quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A arte de escolher, em busca de uma vida plena: ressonâncias no chão do cotidiano

“Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e tua descendência.” (Dt 30, 19)
O cotidiano também pode ser concebido como uma oficina de tecelaem, cujos múltiplos e diversificados fios nos desafiam e nos instigam a criatividade, uma vez que, para a tessitura dos mesmos fios, nos provoca, nos convoca a fazer escolhas, a decidir. Escolhas cujo desfecho, embora não possamos antever, em detalhes, dele podemos ter alguns traços, cores e formas, à medida que nos empenhamos em seu processo. Não caminhamos, assim, às cegas, no processo de nossa existência. Seres vocacionados à Liberdade, isto é, a uma vida em busca de plenitude, a que nos instiga o processo de humanização, vamos tateando por mil veredas, que ora nos aproximam, ora nos distanciam consideravelmente do horizonte perseguido. A despeito das seguidas incertezas e enigmas que acarretam, não raramente, dissabores, desencontros e decepções, não cansamos de rever e ajustar nossos passos, reacendendo nosso horizonte de plenitude, e retificando escolhas desastradas. Por vezes, tão frequentemente nestas nos flagramos, que – ao menos por um instante – sentimo-nos desencorajados a retomar as boas escolhas, até porque, no mais recôndito de nossa consciência e do nosso coração, onde habita o Sopro de Vida Plena, somos capazes de averiguar as más veredas e retomar os caminhos compatíveis com o nosso sonho mais pleno de Liberdade, e “ubi Libertas, ibi Spiritus” (“Onde houver Liberdade, aí se encontra o Espírito”).
Nessa busca INCESSANTE, no entanto, e nessas idas e vindas, nesses altos e baixos (dados nosso inacabamento e nossos limites), nunca deixam de pairar sobre nós, dentro de nós e ao nosso redor, incontáveis sinais que a vida nos oferece, e que, desde que por nós captados e, interpretados adequadamente e, sobretudo, tomados a sério, representam valiosíssimas ocasiões de (re)orientação do nosso sentir-pensar-querer-agir. Aqui, convém sublinhar, com muita força, que nunca nos quedamos completamente desprovidos de uma luz – um fiozinho de luz que seja – para discernir as ocasiões-limite, nem nunca somos movidos, de forma determinista, por supostas forças cegas do destino. Estas, com frequência, nos servem de frágeis “álibis” que, mais cedo ou mais tarde, se desmontam e se desfazem, como névoa, à chegada do Sol. A duras penas, vamos aprendendo que só a verdade liberta, só a verdade é revolucionária. De pouco ou de nada valem nossas máscaras, a nos remeterem àquela imagem do gato escondido, que deixa à vista a ponta do rabo.
Nessa marcha incessante em busca da Liberdade, que veredas nos favorecem e que veredas nos distanciam deste horizonte? Comecemos pontuando o segundo aspecto.
Que práticas nos distanciam do horizonte da Liberdade?
Incontáveis, sabemos, são as veredas que conduzem à Liberdade, a uma vida em permanente busca de plenitude. Tal multiplicidade de caminhos, porém, não anula a incidência de más escolhas ou de opções equivocadas que, em vez de conduzirem ao horizonte desejado, induzem, antes, ao seu contrário. Parece útil, de passagem, assinalar algumas dessas veredas equivocadas.
– “Liberdade é fazer o que quero” – Quem de nós já não experimentou isto? E já não teve a sensação enganosa de se ter dado bem? E quantos não acabam reeditando tais vias de sedução? As (auto)justificativas se multiplicam: “As coisas são assim mesmo: temos mais é que aproveitá-las”; “Por que não aproveitar o momento?”; “A vida é assim mesmo”… Mesmo sabendo que tais escolhas tendem, não raramente, a cristalizar-se, até a banalizar-se, vale sempre a pena problematizar tal situação, por meio de alguns questionamentos, do tipo:
– Esta escolha só tem beneficiários, ou implica ofensa a pessoas ou a grupos?
– Se acarreta problema para outrem, como justificar a pertinência ética da escolha?
– Ainda que esta tenha sido uma opção frequente, isto quer dizer perpétua, ou é possível rever tal opção, por meio de critérios saudáveis à busca de uma vida em plenitude?
– Ainda que meu sentir, meu pensar, meu querer, meu agir tenham sido assim habitualmente, isto quer dizer que eu não posso mudar? E mudar para ser uma pessoa mais livre, mais feliz, mais solidária, mais servidora e, no caso de pessoas de fé cristã, mais fiéis aos valores do Reino de Deus e Sua justiça?
Que veredas e práticas se mostram indutoras e consequentes com um horizonte de Liberdade?
Na imensa diversidade de caminhos que o Espírito de Liberdade tem suscitado e segue suscitando nas pessoas e nos grupos, sinceramente comprometidos com um horizonte de vida em plenitude, aqui nos restringimos a assinalar levemente apenas algumas dessas infinitas possibilidades:
– Pessoas e grupos em estado de busca de vida plena, conduzidos pelo Espírito de Liberdade – Comecemos lembrando duas coisas. Isto não é algo que se situe apenas num futuro longínquo: ainda que de modo molecular, isto já anda acontecendo, em tantos lugares deste mundo de Deus, também entre nós. Isto não implica apenas pessoas com fé confessional: “O Espírito sopra onde quer”…
Tal estado de busca faz-se presente em alguém (pessoal ou coletivo) que não se deixa fazer refém da rotina do cotidiano. Sem prejuízo de cumprir sua dinâmica, ousa e consegue respirar e ir além de suas amarras. Em inumeráveis ocasiões, mostra-se capaz de romper com tais amarras, sempre movido pela paixão de servir, em especial às pessoas e grupos mais necessitados de tal solidariedade. Às vezes, isto se dá em âmbito pessoal; outras vezes, no plano comunitário. Exercitar permanentemente esse estado de busca implica deixar-se abrir generosamente aos apelos do Espírito de Liberdade. Implica MOVIMENTAR OU DIVERSIFICAR A ROTINA! Torná-la frutuosa: “A árvore se conhece pelos seus frutos”! Isto também implica empenho em criatividade, em fazer o novo ir acontecendo. Fazer brotar novas relações, relações alternativas ao modelo mercantilista, consumista, refém de modas que pouco ou nada têm de humanizadoras, tal como se dá na frenética corrida de aquisição de produtos da moda, inclusive no figurino estético hegemônico, expressão de atitudes profundamente esquizofrênicas, em que o que importa não é ser o que se é, mas aparentar, parecer, agradar ao gosto estético de outros…
Criar, desde o chão do cotidiano, implica investir mais e mais em atitudes inovadoras, desde nós: ousar fazer o que antes nos parecia impossível; acreditar nos projetos humanizadores e, portanto, a cada dia, a cada momento, dando passos concretos nessa direção; ousando ensaiar uma reviravolta em nossa rotina, liberando-nos das amarras do dia-a-dia, cuja superação está ao nosso alcance. Quantas coisas há, cujo controle está efetivamente ao nosso alcance! Por outro lado, quanto tempo (e outas coisas…) desperdiçamos, no dia-a-dia. Um tempo que nos daria MUITO MAIS ALEGRIAS E REALIZAÇÃO!
