nas trilhas de Puebla por uma Igreja em saída, com Jesus, Francisco e José” (e tantas Marias e Margaridas!).

Cada uma das Jornadas, tendo em comum a temática proposta, contou com o protagonismo de seus organizadores e organizadoras, inclusive no que diz respeito à metodologia utilizada. A cada uma coube a escolha de um dos três textos propostos, como reflexão sobre o tema: o primeiro texto correspondia a algumas páginas do Documento final de Puebla; um segundo, de autoria do Pe. José Comblin, cuidava de fazer uma análise crítica desta III Conferência Episcopal Latino Americana; o terceiro texto proposto apresentava trechos da Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”, da lavra do Papa Francisco. Houve, também, quem preferisse centrar atenção especial no documentário “Pacto das Catacumbas”.

Das leituras e, sobretudo das reflexões, então compartilhadas, podemos ressaltar os seguintes pontos:

  • Puebla confirmou o compromisso assumido em Medellín, no que diz respeito à opção pelos pobres, inclusive especificando os diversos rostos de pobres (crianças, jovens, pessoas idosas, povos indígenas, camponeses, operários, desempregados...);
  • Apesar dos ganhos, a Igreja na Base passou a enfrentar crescentes estratégias de perseguição das CEBs, das pastorais sociais, da Teologia da Libertação, num quadro de desmonte promovido durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI;
  • Contundentes testemunhos e depoimentos da parte de leigas e leigos foram escutados, nestas jornadas, contra a tendência de clericalismo em voga, bem como forte crítica ao tipo de Formação ministrada nos seminários;
  • Ao mesmo tempo, veio à tona a reflexão crítica sobre o modelo de paroquialização das CEBs, tornando-as mais reféns do modelo Paroquial, tolhendo-lhes a força profética dos membros, com ampla tendência à resignação apenas a atos devocionais e ao culto, em detrimento de sua missão junto aos mais necessitados, que vivem afastados da paróquia; 
  • Em que pese a densa contribuição de Puebla, importa reconhecer o relativo silêncio referente às mulheres, além da ausência compreensível de temas hoje candentes, tais como os desafios socioambientais, dos migrantes, o da comunidade LGBTIQ, das redes sociais…

