sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Uma reunião ordinária do grupo Kairós: sucinto relato desta manhã!

Uma reunião ordinária do grupo Kairós: sucinto relato desta manhã!

Alder Júlio Ferreira Calado 

O grupo Kairós reiniciou, na manhã de ontem, 06/02/2020, seus trabalhos, com a participação de 6 dos seus membros - Elias, Maria, Cida, Glória, Elenilson e Alder -, tivemos um tempo bastante movimentado por uma pauta instigante, da qual constaram, como de praxe, avisos e informes iniciais, seguidos da retomada da leitura do livro de José Comblin, " a vida em busca da liberdade ", a partir da página 141, início do capítulo VI, intitulado " viver é amar ", do qual inserimos alguns trechos, ao final deste relato.
No item relativo a informes foram compartilhadas várias notícias e informações, por parte dos presentes. Como de hábito são trazidas notícias acerca dos demais membros do grupo, que não puderam ontem estar fisicamente conosco: João Fragoso, Rolando, Maria, Elisson, Lúcia, Assueros, Graça, Emanuel, além de outras pessoas que seguem em tratamento de saúde, como Magdala e João Batista, contando ainda com membros que ainda temos vinculados ao nosso Grupo, a exemplo de Angelina, Pastor Luciano da Silva, entre outros. 
Na parte inicial de informes, foi relembrado por Elias o compromisso assumido pelo Grupo, desde o final do semestre passado, de realizarmos um encontro de celebração da vida, dedicado especialmente a celebrar a memória de companheiros do grupo que nos precederam na Casa do Pai, particularmente José Ailton, José Brenda e Ricardo Brindeiro. Foi sugerido pro Cida,  realizarmos este encontro, no próximo mês de março, permitindo assim um tempo mais favorável de preparação. A ideia foi acolhida pelo grupo. Da parte de Elias, veio a sugestão de incluirmos essa sessão de memória como tema da próxima Semana Teológica Pe. José Comblin. Foi, contudo, lembrado que, na sessão de encerramento da IX Semana Teológica Pe. José Comblin, ficou acordado como tema principal da X STPJC, o debate sobre o lugar das Mulheres na Igreja.
Da parte de Maria Besen, foi noticiada uma série de iniciativas que vêm sendo organizadas, em função da comemoração dos cem anos de Dom Fragoso e de Pe. Alfredinho, em Crateús. A este respeito, Alder prestou a informação de recente iniciativa tomada por um grupo local de amigos de Dom Fragoso, formado por Luiz Gonzaga Gonçalves, João Fragoso, Luciano Silva, Alder e outras pessoas que se proponham a participar da iniciativa. Trata-se de duas tarefas. A primeira, já em andamento, consiste na pesquisa junto ao Arquivo da Arquidiocese da Paraíba, do jornal “A Imprensa”, a partir de 1946, buscando localizar dezenas de artigos aí publicados pelo então recém-ordenado Pe. Antônio Fragoso, acerca de “problemas da mocidade” e de iniciativas concernentes ao cinema, a partir do Círculo operário do qual ele foi um dos organizadores. Um dos frutos já colhidos desta empreitada foi a localização, no referido Arquivo, do “Processo de ordenação”, referente ao Pe. Fragoso. A outra tarefa diz respeito ao esforço de localizar, no arquivo da CNBB, em Brasília, diversas cartas e relatórios apresentados à CNBB, em decorrência de atividades missionárias e pastorais protagonizadas por Dom Fragoso, no Brasil e em vários países do mundo (Dom Fragoso, em sua dinâmica missionária, viajou por mais de sessenta países).
Glória, por sua vez, deu notícia de sua participação num fecundo encontro com Fr. Carlos Mesters, sempre na perspectiva de reacender a fé e a esperança dos missionários e missionárias, diante dos atuais desafios. Ainda informou sobre relevante encontro, a ser organizado, em Lagoa Seca-PB pelo CEBI da Paraíba, com Isabel Felix, acerca da perspectiva hermenêutica das mulheres protagonistas na Bíblia.
Elenilson relatou aspectos importantes de sua presença, em duas ocasiões, na Escola de Formação Missionária, em Santa Fé, Solânea - PB, bem como da programação de Café do Vento, junto com Pe. Hermínio (Município de Sobrado -PB), em vista de um encontro com participantes (mulheres e homens), de várias experiências formativas, ligadas a Fé e Política. Também noticiou acerca do II encontro sobre o Pe. José Comblin, promovido pelo Centro de Pesquisa e Documentação José Comblin, da UNICAP, Recife, previsto para o período entre 3 e 5 de junho do corrente ano, e do qual os vários grupos da Paraíba, trabalhando a temática José Comblin, também estão sendo convidados a participar.
Eis os principais informes compartilhados, aos quais, deve ser acrescentado o do próximo dia 15 de fevereiro, no São Bento, reunindo participantes de alguns grupos organizadores da  X Semana Pe. José Comblin. 
Por último, demos continuidade à leitura do texto acima mencionado, do qual avaliamos importante fornecer alguns trechos. Não, sem antes, lembrar que se trata do livro “A vida em busca da liberdade” (São Paulo: Paulus, 2007), que o nosso grupo vem trabalhando, mais precisamente o capítulo 6 “Viver é amar”:

