sábado, 5 de agosto de 2017

PASTORAIS SOCIAIS NA PARAÍBA - EM BUSCA DO REINO DE DEUS E SUA JUSTIÇA, EM TEMPOS TORMENTOSOS E DE ESPERANÇA CONTRA TODA ESPERANÇA: memória, discernimento e compromissos...

PASTORAIS SOCIAIS NA PARAÍBA - EM BUSCA DO REINO DE DEUS E SUA JUSTIÇA, EM TEMPOS TORMENTOSOS E DE ESPERANÇA CONTRA TODA ESPERANÇA: memória, discernimento e compromissos...

Alder Júlio Ferreira Calado

As Pastorais Sociais do Regional Nordeste II (da CNBB), de cuja caminhada fazem parte também as Igrejas particulares da Província da Paraíba, em vista de uma (re)avaliação retroprospectiva de sua trajetória de quase meio século, vêm promovendo – inspiradas, inclusive, na bela contribuição  do livro “Pastoral Social – Dimensão socioestrutural da caridade cristã”, do Pe. Francisco Aquino Junior - reuniões, encontros, círculos bíblicos,  preparatórios para as assembléias provinciais, nessa direção. A Assembléia das Pastorais Sociais da Província da Paraíba está marcada para os dias 11 e 12 de agosto de 2017, a realizar-se em Campina Grande – PB.

Com base no tema proposto para esta Assembléia, cuidamos de fornecer, a título de “aperitivo” ou de problematização,
Alguns elementos que nos permitam pistas de reflexão sobre tantos desafios – velhos e novos – com que nos deparamos. Distribuimos esses subsídios em três momentos organicamente articulados: 1) uma breve rememoração das origens de nossa caminhada; 2) um leve ensaio de discernimento sobre aspectos de nossa gesta político-pastoral; e 3) uma reflexão sobre nossos compromissos ante os desafios sócio-eclesiais de hoje.

1) Em busca de nossas raízes...

Ao longo destas últimas décadas, muita água tem rolado debaixo da ponte. Atravessamos distintas conjunturas sócio-eclesiais, em que nossa gente experimentou momentos de profundas turbulências, dentro e fora dos espaços eclesiais, mas também de muitas lutas, alguns avanços significativos, certos reveses, sem perder a esperança. Com efeito, no curso deste período de cerca de meio século, experimentamos como e com as classes populares sucessivos desafios de monta: o tempo-auge da Ditadura empresarial-militar do Governo Médici (1969-1973), associado às ditaduras do Cone Sul (Chile, Argentina, Uruguais...), às quais Eder Sader se referia como a um “rumor de botas”; vivemos com garra e esperança a crescente resistência à(s) Ditadura(s), o (re)ascenso dos movimentos sociais (partidários, sindicais, populares, estudantis, eclesiais...); as mobilizações pela Anistia, pelas Diretas-Já, pelo impedimento de Collor, pela Constituinte, pelas políticas sociais, pelos direitos humanos, pelas conquistas significativas da primeira década deste século, do ascenso de governos pós-neoliberais na América Latna, contra sucessivas ofensivas neoliberais no país, na América Latina  e no mundo...

  No plano interno à(s) Igreja(s), após um promissor ascenso das CEBs, das PCIs, das Pastorais Sociais (CIMI, CPT, CPO, , CPP, PJMP, PMM, Pastoral Negra, Pastoral da Criança, Pastoral Universitária, etc.), de movimentos (ACR, MER – hoje, MCP, ACO/MTC, MEB, MCU, Movimentos Fé e Política, etc.), serviços (Comissão Justiça e Paz, CDDHs, Cáritas, CEBI, etc.), associações (PATAC, AMC, AMINE, GP-NE, Fraternidade do Discípulo Amado, Escolas de Formação Missionária, além de outras modalidades de atuação eclesial, no campo social, eis que irrompe, expande-se e se fortalece,  a pontir do longo pontificado do Papa João Paulo II (sucedido pelo Papa Bento XVI, da mesma linha pastoral), uma forte ofensiva reacionária e restauradora da Cristandade, com enorme incentivo ao crescimento de movimentos eclesiásticos conservadores. Fenômeno que coincide com o impetuoso ascenso de movimentos similares, no plano de Igrejas neo ou pós-pentecostais...

No decorrer da década de 1980, em especial a partir de  meados desta década, o Vaticano desencadeia uma ofensiva de grande intensidade contra a Igreja na Base e a Teologia da Libertação, no momento em que se apresentava de reconhecida fecundidade profético-pastoral o trabalho da Igreja dos Pobres. Apenas duas ilustrações a este respeito , mais precisamente duas iniciativas (dentre diversas outras protagonizadas pela Igreja na Base):
= a coletânea “Teologia e Libertação”, apoiada por mais de uma centena de bispos latino-americanos, e que contou com a efetiva participação dos principais figuras da Teologia da Libertação latino-americana, com dezenas de livros versando sobre os temas-chave deste novo jeito de teologizar (a partir da vida do povo dos pobres), abrangendo temas como Reino de Deus, Antropologia cristã, Memória do povo cristão, Cristologia, Pneumatologia, entre diversos outros temas-chave, sempre tratados com um novo olhar, isto é,  deste modo latinoamericano de produção  teológica, desde o chão experiencial da vida dos pobres;
= a organização da CEHILA - Comisión de Estudios de la Iglesia Latinoamericana y del Caribe, que se empenhou num projeto pioneiro de pesquisa, de registro e de publicação de um número considerável de livros, recuperando – tanto em linguagem acadêmica, quanto em linguagem popular (CEHILA popular) - sob a perspectiva do povo dos pobres, as trajetórias históricas de diversas Igrejas particulares do continente latinoamericano.

Estas e outras iniciativas, sobretudo após o pontificado do Papa João Paulo II (depois sucedido pelo do Papa Bento XVI), passaram a enfrentar uma sequência de questionamentos, desaprovações, censuras, punições. Montou-se uma poderosa estratégia de desmonte das iniciativas da Igreja na Base, inclusive da Teologia da Libertação, que lhe servia de suporte teórico, principalmente após o Concílio Vaticano II e, em especial, a partir da Conferência Episcopal Latino-americana, realizada em Medellín, na Colômbia  (1968), que havia proclamado a “opção preferencial pelos pobres”.

  fecunda em que se deu tal retrocesso nas organizações de base da Igreja Católica implicando perseguição à Teologia da Libertação e algumas de suas figuras exponenciais; a estratégia de desmonte ou esvaziamento da chamada “Igreja na Base” (desmembramento autoritário da Arquidiocese de São Paulo, contra a vontade do arcebispo e seus auxiliares; fechamento do ITER; intervenção nas universidades e institutos católicos; nomeação e transferência de bipos, com perfil de obediência incondicional à nova linha pastoral imposta por Roma; advertência e medidas punitivas a figuras representativas da Teologia da Libertação; oposição explícita a figuras eclesiais comprometidas com a causa dos pobres, entre outras medidas tomadas.