A culminância desta 9ª Edição da Semana Teológica Padre José Comblin se deu na sessão de encerramento, realizada no dia 5 de outubro, desde a oração inicial, conduzida pelo Padre Hermínio Canova, focada no tema central da 9ª STPJC, passando pela calorosa acolhida aos participantes da sessão, bem como as pessoas palestrantes convidadas. Foi feita breve memória das semanas precedentes, bem como dos principais temas já trabalhados, dentre os quais juventude, missão, formação, migrantes, entre outros. Em seguida, foram convidadas as pessoas responsáveis por oferecer uma síntese do que se havia trabalhado nas diversas jornadas comunitárias: Aparecida (pelo grupo Kairós, na jornada realizada na UFPB, no dia 11.08), Flávio (pelo grupo de espiritualidade Dom Helder Câmara, em Santa Rita, no dia 08.09), João Batista (pelas comunidades participantes em Café do Vento, no dia 15.09) e Josinaldo (pelo setor social, em Bancários, dia 18.09). A partir de então, são convidadas as pessoas que que vão contribuir com o debate: o teólogo cearense Padre Francisco de Aquino Junior, a professora Elinaide de Carvalho e a professora Ivoneide. Da reflexão oferecida pelo Padre Junior., podemos destacar os seguintes pontos:
  • atravessamos um contexto histórico caracterizado por uma noite escura, que tratamos de enfrentar confiantes na Esperança do Amanhecer;
  • o acontecimento puebla e, antes dele, o de Medellín, constituem momentos privilegiados na história recente de nossa igreja. Em Medellín e em Puebla, com efeito, encontrou-se o campo missionário apropriado para afirmação da identidade de uma igreja latino-americana, chamada a recepcionar o Concílio Vaticano segundo, ao seu modo, com denso protagonismo;
  • Tanto Medellín quanto Puebla, também inspiradas no pacto das catacumbas, passaram a levar a sério dois clamores chave do Concílio Vaticano segundo: o da centralidade do Povo de Deus na organização eclesial e a opção pelos pobres;
  • Tal protagonismo tornou-se forte, por conta das leigas e dos Lagos que, pouco a pouco, foram tomando consciência de sua condição de sujeitos missionários, com vocação própria, marcada pela igualdade comum conferida pelo batismo, que nos chama ao exercício da profecia, do sacerdócio e da cidadania.
  • Neste sentido, Vale destacar a importância do significado trabalhado pelo Concílio Vaticano segundo do conceito de Reino de Deus, entendido como Horizonte maior de nossa fé, do qual a igreja é chamada a ser um instrumento a serviço de sua realização;
  • Cumpre ainda destacar a importância da colegialidade, bem como da vocação específica das leigas e dos leigos, como partícipes na construção do Reino de Deus e sua justiça, por meio de sua ação cidadã, tanto ao interno da igreja, quanto no meio da sociedade, buscando trabalhar as realidades terrestres, com sua autonomia reconhecida nos documentos conciliares.
  • Parte significativa das ações tomadas pelo Papa Francisco, ainda que recebidas por não poucos como inovações discutíveis, constitui uma retomada do espírito do Concílio Vaticano II, cujas resoluções  centrais sofreram longa interrupção, durante os pontificados precedentes. O cerne das decisões recentemente tomadas pelo Bispo de Roma, tem a ver com a aplicação pastoral das deliberações do Vaticano II, fazendo centrar no Povo de Deus e não na hierarquia, a responsabilidade da vida eclesial trazendo os Leigos e Leigas como corresponsáveis pela organização e pela missão da Igreja no mundo.
  • Tanto a  opção pelos pobres quanto as constantes críticas feitas pelo Papa Francisco ao clericalismo vão por exemplo nesta direção de retomar o espírito do Vaticano II e das principais Conferências Episcopais Latino Americanas (Medellín, Puebla e Aparecida).
  • Quanto à contribuição oferecida pela Professora Elinaide Carvalho, enfatizou também lacunas ou ausências sentidas no Documento de Puebla, expressão de uma posição que segue hegemônica, na Igreja Católica Romana. Reconhecendo o espírito e a posição de renovação que o Papa Francisco vem mostrando, pelo relevante segmento eclesial das Mulheres, tem se pronunciado criticamente em relação ao lugar que as Mulheres seguem ocupando na Igreja mesmo no governo do Papa Francisco. As iniciativas, neste sentido, vem sendo aquém do que esperam e reivindicam as Mulheres, a exemplo do movimento "Católicas pelo direito de decidir".
  • Por sua vez, a Professora Ivoneide centrou sua reflexão, destacando a perspectiva da juventude, em Puebla. No segmento protagonizado pelos jovens, tem-se observado um relativo hiato entre o que se faz nas paróquias e o que desejam os jovens. Eles querem ter mais voz e vez, ter participação nas decisões enquanto a onda clericalista segue colocando o padre no centro da vida paroquial, de modo a inviabilizar a ação missionária nas periferias bem como o protagonismo dos jovens. 

A despeito dos obstáculos para uma melhor viabilização da proposta do Papa Francisco, na perspectiva de uma 'Igreja em saída", importa ter presentes suas iniciativas proféticas, de largo alcance renovador, dentro e fora dos espaços eclesiais merecendo destaque entre elas: sua ação profética não se restringe aos espaços eclesiais, mas estende-se pelos quatro cantos do mundo por onde tem peregrinado, como o tem feito por meio de suas 31 viagens apostólicas, em seis anos. Sua enorme sensibilidade à causa socioambiental bem expressa em sua Exortação Apostólica "Laudato Sìi".

Sua incansável confiança no protagonismo dos pobres, testemunhado, por exemplo em sua iniciativa de promover encontros mundiais de representantes dos movimentos populares dos vários continentes. 

A organização de um Sínodo Especial sobre os desafios da região panamazonica, a testemunhar seu empenho pastoral em defesa e promoção da causa socioambiental ("nossa casa comum"). 
Por iniciativa sua, já estão agendadas para os primeiro semestre de 2020, em Roma, encontros com economistas comprometidos com uma proposta alternativa de economia, e um outro encontro com Educadores e Educadoras, chamados a refletirem sobre a importância de uma formação de uma educação mais eficaz, quanto aos compromissos evangélicos pela justiça e pela paz.

Importa assinalar a recepção positiva da sugestão apresentada por Elinaide, Jéssica e outras participantes (e por todos acolhida) de se dedicar à próxima X STPJC a temática das mulheres e seu lugar na Igreja.

João pessoa, 11 de outubro de 2019. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

"FAKE NEWS", A FACE INFORMATIVA DA BARBÁRIE: a Educação Popular como antídoto


Alder Júlio Ferreira Calado

A reflexão ora proposta dá-se em cima de questões tais como: o que representam mesmo as "Fake News", para além de sua literalidade? O que está por trás desta estratégia deletéria intimamente associada ao paradigma da "Pós-verdade"? Por que preferem as redes sociais como seu alvo-mor? Ao lado de seus efeitos mais nocivos de fácil percepção, o que elas podem  estar também escondendo aos olhos menos avisados? De que modo entidades e forças vivas da sociedade civil vêm lidando com este fenômeno? Qual a eficácia desta estratégia de resistência de caráter fundamentalmente discursivo se e quando usada de maneira desconectada de outras dimensões do processo formativo? De que modo a Educação Popular de feição freireana, pode contribuir para uma melhor potencialização do combate às "Fake News" e ao paradigma da Pós-verdade? 

