Para além de um cenário terrificante: a força revolucionária das correntezas subterrâneas
Alder Júlio Ferreira Calado
A conjuntura internacional, latino-americana e brasileira segue revelando-se profundamente trágica, tanto para os nossos biomas quanto para os humanos e demais viventes. Cada vez mais deletérias continuam sendo as práticas do Império americano-sionista nas mais diferentes esferas da realidade, sobretudo desde o Governo Trump, em aliança profunda com o Governo genocida de Israel, contando com a cumplicidade dos Governos Europeus, salvo uma ou outra excessão. Ainda ontem, dia 07 de julho de 2026, não bastassem a estupidez e ato ridículo de Trump em “reinvidicar” do atual presidente da FIFA, a reconsideração da expulsão do jogador Folarin Balogun de modo a permitir sua escandalosa participação no jogo contra a seleção belga, tivemos a notícia da retomada abrupta dos bombardeios contra o Irã, bem como contra o Líbano, da parte de Israel.
Da política econômica à socioambiental, da política tecnológico-digital das grandes plataformas à política de reconquista colonial mais agressiva, aplicada à América Latina, tal Império só tem agudizado sua extrema gula de apoderar-se do mundo inteiro, razão pela qual não cessa de aumentar seu poderio militar, agigantando cada vez mais seu orçamento na indústria de armamentos bélicos, de expansão infinda de potentes bases militares mundo afora.
A América Latina continua sendo um alvo predileto desta política necrófila. Do México à Patagônia, passando pela América Central e o Caribe (com ênfase em Cuba), a política estadunidense não cessa de semear o terror, ora prometendo anexar o Panamá, ora intensificando suas agressões a Cuba (não bastasse o criminoso bloqueio mantido e agravado, há quase 65 anos), ora bombardeando impunemente dezenas de embarcações de pescadores, no Mar do Caribe, ora sequestrando o presidente da Venezuela e sua esposa, como forma de controle imperialista daquele país - cuja população, alías, também hoje sofre as trágicas consequências dos recentes abalos sísmicos a gerarem milhares de mortes, feridos e desaparecidos -, ora ainda interferindo nos processos eleitorais e na política interna de quase todos os países sul-americanos, fazendo questão de explicitar seu plano de intervenção em todo o continente.
A sociedade brasileira também enfrenta graves consequências provocadas pelo Império americano-sionista, não sem a funesta colaboração das forças direitistas. Não bastassem os ataques tarifários, as forças componentes do Estado brasileiro - especialmente o legislativo e o judiciário em orgânica sintonia com os interesses do grande Capital - não cessam de gerar escândalos cada vez maiores contra a economia popular, a exemplo do orçamento secreto, do Banco Master, do roubo aos aposentados e pensionistas do INSS, da Operação Carbono Oculto. Importa ainda salientar o peso negativo de forças religiosas - principalmente as que se reivindicam de cristãs -, a potencializarem de modo exponencial, o alcance destrutivo das forças dominantes.
No entanto, nosso propósito principal, nas linhas que seguem, é o de focar nas potencialidades das “correntezas subterrâneas”. Estamos por demais habituados a nos reger pelo que observamos nas águas e superfície, sem nos darmos conta do que se passa nas águas subterrâneas. Muitas vezes, de tão presos às dimensões conjunturais, nem sempre percebemos nossa desatenção quanto a perspectiva histórica de longa duração, razão pela qual nos tornamos inclinados a fazer uma leitura de mundo parcial e bastante limitada, em que temos muita dificuldade de perceber criticamente os sinais da história que não se situem ao alcance imediato de nossa vista. Eis por que somos chamados a centrar atenção também no que se passa nas correntezas subterrâneas da história. Aqui, vamos conferir um apreço especial ao que temos chamado de “forças moleculares revolucionárias”.
