sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

MOVIMENTOS POPULARES E ORAGANIZAÇÕES DE BASE, NO BRASIL: refontização como condição de retomada de seu potencial transformador




MOVIMENTOS POPULARES E ORAGANIZAÇÕES DE BASE, NO BRASIL: refontização como condição de retomada de seu potencial transformador

Alder Júlio Ferreira Calado

Solidários a quem, nos últimos tempos, vem chamando a atenção de nossas organizações de base – em especial dos movimentos populares (inclusive os mais ligados à chamada “Igreja na Base” – para a necessidade e urgência de esboçarem sinais convincentes de uma autocritica, ousamos retomar a reflexão, desta vez, para ponderar acerca de um fenômeno pouco destacado em textos analíticos da atual crise, em que vive mergulhada nossa sociedade, e que tem a ver com os descaminhos daquelas forças sociais historicamente vocacionadas a atuarem como sujeitos de transformação. Referimo-nos a uma espécie de desfontização, isto é, à crescente tendência de subestimação ou mesmo de abandono de suas principais fontes de inspiração, seja no tocante às forças que se querem inspiradas na Filosofia da Práxis (da qual o legado Freireano, é instigante interlocutor), seja daquelas que têm na corrente conhecida como Teologia da Libertação, suas fontes principais de referência. As linhas que seguem, têm como objetivo ajudar a retomar o debate sobre esta questão. Iniciamos por refrescar a memória de elementos axiais, característicos do nosso processo organizativo e formativo, e de mobilização, vivenciado em final dos anos 70/ inicios dos anos 80, no Brasil e na América Latina. Em seguida, cuidamos de assinalar uma sucessão de revezes históricos de nossas organizações de base, graças ao abandono ou à insuficiência de seu empenho organizativo, formativo e de luta, inspirado em suas principais fontes de referência. Por último, tratamos de fornecer algumas pistas, a título de ensaio de passos, na busca de retomada, em novo estilo, da necessária refontização.
1.  Breve rememoração de nossas referências teórico-práticas... 
Em fins dos anos 70/começos dos anos 80, ainda durante a ditadura civil-militar, chama a atenção o fecundo investimento exercitado pelos movimentos populares e por nossas organizações de base em bebermos principalmente em duas fontes organicamente articuladas: a do legado marxiano (em interlocução com a Educação Popular de matrix Freireana) e a da “Igreja na Base” (inspirada principalmente na Teologia da Libertação).
 Em cada uma dessas principais referências teórico-práticas, tratemos de rememorar os pontos considerados mais fortes.
No caso do legado marxiano, nossa atenção se voltava, fundamentalmente para os seguintes aspectos:
- o esforço continuado em fazer uma análise objetiva  da realidade objetiva, isto é: potenciar o empenho numa leitura acurada, servindo-nos de conceitos considerados mais eficazes de uma aproximação mais objetiva da complexidade daquele contexto histórico. Neste sentido, cuidávamos em priorizar conceitos tais como: “Modo de produção”, “Formação social “luta de classes”, “Mais valia”, “Classe Trabalhadora”, “Consciência de Classe”, “Estado”, “Alienação”,  cuja aplicação se buscava sempre ancorar em relevantes princípios como o do Movimento, o da transformação universal, o da interconexão, o da unidade dos contrários, etc. Eram princípios como estes que, trabalhados à base da prática como critério de verdade, ajudavam os militantes – homens e mulheres – a ter claras distinções tais como origem de classe, posição de classe, protagonismo nas decisões tomadas pela base, alternância de cargos e funções, a função de delegação, entre outras.. Mas, não se tratava apenas de ter clareza sobre tais conceitos. Mais importante ainda se sentia a necessidade de se examinar se e como cada um deles se aplicava ao contexto concreto, também no exercício de análise de conjuntura. De modo semelhante, tínhamos como fundamental um cuidadoso exercício (coletivo e pessoal) de levantar sobre a realidade em análise os mais diversos ângulos sob os quais ela precisava ser analisada, isto é, não se poderia contentar com um exame apenas, do ponto de vista econômico, mas igualmente examinar como os fatos econômicos se associavam organicamente ao contexto político e cultural.