Nâo basta falar-se em criatividade, como se fora uma panaceia. Há criatividade, bem o sabemos, para todos os gostos… Importa, sim, explicitar o sentido da criatividade, de que falamos. Trata-se de uma criatividade que se mostre alternativa ao modelo vigente, isto é, cujos passos e iniciativas se revelem como um antídoto ao atual sistema mercantil totalitário, em seus múltiplos e complexos traços. Trata-se, também, de um empenho inventivo que se revele consistente e em constante estado de busca, portanto incessante. Vale lembrar uma lição que extraímos das grandes invenções e descobertas, inclusive no universo científico-tecnológico. É praxe exaltar-se a notícia de cada grande invenção, de cada grande descoberta. Nada a objetar. Bem rara, contudo, é a divulgação de como se deu cada uma delas. Muito poucos ficam sabendo de relato do processo de cada uma delas. Pouca gente sabe ou se lembra de que, o dia “D” da constatação definitiva de cada invenção ou descoberta é sempre precedida de incontáveis testes, o que implica necessariamente uma sucessão de prévios insucessos, sem os quais os respectivos protagonistas não teriam qualquer êxito. O erro faz parte do processo: “Errando díscitur”! Aqui, como em tantas outras experiências existenciais, é preciso fazer justiça à pedagogia do erro! Há uma expressão emblemática, a este respeito, até no âmbito litúrgico, que se vivencia na vigília pascal, mais precisamente no Precôno Pascal. Refiro-me à expressão “Ó feliz culpa!” No universo da Cultura, não há como deixarmos de ser animais aprendentes. O Universo, o mundo, a história, a rua, a própria natureza – tudo se torna espaço de aprendizagem ininterrupta, sem o que não nos tornamos gente. Somos seres aprendentes. Múltiplos e incessantes são nossos aprendizados. Aprendizados de variado grau de complexidade. Há coisas que aprendemos pela simples experiência de vida – um aprendizado a olho nu, digamos. Outras vezes, dada a complexidade de outras realidades, já não basta o aprendizado espontaneísta, a olho nu. Um exemplo bem ilustrativo é a realidade social. Esta não aprendemos razoavelmente, a não ser que disponhamos de lentes especiais, de que armemos nossos olhos, dotando-os de lentes especiais, que nos permitam alargar nossa visão crítica, de modo a romper o espesso véu ideológico que a encobre, ou que, graças aos mecanismos midiáticos e publicitários sob seu controle, dela apenas faz aparecer a mesma realidade apenas sob os ângulos que lhe interessam. Tal exemplo ilustrativo não esgota, por certo – longe disso! – a caracterização da natureza complexa da realidade social. Tal é seu grau de complexidade, que aspectos importantes da mesma chegam a escapar à compreensão até de quem dela busca aproximar-se mais de perto. Por outro lado, esta característica, em vez de desencorajar quem a busque compreender mais objetivamente, suscita, antes, o dever de um cultivo adequado do seu necessário acompanhamento, afinal vai melhor apreendê-la, compreendê-la, quem dela mais adequadamente se aproximar com os instrumentos adequados. É justamente aqui que vai incidir um ponto-chave para uma leitura menos imprecisa da mesma realidade. Referimo-nos ao processo de formação contínua de cidadãos e cidadãs, enquanto seres humanos, enquanto Gente.
Quando nos atemos à sucessão de equívocos cometidos, em especial nas últimas décadas, pelas forças sociais historicamente protagonistas de mudança social, verificamos que, entre os fatores aí presentes, se acha o abandono ou o declinante investimento em seu processo formativo contínuo, tanto de suas respectivas bases, quanto de seus dirigentes, com o compromisso inclusive de não cessarem de aprimorar tal processo, em função de um exitoso enfrentamento dos desafios – velhos e novos – com os quais se confrontam. Convém, então, perguntar-se: de que tipo de formação se trata? Por mais reconhecimento que devemos devotar ao processo de formação escolar, pela qual tanta gente passa parte de sua vida, importa assinalar dois pontos fundamentais: primeiro, tal processo não se apresenta contínuo: é passageiro, tem duração limitada. Depois, e principalmente, deve-se sublinhar que a formação escolar – seja quanto ao sistema de ensino público, seja quanto ao sistema privado de ensio – é sempre controlado pelo Estado que, como se sabe, constitui um dos pilares fundamentais do sistema capitalista. Seria, no mínimo, estranho esperar-se que o Estado se disponha como tarefa, mudar o modelo de sociedade hegemônico… A formação escolar privilegia ou até se ocupa exclusivamente de atender às demandas do Mercado: “educar para o Mercado”… Ainda quando investe parte do seu tempo e do seu esforço em recobrar a memória de temas importantes, cuida especialmente de orientar seus educandos e educandas em direção a uma postura de acomodação ao “status quo”. E, excepcionalmente, quando é gerido por segmentos populares com verdadeiro propósito de mudança do modelo vigente, quase sempre encontra oposição decisiva a tais segmentos, a ponto de promover seu desmonte, seja por força da Lei, seja por meios violentos.
Então, não sendo a formação escolar o espaço adequado para operar-se um processo contínuo de formação característicos das forças protagonistas de mudanças alternativas ao modelo vigente, de que processo se trata, então?
Primeiro, convém sublinhar o caráter ininterrupto deste processo formativo: estende-se por todo o curso da existência dos respectivos sujeitos deste processo formativo. Em segundo lugar, importa lembrar que isto não é tudo, isto é, não basta que seja contínuo. É preciso também tratar-se de uma proposta formativa integral, ou seja, que se atenha, de um lado, aos mais diversos aspectos do processo de humanização (econômico, político, cultural, de modo a comportar as mais variadas dimensões (cósmica, ecológica, mística, subjetiva, de relações de gênero, étnicas, geracionais, artístico-culturais, lúdicas, de espacialidade, lúdica, etc., etc.), e, de outro lado, ao conjunto dos seres humanos. Por mais complicado que nos pareça, o certo é que tais dimensões podem ou não devem ser enfrentadas isoladamente ou de forma “etapista” (uma após outra), mas, antes, precisam ser vivenciadas de modo dinamicamente articulado, como uma complexa malha composta por múltiplos fios a serem adequadamente costurados. Sem prejuízo de tal articulação, cada uma das dimensões aqui destacadas (e outras ainda) demanda uma compreensão singular da parte dos sujeitos protagonistas desse processo. Não é o caso de enfrentar aqui tal tarefa. Em várias ocasiões anteriores, de algumas delas já nos ocupamos (cf. http://consciencia.net/author/alder/)
Aqui nos limitamos apenas a lembrar a importância desta incursão reflexiva. Com efeito, como trabalhar, por exemplo, a dimensão mística, sem conectá-la, de algum modo, com cada uma das outras dimensões mencionadas, e com o seu conjunto? Isto, aliás, além de demandar uma compreensão adequada do(s) sentido(os) da mística e cada uma das demais dimensões, também implica – e sobretudo! – o compromisso de ensaiar, no chão do aia-a-dia, uma vivência integrada de tais dimensões. De algumas décadas parfa cá, tal vem sendo a importância que tenho atribuído às relações do dia-a-dia, que, num artigo publicado em meados dos anos 90, cheguei a afirmar algo assim: “Dize-me qual é a qualidade do teu cotidiano, que te direi o tipo de sociedade que sonhas construir.” Em que pesem todas as nossas limitações (pessoais e coletivas), somos chamados a vivenciar uma experiência processual de humanização de plenitude, e, aí, ainda que não alcancemos, somos chamados a fazer nossa parte, a tentar incessantemente…
Esse conjunto de condições requer o espaço do cotidiano como ambiência necessária para a concretização desse processo – na dose que está ao nosso alcance, é claro -, ainda que de modo molecular, progressivo, processual, relativo, limitado, marcado pela provisoriedade, mas de todos os modos, em curso, em se fazendo, “hic et nunc”. Nesse sentido, parece adequado recorrer-se a algumas imagens, com propósito didático. Uma delas tem a ver com o compromisso reiterado de incessante busca de, na medida do possível, irmos materializando tais condições, no chão do dia-a-dia, seja ensaiando uma rotina criativa, diversificada, na qual ousemos por em prática, de modo concatenado, a experiência eixistencial de tais dimensões, seja por meio de contínuo reexame do nosso quefazer, o que implica uma o exercício contínuo de crítica e autocrítica, fazendo, por exemplo, uma sociologia de nossa agenda, tanto no plano pessoal, quanto no plano coletivo.
