sexta-feira, 18 de outubro de 2019

BIOMAS - PROPRIEDADE DE UM POVO/NAÇÃO OU BEM COMUM DA HUMANIDADE? Considerações em torno do caso da Amazônia

BIOMAS - PROPRIEDADE DE UM POVO/NAÇÃO OU BEM COMUM DA HUMANIDADE? Considerações em torno do caso da Amazônia

Alder Júlio Ferreira Calado

Em face dos índices assustadores de deterioração da qualidade de vida do Planeta e dos humanos, bem como do acirramento de práticas e discursos insanos da parte de figuras sociopatas, assistimos ao recrudescimento, em escala mundial do antagonismo entre dois principais modelos de desenvolvimento: de um lado, o modelo predatório embasado na exploração incondicional dos bens da Terra (megaprojetos hidrelétricos, exploração predatória das florestas, indústria extrativista de minérios, expansão indiscriminada de áreas agropastoris em função do agronegócio, etc); e, de outro, um modelo de ecologia integral, fundado em uma convivência respeitosa e fraterna entre os humanos e toda a comunidade dos viventes. 

Nos últimos tempos, graças a revelações de dados espantosos dando conta do agravamento da crise climática, de debate, inclusive, na mais recente conferência realizada na ONU, trazendo revelações fundadas em dados por institutos e entidades de amplo reconhecimento científico internacional, a exemplo do INPE do Brasil, acerca do crescimento desmedido de registros de desmatamento na Amazônia, eis que se tem elevado o tom dos discursos inflamados em acusação a órgãos científicos e em defesa de sua legitimidade. 

Em meio a este fogo cruzado de confrontos, eis que está programada, já há algum tempo a realização em Roma, iniciado a partir de domingo, dia 6 do corrente - e estendendo-se ao longo de três semanas -, do Sínodo dos Bispos convocado pelo Papa Francisco, acerca dos desafios enfrentados pela região pan-amazônica, envolvendo nove países, inclusive o Brasil. Do referido Sínodo devem participar em torno de 180 bispos e outros convidados. O que está em jogo neste acontecimento? 

Nas linhas que seguem, tratamos de, primeiro, fornecer breve notícia sobre o bioma amazônico. Em seguida, rememoramos de passagem alguns dados sobre em que ponto se encontram as condições dos biomas mais ameaçados. Posteriormente, cuidamos de ressaltar as principais marcas dos projetos de desenvolvimento em disputa no Brasil e em outros países. Por último, tratamos de centrar atenção nos traços axiais do paradigma alternativo do Bem Comum da Humanidade, à luz das teses sustentadas por François Houtart.

Biomas em agonia



Em socorro aos gritos da terra, das matas, das águas e das gentes, levanta-se uma voz profética em defesa da vida.

O Sínodo dos bispos vai tratar das enormes dificuldades que cercam e infelicitam aquela terra e aquelas gentes, focando desafios e números a clamarem por respostas urgentes. Dentre estes desafios que serão debatidos, podemos destacar: a disputa de dois modelos de desenvolvimento (o modelo predatório e o modelo sócio-ambiental), o alto índice de assassinatos registrados na região, vitimando principalmente ativistas dos direitos humanos, a produção extrativista mineral, feita em prejuízo da Terra das Águas e daqueles habitantes, a exploração devastadora da madeira, inclusive com o propósito de desmatar áreas a serem depois exploradas pela pecuária extensiva em função do agronegócio, a instalação de mega projetos, relativos à construção de hidrelétricas, trazendo enormes prejuízos a região e seus habitantes, a construção de ferrovias e rodovias devastando terras indígenas, desrespeitando as condições de Equilíbrio sócio-ambiental daquela região. Além disto, o Sínodo dos bispos tratará das condições de saúde precarizadas bem como da falta de estrutura, de saneamento das áreas urbanas da região e ainda das condições do sistema prisional montado naquela região.

Que traços destacar da região Amazônica compartilhada por nove países da América do Sul, inclusive o Brasil? Quais os desafios mais salientes desta vasta e complexa região? Como vivem suas populações aborígenes, ribeirinhos, povos das florestas, das águas e outras comunidades tradicionais? Que dificuldades maiores enfrentam essas populações e a própria região? Como se apresenta na atualidade? Que projetos em disputa podem ser observados na Amazônia atual? Que forças de um lado e de outro representam cada um desses projetos?

O bioma amazônico está contido em vasta área da América do Sul, passando por nove países: Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa. O mesmo bioma ocupa área maior ou menor, nesses países. No caso do Brasil, por exemplo, a Amazônia ocupa quase metade de sua área. Vivem neste bioma, em torno de 35 milhões de habitantes, dos quais mais de 25 milhões só na Amazônia brasileira. Em todo o bioma amazônico, gente e natureza se acham umbilicalmente relacionadas, de sorte que as condições de uma parte refletem-se necessariamente na outra, seja para o bem, seja para o mal. Estima-se em cerca de 2 milhões de espécies, parte das quais extremamente ameaçadas, enquanto milhares de tantas outras se acham extintas ou em via de extinção.
Da considerável variedade de suas gentes, povos originários, ribeirinhos, Comunidades Quilombolas, comunidades de coletores de frutos da região, etc. -temos recebido crescentes reclamações, por meio de documentos, de cartas, de testemunhos, de depoimentos, dando conta de infortúnios provocados por grileiros, garimpeiros, madeireiros, representantes e agentes de grandes empresas de mineração e do agronegócio, representantes governamentais empenhados em construções de hidroelétricas e megaprojetos. Isto não vem de hoje, embora se trate de um cenário que se vem agravando, nos últimos tempos, especialmente a partir do governo Bolsonaro.
Atentando-se melhor à natureza e aos procedimentos com que se dão tais ataques, percebemos que não se trata de ataques perpetrados apenas por pessoas ou grupos isolados, dentro ou fora da região. Importa ter presente conjunto de forças sociais mais graúdas, que estão por trás das ações de pessoas ou de pequenos grupos. Em cada um desses ataques, ao analisarmos as ações, vamos percebendo que interesses maiores se acham em jogo, por exemplo, na implantação de megas empresas hidrelétricas, concebidas e construídas sem qualquer consulta verdadeira aos povos da região - muito ao contrário, à revelia e contra seus interesses - vamos observando a atuação seja do Estado, seja das grandes empresas transnacionais, aparecendo como um dos principais protagonistas destes ataques. Para tanto, usa-se e abusa-se de toda sorte de pretensa justificativa, sendo a mais frequente a da necessidade de atendimento às demandas do Progresso do crescimento econômico, pouco ou nada tendo a ver com as populações locais. O que se constata, não raramente, é a atuação do Estado e seus aparelhos em benefício, principalmente, das grandes transnacionais a que se subordina o Estado. Algo bastante similar se passa, também, em relação a outros projetos, tais como o da mineração, da extração ilegal de madeira, expansão desenfreada das áreas destinadas à pecuária extensiva.

