TRAÇOS DA MÃE ÁFRICA:
em busca de nossas raízes (X)
Alder Júlio Ferreira Calado
Estamos dando prosseguimento à matéria
tratada, no número precedente de ABIBIMAN,
acerca de elementos relativos à produção literária de escritoras africanas.
Reportávamo-nos, de passagem, a um aspecto crucial do processo de produção
literária – a incidência e o alcance dos condicionamentos político-ideológicos,
enfrentados especialmente pelas escritoras africanas. Agostinho Neto, a seu
tempo, já havia alertado para o mesmo desafio, em relação mais direta aos
escritores.
A questão central é a seguinte: em
meio às estratégias de ocidentalização do estilo africano de produção literária
- das mais sutis às mais evidentes -, como manter e ser fiel aos traços
identitários dos escritores e escritoras africanos e de sua respectiva produção
literária? E no caso específicos das mulheres escritoras?
Vimos, em artigos precedentes, como
a herança colonial (na África e alhures) implica uma multiplicidade de graves
condicionamentos materiais e imateriais para os povos invadidos, expropriados,
escravizados e re-educados conforme a grade de valores das metrópoles.
Inclusive no campo da produção literária, salvo no caso de um processo de
extrojeção do colonizador da alma dos povos invadidos, a tendência dominante é
a de seguir-se a “cartilha!” do dominador.
As estratégias de produção e difusão da ideologia do
dominador sobre os povos dominados são, não raro, carregadas de requintes de
sedução. As táticas de domesticação são de uma astúcia, a toda prova. Inclusive
aquelas que não hesitam em apelar para o discurso do respeito à “autonomia”, à “autodeterminação”,
até à “recuperação da identidade” dos povos colonizados...
Situação multiplamente agravada, no
caso das escritoras. As relações de gênero, nos países africanos como entre
nós, estão longe de beneficiar as mulheres enquanto produtoras intelectuais.
Para dizer o mínimo. O aprimoramento do seu ofício-alvo requer prosseguimento
dos estudos. Nas (ex?)colônias, o ensino superior é jóia rara para poucos
privilegiados. Ir estudar na metrópole – se e quando se consegue - tem seus
encantos, mas tem seu preço... Conquistar aí condições favoráveis de
sobrevivência digna já não é fácil, e o que dizer do sonho de afirmar-se como
escritora? E, no caso de encontrar oportunidades propícias ao desenvolvimento
de suas potencialidades, quais as condições que lhes são, direta ou
indiretamente, impostas?
A despeito desses e de tantos outros
entraves, alegra-nos saber de mulheres escritoras africanas honradas que,
alcançando notoriedade internacional, pela qualidade de sua produção literária,
se mantêm fiéis à causa libertária de sua Gente, resistindo, também lá, aos
sedutores apelos dos “mensalões literários”...
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