sábado, 17 de janeiro de 2026

Quanto mais complicada a conjuntura Mais atenta deve ser a nossa análise

Quanto mais complicada a conjuntura 

Mais atenta deve ser a nossa análise


Alder Júlio Ferreira Calado


Sem negar sérios riscos do contexto 

É preciso manter a coerência 


O Governo cada vez mais apostando 

Numa firme aliança com o Centrão


A despeito da retórica “esquerdista”

Firma acordos com figuras da Direita  


Os seus passos apontam para o Centrão 

Não dá conta do cerne da economia  


Não dá conta dos furos do projeto 

Que atende de cheio aos financistas 


Com a taxa de juros - 15% 

Um trilhão aos banqueiros se transfere 


Transferindo bilhões para os banqueiros 

Só de juros do serviço desta “dívida”


Outros dados são mal interpretados 

pela ótica da classe Trabalhadora 


Desde o próprio recorde de desemprego 

Omitindo condições precarizadas


Deixa fora a precarização 

Consequência das “reformas” trabalhistas


O devido seria revogar 

A (Reforma) trabalhista de Michel Temer


Sem negar sérios riscos do contexto

Eleições só por si não tem saída 


Pela enésima vez a militância

Entretém-se com eleições 


Com um déficit crescente de consciência 

Militância gasta o tempo em caçar votos 


Desafios de monta - desprezados

Deprecia horizontes de ruptura  


O real ela vê pela metade

Não vai afundo na análise dos problemas   


Elegendo a Direita como único foco

Desprezando caminhos alternativos 


João Pessoa, 17 de Janeiro de 2026.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Gratas lembranças de Pe. Noval

 Gratas lembranças de Pe. Noval 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Pesqueira, inícios dos anos 1960. Igreja Católica antes do Concílio Vaticano II. Bispo Diocesano: Dom Severino Mariano de Aguiar. Padres diocesanos dos quais me lembro Pe. José Cordeiro( Reitor do seminário São José), Pe. José Maria da Silva, (Vice-Reitor do Seminário e Assistente da JAC), Pe. Guilherme Andrada,(Diretor Espiritual e Professor de Francês e de Inglês), Pe. José Noval de Oliveira, (Pároco da Catedral), Pe. Fausto Ferraz (sucedeu a padre Aragão como chanceler da Cúria), Pe. José Cursino de Siqueira (Diretor do Colégio Cristo Rei), Pe. Heraldo Cordeiro (Pároco de Sanharó), Mons. Olímpio Torres, (Professor no seminário e no Colégio Cristo Rei), Pe. José Aragão, (Cúria Diocesana), CÔnego João Amâncio de Araújo Lima, (já Ancião, morando no Seminário), Cônego Antônio Duarte, (Pároco do Brejo da Madre de Deus), Pe. Assis Neves, (Pároco da Imaculada Conceição, em Belo Jardim), Pe. José Kerle e seu irmão Pe. Luis Kerle, (Vigários em Buíque), Pe. Rolando, (Vigário de Tupanatinga), Mons. Urbano Carvalho, (Pároco de Sertânia), Cónego Emanuel Vasconcelos (Pároco de Pedra), Pe. Pedro Gabriel (Pároco de Tacaratu), Padre Delson Cursino, (Diretor do Colégio Cardeal Arcoverde), os Frades Franciscanos: Frei Henrique (Porção), Frei Severino (Pároco da Imaculada Conceição, Pesqueira), Frei Jerônimo. (Pároco de Alagoinha).      


Pe. José Noval de Oliveira, Pároco da Catedral de Pesqueira-PE, nasceu em Triunfo-PE, Município integrante da Diocese de Pesqueira. Era um padre muito querido, especialmente pelos pobres de Pesqueira. No final dos anos 1950/inícios dos anos 60 minha avó materna, Maria, costumava me levar à Missa das 5 horas da manhã, celebrada pelo Pe. Noval, lembro-me que, em certas ocasiões Pe. Noval fazia homilia desde um púlpito situado no meio da nave central da Catedral. Em um tempo em que não se dispunha de serviço de som as homilias eram melhor escutadas, desde o púlpito. Criançinha eu ficava prestando atenção aos gestos que o padre fazia durante o sermão. De volta a casa, cobrindo-me com um pano (ao modo de casula), subia em um tamborete, tentava imitar palavras e gestos feitos durante a Missa. Certa vez, desequilibrei-me e tomei uma queda feia deixando grande cicatriz na testa, que perdurou por alguns anos. 


Zeloso Pastor, ele também promovia as vocações sacerdotais, inclusive estimulando as crianças a serem acólitos (“coroinhas”). Naquela época, antes do Concílio Vaticano II, a Missa era celebrada em Latim e ficando o celebrante, no altar, de costas para o povo. Com a ajuda do Sr. Mário, o sacristão, aprendi as respostas em Latim em diálogo com o celebrante. Ainda me lembro do diálogo: 


- Sacerdote: “Introíbo ad Altare Dei”

- Acólito: “Ad Deum qui laetificat juventutem meam”... e o sacerdote prosseguia a recitação dialogada do salmo 42/43… e assim seguia o diálogo inicial da Missa. Experiência que contribuiu para o despertar vocacional, e portanto para a entrada no Seminário São José em Pesqueira, aos 12 anos, ainda que se imponha reconhecer a imaturidade de uma criança para seguir este curso. 


Lembro-me que nas férias, Pe. Noval convidava o grupo de Seminaristas de Pesqueira - entre os quais, Leonildo, Expedito, além de mim e outros - para frequentar a Casa Paroquial todos os dias, à tarde, após termos feito leituras e orações, na Catedral, lendo inclusive capítulos da famosa “Imitação de Cristo”. Em seguida rumávamos para a Casa Paroquial, sendo recebidos por ele e pelas secretárias da casa (“Sá” Marta e Minervina, minha tia paterna) que nos servia um saboroso sorvete, enquanto líamos o Jornal do dia, mas só nos era permitido ler as páginas esportivas…


Pe. Noval levava uma vida modesta de muita dedicação aos serviços da Igreja, sendo muito simpatizado pelos seus paroquianos, seus sermões transpareciam sua postura de devoção e de misericórdia. A casa paroquial ficava situada perto da Catedral, na praça Dom José Lopes, primeiro Bispo da Diocese. 