Em busca de um paradigma alternativo: apontamento sobre o paradigma do Bem Comum da humanidade.

É sabido que o modo de produção capitalista desde suas origens, e em suas diversas manifestações, tem sido caracterizado pela sua extrema voracidade de expansão territorial, pelos quatro cantos do mundo. Em sua avidez de acúmulo de bens, produtos e riquezas sucede, todavia, que nos últimos tempos, graças à prevalência de seu setor rentista e seus paraísos fiscais, tem se manifestado extremamente obsessivo, levando sua cobiça e sua ganância a extremos por uma astuciosa combinação de estratégias de devastação, se vem produzindo verdadeiro massacre e agressões ao planeta e a seus viventes. A crescente crise climática constitui um exemplo ilustrativo que reflete os níveis de sua ganância e seu ímpeto necrófilo. Ainda que ocorra a prevalência de seu setor financista, cabe ter presentes suas íntimas relações com seus demais setores, seja seu setor industrial, seja seu setor comercial e outros. Trata-se, em verdade, de faces distintas da mesma moeda, expressões diversificadas do mesmo modo de produção. É assim que, combinando uma série de estratégias, o modo de produção capitalista apresenta uma sucessão de iniciativas de pilhagem, nos quatro cantos do mundo, inclusive na América Latina, na Amazônia, no Brasil. Isto estende-se, naturalmente, por outras regiões do planeta. Fixemos, porém, atenção prioritária ao caso do Brasil, da Amazônia, que também pertence a mais oito países, além do Brasil.

Neste sentido, as políticas econômicas traçadas e implementadas, com a imprescindível parceria do Estado, diversas políticas econômicas vêm sendo implantadas, como estratégia nociva de exploração predatória de todo o ambiente, das matas, do solo do subsolo, das Águas, da produção pecuária extensiva, de atividades de extrativismo mineral, desenvolvidas à custa e em detrimento dos interesses dos povos originários, das Comunidades ribeirinhas, das Comunidades Quilombolas, em breve, dos povos das águas, das florestas, vítimas da crescente ambição pelo acúmulo de riquezas vegetais, animais, minerais, agrícolas e de outras formas de produção capitalista. Pouco ou nada interessa se suas políticas econômicas provocam estragos irreparáveis ao ambiente ou agentes que aí vivem e trabalham. Tudo é feito em nome de seu projeto necrófilo, de sua cobiça e de sua idolatria ao deus Mamon, a riqueza pela riqueza. 

As recentes manifestações do Grito dos Excluídos, promovido pela CNBB, já há 25 anos, traduziram, por meio de textos, faixas e cartazes, o significado desta realidade, a partir mesmo do tema escolhido para o grito dos excluídos, em 2019: "este sistema não vale: lutamos Por Justiça, direitos e liberdade ". Trata-se, com efeito, de uma insuportável estrutura social, econômica, política e cultural que só beneficia uma ínfima minoria de cidadãos e cidadãs, a custa e em detrimento da enorme maioria da população.

É cada vez mais urgente que ousemos, olhos fitos no horizonte alternativo que nos propomos alcançar, empreendermos passos concretos, em busca de irmos alcançando, ainda que molecularmente, esta direção. Neste sentido, é que nos valemos das teses propostas, em seu livro já mencionado por François Houtart., acerca do paradigma do Bem-Comum da humanidade, focando com mais ênfase aspectos referidos no último capítulo de seu livro: por uma “Declaração universal do bem comum da humanidade”.

François Houtart parte de constatações impactantes acerca das graves crises, recentes e menos recentes, enfrentadas pela humanidade, inclusive pelas principais forças da esquerda, na América Latina, indicando suas insuficiências ante os desafios e dilemas apresentados pelo Capitalismo, atualmente hegemonizado pelo subsistema financeiro, sempre cuidando de apontar suas afinidades orgânicas com os demais setores do Capitalismo. Ao debruçar-se especificamente sobre a trajetória recente percorrida pelos governos populares na América Latina - que ele chama, a justo título, de pós-neoliberais -, constata, fundado em dados concretos da própria CEPAL, a funcionalidade destas experiências, em relação ao próprio Capitalismo, apontando, inclusive, o retrocesso destes países em relação ao seu processo de industrialização. Todas essas experiências, a despeito de terem proporcionado avanços pontuais numa agenda popular, centraram sua política econômica nos discutíveis ganhos em cima das “commodities”, contribuindo assim para alimentar a voracidade acumulativa das grandes corporações transnacionais, ocasionando profundos estragos socioambientais.

Por esta e tantas outras razões, e fundados em análises sociológicas percucientes, produzidas por vários autores e autoras, é que propõe como paradigma alternativo o que ele chama de bem-comum da humanidade. De início, cuida de explicitar o sentido atribuído à categoria “bem-comum da humanidade”, distinguindo-a tanto da categoria “bens-comuns” quanto da categoria apenas “bem-comum”. Com relação à primeira, reconhece que há uma respeitável tradição de lutas sociais pelos bens-comuns , protagonizadas pelos movimentos sociais, nos quatro cantos do mundo: em busca de garantir um caráter republicano (“res publica”) de bens e serviços, é enorme a lista de lutas sociais nesta direção. A própria noção de “bem-comum” alcança múltiplas correntes da sociedade civil, em diversos tempos e lugares. Por sua vez, a categoria “bem-comum da humanidade” segue guardando consideráveis pontos e aspectos comuns com os conceitos acima referidos. 