“Os Evangelhos mostram, a partir da vida de Jesus, o que é viver. Não expressam o conteúdo em palavras abstratas. Permanecem no linguajar popular. No entanto, também pessoas mais letrados que aprenderam a pensar com palavras abstratas.  No Novo Testamento temos os exemplos dos escritos de Paulo e de seus discípulos e também os escritos atribuídos a João. Estes não querem dizer outra coisa, mas expressam com conceitos abstratos o conteúdo da vida de Jesus.
O principal desses conceitos é amor/amar. De alguma maneira diz numa palavra  todo o conteúdo da vida de Jesus ” (p.141)

[..]

“No mundo atual,os países desenvolvidos estão dominando e explorando os países mais pobres. Os pobres têm de financiar a riqueza dos ricos. Os ricos e os poderosos podem não estar conscientes, mas são levados pelo ódio. Podem não sentir esses ódio porque outros se encarregam de oprimir os inimigos, e o sistema democrático justifica tudo. Dentro de cada país os poderoso oprimem e odeiam os mais poibres. Habitualmente fazem-nos com muita cortesia e fromalidade”(p.142) 

[...]

“Sem ser amado ninguém pode viver humanamente. Esse é o drama das crianças educadas sem amor-porque não tem pais, ou esses as abandonaram. Há casos em que os pais praticam a violência contra os seu próprios filhos. Filhos ou filhas que crescem desse modo ficam negativamente marcados para sempre. Irão alimentar rancor e frustração a vida toda. Estarão se vingando contra a sociedade inteira porque não receberam, quando eram crianças, o que mais necessitavam: o amor.” (p.143)

Eis um pequeno “flash” do denso capítulo, que recomendamos fortemente. Ao final deste livro, o grupo Kairós seguirá lendo o livro de Rolando Lazarte, acerca de seu relato pessoal de formador em Terapia comunitária integrativa, leitura que será alternada com a do livro de José Comblin, “O Espírito Santo e a Tradição de Jesus”.

João Pessoa, 07 de fevereiro de 2020.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

ENTREVISTA DE ALDER CALADO A JORNALISTA ALEXSANDRA TAVARES, DO JORNAL "A UNIÃO", DIA 19.01.20


 
1 – A ideologia na política tem o único papel de convencimento e dominação? Que outros papéis exerce nessa esfera?
A depender do referencial que se tome para se definir ideologia, resultam diversificadas as interpretações e seu campo de aplicação. Com efeito, quem se mira numa formulação marxiana, segundo a qual o papel fundamental da ideologia é a dominação de classe, por meio do falseamento da realidade, vai compreender e aplicar o papel da ideologia como fator de convencimento da classe dominante sobre os demais segmentos da sociedade. Neste caso, os setores dominantes, com o objetivo de conquistar, de manter e ampliar seu poder na sociedade de classes, não hesitam em recorrer aos diversos componentes culturais do Mercado capitalista e aos aparelhos ideológicos de seu Estado, instituições e, especialmente, a uma ampla rede de comunicação de massa (a imprensa corporativa ou comercial, as redes sociais sob seu controle...), para exercitarem seu convencimento, por meio do sistemático falseamento da realidade. Para tanto, dispõe de relevantes e gigantescas agências noticiosas atuando em escala internacional, desde os países centrais com a finalidade de selecionar o que consideram os principais fatos e acontecimentos do dia, para difundi-los em massa, atendo-se sobretudo às versões e imagens que criam, de acordo com seus interesses de classe, fazendo passar a ideia a imensas parcelas de radio-ouvintes, telespectadores, leitores e internautas, destituídos de um processo formativo consistente de sua consciência crítica, a ideia de que a "verdade" é o que aparece nestes veículos.


2 – Como o senhor analisa a força que a ideologia política tem na questão do convencimento, de persuadir ou dissuadir o outro sem ser pelo poder da força física?
Ainda que o potencial bélico detido pelas superpotências tenham o condão de dissuasão sobre populações e países dependentes, há de se convir que a razão da força está longe de ser suficiente, para assegurar seus objetivos. É aí que entra a força da ideologia. Em nosso dia a dia, percebemos a sutileza com que, desde os espaços familiares, da escola, das igrejas e de outras instituições, se faz a cabeça de parte expressiva de nossa gente, por meio da inculcação contínua de idéias, de valores, de crenças, que, de tão divulgadas, acabam introjetados e reproduzidos pela grande maioria das pessoas. Feita uma crítica desta mesma grade de valores, vai se percebendo que, em sua enorme maioria, estas ideias, valores, crenças estão a responder aos interesses dos setores dominantes das sociedades de classes. Ideias tais como “O segredo do sucesso depende apenas do interesse de cada pessoa”, haja vista exemplos de figuras tais como Silvio Santos e outros, que, a partir do seu trabalho em ocupações simples, foram acumulando riquezas e outras tantas crenças são inculcadas e acriticamente introjetadas nas relações sociais do dia-a-dia. Por outro lado, não se deve avaliar esta força ideológica, detida pelos setores dominantes, como uma fatalidade, como um determinismo, uma vez que, desde que haja um processo de formação contínua, oferecida principalmente por aquelas organizações de base de nossa sociedade, lidando com a construção processual de uma nova sociedade, alternativa ao sistema atualmente hegemônico, estas pessoas e grupos vão tendo oportunidade de irem formando, de modo consistente, sua consciência crítica e autocrítica, de modo a não serem presas fáceis para a ideologia dominante. Daí o compromisso daqueles e daquelas que se entendem historicamente vocacionados a um combate contínuo contra esta ordem de coisas, chamados a zelar cotidianamente, seja pelo seu modo organizativo, seja pelo seu processo formativo, seja pelo compromisso de luta contra esta barbárie.