 Pe. Noval não possuía automóvel e circulava a pé pela cidade. Atendia, com assiduidade as diversas capelas rurais, transportando-se de carro. 


Uma de tantas histórias acerca da generosidade do Pe. Noval, diz bem de sua postura misericordiosa. Certa vez uma jovem, atribulada pelas enormes contrariedades pelas quais estava passando, decidiu procurar em confissão, o aconselhamento do Pe. Noval. A jovem, recém chegada do sítio com o propósito de dar prosseguimento aos estudos, já tendo obtido êxito no exame de Admissão, enfrentava um dilema de difícil solução: vivia na casa de uma família conhecida de sua mãe a quem se ofereceram para acolher em sua casa aquela jovem. Em troca, contaria com os préstimos da jovem costureira, bem como no atendimento da bodega, mantida na casa. 


No correr dos dias, a jovem se viu assoberbada de trabalhos sem tempo para os estudos. Não bastasse tal situação, ela ainda tinha que cuidar da filha - criança da dona da casa, que apresentava sérios transtornos. Certo dia, foi à Igreja com a criança. Enquanto ajoelhada, a jovem se concentra em suas orações, a criança sem nada avisar, desaparece de sua vista. Extremamente preocupada, retorna a casa da família, onde finalmente se achava a criança que havia dito à mãe que fora abandonada pela jovem…


Ao ouvir atentamente o relato dramático feito pela jovem em confissão, Pe. Noval trata de dissuadi-la de retornar ao sítio, animando-a a prosseguir seus estudos. Pedindo que nada dissesse em casa - ele conhecia bem a família, entregou-lhe certa quantia de dinheiro, dizendo tratar-se de uma ajuda para a compra de livros e material escolar. Era assim, humilde e compassivo o Pe. Noval.


Já com idade avançada e acometido de asma, Pe. Noval foi tratar-se em Recife, onde veio a falecer alguns anos depois. Deixou profundas marcas de um Pastor humilde, compassivo e caridoso. Tantas vezes, como acólito, escutei-o a recitar, em latim, as orações fúnebres. Agora, sou eu a repetir aquelas palavras: 

(Requiem aeternam dona tibi, Domine?

(Et lux perpetua luceat tibi)

(Requiesce in pace.)

(Amen!)  


João Pessoa, 15 de Janeiro de 2026.

        

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

No Brasil e no mundo, como atua O conjunto da mídia empresarial?

No Brasil e no mundo, como atua 

O conjunto da mídia empresarial?


Alder Júlio Ferreira Calado 


O que é, como atua, pra que serve 

A empresa burguesa, no dia-a-dia?


Qual a força da mídia na alienação?

É manter maioria alienada


Só divulgam os fatos seletivos 

Com versões que lhes sejam do agrado 


Dos países centrais é que recebem 

As notícias “boas” e “más” do mundo inteiro


Seus repórteres se fixam nas “Metrópoles”

Donde cobrem os conflitos, em todo o mundo   


Suas fontes quase sempre são as mesmas 

Meia dúzia de agências hegemônicas


Pessoal da Imprensa é contratado

Sob rígido controle ideológico


No Brasil, à meia dúzia de famílias

Correspondem os canais mais importantes


Jornalistas seguem à risca o padrão 

São reféns dos caprichos da empresa


Nunca mostram a versão do outro lado

Repetindo, sem fim, sua versão


Para Trump, usam sempre (Presidente)

A Maduro tratam como (Ditador)


Seu discurso é neutral, (Independente)

No entanto, parcial: defende um lado  


A imprensa constrói novos vocábulos

O (Centrão), no lugar de usar a Direita… 

(Captura), em vez de usar sequestro


Isto implica manobrar o pensamento

Bloqueando do Povo o senso crítico

 

Silenciam os bloqueios e as sanções 

Que o Império infringe aos desafetos 


É o caso do Irã, Venezuela

sobretudo de Cuba, durante décadas  

  

Jornalistas medíocres atuam 

No afã de agradar aos seus patrões 


Não por Ética se movem, mas por prazer 

De agradar às empresas contratantes 


No sistema hostil de monopólio 

Só nas redes digitais temos saída 


Recorrendo a canais alternativos:

Opera Mundi, ICL, Brasil de Fato, TVT, 247, Farol Brasil 


João Pessoa, 12 de janeiro de 2026

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Pelas veredas do Nazareno: notas sobre o livro “Jesus de Nazaré: Uma Radiografia para além dos Evangelhos”, pesquisa mais recente do historiador Eduardo Hoornaert


Alder Júlio Ferreira Calado 


A Editora Recriar acaba de trazer a público o livro mais recente da lavra do historiador Eduardo Hoornaert, intitulado “Jesus de Nazaré: uma radiografia para além dos Evangelhos”. Acerca deste tema, o autor tem se dedicado, nas últimas décadas. Desde o seu “Origens do Cristianismo”, publicado na primeira metade da década dos anos 2000 (Editora Ser e Editora Paulus), e anos depois do seu “Em busca de Jesus de Nazaré: uma análise literária” (Paulus 2016), eis que agora nos brinda o autor com sua mais recente pesquisa marcada pela originalidade, teórico-metodológica, de notável potencial heurístico. 


Para tanto, o autor se acha lastreado em recentes pesquisas inovadoras sobre o tema, do que da prova a vasta bibliografia em que se apoia. Mantendo a profundidade de suas análises combinada com a clareza e objetividade e capacidade didática raras em um pesquisador. A leitura do livro se reveste de uma admirável leveza: o autor  dialoga com seus leitores e leitoras. Eduardo Hoornaert, partindo de sua condição de historiador, exercita uma verdadeira multi-inter-transdisciplinaridade, articulando dialeticamente múltiplos saberes a História, Geografia, Arqueologia, Antropologia, Literatura, Linguística, Educação,  sociologia, Teologia… Em dez capítulos, o autor nos apresenta caminhos novos em busca de uma compreensão da figura de Jesus de Nazaré, mais compatível com as condições histórico-científicas dos nossos dias: como afirma o autor “O presente pede um novo modo de pensar” (p. 38).   


