terça-feira, 17 de março de 2020

PAULO FREIRE COMO EXPRESSÃO DE DENSO DIÁLOGO

PAULO FREIRE COMO EXPRESSÃO DE DENSO DIÁLOGO

I. Articulações: Paulo Freire/ Karl Marx e/ou F. Engels
P.O. p.20: Recorrendo a uma citação indireta de Marx, Freire nele se apóia para críticar, não a subjetividade, mas o subjetivismo.
P.O. p.21: Freire cita Marx e Engels, neles se apoiando para argumentar da exigência da Práxis, no sentido de que  a libertação do ser humano requer a tomada de consciência da opressão, combinada com a luta contra o sistema.
P.O. p. 52. Amparado nos Manuscritos Econômicos-Filosóficos de Marx, em que este sublinha a distinção entre o trabalho de outros animais e o trabalho criativo dos seres humanos - “Daí que seus produtos fora de dúvida, ’pertençam diretamente aos seus corpos físicos, enquanto o homem é livre ao seu produto.’”-, Paulo Freire cuida de salientar a capacidade criativa do ser humano, fazendo questão de distinguir os produtos do trabalho humano de produtos de outros animais, tais como a colméia, o ninho, etc..

P.O. p, 22: Freire cita a Tese 3 de Marx, dirigida a Feuerbach, para sublinhar a importância do processo educativo na ação revolucionária. Processo requer que o próprio educador também seja educado e reeducado.
P.O. p.24: Freire se remete a Marx, paa alertar os revolucionários contra o risco da burocratização, ao se substituirem ao antigo regime, utilizando-se dos seus velhos instrumentos, a “burocratização.”
P.O p.73: Freire se remete a Marx, para advertir contra a falsa dicotomia entre a condição de sujeito histórico e de produto das circustancias históricas.

E.P.L. p.101: Invocando Erich Fromm, acerca do conceito de Homem em Marx, e mais precisamente do risco de alienação da linguagem, Freire sublinha a preocuapação de Marx, quanto  a necessária distinção entre o dizer e a experiência, alertando do risco de confundir palavra com ação.
A.C.L p35: Ao contestar com base em Marx, a suposta neutralidade da tecnica ou do pensar humano, Freire atribui ao que Marx qualifica de uma “mentalidade grosseiramente materialista”, a tentativa de se fazer passar a ideia de neutralidade nas relações humanas.
A.C.L p.41: Em Freire, como em Marx, a “pronuncia” do mundo implica sempre uma “ação consciênte” sobre o mesmo.
A.C.L p.54: Freire, ao escrever sobre “A ação cultura e a conscientização”,  cita a Teses III de Marx, objetando a posição de Feuerbach, a propósito da unidade dialética do pensar e fazer humanos, ou mais precisamente, da consciência e da objetividade. Nõo se trata de suposta subordinação de uma à outra, mas de interação diáletica, tal como explicitado na Tese III.
A.C.L. p.55: Na página seguinte, do mencionado capitulo de Freire, este tece considerações acerca da criticidade como característica exclusiva do ser humano. Ao fundamentar sua tese, recorre a Marx, citando a conhecida passagem “registrada no livro I, tomo I, de O Capital, na qual, após destacar o encanto provocado pelo trabalho da aranha e da abelha,  ressalta vivamente o trabalho do ser humano, que daquelas se destingue, pelo fato de que, antes de excecutar o produto do seu trabalho, o ser humano o projeta na consciência.

A.C.L p76: No seu “Processo de alfabetização política – uma introdução”, Freire retoma a Tese III de Marx, para acentuar a importância e a necessidade de que, também, o educador deve ser (re)educado, sob pena de tornar-se a quem de seu ofício de educador.

A.C.L. p.108: Em entrevista concedida por Freire ao Instituto de Educação Cultural de Genebra, mencionada num dos capítulos de ACL, Freire acentua a interação dinâmica que se deve observar entre as condições objetivas e as condições subjetivas de uma situação revolucionária, para o que se socorre de Marx,

E.C.p.35 e 51: Em Extensão ou comunicação?, Paulo Freire ancorado em Marx, em Hegel e outras, acentua nos educandus sua capacidade criativa, protagônica, no sentido de não se limitar a ler e reproduzir ideias alheias, mas de dialogar críticamente com esses autores, ousando também dizer sua palavra.
CGB. P 118-120: Em sua carta número 3, de 1976, dirigida aos “camaradas Monica, Edna e Paulo”, Freire, buscando explicitar os mecanismos de exploração impostos à Classe Trabalhadora pelo Capitalismo, remete-se a O Capital de Marx, em que este detalha os mecanismos de exploração daquele sistema, desde a transforamção de tudo, inclusive dos humanos, em mercadoria, a serviço da “mais-valia” para poucos.
C.G.B. p 124: Freire retoma Marx, em O Capital, para fundamentar sua leitura da realidade vivida pelos trabalhadores de Guiné Bissau, aqui, Freire trata de associar ao conceito marxiano de trabalho, o de cultura, analisando o intercâmbio entre ambos, tornando, claras, as implicações culturais do trabalho humano, e sua relação com a natureza.