3 – Hoje em dia existe ideologia política no Brasil? Por que? Pode comentar.
 No caso específico da sociedade brasileira, ocorre uma situação de aprofundamento progressivo do poder ideológico sobre parcelas imensa de nossa sociedade. Considerando o número enorme de crianças e jovens e mesmo adultos excluídos das condições mínimas de sobrevivência, de escolaridade, o resultado não poderia ser diferente. Tornam-se, em sua imensa maioria, presas fáceis da ideologia governamental e do Mercado capitalista, passando a introjetar e a reeditar suas ideias e seus valores, suas crenças, nas relações do cotidiano. Nos últimos anos, sobretudo, a sociedade brasileira vem amargando um contexto de profunda dominação ideológica, não bastassem as manifestações da mesma dominação na área econômica, na esfera política e no campo da cultura. São, com efeito, gravíssimos os estragos resultantes do impeachment (promovido e realizado à força do "lawfare"), a partir do que irrompem forças de obscurantismo com enorme potencial destrutivo dos valores da Democracia. Também aí, tem se mostrado bastante eficaz a força da ideologia, desde as estratégias utilizadas durante a última campanha eleitoral. Estratégias montadas à base de mentiras massivamente disparadas desde estrategistas ligados ao Governo Trump, pelas redes sociais a serviço dos interesses de forças internacionais (as mesmas utilizadas durante a eleição de Trump, as mesmas utilizadas em outros países como no Reino Unido, na Romênia...). Mais uma vez, reiteramos a convicção de que isto não ocorreria se contássemos com parcelas importantes de nossa população razoavelmente formadas, em sua consciência crítica. Essas tais "fake news" teriam resultado pífio, não apenas no processo eleitoral, como também nos dias que correm. Para termos uma noção do tamanho do desafio histórico enfrentado pela nossa sociedade, em especial pelas nossas organizações de base (movimentos sociais populares, associações comunitárias e outros), vale a pena relembrarmos um dado revelado em recente pesquisa, realizada pelo PISA (Programme for International Student Assessment), acerca do desempenho dos estudantes brasileiros: 65% dos nossos estudantes não conseguem distinguir a diferença entre um fato e uma versão...


Alder Júlio Ferreira Calado

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

“HUMANIZAR A HUMANIDADE” - Tributo a uma geração de pastores e profetas, comprometidos com a causa libertadora dos pobres, inclusive em seus lemas episcopais


“HUMANIZAR A HUMANIDADE” - Tributo a uma geração de pastores e profetas, comprometidos com a causa libertadora dos pobres, inclusive em seus lemas episcopais

Alder Júlio Ferreira Calado

Ainda que não devamos idealizar, subestimar ou superestimar o valor dos símbolos, não podemos, contudo, ignorar o sentido relevante neles contido. É assim que usamos revisitar alguns lemas episcopais, relativos a uma geração de bispos profetas, cujos lemas prenunciam, em medida considerável, a ação pastoral profética por eles desenvolvida.

Vamos, nas linhas que seguem, focar especialmente na ação político pastoral de vários integrantes desta geração, marcadamente aquelas figuras de bispos que tenham desenvolvido suas funções, durante as décadas de 1960 a  1980.

Um cenário de efervescência socioeclesial na América Latina e no mundo.

O mundo, durante este período (entre as décadas de 60 e 80 do século passado) apresentava-se, seja do ponto de vista macrossocial, seja ao interno da Igreja Católica Romana, caracterizado por uma conjuntura em ebulição. Tratava-se, em verdade, de uma conjuntura sócio-eclesial relativamente atípica, na América Latina e no Brasil, sob vários aspectos. Um dos aspectos da singularidade desta conjuntura prende-se ao perfil de um número considerável de bispos, dotados de reconhecido preparo intelectual, combinado com uma profunda espiritualidade profética ao longo da história da Igreja Católica Romana e mesmo de outras Igrejas cristãs. Tal desempenho pastoral profético constitui exceção relativa a poucos períodos de sua trajetória. Outro aspecto relevante e singular do contexto das décadas entre 1960 e 1980 tem a ver com a especial efervescência política, característica da América Latina, em especial do chamado Cone Sul envolvendo países como o Brasil, Uruguai, Argentina, Chile Paraguai. Em 1964, irrompeu no Brasil o famigerado golpe civil-militar, introduzindo um tenebroso período ditatorial que se espalharia por outros países da América Latina, várias forças sociais animadas por alguns segmentos da Igreja Católica, depois, também por algumas outras Igrejas cristãs - como, por exemplo, aquelas que compõem o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), pudemos assistir ao crescente movimento de resistência, protagonizado pelas forças progressistas da Igreja Católica, em associação com parcelas de outras Igrejas cristãs, a um frutuoso tempo de resistência profética 