Seguindo esta base teórico-metodológica, desde a introdução do livro (“Para iniciar uma radiografia”), o autor se empenha em anunciar os passos de sua acurada investigação, iniciando didaticamente por explicitar o título do trabalho especialmente o significado conferido ao termo “radiografia”. Tratando, em seguida, de oferecer um breve quadro panorâmico dos 10 capítulos de que se compõe o livro. Entre outras explicações aí presentes o autor cuida de rememorar a forte predominância das dimensões narrativa e metafórica da leitura dos textos bíblicos, inclusive dos Evangelhos, com pouca ou nenhuma atenção a uma percepção da dimensão historiográfica.


Já no primeiro capítulo, o autor enfrenta os desafios característicos da linguagem metafórica presente nos textos neotestamentários, começando por analisar os textos escritos pelo apóstolo Paulo nos anos 50 da era Cristã já algumas décadas após a crucificação de Jesus, a quem não conhecera pessoalmente, e sobre quem o escutara o marcou tão profundamente, que graças  a visões nele pôs toda a sua confiança, sua entrega (“Eu estou certo daquele a quem dei minha adesão”, 2 Tm , 1:12). Com efeito, Paulo se apresenta como o primeiro a registrar por meio de uma linguagem metafórica, traços da figura de Jesus a ele se referindo como o “Cristo”, palavra de origem grega que quer dizer “Ungido”, referência bíblica ao Messias todo poderoso, filho de Davi, em cujo poder faz assentar toda a sua fé no Cristo ressuscitado (“Se cristo não tivesse ressuscitado vã seria a nossa fé”- 1 Cor 15,14), desprezando ou secundarizando sua biografia histórica, o que fez, onde pisou, de quem andava cercado e seguido. 


Em seguida, ainda no mesmo capítulo aponta a forte presença da linguagem metafórica nos Evangelhos segundo Marcos, Mateus e Lucas, além de João (neste, inclusive, o autor encontra passagens com linguagem historiográfica, ainda que seja o evangelista que mais tenha usado a linguagem metafórica). Também, em outros escritos neotestamentários, Eduardo Hoornaert indica a predominância das metáforas, como é o caso da Carta aos Hebreus, mas aqui, ele sublinha o sentido novo, por exemplo, do termo “Sacerdote” ou “Sacerdócio”.      


No segundo capítulo, o autor se detém na apreciação da linguagem mitológica, presente nos escritos neotestamentários, especialmente nos Evangelhos, mas também em outros textos do Segundo Testamento. O autor assinala, a justo título, além das décadas que se passam entre a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus e os primeiros escritos do Novo Testamento, o caráter de oralidade das narrativas sobre Jesus. Importa, desde já, chamar a atenção para o fato de que o autor, ao fazer a análise tanto da linguagem metafórica quanto da linguagem mitológica, se mostra cuidadoso, ao ponto de não as discriminar com juízos negativos, mas, antes, fazendo questão de apreciá-las como recursos literários legítimos, buscando compreendê-los como traços característicos das diversas culturas dos povos do oriente médio, especialmente o povo judeu/palestino. Neste sentido, como analista desprovido de preconceitos, cuida de compreender também as positividades da linguagem metafórica e da linguagem mitológica, sem deixar de nelas perceber limitações. É assim, que o autor percorre diversos textos bíblicos - especialmente os do Novo Testamento, interpretando-os, a partir das condições histórico-culturais desse povo.


Sempre tomando o cuidado de não subestimar o valor heurístico das linguagens metafórica e mitológica, Eduardo Hoornaert agora se volta à análise da linguagem historiográfica, nela destacando, tal como o fez nas demais linguagens, aspectos positivos e limites. Começa por indicar figuras de historiadores da  Antiguidade, de reconhecida notoriedade, tais como Cornélio Tácito (56-118 E. C), Plínio o jovem (61-113 E. C), Suetônio (69-141 E. C), Flávio Josefo (37-ca. 100 E. C). A despeito de amplo reconhecimento, esses historiadores não deixam muitos rastros da figura de Jesus, há não ser uma ou outra referência, sem maiores detalhes.


Nos séculos seguintes o autor se mantém atento a outros elementos historiográficos, tendo obtido relativo sucesso, à medida que avança nas pesquisas posteriores à Reforma. Realça, por exemplo, a precariedade dos primeiros instrumentos ou meios de registros historiográficos, baseados sobretudo no recurso a oralidade, em que, por meio de coleções e tiras de papiro (e depois, de pergaminho) pregadas na roupa os ditos de jesus eram passados de geração a geração. Tal lentidão proporcionada pelos precários meios, só vem a ser alterada significativamente, na Idade Média, graças ao penoso trabalho dos copistas, a serviço dos Mosteiros, evolução que também contou com suas ambiguidades, a medida que, nos documentos sagrados copiados, constatam-se significativas alterações (inserções, interpolações de formações, etc). De todos os modos, tratou-se de um trabalho de preservação de tais documentos. 


Foi, no entanto, a partir do século XV, com a invenção da imprensa que se obteve a impressão de toda a Bíblia, garantindo uma divulgação mais ampla e mais rápida. Ao mesmo tempo, a linguagem historiográfica passaria, desde então, a contar com a densa contribuição de figuras notáveis, a exemplo de Lutero, Erasmo  de Roterdã e   Spinoza.

Mediante sua lente historiográfica Eduardo Hoornaert sempre atento aos escritores e historiadores de cada época, compõe um quadro complexo tomando em conta como complementaridade as linguagens metafórica e mitológica. 


Toma em consideração por exemplo nesta busca de um perfil biográfico de Jesus de Nazaré, as línguas bíblicas (Aramaico, Hebraio, Grego, Latim) bem como os sérios problemas das traduções toma em consideração a forte influência de Filósofos gregos (sobretudo Platão e Aristóteles) em relevantes figuras da Patrística desde os primeiros séculos a Idade Média (Agostinho e Tomás de Aquino) deles recebem grande influência, Agostinho de Platão, e Tomás de Aquino de Aristóteles. O autor ainda toma em conta as descobertas arqueológicas, inclusive as mais recentes.   