A grande especificidade do paradigma do bem comum da humanidade, sua marca por excelência, tem a ver com a extraordinária ampliação do seu alcance, de modo a contemplar não apenas esta ou aquela nação, este ou aquele povo, grupo social, comunidade, classe social, mas toda a humanidade, daí seu caráter universal sem perder de vista as afinidades que segue guardando com o conceito de bens comuns ou mesmo de bem comum. O alcance deste paradigma do bem comum da humanidade estende-se, com efeito, a todos os grupos humanos e a todos os membros da Comunidade dos viventes, de modo a abrigar diferentes espécies vegetais e animais e mesmo o reino mineral. Por outro lado, o paradigma do bem comum da humanidade trata de estender seu objetivo, visando a assegurar as condições materiais de existência dos humanos, bem como as bases materiais da vida de todos os viventes neste sentido, extrapola o alcance dos outros dois conceitos correlatos, à medida que põe maior acento no conjunto dos humanos e de todos os viventes. neste sentido, Já não basta assegurar os bens comuns de uma nação, de um povo, de uma comunidade, mas trata-se de assegurar-se a base material da vida, em toda a sua extensão: dos humanos, da flora, da fauna, das águas dos rios, das matas, dos oceanos, do solo do subsolo, da atmosfera, em breve, as condições de vida do planeta e dos humanos. 

Tal paradigma implica situações e condições especiais tais como: um modo de produção diametralmente antagônico ao modo de produção capitalista e a todo modo de produção baseado em dominação de classes. E, implica, não apenas, um modo de produção alternativo a qualquer sistema de dominação, mas demanda igualmente um novo modo de consumo, alternativo ao modo de produção capitalista ou de dominação de classes cujo consumismo acaba resultando em Privilégio de poucos, em detrimento da satisfação das carências e necessidades fundamentais de grandes maiorias, além nem dos danos imensos provocados a toda a comunidade dos viventes e do planeta. E, implica igualmente, um novo modo de gestão societal, a medida que já não faz sentido organizar a vida da sociedade pela via do Estado o mesmo de uma nação ou povo, requerendo um modo de gestão societal, em escala planetária.

Convém, todavia, assinalar que a Proposta elaborada por vários movimentos populares, em distintos fóruns internacionais, coordenados, em grande medida, também por François Houtart, contempla a figura do Estado, ainda que distinto do conceito hegemônico. 

Em uma observação preliminar que assinalamos a respeito do profundo alcance socioambiental  da Proposta adiante resumida, diz respeito à grandiosidade do empenho laborioso que, por décadas a fio, marcou a vida militante de François Houtart. Como sociólogo, dedicou sua vida a pesquisar, de forma participativa e militante os mais relevantes dilemas enfrentados pelas classes populares, nos quatro cantos do mundo. Para tanto, viajou por mais de 75 países dos diferentes continentes, a observar, dialogar com diferentes pesquisadores comprometidos com as classes populares. Um rápido olhar sobre sua bibliografia já é suficiente para se ter uma ideia de seu compromisso ético político. Em consequência, integrou diferentes organizações de pesquisa e de intervenção espalhadas pelo mundo, tendo sido co-fundador de iniciativas de grande alcance inovador, tais como distintos fóruns, inclusive Fórum Social Mundial. Não é por acaso, que também lhe tenha sido confiada a coordenação do projeto do bem comum da humanidade, alvo deste texto. 



Em breves linhas, cuidamos de assinalar aspectos axiais do projeto pelo Bem Comum da Humanidade, disponíveis, na integra, no seguinte link (https://educacioncienciabuenvivir.files.wordpress.com/2016/09/houtart-el-bien-comc3ban-de-la-humanidad.pdf). Eis, a seguir, alguns tópicos da justificativa e apresentação do referido projeto: 

“Vivimos tiempos en los que los seres humanos se dan cuenta que constituyen la parte consciente de una naturaleza capaz de vivir sin ellos, sin embargo, continúan destruyéndola progresivamente. La visión del desarrollo que conduce a una depredación de esta magnitud, apuesta por un progreso lineal en un planeta inagotable. Esta visión segmenta la realidad y destruye la percepción de conjunto (holística) del universo. Ignora la reproducción de la naturaleza, particularmente de las otras especies vivientes, para concentrarse exclusivamente en el crecimiento del género humano (antropocentrismo). Banaliza las culturas, destruye las utopías e instrumentaliza las espiritualidades. En su versión capitalista, lleva a la explotación, la injusticia y un crecimiento inequitativo entre clases sociales, géneros y pueblos. En su versión socialista del siglo XX, olvida la reconstrucción del vínculo con la naturaleza e ignora la organización democrática de las sociedades. Se trata (1) de pasar de la explotación de la naturaleza, como recurso natural, al respeto de la tierra como fuente de toda vida; (2) de privilegiar el valor de uso sobre el valor de cambio en la actividad económica; (3) de introducir el principio de la democracia generalizada en todas las relaciones humanas, incluidas las relaciones entre hombres y mujeres y en todas las instituciones sociales, y (4) de promover la interculturalidad para permitir a todas las culturas, los saberes, las filosofías y religiones esclarecer la lectura de la realidad; participar en la elaboración de la ética necesaria a su permanente construcción; y contribuir en las anticipaciones que permiten decir que «otro mundo es posible». Ese es el paradigma del «Bien Común de la Humanidad» o del «Buen Vivir», como posibilidad, capacidad y responsabilidad de producir y reproducir la existencia del planeta y la vida física, cultural y espiritual de todos los seres humanos en el mundo. Se trata de un objetivo, una utopía en el sentido utópico positivo de la palabra: aquello que nos hace avanzar. A todos los niveles, desde los comportamientos personales hasta la organización internacional, y dentro de todos sectores de relación con la naturaleza y con la cultura, la utopía deberá concretizarse dentro de las transiciones; concebidas no como simples adaptaciones del sistema a las nuevas demandas ecológicas y sociales, si no como pasos al frente adaptados a cada situación. Ciertamente, no son las declaraciones las que cambian el mundo, sino las luchas sociales. Sin embargo, junto a la crisis de la Tierra y el clamor de los explotados, se puede contribuir en la precisión de los objetivos y unir las múltiples luchas que tienen lugar hoy día por todo el mundo. De ahí, la propuesta de una Declaración Universal. Cada artículo está dividido en tres partes: estado de la cuestión (bien jurídico); la acción necesaria y la sanción.” 