No já alongado período de mudança de época, em que vivemos sobram dilemas de monta. Um deles se apresenta sob a regência do paradigma da "Pós-verdade". Neste horizonte os fatos já não servem como referência probatória do real. Cedem lugar ao poder ditatorial aos critérios da ética de conveniência. Verdade é apenas o que corresponde aos interesses e conveniências circunstanciais dos grupos dominantes e seus representantes. Como nunca antes, os setores hegemônicos do mundo atual se acham no direito de submeter, a seu serviço, os interesses da enorme maioria da população mundial em todas as esferas da realidade. 

Nas linhas que seguem, tratamos de ressaltar o modo tirânico com que se empenham de ditar verdades, aos quatro cantos do mundo. Mais precisamente cingimo-nos às "Fake News", de que se tem valido, cada vez mais os setores dominantes de nossa sociedade como expressão maior de sua estratégia de dominação, valendo-se especialmente das redes sociais como arma preferencial de sua guerra híbrida. Em seguida, vamos examinar de passagem, de que modo setores expressivos da sociedade civil vêm lidando com o combate às "Fake News". Por último, trazemos algumas considerações acerca da contribuição que a Educação Popular pode oferecer a um combate mais eficaz à "Fake News", bem como ao uso adequado das redes sociais sem abandonar nem secundarizar a prioridade do processo formativo nos espaços vitais abandonados ou subestimados pelas nossas organizações de base. 



"Fake News" como a expressão mais deletéria do paradigma da pós-verdade em tempos de guerra híbrida. 

É sabido que toda época, Inclusive a nossa, é sempre, de algum modo, época de mudança.Mudança de época, todavia, quer dizer outra coisa. Acontece raramente, na história .Comporta Profundas alterações, especialmente de paradigmas consolidados. Em períodos que tais, paradigmas consolidados não apenas entram em colapso, como também resultam superados ou substituídos por outros. Estes novos paradigmas nem sempre resultam melhores do que os precedentes, mas são assumidos como hegemônicos .Vivemos uma época assim.Em nosso caso, um paradigma que vem mostrando-se hegemônico, é conhecido como o paradigma da pós-verdade neste caso, fatos cientificamente comprovado, deixam de ser entendidos como referência científica. verdade acaba tendo pouco a ver com fatos históricos, a medida que critérios subjetivos passam a ter prevalência. Verdade, neste caso, passa a ser definida como aquilo que tenha a ver com critérios subjetivos ou até obscurantistas, subordinados a interesses grupais ou de classe. verdade passa a ser aquilo que determinado grupo econômica e politicamente dominante definir, de acordo com seus interesses exclusivos. No atual cenário Mundial, prevalece amplamente o poder desses grupos, servindo a interesses econômicos e políticos nocivos à enorme maioria da sociedade.  Com efeito, fatos, acontecimentos, situações tidos como amplamente reconhecidos, passam a ser sistematicamente negados, à revelia de critérios científicos. A ciência mesma entra em colapso, conforme os critérios de verdade definidos por esses grupos hegemônicos. para tanto, estas forças hegemônicas não hesitam em recorrer a estratégias alimentadas por sua ética de conveniência, segundo a qual vale tudo, inclusive o recurso a sistemáticas mentiras. É, por exemplo, o que tem acontecido, principalmente em alguns países, tais como Estados Unidos, Inglaterra, Brasil e outros, em que figuras especiais ligadas ao atual governo dos Estados Unidos, vem sendo uma referência de peso na formulação e na implementação de políticas de desmonte aplicadas nesses países, inclusive acabando por determinar resultados eleitorais como sucedeu, por exemplo, nos Estados Unidos e no Brasil, por ocasião das respectivas eleições presidenciais. Notícias falsas formuladas por tais figuras e lançadas, por meio de algoritmos e outros mecanismos do gênero, massivamente enviadas a cidadãos e cidadãs, cujo perfil foi tomado como referência para o envio de Tais mensagens disparadas por meio eletrônico.
No caso do Brasil, essas fake News tiveram um papel, senão determinante, no mínimo, altamente condicionante, no resultado das eleições. também, mesmo após o período eleitoral, a mesma estratégia vem sendo frequentemente utilizada, tendo como destinatário preferencial o público eleitor do atual presidente.
Por outro lado, o alvo destas fake News não se restringe ao eleitorado potencial, mas ao conjunto da população, especialmente a população jovem, cada vez mais usuária das redes sociais, e, com frequência, desprovida de espaços formativos adequados que a ajudem a melhor formar sua consciência crítica de cidadãos e cidadãs.