O quarto capítulo trata de uma percepção pouco perceptível aos olhos comuns de leitores e leitoras comuns, e até de especialistas. o próprio autor, longamente habituado a ler e a estudar a Bíblia e os Evangelhos, precisou refazer a leitura dos Evangelhos com refinada atenção. Surpreende-se ao constatar uma dimensão nova da figura de Jesus: seu jeito irônico, provocativo, ao mesmo tempo brincalhão e bem humorado. Esta dimensão o autor encontra sobretudo na (re) leitura do Evangelho de João, no qual surpreendentemente ele encontra - mais do que nos outros - a predominância do estilo historiográfico. Trata, então, de fornecer diversos exemplos, sempre citando capítulos e versículos. Sem negar tratar-se do Evangelho mais intuitivo, com muitas metáforas, também “Apresenta um Jesus que ri e chora, fica com raiva (2, 13-22), alimenta amizades sólidas, valoriza as mulheres, mostra uma grande sensibilidade humana, brinca, faz trocadilhos, gosta de um jogo de palavras, demonstra grande inteligência.” (p. 57).


Trata-se de um Jesus desconcertante, perseguido pelos doutores da lei, pelas autoridades políticas, pela sua mensagem nova: não ensinava doutrinas, ocupando-se do cuidado direto dos mais pobres, valorizando sua luta do dia-a-dia do que falam muito  bem suas parábolas.      


Dentre os quatros Evangelhos canônicos, o de Marcos foi o primeiro escrito nos anos setenta da era Cristã. Bem mais jovem e não tendo feito parte do grupo dos discípulos e discípulas, Marcos teve que receber distintos relatos por intermédio do Apóstolo Pedro, de quem se aproximou, quatro décadas desde a paixão e morte de Jesus. Tal distanciamento temporal  nem sempre permite relatos precisos, até porque, como afirma o dito popular, “Quem conta um conto, aumenta um ponto”. Daí se segue, como lembra o autor, que certos episódios narrados por Marcos parecem imprecisos ou mesmo eivados de algum exagero. É o caso, por exemplo, do episódio da chamada multiplicação dos pães, em que é afirmada a presença de 5.000 pessoas.       


O quarto capítulo é dedicado a um aspecto da vida de Jesus, pouco perceptível pelo leitor comum e mesmo por especialistas, razão por que o próprio autor, que já lê os Evangelhos há décadas e décadas, só recentemente ao fazer uma leitura ainda mais atenta, pode observar esse traço atípico curioso da figura de Jesus ou seja, sua dimensão irônica, alegre, lúdica, brincalhona, inclusive por vezes marcada de certa iracúndia. Chama atenção o fato de que esses traços sejam mais observados no Evangelho de João, tido como tipicamente metafórico. Nele, porém, o autor também encontra, mais do que em outros Evangelhos, a presença de dados historiográficos. 


Com efeito, nele se acham relatos circunstanciados de um Jesus marcado por atitudes incisivas e assertivas  contra os costumes da Lei e seus guardiães, a exigirem rígido cumprimento pelo povo simples das mais de 600 normas, de modo a constranger os mais pobres, enquanto os Doutores da lei, que se mostravam intransigentes com os pequenos, não as cumpriam. Enquanto cobravam do povo simples um ritualismo exagerado, Jesus por sua vez nada exigia de culto, mas se entregava a compartilhar com os pobres sofrimentos, alegrias, esperanças, com mensalidade, festejos, a tal ponto de ser acusado pelos Doutores da Lei de “comilão” e “beberrão” e de sentar-se com pecadores…


Ao mesmo tempo, em alguns relatos de João, se percebe a figura de um Jesus iracundo, diante das atitudes hipócritas dos fariseus e Doutores da Lei. Neste sentido, aliás, o capítulo 23 de Mateus  é marcado por duras invectivas lançadas por Jesus contra os Fariseus “hipócritas”.  Eduardo Hoornaert passa, então, a revisitar um Jesus com opções mais radicais. Para tanto, deixa Nazaré e vai para o Mar da Galiléia, onde convive com pescadores que se tornam seus discípulos. A despeito de uma convivência fraterna, Jesus observava as enormes dificuldades por que o povo passava, com muita resignação, atitude que incomodava a Jesus, posto que pareciam submeter-se às duras leis impostas que lhes eram cobradas. Eis a situação que Jesus encontra nesta região pesqueira onde se situavam Corazim, Betsaida e Cafarnaum.  


Decide, assim, fazer uma experiência de vida junto aos galileus mais pobres, aos camponeses, trabalhando na agricultura familiar e vivendo também de serviços complementares nos latifúndios da região. Nesta Galileia, Jesus vai encontrar um povo mais rebelde, mais perseguido pelos doutores da Lei e pelas autoridades romanas. Alguns episódios de confronto se acham aí relatados, principalmente pelas posições transgressoras apresentadas por Jesus em defesa das mulheres. Em um tempo em que era expressamente proibido a um estranho falar com uma mulher, seguidas vezes Jesus transgride esse tabu, falando abertamente com as mulheres, dialogando longamente com elas e tomando sua defesa. Importa ressaltar, ainda, um Jesus que aprende com as mulheres, que em diálogo com elas por vezes é levemente repreendido por expressar algum preconceito e receber uma lição que o toca e o faz mudar de atitude para com elas. 


O autor não cessa de nos surpreender pelo seu empenho e desempenho em, ao propor uma releitura com lentes historiográficas e fazê-lo com muito respeito as demais formas de leitura - metafórica e mitológica, tendo sempre o cuidado de situá-las em seu respectivos contexto, em vez de tratá-las como excludentes. Para tanto, empreende caminhos espinhosos tomando em conta toda uma série de obstáculos - diversidade de culturas, de línguas, de traduções e tradições de  fontes, - arqueológicas, historiográficas (Greco-romanas e Cristãs)  entre outros. 


Diferentemente do que costuma suceder aos leitores comuns, o autor confere especial atenção às diferenças de atitudes entre Jesus e João Batista, questão que ele enfrenta no quinto capítulo. Enquanto o perfil de João Batista se apresenta mais exigente e mais afeito a atitudes tais como “pecado”, “condenação”, Jesus, por outro lado, se apresenta com atitudes mais voltadas para a compreensão dos pecadores, a partilha, a solidariedade e as alegrias do cotidiano.