Lições a recolher do paradigma do Bem Comum da humanidade
Ao mesmo tempo em que observamos o crescimento dos impasses e dilemas que nos cercam, sentimos a necessidade de enfrentarmos, com garra e esperança, conscientes de que o gênero humano só enfrenta os desafios para os quais busca e encontra saídas. Na atual “mudança de época” diante dos tremendos dilemas enfrentados, somos historicamente chamados a encará-los pela raiz, e não a conta-gotas. Eis por que nos desperta esperança o paradigma do bem comum da humanidade, profundamente afinado com o Bem-Viver.Que tarefas podemos priorizar, inspiradas neste paradigma? Destaquemos as seguintes:
- Sedimentar definitivamente nossa consciência (coletiva e pessoal) de que, em sua fase de profunda decadência, o Capitalismo já não comporta remendos: somos historicamente chamados a ousar ações radicalmente alternativas à sua lógica;
- O paradigma alternativo, que somos chamados a construir, demanda o fortalecimento da consciência e de nossa postura práxica de novos sujeitos históricos, alimentados pela ação transformadora das forças de mudança (movimentos populares, organizações de base...);
- As mudanças almejadas se apresentam caracterizadas pela ação ininterrupta dos novos sujeitos históricos, capazes de enfrentar, em sua integridade, as diversas dimensões da realidade social: socioambientais, econômicas, ético-políticas, culturais, de modo a impregnar um amplo leque de ações transformadoras, incluindo relações sociais de gênero, étnicas, geracionais, de espacialidade, relações cósmicas, relações com o Sagrado...

João Pessoa, 18 de outubro de 2019.

sábado, 12 de outubro de 2019

NAS TRILHAS DE PUEBLA, POR UMA IGREJA EM SAÍDA: aportes da IX Semana Teológica Pe. José Comblin

NAS TRILHAS DE PUEBLA, POR UMA IGREJA EM SAÍDA: aportes da IX Semana Teológica Pe. José Comblin 

 Alder Júlio Ferreira Calado

Culminando a nona edição da semana teológica Padre José Comblin  (IX STPJC), realizou-se, sábado, dia 5 do corrente, a sessão de encerramento da referida semana que, porém, se estende por alguns meses. A sessão de encerramento aconteceu, em João Pessoa, no Centro Pastoral do São Bento, com a participação de representantes, delegados e delegadas eleitos nas respectivas jornadas comunitárias, além de vários outros grupos eclesiais, tais como do Movimento Fé e Política, do Grupo de Espiritualidade Dom Hélder Câmara, da CPT, da Coordenação do Setor Social da Arquidiocese da Paraíba, de Religiosas inseridas no meio popular, e de outros grupos, amigos e amigas do Pe. José Comblin, vindos da Paraíba, de Pernambuco, do Ceará e de São Paulo. 

As linhas que seguem têm o propósito de destacar pontos relevantes da experiência vivenciada, nos últimos meses, e, em especial, na Sessão de Encerramento da IX STPJC. Em primeiro lugar, compartilhamos o que entendemos como sendo os pontos mais relevantes experienciados nas Jornadas Comunitárias; em seguida, restringimo-nos a sublinhar pontos-chave recolhidos, durante a Sessão de Encerramento. 

Das cinco jornadas planejadas, foram realizadas quatro: a da UFPB (animada pelo grupo Kairós), a de Santa Rita (animada pelo grupo Grupo de Espiritualidade Dom Hélder Câmara), a de Café do Vento (animada pelas várias comunidades daquela redondeza, tendo como referência o centro de formação Pe José Comblin) e a dos Bancários (animada pelos membros da Comunidade Paroquial Menino Jesus de Praga) , todas focando o tema central da IX STPJC. “Nas trilhas de Puebla por uma Igreja em saída, com Jesus, Francisco e José” (e tantas Marias e Margaridas!).

Cada uma das Jornadas, tendo em comum a temática proposta, contou com o protagonismo de seus organizadores e organizadoras, inclusive no que diz respeito à metodologia utilizada. A cada uma coube a escolha de um dos três textos propostos, como reflexão sobre o tema: o primeiro texto correspondia a algumas páginas do Documento final de Puebla; um segundo, de autoria do Pe. José Comblin, cuidava de fazer uma análise crítica desta III Conferência Episcopal Latino Americana; o terceiro texto proposto apresentava trechos da Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”, da lavra do Papa Francisco. Houve, também, quem preferisse centrar atenção especial no documentário “Pacto das Catacumbas”.

Das leituras e, sobretudo das reflexões, então compartilhadas, podemos ressaltar os seguintes pontos:

  • Puebla confirmou o compromisso assumido em Medellín, no que diz respeito à opção pelos pobres, inclusive especificando os diversos rostos de pobres (crianças, jovens, pessoas idosas, povos indígenas, camponeses, operários, desempregados...);
  • Apesar dos ganhos, a Igreja na Base passou a enfrentar crescentes estratégias de perseguição das CEBs, das pastorais sociais, da Teologia da Libertação, num quadro de desmonte promovido durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI;
  • Contundentes testemunhos e depoimentos da parte de leigas e leigos foram escutados, nestas jornadas, contra a tendência de clericalismo em voga, bem como forte crítica ao tipo de Formação ministrada nos seminários;
  • Ao mesmo tempo, veio à tona a reflexão crítica sobre o modelo de paroquialização das CEBs, tornando-as mais reféns do modelo Paroquial, tolhendo-lhes a força profética dos membros, com ampla tendência à resignação apenas a atos devocionais e ao culto, em detrimento de sua missão junto aos mais necessitados, que vivem afastados da paróquia; 
  • Em que pese a densa contribuição de Puebla, importa reconhecer o relativo silêncio referente às mulheres, além da ausência compreensível de temas hoje candentes, tais como os desafios socioambientais, dos migrantes, o da comunidade LGBTIQ, das redes sociais…