P.P.P. p9: Já nas primeiras páginas de Por uma Pedagogia da pergunta, Freire se remete a autores como Marx, Hegel e Sartre e outros para sublinhar a importância do filosofar como instrumento de análise da realidade, para além de mera abstração.
P.P.P. p30: Ao críticar a postura vanguardista, de desprezo e distanciamento das massas populares, Freire recorre a Marx (e Engels), remetendo a uma carta circular dirigida a A. A. Bebel, G. Liebknecht, W. Bracke e outros, na qual Marx, irado, afirma não se poder confiar em gente que despreze como incultos os trabalhadores
P.P.P. p33: Freire recorre indiretamente a Marx, por intermedio da interpretação de Gramsci, para reforçar a necessidade de se utilizar um conceito como mero instrumento de mediação para melhor se compreender a realidade concreta, mas sempre partindo dela.
P.P.P. p37: Como em outros livros, aqui Freire se remete a Marx, quando este distingue o trabalho da abelha em relação ao do operario, para enaltecer a grandiosidade do trabalho humano. Paulo Freire aí argumento da importancia do “sonho” ou de se projetar, junto com as classes populares, um novo desenho de sociedade, como primeiro passo para concretizá-lo
P.P.P p.46 : Freire recorre a Marx e Engels em seu livro “A ideologia Alemã” na página 75, em que sustentam que, numa sociedade de classe, a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, a fim de críticar a postura de desprezo manifesta pelas elites em relação a tudo que diga respeito à cultura popular, julgando-a como inculta e feia.
P.A., p.62. Em Pedagogia da Autonomia, ao criticar uma suposta neutralidade das posições das forças sociais em disputa, Freire se remete a Marx, em quem se inspira na opção pela radicalidade marxiana, isto é, de alguém comprometido, não com as aparências ou com o epifenômeno, mas com a raiz (“radix”, raiz) dos problemas do ser humano, colocando este como centro das preocupações. Daí a opção Freiriana assim formulada: “Continuo bem aberto à advertência de Marx, a da necessária radicalidade que me faz sempre desperto a tudo o que diz respeito à defesa dos interesses humanos.” (P.62)
P.A., p.81. Ante as manifestações destrutivas da ordem neoliberal, Freire sublinha a importância da rebeldia daquelas e daqueles que, lutando como Gente por uma alternativa à barbárie capitalista, invoca Marx e Engels, no famoso Manifesto do Partido Comunista, de 1847, em que estes autores convocavam os trabalhadores a uma rebeldia coletiva contra tal sistema. Preocupação semelhante por Freire também manifesta anteriormente, na página 62.  “Há um século e meio Marx e Engels gritavam em favor da união das classes trabalhadoras do mundo contra sua espoliação. Agora, necessária e urgente se fazem a união e a rebelião das gentes contra a ameaça que nos atinge, a dos à "fereza" da ética do mercado.” (p. 81)
P.E.R.P.O, p. 24. Menos por uma citação ou referência direta a Marx e a Hegel, vale a pena reter de Freire sua postura maiêutica, descrita em seu livro Pedagogia da Esperança, em que propõe um “jogo” conjunto com os trabalhadores que o escutavam, com o propósito de despertá-los em relação a sua condição de sujeitos cognoscentes. No jogo, ao fazer uma pergunta sobre a influência de Hegel em Marx, a qual os trabalhadores não souberam responder, Freire também, por sua vez, não consegue responder a pergunta dos seus interlocutores. : “Ao me despedir deles lhes fiz uma sugestão: “Pensem no que houve esta tarde aqui. Vocês começaram discutindo muito bem comigo. Em certo momento ficaram silenciosos e disseram que só eu poderia falar porque só eu sabia e vocês não. Fizemos um jogo de saberes e empatamos dez a dez.”
P.E. p.45 e 46: Ao contestar toda postura determinista por parte da militancia, Freire socorre-se de Marx e Engels em seu livro “A Sagrada Família”, em que entendem ser necessária a tomada de consciência da opressão, como condição para supera-la. Freire refuta toda tendencia fatalista, argumentando da necessidade para as classes populares e para seus intelectuais, de aprofundamento cognitivo das diversas manifestações das relações orpessivas. É impertinente, para Freire, a postura arrogante, seja da parte dos intelectuais, seja da parte das forças progressistas, pretenderem prescindir do protagonismo das massas populares, para alcançar a revolução. Trata-se de tarefa necessariamente conjunta, de responsabilidade conjunta, desenvolvida nos entrechoques da história e suas incertezas.
P.E.R.P.O., p.46. Freire responde, com fortes argumentos, a costumeiras críticas a ele dirigidas sem fundamento convincente, objetando contra tais críticas aligeiradas dois argumentos letais: o de que é um autor ainda vivo e o de que, a altura das críticas a propósito de Pedagogia do Oprimido, este constitui apenas um de seus livros. Remete, então, ao próprio Marx contestando críticas infundadas a ele atribuídas por seus adversários: “eu não sou marxista.”
P.E.R.P.O p.75-76. Densos relatos aí são resumidos por Freire, ao destacar sua postura crítica e comprometida com a causa dos “debaixo”, o que lhe permitiu dialogar com interlocutores militantes de várias correntes de Esquerda, que se entregavam confiantemente, de forma recíproca, a uma autoavaliação coletiva e pessoal, processo em que também incide a influência marxiana da autocrítica e da necessidade que o educador tem de ser reeducado.
P.E.R.P.O, p.91-92; 96. Freire, nestas passagens, se reporta a várias situações embaraçosas que teve que enfrentar, ante acusações hegeliano-idealistas atribuídas ao livro Pedagogia do Oprimido, por parte de setores dogmáticos do marxismo. Por outro lado, também dá conta do bom diálogo travado com outros setores de orientação marxista, abertos a compreensão da conscientização no processo revolucionário.
P.D.C., p.28. Aqui, Freire acentua duas importantes dimensões que o caracterizam: a pedagógica e a política. Em seu quefazer, Freire não consegue separar uma dimensão da outra. Enquanto pedagogo, não se apaga nunca sua dimensão de político; enquanto político, carrega seu potencial pedagógico. Assim argumenta, contrapondo-se a uma visão positivista que defende a separação dessas esferas. Apoiando-se em Marx, Freire explicita sua posição de um ser cuja vida é dedicada a transformação da realidade social, na perspectiva dos “debaixo”, razão por que também se remete a Marx ao entender a história, não apenas como condicionante das práticas humanas, mas também sujeita à ação transformadora dos próprios humanos.
P.D.C., p. 33-34. Nestas passagens, mais uma vez, constata-se a afinidade de Freire em relação a Marx, ao refutar a pretensa dicotomia entre mundanidade e transcendentalidade, entre história e meta-história, ilustrando, de forma irônica, com o diálogo estabelecido, por ocasião de um encontro, entre ele e um interlocutor italiano, extremamente fiel a sua perspectiva exclusiva de transcendentalidade.
P.D.C., p.53. Em Pedagogia: Diálogo e Conflito, Freire expõe sua inquietação acerca de uma postura rígida, inflexível dos defensores da tomada do poder. Ainda que entendendo-a necessária, ele pondera, com fundamentação em Amílcar Cabral (e também marxiana), que importa ter presentes os riscos de quem, a todo custo, reduz toda a sua luta a estrita tomada do poder, das mãos da burguesia, como se fora “a receita”, desconsiderando riscos de viciamentos de burocratização. Daí preferiu Freire apostar mais na reinvenção do poder do que na mera tomada do poder.
P.D.C., p.62-63. Em Pedagogia: Diálogo e Conflito, no capítulo intitulado “De ‘trânsfugas’, ‘convertidos’ e ‘suicidas’”, Freire, em interlocução com Gadotti e Sérgio Guimarães, reflete sobre a necessária interação dinâmica entre a história e os humanos, de inspiração marxiana por força da qual não somos apenas objeto da história, mas também seus agentes. Outro aspecto aí considerado por Freire remete a condição do “trânsfuga” ou do “suicida” – expressões dos seus interlocutores -, as quais Freire agrega a de “convertido”, fundamentando este conceito de inspiração cristã no movimento da própria história de um lado e, do outro, de quem ousa converter-se da condição de membro da classe dominante para a classe dominada, processo que implica em conflito e no necessário deslocamento de um lado a outro, ou mais claramente, nos entrechoques da história. Nas palavras de Freire, “A conversão no fundo é uma caminhada, e nesse sentido aqui usado é uma caminhada que se dá na esfera do pólo dominante para o pólo dominado, mas só se completa na travessia mesma, só se dá é na marcha. Não no gabinete.”
P.D.C., p.88. Inspirado na concepção gramsciana de hegemonia e contra-hegemonia, Freire retoma a reflexão sobre a íntima e orgânica relação entre teoria e prática, advertindo contra o risco de uma dicotomização entre teoria e prática.
P.I., p.44. Em Pedagogia da Indignação, Freire, recorrendo a Marx, e mais precisamente a seu conceito de Práxis, reitera sua aposta na mudança como ato político, isto é, como prática e reflexão de quem, estando no mundo e com o mundo e com os demais humanos, investe nos processos de mudança o que significa necessariamente lidar com a política. Nas palavras de Freire, “Não é possível estar no mundo, enquanto ser humano, sem estar com ele e estar com o mundo e com os outros é fazer política.” (página 44)
P.I., p.61. Tal como em textos precedentes, Freire reitera seu apreço e seu reconhecimento da importância do trabalho humano, distinguindo-o do admirável trabalho da abelha, como o faz Marx. Diferentemente desta, o ser humano antes de executar seu trabalho, projeta-o. Daí, a força de sua criatividade e de sua capacidade comunicativa. “Discutindo o trabalho humano em face do trabalho do outro animal, diz Marx que nenhuma abelha se compara ao mais “acanhado” mestre-de-obras. É que o ser humano antes mesmo de produzir o objeto tem a capacidade de ideá-lo.”