Nos próximos dois capítulos, (o 6º e o 7º)  sempre em diálogo com o leitor/a leitora, o autor nos oferece um passeio pelos Evangelhos, trazendo-nos episódios marcantes dos ditos e dos feitos de Jesus de Nazaré, notadamente algumas de suas parábolas, a inspiradora leitura na sinagoga, onde lê a tocante passagem descrita no Evangelho de Lucas (4, 15-19) entre outras. Nestes capítulos, o autor destaca com, força, os contrastes flagrantes entre o anúncio do Deus de Jesus - compassivo misericordioso, solidário com as causas libertadoras dos oprimidos adepto de procedimentos cúlticos, irônico em relação aos métodos das autoridades religiosas e políticas do seu tempo - e o Deus anunciado pelos doutores da lei - um deus guerreiro, vingativo, todo poderoso, um deus dos exércitos, distante dos humanos, sedento de cultos e sacrifícios, muito semelhante aos deuses dos povos vizinhos (babilônicos, persas e outros)     


No que tange, por exemplo, a diversidade de fontes históricas, empenha-se em conferir fontes greco-romanas, judaicas e cristãs. Quanto às fontes greco-romanas, diversos historiadores daquela época entre os quais :  Plínio, o Jovem; (61/61 d.C- 113/114 d.C )Tácito, (56 d.C - 120 d.C) Suetônio, (69/70 d.C - 141 d.C)  Luciano Samósata; (120/125 d.C - 180) Aulo Cornélio Celso, mais conhecido como Celso (25 a.C - 50 d.C). Na perspectiva historiográfica, costuma-se conferir mais valor às fontes arqueológicas, dado seu caráter material mais objetivo. Em descobertas arqueológicas, remotas ou mais recentes vale lembrar pelo menos duas: uma antiga escavação em território Palestino na qual foi encontrada uma parede trazendo uma inscrição “Jesus, filho de José e irmão de Tiago” e outra mais recente, um ossuário em que havia uma incrição com o nome “Jesus”. No entanto, por razões diferentes, ambas padecem de dúvidas. O autor também recorre, atentamente às fontes cristãs (Evangelhos canônicos, diversos escritos neotestamentários (Atos dos Apóstolos, Cartas paulinas, Apocalipse, além dos Evangelhos Apócrifos).      


O tema “Jesus, Salvador” constitui o foco trazido pelo autor no oitavo capítulo. Como de hábito, cuida de prevenir os leitores/as leitoras das enormes dificuldades presentes nos textos bíblicos, tal como se acham, uma vez que também refletem fortes experiências interculturalidade, graças às quais  múltiplas narrativas encontradas nos textos bíblicos  - a exemplo dos primeiros onze capítulos do livro do gênesis (por exemplo, no relato sobre o Jardim Éden e do Dilúvio)  -, a indicarem claras adaptações de narrativas dos povos vizinhos, especialmente dos habitantes da pan-Mesopotâmia. O autor destaca especialmente a influência então exercida por algumas religiões de outros povos, sobretudo do zoroastrismo. Como um Judeu/Palestino educado no meio do seu povo, Jesus também introjeta parte dessas narrativas e as reproduz. Neste sentido, o autor, como historiador, recomenda especial atenção a diversos temas discursos pronunciados por Jesus, como reflexo de tal inter-cultariladade.


A crescente utilização do Grego, como língua de referência (tal como o Inglês atualmente) se expande por amplas áreas do Próximo Oriente, de modo a introduzir uma profunda helenização, feita inclusive por meio da tradução da famosa Bíblia dos Setenta, em que perde força o sentido Aramaico original, em favor de conceitos helenísticos, sob a influência de Platão, implicando deformações do sentido original.


Ditos e Parábolas de Jesus - eis o que nos convida o autor a meditar. Quanto aos Ditos, ele nos apresenta 21 recolhidos, por meio de tiras de papiro, de um documento chamado “Evangelho Q” (“Q” referente à palavra “Quelle” que quer dizer Fonte em alemão). Trata-se de 21 frases traduzidas do aramaico, língua falada por Jesus, que foram preservadas graças às tiras de papiro costuradas no interior da manta vestida pelos seguidores e seguidoras de Jesus, transmitidos por décadas, até serem incorporadas nos textos evangélicos (Canônicos e Apócrifos). Em seguida aos 21 Ditos do resumo, o autor também nos oferece 45 Parábolas, que se acham espalhadas pelos Evangelhos. Tópico igualmente digno de nossa elevada consideração, sobretudo pela forma desconcertante e intuitiva, utilizada por Jesus, em sua comunicação através das aldeias da Galiléia, a escandalizar doutores da Lei e autoridades romanas, de um lado, e, de outro, a maravilhar os pobres e oprimidos de seu tempo - e de todos os tempos. Estes foram os temas apresentados pelo autor no nono capítulo de seu livro.


No último capítulo do livro (o 10o), o autor nos surpreende com um “Jesus” intuitivo, em que, em diálogo com Spinoza, especialmente em seu livro “Ética”, o autor trata de compartilhar um rico aprendizado, à medida que, para compreender a figura de Jesus de Nazaré, cuida de percorrer 3 caminhos que não são excludentes, mas antes complementares. O primeiro passo tem a ver com a compreensão da mensagem evangélica por meio da “imaginatio” (da força simbólica da linguagem). Em busca de ir mais longe, o autor propõe alcançarmos a “ratio” (o exercício da razão), o que conseguimos, segundo o autor, pelo esforço contínuo (“conatus”), em busca finalmente de exercitarmos a ciência intuitiva. Eis o caminho que recorrendo à “épica” de Spinoza, o autor nos convida a exercitar. Tomara que este livro marcante suscite interesse de outras editoras fora do Brasil.


Agradecidos ao historiador Eduardo Hoornaert pela sua densa e frutuosa pesquisa - a mais recente de sua lavra, ao longo de três décadas, expressamos-lhe  nossas felicitações  e o mais profundo reconhecimento pelo seu vigoroso trabalho incansável. 


Sabedoria, saúde e longa vida a Eduardo!


João Pessoa, 08 de janeiro de 2026 


   


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Novo Hitler, em forma de pirata Dilacera o mundo, estupefato

Novo Hitler, em forma de pirata 

Dilacera o mundo, estupefato 


Alder Júlio Ferreira Calado 


O seu crime mais recente foi o sequestro

De Maduro e esposa, para Nova York 

 

Bombardeio aéreo de Caracas 

Foi seguido do sequestro de Maduro


Junto com sua esposa Cilia Flores 

Transportados, com algemas a Nova York   


Quatro meses já faz, que ameaça 

Os países Latino-Americanos 


Com navios de guerra, no Caribe

Emplacando a tal Doutrina Donroe

   

Com pretexto ridículo, abate, sem prova 

Vários barcos, matando seus ocupantes  


Muito pouco, o mundo aprende desta história 

E assim dá vazão ao novo Hitler 


Vozes raras se levantam, em nosso mundo 

A enfrentar o ascenso do Nazismo


Mundo assiste ascensão de um novo Hitler

Maioria passiva, a se poupar…


Só a via diplomática é o bastante?