Ainda mais cedo, em 1962, havia-se iniciado o Concílio Vaticano II, convocado em 1º de janeiro de 1959 pelo Papa João XXIII. O objetivo daquele Concílio não era o de proclamar dogmas ou de condenar doutrinas, mas avaliar ação pastoral da Igreja Católica Romana, em relação ao mundo moderno. Tratava-se, então, do esforço de "aggiornamento", isto é, atualizar a ação da Igreja Católica em relação ao mundo contemporâneo. Acerca deste objetivo, conseguiu-se avançar razoavelmente durante o Vaticano II, embora as mulheres não foram tratadas em igual condição de sujeitos eclesiais, ao lado dos homens. Em vários dos seus 16 documentos finais, especialmente na Constituição Pastoral intitulada “gaudium etspes” sobre a Igreja diante dos desafios do mundo contemporâneo conseguiu-se avançar até certo ponto, inclusive no documento intitulado Constituição “Lumen gentium”. Documento que contém uma admirável atualização, ou seja, no campo da centralidade do Povo de Deus, assumido como principal sujeito da organização da igreja, tomando distância do que até então, se punha como centralidade nas decisões conciliares precedentes, ou seja, a Hierarquia. Com efeito, do ponto de vista da atualização em relação à modernidade, não há como negar avanços alcançados. Por outro lado, ainda que minoritários, vários padres conciliares muito se empenharam, no sentido de que o Concílio Vaticano II pudesse avançar também quanto ao seu compromisso com a causa dos desvalidos. Este aspecto, todavia, mereceu um lugar muito aquém do esperado, ainda que em alguns documentos -  é o caso da própria “Lumen gentium”, n.8 - se dispôs de uma palavra forte em relação ao compromisso da Igreja com os empobrecidos. Mesmo assim, isto se revelou insuficiente em relação às exigências históricas da época, demandando posição mais ousada da parte da Igreja Católica.

Tal sentimento de compromisso com a causa libertadora dos pobres foi especialmente assumido por 40 padres conciliares, entre bispos, arcebispos e até cardeal, por ocasião do encontro organizado, na catacumba de Santa Domitila, nos arredores de Roma, poucos dias antes do encerramento da última sessão do Concílio Vaticano II, mais precisamente no dia 16 de novembro de 1965. Este encontro ficou conhecido como o Pacto das Catacumbas, em que seus participantes, ao celebrarem o Memorial da Ceia do Senhor, também cuidaram de firmar um compromisso, em um documento composto por 13 pontos e, no qual declararam seu compromisso de, ao retornarem às suas respectivas dioceses, nos vários continentes, abdicarem do tratamento pomposo de “Excelência”, bem como de deixarem seus palácios episcopais, indo residir mais perto do povo, em casa simples. Mais do que isto: assumiram o compromisso de passarem a viver um estilo de vida mais simples, mais próximo do povo, dos pobres.

Animados pelos compromissos firmados por ocasião do Pacto das Catacumbas, os quarenta primeiros signatários foram granjeando a adesão de centenas de outros colegas, de sorte que o Pacto logo passaria a contar com a adesão de quinhentos signatários.


Ensaiando um novo estilo de vida profético-pastoral…

Ao retornarem aos seus países, inclusive os bispos latino-americanos e brasileiros, encontraram uma atmosfera muito tensa, de uma espantosa desigualdade social, sustentada por regimes ditatoriais, aos quais parcelas significativas das populações daqueles países tratavam de opor resistência. Um clima de extrema tensão social. Inspirados no compromisso que haviam firmado, estes bispos tratam de cumprir suas promessas, deixando seus palácios e indo morar em casas modestas, com um estilo de vida mais próximo do seu povo. Vivíamos, então, na América Latina, inclusive no Brasil, um contexto de grande ebulição social, em que, ao interno e fora dos espaços eclesiais, vários grupos de resistência se organizavam. E deles, ao seu modo, também participaram as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que se iam multiplicando pelas várias regiões do país e mesmo da América Latina. Às CEBs juntaram-se outras segundas experiências pastorais, tais como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Comissão Pastoral Operária (CPO), a Pastoral de Juventude do Meio Popular (PJMP), as Pequenas Comunidades de Religiosas Inseridas no Meio Popular (PCIs), a Ação Católica Operária (ACO), o Movimento dos Trabalhadores Cristãos (MTC), a Pastoral dos Pescadores (PP), a Comissão de Justiça e Paz (CJP), os Centros de Defesa dos Direitos Humanos (CDDH), a Ação dos Cristãos no Meio Rural (ACR), o Movimento de Evangelização Rural (MER), Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), entre outras experiências eclesiais que funcionavam como uma considerável rede de resistência Popular a ditadura empresarial-militar e a defesa e promoção dos direitos humanos. Esta rede tornou-se conhecida como " Igreja dos Pobres "ou como "Igreja na Base ". 