M.O.C.P., p.35. Ao constatar, indignado, as gritantes desigualdades sociais existentes numa mesma cidade, Freire cuida de examinar as causas dessa realidade, daí recorrendo ao estudo de economia e política, em Marx.
M.O.C.P., p.56. No mesmo livro, em diálogo com Ira Shor, a propósito da importância do rigor necessário nos espaços formativos, Freire defende a necessidade de se assegurar, em sala de aula, condições de leitura dos clássicos, independentemente das correntes que representem, chegando a acusar de atitude racista a de quem impede, em sala de aula, acesso a este ou aquele clássico.
M.O.C.P., p.72. Detendo-se no conceito de empowerment presente no diálogo com Ira Shor, Freire adverte da necessidade de atenção especial, por parte dos analistas, ao que se passa em matéria de classes sociais nos Estados Unidos, quando comparada tal leitura ao que se passa com as classes sociais na América Latina. Uma leitura marxista mecanicista não favorece a uma compreensão objetiva da diferença existente entre os antagonismos de classes nos Estados Unidos e os vigentes na América Latina.  
M.O.C.P., p.86. No debate, provocado por Shor, e dirigindo-se a Freire acerca de certa cultura do silêncio presente em ambientes de estudo dos Estados Unidos, Freire expressa, pela enésima vez, sua ira, indignação e ironia contra os modos abstratos de pretensa leitura da realidade concreta, simplesmente recorrendo ao jogo de conceitos descolados do contexto concreto. Amparado em Marx, Freire critica inclusive intelectuais ditos marxistas que, ao estuda-lo, acabam enjaulando-o em meras tramas conceituais, sem se darem ao trabalho sequer de conferir a realidade concreta junto às classes populares.
M.O.C.P., p.92. Tomando em consideração o contexto vocabular de alunos de graduação e pós-graduação, Freire, provocado por Shor, descreve sua experiência com tal realidade. Ele parte sempre da escuta atenta das experiências de seus alunos, filtrando em seu universo vocabular conceitos-chave que lhe permitem conhecer do seu cotidiano de vida e de trabalho. Desse modo, os estimula a irem de seu universo vocabular corriqueiro a compreensão da realidade concreta, mediada pelo emprego dos conceitos acadêmicos pertinentes, não importando a que corrente de pensamento se refiram.
C.C.p.103: Em Cartas para Cristina Freire narra encontro que teve com jornalistas australianos, causando-lhes apreensão sua confição de que sua aproximação com as classes populares, ainda que de partida motivda pela sua fé cristã, o faz recorrer a Marx, em busca de causas mais concretas daquela situação de miserabilidade. Para Freire o dialogo entre cristo e Marx, longe de causar-lhe alguma ruptura, alimentou sua condição de pesquisador e de cristão.

C.C.p.208-209: A certa altura do livro, Freire volta a sublinhar o papel da subjetivdade no processo histórico, mas uma vez contrapondo-se a uma interpretação mecanicista não raro encontrado em escritos marxistas ortodoxos – que não encontra ressonância em Marx -, Freire rebate posturas objetivistas que desconsideram a força dos sujeitos no processo  de transformação social.

P.S.T.N.p.61: Na setima carta dirigida “a quem ousa ensinar”, Freire registra e crítica o equivoco cometidos pelos que fazem uma leitura mecanicistas de Marx, focando a luta por transformação social exclusivamente na infraestrutura, supondo equivocadamente que alteração estritamente economica fosse suficiente para dar conta do conjunto de desafios enfrentados. Freire também os acusa de terem, não apenas conseguido transformar a sociedade, mas de tê-la retardado, com sua falsa dicotomização entre democracia e socialismo.
A.L.M.P p.41: No livro “Alfabetização: leitura do mundo, leitura da palavra”, em diálogo com Donaldo Macedo, e por este provocado, Paulo Freire se reporta a Marx, para fundamentar sua resposta a Macedo, a propósito de sua indagação acerca do papel da ação humana na relação entre campanhas de Alfabetizção e Educação. Freire lembra a conhecida tese marxiana sobre a indissociabialidade entre as cndiçõess concretas às quais estão limitados os seres huamnas, e por outro lado, a Açã Humana,  capaz de auterar e superar os condicionantes presentes na realidade social. Com as palavras usadas por Freire, citando Marx: “Ele diz que o homem faz a história com base nas condições concretas que encontra.... ”É da relações concretas ou, mais precisamente da relação entre o concreto e o possível.
A.L.M.P p78: À pergunta formulada por Macedo, sobre a necessária “nítidez” política, recorre a Marx, para sublinhar que esta não tem a ver com meras citações do pensamento Marxiano, mas com a busca de interpretação da realidade social, de modo objetivo.

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S.E.D.2 p.61-62: No livro Sobre Educação (Diálogos) Vol.II, ao refletir sobre o tópico “No vídeo, das teses de Marx a um sem-número de coisas!” interlocução com Sérgio Guimarães, Paulo Freire enfrenta o debate sobre as positividades e negatividades possíveis dos instrumentos audiovísuais, mas específicamente, a utilização da televisão em círcuitos fechados. Sustenta tratar-se de instrumentos em si neutros. O uso deles, vai comportar a orientação político ideológica dos seus operadores. Freire ilustra sua afirmação, com um exemplo hipotético do estudo, em circuito fechado das “Teses de Marx a Feuerbach”.