Quais os frutos desta prática de omissão?


De quem tem condições de responder 

À altura da fúria do agressor?


Rússia e China: aquém do esperado 

Não passarão de notas diplomáticas…  


A ataques de tal envergadura 

Bastarão só respostas diplomáticas?


Já que a ONU dá prova de impotência 

Faz-se urgente ousar alternativa


Para tanto, é preciso nova sede 

Necessário vedar “direito” a veto 



 João Pessoa, 06 de Janeiro de 2026 


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Um mergulho no mundo acadêmico / nos sugere autocrítica e atitudes

Um mergulho no mundo acadêmico

Nos sugere autocrítica e atitudes 


Alder Júlio Ferreira Calado   


Fim de ano, sendo tempo de balanço

Que parece também fazer o nosso? 


Ofício docente republicano 

Autocrítica - critério fecundante


Quem é pago pelo público, deve servir

Ao conjunto do Povo Brasileiro 


Que atenção asseguro ao RETIDE? 

Em respeito ao Público a que sirvo?


Eu preparo as aulas com qualidade?

Sou assíduo e pontual em meu trabalho?


Tomo em conta tão-só o Ensino Público 

Pelos erros gravosos cometidos 


No Ensino, Pesquisa e Extensão 

Faço tudo sozinho ou faço em grupo?

 

Me conecto tão só com meus colegas 

Ou também com a turma de estudantes? 


Nos contatos com os pares de outras instâncias

Eu mantenho postura saudável, ética?


Ou, buscando vantagem, eu termino

Sucumbindo ao toma-lá-dá-cá


Como lido com os meus orientandos?

Me reúno e leio seus trabalhos?


Sou adepto de grupos construtivos

Ou prefiro viver em panelinhas?


Na montagem de Bancas, 

Como faço para a escolha dos examinadores?


Quando quero propor algum artigo

Que critério utilizo, nos contatos?


Cresce o número de queixas em Concurso.

Serão todas vazias? procedem algumas?


Favoreço possíveis preferências

Ou procuro ser justo e imparcial?

 

Como temos costurado nossos campos

Do Ensino, da Pesquisa e da Extensão?


Na escolha dos temas de Pesquisa

É o Público, o critério dominante?


João Pessoa, 31 de dezembro de 2025







sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Entrevista concedida ao Jornal da Paraíba, em 30/11/2003

 Entrevista concedida ao Jornal da Paraíba, em 30/11/2003

“O DESEMPREGO É A CRUELDADE MAIS PERVERSA DO CAPITALISMO

“O problema não é de hoje, mas acentuou-se, principalmente depois da era Thatcher/Reagan, com o neoliberalismo que, praticamente destruiu as iniciativas sociais do capitalismo. Venderam-se estatais e retiraram da lei prerrogativas e garantias, que a social-democracia, por exemplo, assegurava aos trabalhadores”. Para o professor Alder Júlio Ferreira Calado, doutor em Sociologia na França, essas contradições criam o espaço ideal para o próximo passo para quem não encontra absorção pelo mercado de trabalho: a marginalidade. Nesta entrevista, Alder Júlio fala sobre as iniciativas sociais que combatem e lutam para promover mudanças, como os movimentos sociais, que, segundo ele, surgiram no Brasil há séculos por causa do acúmulo de dívidas sociais, de âmbito estrutural, como trabalho, habitação e cidadania. Apesar da visão crítica, ele acredita na solidariedade, no "rio subterrâneo" formado por grupos comunitários, movimentos sociais, grupos eclesiais, onde há outros valores como a partilha e o resgate da natureza e do sagrado. Ele critica a mudança de rumo do PT ao chegar ao poder, diz que a Educação é um fator decisivo para o desenvolvimento humano e lembra que “nem toda vida interessa ao ser humano, mas a vida digna, a vida plena”, ao lembrar o Evangelho: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância”.

– Como se explica a proliferação de tantos movimentos sociais, no campo e nas cidades, no Brasil de hoje?

Alder: A sociedade brasileira, sobretudo no que se refere às camadas populares - das quais são expressão viva os movimentos sociais, carrega herdada do colonialismo, do escravismo muito forte. Legado que vai ser agravado, acrescentado dessa carga do capitalismo, que procura sempre cultuar a mania do chefe, a mania de desigualar as pessoas, de dividir, de apartar quem é "de bem" de quem não é.

– Esse âmbito estrutural quer dizer exatamente o quê?

Alder: Quando falo em âmbito estrutural quero dizer que há toda uma história carregada de dívidas sociais, do ponto de vista de trabalho, de habitação, do ponto de vista de cidadania no sentido mais pleno da palavra. Então, isso é uma dívida de caráter estrutural.

– E vem desde quando?

Alder: Desde a invasão do Brasil. Desde lá vem se acumulando, com o colonialismo, seguido do capitalismo, em que as pessoas passaram a ser tratadas como socialmente desiguais. Não estou falando em simples diferenças, porque distintos somos todos, e devemos ser, já que assim, somos complementares. Estou me referindo à desigualdade social. E a esse acúmulo, de caráter estrutural, junta-se o quadro conjuntural, que agrava determinadas dívidas sociais.

– E por que esse capitalismo dá certo em outros pedaços do mundo como a Europa e os Estados Unidos?

Alder: Eu diria que ele deu certo até certo ponto, quando existia a tal da social-democracia. Ela assegurava um segmento muito bem aquinhoado, do ponto de vista de um minúsculo contingente da população. Na Europa, especialmente na Escandinávia, nos anos 60, como que os operários viviam num certo paraíso de bem-estar social. Era o Estado do Bem-Estar Social. Mesmo assim, eu era crítico em relação a isso, porque esse estado de bem-estar social não se estendia para o conjunto dos trabalhadores de todos os países. As periferias sempre viveram nessa dependência tremenda. A social-democracia tinha a garantia desse bem-estar social a pequenos contingentes de operários, trabalhadores, sobretudo na Europa e particularmente no norte da Europa. Mas, com o agravamento do neoliberalismo, isso foi abandonado. Hoje é uma questão de pouca importância para o capitalismo.

