quinta-feira, 23 de julho de 2026

Ecumenismo de base como alternativa aos dilemas presentes: CEBs como exemplo ilustrativo

Ecumenismo de base como alternativa aos dilemas presentes: CEBs como exemplo ilustrativo 


Alder Júlio Ferreira Calado 


Nos anos de 1950, restavam profundamente hostis, não apenas as relações entre Católicos e Protestantes, como também em referência àquelas pessoas ligadas a religiões não cristãs, principalmente às religiões de matriz Africana. Um rápido lançar de olhos nas páginas da REB (Revista Eclesiástica Brasileira) daquela época permite constatar, por meio de vários artigos, tal realidade. De 1957 data a encíclica “Fidei donum”, subscrita pelo papa Pio XII, a convocar os Bispos europeus a enviarem sacerdotes para o Terceiro Mundo, com o propósito de acudirem em missão as Igrejas particulares da África e da América Latina, empenhando-se em combater o Comunismo e o avanço das Igrejas Protestantes e as religiões de matriz Africana. Neste contexto, importantes Dioceses europeias (na Itália, na Bélgica, na Espanha…) organizam espaços de preparação dos futuros enviados. Foi assim que surgiram experiências tais como as do “Seminário per America Latina”, na Itália, algo similar também ao que se passou na Bélgica e na Espanha, resultando no envio de centenas de missionários para a África e para a América Latina inclusive o Brasil.         


O Concílio Vaticano II convocado pelo Papa João XXIII em 1959, e realizado de 1962 a 1965, consciente das profundas e  urgentes reformas “Reformata Ecclesia semper reformanda est” pretendia ser apenas um ponto de partida, não propriamente um ponto de chegada. Em seus 16 Documentos conclusivos - 4 Constituições, 9 Decretos e 3 Declarações - ele aponta nesta direção, mas não sob os mesmos critérios . Por exemplo, os Decretos sobre a Missão (“Ad Gentes”), sobre o Ecumenismo (“Unitatis Redintegratio”) e sobre o diálogo inter-religioso (“Nostra Aetate”) indicam caminhos valiosos, relativos a Evangelização e a Missão como essenciais ao seguimento de Jesus, o que supõe reconhecimento e o respeito pelos valore não cristãos de que são portadores outros povos e nações, aos quais o Espírito Santo também tem muito a dizer, donde o chamado ao exercício da interculturalidade. Ainda longe de serem concretizados, a despeito inclusive de sua incipiência.


Em “Ad gentes”, já em seu Proêmio, lemos afirmações contundentes acerca da destinação universal da Missão. Com efeito, os primeiros números deste Documento trazem afirmações convincentes, não apenas sobre o caráter universal da vocação missionária da Igreja, como também revelando textos fundantes da Sagrada Escritura, transpondo limites meramente eclesiais. Aí também vem claro o reconhecimento da legitimidade de outras crenças e expressões religiosas, implicando a superação de preconceitos étnicos e outros. Algo semelhante também lemos em “ Unitatis Reditegrantions”, a clamar pela reintegração da Unidade dos cristãos e cristãs, sempre tendo presente a destinação universal da Palavra. No Decreto “Nostra Aetate”, o Concílio Vaticano II, nos convida a ir mais longe dispondo-nos ao contínuo exercício do diálogo inter-religioso, que supõe enorme abertura ao diálogo intercultural entre povos e nações aos quais também se revela a Divina Ruah. Infelizmente, neste quesito, pouco avançamos. Ao revés, involuímos, haja vista o crescente fechamento, com raras exceções das Igrejas Cristãs, no Brasil e na América Latina.


Um enorme desafio se abre para os cristãos e cristãs comprometidos com a Tradição de Jesus com o seu segmento. Cada vez mais parece vã a expectativa de mudança de cenário, a partir da iniciativa da hierarquia Católica e de outras Igrejas cristãs, seduzidas que se acham, salvo exceções, pela religião de Mercado, cada vez mais atraídas pela auto-referencialidade alimentada pelas suas estratégias de culturalismo, de devocionismo e outros atrativos multitudinários, a exemplo, no tocante a Igreja Católica, do fenômeno Frei Gilson. Neste cenário entendemos oportuna iniciativa do CEBI de trabalharmos, este ano, a leitura contextualizada do Livro do Profeta Daniel para a qual vale a pena ouvirmos a reflexão proposta pelo Teólogo Rafael Rodriguez, do CEBI, para cujo acesso recomendamos o link https://www.youtube.com/watch?v=YDeUlZW-VC4


Não se trata apenas do fenômeno Frei Gilson, mas de um amplo conjunto de práticas cada vez mais distanciadas do Movimento de Jesus. Referimo-nos, por exemplo, ao multi-secular tratamento dispensado pelas Igrejas cristãs às Mulheres, mantidas excluídas e marginalizadas das decisões eclesiais, não bastasse o fato de já serem excluídas das decisões tomadas, no âmbito societal como se não fossem, também elas, sujeitos eclesiais e sociais. Neste sentido, há mais de meio século, têm se levantado vozes femininas de teólogas de reconhecida competência e profundidade, a exemplo de Elisabeth Schussler Fiorenza, Ivone Gebara, Nancy Cardoso, Odja Barros, Romi Bencke, Lusmarina Garcia, entre outras. Os grandes impasses eclesiásticos da atualidade não param por aí. Estendem-se a outros campos - os escândalos sexuais, como a pedofilia, os escândalos financeiros e tantos outros. Diante de tantos desatinos, cada um mais grave que os outros, de nossa parte, se  pretendemos nos manter fieis à Tradição de Jesus, somos chamados a ensaiar passos de alternatividade a esta atual conjuntura sócio-eclesial.