A culminância desta 9ª Edição da Semana Teológica Padre José Comblin se deu na sessão de encerramento, realizada no dia 5 de outubro, desde a oração inicial, conduzida pelo Padre Hermínio Canova, focada no tema central da 9ª STPJC, passando pela calorosa acolhida aos participantes da sessão, bem como as pessoas palestrantes convidadas. Foi feita breve memória das semanas precedentes, bem como dos principais temas já trabalhados, dentre os quais juventude, missão, formação, migrantes, entre outros. Em seguida, foram convidadas as pessoas responsáveis por oferecer uma síntese do que se havia trabalhado nas diversas jornadas comunitárias: Aparecida (pelo grupo Kairós, na jornada realizada na UFPB, no dia 11.08), Flávio (pelo grupo de espiritualidade Dom Helder Câmara, em Santa Rita, no dia 08.09), João Batista (pelas comunidades participantes em Café do Vento, no dia 15.09) e Josinaldo (pelo setor social, em Bancários, dia 18.09). A partir de então, são convidadas as pessoas que que vão contribuir com o debate: o teólogo cearense Padre Francisco de Aquino Junior, a professora Elinaide de Carvalho e a professora Ivoneide. Da reflexão oferecida pelo Padre Junior., podemos destacar os seguintes pontos:
  • atravessamos um contexto histórico caracterizado por uma noite escura, que tratamos de enfrentar confiantes na Esperança do Amanhecer;
  • o acontecimento puebla e, antes dele, o de Medellín, constituem momentos privilegiados na história recente de nossa igreja. Em Medellín e em Puebla, com efeito, encontrou-se o campo missionário apropriado para afirmação da identidade de uma igreja latino-americana, chamada a recepcionar o Concílio Vaticano segundo, ao seu modo, com denso protagonismo;
  • Tanto Medellín quanto Puebla, também inspiradas no pacto das catacumbas, passaram a levar a sério dois clamores chave do Concílio Vaticano segundo: o da centralidade do Povo de Deus na organização eclesial e a opção pelos pobres;
  • Tal protagonismo tornou-se forte, por conta das leigas e dos Lagos que, pouco a pouco, foram tomando consciência de sua condição de sujeitos missionários, com vocação própria, marcada pela igualdade comum conferida pelo batismo, que nos chama ao exercício da profecia, do sacerdócio e da cidadania.
  • Neste sentido, Vale destacar a importância do significado trabalhado pelo Concílio Vaticano segundo do conceito de Reino de Deus, entendido como Horizonte maior de nossa fé, do qual a igreja é chamada a ser um instrumento a serviço de sua realização;
  • Cumpre ainda destacar a importância da colegialidade, bem como da vocação específica das leigas e dos leigos, como partícipes na construção do Reino de Deus e sua justiça, por meio de sua ação cidadã, tanto ao interno da igreja, quanto no meio da sociedade, buscando trabalhar as realidades terrestres, com sua autonomia reconhecida nos documentos conciliares.
  • Parte significativa das ações tomadas pelo Papa Francisco, ainda que recebidas por não poucos como inovações discutíveis, constitui uma retomada do espírito do Concílio Vaticano II, cujas resoluções  centrais sofreram longa interrupção, durante os pontificados precedentes. O cerne das decisões recentemente tomadas pelo Bispo de Roma, tem a ver com a aplicação pastoral das deliberações do Vaticano II, fazendo centrar no Povo de Deus e não na hierarquia, a responsabilidade da vida eclesial trazendo os Leigos e Leigas como corresponsáveis pela organização e pela missão da Igreja no mundo.
  • Tanto a  opção pelos pobres quanto as constantes críticas feitas pelo Papa Francisco ao clericalismo vão por exemplo nesta direção de retomar o espírito do Vaticano II e das principais Conferências Episcopais Latino Americanas (Medellín, Puebla e Aparecida).
  • Quanto à contribuição oferecida pela Professora Elinaide Carvalho, enfatizou também lacunas ou ausências sentidas no Documento de Puebla, expressão de uma posição que segue hegemônica, na Igreja Católica Romana. Reconhecendo o espírito e a posição de renovação que o Papa Francisco vem mostrando, pelo relevante segmento eclesial das Mulheres, tem se pronunciado criticamente em relação ao lugar que as Mulheres seguem ocupando na Igreja mesmo no governo do Papa Francisco. As iniciativas, neste sentido, vem sendo aquém do que esperam e reivindicam as Mulheres, a exemplo do movimento "Católicas pelo direito de decidir".
  • Por sua vez, a Professora Ivoneide centrou sua reflexão, destacando a perspectiva da juventude, em Puebla. No segmento protagonizado pelos jovens, tem-se observado um relativo hiato entre o que se faz nas paróquias e o que desejam os jovens. Eles querem ter mais voz e vez, ter participação nas decisões enquanto a onda clericalista segue colocando o padre no centro da vida paroquial, de modo a inviabilizar a ação missionária nas periferias bem como o protagonismo dos jovens. 

A despeito dos obstáculos para uma melhor viabilização da proposta do Papa Francisco, na perspectiva de uma 'Igreja em saída", importa ter presentes suas iniciativas proféticas, de largo alcance renovador, dentro e fora dos espaços eclesiais merecendo destaque entre elas: sua ação profética não se restringe aos espaços eclesiais, mas estende-se pelos quatro cantos do mundo por onde tem peregrinado, como o tem feito por meio de suas 31 viagens apostólicas, em seis anos. Sua enorme sensibilidade à causa socioambiental bem expressa em sua Exortação Apostólica "Laudato Sìi".

Sua incansável confiança no protagonismo dos pobres, testemunhado, por exemplo em sua iniciativa de promover encontros mundiais de representantes dos movimentos populares dos vários continentes. 

A organização de um Sínodo Especial sobre os desafios da região panamazonica, a testemunhar seu empenho pastoral em defesa e promoção da causa socioambiental ("nossa casa comum"). 
Por iniciativa sua, já estão agendadas para os primeiro semestre de 2020, em Roma, encontros com economistas comprometidos com uma proposta alternativa de economia, e um outro encontro com Educadores e Educadoras, chamados a refletirem sobre a importância de uma formação de uma educação mais eficaz, quanto aos compromissos evangélicos pela justiça e pela paz.

Importa assinalar a recepção positiva da sugestão apresentada por Elinaide, Jéssica e outras participantes (e por todos acolhida) de se dedicar à próxima X STPJC a temática das mulheres e seu lugar na Igreja.

João pessoa, 11 de outubro de 2019. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

"FAKE NEWS", A FACE INFORMATIVA DA BARBÁRIE: a Educação Popular como antídoto


Alder Júlio Ferreira Calado

A reflexão ora proposta dá-se em cima de questões tais como: o que representam mesmo as "Fake News", para além de sua literalidade? O que está por trás desta estratégia deletéria intimamente associada ao paradigma da "Pós-verdade"? Por que preferem as redes sociais como seu alvo-mor? Ao lado de seus efeitos mais nocivos de fácil percepção, o que elas podem  estar também escondendo aos olhos menos avisados? De que modo entidades e forças vivas da sociedade civil vêm lidando com este fenômeno? Qual a eficácia desta estratégia de resistência de caráter fundamentalmente discursivo se e quando usada de maneira desconectada de outras dimensões do processo formativo? De que modo a Educação Popular de feição freireana, pode contribuir para uma melhor potencialização do combate às "Fake News" e ao paradigma da Pós-verdade? 