 Se enraizavam diversas formas de atuação desses militantes, seja no campo da organização, seja no terreno do processo formativo, seja nas ações de mobilização e lutas sociais mais diretas. Não apenas em cada uma destas, mas sobretudo em seu interrelacionamento. Tratemos de trazer alguns exemplos ilustrativos, acerca disto.

No campo organizativo, por exemplo, aprendia-se que a força e a eficácia de nossas ações organizativas residiam no jeito de nos organizarmos.  Um desses jeitos – e não o menos importante! – consistia em que, se o nosso grande objetivo era o de ajudarmos a construir as bases de uma sociabilidade alternativa à barbárie capitalista, tínhamos, não apenas de nos esforçarmos (coletiva e pessoalmente) em manter sempre aceso este rumo, ou seja, manter firmes os traços fundamentais do rumo almejado, da nova sociedade, mas igualmente nos comprometermos com os caminhos coerentes com tal rumo. A liberdade que almejávamos só seria acessível por caminhos também de liberdade. Isto já nos predispunha a manter-nos alertas em relação aos modos convencionais de organização, como os seguidos pelas forças sindicais hegemônicas, pelos grupos partidários convencionais. Estávamos convencidos de que tínhamos que seguir à contra-corrente de suas práticas e concepções.

Em termos práticos, isto significava,, do ponto de vista organizativo, priorizar iniciativas tais como:
- Levar um estilo de vida próximo das bases;
- Criar e promover núcleos (pequenas comunidades, conselhos populares, círculos de cultura ou que outro nome tivessem), nos mais variados lugares: nas fábricas, nos bairros periféricos, nas universidades, nos colégios, nas pequenas comunidades rurais, nos ambientes de trabalho, etc.);
- Assegurar condições para o exercício da autonomia, em relação ao Mercado e ao Estado, por meio do autofinanciamento, recorrendo aos “tostões” de seus membros, como contribuição regular;
- Assegurar a tomada de decisões pela base, compartilhando-as à outras instâncias, por meio de seus delegados e delegadas;
- Garantir o rodízio ou alternância de cargos e funções, de modo que, passado o período de sua gestão, quem está na coordenação volte para a base, e quem é da base venha ocupar a coordenação;
- Investir no estudo continuado dos bons clássicos e contemporâneos;
- Promover a circulação regular de revista e jornais, de caráter informativo e formativo...

O diferencial desse jeito organizativo reside no investimento e cultivo incessante do protagonismo comunitário, isto é, na ação animada, sob os mais diversos aspectos, pelo conjunto dos protagonistas, não se abrindo brecha para oportunicistas e controladores individuais ou de pequenos grupos. Mas, isto só se torna exequível, se e quando o processo organizativo caminha de braços dados com o processo formativo. Um coordenar ou um pequenos grupo de direção até  pode tentar controlar a base, mas só se esta não estiver metida num processo de formação crítica, capaz de anular qualquer esboço de manipulação por parte de um membro ou dirigente ou de um pequeno grupo. Lá onde isto não teml ugar, o campo fica escancarado à ação deletéria de espertalhões, com vistas à imposição dos próprios interesses e projetos, com e pior: com a urgência  e coonestação da própria base, aí transformada em massa de manobra.

Um de tantos casos, nesse campo, se dá, quando a forte desconfiança que antes se tinha do Estado, enquanto capaz de protagonizar mudanças substantivas do interesse dos "de baixo", passa ser usado e abusado, como instrumento de mudança de mudança social, conforme a aposta e interesses de um pequenos grupo, ávido de poder e de alcançar seu projeto, por mais que insista em tratar-se de um um projeto "da Classe Trabalhadora"...