Em nosso Regional Nordeste II, inclusive na Província da Paraíba, nossas Pastorais Sociais viveram momentos profundamente traumáticos, sobretudo em consequência da sucessão de Dom Helder Câmara por Dom José Cardoso Sobrinho. Tempos de profundo e prolongado desmonte da Igreja dos Pobres, inclusive com a expulsão de vários padres da Arquidiocese de Olinda e Recife, que tiveram acolhida pastoral, na Arquidiocese da Paraíba, por Dom José Maria Pires.

Foi, por outro lado, durante esse periódo de gandes provações, que, gaças ao acolhimento de pastor por parte de Dom José Maria Pires, prosperaram fecundas iniciativas pastorais. Já em meados/finais dos anos 60, começavam a dar sinais alvissareiros, em especial no Agreste paraibano, iniciativas de evangelização animadas pelos pobres do campo, por meio de suas comunidades, a exemplo das que se organizavam em tono da região de Mogeiro, onde tiveram lugar importantes iniciativas litúrgico-pastorais, inclusive com círculos bíblicos, com profundo teor formativo, como foram relatadas no livro de autoria do Pe. Gabriele, “Um Saberzinho de nada”, bem como, um pouco mais tarde, as ações de resistência ao latifúndio, em tempos de Ditadura Empresarial-Militar. Ganhou ampla repercussão a resistência dos posseiros de Alagamar, com as imagens de Dom José Maria, Dom Hélder e Dom Francisco Mesquita, a tangeremo gado das plantações dos agricultores.    

Na década de 1980, uma outra experiência pastoral de reconhecido alcance formativo, em terras paraibanas, mais precisamente no município de Pilões: o Seminário Rural, pouco depois substituído pelo Centro de Formação Missionária (CFM), em Serra Redonda. Uma fecunda experiência, inspirada e animada por uma Equipe de Formadores coordenada pelo Pe. José Comblin. Experiência que, em seguida, teria desdobramentos frutuosos, com mais uma meia dúzia de novas experiências formativas, missionárias, contemplativas, de peregrinação...

Nas décadas seguintes, nossas Pastorais Sociais, em estreita e orgânica parceria com outras organizações de base eclesiais (ACR, MER, CDDHs, o CEDUP, o MTC, o MAC, Comissão de Justiça e Paz, Movimento Fé e Política e outras) e com movimetnos populares do campo e das periferias urbanas, inclusive com organizações como o CENTRU, Fundação Margarida Alvesas organizações de convivência com o Semiárido,  continuaram sua trajetória de resistência e de avaços, em várias frentes, tais como em sucessivas conquistas de assentamentos da Reforma Agrária, com um saldo superior ao do período dos governos do PT; os excelentes frutos das organizações de base, empenhadas em relevantes iniciativas de convivência com o Semiárido (ASA, Cáritas, PATAC, várias iniciativas fecundas atuando na Borborema, no alto Sertão, no Cariri; iniciativas desenvolvidas no âmbito da Pastoral da Criança; o empenho na defesa e na promoção dos grupos indígenas, das comunidades quilombolas, dos trabalhos junto a distintos grupos de Mulheres; iniciativas de grande valia, no terreno agroecológico e de tecnologias alternativas de convivência com a região; empenho nos trabalhos de memória histórica (Memorial das Ligas Camponesas da Paraíba), entre outras.

2) Ensaio de discernimento

No curso de nossa trajetória, temos muito a render graças a Deus, bem como a celebrar. De fato, ao nos pormos a rememorar feitos e gestas de cinco décadas, sentimo-nos profundamente tocados com tantas conquistas significativas alcançadas. Ao mesmo tempo, temos consciência de muitas limitações que também nos acompanha(ra)m. Como nosso desejo é seguir avançando, em nossa caminhada, somos chamados a uma constante (re)avaliação retroprospectiva. Para tanto, inspiramo-nos em balizas que provêm, não da posição de uma corrente teológica – eventualmente esposada por uns, em desfavor de outros -, mas se acham inspiradas nos textos fundantes de nossa crença comum: o Evangelho, a cujas diretrizes somos todos chamados a responder, com generosidade, lembrados do que Jesus nos adverte: “Não foram vocês que escolheram, mas fui Eu quem os chamei, para que vocês vão e dêem fruto, e este fruto permaneça.” (Jo 15, 16). De que fruto se trata, senão de respondermos ao que o Espírito do Ressuscitado nos inspira de justiça, de paz, de solidariedade, de partilha, de amor, de misericórdia? Em especial, em nossas relações com o povo dos pobres? A despeito de nossos limites, não era um tanto isso que buscávamos testemunhar naquelas primeiras décadas, e que, em grande medida, deixamos para trás, seduzidos pelos atalhos político-eleitoreiros movidos pelo aliancismo, em que acabomos por privilegiar? Os bons frutos que semeamos, junto com o povo dos pobres, permaneceram mesmo ou restaram como “coisas do passado”?



Busquemos fazê-la, também em mutirão, por meio de questionamentos que nos ajudem, nesta empreitada.

Tendo sob nossa mira auto-avaliativa, significiativas conquistas alcançadas  vale a pena que nos perguntemos, por exemplo:
= Que condições objetivas e subjetivas nos permitiram alcançar tais conquistas, em especial aquelas que se mostram bem resistir à nova ofensiva neoliberal?
= Elas têm ou não muito a ver com o nosso jeito de nos organizar? Quem tomava as decisões? Como elas eram tomadas? A quem recorríamos para obtermos ajuda e apoio?