No já alongado período de mudança de época, em que vivemos sobram dilemas de monta. Um deles se apresenta sob a regência do paradigma da "Pós-verdade". Neste horizonte os fatos já não servem como referência probatória do real. Cedem lugar ao poder ditatorial aos critérios da ética de conveniência. Verdade é apenas o que corresponde aos interesses e conveniências circunstanciais dos grupos dominantes e seus representantes. Como nunca antes, os setores hegemônicos do mundo atual se acham no direito de submeter, a seu serviço, os interesses da enorme maioria da população mundial em todas as esferas da realidade. 

Nas linhas que seguem, tratamos de ressaltar o modo tirânico com que se empenham de ditar verdades, aos quatro cantos do mundo. Mais precisamente cingimo-nos às "Fake News", de que se tem valido, cada vez mais os setores dominantes de nossa sociedade como expressão maior de sua estratégia de dominação, valendo-se especialmente das redes sociais como arma preferencial de sua guerra híbrida. Em seguida, vamos examinar de passagem, de que modo setores expressivos da sociedade civil vêm lidando com o combate às "Fake News". Por último, trazemos algumas considerações acerca da contribuição que a Educação Popular pode oferecer a um combate mais eficaz à "Fake News", bem como ao uso adequado das redes sociais sem abandonar nem secundarizar a prioridade do processo formativo nos espaços vitais abandonados ou subestimados pelas nossas organizações de base. 



"Fake News" como a expressão mais deletéria do paradigma da pós-verdade em tempos de guerra híbrida. 

É sabido que toda época, Inclusive a nossa, é sempre, de algum modo, época de mudança.Mudança de época, todavia, quer dizer outra coisa. Acontece raramente, na história .Comporta Profundas alterações, especialmente de paradigmas consolidados. Em períodos que tais, paradigmas consolidados não apenas entram em colapso, como também resultam superados ou substituídos por outros. Estes novos paradigmas nem sempre resultam melhores do que os precedentes, mas são assumidos como hegemônicos .Vivemos uma época assim.Em nosso caso, um paradigma que vem mostrando-se hegemônico, é conhecido como o paradigma da pós-verdade neste caso, fatos cientificamente comprovado, deixam de ser entendidos como referência científica. verdade acaba tendo pouco a ver com fatos históricos, a medida que critérios subjetivos passam a ter prevalência. Verdade, neste caso, passa a ser definida como aquilo que tenha a ver com critérios subjetivos ou até obscurantistas, subordinados a interesses grupais ou de classe. verdade passa a ser aquilo que determinado grupo econômica e politicamente dominante definir, de acordo com seus interesses exclusivos. No atual cenário Mundial, prevalece amplamente o poder desses grupos, servindo a interesses econômicos e políticos nocivos à enorme maioria da sociedade.  Com efeito, fatos, acontecimentos, situações tidos como amplamente reconhecidos, passam a ser sistematicamente negados, à revelia de critérios científicos. A ciência mesma entra em colapso, conforme os critérios de verdade definidos por esses grupos hegemônicos. para tanto, estas forças hegemônicas não hesitam em recorrer a estratégias alimentadas por sua ética de conveniência, segundo a qual vale tudo, inclusive o recurso a sistemáticas mentiras. É, por exemplo, o que tem acontecido, principalmente em alguns países, tais como Estados Unidos, Inglaterra, Brasil e outros, em que figuras especiais ligadas ao atual governo dos Estados Unidos, vem sendo uma referência de peso na formulação e na implementação de políticas de desmonte aplicadas nesses países, inclusive acabando por determinar resultados eleitorais como sucedeu, por exemplo, nos Estados Unidos e no Brasil, por ocasião das respectivas eleições presidenciais. Notícias falsas formuladas por tais figuras e lançadas, por meio de algoritmos e outros mecanismos do gênero, massivamente enviadas a cidadãos e cidadãs, cujo perfil foi tomado como referência para o envio de Tais mensagens disparadas por meio eletrônico.
No caso do Brasil, essas fake News tiveram um papel, senão determinante, no mínimo, altamente condicionante, no resultado das eleições. também, mesmo após o período eleitoral, a mesma estratégia vem sendo frequentemente utilizada, tendo como destinatário preferencial o público eleitor do atual presidente.
Por outro lado, o alvo destas fake News não se restringe ao eleitorado potencial, mas ao conjunto da população, especialmente a população jovem, cada vez mais usuária das redes sociais, e, com frequência, desprovida de espaços formativos adequados que a ajudem a melhor formar sua consciência crítica de cidadãos e cidadãs.

Paradigma da pós-verdade, fake News, redes sociais acriticamente exercitados - eis apenas três das componentes deste sistema de morte, marca principal do capitalismo em sua fase mais perversa, hegemonizada pelo seu subsistema financista, em articulação com seus demais setores da economia. Diante deste quadro de obscurantismo e de constantes ataques ao planeta e a toda a comunidade dos viventes, resta às forças vivas de nossa sociedade examinarem criticamente De que modo vem reagindo a Tais ataques. é o de que trataremos, no tópico seguinte.

Como se vem dando a atuação das forças sociais no combate às "Fake News"? 


Grupos, entidades e agentes qualificados de nossa sociedade tem manifestado crescente preocupação com a gigantesca onda de fake News, disparadas massivamente, a influir negativamente sobre parcelas consideráveis de nossa população, principalmente aqueles segmentos mais vulneráveis. Encontros congressos e outras iniciativas vêm buscando formas de resistirem a essa onda há, com efeito, significativa consciência dos estragos que essa estratégia de fake News, reflexo do paradigma da pós verdade merece atenção. reconhecendo a relevância persuasiva dessas fake News, Tais entidades e grupos buscam responder a este desafio, por meio de iniciativas e experiências pela Via das redes sociais. partindo da constatação de quê os segmentos mais fragilizados de nossa sociedade são por demais suscetíveis aos efeitos das fake News a ideia predominante tem sido alcançar estes mesmos segmentos vulneráveis também por meio das redes sociais, mediante mensagens e até vídeos produzidos com o propósito de se contrapor a invasão de fake News nessas camadas populares.

trata-se de uma iniciativa respeitável e necessária, a medida que vai sendo complementada com outras iniciativas capazes de tomar em conta outras dimensões do processo formativo, para além da Estratégia apenas discursiva. teme-se que há uma tendência a cingir-se a forma de resistência a mensagens e vídeos destinados ao público alvo das fake News. por outro lado, Vale perguntarmos: Será que a utilização exclusivamente de caráter discursivo está à altura de responder adequadamente ao desafio das fake News? até que ponto , ao lado de iniciativas de caráter estritamente discursivo, resultam suficientes para um convencimento mais sólido por parte do público-alvo? em que medida iniciativas desta ordem, uma vez não acompanhadas de outras que digam respeito também a dimensões tais como afetividade, volição, a práxis e dimensões outras componentes do processo formativo, são capazes de atender aos objetivos dessas entidades e grupos de resistência a estratégia das fake News?

perguntas deste tipo merecem especial reflexão, principalmente do ponto de vista da educação popular, aqui considerada como uma estratégia eficaz contra os efeitos deletérios das fake News. Eis por quê no tópico seguinte, Voltaremos nossa atenção, em busca de examinar como a educação popular pode oferecer significativa contribuição a resistência mais eficaz contra as estratégias do paradigma da pós verdade, expressas pelas fake News.