Do local ao âmbito mundial, podemos constatar numerosos sinais de alternatividade molecular a sociabilidade dominante nas distintas esferas da realidade, das quais focaremos apenas algumas. Na esfera planetária por exemplo, abundam experiências e iniciativas de tocante cuidado com a Mãe-terra. A começar por nossos povos originários, são múltiplos os sinais alternativos à barbárie capitalista. Neste sentido, cumpre atentar para as densas contribuições, seja de povos Indígenas espalhados pelo mundo no continente americano, inclusive na américa latina e no Brasil, seja em relação a figuras com rica experiência de vida, a exemplo de Ailton Krenak sobre quem já tivemos oportunidade de refletir (cf. textosdealdercalado.blogsport.com).
Tanto do ponto de vista prático, quanto do ponto de vista teórico, importa tomar em consideração avanços significativos, como são os casos do paradigma do “Buen vivir” e do Eco-Socialismo, o qual tem na figura de Michael Lowy sua inspiração mais destacada, inclusive graças ao “Manifesto por uma Revolução Ecossocialista”, de sua lavra em co-autoria com Jùlia Câmara (Editora Boitempo 2025), documento aprovado no XVIII Congresso da Quarta Internacional, realizado na Bélgica, em fevereiro de 2025 (maiores informações ver Revista Movimento, cf. https://movimentorevista.com.br) reconhecendo tratar-se de um escrito para além de uma proposta de caráter exclusivamente ambiental, mas também propugnando uma revolução de modo de produção, de consumo e de gestão societal, alternativo a barbárie capitalista, de modo a focar na produção de valores de uso - e não de valores de troca -, visando a atender às verdadeiras necessidades dos humanos e demais viventes, e não voltado à acumulação ilimitada de bens.
Ainda no plano planetário, importa conhecer ou revisitar uma vasta lista de experiências de convivência harmônicas com nossos mais distintos biomas, tal como acontece, por exemplo, em nosso semiárido nordestinos, aqui destacando especialmente experiências comunitárias frutuosas, no campo das tecnologias alternativas de convivência no bioma caatinga, na organização de Bancos de sementes-crioulas, das cisternas comunitárias, as bem sucedidas práticas agro-ecológicas (inclusive com suas feiras agroecológicas), as barragens subterrâneas entre outras.
Na esfera das relações sociais de gênero, a despeito do escandaloso crescimento dos índices de feminicídio, das múltiplas formas de violência contra as mulheres e da expansão ameaçadora da misoginia, das formas tóxicas de masculinidade cada vez mais presente nas redes digitais - de que é prova a chamada “machosfera” -, cabe lembrar o extraordinário avanço, também no Brasil da consciência feminista e de suas lutas libertárias, protagonizadas por diversos grupos e movimentos feministas (Marcha Mundial de Mulheres, cf. https://marchamundialdasmulheres.org.br/ ; O Movimento das Mulheres Indígenas cf. https://apiboficial.org/2026/02/27/carta-manifesto-e-pauta-de-reivindicacoes-do-movimento-das-mulheres-indigenas-do-medio-xingu/ ; O Moviemnto das Mulheres Negras cf. https://www.ancestralidades.org.br/biografias-e-trajetorias/movimento-de-mulheres-negras ; O Movimeto das Mulheres Camponesas cf. https://mmcbrasil.org/). Aqui também, importa ter presentes as lutas libertárias no campo do Sagrado a exemplo da Teologia Feminista da Libertação e da Teologia Eco-feminista, ambas formuladas como propósta ecúmenica, a envolverem integrantes de diversas confissões em diálogo com múltiplas expresões não religiosas. No Âmbito especificamente católico, convém ter presente, por exemplo o “site” https://catolicas.org.br/, enquanto diversos são os “sites” abrigando tendências ecumenicas, como o faz o site do CEBI (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, cf. https://cebi.org.br/). Cumpre igualmente considerar a relevância das lutas de resistência contra a homofobia (LGBTQIA +, comportando uma diversidade de “sites”).
Aqui nos limitamos a registrar algumas experiências moleculares impregnadas de força revolucionária molecular, às quais nossos destinatários prioritários - jovens militantes das classes populares - são chamados a acrescentar tantas outras iniciativas, nestas e em diversas outras esferas de nossa realidade, sempre buscando compartilhar as razões de nossa esperança.
João Pessoa, 08 de Julho de 2026.
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