= Até que ponto conseguimos, a contento, dar sequência ao processo de formação contínua, que nos forneceu preciosas ferramentas conceituais e da prática prática, no processo dessas conquistas, e para além delas?
= Há ou não diferença considerável entre “conquistas” concedidas (de cima para baixo) e conquistas resultantes de nosso processo de luta, com autonomia, seja em relação ao Mercado, seja em relação ao Estado?
= Sem ignorar vantagens (em geral, mais de ordem pessoal do que em relação às nossas organizações de base), qual é mesmo o verdadeiro saldo de nossa opção por ocupar os espaços governamentais?
= Quais os verdadeiros frutos de nossa opção, a partir das últimas décadas, por aproximar-nos, como nunca antes havíamos feito, do campo partidário e eleitoral, distanciando-nos (em alguns casos, até abandonando) a saudável postura de um necessário distanciamento crítico das instâncias governamentais e das forças do Mercado?
= Mesmo no plano especificamente eclesial, constatamos diferenças acentuadas entre a forma de nos organizarmos nas décadas de 70 e 80 e como vimos nos organizando nas últimas décadas. Trata-se de diferenças  substancialmente favoráveis ou, antes, em grande parte, equivocadas? Um exemplo concreto: nos círculos de cultura, nos núcleos, nos encontros, nas assembleias ou nas reuniões ordinárias, tínhamos sempre o cuidado de superar a tendência a uma aposta desmedida no protagonismo individual, em prejuízo do protagonismo comunitário. Será que tal postura não foi significativamente negligenciada ou mesmo abandonada, em favor de uma aposta cega em “salvadores” individuais ou de pequenos grupos?
= Diferentemente de um apoio crítico a forças partidárias aliadas, que mantínhamos,  nas primeiras décadas, será que não nos afastamos demasiado desta saudável postura ético-política, à medida que passamos a um alinhamento quase automático ou incondicional a forças partidárias, ainda quando tínhamos consciência  do seu perigoso distanciamento das bases e de posições ético-políticas, que sempre defendemos? (  Pensemos, por exemplo, na campanha “Ética na Política”, em meados dos anos 90.

= No modo de nos organizarmos junto com o povo dos pobres, inclusive no processo formativo, quando é que mais nos aproximamos do núcleo da mensagem do Evangelho e da Tradição de Jesus (cf., por ex., Mc 10, 42-45: “Entre vocês não seja assim”...), com a qual tão bem se afina o espírito das conclusões de Medellin, hoje atualizado na gesta de Francisco, Bispo de Roma:
* nas primeiras décadas de nossa caminhada pastoral, quando lutávamos por uma nova sociedade, ou
*nas últimas décadas, quando preterindo do sonho da construção de uma nova sociedade, sucumbimos à ilusão de lutar por um “novo Estado”? Em termos de denúncia-anúncio, o que nos inspira o Espírito do Ressuscitado? Aonde nos tem levado a teimosia de nos conformarmos com as estruturas do Estado? Serão mesmo estruturas renováveis ou, antes, isto tem significado tentar pôr “remendo novo em pano velho”? “Pelos seus frutos, vocês os conhecerão.”).

3. Renovando/atualizando nossos compromissos de cidadã(o)s e de cristã(o)s

Sabemos que só faz sentido para nós ensaiarmos passos de avaliação de nossa caminhada, se - e somente se – implicar sinceros propósitos de mudança e conversão, tanto no plano comunitário, quanto no âmbito pessoal. Eis o sentido do que estamos propondo como pistas de uma (auto)avaliação retroprospectiva, à luz da caridade assumida como dimensão pastoral socioestruturante: não nos basta rememorar o que foi (bem ou mal) feito. É fundamental voltarmos os olhos e o coração para frente, como é que vamos caminhar, daqui por diante. Que passos somos historicamente chamados a ensaiar, em vista de testemunhar, nos vários campos de atuação sócio-pastoral, nossa ação transformadora em nós, seja nos espaços de atuação cidadã, seja ao interno de nossa(s) Igreja(s)?
Nesse sentido, graças a Deus e à generosa dedicação de vários grupos espalhados pela nossa Paraíba, alegramo-nos com diversas experiências fecundas que já vêm acontecendo, e que somos chamados a consolidar e ampliar. Por outro lado, há também muita estrada a percorrer, nessa direção. Exemplifiquemos algumas urgências a serem enfrentadas, no campo e na cidade, a desafiarem nossa ação pastoral e – conforme a natureza de cada um desses sujeitos e sua adequada relação: no caso das Pastorais Sociais, sempre atuando como um serviço cristão no meio do povo dos pobres, sem reivindicar “paternidade” em sua ação de caridade gratuita, pela força do Ressuscitado.
·        Considerando que o amor cristão nos move a agir em atos concretos, convém lembrar, para além de nossas fronteiras paroquiais e diocesanas, a marca universal ( isto é, tomando em consideração as dores, as lutas e as esperanças de toda a humanidade) de nossa vocação de Batizados – “ sacerdote, profeta e rei” ( isto é: pastores, profetas e cidadãos ). Neste sentido, sem prejuízo de nossa ação pastora local, sentimo-nos comprometidos com os grandes dramas presentes da humanidade, seguindo os passos da Tradição de Jesus. Fazendo nossas estas situações dramáticas, lançamos sobre cada uma delas nosso olhar solidário, em relação às graves consequências das guerras em curso, a afligirem enormes parcelas das populações do Oriente Médio, da África e de outras regiões,  na Ásia, em nossa América Latina...

Solidarizamo-nos com as vítimas da profunda chaga social das migrações forçadas e dos refugiados, em várias partes do mundo. Trazemos como tarefa também nossa tomar conhecimento e combater as causas das diversas e crescentes formas de violência espalhadas pelo mundo, inclusive entre nós: as várias formas de agressão contra a Mãe-Terra; genocídio; etnocídio; racismo; feminicídio; misoginia; tráfico de pessoas, de armas e de drogas; formas modernas de escravidão, homofobia, xenofobia, ódio de classe, as situações sofridas pelos povos de rua, os sem-terra, os sem-teto, os povos das águas, das florestas, os povos tradicionais, ribeirinhos, os desempregados, os sub-empregados....

Eis um panorama de nosso campo de missão. Assustam-nos sua complexidade e vastidão, quando temos consciência de nossas limitações ( pessoais e coletivas ). Consola-nos, todavia, o lembrete paulino acerca da Graça: “ A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” ( 2cor 12,9 ). Sabemos, por um lado, que, dadas as nossas limitações, sentimo-nos impotentes para responder, a contento, a tais desafios, mas, por outro lado, somos chamados e encorajados a enfrentá-los, a curto, médio e longo prazos, a partir do chão do dia-a-dia. Uma primeira pista, neste sentido, é atentarmos para o alcance sistêmico, globalizado desses desafios, profundamente interconectados pelo modelo capitalista, apontando pra necessidade e urgência de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal, em harmonia com a dignidade do planeta e de toda a comunidade dos viventes.
Sucede que é, a partir do local, que somos chamados a agir  na atualidade  de modo a nos comprometer com efetivas mudanças, a partir do chão de nossa realidade.