II. Articulações Paulo Freire – F.Hegel.
P.O. p.5: “Hegelianamente, diaríamos: A verdade do opressor reside na consciência do oprimido.” Com esta afirmação, Freire expressa sua convicção do necessário processo de consciêntização, como tarefa prioritária do processo de libertação dos oprimidos.
P.O. p.12: “E é apenas arriscando a vida que a liberdade é obtida... O indivíduo que não apostou sua vida pode, sem dúvida, ser reconhecido como uma pessoa, mas ele não alcançou a verdade desse reconhecimento como uma auto-consciência independente.” HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. The phenomenology of spirit. Harper and Row, 1967, p.233.
P.O. p.19: “A verdade da consciência independente é (nesse sentido) a consciência do servo.” HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. The phenomenology of spirit. Harper and Row, 1967, p.237.
P.O. p.19/20: Partindo da dialética Hegeliana, no que tange à percepção da relação opressor-oprimido, Freire vai além: para Freire, não basta “saber-se numa relação dialética com o opressor” (ou com o oprimido). Para Freire, uma verdadeira solidariedade com os oprimidos requer assumir sua causa, numa práxis liberadora.


C.C.p181: Freire adverte quanto a uma postura a crítica por parte de educadores e educandos, por não problematizar a dimensão política da educação, uma de cujas implicações é a de não atentarem a necessidade de o educador ser educado, razão por que assinala neles ausencia da própia diáletica hegeliana.
P.P.P: Em algumas passagens de Por uma Pedagogia da Pergunta, livro de autoria de Paulo Freire e Antonio Faundez, é sobretudo este que se remete a várias construções hegelianas.
E.M. p.30: Em Educação e Mundança e em Conscientização (p.58-59), Freire reporta-se, à dialetica Hegeliana existente entre o “Ser para si” e o “Ser para o outro”, ao críticar as relações de uma “sociedade objeto”, antagônica a uma “sociedade-sujeito”. Para Freire, como para Hegel, somente esta última é portadora de uma consciência autonoma, enquanto “sociedade objeto” volta-se a interesses  senhoriais. Na mesma passagem, Freire remete-se à Fenomenologia do Espírito, de Hegel. Em Consientização, Freire sustenta, como antídoto à dominação emperante sofrida pelos oprimidos, que “a verdadeira solidariedade supõe que se combata a seu lado para transformar a realidade objetiva que fez deles ‘seres-para-o-outro’”. (ib).





VII. Articulações Paulo Freire – Outros Marxistas
1. Articulações Paulo Freire - Rosa Luxemburgo.
P.O., p.14. “ Enquanto o conhecimento teórico permaneça como privilêgio de uns quantos ‘acadêmicos’ dentro do partido, este se encontrará em grande perigo de ir ao fracasso.”
2. Articulações Paulo Freire - G. Lukács
P.O. p 22. Freire recorre a esse autores para destacar a importancia do papel dos revolucionários, de estimularem as massas a, não apenas perceberem os mecanismos geradores de sua opressão, mas também de se empenharem em sua superação.
3. Articulações Paulo Freire – A. Gramsci
V.A. p.15-21: No livro Vivendo e Aprendendo. Paulo Freire, ao abordar o tópico “Conhecer para Transformar”, remete a Antonio Gramsci, para fundamentar o papel político-educativo dos educadores comprometidos com a transformação social. Acentua a importância de sua atuação entre as classes populares, no sentido de nelas despertarem a consciência crítico-transformadora, na direção da construção de uma nova cultura, na qual as classes populares sejam protagonistas de sua própia história.
P.D.C., p.54. Mais uma vez, Freire traz a lume, desta vez inspirado na concepção gramsciana de intelectual orgânico, a relação intelectual-classes populares, salientando seu papel em tal relação. Não se trata de impor às massas sua concepção revolucionária, mas de na dinâmica interação discente-docente com as classes populares, despertá-las para o seu potencial revolucionário, a partir da compreensão da importância da teoria e da prática. É lamentável que grande parte das forças de esquerda tenham negligenciado, em seu trabalho com as classes populares, o papel da teoria na ação revolucionária, à medida que foram distanciando-se ou mesmo abandonando o trabalho organizativo e formativo junto às mesmas. Aqui se encontra um dos fatores decisivos da atual crise política e ética ainda em curso no Brasil e Alhures.
4. Articulações Paulo Freire - Louis Althusser
P.O. p.87:  Freire remete ao conceito althusseriano de “Sobredeterminação”, ao analisar formas não consciêntes de dominação experiementadas pelos oprimidos, em razão do universo ideologico introjetado e assumido “inconscientemente” por parte dos oprimidos.
5. Articulações Paulo Freire – Mao Tse Tung
P.O p.77: “Uma ação livre somente o é na medida que o homem transforma seu mundo e a si memso, se uma condição positiva para a liberdade é o despertar das possibilidades criadora humanas, se a luta por uma sociedade livre não o é a menos que, através dela, seja criado um sempre maior grau de liberdade individual.” TSE-TUNG, Mao, On Contraditions. Man and)

sexta-feira, 13 de março de 2020

Operário da palavra, a serviço da tradição de Jesus: presença de Frei Carlos Mesters em João Pessoa

Operário da palavra, a serviço da tradição de Jesus: presença de Frei Carlos Mesters em João Pessoa

Alder Júlio Ferreira Calado


Nas pegadas de Jesus, que passava pelas Aldeias da Galileia, a fazer o bem, também Frei Carlos Mesters nos tem dado testemunho de sua discipular fidelidade à causa do Reino de Deus e sua justiça. Nestes últimos dias, diversas comunidades de João Pessoa tiveram a graça de contar com a presença de Frei Carlos Mesters, a brindar-nos com sua operosidade e seu encorajamento jovial. Aos 88 anos, Carlos Mesters segue sendo uma das mais preciosas referências de Missionário, junto a tantas comunidades cristãs de base, no Brasil, e mesmo para além das fronteiras deste país. De tal modo tem sido a contribuição de Frei Carlos mesters, na permanente tarefa evangélica de animação das comunidades cristãs, alimentadas pela palavra de Deus, em especial por meio dos círculos bíblicos, que a mera expressão "círculos bíblicos" nos remete espontaneamente a figura deste missionário itinerante.

A convite de uma comunidade que segue alimentada constantemente pela palavra de Deus, mediante o círculo bíblico, já há mais de 10 anos, com animação das Irmãs Carmelitas (congregação a qual está vinculado Frei Carlos mesters - ), Frei Carlos Mesters nos brindou com sua memorável presença. Contribuição valiosa a partir da iniciativa do Círculo bíblico da Comunidade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, do bairro Altiplano João Pessoa. Eis que por alguns dias, as participantes e os participantes deste círculo bíblico, animado pelas Irmãs Carmelitas, tantas outras comunidades cristãs, vizinhos de outros bairros da capital paraibana, tiveram a graça de também compartilhar a reflexão sempre muito animadora, trazida por Frei Carlos Mesters. O tema central que serviu de mote às reflexões feitas pelo reconhecido biblista prendeu-se ao Evangelho de Mateus



Com uma significativa presença (com vária dezenas de pessoas), a comunidade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, pela iniciativa das Irmãs Carmelitas ali atuantes, várias pessoas participantes do referido Círculo bíblico, Frei Carlos Mesters nos brindou com sua instigante reflexão, sempre de modo denso, claro, objetivo, acessível a todos/a todas que o escutam. Nas linhas que seguem, ousamos destacar pontos fortes de sua reflexão.