A contribuição da Educação Popular à eficácia do combate às "Fake News", para além das redes sociais. 

À parte seu designativo literal às "Fake News" constitui mesmo um fenômeno novo? Em outras palavras, até que ponto as "Fake News" não constituem uma marca registrada do Capitalismo, em sua atual fase, estratégia utilizada com propósito deletério por um lado, mas também, por outro lado, com objetivo de lançar luz sobre a ponta do "iceberg", para ocultar a parte essencial do que não se quer mostrar? 

Em busca de trazer a lume o potencial da Educação Popular, de referencial freireano, a um combate eficaz às "Fake News" e suas conexões com o paradigma da "Pós-verdade", fazemos questão de partir de seus princípios mais relevantes, ou seja, de constatações e fecundas intuições recolhidas do processo histórico, em diferentes tempos e lugares, tais como:

- o do inacabamento ou incompleteza do ser humano: diferentemente dos demais animais, os humanos não nascem "acabados", nas vão se completando processualmente, em seus contextos histórico-culturais, isto é, não nascem homens ou mulheres, mas vão se tornando assim no processo de humanização.

Outro fundamento teórico-prático trabalhado pela Educação Popular, diz respeito ao nó de relações (relacionalidade) característico dos seres humanos como expressão e como agentes de seu devir histórico, isto é, para se completarem como seres humanos protagonistas do processo humanização, mulheres e homens têm necessidade de viverem em grupo, em comunidade ambiente no qual aprendem e compartilham experiências e saberes. Os humanos, somos seres sociais, seres políticos, forjados em condições não de isolamento ou individualismo. 

Neste processo relacional, é que vamos aprimorando nossas potencialidades, ao mesmo tempo em que aprendemos a lidar positivamente com nossos limites, em busca incessante de superação dos mesmos. É no seio da comunidade que também vamos aprendendo a ler melhor a realidade social em sua complexidade e extensão. Aqui se passa algo como em um filme: alguém que o vê sozinho, sem partilhar comentários de cenas, acabam dando-se conta de aspectos parciais do filme, enquanto em comunidade as percepções são compartilhadas de modo que cenas não percebidas por uns acabam sendo rememoradas pelas percepção de outros. 

Um exemplo ilustrativo, pode dar-se no exercício de análise de conjuntura, quando feita coletivamente, resultando bem mais fecunda e menos incompleta do que quando feita por um ou um pequeno grupo restrito. Tem-se consciência da complexidade da realidade social, que não pode e não deve ser avaliada de improviso, sem se recorrer a instrumentos capazes de melhor percebê-la, em seu movimento, como um primeiro passo necessário e fundamental a quem pretenda transformá-la, em suas raízes.

Outro fundamento trabalhado pela educação popular, corresponde ao exercício contínuo de priorização da prática sobre a teoria, da interconexão dos fatos e dos acontecimentos, de sua historicidade, de sua interculturalidade, a relevância do exercício da memória histórica, a importância do horizonte perseguido e da mística cotidiana, a horizontalidade dos protagonistas da transformação social, a aposta na força transformadora das pequenas comunidades, dos núcleos, dos círculos de cultura, a alternância de cargos e funções, entre outros aspectos constantes deste mesmo processo formativo. 

É com base nestes fundamentos oferecidos pela Educação Popular, que se dotam melhor os protagonistas da transformação social, inclusive no caso do desafio relativo às “Fake News”. Daí resultam pistas alternativas que devem ser tomadas em conta e incorporadas a outras práticas e iniciativas, já em desenvolvimento, tais como:

  • Entender mais criticamente o que são as tais “Fake News”;
  • Se se trata de fenômeno verdadeiramente novo, ou, antes, de nova faceta da mesma estratégia, posto que, falseamento da realidade é uma velha estratégia de todo modo de produção estruturado em classes sociais, especialmente do capitalismo;
  • Pode acontecer que, por meio desta velha estratégia revestida de novo nome (“Fake News”) os setores dominantes estejam a espalhar cortina de fumaça, buscando desviar a atenção das forças transformadoras, quanto as manifestações mais profundas de exploração e dominação. Não se deve ignorar, por exemplo, que, num contexto dominado pelo discurso anti-corrupção, as redes sociais e a mídia comercial se limitam a focar mais os efeitos, as aparências e até alguns casos relevantes, com o propósito maior de desviarem a atenção da raiz mesma da corrupção, fincada no próprio modo de produção capitalista, especialmente em sua fase atual, dominada pelo rentismo, pelos grandes bancos e seus paraísos fiscais. Outro exemplo se tem nas discussões atuais sobre as famigeradas “reformas” em curso (o desmonte das leis trabalhistas, a terceirização, o desmonte da previdência social…), enquanto pouco ou nada se diz - menos ainda se luta - sobre o maior dos escândalos: a composição da dívida pública, poeticamente denunciada no mote: “paguei mais do que devia/ devo mais do que paguei”...

Com relação, portanto, ao que a educação popular pode contribuir especificamente para uma estratégia de resistência às fakes news, convém assinalar, de um lado, o reconhecimento do esforço das entidades e grupos que cuidam de recorrer às redes sociais, como espaço de contraponto e de esclarecimento, junto às parcelas mais vulneráveis da população que correm o risco de se tornarem reféns das mentiras propaladas. Por outro lado, há de se convir que tal esforço se dá exclusivamente no campo das redes sociais e por meio de um contraponto discursivo. A educação popular, por sua vez, demanda um esforço maior, a medida que, sem deixar de usar as redes sociais, empenha-se principalmente na criação e manutenção de espaços vitais, nas comunidades, nos movimentos populares, nas pastorais sociais, onde tenha prioridade a discussão presencial, como parte de seu processo organizativo e formativo, até porque não é suficiente empreender um contradiscurso pelas redes sociais, sem o exercício de um protagonismo efetivo nas relações sociais do dia-a-dia.