– Volátil e volúvel...

Alder: Sem qualquer compromisso com nada. E pior, acumulando riquezas mais do que muitas nações reunidas. E ditando ordens, elaborando e implementando políticas econômicas e enfiando-as de goela abaixo nesses países, sob a complacência desses governos que não atuam de maneira digna, a defender a soberania nacional, como manda a Constituição desses países, que juraram cumprir e fazer cumprir.

– No Brasil, essa perspectiva seria diferente, agora, após a eleição de um político cujas origens estão nas camadas mais populares?

Alder: Eu sou um de tantos e tantas que lutaram no interior dessas forças, desde o seu início, no sentido de que elas viessem a desaguar, não nisso em que hoje a gente está metido, mas noutra realidade que a gente gostaria, e da qual não abdiquei pessoalmente. E comigo estão muitas pessoas de luta, mas a grande maioria do partido optou por outro caminho, da concessão, do aliancismo. E isso faz com que as bandeiras históricas sejam perdidas de vista, enquanto muitos se contentam com as chamadas políticas compensatórias.

– Mas será que daria para remar contra a maré?

Alder: É uma boa pergunta. Depende do povo, da conscientização, da nossa capacidade de protagonismo coletivo, que o nosso povo tenha. Evidente, que você sendo o presidente e todo o povo que não está nada acompanhando isso aí, você não poderia tomar atitude cujas conseqüências depois a maioria do povo não arcasse, não respaldasse e fugisse da luta, a reclamar: "Por que você decidiu uma coisa nos colocando nessa posição", porque certamente qualquer opção mais política que prezasse a soberania nacional, por exemplo, implicaria algum tipo de reação. Só que essa reação seria muito menos custosa do que o preço que nós estamos pagando agora.

– As famosas contradições do capitalismo?

Alder: Eu gosto muito dessa palavra. Porque não é invenção. É simplesmente constatação. O capitalismo se mexe a partir de contradições. Sem contradições não existe o capitalismo.

– E quando se avalia a questão social, os movimentos, qual o peso do desemprego?

Alder: O desemprego é uma de uma série de variáveis que caracteriza a estrutura e a conjuntura atuais. O desemprego, por exemplo, vai fazer com que uma parcela considerável de pessoas que antes viviam no campo e dele foram expulsas para as cidades, e aqui chegando, não encontram absorção nem da parte da indústria, nem do comércio e nem de outras atividades. Aí a marginalidade é o próximo passo. Então, o desemprego é uma das crueldades mais perversas, no meu entender, cometidas pelo capitalismo aos seres humanos. Porque, veja, mesmo dentro do capitalismo havia a promessa do pleno emprego, isso na social-democracia. Nunca se garantiu, mas se apontava como meta o pleno emprego. Isso foi abandonado de maneira terrível pelo neoliberalismo, a partir da era Thatcher/Reagan, dos anos 80 para cá, de maneira infernal, a ponto de não quererem saber, de modo algum, de garantir emprego. Tanto é verdade que o segmento que hoje hegemoniza o capitalismo, é força mais parasitária, que é o segmento financista da especulação.

– Qual é esse preço?

Alder: Veja só: um dos grandes programas do governo atual é o Fome Zero. O orçamento desse programa é entre R$ 20 bilhões e R$ 40 bilhões, ou seja, em torno de US$ 12 bilhões, em quatro anos de governo. Ora, para se ter uma idéia, quanto é que apenas de serviços da dívida estamos pagando por ano? Em torno de US$ 120 bilhões? Ou seja, o orçamento do Fome Zero seria então a décima parte do que a gente está pagando de serviço da dívida...

– O que nos remete, novamente, à história da especulação financeira e da voracidade do mercado...

Alder: Claro. Com certeza. A gente está abrindo mão de uma riqueza enorme que o Brasil tem. Da riqueza de terras, - somos o quinto maior do mundo em tamanho. E terras planas. Não é como o Canadá e a China, que são maiores do que o Brasil, mas, no caso do Canadá, partes expressivas são tomadas por geleiras. Nós temos terras que, "em se plantando, tudo dá", de norte a sul, de leste a oeste. Temos subsolo riquíssimo, com metais preciosos e petróleo. E onde está essa riqueza toda? Nós temos um mar enorme - a faixa marítima é de milhares de quilômetros. Temos rios caudalosos, de cachoeiras, volumosos. Temos água doce, que é um bem raro. Temos um parque industrial dos melhores da América Latina. O povo às vezes estuda isso aí, mas não retém. A propaganda é tão grande em cima de um Brasil que não dá certo, que até o presidente diz: o Brasil é pobre. Pobre coisa nenhuma! Pobre é o povo, mas o País é rico.

– Professor, voltando aos movimentos sociais, que avaliação pode ser feita do apoio da Igreja nessa luta? Isso não politiza os movimentos e deixa até a indicação de que eles podem transformar-se em partidos políticos?

Alder: É verdade. Pode até acontecer, e seria um pleito justo, legítimo. Se um movimento desses que queira transformar-se em partido. É uma legitimidade. Na democracia representativa, o partido político não é um canal democrático? Então, nada contra. O problema é que eu não sei se alguns desses movimentos - aqui me refiro àqueles mais organizados, do ponto de vista político, mais consistentes - têm essa vontade. Por quê? Porque desacreditam cada vez mais nos canais da chamada democracia formal, representativa. Vem ano, passa ano, e as coisas não melhoram, mas se agravam. Há um risco muito grande de parcelas significativas desses movimentos perderem a crença na democracia formal, tal como ela vem acontecendo. As promessas se acumulam e os resultados são poucos ou nulos. Então, hoje algumas igrejas cristãs, principalmente a Católica – mas não podemos deixar de reconhecer o trabalho de outras igrejas, que também têm uma preocupação social semelhante, como os setores que você mencionou, a exemplo da CPT, do Cimi – uma organização extraordinária atuando junto aos povos indígenas. Então, se tem tido uma contribuição grande, principalmente na parte da formação.

– E a posição da Justiça em relação aos sem-terra, de certa forma radical?