Alguns questionamentos nos sirvam de aperitivo para uma busca de discernimento sobre os desafios nossos a merecerem prioridade de enfrentamento, de nossa parte.

= Examinando nossa ação pastoral, à luz da ação transformadora da Caridade cristã, como prosseguirmos, em novo estilo, nossa ação pastoral, frente aos graves desafios da atual conjuntura? Sucumbindo a velhos esquemas de fazer Política, com falsas polarizações, ou (re)orientando nossa ação pastoral, de modo a recuperar o espírito de enraizamento, convívio e comprometimento com o povo dos pobres, do campo e da cidade, desde suas necessidades e aspirações libertadoras?

= Conforme os critérios da Caridade socioestruturante (também) da vida pastoral e do Reino de Deus e Sua justiça, que experiências frutuosas, em curso, merecem continuar sendo animadas e consolidadas por nós?
* no âmbito dos trabalhos atinentes aos cuidados sócio-ambientais comprometidos com a nossa “Casa Comum”, seja no âmbito da produção, seja no tocante ao consumo, seja no plano da gestão comunitária?

* No tocante às experiências no terreno das relações sociais de gênero (trabalhos de apoio, de acompanhamento, de formação, de defesa e promoção da dignidade das mulheres vítimas de violência de todos os tipos, a começar pelo feminicício?

* Nos trabalhos e experiências, no âmbito das relações étnicas, de defesa e promoção dos direitos dos povos originários, das comunidades quilombolas, dos povos das águas, das florestas, dos ribeirinhos, dos pescadores...?

* Nos trabalhos e experiências mais diretamente voltadas para as relações geracionais, na defesa e promoção dos direitos das crianças, dos adolescentes, dos jovens, das pessoas idosas?

* Nos trabalhos e experiências com os Trabalhadores e Trabalhadoras do campo e da cidade, incluindo as experiências de acompanhamento e apoio às vítimas do desemprego, do sub-emprego, do trabalho terceirizado, das vítimas de tráfico humano, de armas e de drogas, das formas dissimuladas de trabalho escravo?

* Nas experiências de solidariedade e acompanhamento do cotidiano do povo da rua, das vítimas de migração forçada, dos refugiados, das vítimas de prostituição, das vítimas de expulsão em razão de barragens, de implantação de equipamentos montados a pretexto de renovação de fontes energéticas, à revelia ou sem a participação das comunidades locais?

·        Movidos pela convicção da necessidade e urgência de uma (auto)avaliação retroprospectiva, como vamos nos organizar para retomar, em novo estilo, nossos compromissos nos mais distintos trabalhos e experiências pastorais, priorizando e pondo em prática critérios organizativos (animação dos círculos de cultura, dos círculos bíblicos, do protagonismo de todos na tomada de decisões pela base, na alternância de cargos e funções, na observância do princípio da delegação, no cuidado da relação com as diferentes instâncias pastorais, na promoção da autonomia relativa frente ao Mercado e ao Estado...) e formativos ( formação permanente a ser assegurada não apenas aos coordenadores, mas igualmente à base, na perspectiva de uma  Educação integral, em diálogo com a Educação Popular).
       João Pessoa/Olinda, 5 de agosto de 2017

quarta-feira, 19 de julho de 2017

REINO DE DEUS OU INSTITUIÇÕES ECLESIÁSTICAS AUTO-REFERENCIADAS? Paradoxos e desdobramentos da velha tensão entre carisma e poder...


Alder Júlio Ferreira Calado

Acompanhando o esforço hercúleo de Francisco, Bispo de Roma, de mexer minimamente na engrenagem do poder curial, quedamo-nos perplexos com a resistência (quase) invencível oposta por cardeais da Cúria romana, porta-vozes de poderosas forças reacionárias de dentro e de fora dos espaços eclesiásticos,  a qualquer tentativa de mudança, que ameace minimamente seus privilégios. Este é apenas um de numerosas e sucessivas iniciativas pouco ou mal sucedidas, ao longo da Cristandade. Nem o concílio Vaticano II, concluído há meio século atrás, logrou êxito, em várias s de suas conclusões. Desde sua convocação, pelo Papa  João XXIII, e durante e após sua realização, eis que se lhe opuseram significativas, forças reacionárias.

 Remontam aos tempos apostólicos – e aprofundando-se,  ao longo da Cristandade -  as tensões entre carisma e poder. Diante da proposta desinstaladora de Jesus de Nazaré, e sobretudo diante de sua prática desinstalada e desinstaladora, mesmo seus primeiros seguidores tiveram posicionamentos diferenciados. Da parte de alguns, não faltaram palavras e arroubos de adesão, enquanto suas práticas contradiziam seus propósitos declarados. Algumas cenas resultaram bem conhecidas, tais como aquela, em que Thiago e João, dando prova de que nada entenderam da proposta do Mestre, têm a petulância de pedir a Jesus sua parte no poder: “Nisso Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se dele e disseram: ‘Mestre, queremos que nos faças o que vamos te pedir’. ‘O que vocês querem que eu faça?’, perguntou ele. Eles responderam: ‘Permite que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda’.” (Mc 10, 35-37). A sede de  poder foi de tal ordem,  a implicar um certo descarte, pelos próprios dissípulos  de Jesus,  da figura de Maria Madalena,  uma das mais fiéis seguidoras do Mestre, enquanto também Este testemunhava por Madalena e por tantas mulheres excluídas dos espaços públicos. A atitude revolucionária de Jesus, em relação às mulheres do Seu tempo incomodava e segue incomodando práticas e concepções patrimonialistas de ontem e de hoje...

Em  seguida, ainda nos primeiros séculos, não faltaram episódios semelhantes, no que se refere à busca de poder pessoal e corporativo, entre os que se diziam seguidores de Jesus. Isto se deu, de várias maneiras, inclusive pela impossição de privilégios a um grupo de teólogos, que não esitou em ditar normas, em busca de uma uniformização da doutrina cristã, ao excluírem como inválidas muitas narrativas populares do Evangelho.

Nos séculos seguintes, sobretudo graças ao  crescente processo de helenização do núcleo da mensagem evangelica, em virtude da qual privilegiam-se princípios, normas e conceitos doutrinários, , em prejuízo das práticas comunitárias do Cristianismo primitivo e do próprio Seguimento de Jesus.  Principalmente, a partir o século IV, com o projeto constantiniano de cristianização do Império Romano, esse grupo de hierarcas vai assumindo um papel preponderande, na tomada de decisões favoráveis ao seu intento de controle da Cristandade.