Atuação profética da geração de bispos brasileiros e latino americanos, num contexto de opressão.

Justamente aí é que vamos observar a atuação profética destes bispos. Na verdade, constituíam uma minoria, num universo de centenas de bispos. No entanto, tratava-se de uma parcela de figuras proféticas de grande potencial de liderança, uma espiritualidade incarnada, de grande inserção no meio do povo dos pobres, com os quais compartilhavam suas inquietações e suas esperanças, e com os quais aprendiam e compartilhavam também seus ensinamentos. Parte destes bispos chegou mesmo a ocupar espaços de liderança na própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a exemplo de figuras tais como Hélder Câmara, Ivo Lorscheiter, Aloísio Lorscheider, Luciano Mendes de Almeida, Marcelo Pinto Carvalheira, sempre contando com o apoio e solidariedade de outros, como Paulo Evaristo Arns, Antônio Batista Fragoso, José Maria Pires, José Távora, Adriano Hipólito, Moacir Greche, Mauro Morelli, Waldyr Calheiros, Francisco Austregésilo de Mesquita, dentre outros.

Aquele contexto de ebulição coincidiu com a aproximação do início da segunda Conferência Episcopal Latino-Americana, que se realizaria, em Medellín, na Colômbia, em 1968. Uma Conferência, inicialmente pensada para expressar a recepção das conclusões do Concílio Vaticano II, foi tomando ares mais fortes, à medida que, de uma simples recepção aos ensinamentos do Concílio Vaticano II, passou a ser a expressão de um novo rosto de ser igreja, isto é, expressando traços de uma Igreja Latino-americana com rosto próprio, não mais seguindo como mera extensão do pensar e do sentir eurocêntricos, a que estava acostumada. Pela primeira vez, após séculos de história da Igreja Católica, na América Latina, o povo latino-americano, em especial o povo dos pobres, passou a sentir-se sujeito de sua história, cidadão protagonista também de uma ação eclesial, com traços próprios. Neste sentido, a Teologia da Libertação exerceu uma contribuição extraordinária, à medida que buscou traduzir, de modo fiel, os anseios e as esperanças do povo dos pobres, na América Latina. A este respeito, são dignas de nota duas experiências fecundas, desenvolvidas na América Latina. Uma diz respeito ao legado criativo da Comisión para el Estudio de La Historia de las Iglesias en América Latina y el Caribe (CEHILA), coordenada por figuras tais como Enrique Dussel, José Oscar Beozzo, Eduardo Hoornaert, entre outros componentes - mulheres e homens. De fato, mostrou-se uma iniciativa profundamente fecunda, sobretudo por haver protagonizado um importante plano de estudos científicos sobre a Igreja latino-americana, em seus mais distintos países. Tratava-se de uma nova leitura da história da Igreja, feita a partir da perspectiva dos pobres. Isto também se comprova pela iniciativa da coordenação da CEHILA, especialmente no Brasil, que, ao lado de dezenas de tomos sobre a história da Igreja na América Latina, feita em bases científicas, também cuidou de oferecer, em linguagem popular, inúmeros textos - em especial, folhetos de cordel. Dentre tantos textos produzidos pela CEHILA, permitimo-nos destacar o produzido por Valéria Rezende, “Não se pode servir a dois senhores”. Há de se fazer menção, ainda, à valiosa contribuição, na CEHILA popular, de várias pessoas, inclusive a de Adelaide Carvalho.

Outra iniciativa a merecer atenção, prende-se ao plano de elaboração por teólogos da Libertação, de uma coleção intitulada "Teologia e Libertação", de modo a focar os mais distintos temas cobrindo uma produção teológica própria, de maneira a sistematizar de maneira notável as aquisições de estudos e pesquisas sobre as diferentes temáticas, indo de temas como Criação e História (Pedro Trigo), Memória do povo cristão (Eduardo Hoonaert), Opção pelos pobres (Jorge Pixley e Clodovis Boff), Trindade e Sociedade (Leonardo Boff) Antropologia Cristã (Comblin), Pneumatologia (O Espírito Santo e a libertação, Comblin), Mariologia (Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres - Ivone Gebara e Maria Clara Bingemer), Escatologia cristã (João Libânio e Maria Clara Bingemer), Ética comunitária (Enrique Dussel), Teologia da Terra (Marcelo de Barros Souza e José Caravias), Idolatria Comunitária (Hugo Assmann, Franz Hinkelammert), entre outros. Iniciativa apoiada por cerca de 120 bispos, espalhados pela América Latina, na maioria do Brasil, publicação assumida pela Editora Loyola.

Que lemas inspiraram tal ação profética?