Alder: A gente não pode esquecer que o Estado procura manter os interesses de quem de fato domina. A Justiça é um aparelho do Estado, tal como o Legislativo, o próprio Executivo, tal como outras forças também. De modo que a Justiça, de certa forma, cumpre esse papel, de um poder que busca manter os interesses de quem detém as riquezas. A contradição é que grande parte dessa esfera judicial é formada pelas universidades públicas e aprende outros conceitos, mas quando vai para a Justiça faz exatamente outra coisa. Isso está evidente, basta ver os critério de julgamento. Quando se trata de alguém de uma força ou de bastante prestígio econômico, aí a agilidade de fato está à vista. Basta fazer uma consulta nas cadeias, por exemplo. Quem está preso? O pobre, o preto, o discriminado. Quantos punidos há, que tenham o CPF volumoso? Essas injustiças se acumulam, mas não no Judiciário apenas, mas em todo o sistema, que parece corroído, por dentro.

– E a imprensa nesse contexto?

Alder: A imprensa também, a gente sabe, que é um componente importante de poder. Até se fala em quarto poder... Tem um papel muito importante nessa formação de sociedade. Embora não pertença ao Estado, a gente sabe que a imprensa funciona, em boa dose, graças ao financiamento do Estado.

– O relacionamento é muito estreito...

Alder: É promíscuo, a gente sabe disso. Agora, em todas essas instâncias governamentais e do Estado, há pessoas sérias, que têm um compromisso social reconhecido. Mas o fato de a gente distinguir essas exceções não nos dá direito de negar que a estrutura como um todo orgânico atua na velha direção de buscar garantir interesses - e até ampliá-los - a quem já domina. A imprensa, no entanto, faz parte disso, à exceção da imprensa alternativa, a exemplo da Revista Caros Amigos, Brasil de Fato...

– O maior movimento hoje no País é o MST. Que papel está resguardado à reforma agrária?

Alder: A reforma agrária é uma bandeira que se vem empunhando há muito tempo, não é de hoje. É uma bandeira que foi iniciada após a invasão, com a resistência dos indígenas, com os movimentos populares, ao longo do Brasil-colônia. Hoje isso continua. As Ligas Camponesas tiveram seu papel muito importante, no qual a Paraíba desponta como um Estado privilegiado, nessa condução das lutas, haja vista nomes como João Pedro Teixeira, Nego Fubá, Pedro Fazendeiro e tantos outros – Elizabeth Teixeira, que é viva ainda. É a continuação das lutas, embora com distinções e descontinuidade. Não é uma continuação mecanicista, mas é um movimento que procura, ao mesmo tempo, sem perder de vista essas lutas, trazer seu aporte.

– Por que na Ásia - nos tigres asiáticos - o capital encontrou terra mais fértil?

Alder: A educação faz a diferença. O investimento que esses países têm assegurado à Educação tem sido qualquer coisa muito longe em relação aos países do Terceiro Mundo, particularmente ao Brasil e à América Latina. Lá, o investimento é grande. Na Coréia do Sul, por exemplo, é espantoso. Você pega o índice de jovens que acessam a universidade, não tem nada comparado em relação ao Brasil, por exemplo. De modo que a educação faz a diferença. Não que legitime politicamente, porque muitas vezes se trata de uma educação voltada para a produtividade do capital, mas do ponto de vista de que a população aceda à escola, tenha escolaridade adequada para depois pensar no que pode ser e até em seus projetos alternativos. No caso nosso, é um abandono por completo. É uma privatização generalizada, na saúde, na educação. Olha, no caso da universidade, a gente tinha nos anos 60, em torno de setenta e cinco por cento das universidades sob o controle do Estado, públicas. Hoje, estamos vendo uma inversão. É exatamente o contrário, 3/4 pertencem à iniciativa privada, enquanto 1/4 é que o Estado continua, de má vontade, a financiar.

– E que papel o senhor acha que está reservado à solidariedade...

Alder: Enormemente. É fruto de um processo de formação.

– Essa educação de hoje só estimula a competição, em desrespeito mesmo a valores como a amizade. Pegam crianças que estudaram juntas desde o pré-escolar e quando chegam ao terceiro ano, dizem que elas são concorrentes, quando elas mesmas dizem que não querem tratar o amigo como um competidor...

Alder: Muito bem colocado, porque a gente tem educação e tem formação que é algo mais amplo. A educação está na cabeça da gente, muitas vezes, associada a escolarização, o que é uma parte da educação. Mas não é tudo, nem o principal. Os filhos da gente se guiam muito mais pela televisão – bem ou mal, e eu acho que mal – do que pela escola, por exemplo. E mais do que isso: mais importante do que a escola é a própria vida. E aí a gente nota essas contradições. De um lado a grade de valores dominante, como a concorrência desenfreada, o individualismo...

– O ter. Hoje o que vale é a grife e não o vestir-se, por exemplo...

Alder: O imediatismo... a chantagem que a mídia passa para as crianças que pressionam os pais por aquilo que querem. Os mecanismos de seleção de mercado. A gente tem essa grade de valores. Mas para dizer a verdade é bom que a gente veja o outro lado. O lado que, inspirado na imagem de João Batista Libânio, também passei a chamar de "rio subterrâneo". A gente está vendo esse rio de superfície, a sociedade, às vistas da gente, mas a gente está pouco vendo aquele que corre por baixo. Quando falo por baixo, me refiro a grupos comunitários, movimentos sociais, grupos eclesiais... Nesse rio subterrâneo há outros valores, como a solidariedade, a partilha, o resgate da natureza, do sagrado, não como um sagrado tido como um "toma lá, dá cá", como muitas vezes o televangelismo apresenta, banaliza o sagrado, trazendo o céu na mesma medida do mercado. Isso é uma degeneração do sagrado.

– Quer dizer, apesar da visão cientificista na metodologia de invenção, o senhor acredita nos valores desse rio, e que esses valores podem revolucionar o mundo?

Alder: Acredito na força dessa água, e é o que me mantém vivo, porque se ficasse nesse rio que corre na superfície, eu estaria envenenado, possivelmente, sendo alguém completamente tomado pelo ter, por uma vida de trevas e o suicídio talvez seria o caminho. Porque a vida enquanto ter não nos oferece o deleite da plenitude que nos encaminha. A vida vegetativa não é a vocação do ser humano. Ele nasceu para ser feliz, para a liberdade. Então, nem toda vida interessa ao ser humano, mas a vida digna, a vida plena. O Evangelho diz assim: "Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância". Não é essa vida que o capital quer derramar por aí.