Paradigma da pós-verdade, fake News, redes sociais acriticamente exercitados - eis apenas três das componentes deste sistema de morte, marca principal do capitalismo em sua fase mais perversa, hegemonizada pelo seu subsistema financista, em articulação com seus demais setores da economia. Diante deste quadro de obscurantismo e de constantes ataques ao planeta e a toda a comunidade dos viventes, resta às forças vivas de nossa sociedade examinarem criticamente De que modo vem reagindo a Tais ataques. é o de que trataremos, no tópico seguinte.

Como se vem dando a atuação das forças sociais no combate às "Fake News"? 


Grupos, entidades e agentes qualificados de nossa sociedade tem manifestado crescente preocupação com a gigantesca onda de fake News, disparadas massivamente, a influir negativamente sobre parcelas consideráveis de nossa população, principalmente aqueles segmentos mais vulneráveis. Encontros congressos e outras iniciativas vêm buscando formas de resistirem a essa onda há, com efeito, significativa consciência dos estragos que essa estratégia de fake News, reflexo do paradigma da pós verdade merece atenção. reconhecendo a relevância persuasiva dessas fake News, Tais entidades e grupos buscam responder a este desafio, por meio de iniciativas e experiências pela Via das redes sociais. partindo da constatação de quê os segmentos mais fragilizados de nossa sociedade são por demais suscetíveis aos efeitos das fake News a ideia predominante tem sido alcançar estes mesmos segmentos vulneráveis também por meio das redes sociais, mediante mensagens e até vídeos produzidos com o propósito de se contrapor a invasão de fake News nessas camadas populares.

trata-se de uma iniciativa respeitável e necessária, a medida que vai sendo complementada com outras iniciativas capazes de tomar em conta outras dimensões do processo formativo, para além da Estratégia apenas discursiva. teme-se que há uma tendência a cingir-se a forma de resistência a mensagens e vídeos destinados ao público alvo das fake News. por outro lado, Vale perguntarmos: Será que a utilização exclusivamente de caráter discursivo está à altura de responder adequadamente ao desafio das fake News? até que ponto , ao lado de iniciativas de caráter estritamente discursivo, resultam suficientes para um convencimento mais sólido por parte do público-alvo? em que medida iniciativas desta ordem, uma vez não acompanhadas de outras que digam respeito também a dimensões tais como afetividade, volição, a práxis e dimensões outras componentes do processo formativo, são capazes de atender aos objetivos dessas entidades e grupos de resistência a estratégia das fake News?

perguntas deste tipo merecem especial reflexão, principalmente do ponto de vista da educação popular, aqui considerada como uma estratégia eficaz contra os efeitos deletérios das fake News. Eis por quê no tópico seguinte, Voltaremos nossa atenção, em busca de examinar como a educação popular pode oferecer significativa contribuição a resistência mais eficaz contra as estratégias do paradigma da pós verdade, expressas pelas fake News.


A contribuição da Educação Popular à eficácia do combate às "Fake News", para além das redes sociais. 

À parte seu designativo literal às "Fake News" constitui mesmo um fenômeno novo? Em outras palavras, até que ponto as "Fake News" não constituem uma marca registrada do Capitalismo, em sua atual fase, estratégia utilizada com propósito deletério por um lado, mas também, por outro lado, com objetivo de lançar luz sobre a ponta do "iceberg", para ocultar a parte essencial do que não se quer mostrar? 

Em busca de trazer a lume o potencial da Educação Popular, de referencial freireano, a um combate eficaz às "Fake News" e suas conexões com o paradigma da "Pós-verdade", fazemos questão de partir de seus princípios mais relevantes, ou seja, de constatações e fecundas intuições recolhidas do processo histórico, em diferentes tempos e lugares, tais como:

- o do inacabamento ou incompleteza do ser humano: diferentemente dos demais animais, os humanos não nascem "acabados", nas vão se completando processualmente, em seus contextos histórico-culturais, isto é, não nascem homens ou mulheres, mas vão se tornando assim no processo de humanização.