João Pessoa, 2 de Outubro de 2019.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

DEMOCRACIA, SIM! MAS, QUAL?


DEMOCRACIA, SIM! MAS, QUAL?


Em tempos de obscurantismo, parecem mais frequentes ocorrências esdrúxulas. Algo do tipo: Cristianismo sem Jesus, ditadores revestidos de democratas, ecocidas travestidos de defensores de causas sócio-ambientais... O Grito dos Excluídos, que se vem realizando, no Brasil, há 25 anos, na primeira semana de setembro, bem expressa tal estranhamento, a partir mesmo de seu tema: “este sistema não vale: LUTAMOS POR JUSTIÇA, DIREITOS E LIBERDADE. ”. C.f: https://www.gritodosexcluidos.com

Como poucos regimes políticos do mundo contemporâneo a democracia segue sendo alvo frequente de manifestações de ódio e paixão. Ainda recentemente em declaração feita por uma dos membros da família Bolsonaro em mais uma avaliação insana de modo insinuado foi desferida contra a democracia. 


Ao parafrasear o Papa Francisco, em sua última viagem apostólica à terra e suas gentes das nações africanas  em missão de reconciliação e de paz, ele se referiu a esta como uma frágil flor. Tomamos a liberdade de também nos servir de semelhante imagem para afirmar ser a democracia uma frágil flor que teima em desabrochar por entre as pedras da violência.  


A experiência vivenciada em Atenas segue valiosa à medida que centramos no poder popular a fonte primeira das decisões fundamentais a serem tomadas pela sociedade, compreendida e formada pelo conjunto de seus cidadãos.


 Que marcas mais fortes devemos sublinhar na Democracia? Vejamos alguns traços dignos de destaque.


Um primeiro se acha à vista, a partir mesmo de sua etimologia:o povo como fonte maior de poder, tal como se acha inscrito nas Constituições vigentes em tantos países inclusive na Constituição do Brasil: "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição." (Artigo 1º: Parágrafo único.)


Outro ponto a merecer realce diz respeito à forma como tal poder deve ser exercido: diretamente ou de forma representativa. O que isto quer dizer? Comecemos, pela forma direta com a efetiva participação dos seus cidadãos e cidadãs, nas decisões fundamentais de interesse do conjunto da sociedade.
Desde sua etimologia (“demos”:povo; e “Kratos”: poder), Democracia aponta a Grécia como um berço. Com efeito, a Ágora ateniense constituía o espaço social, no qual se reunia a “Ekklesia” (Assembléia, Igreja). Por outro lado, convém não superestimar a democracia ateniense, por mais que lhe reconheçamos o mérito de sua inventividade. A despeito de sua etimologia, a Democracia não era exercida por todos os seus habitantes. Dela ficavam excluídas as mulheres, além dos escravos e outros segmentos considerados inferiores. Dela só participavam os homens livres. Aí se acha seu pecado original que se expandiria mundo à fora e por séculos ulteriores, até o presente.
Os limites com que nasceu a Democracia, não devem servir de pretexto para sua invalidação. Seria jogar fora a água suja da bacia com o bebê, seus limites devem antes ser entendidos como desafios a serem superados, devemos tratar tal limites como um convite à constante superação e, portanto, como um passo inicial para seu incessante aprimoramento. 


Neste sentido, importa ter sempre presentes suas potencialidades e suas lacunas. Dentre suas potencialidades, podemos sublinhar: 


·  O efetivo protagonismo do conjunto de cidadãos e cidadãs, na tomada das decisões de interesse geral (atendendo ao significado de sua etimologia: poder popular);
·  Manter viva organização e formação de cidadãos e cidadãs, como condição do exercício consciente de seus direitos e deveres;
·  assegurar o rodízio constante de cidadãos e cidadãs, como delegados e representantes dos núcleos e conselhos, organizados de forma autônoma e interconectada; 
·  submeter constantemente ao conjunto de cidadãos e cidadãs as decisões fundamentais, pertinentes à organização econômica, política e cultural do conjunto da sociedade.


Com relação às armadilhas com que se tem deparado o regime democrático no Brasil e alhures, podemos sublinhar as seguintes:
·  tem sido frequente alvo de manipulação, exercida pelos setores dominantes da sociedade (transnacionais, potências centrais do Capitalismo, monopólio financista, grandes empresas mineradoras e do agronegócio, etc.);
·  submissão da maioria da população à mídia comercial, portadora dos interesses dos setores dominantes;
·  fragilização da sociedade civil, como resultado da crise dos movimentos sociais populares e outras organizações de base, refletindo-se na insuficiente ação organizativa e formativa da sociedade civil.


A despeito dos limites da democracia, sobretudo na contemporaneidade não devemos perder de vista que, se o mundo vai mal com ela, será muito pior sem ela. Isto, contudo, não significa que nos conformamos com os seus esdrúxulos limites do presente. Somos interpelados, enquanto cidadãos e cidadãs, comprometidos com o bem comum e com a dignidade dos humanos e do Planeta, a nos empenharmos mais e mais, na direção de um Horizonte capaz de fazer justiça ao gênero humano e a toda a comunidade dos viventes 


 Neste sentido, permitimos-nos propor alguns questionamentos, a título de provocação. 


É verdade que, de todos os modos, teremos que conviver ver com os limites da democracia. Mas, não de maneira passiva. Precisamos avaliar constantemente as causas e os fatores que tem feito retroceder a democracia, no mundo contemporâneo. Por isto, seguem algumas indagações: 


Até que ponto modo de produção capitalista, principalmente nesta sua fase de profunda degradação, comandada pelo setor mais parasita deste sistema - o sistema financista -, rima com democracia ? 


          Em que país a democracia vai bem, quando subordinada aos ditames das transnacionais,das grandes potências, das grandes empresas do ramo financista, etc?


Até  que ponto o Estado, sendo um componente essencial do Capitalismo, tem compromisso com o Bem Comum e com o zelo pela dignidade do Planeta?


         Não será hora, para nossas organizações de base, retomarem, em novo estilo, o trabalho de base, priorizando o processo organizativo e formativo, para além das disputas eleitorais?        
    
          P.S. Partes deste texto acham-se citadas em caderno especial do jornal A União, de 22.09.2019 recolhidas pelo jornalista Alexandre Nunes, juntamente com outras reflexões sobre a Democracia.

João Pessoa, 26 de setembro de 2019.