Neste sentido, é que se pode compreender a ação profética desenvolvida por parte expressiva do episcopado latino-americano, incluindo o do Brasil, presente também em seus respectivos lemas episcopais. O título deste texto expressa um desses lemas - "humanizar a humanidade" -, escolhido por Dom Pedro Casaldáliga. De fato, a trajetória deste profeta pastor e poeta bem representa o significado do lema por ele escolhido, ao longo de sua trajetória episcopal junto ao povo dos pobres de São Félix do Araguaia. Com efeito, as mais diversas ações corajosas, guiados pelo Espírito Santo, marcadas pelo seu compromisso com a causa dos desvalidos, tem muito a ver com o lema escolhido: trata-se, de fato, de humanizar a humanidade. 

Outra figura de destaque foi também a de Dom Paulo Evaristo Arns, que escolheu como lema "Ex spe in spem" (De esperança em esperança) - uma breve revisitação de sua fecunda e profética trajetória há de ser notabiliizada por esta evangélica inspiração. Sua atuação de pastor da arquidiocese de São Paulo, justamente no período mais sombrio civil-militar, constitui viva expressão desta sua dedicação à causa dos desvalidos, em especial dos presos e perseguidos  políticos do regime militar. Disto também dá testemunho o admirável trabalho de levantamento de uma enorme lista de presos políticos, do qual esteve à frente, em associação com o Reverendo pastor protestante James Wright, culminando com a publicação do clássico "Brasil: nunca mais", trazendo um levantamento de centenas de nomes de presos brasileiros, contendo um breve histórico da denúncias de que foram vítimas, bem como das penas sofridas. O livro, porém, é apenas uma parte de milhares de páginas resultantes da mencionada pesquisa.

Durante o período acima considerado, esses pastores e profetas protagonizaram relevantes momentos, em favor da causa libertária do povo dos pobres. Já em 1970, por meio da Ação Católica Operária (ACO), em Recife, com a anuência de vários deles, apoiados em dados oficiais sobre a realidade de penúria extrema, vivida pelos nordestinos, vem a lume um Manifesto contundente de análise e de denúncia desta realidade intitulado “Nordeste, o homem proibido”.
Um ano antes, no auge da repressão da Ditadura Militar, que não tinha coragem de assassinar a figura profética de Dom Helder Câmara, não hesitava em silenciá-lo, proibindo citar seu nome nos veículos de comunicação, e, o que é pior, perseguia seus mais próximos, entre os quais, o Padre Antônio Henrique Pereira Neto, torturado e assassinado, em 1969.

Dom Antônio Batista Fragoso seguindo as veredas proféticas de Dom Hélder, em suas constantes viagens de denúncia, contra os horrores da Ditadura Militar, também publicou livros denunciando estes horrores .
 Mesmo tratando-se de uma minoria relativamente reduzida, no conjunto do episcopado brasileiro, estes bispos profetas fizeram a diferença, em seu tempo. Um outro atestado de seu empenho e desempenho tem a ver com a publicação de contundentes documentos, tais como “Eu ouvi os clamores do meu povo”, além de outro firmado por bispos das dioceses do Centro-Oeste, denunciando a questão fundiária e de violência, e ainda um outro sobre a questão da terra, no Brasil (fazendo questão de distinguir entre “terra de trabalho” e “terra de negócio”).

Como expressão de um modesto tributo a essa geração de bispos, ousamos tecer as seguintes estrofes. Antes, porém, listamos alguns dos seus respectivos lemas episcopais.

Dom Helder Camara: in manus tuas (Em tuas mãos)
Dom Ivo Lochaider: nova et vetera (coisas novas e velhas)
Dom Pedro Casaldáliga: humanizar la humanidad 
Dom Aloisio Lorscheider: in cruces salus et vita (Na cruz estão a salvação e a vida)
Dom Antonio Batista Fragoso: Opportet Illas adducere (É preciso atrair as ovelhas desgarradas de volta ao rebanho)
Dom Moacyr Grechi: O último de todos e o servo de todos
Dom José Távora: in manibus tuis sortes meae (Omeu destino está em tuas mãos)
Dom Tomás Balduíno: Homines Capiens (Pescador de gente)
Dom Mauro Morelli: Vem, Senhor Jesus
Dom José Maria Pires: Scientiam Salutis (Em busca da ciência da salvação)
Dom Marcelo Pinta Carvalheira: Evangelizare
Dom José José Rodrigues: Evangelizare misit me (Ele me enviou a evangelizar)
Dom Adriano Mandarino Hypólito: MITTE DOMINE OPERARIOS (Envia, Senhor, operários)
Dom Samuel Ruiz: Edificar e Plantar
Dom Luiz Demétrio Valentini: Venho para servir
Dom Cláudio Hummes: OMNES VOS FRATRES (Vós todos sois irmãos)



Mais humanos tornar-nos plenamente
Eis o lema de Pedro do Araguaia
Pôr em prática o Evangelho, ele ensaia
Balduíno é chamado a pescar gente
A seguir o recado, ele assente
E Antônio Fragoso, por sua vez
Fez em vida o que o próprio Jesus fez
Foi atrás das ovelhas desgarradas
E atraindo-as de volta à caminhada
E assim combatendo iníquas leis.

Do baú deste Reino, Ivo dizia
Ir em busca do velho e do novo
Recolhamos, então, a bem do povo
O que serve pra sua alforria
E, de pronto, aos de baixo bem se alia
Já Dom Helder se entrega, confiante
Pois a força do espírito lhe garante
E José (o Rodrigues), do Juazeiro
À missão se entregando por inteiro
A serviço do Evangelho segue adiante.