Resulta supérfluo lembrar que estamos diante de uma agenda que abarca (e chega a ir além de, por meio das novas gerações) toda a nossa existência. Cada sujeito (pessoal ou coletivo), a partir de sua realidade concreta, de sua ambiência singular, vai forjando as condições, o ritmo, os procedimentos, a frequência, a dinâmica temática a ser priorizada, propícias para o desenrolar de tal processo. Há, por exemplo, quem possa preferir experimentar vivenciá-lo, por meio de uma articulação futuro-passado-presente, em que um primeiro esforço orienta-se em direção ao que se deseja alcançar (dimensão da Esperança, da Utopia ou algo do gênero); em função desse horizonte, cuida-se de examinar múltiplas trilhas percorridas pela humanidade, pelos povos mais diversos, espalhados pelo mundo, e também por pessoas tomadas como referências, graças à densidade de sua contribuição, em vários campos (Memória histórica + os clássicos), e, considerando os dois planos precedentes (futuro e passado), examina-se, no chão do dia-a-dia, com seus velhos e novos desafios, que lições podem ser recolhidas do passado – considerando o horizonte que se almeja alcançar -, em função de um exitoso enfrentamento dos velhos e novos desafios (dimensão da Práxis)… Esforço que se dá sempre, cumpre lembrar, dentro da consciência do nosso inacabamento, dos nossos limites, e, por isso mesmo, sendo permanentemente instigados a enfrenta-los e a buscar superá-los, confiantes em nossos bons combates (“bons” combates, sim, porque nem toda briga vale a pena “comprar”)…
Na busca cotidiana (pessoal e coletiva) de exercício da Práxis, cuida-se de atentar, com a coerência possível, a uma rede de aspectos concernentes à postura ética de tais sujeitos. Dentre estes, podem ser destacos, por exemplo: o esforço de aprimoramento progressivo da capacidade perceptiva (conscientes de nosso inacabamento e limites, o desafio é buscar dar sempre um passo adiante, no esforço ininterrupto de chegar mais perto da realidade sabidamente complexa, tentando examinar seus mais distintos aspectos (aqui buscando seguir a recomendação paulina, de buscar examinar todas as coisas, com o propósito de se reter o que for apropriado: investir incessantemente no aprimoramento de nossa capacidade perceptiva, procurando ver, ouvir, sentir, intuir, querer sempre melhor hoje do que ontem, e amanã, melhor do que hoje; dentro do possível, atentar para a desejável coerência de escritos, análises e posturas de hoje em relação a escritos, análises e posturas de há dez, vinte, trinta anos…; o esforço incansável de controlar nossa espantadora tendência ao seletivismo; firme disposição interior do exercício relativamente equilibrado entre o exercício da crítica e da autocrítica; a capacidade de se render à verdade, ainda quando estejam em jogo graves deslizes éticos de pessoas ou grupos do mesmo lado político-ideológico, tendo em vista que toda adesão incondicional a posições humanas acaba descambando num ato de imoralidade; entre outros aspectos.
Trata-se, em resumo, de ousar ensaiar passos concretos, moleculares que sejam, na perspectiva de irmos ousando um novo modo de produção, um novo modo de consumo e um novo modo de gestão societal. Gigantesca tarefa, de um lado, ao nosso alcance, seja no plano coletivo, seja no plano pessoal, que passa, sim, pelo exercício de boas escolhas, desde o chão do cotidiano, em busca de uma vida de plenitude, para os humanos e toda a comunidade dos viventes.

Olinda, 27 de agosto de 2016.

Animação pastoral do Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude

Como tem sido noticiada, prossegue, esta semana (de 27 a 31.07.2016), na Polônia, a 31ª. Jornada Mundial da Juventude, com a participação animadora do Papa Francisco.
Desde o voo em direção à Polônio, ele não perde tempo: expressa sua posição crítica em relação ao caráter dos conflitos contemporâneos em curso, rechaçando a tese de uma suposta “guerra de religiões”. Ainda que, aqui e ali, possa passar algum traço de caráter (também) religioso – por exemplo: Islam contra cristãos -, o Papa acentua, a justo título, raízes escondidas ou pouco expressas pela mídia ocidental. Os graves conflitos atuais têm a ver, sobretudo, com as relações sociais, econômicas, políticas vigentes. Relações com as quais têm a ver o drama das migrações forçadas, a trágica situação dos refugiados, o inferno dos conflitos armados no Iraque, na Síria e região adjacente, a sangria das fontes naturais, o próprio desafio do terrorismo… De repente, de modo vulpino, tudo se transforma em “guerra de religiões”… cf.
Após uma acolhida calorosa pelos católicos poloneses e, em especial, pelos jovens participantes da Jornada Mundial da Juventude/2016, põe-se a cumprir uma sucessão de compromissos pastorais, além de participação em atos litúrgicos. Foi tocante sua reflexão, na homilia pronunciada em sua primeira celebração litúrgica. Nesta, enfatiza o contraste entre os valores do Reino de Deus e os valores de nossa cultura. Desde a inserção de Deus em nossa história, por meio do Seu Filho Jesus de Nazaré, “nascido de uma mulher”, manifestam-se opostos tais valores. Enquanto era esperado um Messias onipotente, chefe de exércitos, este Deus nasce pobre, frágil, sem poder, em forma de um bebê dependente de sua mãe. Mais: não apenas vive entre os pobres, vive também pobremente, assume a causa libertadora dos pobres, a ponto de não hesitar investir contra os poderosos do seu tempo – fossem eles autoridades religiosas ou políticas -, razão por que seria perseguido, preso, torturado, crucificado entre condenados. Sua primeira homilia pode ser (re)escutada pelo “link”:
https://www.youtube.com/watch?v=KpUSQZNdzWw
A escuta desta homilia me remeteu a um canto que, durante a Semana Santa, se costuma entoar: “Eles queriam um grande rei / Que fosse forte e dominador / E por isso não creram nEle / E mataram o Salvador”.
Não menos impactante foi sua homilia, pronunciada durante a Missa, da qual estiveram a participar padres, religiosos, religiosas e seminaristas. A íntegra desta homilia pode ser lida, por meio do “link”:
Desta homilia, vale destacar vários pontos, dentre os quais:
– sua leitura profundamente contextualizada da Sagrada Escritura, revelando assim sua profunda espiritualidade;
– a forma didática como procede à sua reflexão, ao distribuir sua reflexão em três aspectos diretamente inspirados na leitura do trecho lido, extraído do Evangelho de João: “um lugar, um discípulo e um livro”
– – – – – – – –
Como em tantos outros aspectos, também neste, saltam à vista afinidades múltiplas entre a intuição analítica do Papa Francisco e a de figuras proféticas como a do Pe. José Comblin. Em seu livro póstumo, O Espírito Santo e a Tradição de Jesus.São Bernardo do Campo, SP: Nhanduti Editora, 2012. Comblin desmascara e denuncia as garras cruéis de poderosos representantes da religião secular, que é a do deus Mercado (inclusive citando os exemplos do General Videla, da Argentina, e do ex-presidente Bush, a cometerem atrocidades, justamente em nome desse deus… (cf. pp. 462ss).
A quem não acompanha mais de perto as intervenções do Papa Francisco, e com frequência recebe mensagens da lavra deste papa, pode parecer um exagero ou uma superestimação da figura do bispo de Roma, por parte de quem envia tais mensagens. Apresso-me, de minha parte, em garantir-lhes que não é o meu caso. O empenho em compartilhar falas e textos de Francisco, Bispo de Roma, tem a ver com a densidade e relevância, para o nosso tempo, de seus gestos, de suas falas, de seus escritos. Como gostaria de que os destinatários e destinatárias dedicassem um tempinho a testarem essa minha avaliação! Não haveriam de se decepcionar!
A caminho dos seus 80 anos, o Bispo de Roma tem-se mostrado incansável missionário, a peregrinar pelos quatro cantos do mundo, a anunciar e testemunhar o Reino de Deus e Sua justiça. Nesses três anos e meio de exercício do papado, a despeito dos profundos limites impostos por uma instituição pesada, “auto-referenciada”, o Bispo de Roma tem surpreendido, mais do que os católicos e reformados, parcelas significativas do mundo atual, pela força e fecundidade evangélicas do exercício de sua missão.