Em sua fala inicial, Frei Carlos Mesters cuidou de fornecer preciosos elementos, característicos do seu trabalho como biblista, em meio a tantas comunidades cristãs que anima, no Brasil e na América Latina. Destacou como chave principal de seu trabalho hermenêutico 3 aspectos mutuamente conectados: a realidade, a Bíblia e a comunidade. A realidade aparece, em seus estudos e trabalhos de exegeta, como o ponto de partida, bem a semelhança do método aplicado por Jesus de Nazaré. Não é por acaso a lembrança dos traços fundamentais do trabalho itinerante de Jesus, pelas aldeias da Galileia enquanto caminhava com a gente do Povo, com seus discípulos e discípulas, o próprio lhe servia de inspiração: a estrada, as plantas à beira da estrada, os espinhos, as flores do campo, o trabalho do Agricultor, tudo se transformava em matéria prima de sua evangelização. A exemplo de Jesus, também Frei Carlos Mesters trata de focar continuamente sua atenção sobre as muitas particularidades, relativas à natureza, às pessoas, às relações interpessoais, intergrupais, tudo transformando em ponto de partida para o anúncio da Boa Nova. Não se trata, lembrava Frei Carlos Mesters, de um professor a ministrar aulas aos seus alunos e alunas. Jesus se empenhava em provocar, em despertar nas pessoas que os seguiam um interesse na Palavra de Deus, a quem Jesus tratava, em sua intimidade, como pai ("aba”: papai).

O segundo aspecto em que se apoia o jeito de trabalhar de Frei Carlos Mesters - um dos fundadores do Cebi centro ecomenico de estudos bíblicos - tem a ver com a própria sagrada escritura. partindo dos Desafios da realidade, enfrentados pelos discípulos e discípulas de Jesus (mesters fazia alusão ao discipulado exercitado, não apenas pelos 12 apóstolos e pelas 7 Mulheres que o seguiam, que o serviam, e que com eles subiram até ao Calvário, mas também da multidão que Jesus de Nazaré, profeta itinerante da Judeia da Galileia, acompanhava). A Sagrada Escritura constitui a baliza, a referência principal, a partir da qual a realidade, cercada de todo tipo de desafio, passa a constituir no exame consciencioso entre o que se passa na realidade concreta e o quê o espírito do ressuscitado inspira aos caminhantes, mulheres e homens. Outro aspecto complementar é a comunidade, aquela que é chamada pelo Espírito do ressuscitado a tornar presentes, já agora, os sinais do reino de Deus, no mundo.

Feita esta introdução de caráter metodológico, Frei Carlos Mesters conduz sua reflexão a situar o evangelista Mateus em seu contexto histórico "Quem era Mateus?" A partir daí, ele passa a situar o processo de registro do primeiro Evangelho canônico. Lembra que se trata de uma tarefa, assumida por Mateus (chamado Levi, o animador), registrar aspectos do que ele pôde escolher de outros apóstolos e de várias comunidades, ditos e feitos de Jesus de Nazaré, Quase meio século após a crucifixão do mestre no início da década de 80 do primeiro século, Mateus apresenta o que ele pode escolher e sistematizar, acerca de Jesus, em sua missão itinerante pelas Aldeias de Galileia, tendo como objetivo principal animar os judeus convertidos ao cristianismo, em uma organização fragilizada pela perseguição movida pelos judeus não convertidos ao cristianismo, após sua expulsão das sinagogas. Por que, para Mateus, era importante destacar a narrativa evangélica como uma apresentação de Jesus como o Messias, como aquele que fora predito pelos profetas da antiga aliança? Com efeito, o Evangelho de Mateus, por meio de temas candentes, trata de fortalecer a convicção e a disposição missionária daqueles judeus convertidos ao cristianismo, presentes em Israel e na Síria.

Ainda na parte introdutória de sua frutuosa reflexão sobre o Evangelho de Mateus, e recorrendo também a outros evangelistas, Frei Carlos Mesters, entre tantos outros aspectos, abordou o jeito característico de Jesus Evangelizar, em especial a importância que ele dava ao próprio caminhar. Ao caminho vive a peregrinação de tal modo que o rico episódio acerca dos discípulos de Emaús destaca bem este jeito de Jesus exercitar sua missão. Põe-se a caminho. Observa que discípulos vão à frente, e Jesus apressa o passo até alcançá-los. Não se empenha em falar, antes, em escutar o que diziam aqueles caminhantes, perguntando-lhes sobre o assunto que estavam a destacar, em seu caminho. Respondem ele que estavam a lamentar o quê, havia bem pouco, tinha sucedido em Jerusalém, envolvendo a figura de Jesus de Nazaré, que eles acreditavam ser o Messias poderoso, que enfrentaria e venceria seus adversários. Mas, lamentavam profundamente pelo que sucederá . e estranhavam da parte daquele que os acompanhava sua ignorância em relação àquela ocorrência. Jesus, por sua vez, pretendia mesmo escutar aquele profundo lamento, e pacientemente aguardar o momento oportuno de despertar-lhes a consciência enquanto caminhavam. Jesus também compartilhava elementos fundantes da Sagrada Escritura, de modo a fazer arder o coração dos discípulos de Emaús. Dizia Frei Carlos Mesters: a Palavra de Deus faz arder o coração dos que a escutam, mas o despertar mais forte da consciência e do compromisso se dá mesmo é pela força dos gestos, da prática. Aludia ao jeito de Jesus, quando convidado pelos discípulos de Emaús a pernoitar com eles, e enquanto ceavam, observaram o modo como Jesus partiu o pão, fazendo assim despertar sua consciência da força da Sagrada Escritura e, sobretudo, despertar o seu compromisso com a causa do Evangelho, razão por quê cuidaram de retornar, sem medo, a Jerusalém, a pregar o que é compartilhado, na Companhia de Jesus. 

Recorrendo ao Evangelho de Lucas, Frei Carlos Mesters empenhou-se em focar passagens mais fortes da narrativa de Lucas, tais como: a passagem relativa à parábola do samaritano; o modo contundente de Jesus de mostrar as diferenças entre as lições da antiga aliança e as da nova Aliança, para o quê recorreu ao conhecido Sermão da Montanha ( Mt. capítulos 5 a 7), sublinhando certos ditos de Jesus "na antiga aliança se dizia assim: olho por olho e dente por dente, mas eu lhe digo, amem seus inimigos e rezem por eles.” É desconcertante a mensagem revolucionária de Jesus. Ao mesmo tempo, faz menção a passagens em que Jesus faz compor o seu grupo de pessoas com características bastante diversas: de um lado, chama para o seu grupo um cobrador de impostos (caso de Mateus), enquanto de outro chama alguém marcado por uma resistência política mais ativa ao regime de então.