Valentin por seu turno, se confessa 
Do Reinado de Deus vir a serviço
Para além do seu lema, assume isso
Deste Reino se faz humilde peça
Outros mais como Humes se acresça
“Todos vós sois irmãos”, filhos do Pai
A Dom Paulo se junta, e assim vai
Promovendo a justiça e o Direito
Pelos “grandes” não sendo mais aceito
E as bênçãos do Reino assim atrai.


João Pessoa, 30 de janeiro de 2020.

domingo, 26 de janeiro de 2020

INDAGAÇÕES COM PROPÓSITO DE DIÁLOGO a partir da escuta da palestra da Pastora evangélica Damares Alves, cf. http://www.youtube.com/watch?v=BKWc0sUOvVM

INDAGAÇÕES COM PROPÓSITO DE DIÁLOGO
a partir da escuta da palestra da Pastora evangélica Damares Alves, cf. http://www.youtube.com/watch?v=BKWc0sUOvVM
Alder Júlio Ferreira Calado

O vídeo que segue, me foi enviado por uma amiga cristã, uma missionária evangélica, a quem muito prezo, e a quem agradeço pelo vídeo compartilhado, e que tive o cuidado de ver/ouvir mais de uma vez. Ele é que inspira essas linhas de fraterna provocação, de alguns questionamentos, com o propósito de dialogar com vocês, a partir das provocações do referido vídeo, que, se fosse um texto escrito, lembraria mais um estilo “panfleto”.

A palestrante se apresenta como “pastora, professora, advogada e corintiana”, com Mestrado em Educação e em Direito, e assessora da Frente Parlamentar Evangélica. Lembra que Frente Parlamentar Evangélica já conta com 78 parlamentares, com três senadores, e com perspectiva de um quarto, em breve. Ela estava vindo de um encontro com pastores e deputados federais da referida Frente, além de outros parlamentares estaduais, no qual se tinham discutido os embates em curso.

Passa a projetar e a comentar uma série de casos de excesso quanto à abordagem da sexualidade para crianças, nas escolas, começando por responsabilizar a atual Ministra da Cultura. Mais adiante, faz o mesmo em relação a várias figuras do Governo do PT. O tom da palestra seguiu sendo o de combinar denúncias do gênero com acusação de figuras do Governo e o chamamento à responsabilidade política dos evangélicos, a quem atribui a responsabilidade de transformar essa realidade.

Várias das denúncias feitas merecem, se efetivamente comprovadas, não apenas a manifestação de nossa indignação, como também veemente combate, em especial quanto aos evidentes abusos ou excessos cometidos principalmente contra as crianças, sob pretexto de material didático. Isto, é claro, nos casos denunciados tal como relatados. Refiro-me, por ex., aos casos de informações sobre (homo)sexualidade em idade demasiado precoce, especialmente nos casos em que tal iniciativa soa, antes como um incentivo subliminar do que como mera informação educativa.

Ao mesmo tempo em que, comprovados os fatos denunciados e seus responsáveis aí apontados, descontada uma certa tendência partidarizante e fundamentalista, também expresso minha indignação, permitindo-me, contudo, levantar algumas indagações, em busca de abrir diálogo com vocês, e de sincero desejo de aprendizado de discernimento com vocês, em quem também sopra o Espírito Santo, cuja festa se celebra, neste Domingo, 19 de maio, conforme o calendário de algumas Igrejas cristãs. Que indagações tenho a compartilhar?

- Do ponto de vista de uma leitura samaritana do Evangelho, e de uma perspectiva polítca republicana (“RES PUBLICA”), é razoável utilizar-se os espaços de uma instituição laica para transformá-la em espaços de culto?

- Incentivaríamos – ou, bem menos do que isto – TOLERARÍAMOS que os espaços do Parlamento fossem igualmente ocupados por grupos de tantas outras religiões?

- Cidadãos/Cidadãs iguais a nós em direitos, o quê teriam a dizer sobre isso os que não confessam crença alguma?

- Se, num IMPROVÁVEL acesso (ou excesso?) de sentimento democrático, nós fôssemos “liberar geral” as instâncias do Congresso para todos os grupos, crentes e não crentes, ocuparem aqueles recintos seus respectivos cultos e orações, sobraria algum espaço para o trabalho parlamentar?

- Se tanta fé dizemos ter em Deus, por que não podemos fazer nossos cultos e orações em nossas respectivas igrejas, casas ou espaços mais adequados? Será que esse Deus só faz seus milages, se a gente estiver nos espaços físicos do Congresso?

- É razoável a um(a) cristã(o) afirmar, com tanta veemência, coisas do tipo: “porque Deus nos disse que não são os deputados que vão mudar essa Nação, que não é Governo que vai mudar essa Nação, que não é a política, é a Igreja Evangélica quando clama”? (Ela afirma isto, ao mencionar, lá pelo minuto 43 do vídeo, a situação da derrota da votação do Projeto de Lei de não-criminalização do aborto, em 2008, no auge de escândalos envolvendo, inclusive, deputados evangélicos, recorda ela);

- É mesmo adequado a uma advogada pronunciar-se com tanta ênfase sobre fatos relativos à Saúde Pública, inclusive em cima de estatísticas, tecendo graves acusações a pesquisadores, a ministros da Saúde e outras autoridades, de modo a criminaliza-los com tanta veemência?