Outro fundamento teórico-prático trabalhado pela Educação Popular, diz respeito ao nó de relações (relacionalidade) característico dos seres humanos como expressão e como agentes de seu devir histórico, isto é, para se completarem como seres humanos protagonistas do processo humanização, mulheres e homens têm necessidade de viverem em grupo, em comunidade ambiente no qual aprendem e compartilham experiências e saberes. Os humanos, somos seres sociais, seres políticos, forjados em condições não de isolamento ou individualismo. 

Neste processo relacional, é que vamos aprimorando nossas potencialidades, ao mesmo tempo em que aprendemos a lidar positivamente com nossos limites, em busca incessante de superação dos mesmos. É no seio da comunidade que também vamos aprendendo a ler melhor a realidade social em sua complexidade e extensão. Aqui se passa algo como em um filme: alguém que o vê sozinho, sem partilhar comentários de cenas, acabam dando-se conta de aspectos parciais do filme, enquanto em comunidade as percepções são compartilhadas de modo que cenas não percebidas por uns acabam sendo rememoradas pelas percepção de outros. 

Um exemplo ilustrativo, pode dar-se no exercício de análise de conjuntura, quando feita coletivamente, resultando bem mais fecunda e menos incompleta do que quando feita por um ou um pequeno grupo restrito. Tem-se consciência da complexidade da realidade social, que não pode e não deve ser avaliada de improviso, sem se recorrer a instrumentos capazes de melhor percebê-la, em seu movimento, como um primeiro passo necessário e fundamental a quem pretenda transformá-la, em suas raízes.

Outro fundamento trabalhado pela educação popular, corresponde ao exercício contínuo de priorização da prática sobre a teoria, da interconexão dos fatos e dos acontecimentos, de sua historicidade, de sua interculturalidade, a relevância do exercício da memória histórica, a importância do horizonte perseguido e da mística cotidiana, a horizontalidade dos protagonistas da transformação social, a aposta na força transformadora das pequenas comunidades, dos núcleos, dos círculos de cultura, a alternância de cargos e funções, entre outros aspectos constantes deste mesmo processo formativo. 

É com base nestes fundamentos oferecidos pela Educação Popular, que se dotam melhor os protagonistas da transformação social, inclusive no caso do desafio relativo às “Fake News”. Daí resultam pistas alternativas que devem ser tomadas em conta e incorporadas a outras práticas e iniciativas, já em desenvolvimento, tais como:

  • Entender mais criticamente o que são as tais “Fake News”;
  • Se se trata de fenômeno verdadeiramente novo, ou, antes, de nova faceta da mesma estratégia, posto que, falseamento da realidade é uma velha estratégia de todo modo de produção estruturado em classes sociais, especialmente do capitalismo;
  • Pode acontecer que, por meio desta velha estratégia revestida de novo nome (“Fake News”) os setores dominantes estejam a espalhar cortina de fumaça, buscando desviar a atenção das forças transformadoras, quanto as manifestações mais profundas de exploração e dominação. Não se deve ignorar, por exemplo, que, num contexto dominado pelo discurso anti-corrupção, as redes sociais e a mídia comercial se limitam a focar mais os efeitos, as aparências e até alguns casos relevantes, com o propósito maior de desviarem a atenção da raiz mesma da corrupção, fincada no próprio modo de produção capitalista, especialmente em sua fase atual, dominada pelo rentismo, pelos grandes bancos e seus paraísos fiscais. Outro exemplo se tem nas discussões atuais sobre as famigeradas “reformas” em curso (o desmonte das leis trabalhistas, a terceirização, o desmonte da previdência social…), enquanto pouco ou nada se diz - menos ainda se luta - sobre o maior dos escândalos: a composição da dívida pública, poeticamente denunciada no mote: “paguei mais do que devia/ devo mais do que paguei”...

Com relação, portanto, ao que a educação popular pode contribuir especificamente para uma estratégia de resistência às fakes news, convém assinalar, de um lado, o reconhecimento do esforço das entidades e grupos que cuidam de recorrer às redes sociais, como espaço de contraponto e de esclarecimento, junto às parcelas mais vulneráveis da população que correm o risco de se tornarem reféns das mentiras propaladas. Por outro lado, há de se convir que tal esforço se dá exclusivamente no campo das redes sociais e por meio de um contraponto discursivo. A educação popular, por sua vez, demanda um esforço maior, a medida que, sem deixar de usar as redes sociais, empenha-se principalmente na criação e manutenção de espaços vitais, nas comunidades, nos movimentos populares, nas pastorais sociais, onde tenha prioridade a discussão presencial, como parte de seu processo organizativo e formativo, até porque não é suficiente empreender um contradiscurso pelas redes sociais, sem o exercício de um protagonismo efetivo nas relações sociais do dia-a-dia.

João Pessoa, 2 de Outubro de 2019.