E assim, Frei Carlos Mesters, sempre de forma contundente, acessível jovial, aos seus 88 anos, mostrando-se bastante disposto e com saúde, para compartilhar sua reflexão por cerca de 2 horas, encheu de alegria os corações das pessoas ali presentes.

Eis, em breve um testemunho do que dele ouvimos, observamos e sentimos: um missionário itinerante a serviço da tradição de Jesus, do Reino de Deus e sua justiça.

Acerca da vasta obra da lavra de Frei Carlos Mesters, destacamos e recomendamos, de memória, os seguintes: “Canto na Fogueira (Cartas de Frei Betto, Frei Ivo e Frei Fernando, quando prisioneiros da Ditadura Civil-Militar)”, “Por trás das palavras,” “Seis dias nos Porões da Humanidade”, “Flor sem Defesa, Deus, onde está você?”, “Bíblia livro feito em mutirão”, “Como ler o livro de Rute, Pão Família Terra”, “Apocalipse, Esperança de um povo que luta O Apocalipse de São João: Uma chave de leitura”., “Paulo Apóstolo: um trabalhador que anuncia o Evangelho”.

João Pessoa 13 de março de 2020.

terça-feira, 10 de março de 2020

COPARTICIPAÇÃO FEMININA NOS DIVERSOS AMBIENTES: concessão ou direito, que se vai conquistando?


COPARTICIPAÇÃO FEMININA NOS DIVERSOS AMBIENTES: concessão ou direito, que se vai conquistando?

Alder Júlio Ferreira Calado

Cavoucando nossas memórias de rebeldia vêm-nos à tona emblemáticos episódios de lutas do final do século XIX. Em face das crescentes agruras ensejadas pelo processo de acumulação capitalista, naquela fase da chamada Revolução Industrial, da qual eram vítimas as classes populares (Operários, mulheres, crianças….), estas tratavam de opor sua resistência, do modo como podiam. Assim sucedeu às mulheres, inclusive. Daí nascem iniciativas memoráveis de resistência, a exemplo da criação do Dia mundial do Trabalhador (Primeiro de Maio), o Dia internacional da Mulher. Tais iniciativas seguem inspirando as vítimas, ainda hoje. Delas continuamos a nos inspirar, especialmente no que diz respeito à sua capacidade de resistência. Ainda que todos os dias correspondam ao dia de cada mulher, o dia 8 de Março lembra, de modo muito especial, as lutas das mulheres, pelo mundo afora, nos mais diversos espaços sociais, tanto concernentes à sociedade civil como aos distintos espaços eclesiais.

Nas linhas que seguem, cuidamos de compartilhar inquietações nossas acerca do lugar que continua a ser reservado às mulheres, tanto na sociedade quanto nas igrejas cristãs. Após algumas considerações críticas acerca deste desafio, ousamos compartilhar alguns questionamentos, com o propósito de contribuição ao debate.

Acompanhando o desenrolar dos fatos sociais, econômicos, políticos e culturais, em nossa desafiadora atualidade, dedicamos especial atenção ao segmento das mulheres, que, como se sabe, correspondem à metade da população mundial e de cada país. Que lugar lhes tem sido reservado, nas tomadas de decisões, seja no campo macrossocial, seja no campo das diferentes denominações cristãs?

Multiplicam-se, a este respeito, as estatísticas oficiais, dando conta dos escandalosos índices relativos à condição feminina, desde os assustadores de feminicídio e de formas de violência contra as mulheres. Percorrendo nosso olhar sobre diferentes instâncias econômicas, políticas, culturais e religiosas, somos ainda surpreendidos com o lugar que, nas instâncias de decisão, segue sendo reservado às mulheres. Na esfera econômica, por exemplo, resulta espantoso o que se tem reservado, em matéria de ocupação de liderança no campo empresarial,  na atribuição de remuneração, nos índices de empregabilidade, quanto ao percentual de pobres (mulheres em sua grande maioria) no mundo, na ausência ou evidente insuficiência de mulheres como sujeitos de decisão, em indistintos campos: na saúde, no trabalho, no próprio campo esportivo, nos cargos de gerência. O mesmo sucede, no campo político: que percentual de mulheres vem ocupando o Legislativo (câmaras municipais, assembleias legislativas, Câmara Federal, senado da República), no Executivo (em todas as esferas), no âmbito do Poder Judiciário, em suas distintas esferas, qual o percentual de mulheres que ocupam tais instâncias? Nas Forças Armadas e na estrutura militar geral, qual o lugar ocupado pelas mulheres, especialmente nos cargos de comando?

No campo específico das igrejas cristãs, a realidade não se mostra tão diferente. Na Igreja Católica Romana, por exemplo, qual é o lugar ocupado pelas mulheres, que constituem a metade da Comunidade Católica Mundial? A este respeito, vem-nos a lembrança um episódio marcante, que se passou em uma das aulas conciliares do Vaticano II (1962 -1965), ao qual voltaremos mais adiante, ilustrando a insensibilidade dos padres conciliares acerca da condição feminina, como sujeito de decisão ao interno da Igreja Católica Romana. Tantas décadas depois, estando ainda a nos defrontar com graves impasses não equacionados.

É certo, no entanto, que de lá para cá temos acompanhado, um pouco por toda a parte, o empenho dos movimentos feministas, dos quais tem resultado algumas conquistas, que devemos saudar com entusiasmo. De fato, graças a essas constantes lutas empreendidas pelas mulheres em movimento, muitas conquistas relevantes têm sido alcançadas, mas ainda estamos longe de um razoável equacionamento, em especial no que diz respeito à paridade de sujeitos, quando se trata da tomada de decisões seja ao interno da Igreja Católica Romana e de outras igrejas cristãs, seja no espectro econômico, político, cultural no terreno macrossocial.

Nas linhas que seguem, ousamos levantar alguns questionamentos, com o propósito de alimentar este debate. Sem desconhecermos e aplaudindo conquistas femininas ou feministas, em distintas áreas da vida social e eclesial até que ponto é possível nos darmos por satisfeitos e satisfeitas em relação a tais conquistas? No âmbito macrossocial, quem, hoje, segue tomando as decisões fundamentais da vida social, política, cultural e religiosa? 

No plano econômico, por exemplo, quem toma as decisões relativas a este processo insuportável de financeirização esdrúxula do capitalismo em sua fase/face mais perversa - a do financista, do rentismo, marcado pela crescente expansão do parasitismo, manifesta às escâncaras, por exemplo, nos escandalosos paraísos fiscais? 

Em orgânica associação da praga financista com outros setores do capitalismo (setor produtivo, e os que atuam nas atividades comerciais e de serviços), como separar os malefícios produzidos por este sistema de barbárie?