- Sempre que escuto uma palestra, sem deixar de atentar para o essencial (o teor da palestra), também procuro saber sobre quem pronuncia a palestra (seu lugar social, sua história de vida, seu compromisso político, suas apostas fundamentais, seu testemunho passado e presente, etc.). No caso em pauta, trata-se de alguém:
  * profundamente apaixonada pelas causas que defende;
  * a serviço da causa de uma ou várias igrejas evangélicas;
  * assessora parlamentar de membros da bancada evangélica;
  * com uma formação acadêmica (com Mestrado em Direito e em Educação);
  * portadora de uma história de vida com uma infância de profundos traumas;
  * com uma perspectiva teológica relativamente frágil ou pouco convincente (na minha limitada percepção).

- As veementes denúncias e invectivas lançadas  pela Pastora Damares Alves, foram feitas mesmo a quê título: de cidadã republicana,  de integrante de uma igreja, de membro a serviço da Frente Parlamentar Evangélica, da qual é assessora?

Como cidadãos e como cristãos, temos mesmo o direito de “enquadrar”, por ex., assumindo como dogma a posição de que a homossexualidade é expressão de mero capricho humano ou de um desvio patológico? É mesmo razoável uma certa hostilização à educação em tempo integral, em escola pública? É razoável a imputação (direta ou indireta) de culpa á mulher pelas opções dos filhos, ou pelo superdimensionamento da família como (quase) única educadora? É razoável a tendência à criminalização das mulheres por todo tipo de aborto, sobretudo quando feita de forma descontextualizada? É razoável alimentar-se a tendência a superestimar a atribuição ao aborto, como se este constituísse o único ou o principal fator de ameaça à vida de seres humanos, em relação ao descaso ou à pouca atenção às práticas indígenas tradicionais e próprias de sua cultura, sem que houvesse sequer uma leve referência aos milhares de índios (inclusive no Mato Grosso do Sul, lugar da palestra) à mortandade e às ameaças de que são vítimas grupos indígenas da região?

- Nosso compromisso de defender a vida, por acaso, restringir-se-ia aos seres ainda não nascidos ou recém-nascidos? E a vida dos já nascidos e de milhares de crianças e jovens alvo de extermínio? Jesus silenciaria essas situações?

- Percebo que cada um desses traços pessoais e de história de vida pesa sobremaneira nas determinações do tipo de leitura que a palestrante faz:
  * da sociedade;
  * do Estado (na verdade; quase só Executivo e do Legislativo);
  * do seu campo religioso e de eventuais aliados;
  * do campo das forças adversárias;
* de suas estratégias de combate e, sobretudo, de proposta de salvação da Nação.

- Que concepção teleológica de sociedade inspira a fala da palestrante? Uma sociedade plural e diversa ou uma sociedade governada por pessoas e grupos que ela avalia como “cristãs”, as eleitas por Deus para salvar a Nação?

- Que leitura de Cristianismo fundamenta o discurso da Pastora?

- As conclusões salvacionistas – todas passando necessariamente pela mediação dos “eleitos de Deus” (ou seja: pelos membros das igrejas que se reclamam de evangélicas – terão inspiração na pedagogia do samaritano vivida e pregada por Jesus de Nazaré?

- Faz-se “tabula rasa”, sem qualquer lição a extrair da desastrada saga – esta protagonizada pela Igreja Católica – dos partidos católicos, os famigerados partidos confessionais (as várias versões de partido “democrata cristão”?

- Diante do crescimento do risco de fundamentalismo religioso, é ou não é tempo de uma nova Reforma, não apenas em relação à Igreja Católica, mas também em relação às demais Igrejas Cristãs?

- E, desta vez, no plano macrossocial, é ou não o momento de centramos força pela construção de uma República laica, como única forma de assegurar tratamento isonômico e republicano ao conjunto de seus cidadãos e cidadãs, garantindo-lhes verdadeira liberdade de crer ou de não crer?

- Não falta à palestrante e seus aliados uma boa base de senso histórico e de uma visão de discernimento da realidade social, de modo a tomar em conta situações trágicas protagonizadas pelos adeptos da Cristandade, das quais as famigeradas cruzadas constituem um exemplo tenebroso?

- Nas insinuações ou nas invectivas da palestrante, não parece haver uma concentração excessiva de alvo desembocando em cima do PT e seus representantes, o que favorece uma certa tendência de partidarização deste embate?

- E o quê dizer do fato de que a principal força política-alvo das graves acusações ter como alidados políticos justamente parte da Bancada Evangélica?  

Eis algumas indagações que, desarmado e aberto a aprender, compartilho, com propóstio de dialogar, em busca de melhor discernimento sobre esses desafios.

João Pessoa, 18 de maio de 2013.