Acrescentar: Autonomia, postura ética, crítica e autocrítica

2.    Em que resultaram a crescente inobservância e o abandono das fontes teórico-práticas de referência?
Em vez da busca de uma nova sociedade, a opção recauiu no investimento em um novo Estado.... Diversos são os dados de pesquisa dando conta dos frutos alcançados por nossas organizações de base e movimentos populares, enquanto foram levadas a sério suas principais fontes de referência, inclusive no campo de conquistas relativas à reforma agrária. À medida, porém, que tais referências prático-teóricas passaram a ser secundarizadas ou mesmo abandonadas, eis que graves consequências foram sucedendo-se, dentre as quais destacamos algumas, de passagem:
-o aliancismo como estratégia “necessária”, dando lugar contribuindo progressivamente para a perda de identidade de classe, bem como da autonomia em relação ao mercado capitalista e ao seu Estado;

-inversão de prioridades ético-políticas: em vez de fortalecimento dos núcleos, a corrida pelos espaços estatais...

- Em vez de um sindicalismo de base e combativo, prevalece um sindicalismo de resultados e atuando como correia-de-transmissao do Partido...

-Dependência dos recursos do Estado e do Mercado, em vez da aposta nos próprios tostões...

-Em vesz de decisõespela base, o investimento progressivo numa condução feita uma pessoa ou por um pequeno grupo...

-Em vez da aposta em projetos populares, a avidez pelas grandes obras, denunciadas, no período da ditadura civil-militar, a justo título, como “obras faraônicas” (a exemplo das grandes hidrelétricas e da própria transposição de água de São Francisco;

-A embriaguez pelo poder acirra a estratégia de agradar dois senhores...

- O enraizamento nos espaços populares sede lugar à opções por espaços privilegiados e o consequente abandono das bases...

3.  Que lições recolher, em vista da necessária retomada, em novo estilo?
Diante de tantos e tão graves reveses, impõe-se recolher lições ainda que duras, no sentido de um efetivo exercício de autocrítica, menos por palavras e mais por práticas convincentes. Exercício de autocrítica a ser seguido de iniciativas concretas, em vista da retomada, em novo estilo, do Trabalho de Base, tanto no que se refere às ações de caráter organizativo, tanto no tocante às tarefas formativas, quanto aos compromissos de mobilização. Tarefas estas a serem retomadas a partir das referências teórico-práticas acima mencionadas.
Concretamente, que passos poderiam ajudar nesta retomada do trabalho de base, que tal pensar nas seguintes sugestões sugestões?

-Não seria interessante mostrar sinais concretos de autocritica, não tanto por palavras ou promessas, mas por práticas efetivas?

-Em vez da avidez por vanguardismos inconsistentes, po que não participar em pé de igualdade de uma retomada, em novo estilo?

- Que tal retomar a criação e ampliação de núcelos e conselhos populares?

- Não será o caso de combatermos o caciquismo, retomando as práticas comunitárias  características das origens, reinvestir no mecanismo da alternância e no princípio da delegação?

-Que tal retomar práticas por meio de condições favoráveis ao exercício da autonomia (em relação ao Estado e ao Mercado), por meio do autofinanciamento?

- No plano formativo, que tal reinvestir na memória histórica dos oprimidos valorizando e incentivando o estudo comunitário da contribuição dos movimentos populares no mundo, na A. Latina e no Brasil?

- O que dizer do incentivo à leitura em grupo de biografias de figuras revolucionários e revolucionárias de ontem e de hoje?

- Que tal, em vez de centrar toda a atenção formativa apenas na esfera política, ampliar o alcance da formação, de modo a alcançar tantas outras dimensões do processo de humanização?

-Por que não retomar as relações internacionalistas, em novo estilo?

-Não será fundamental priorizarmos a necessidade de mudança de estilo de vida (mais próximo da população, com sobriedade e simplicidade de vida, priorizar as lutas em defesa e promoção da Mãe-Terra?

- Em breve, não será o caso de fortalecer a sociedade civil, empoderando-a, com base na reconquista da confiança e da solidariedade popular?

João Pessoa, 28 de dezembro de 2018.

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