É ou não possível, necessário e urgente, também para os sujeitos femininos, ousarmos empreender passos processuais em busca de um modelo societal de organização, que se mostre concretamente alternativo à barbárie do capitalismo? É ou não é urgente que enfrentemos, juntos - mulheres e homens de todos os recantos - o desafio de empreendermos passos convincentes em direção à construção de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal? Modo de produção que se traduza pela capacidade de responder às graves e crescentes carências materiais e às necessidades imateriais do gênero humano, em harmonia e respeito à dignidade da mãe natureza? É ou não é urgente ousarmos passos no horizonte de um modo alternativo que repense criticamente e decida que prioridades devemos assegurar quanto ao processo produtivo? O que priorizar no amplo e complexo processo produtivo? No campo do setor primário, por exemplo, como vamos cuidar das atividades extrativistas, de modo a não agredir a mãe natureza? Como priorizar uma produção agrícola e de criação de animais, que responda às necessidades materiais concretas do conjunto de habitantes do nosso planeta, sem agressões ao meio ambiente? O mesmo somos chamados e chamadas a perguntar, quanto aos setores industrial, de comércio e de serviços. E mais: o quê dessa ampla lista de produtos deve ser priorizado, em função não de pequenos grupos monopolistas nacionais e internacionais, mas das necessidades reais do conjunto da população, em harmonia às condições de cuidado de que nosso planeta deve ser alvo? Que condições de trabalho devem ser asseguradas, na produção de bens e serviços? Quem é chamado a trabalhar, nestas atividades, de modo a respeitar a equidade de gênero, na realização destas tarefas? A quem se destinam tais produtos? Trata-se, como se pode perceber, de algumas questões às quais tantas outras devem ser acrescentadas, todas visando a superação processual das desumanas desigualdades que caracterizam o atual modo de produção.

Qual o lugar das mulheres, nas instâncias de decisão? Em outras tantas igrejas cristãs, a pergunta merece ser refeita. Constatação que não vem de hoje. Há cerca de um século, este debate vem sendo mantido, ainda que em círculos minoritários destas igrejas cristãs ainda em uma das últimas sessões do Concílio Vaticano segundo (1962 -1965). Um dos Cardeais - O Cardeal belga Leo-Josef Suenens-, em uma das aulas conciliares, ousou pedir aos padres conciliares presentes àquela sessão, que olhassem para seus lados, e perguntou: onde está a outra metade da igreja aqui representada? Em outras palavras, suscita o espanto geral, diante da escandalosa ausência das mulheres, no momento em que assuntos decisivos para a caminhada da Igreja Católica Romana, de modo a excluir completamente a participação feminina naquelas decisões. Aqui, não nos referimos a uma presença simbólica de mulheres - religiosas e leigas - (que, de fato, aconteceu) como assistentes, espectadoras, excluídas, porém, do direito a voz e ao voto, comum acontecia aos varões.

Diante destas constatações, somos todos interpelados, primeiro, a reconhecer a grave injustiça que as mulheres vêm sofrendo, tanto no espectro macrossocial, quanto ao interno das igrejas cristãs. Em um caso e outro, não obstante sua crescente participação nos diversos ambientes societais e eclesiais, não se trata de participação nas decisões em tais ambientes. É justamente disto que aqui se trata. Nosso grande desafio continua sendo: que passos históricos somos convocados a empreender, numa perspectiva de urgente necessidade de correção de rumos e de procedimentos, em busca de perseguirmos o horizonte almejado? 

Uma primeira pista, neste sentido, a merecer nossa consideração, diz respeito a termos presente que tipo de sujeito histórico melhor corresponde à tarefa principal de protagonizar este passos. Mais uma vez, centramos nossa atenção naquelas forças históricas que têm tido o papel central de priorizar e efetivar passos, nesta direção. Ao longo da história, as mudanças sociais de expressão foram, com efeito, obra principalmente dos movimentos sociais populares, seguidos ou acompanhados por outras forças comprometidas com o mesmo horizonte. Em breve, estamos nos referindo a uma verdadeira sociedade em movimento, cujo dinamismo pressupõe um leque de forças sociais organizadas, seja como resistência à dominação sofrida, seja principalmente como agentes ousando construir uma alternativa à tal ação hegemônica. Neste sentido, referimo-nos a um conjunto de forças protagonistas, parceiras e aliadas na construção do mesmo horizonte. Trata-se, fundamentalmente, das classes populares, contando com seus parceiros e aliados, presentes tanto no universo sindical quanto em um amplo leque de partidos situados no campo popular, progressista, democrático, de clara oposição aos fundamentos do sistema capitalista, em especial em oposição ao seu setor mais parasitário e destrutivo, como vem sendo o setor financeiro.

Por outro lado, não basta uma definição quanto às forças historicamente chamadas a opor uma efetiva resistência à barbárie capitalista em vigor, mas também é preciso contar com forças que tenham clara consciência de suas tarefas desafiantes. Em se tratando de uma luta contínua e gigantesca contra um inimigo tão forte, tão historicamente enraizado, em escala internacional e nacional, que tem acumulado séculos de experiência de exploração, opressão e marginalização da imensa maioria dos cidadãos e cidadãs, bem como desrespeitando a dignidade do planeta, tendo apenas como alvo de enriquecimento predatório. Tal consciência histórica com que se deve contar, em relação a este "novo Príncipe", é preciso também compreender a complexidade e a extensão dos seus mais distintos perfis, indo muito além de entender tais sujeitos como um bloco monolítico, composto tão somente por algumas marcas de caráter econômico, ou de caráter político ou de caráter cultural, compreendendo como um sujeito necessariamente pluriforme, de forma profundamente conectada, em suas dimensões econômica, política e cultural.

A despeito da enorme polissemia que gira também em torno do conceito "Classe social", é justamente este conceito ou, melhor ainda, esta experiência histórica da qual partimos para definir melhor os protagonistas das urgentes e necessárias mudanças almejadas. É claro que não o fazemos, reduzindo tal conceito a sua compreensão dominante no século XIX mesmo no século XX. Sem abrirmos mão de elementos identitários então presentes, estamos certos de que aqueles traços já não são suficientes para o enfrentamento exitoso dos desafios atuais. Há de ser atualizado tal conceito, entendendo "classe social" ou "classe trabalhadora", não apenas em sua dimensão econômica, como mera força de trabalho ou mesmo como uma mera dimensão produtiva, desafiado por uma conjuntura ou mesmo por uma estrutura que se circunscrever aos seus traços meramente produtivos ou econômicos, mas, sem desprezo destes mesmos traços, somos historicamente chamados a situar aqueles traços em um espectro bem mais complexo e amplo, de modo a nos darmos conta de que o "novo Príncipe" há de ser entendido para além de suas características produtivas, de modo a tomar necessariamente em consideração outras marcas igualmente relevantes que devem ser acrescentadas, na atualização do conceito "classe social" ou "classe trabalhadora". Portanto, somos instados, por força das mudanças históricas recentes e menos recentes, a considerar criticamente este mesmo sujeito histórico, protagonista das novas mudanças urgentes, como um sujeito que, além de ser produtor, também acumula outras marcas não menos importantes, tais como: sua caracterização nas relações sociais de gênero, de etnia, de geração de espacialidade, de subjetividade, entre outras. Há cinquenta ou cem anos atrás, o problema sócio ambiental, por exemplo, não despontava como uma prioridade tão relevante, como vem assumindo de algumas décadas para cá. O mesmo deve dizer-se em relação a marcas deste mesmo sujeito, no campo das relações de gênero, etnia, de geração, de relação com o sagrado.