Teólogos como José Comblin, Eduardo Hoornaert e outros, em suas pesquisas de reconhecida contribuição a uma leitura crítica da Cristandade, trazem a lume diversos episódios mostrando o distanciamento progressivo da mensagem evangélica e neotestamentária, por parte de um grupo de hierarcas, em busca de fazer prevalecer suas decisões que lhes conferiam privilégios em relação ao conjunto do povo cristão, tendo inclusive alimentado uma interpretação distanciada claramente do Evangelho, como no caso relatado tanto por José Comblin, em seu livro “A Força da Palavra”  quanto  por Eduardo Hoornaert.  Comblin, por exemplo, afirma: “Por intermédio de S. Agostinho e dos escolásticos medievais, sobretudo de S. Tomás de Aquino, a teologia ocidental foi também uma tentativa sempre renovada de exprimir o cristianismo nas categorias do pensamento do helenismo. Pelo menos no Ocidente essa foi a influência dominante.” (COMBLIN, J. A Força da Palavra..., p.71). Por sua vez, Hoornaert em seu livro “A Memória do Povo Cristão”: “Ao contrário do famoso texto de Mt 11,25 que fala do segredo revelado aos pequenos e escondido aos sábios, Clemente de Alexandria proclama o segredo revelado aos sábios (Strom. 6,115,1). É de se estranhar que uma doutrina tão claramente oposta aos enunciados evangélicos não tenha sido condenada pela Igreja.” (p.131). Para tanto, serviu-lhes de inspiração eficaz um crescente esforço de helenização, à medida que objetivamente substituiam critérios fundamentais característicos do Movimento de Jesus, a exemplo da primazia dos pobres e marginalizados, bem como da prevalência do agir sobre o discurso (“Não são aqueles que dizem: ´Senhor, Senhor´... mas aqueles que fazem a vontade do Meu Pai”... “Este povo Me louva com a boca, mas seu coração está longe de Mim.”!). Não adianta investir numa posição nominalista, fundada sobretudo em artifícios retóricos e conceituais... Todavia, não é bem isto o que temos observado. O poder-dominação é que tem sido a marca mais frequente, na caminhada das Igrejas cristãs, inclusive a Católica Romana. Por outro lado, ontem como hoje, as “minorias abraâmicas” seguem cumprindo sua vocação profético-missionária ainda que como vozes clamando no deserto, pois acreditam que, pela  força da Palavra, “o deserto é fértil”.
Nas linhas que seguem, trataremos de refletir, a partir de episódios de ontem e de hoje, distintas manifestações pessoais e comunitárias de cristãos e cristãs, no dia a dia de sua vida, tanto no mundo, quanto nos espaços eclesiais, hora agindo na perspectiva do poder-dominação, hora atuando como “fermento na massa”, na perspectiva do carisma profético-missionário. 

Implicações concretas da indistinção entre reino e instituição
Já tivemos oportunidade de refletir sobre a fecundidade de categorias experienciais. Aqui, destacamos as seguintes: “Reino de Deus”, “Instituições eclesiásticas”, “Carisma” e “Poder”. A indistinção ou confusão dessas categorias tem provocado e continuará provocando graves equívocos, como tem acontecido, ao longo da história da Cristandade. A grande ênfase do Evangelho e demais textos neotestamentários incide no  anúncio e na inauguração  do Reino de Deus, testemunhados por Jesus e Seus seguidores. Nos textos evangélicos, percebemos, com efeito, que Jesus vem fundamentalmente anunciar e inaugurar o Reino de Deus. Não é à-toa que esta categoria experiencial  aparece (seja como “Reino de Deus” ou “Reino dos Céus”) perto de cem vezes, nos textos neotestamentários, sendo cerca da metade nos textos evangélicos, enquanto “Igreja” em torno de cinquenta vezes. E de que significado(s) vem aí revestida a expressão “Reino de Deus” (ou “Reino dos Céus”)? Vejamos, de passagem, alguns desses significados emprestados por passagens neotestamentárias, em especial dos textos evangélicos.
- O Reino de Deus (e não necessariamente a(s) instituições eclesiástica(s)) é “a” grande prioridade de Jesus: “Procurem, antes de tudo, o Reino de Justiça, e tudo o mais lhes será dado por acréscimo.” (Mt 6, 13);
- Sendo “a” prioridade, vale a pena fazer de tudo, para alcançá-lo: “O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo (...) um homem vende tudo que tinha, e o adquire” (Mt 13, 44);
- Não é por acaso que o Reino de Deus constitui um componente essencial da Oração do Pai Nosso; “Venha o Teu Reino, faça-se Tua vontade...” (Mt 6, 10);
- Vontade que o Enviado do Pai cuida de cumprir, com perseverança, ao longo de Sua vida, mesmo quando sua postura profundamente ( também ) humana suscitava dúvida de Quem Ele fosse, como sucedeu, no episódio em que João Lhe envia seus discípulos para perguntar-Lhe se era mesmo Ele o enviado do Pai. Aos quais Ele responde: “Voltem e digam a  João o que vocês estão vendo e ouvindo:  os cegos vêem, os aleijados andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres.”
Vale, também, a pena destacarmos alguns efeitos (positivos ou negativos), conforme obedeçamos ou resistamos ao que o Espírito Santo, Sopro Fontal, nos inspira, tanto pessoalmente como comunitariamente, enquanto Povo de Deus ou enquanto sociedade civil.
- No campo pastoral
- No campo missionário – Em meados dos anos 80, ao frequentar um templo católico, na França (Élglise Saint Albert le Grand, num bairro vizinho ao da Cité Universitaire), chamava-me a atenção um grande letreiro aposto numa parede interna daque templo: “Appelés... envoyés” (Chamados... enviados). Ajudava-me a rememorar o cerne da vocação da Tradição de Jesus, que nos propõe tornarmo-nos (ou irmos tornando-nos) Seus discípulos/discípulas-missionários/missionárias, como vem inscrito, a cada semana, na folha litúrgica compartilhada pelo Pe. Reginaldo Veloso, presbítero das CEBs. Aquele letreiro me remetia a um sem-número de fecundas experiências missionárias, espalhadas pelo mundo, inclusive na Europa – desperta-me, por exemplo, atenção a saga dos padres operários  (de alguns dos quais me tornei amigo, dentre os quais Pierre Jourdanne – dos Filhos da Caridade, mesma comunidade da qual fazia parte também o Pe Alfredinho, Alfredo Kuntz, cujo trabalho com as vítimas da prostituição, em Crateús - Ceará, se tornaria emblemático (cf. depoimento seu, acessando-se o “linik”:
 Chamados e chamadas; e enviados enviadas pelo Espírito do Resssuscitado, a anunciar – mais pelo testemunho do que pela pregação, a Boa Notícia aos que se acham sufocados por multiformes grilhões e masmorras da opressão, da exploração, da marginalização. Eis o campo de missão proposto pela Tradição de Jesus aos seus discípulos/discípulas-missionários/missionárias. Desafio ao qual muita gente se dispõe a responder, com generosidade e fidelidade ao Espírito do Evangelho, ontem como hoje.