Fala mais por seus gestos do que por palavras e escritos. Desde esta característica, tem-se mostrado como um autêntico discípulo de Jesus de Nazaré. Nas pegadas dEste, Francisco não se apresenta, em primeiro lugar, como um defensor do “establishment” – nem eclesiástico nem “cristão”, nem da ordem macrossocial hegemônica. Anuncia o “Reino de Deus e Sua justiça”: a primazia dos pequenos e mais vulneráveis, o cuidado com as ovelhas perdidas, a ira profética contra os poderosos deste mundo e suas maquiavélicas tramas de poder, a conversão, o perdão, a misericórdia, o valor das coisas “miúdas” do cotidiano, a alegria como uma das qualidades mais marcantes dos cristãos, a cultura do encontro, do diálogo, o constante chamamento à construção de pontes entre os humanos em conflito, a insistência de seu convite aos católicos e aos cristãos, de “saírem em missão”, preferindo uma Igreja que se arranhe pelo caminho a uma Igreja adoecida pelo mofo das sacristias… Sobre este tema, o Papa é recorrente, em gestos, palavras e escritos. Inclusive, por ocasião de sua participação na 31ª. Jornada Mundial da Juventude, cf. sua homilia:
https://www.youtube.com/watch?v=1LwulF7pCUM
a qual pode ser lida, em sua versão escrita, no “link”:
Duas curiosidades sublinho, de passagem, acerca de seu empenho e desempenho. Uma primeira: a absoluta surpresa de sua eleição – ou mais precisamente: de que, eleito papa, viesse a comportar-se assim. Nada na recente conjuntura eclesiástica acenava para semelhante desfecho. Pelo contrário: após mais de três décadas de pontificados típicos, as chances maiores acenavam, antes, para um contiuísmo. Mais uma vez, ao longo da história do Povo de Deus, a ação imprevisível do Espírito Santo!
Como apreciaria ver semelhante empenho e desempenho mostrados por Francisco, acompanhados mais de perto por tantas figuras de leigas, de leigos, de religiosas, de religiosos, de diáconos, de padres, de bispos… Por ex., que atenção têm merecido de nossa parte seus principais escritos – “Evangelii Gaudium” e “Laudato si”

Olinda, 30 de julho de 2016

Lições de uma experiência pastoral pouco edificante: ponderações e questionamentos

No último dia 06 de julho, foi amplamente divulgada, na imprensa e em algumas redes sociais, a “renúncia” do Arcebispo da Paraíba, após doze anos à frente do governo desta Arquidiocese (cf., por ex.:
http://www.jornaldaparaiba.com.br/noticia/172494_renuncia-de-dom-aldo-repercute-na-imprensa-internacional-com-destaque-nas-denuncias/#.V38sIK-yZi0.mailto
http://www.maispb.com.br/186560/dom-aldo-quebra-silencio-e-denuncia-esqquema-de-desvio-de-dinheiro-na-igreja-paraibana.html
Ao longo deste período, o governo arquidiocesano da Igreja Católica da Paraíba foi alvo de dezenas de graves acusações. Não ignorando atividades e iniciativas próprias de um administrador eclesiástico, vasta, contudo, foi a sucessão de incidentes éticos e pastorais pouco ou em nada edificantes para a caminhada eclesial, dos quais se sobressaem não poucos de caráter e alcance profundamente traumáticos, não apenas para a comunidade católica, mas para expressivas parcelas da população da Paraíba. As linhas que seguem, têm o propósito de tocar, de passagem, em algumas das primeiras lições a extrair dessa dolorosa experiência, cujo impacto deletério poderia ter sido, se não de todo evitado, pelo menos fortemente minorado, inclusive quanto à duração.
Estamos convencidos, nesses e em tantos outros episódios – seja no campo eclesial, seja no campo não-eclesial -, de que não se logra êxito, quando se tenta jogar apenas sobre indivíduos isolados todo o peso da responsabilidade, quer pelos bons, quer pelos malfeitos. Sem ignorar a parcela de responsabilidade individual, a autoria de malfeitos é (quase) sempre compartilhada, ao menos sob certos aspectos. É isto que buscamos examinar, por meio de algumas ponderações e alguns questionamentos sobre tal experiência de efeitos devastadores.
Ontem como hoje, o Povo de Deus caminha, tropeça, às vezes dá um passo para frente e dois para trás… depois, recompõe-se… e assim segue.
Protagonizando, embora, também durante o referido período, alguns momentos luminosos excepcionais – afinal, muita coisa bonita também se passa, nas “correntezas subterrâneas”, graças à ação do Espírito Santo e de quantas e quantos Lhe respondem ao chamado, com generosidade, a Igreja Católica da Paraíba, há doze longos anos, tem vivido uma experiência pastoral globalmente avaliada como pouco construtiva – para dizermos o mínimo. Graves deslizes vêm-se acumulando, de modo a comprometer a vitalidade eclesial e pastoral historicamente característica da caminhada desta porção do Povo de Deus, que se tornou referência nacional, graças ao testemunho profético-missionário de vários de seus membros – mulheres, homens, leigas, leigos, religiosas, religiosos, diáconos, presbíteros, bispos, comprometidos com a causa libertadora dos pobres, dos enfermos, dos perseguidos por causa da Justiça do Reino de Deus.
Nessas “correntezas subterrâneas”, a Igreja Católica da Paraíba tornou-se, por longos anos, uma referência profético-missionária, da qual destacamos, de passagem:
– a densa atuação das PCIs (Pequenas Comunidades de Religosas Inseridas no Meio Popular); a Teologia da Enxada, a caminhada das CEBs, as pastorais sociais (CPT, PJMP, CPO…), CEBI – apenas para mencionar algumas dessas fecundas experiências da “Igreja na Base”… Não foi por acaso, a propósito, que, em João Pessoa, se realizou o 3º Intereclesial das CEBs, em 1978.
Como entender que, dessa caminhada tão fecunda – a despeito de suas insuficiências – tenhamos desembocado num período tão sombrio – com suas exceções também luminosas? Eis por que nos pomos a refletir, em busca de discernimento, dom do Espírito Santo, por meio de indagações, do tipo:
– Até que ponto os bons frutos profético-pastorais colhidos, em décadas precedentes, tiveram a ver, não apenas com os bons ventos do Vaticano II e, sobretudo, de Medellín, mas também com o perfil profético-pastoral de uma geração privilegiada de bispos, de leigas e leigos, de religiosas e religiosos e de agentes de pastoral da chamada “Igreja dos Pobres” (expressão tão cara ao bom Papa João XXIII) ou “Igreja na Base” e sua rede de organismos?
– Por outro lado, sabemos que contar com uma geração de bispos com aquele perfil será mesmo, por si só, garantia da continuidade daqueles frutos? Sem deixarmos de reconhecer a preciosa contribuição de pastores com aquele perfil, será que, na perspectiva do Espírito Santo e da Tradição de Jesus, nossa atuação profético-missionária tem que depender apenas deste segmento eclesial e, menos ainda, de um de seus membros, por mais respeito que lhe devotemos?
– Tal reducionismo não teria a ver com nosso descaso ao que o Espírito Santo nos ensina, por exemplo, desde o Batismo, por força de cujo Sacramento somos, todos, chamadas e chamados a ser membros vivos do Povo de Deus, membros de uma Igreja, toda ela profética, toda ela discípula, toda ela missionária, toda ela pastora, toda ela cidadã do Reino de Deus (não é isto o que somos chamados a interpretar da vocação à tríplice missão infundida por ocasião do nosso Batismo, de “sacerdote, profeta e rei”)?
– O que nos teria sucedido, se, solícitos ao que o Espírito nos acenava, por meio da brisa do Vaticano II e do espírito de Medellín, tivéssemos implementado, no devido tempo, suas intuições mais fortes, de diálogo, de exercício efetivo e rotineiro de colegialidade (com decisões tomadas por órgãos colegiados (diocesanos, paroquiais…), dos quais fossem membros não apenas delegados do segmento hierárquico, mas também delegadas e delegados dos demais segmentos eclesiais?