Inspirados também no Dia Internacional da Mulher, mas não apenas nele, tomemos como exemplo a urgência de situarmos de modo adequado as relações de gênero na caracterização deste sujeito histórico, isto é, da "Classe Trabalhadora". Trata-se de entendermos, uma vez por todas, que as mulheres constituem metade da Classe Trabalhadora, estes são o direito e o dever de participarem nas decisões fundamentais de organização social, nos mais variados ambientes de que participam mulheres e homens.

Muitos são os grupos de pesquisa feministas que continuam trabalhando sobre a necessidade, para uma compreensão objetiva das relações de gênero, de modo a não mais lidar-se apenas com com as relações sociais de gênero, como condição única para entender as demandas históricas das mulheres. Consolida-se, neste sentido, a compreensão de que não se pode dar conta satisfatoriamente dos desafios apresentados pelas relações sociais de gênero, sem vinculá-las organicamente a tantas outras dimensões dos sujeitos femininos, igualmente relevantes. Isto significa, por conseguinte, ao mesmo tempo em que pesquisadoras e pesquisadores, militantes e ativistas - mulheres e homens - se dão ao trabalho de investigar as múltiplas demandas e aspirações das mulheres, enquanto pólo das relações de gênero, devem também associar todas essas demandas e desafios a outras dimensões das quais as mulheres são igualmente portadoras. Com efeito, buscar responder ao desafio de compreensão e análise da condição feminina, implica necessariamente o compromisso investigativo e ético-político tomar em conta as múltiplas conexões da condição feminina, em sua historicidade. Significa, ademais, compreender e tomar a sério que, ao se falar em mulheres, somos instados a compreendê-las como partícipes de uma complexa e vasta rede de relações, a envolver igualmente sua dimensão étnica (mulheres indígenas, mulheres afrodescendentes e de outras procedências étnicas), sua dimensão geracional (implicando as articulações existentes entre as várias idades), a dimensão espacial - as diversas procedências histórico-geográficas e culturais: campo, cidade, diferentes regiões, diferentes países e continentes  -, sua condição em relação ao sagrado, bem como outras dimensões que completam os requisitos para uma leitura objetiva ou menos imprecisa da condição feminina. 

Ousamos, ainda, assinalar que todas essas dimensões se acham atravessadas por uma outra, a dimensão de classe social, uma vez que, diferentemente de abordagens economicistas hegemônicas em séculos passados, somos instados a perceber a incidência da experiência de classe social ou classe trabalhadora nas múltiplas dimensões que constituem ou compõem historicamente a condição feminina. Urge, portanto, entendermos a relevância da experiência ou da incidência de classe social, como um fio condutor a atravessar, costurando-as, todas as demais dimensões da condição feminina. 

A este respeito, importa tomar cuidado com uma certa banalização do feminismo, que sói produzir-se especialmente em efemérides do calendário civil (por exemplo, Dia Mundial da Mulher), em que certas figuras de referência - sobretudo, as tomadas como paradigmáticas pela mídia corporativa - são apresentadas trazendo um discurso “feminista” completamente desvinculado não somente das dimensões étnica, geracional, espacial…, mas sobretudo desvinculado da dimensão de classe. Um exemplo bem ilustrativo é o que se costuma propagar, nestas ocasiões, incentivando as mulheres a participarem dos processos eleitorais como candidatas, dando a entender que basta ser do sexo feminino para se cumprir uma agenda feminista. Ainda ontem, na TV Cultura, foi entrevistada pelo programa Roda Viva a Senadora Simone Tebet, a confirmar tal discurso, exaltando com toda a força o “êxito” das “reformas”, em especial a da “reforma trabalhista”...

No caso da busca de alterações nas estruturas organizativas da Igreja Católica Romana - e de outros espaços eclesiais -, importa analisar e debater várias possibilidades que se abrem, em vista de passos concretos na direção da superação dos desafios presentes. Um destes passos pode ser ou partir do entendimento de que todo o conjunto da Comunidade Católica tem como característica comum o batismo. A experiência batismal, com efeito, confere um ponto de igualdade que atravessa a todos os católicos e católicas, independentemente dos segmentos dos quais façam parte, independentemente de serem leigas e leigos, religiosos, religiosas ou ordenados. Uma vez tomada a sério tal marca comum, torna-se possível evoluir, mas, em direção a um entendimento comum alternativo aos atuais critérios de definição dos sujeitos de decisão, ao interno da Igreja Católica Romana.  

Neste sentido, tal como tem ocorrido, sob a inspiração da colegialidade, marca do Concílio Vaticano II, que deveria inspirar a descentralização das decisões entre Bispos, Presbíteros e Diáconos (todos ordenados), de modo semelhante poder-se-ia avançar no sentido de ampliar o alcance desta mesma colegialidade, estendendo-a aos demais segmentos. Isto, aliás, já acontece, em relação aos religiosos e religiosas, isto é, do mesmo modo como o segmento dos bispos se acha organizado em conferências continentais e nacionais - no caso do Brasil, a CNBB -, e assim como os religiosos e as religiosas já contam com sua conferência específica - a CRB -, de modo análogo, não há razões consistentes para que não possamos avançar em relação aos demais segmentos. Em vez de, como continua acontecendo, os segmentos das leigas e dos leigos, dos diáconos e dos presbíteros serem contemplados, nos processos decisórios, como organismos anexos da CNBB, por que não se organizarem também, para além de meros Conselhos - o CND, CNP e o CML… -, tornando-se também fraternas conferências, sem que isto signifique qualquer ruptura de relação de convivência fraterna e respeitosa.

Temos consciência de que tal ideia ainda resta longe de efetividade, mas não deixa de ser um passo na direção almejada. Na verdade, pode-se objetar, do lado das Mulheres, que interesse nelas despertaria tal iniciativa. Se, por outro lado, tomamos em conta que as mudanças se fazem processualmente, a iniciativa mencionada ajudaria a acumular forças favoráveis às Católicas, no sentido de irmos plantando sementes, em vista de uma instância mais ampla, em termos de Igreja Católica Romana  - algo como um Concílio, a ser organizado com novos critérios... 

Em resumo, trata-se de apenas de um debate que buscamos realimentar, acerca destes desafios.

João Pessoa, 10 de março de 2020.