Sucede, por outro lado, que isto nem sempre acontece, e, em determindas épocas ou circunstâncias, os cenários se tornam ainda mais ambivalentes e contraditórios. Temos a tendência de pretender que as coisas sejam sempre lineares – ou de todo boas, ou de todo más. A vida dos humanos não é assim. As coisas vêm misturadas, a partir de nós mesmos, de nós mesmas.

Em meados dos anos 90, num desses encontros de confraternização entre membros de congregações religiosas ou de missionários e missionárias não-nascidos no Brasil, tive ocasião de participar, como convidado, de um destes encontros, em João Pessoa – Paraíba. Tratava-se de um encontro de avaliação fraterna da caminhada missionária no Brasil, com a participação daqueles membros, alguns dos quais já contavam décadas de missão, no Nordeste brasileiro. A ênfase, então, era de uma certa euforia sobre os resultados. Eis que chega um outro convidado, um missionário belga, chegado ao Brasil, em 1958, um teólogo de densa produção e sobretudo de fecundas iniciativas missionárias, em especial no campo da formação: tratava-se do Pe. José Comblin. Ao observar o quadro de giz com registros de saldos alvissareiros, disse que iria apagar aquele quadro, que traduzia antes o consciente, e cuidaria de trazer à baila, antes, coisas do inconsciente. E pôs-se a fazer considerações incômodas sobre o inconsciente colonizador que, por vezes, tomam a cena de figuras missionárias. E assim se pôs a relembrar situações e experiências que, mesmo tendo a marca de missionárias, pareciam mais próximas do espírito colonizador, a sinalizar, a despeito de um discurso ortodoxo, uma extensão de sua cultura original, antes que uma missão imbuída da radical fraternidade evangélica.

Enfrentamos, por certo, situações paradoxais: as coisas são misturadas... Em meio a paradoxos, impasses e contradições,  importa sempre buscar localizar e interpretar, também, os sinais portadores da presença viva e vivicante do Sopro fontal, do Espírito Santo, na história, em nossa caminhada, desde o chão de nosso cotidiano.  Aqui me vêm ao espírito cenas bem edificantes, das quais foram e são protagonistas tantas leigas e leigos vivendo no anonimato, a testemunharem o acontecer do Reino de Deus, em suas vidas e e na vida de suas comunidades. Como em tantas partes do Nordeste, do Brasil, da América Latina, da África e demais continentes, há tanta gente simples, a fazer coisas maravilhosas! Há tantas Marias, Anas, Josés (um deles: Zé Duda, de Jataúba – PE), como também há gente mais conhecida pelo seu testemunho, comunidades e pessoas, tais como: Pe.Ibiapina, Pe. José Comblin, Dom Fragoso, Alfredinho, Irmã Geneviève, Irmã Dorothy, Irmã Almeidinha, Frei Roberto, Pe.Vicente, as Pequenas Comunidades de Religiosas Inseridas no Meio Popular... a lista segue, com a rememoração instantânea de cada pessoa, de cada comunidade...   

Mas, sempre tendo consciência de tantos riscos, alguns de uma extraordinária força destrutiva, aos quais estão sujeitos os missionários e missionárias, nascidos ou não no Brasil. De fato, as coisas são mesmo misturadas, a demandarem, da parte de todos e de cada um, de cada uma, uma constante vigilância e oração, como meio de nos despertar - a todos e cada um, cada uma -  de que “Não foram vocês que Me escolheram, mas fui Eu que os escolhi, para que vocês vão e produzam fruto, e o seu fruto permaneça.” (Jo 15, 16).
 Trata-se de riscos concretos, que enfrentamos também nos dias de hoje. Não raramente, sob tantas formas sedutoras – da “liturgia dos panos”, da “liturgia da fumaça” de iniciativas pomposas, de um ar angelical, de uma retórica sedutora – e disto a mídia religiosa nos fornece tristes exemplos... -, corremos o risco de, em vez de anunciar a Boa Nova do Reino de Deus, com senso crítico e discernimento, acabamos reeditando práticas e concepções que, objetivamente, têm mais a ver com atitudes idolátricas do que propriamente com o cerne da mensagem de Jesus: “ Este povo me honra com os lábios, mas longe de Mim está o seu coração.” ( Mt 15,8 ).

  * Reino de Deus, à luz do Movimento de Jesus: questionamentos em tempos tenebrosos

Das questões acima enunciadas, cuidamos de extrair algumas lições que nos ajudem a enfrentar e ir superando, à luz da Tradição de Jesus, os paradoxos e impasses que se interpõem à nossa caminhada, na perspectiva do  Reino de Deus, de modo a fortalecer nossos carismas e a nos tornarmos mais vigilantes e atentos aos sinais dos tempos, diante dos crescentes riscos e das armadilhas do poder-dominação. Sirmvam-nos, para tatnto, alguns questionametos, tanto em relação à sociedade civil, como em relação à(s) Igreja(s).

= Em relação à sociedade civil

- A grave e multiforme crise que experimentamos foi (e é) acompanhada ou antecedida de vários sinais, ao nosso alcance. Temos dado suficiente atenção, e sobretudo levado a sério tais sinais, antes que a tragédia se consuma(sse)?

- Que condições objetivas e subjetivas permitiram que chegássemos a tal ponto? 

- Suficientemente atentos aos fatores externos desta crise, será que também tivemos ou temos alguma parcela de responsabilidade, na produção da mesma? Estamos mesmo dispostos a enfrentar esta tarefa autoavaliativa? Quando? Como? Com que propósito?

 - Que avaliação fazemos de nosso progressivo distanciamento dos núcleos de base, substituindo-os pela sede de ocupação dos espaços estatais? (Aos movimetnos populares, em Santa Cruz de la Sierra, o Papa Francisco afirmou prefere “gerar processos” a “ocupar posições”...);

- E quanto à saudável alternância entre funções de coordenação e animação desde a base, quê temos a dizer?

- Onde estacionamos, no processo formativo, que segue e seguirá essencial, não apenas para as lideranças como também para osmembros de base?
- Quê temos a refletir sobre certa tendência observável, de deixarmos a alguns as decisões que são de todos?