– Para o desfecho que acabamos colhendo – afinal, também aqui, colhemos o que plantamos… -, que papel terão jogado os pontificados imediatamente precedentes ao do Papa Francisco, durante um período- de mais de trinta anos?
– Se a garantia do caminhar de nossa Igreja reside na força da Palavra e na nossa generosidade em responder aos apelos do Espírito, uma simples mudança de bispo poderia determinar o fracasso de nossa caminhada?
Como entender que, mais de cinquenta anos após o Concílio Ecumênico Vaticano II, e após quase meio século de Medellín, com todo aquele legado de refontização (Dei Verbum), de reconhecimento da centralidade do Povo de Deus na organização da Igreja Católica (Lumen Gemtium), de atualização (“Aggiornamento”), de colegialidade (Christus Dominus), de diálogo (Gaudium et Spes), de abertura ecumênica (Unitatis Redintegratio; Nostra Aetate), de reconhecimento da autonomia das realidades terrestres (Gaudium et Spes), de renovação da consciência missionária (Ad Gentes), etc., etc., ainda não tenhamos dado passos sequer em relação aos critérios de consulta à comunidade (não apenas à hierarquia) sobre a escolha e transferência de bispos (e outros ministros)?
– Uma consulta ao Google, por exemplo, é suficiente para se ter uma idéia do número, da duração e da frequência de denúncias sobre o caso em tela. Será que tais denúncias, acrescidas de várias manifestações e protestos, dentro e fora do espaço eclesial, não podem ser consideradas sinais de alerta para o conjunto de órgãos colegiados e instâncias eclesiásticas superiores, de modo a apurar a veracidade ou não, e a tomar providências cabíveis?
– Que providências concretas terão sido tomadas por esses organismos, nos respectivos âmbitos?
– Há quantos anos a Nunciatura Apostólica foi informada, em detalhes, sobre as denúncias, e que providências tomou?
– Em relação ao clero local, à exceção de alguns de seus membros, que posição concreta tomou, em relação ao caso? Em especial, os órgãos colegiados que posição tomaram frente à sucessão de denúncias? Por qual posição optaram: destituir-se de suas respectivas funções, já que, em certa medida, se tratava de órgãos “pro forma”, ou preferiram continuar inalterados, e assim, coonestando objetivamente tal governo?
– O que teria levado os auxiliares mais diretos do governo arquidiocesano a seguirem funcionando a esse título, a despeito da interminável sucessão de denúncias? Em quê tal posição ajudou a superar os impasses?
– Que iniciativas foram ou vêm sendo tomadas, em relação à participação da comunidade arquidiocesana, no processo de escolha do novo arcebispo?
– O Papa Francisco, por seus gestos, palavras e escritos, segue sendo uma voz no deserto, em nossa Igreja Católica, não esquecendo as “minorias abrahâmicas” espalhadas por este mundo de Deus. Quem e onde tem sido o Bispo de Roma, ouvido e seguido, em seus testemunhos proféticos-pastorais, inclusive no que nos escreve em escritos basilares, tais como a “Evangelii Gaudium”, a “Laudato si”, ou ainda um pronunciamento seu sobre as deformações provocadas pelo clericalismo (cf.http://papa.cancaonova.com/clericalismo-e-uma-deformacao-enfrentar-diz-papa)
João Pessoa, 12 de julho de 2016

Por sujeitos revolucionários de novo tipo: ponderações e questionamentos para debate

Para nós, que nos queremos integrantes de forças protagonistas de profundas mudanças sociais, quê sentidos vimos conferindo a conceitos tais como “Revolução”, “Revolucionária/o”? Ou nos bastaria seguir caminho com o conceito convencional de “Militante”?
Diante dos desafios hoje enfrentados, que tipo de protagonistas se faz historicamente necessário? Nossos atuais procedimentos organizativos têm respondido a contento à complexidade dos novos tempos? E quanto à (falta ou insuficiência de) formação, que lugar isto tem ocupado na atual crise? Que tipo de tarefas organizativas e formativas somos chamados a priorizar? São perguntas que tais, que nos animam a propor essas breves notas. Cuidamos de distribuí-las em três momentos: partimos de uma pequena amostra de fatos atinentes ao modo de gestão, no âmbito ético-político; em seguida, tratamos de problematizar corriqueiras versões desses fatos, do ponto de vista das classes populares, no que diz respeito à gestão societal; enfim, esforçamo-nos por trazer ao debate algumas pistas de enfrentamento desses desafios.
Partindo de alguns fatos ético-políticos atinentes ao modo de gestão societal
Em notas precedentes, temos insistido na urgência, para as organizações de base de nossa sociedade, de se empenharem mais e mais em construirmos – ou, mais precisamente, em irmos construindo – um novo modo de produção, um novo modo de consumo e um novo modo de gestão societal, com a convicção de que se trata de uma mesma tarefa – de tríplice dimensão, cada uma delas a ser necessariamente articulada em vista de um todo. Unidade que resulta ser fundamental ter em conta, ainda quando, por razão didática, se tome à parte cada uma dessas dimensões, como ora cuidamos de fazer, nesta introdução, com relação à gestão societal, aqui acentuando o componente ético-político na gestão societal.
Múltiplas, de fato, são as razões da urgência de lidarmos, em bases alternativas ao “establishment”, com as práticas e concepções convencionalmente instaladas e reproduzidas de gestão societal, que, por sua vez, comportam distintos ângulos, dos quais aqui nos limitamos ao de natureza ético-política. Atenhamo-nos, por exemplo, ao extenso conjunto de formas de desperdício das riquezas socialmente produzidas. Algo que, de tão rotineiro, passa, não raro, a ser “naturalizado”, por mais profundamente danosos que se mostrem seus efeitos. A cultura do desperdício, assume, com efeito, uma infinidade de manifestações, em nosso cotidiano, recobrindo diversas esferas de nossa realidade (econômica, política, cultural…), implicando desperdícios: de água como o de energia; de alimentos, de numerosos bens supérfluos; desperdícios decorrentes (via extorsão) de tantas formas de privatização de bens, de recursos, de tempo e de espaços públicos, de variadas formas: amoldando o horário do serviço público aos meus interesses particulares e/ou aos meus próximos); servindo-nos, de modo aético, de tantos bens e recursos de repartições públicas. E o quê dizer das várias formas de desperdício, na esfera macroeconômica? Estas se dão, por exemplo, via graves e socialmente injustificadas renúncias fiscais, em favor, não apenas de grandes empresas, mas também de outros segmentos indevidamente favorecidos; via remessa de lucros; desperdícios das riquezas do tesouro via sonegação fiscal, especialmente por grandes fortunas, a não taxação de grandes heranças; a sobrecarga de impostos em cima dos segmentos mais vulneráveis dos contribuintes, ao lado de uma subtaxação dos grupos e maior remuneração; a devastadora cultura da propina reinante em nossa sociedade, não apenas (embora sobretudo) nos altos escalões político-empresariais, mas também em outros âmbitos de nossa sociedade; os assombrosos desperdícios de propaganda paga com dinheiro público, a destinação perdulária de centenas de milhões de Reais a campanhas suntuosas, via “caixa dois” e esquemas de propinas, inclusive com a intervenção de “marqueteiros” regiamente pagos; a própria consagração do expediente abominável do “Caixa Dois”, o escandaloso financiamento de partidos e campanhas via grandes empresas públicas e empreiteiras; o desperdício do tempo parlamentar, a exemplo dos muitos dias não trabalhados durante o ano; os sucessivos escândalos que, além dos nababescos roubos (em bilhões de Reais!) ao tesouro público, ainda travam, impedem ou retardam o fluxo econômico ordinário, durante meses, anos…
Sobre este último, importa ainda sublinhar um ENORME dano para a nossa sociedade: atendo-nos apenas ao caso dos parlamentares, sendo eles regiamente remunerados como “representantes do Povo”, supostamente para trabalharem em prol do bem público, eis que, depois das últimas eleições, não apenas trabalharam minimamente, nesses quase dezoito meses, como têm passado e seguem passando a maior parte do seu tempo, em sucessivas sessões para investigarem inúmeros e graves malfeitos cometidos por parte expressiva de seus pares… Dificilmente nos detemos a avaliar essa dimensão gigantesca do dano: eleitos e nababescamente remunerados (um deputado como Eduardo Cunha custa perto de meio milão/mês ao erário…)
Eis uma pequena amostra das distintas formas de desperdícios extremamente corriqueiros e recorrentes neste País… Importa, por conseguinte, repensarmos os caminhos eticamente descabidos, tomados pela nossa gestão societal, nesta e noutras dimensões, de organizarmos a produção, circulação, distribuição e uso de nossas riquezas.