As CEBs como alternativa ecumênica a este cenário de retrocesso 


As CEBs se preparam para o seu 16º Intereclesial, a acontecer em Julho de 2027, no Espírito Santo, Estado onde tiveram lugar os dois primeiros Intereclesiais (1975 e 1976), em um contexto histórico de grandes desafios, dos quais o mais relevante consiste no enfrentamento da Ditadura Empresarial Militar. A despeito dos entraves, a Igreja Católica Romana, no Brasil e na América Latina, contava com uma geração de bispos comprometidos com a causa libertadora dos empobrecidos, embalados que se achavam pelos ventos proféticos de Medellín. Neste período, com efeito, brotaram múltiplas experiências de missão e evangelização enraizadas na Boa Nova do Reino de Deus e sua Justiça: o surgimento do CIMI (1972), da Comissão de Justiça e Paz (1972) das PCIs (no nordeste, e no Brasil) e alhures, da CPT (1974), a CPO (1976), dos CDDH,  da PJMP (1978), do CEBI (1979), entre outras iniciativas frutuosas. Também durante este período, a Teologia da Libertação dava passos relevantes. 


Isto não quer dizer que a expansão das CEBs, para além de suas conhecidas potencialidades proféticas, não enfrentassem também limites, dos quais o mais inquietante fosse sua organização com profundos vínculos hierárquicos. Limite este que vem tendo relevantes desdobramentos nos dias atuais sobretudo após os quase 35 anos de pontificados conservadores do Papa João Paulo II e do Papa Bento XVI, implicando crescentes retrocessos doutrinais, pastorais, teológicos, litúrgicos e sociais. 


Ao tempo em que saudamos os avanços pontuais da caminhada das CEBs destacando sua resistência, também expressamos algumas inquietações sobre os desafios atuais enfrentados pelas CEBs. Na esteira da atual onda regressiva de amplos segmentos de Igrejas Cristãs, inclusive a Católica Romana, cresce a tendência a uma paroquialização das CEBs, cujos integrantes cada vez mais se acham envolvidos em tarefas da Paróquia, em prejuízo das atividades missionárias das CEBs, em seu compromisso com a causa libertadora dos empobrecidos e empobrecidas, principalmente diante das urgências enfrentadas, na sociedade e nas Igrejas, pelas Mulheres. Não raramente, as CEBs são tratadas como mais um componente pastoral sem atenção maior às suas especificidades missionárias, mais ligadas a tarefas como círculos bíblicos, leitura popular da Bíblia, participações em mutirões, animação das lutas sociais, entre outras.


Preocupa-nos fortemente a perda de uma autonomia relativa das CEBs frente a hierarquia eclesiástica dada a cada vez mais certa subordinação aos desígnios  hierárquicos. Algo similar também se passa nos órgãos do Laicato, bem como em outros do gênero. Mais de 60 anos após a conclusão do Concílio Vaticano II, teria sido mais do que razoável esperarmos, da parte da CNBB, passos mais avançados do exercício da colegialidade para além do segmento episcopal, de modo a abrir-se a uma organização mais flexível admitindo inclusive o surgimento de outras conferências (a dos Leigos e Leigas; a dos Presbíteros; a dos Diáconos) a exemplo do que já se passa com a CRB, de maneira a demonstrar uma convivência fraterna/sororal com todos os segmentos do Povo de Deus. O que se passa, contudo, é o aparente fechamento do segmento episcopal como sujeito exclusivo das deliberações a todos concernentes.


No que tange mais especificamente as CEBs, acompanhamos, não faz muito, certo esforço de parte da CNBB, até de mudar a tradicional designação das Comunidades Eclesiais de Base para “Comunidades Eclesiais Missionárias” buscando excluir a expressão “de Base”, em clara tentativa de abrir mão do trabalho de base, tão profundamente associados às CEBs. Eis por que entendemos oportuno realçar o caráter ecumênico das CEBs, de modo que tantos seus membros, quanto suas diversas coordenações venham a ser assumidas por membros eleitos de diversas Igrejas cristãs, a exemplo do que já se passa na organização das campanhas da Fraternidade, com Coordenação alternada a cada 5 anos com o CONIC. 


O caminho ecumênico já não pode ser tomado como uma mera opção eventual, mas como a via mais consequente da Tradição de Jesus. Já não se trata de uma espécie de estratégia da qual se lança mão, em situações de aperto. Antes, corresponde a uma exigência evangélica, corroborada inclusive em diversos documentos-chave do próprio Concílio Ecumênico Vaticano II, como acima referidos. As décadas pós-conciliares constituem preciosa fonte de inspiração para o movimento ecumenico, inclusive no Brasil neste âmbito diversas figuras ligadas às Igrejas Protestantes históricas se apresentam com enorme contribuição, desde os anos 1950. Também após o Concílio Vaticano II, estreitaram-se entre Protestantes e Católicos. Aqui lembramos, de passagem, nomes tais como os de Richard Shaull, Rubem Alves, Waldo César, Jether Pereira Ramalho, Julio de Santa Ana, para mencionar apenas alguns. Continua ressoando fortemente o livro de Júlio de Santa Ana intitulado “Ecumenismo e Libertação”. 


Nesta busca, dada a atual conjuntura sócio-eclesial, recheada de fundamentalismos, a prática ecumênica de base se apresenta como alternativa a ser reforçada, inclusive no âmbito da caminhada das CEBs.


João Pessoa, 23 de julho de 2026





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