- Quê lugar têm, entre nós, as tarefas formativas, inclusive de estudo de nossos bons clássicos e contemporâneos?

- Temo-nos empenhado na renovação de nossos assessores, a partir da formação de própria moçada?

- E quanto ao nosso estilo de vida, é bem próximo daqule de nossa gente?


   = Em relação à(s) Igreja(s):

- A despeito de incessantes sinais da presença e da ação viva e vivicante do Espírito Santo, Sopro fontal, constatamos, com tristeza, a indisposição de ouvirmos o que Ele tem a dizer à(s) Igreja(s), que, no entanto, seguem teimando, em vão, controlá-Lo. Até quando vai durar nossa dureza de coração, mesmo diante de gestos proféticos acenados pelo Bispo de Roma, uma voz no deserto?  

- O Sopro fontal nos inspira ações e atitudes de conversão ao Seguimento de Jesus. Por que teimamos em seguir as trilhas normóticas do poder-dominação, em vez de ensaiarmos passos no exercício do poder-diaconia?

- O Sopro fontal nos convida ao processo de conversão contínua. Por que fincamos pé em nos contentar com as estruturas perversas deste mundo?


João Pessoa, 19 de julho de 2017




sábado, 8 de julho de 2017

INDAGAÇÕES DE QUEM ESPERA CONTRA TODA ESPERANÇA: categorias experienciais portadoras de potencialidades reinventivas

INDAGAÇÕES DE QUEM ESPERA CONTRA TODA ESPERANÇA: categorias experienciais portadoras de potencialidades reinventivas

Alder Júlio Ferreira Calado

Em épocas tenebrosas de organização societal (e outras  situações, similarmente sombrias), temos, não raro, a impressão de que inexistem saídas. Então, o desespero bate à porta, mais facilmente. E pior: quem assim avalia, ainda tem a pretensão de estar lidando com dados de realidade. Até certo ponto, isto pode mesmo acontecer, mas apenas como uma face - ainda que a mais visível - da realidade. Não explica, contudo, toda a realidade, sempre bem mais complexa do que aparece aos nossos olhos. A inteireza do  objeto cognoscível sempre escapa à ingênua pretensão dos sujeitos cognoscentes (pessoais e coletivos: é que a realidade sempre comporta um componente de imponderabilidade... Com efeito, em sua complexidade e vastidão, a realidade  apresenta facetas menos visíveis ou mesmo (quase) invisíveis.

Quantas vezes, ao longo da história, quando tudo parecia já dado, eis que irrompe  o imponderável?! E isto nada tem a ver com fatalidade, com as forças cegas do que se chama destino. Tem, antes, a ver com nossos limites (pessoais e coletivos) de compreender o “todo” da realidade concreta, inclusive da realidade histórica. Quantas vezes, não sofremos do limite de estarmos mais propensos a perceber deteminados sinais da história do que outros tidos como aparentemente menos relevantes?! E, no entanto, chega uma hora, em que aqueles sinais antes considerados desprezíveis ou menos relevantes assumem a dianteira dos acontecimentos, pelo seu acúmulo e maturação...

Sucede, por outro lado, que, sob a alegação de que as mudaças históricas acontecem, “de qualquer modo”, corremos o risco de sucumbir à ingenuidade de cruzarmos os braços, à espera de que o imponderável irrompa “ex nihilo”, como uma fatalidade... Sem negar o reconhecimento de certa incidência do acaso, o imponderável desponta, não raramente, como expressão e resultado de um acúmulo e maturação de acontecimentos que se passam, antes, nas “correntezas subterrâneas”: aquelas experiências moleculares que foram ininterruptamente levadas a cabo, a certa altura do tempo, eclodem, manifestam-se nas águas de superfície.

Aqui me vêm à lembrança vários episódios recentes e menos recentes, dentre os quais a brava saga de Gregório Bezerra, ainda criança, criada pela avó, nas cercanias de Panelas, no Agreste pernambucano. Uma criança, em meados da década de 1900 (ele é exatamente de 1900), vivendo os rigores de grande seca, lá ia aquela criança, movida a paixão pelo seu povo e por criatividade, a perscrutar obstinadamente sinais de água, algum filete de água de fonte... E, como "quem procura, encontra", também Gregório encontrou. Quedo-me a imaginar o deslumbramento daquela gente com o milagroso achado da criança... (cf. Memorias, de Gregório Bezerra). Mais recentemente, sobretudo em junho de 2013, irromperam grandes manifestações de massa, a ganharem as ruas de todo o país, clamando por mudanças, sem que houvesse aí o habitual protagonismo de movimentos sociais (sindicais e populares) a conduzirem tais irrupções, trazendo alguma surpresa para os sujeitos históricos convencionalmente tidos como principal fonte articuladora. Este são apenas dois minusculos exemplos dentre tantos  registrados, no curso da história que nos ajudam a perceber para além dos determinismos.



De modo semelhante, cabe-nos ensaiar uma leitura da realidade histórica que, buscando ser fiel aos acontecimentos concretos do dia-a-dia, permita manter-nos  sempre abertos a surpresas que ela, por vezes, nos oferece, mas não sem nossa disposição de percebê-los interpretá-los adequadamente e toma-los a sério.

O proposito dessas notas é o de destacar algumas categorias experiênciais que nos ajudem a pontencializar o ensaio de passos, na direção almejada.

Para tanto, socorremo-nos também de alguns clássicos e contemporaneos de reconhecida contribuição, nesta aventura.

* Que tal beber (também) na fonte de nossa ancestralidade? -  Sendo, ao mesmo tempo, e de forma complementar, Natureza e Cultura, somos chamados, no processo de humanização, a tomar consciência e a agir adequadamente, como tecelões e tecelãs dessa bendita relação, de modo a, de um lado, bem distinguir cada um desses pólos de relação, e, por outro lado, a bem articulá-los, enquanto fios da malha das relações  existenciais do dia-a-dia. Tomar consciência desta duppla condição  significa sentirmo-nos irmanados com toda a comunidade dos viventes de nosso Planeta e com o Cosmo, em sua extraordinária pluriversidade. Tomando consciência de, e assumindo nossa condição de  partículas cósmicas, nos tornamos mais humildes, menos vorazes e menos ávidos de pretensos “donos” da Natureza. Sentimo-nos Natureza, marcados, em grande parte, pelos traços que caracterizam outros animais, os vegtetais e os minerais, de que somos formados e que carregamos presentes em nosso corpo e em nosso espírito, desde as origens do nosso Planeta. Carregamos, conscientemente ou não, as energias que movem os diferentes membros do nosso Planeta, irmanados por uma profunda carga sinergética  que em nós se reflete e em nós atua, inclusive, por meio do exercício da memória dos nossos ancestrais. Tal característica nos faz sentir unidos a tantos outros viventes e à Mãe-Terra, de tal maneira que as agressões cometidas contra a Mãe-Terra e quaisquer de seus membros ressoam no mais íntimo de nós. Assim, somos chamados a tomar certa distância crítica de certo pretensão de assenhoramento da Mãe-Terra e dos demais viventes, donde certa desconfiança saudável com relação a determinada interpretação do conceito de “hominização” (aqui se acentuando o genitivo “hominis”, denotando-se uma relação de posse, de pertencimento, tendendo a um antropocentrismo), no sentido de uma apropriação pelos humanos do conjunto dos viventes da Terra.  Trabalhar, dia após dia, pessoal e coletivamente, essa relação, de modo adequado, ou seja, numa perspectiva de parceria e complementaridade  – eis um grande desafio para nós, hoje. Da forma como venhamos a assumir esta relação, vamos sendo capazes de promover uma con-vivência saudável, amorosa, harmoniosa e complementar entre os humanos, e destes em relação com os demais viventes.