(Re)examinando interpretações e versões de práticas e feitos, à luz da dimensão ético-política do que fazer gestionário alternativo à ordem estabelecida
Em face do agir característico da ética capitalista, especialmente em tempos de crise aguda, que critérios parecem corresponder melhor ao agir das forças que se insurgem contra tal modelo, inclusive seu “modus operandi”? É legítimo pretendermos enfrentar o projeto capitalista de organização, valendo-nos de suas mesmas práticas e de suas mesmas armas, sob o pretexto de que, em vista da justeza dos nossos fins, e, portanto, da razão aí implícita, sendo nós a usarmos daquelas armas e expedientes, nossa luta se torna legítima, porque “nossa moral é superior à deles”? Será que tal argumento é mesmo eticamente sustentável? Eis alguns questionamentos cuja discussão há de nos ajudar a (re)examinar nossas práticas e concepções revolucionárias.
Não é principalmente o impacto deletério, produzido pelo furacão do atual contexto sócio-histórico, sob o qual nos movemos, que nos leva a (re)propor esta reflexão, por mais que o mesmo furacão a reforce. Há, com efeito, algum tempo, nos quedamos inquietos ante a questão ora (re)proposta ao debate. Em várias ocasiões, tivemos oportunidade de externar nossas inquietações com relação a um novo modo de produção, a um novo modo de consumo e a um novo modo de gestão societal, fundado no “Bem Comum da Humanidade” (François Houtart cf. http://web.ua.es/es/giecryal/documentos/ponencia-houtart.pdf?noCache=1361258372640) com toda a comunidade dos viventes. Ousamos, desta feita, dar sequência a inquietações que nos desafiam, cada vez mais, e que vale trazer de volta ao debate. Trata-se, aqui, de retomar a discussão sobre que sujeitos revolucionários são historicamente requeridos para fazer frente aos novos desafios, somados aos antigos, remanescentes. Sobre este ponto, não se trata de subestimá-los, mas de buscar novos procedimentos de enfrenta-los. As velhas ferramentas, por si só, já não respondem, com eficácia. O certo é que vêm irrompendo desafios de novo tipo, cujo enfrentamento com maiores chances de sucesso requer, não apenas uma análise objetiva da realidade concreta, como também o reconhecimento e adequada resposta à urgência de um novo perfil de sujeitos revolucionários (coletivos e individuais – “militantes”, “protagonistas”…), de modo a fazermos justiça aos grandes clássicos, que não querem ser reproduzidos, mas reinventados, e de modo a atualizarmos as chaves de compreensão e de intervenção sobre a realidade atual e seus desafios candentes, que já não têm como ser enfrentados apenas com as mesmíssimas ferramentas do século XIX ou do século XX, até porque outra, sob vários aspectos, é a realidade atual.
Para tanto, estamos conscientes de que a questão ora (re)proposta só vale ser enfrentada, com fecundidade, em dinâmica conexão com outras questões correlatas, do tipo: “Modo de Produção”, “Modo de Consumo”, “Modo de Gestão Societal”, “Revolução”, “Revolucionária”, “Revolucionário”, entre outros conceitos. Como em outras ocasiões, já enunciamos algumas delas, cuidamos, nestas breves notas, de compartilhar apenas a que trata da urgência histórica de um novo tipo de sujeitos revolucionários.
Se o que analisamos acerca da realidade social, em tempos corriqueiros, traz sempre a marca do provisório, cautela extraordinária nos é exigida em tempos atípicos. Não é infelizmente o que se vem constatando da parte de parcela expressiva de analistas de referência. Há, com efeito, uma tendência ao fascínio por posições “definitivas” ante um quadro profundamente complexo. O caminho mais fácil segue sendo, com raras exceções, a tomada de posição escancaradamente favorável ou incondicionalmente contrária a processos profundamente ambíguos. Nada a estranhar, quanto a isso, da parte de analistas da mídia comercial: isto, salvo exceções, faz parte do seu ofício ordinário. O problema se dá quando isto é feito por figuras de reconhecida contribuição às análises com perspectiva das forças de esquerda, a boa parte das quais passa despercebido que, nos atuais embates da cena político-econômica, tornam-se extremamente temerárias análises “acabadas”, com tom definitivo, à medida que, dada a dinâmica dos fatos em cena, os acontecimentos posteriores se encarregam de desmentir ou de desmontar as bases de tais análises.
Uma das consequências de tal atitude temerária é sucumbir-se às armadilhas de uma ética da conveniência, isto é, de forjar-se uma justificativa artificial a cada constatação de cometimento de equívoco de interpretação, sem que se admita qualquer parcela de responsabilidade na incidência do equívoco. Clara falta de autocrítica, que acaba a lançar sempre ao “inimigo” (à burguesia) a culpa exclusiva pelos malfeitos.
A este propósito, é oportuno que nos sirvamos do elenco de casos ilustrativos acima utilizado como uma amostragem de numerosas incidências de práticas ético-políticas falaciosas, tendo como foco as mais distintas formas de desperdício por conta de má gestão societal. Comecemos pelos de caráter macroeconômico.
O sistema da dívida, em pleno vigor – e do qual o Brasil, a despeito de ser um dos países mais profundamente golpeados, segue sendo um histórico refém resignado – constitui uma das expressões de maior referência do espírito capitalista. Aqui, resulta inevitável que nos remetamos às pesquisas e estudos conduzidos pelos integrantes da respeitável Equipe da “Auditoria Cidadã”, cf. http://www.auditoriacidada.org.br/trabalhos-academicos-divida/ , da qual Maria Lúcia Fatorelli é uma referência emblemática (cf. inclusive várias palestras suas, sobre o tema). Um combate eficaz às grandes falcatruas das contas públicas brasileiras passa inafastavelmente pelo reexame crítico dos graves fatores que estão por trás do sistema da dívida pública brasileira, como de outros países. Com uma diferença: países bem mais modestos, do ponto de vista econômico, em relação ao Brasil, ousaram organizar auditoria da dívida pública, a exemplo do Equador, e tiveram excelente resultado, enquanto o Brasil segue destinando cerca de 500 bilhões de Reais, por ano, só para os serviços dessa dívida “eterna”, em relação à qual se referiu um Poeta popular, por meio do mote: “Paguei mais do que devia / Devo mais do que paguei”…
Outra fonte de gigantescos desperdícios, a qual, combinada com péssima gestão societal – implicando inclusive múltiplos expedientes de corrupção – finca-se no sistema tributário brasileiro. Sistema iníquo, não tanto pela carga tributária que impõe, mas sobretudo em razão da péssima gestão (e, portanto, desastrado e DESIGUAL retorno). À diferença de países (como os da Escandinávia), que aplicam alta carga tributária, assegurando, entretanto, razoável retorno em serviços públicos de qualidade, no caso do Brasil, pouco tem a ver a esdrúxula carga tributária com o retorno da qualidade social dos impostos arrecadados. No caso do Brasil, um dos fatores decisivos dessa colossal iniquidade social reside no expediente perverso dos chamados impostos indiretos, cobrados, de forma igual, ao conjunto dos contribuintes, sejam eles assalariados ou desempregados ou sejam eles contribuintes milionários (sem esquecermos que há bilionários que muito pouco ou quase nada pagam de impostos ) a isto se soma. Uma outra face da iniquidade de nossa política tributária reside nos critérios vigentes de cobrança adotados na Declaração de Renda (Imposto de Renda), gravando extraordinariamente faixas de contribuintes de menor renda, enquanto pouco se cobra proporcionalmente de faixas privilegiadas de contribuintes.
Ainda no âmbito do sistema tributário brasileiro, resultam igualmente devastadores os estragos causados pelo volume e pela frequência de casos de sonegação fiscal, em especial ligados a grandes empresas e ao mundo das finanças. Um rombo gigantesco nas contas públicas! Expediente que, por sua vez, implica um multiforme esquema de corrupção envolvendo agentes econômicos e atores de órgãos estatais. Outra sangria do dinheiro público se dá via distintos mecanismos de renúncia fiscal, em várias esferas de Poder, num sem-número de casos onde reina, com raras exceções, a impunidade. A isto também cumpre acrescentar a derrama de dinheiro não declarado ou ilegalmente depositado em diversos paraísos fiscais (inclusive por meio de remessas de lucro) , aqui envolvendo organismos e expedientes alimentados pela fina flor da ética capitalista internacional… Em suma, trata-se de uma enorme sangria das riquezas públicas a depor diretamente contra o atual modo de gestão societal. Se esta não for superada, de pouco ou nada adianta a mera providência corrente de se lutar pela simples bandeira de “aumento de verbas para a saúde”, “aumento de verbas para a educação”, etc., etc.
Em relação aos espaços micro-societais, é também vasta a gama de casos de desperdícios rotineiros, resultantes do tipo de gestão societal em vigor. Em notas precedentes, já tivemos oportunidade, mais de uma vez, de focar esta dimensão da gestão societal, como o fizemos, por exemplo, no texto intitulado “Cidadania proativa à contracorrente da ordem hegemônica” (cf.
http://consciencia.net/33880-2/ ), ou também noutro texto sob o título “Nem privatismo nem Estatolatria: o Público como centralidade ético-política, na gestão da sociedade” (cf.
http://consciencia.net/nem-privatismo-nem-estatolatria-o-publico-como-centralidade-etico-politica-na-gestao-da-sociedade/ )
Há, por conseguinte, de se reconhecer a força transformadora das ações moleculares do cotidiano, impregnadas que se acham do DNA de iniciativas gestionária de caráter macro-relacional. Tal incidência concreta não se restringe ao modo de gestão societal, no campo estritamente econômico-administrativo. Também incide com força nas relações ético-políticas. Fazemos questão de sublinhar este entendimento tanto mais enfaticamente, quando corremos o grave risco de subestimar tal incidência, no atual contexto, sob o pretexto de não sucumbirmos ao moralismo. À parte, com efeito, posições extremadas de caráter moralista, não parece eticamente sustentável negligenciarmos o peso decisivo da infindável sucessão de falcatruas e escândalos. Não bastasse seu caráter ético-político evidente, também tem sérias implicações gestionais e econômicas, no atual quadro. A soma dos valores surrupiados do tesouro público, graças ao conjunto de crimes levantados contra o patrimônio público resultaria algo astronômico, de modo a inviabilizar qualquer plano razoável de combate à desigualdade social. Por outro lado, estamos cansados de saber que a realidade, sendo uma e indivisível, em vão buscamos tomar suas interfaces em separado. Um minúsculo exemplo: ao analisarmos os graves escândalos em série envolvendo agentes econômicos, agentes políticos e outros segmentos – por exemplo, no caso do Legislativo -, podemos perceber que, desse jogo corrosivo, não escapa sequer a Natureza, por razões distintas. Pensemos num caso-miniatura – a quantidade de celulose consumida em forma de centenas de resmas de papel para registrar infindos malfeitos de toda ordem cometidos por quem foi eleito para promover o Bem Público…
Tal horizonte almejado, quais caminhos percorrer…
Muitos dentre nós, da geração dos anos 60 e 70, podem lembrar-se de uma série de inconsistências cometidas, por vezes com a melhor das intenções, enquanto outras vezes, com base numa perigosa autoavaliação, como se nos bastasse ser integrantes das forças populares e organizações de base, para nos sentirmos blindados do mal, portadores de qualidades eticamente superiores às forças adversárias… Critérios esses que também incidiam diretamente em nossas práticas e concepções acerca inclusive de questões pertinentes a um modo alternativo de gestão societal. Nestas notas, cuidamos de, ao revisitar noções tais como “Revolução” e conceitos correlatos, ousar um reexame, ensaiando pistas, em vista de uma necessária atualização de práticas e concepções das mesmas categorias. Aqui nos fazemos questionamentos do tipo: à vista da complexidade dos tempos de hoje e de seus desafios, segue suficiente o entendimento do conceito “Revolução”, do jeito que vimos trabalhando, há tanto tempo? Haveria algo, hoje, diante do que sentimos a necessidade de reexaminar este e outros conceitos correlatos (“Revolucionária”, “Revolucionário”…)? De modo semelhante, o que (sempre) aprendemos e cumprimos em relação a sermos “militantes”, será que este conceito também segue inalterado, ou sentimos necessidade também de revisitá-lo, à luz dos desafios atuais?
Buscando imprimir neste exercício de reexame crítico um procedimento didático, passamos a sublinhar aspectos mais destacados do que aprendemos por “Revolução” e termos correlatos. “Revolução”, de “re-volver”, à diferença de “e-volução” (progresso retilíneo, bem ordenado), sugere uma reviravolta, uma guinada radical de modo de produção: no caso, do Capitalismo para o Socialismo, passagem necessária para o Comunismo, uma sociedade sem classes, portanto sem Estado. Para tanto, urgia uma longa e intensa preparação das forças historicamente chamadas a protagonizar essa passagem. Isto implicava dotar os sujeitos revolucionários (individuais e coletivos) de instrumentos e predicados especiais, para a realização da tarefa de pôr abaixo a ordem vigente e implantar um modo de produção alternativo ao Capitalismo, de modo a permitir a transição, não apenas para o Socialismo (que ainda comporta traços de uma sociedade de classes, hegemonizada pela Classe Trabalhadora, por meio do seu Partido) em direção à nova sociedade, uma sociedade sem classes, sem Estado, a sociedade comunista.
Essa travessia – que aprendemos a buscar, inclusive junto aos clássicos (desde Marx e Engels) – só pode ser obra da Classe Trabalhadora (outro conceito a merecer reexame ou nova contextualização), razão por que é tarefa destes protagonistas ter assegurada sua ininterrupta formação. Há, sobre isto, um acúmulo teórico considerável, ainda que de qualidade heterogênea, tanto mais quanto se vai distanciando dos principais clássicos de referência (Marx, Engels, Rosa Luxemburgo, Gramsci, Lukács…) em acolhimento a teóricos de perfil vanguardista ou, o que é pior, em substituição por uma espécie de vulgata do Marxismo, característica principal da herança stalinista, que, décadas a fio, orientou a política central, desde o Kremlin, dos partidos comunistas, mundo afora, inclusive no Brasil. Associam-se, direta ou indiretamente, a tal orientação, práticas, concepções, estratégias e táticas do tipo:
– é apanágio do Comitê Central do PCUS, porque detentor da correta interpretação da teoria marxista-leninista, determinar as linhas de trabalho e intervenção, bem como suas respectivas estratégias e táticas;
– a tarefa central dos revolucionários, enquanto classe, é derrubar o Estado burguês, e implantar o Estado socialista, recorrendo a todos os meios, em especial à violência, mas apenas quando o PCUS avaliasse o momento adequado, independentemente da avaliação endógena (dos dirigentes e militantes locais);
– tal era a ênfase emprestada ao fator militar como decisivo da superação da ordem capitalista (como de qualquer modo de produção), que se tornava impossível, para a maioria dos dirigentes e militantes, não apenas dissociar a luta armada como fator imprescindível do quefazer revolucionário, como também vinculava o conceito de “Revolução” principalmente à tomada violenta do poder, secundarizando ou empalidecendo marcas essenciais da nova sociedade, donde a centralidade alcançada por figuras talentosas para a arte militar, desprovidas, com frequência, de predicados humanistas, cegos que se tornavam, uma vez no poder, para a “arma da crítica”;
– cabe aos dirigentes e militantes indicarem ao povo qual é “o” caminho a seguir, já que o povo entra no processo, a reboque dos que sabem;
– cabe ao Comitê Cental do Partido ou a seus prepostos locais aplicarem as determinações vindas de cima para baixo e de fora para dentro;
– os dirigentes locais e seus militantes liberados ou remunerados pela estrutura partidária encarregavam-se também de planejar, executar e avaliar metas, atividades programáticas. Eis algumas medidas do receituário, graças ao qual uma avaliação crítica do legado geral da quase totalidade das experiências socialistas não indica saldo animador, com raras exceções. A que atribuir saldo tão preocupante? Em vez de respostas, mais vale perguntar:
* Ante o crescente agravamento da crise do Capitalismo, a despeito das lutas populares, sindicais e partidárias, é razoável seguir atribuindo responsabilidade por esse quadro apenas a fatores externos? Sem descuidarmos do peso dos fatores exógenos, que parcela de responsabilidade nos cabe, diante da ineficácia ou insuficiências de nossas lutas?