Distinguir e cuidar de cada um desses pólos (Natureza e Cultura) significa assegurar condições de um processo de humanização, na perspectiva de sua plenitude – Uma vez reconhecida nossa dupla condição – de Natureza e Cultura -, importa-nos ter presente qual nosso papel concreto em cada uma dessas dimensões. Enquanto seres de Natureza, muito temos a celebrar da vida, de nossas carências, de nossos limites, do nosso inacabamento, bem como de nossas potencialidades enquanto animais. Aqui é enorme o leque de aspectos a aprender e a a exercitar, de nossa parceria com os animais, com as plantas, com os minerais. Muito a aprender da água, do ar, do fogo, da terra, das pedras (Num de seus depoimentos, pouco antes de ser assassinado, o Cacique Xicão Xukuru, lembrava que as pedras eram os ossos da Mãe-Terra, enquanto a água era seu sangue e a floresta, seus cabelos...). Quanto aprendemos dos parceiros animais! De sua luta pela vida, de sua convivência, de seu modo de colocar-se ante os perigos, de suas estratégias de defesa, de sua extraordinária sensibilidade aos mínimos sinais... E o que dizer da gesta e dos feitos de nossos antepassados humanos? Quanto aprendizado! Pois bem, hoje somos os herdeiros dessa ancestralidade, sentindo-nos a eles unidos, portadores de densa sinergia, que nos move a (con)viver e a promover a vida, em todas as suas manifestações. E, hoje, o famezmo, com enormes vantagens, pelas experiências secularmente, milenarmente acumuldadas?!..

No pólo especificamente humano, a grande diferença – ainda que complementar – é conferida pelo universo da Cultura, ambiente que permite vantaens e características exponenciais, em comparação com o mundo dos demais viventes. No plano da Cultura, é que as diferenças se acentuam, em benefício dos humanos: a criticidade, a autoconsciência, a criatividade, a inventividade, a capacidade de planejar, de avaliar, de mover-se no diversificado campo das artes, não apenas como usuário, como fruidor, mas também como produtor. No terreno cultural, os humanos se mostram seres vocacionados à Liberdade, capazes de assumir valores éticos de conduta pessoal e coletiva. É graças à Cultura, que os humanos se tornam capazes de resistir exitosamente os mais complexos desafios econômicos, políticos e de outra natureza. É graças à Cultura, que os humanos são capazes de desenhar e materizalizar distintos modos de produção, de consumo e de gestão societal. É pela força criadora da Cultura, que os humanos vão se tornando capazes de incessantes mudanças, no plano pessoal e no plano coletivo. Enquanto os demais seres viventes se restringem ao que se acha posto em seu DNA, são seres pré-programados, os humanos, por seu turno, são capazes de irem forjando seu (co)existir, em busca de plenitude. A depender de suas escolhar... Diversamente dos demais seres viventes, os humanos podem fazer-se perguntas do tipo da que se segue.

* Resignar-nos ante os impasses ou ensaiar passos em direção ao “inédito viável”? -


*  O que signfica manter-nos em “estado de busca” – Fecundas iniciativas de que se tem notícia,  irrompem de uma atitude de espírito, de uma contínua prontidão e de atenção aos múltiplos e sucessivos sinais qie a vida e a história não cessam de nos oferecer, desde nossas relações do chão do  dia-a-dia. Não basta que se produzam tais sinais. Se não há quem os capte, resultam culturalmente inócuos. Sua fecundidade  e sua eifcácia transformadoras brotam fundamentalmente de um permanente estado de busca, de uma prontidão de espírito, de uma contínua vigilância, como condição para nos darmos conta da existência de tais sinais. O teólogo José Comblin, em seu livro Um novo amanhecer para a Igreja? (Paulus, 2001) alude a esta atitude de vigilância, ao rememorar o hábito, em antigas cidades cercadas por muralhas, tendo na guarita um vigilante, a observar para fora da cidadela, e a quem perguntavam: “Custos, quid de nocte?” (Houve alguma novidade, durante a noite, Vigia? Vigia?). Episódio parecido é descrito em Isaías, 21. Sem esta disposição de nos pormos à escuta, à observação persistente, em especial em tempos tenebrosos, dos sinais mais sutis, não apenas não iremos longe, como podemos deparar-nos, tardiamente, com trágicas surpresas. Importa, pois, manter-nos despertos. Ernst Bloch falava do “sonho desperto”... Manter-nos em estado de busca! 

* Aprimoramento de nossa capacidade perceptiva dos sinais dos tempos O próprio estado de busca, tendo em vista o aumento de sua eficácia, implica um outro esforço: o de constante aprimoramento da capacidade perceptiva dos sinais. Com efeito, ler, interpretar, compreender os sinais constituem aquisição, fruto de empenho constante, de um lado, e, de outro, de incessante aprimoramento dos sentidos, em especial se e quando bem articulados: ver, ouvir, tocar, cheirar, degustar, sentir, intuir – cada um deles, e em seu conjunto, temos que exercitar, como instrumentos progressivamente aprimorados na captação dos mais distintos sinais. Neste ensaio, recorremos tanto às potencialidades da Natureza quanto às da Cultura, sempre tendo como bússola o “inédito viável”, ou seja, a incessante busca de fazer acontecer, desde já – ainda que de forma molecular – os sonhos que alimentamos, tanto em relação a um novo modo de produção, quanto a um novo modo de consumo e um novo modo de gestão societal.

João Pessoa, 08 de julho de 2017.