* Até que ponto as formas de nossa organização – centralizadora, determinista, fortemente hierarquizada, com militantes profissionais, tratando os organismos populares como meros alvos de nossas manobras, com profunda desatenção e descompromisso com o processo formativo contínuo de dirigentes (já que as bases quase sempre estão fora de nosso compromisso formativo, etc., etc.) vêm sendo corresponsáveis por tal situação?
* Será que nossa própria proposta formativa, tradicionalmente levada a termo, mesmo que tivesse continuidade hoje, estaria preparada para dar conta dos novos desafios? Que tipo de formação é hoje requerida aos protagonistas de uma nova sociedade? Seguiria suficiente uma formação estritamente política, ou uma proposta formativa à altura dos desafios dos nossos tempos teria que incorporar, além da dimensão política, diversos outros aspectos do processo de humanização (relações de gênero, de etnia, de geração, de espacialidade, de ecologia, de mística, de subjetividade), numa perspectiva de integralidade?
* Que tipo de militante ou de protagonista se faz necessário, para o enfrentamento exitoso de velhos e novos desafios? O perfil convencional de militante, inclusive o de tipo remunerado, e bem dotado de fundamentos estritamente políticos (relação sociedade-Estado) tem como responder à altura dos novos tempos?
* E quanto às estratégias e táticas convencionais, tais como a tendência a comportamentos formais (superestimação dos laços formais de pertença, de uso obrigatório de símbolos identitários (crachá, vestes, bonés, camisas vermelhas, etc.), os superdimensionamento da propaganda ideológica, táticas como a superestimação (para fora) dos próprios recursos (prometer mais do que se tem), inclusive nas superestimativas de números de participantes em manifestações ou algo do tipo – será que tudo isto não está a merecer uma apreciação crítica alternativa? Que as forças adversárias assim se comportem, nada a estranhar: são práticas que atendem à sua perspectiva continuísta. Mas, será assim também que devem comportar-se as forças que pretendem plantar sementes de uma nova sociedade, desde aqui e agora?
Nessa perspectiva, são inumeráveis os equívocos a superar, quase todos associados à nossa incapacidade de autocrítica, em especial no campo ético-político. Em primeiro lugar, sucumbimos com frequência à tendência nominalista, isto é: a uma complacente autoavaliação, segundo a qual bastaria nossa pertença a uma corrente política, a um movimento popular, a um sindicato ou partido de esquerda, para nos avaliarmos “superiores” aos adversários: “nossa moral é superior à deles”… Por sermos filiados à esquerda, estamos imunes aos vícios “dos outros”. Estamos blindados, por sermos “de esquerda”… Tanto é verdade, que não nos ocorre ousar a mesma régua para “medir” vícios nossos e dos que acusamos da classe inimiga. Isto é por demais frequente. Uns o confessam abertamente, enquanto a maioria assim se comporta, mas evitando reconhecer de público…
Só por meio da autocrítica, é possível dar-se conta e superar práticas historicamente suicidarias a que, por vezes, cedemos, e ousarmos ensaiar passos de uma resistência propositiva e de alternatividade. Referimo-nos a práticas suicidarias, pensando justamente em posições açodadas, perigosa armadilha, tanto mais quanto dão a ilusão de reagir à altura aos fatos adversos, quando, na verdade, nos vemos, em seguida, enredados em verdadeiros impasses ou aporias. Apenas dois exemplos ilustrativos: num momento, nos lançamos contra o “consórcio” Supremo Tribunal Federal-Procuradoria Geral da República-Ministério Público Federal-Polícia Federal-Mídia comercial, quando os fatos militam contra nós, e, ato seguinte, passamos a socorrer-nos justamente de segmentos desse mesmo consórcio, quando os fatos são do nosso interesse… Costumamos denunciar vigorosamente a cobertura da imprensa internacional dos países centrais do Capitalismo, e, de repente, dessa mesma imprensa nos socorremos, quando noticia fatos a nosso favor… Eis uma armadilha que depõe contra nossa maneira de apreciar a realidade, por usarmos dois pesos e duas medidas, beirando a consagração de uma ética da conveniência, que sempre tem fôlego curto…
Outro ponto que se impõe à nossa apreciação: nosso distanciamento ou, em alguns casos, nosso abandono do cultivo pela boa teoria, fazendo ouvidos moucos a uma experiência fundamental a todo processo que se queira revolucionário: “Sem teoria revolucionária, não há ação revolucionária”… Quantos equívocos graves poderíamos apontar, a este respeito! Do campo econômico ao campo político, da esfera cultural ao plano ético… Ilustremos, de passagem, algumas situações recentes de evidente falta de apreço à ética revolucionária. Sucessivos e crescentes desvios devem-se, com efeito, a tal abandono. Como, por exemplo, quando nos descuidarmos dos limites profundos decorrentes de uma aposta cega no Estado como espaço de transformação social? Daí foi um passo para outras opções sabidamente descabidas, tais como o aliancismo, o suicidário descolamento dos dirigentes, em relação às bases; os sucessivos desrespeitos a princípios elementares como o das decisões pelas, a entrega do destino e das decisões fundamentais a um pequeno grupo de dirigentes, a perda crescente de autonomia em relação às instâncias do Estado e do Mercado, o abandono do processo formativo, a massiva arregimentação de militantes qualificados – mulheres e homens – retirados das lutas sociais do campo e da cidade, para atuarem nas instâncias do Estado (União, Estados e Municípios), implicando uma grave sangria aos movimentos sociais populares, adesismo partidário das organizações sindicais, apoio incondicional dado ao partido por expressivas parcelas da chamada “Igreja na Base”, entre outros fatos.
– Por qual sociedade lutamos?
– Refrescando nossa memória histórica, atentos e abertos aos sinais…
– Que caminhos temos trilhado?
– Que processos organizativos temos priorizado, nas últimas décadas?
Essas notas acabaram estendendo-se mais do que o que havíamos pensado. Ainda assim, vários pontos ficaram de fora, dentre os quais questionamentos acerca do esgotamento do Estado (com uma série de componentes, tais como democracia representativa, aparelhos de Estado, sistema partidário, etc.) como forma sustentável de gestão societal capaz de superar o Capitalismo; a urgência de retomar, em outras bases, o processo formativo contínuo das bases e dos dirigentes da Classe Trabalhador (esta mesma categoria necessitando de atualização histórica, a partir dos, e para além da contribuição dos principais clássicos). Isto fica para outas ocasiões. Submeto esses pontos à apreciação e ao debate fraterno.
João Pessoa, 14 de junho de 2016