terça-feira, 13 de novembro de 2018

POR UMA MÍSTICA REVOLUCIONÁRIA – O TESTEMUNHO DE JESUS DE NAZARÉ Notas a partir do cap. XI “Crente fiel” – do livro de José Antonio Pagola. Jesus, aproximação histórica


POR UMA MÍSTICA REVOLUCIONÁRIA – O TESTEMUNHO DE JESUS DE
NAZARÉ
Notas a partir do cap. XI “Crente fiel” – do livro de José Antonio Pagola. Jesus, aproximação histórica

Alder Júlio Ferreira Calado


“No comércio da fé, Jesus não passa / De um produto vendido a prestação.”
(Mote glosado por Raimundo Nonato e NonatoCosta, cf.
https://www.youtube.com/watch?v=-PZqA44XhmM )

“Este povo me louva com os lábios, mas longe de Mim está seu coração.” (Mt 15,8)
Quem quer que, como discípula ou discípulo do Movimento de Jesus, se dê ao trabalho criterioso e honesto – respondendo, por conseguinte, ao que o Sopro Divino (cf. Mc 4, 9) tem a falar às nossas consciências – de examinar o conjunto dos Evangelhos, o núcleo por excelência da fé cristã, e passar a avaliar as práticas rotineiras das instituições eclesiásticas, no mundo, salvo raras exceções, há de constatar gravíssimas contradições e antagonismos. Em não poucos casos, vai constatar práticas e concepções, não apenas distanciadas deste Núcleo de nossa fé, mas em evidente contradição. Tomemos como ilustrações alguns exemplos, em termos de questionamentos:
- Tem base evangélica o desenfreado ritualismo, tantas vezes, fonte de desvairado fanatismo de quem, atrevendo-se a falar em nome de Deus, se acumplicia a uma cultura de morte:
-- Tem base evangélica a crescente tendência de um televangelismo, mantido a peso de ouro, com contribuições de grupos de magnatas, quando se percebe, na leitura orante e atenta dos Evangelhos, a evidente opção de Jesus pelos meios mais pobres e mais simples e anunciar e inaugurar entre nós o Reino de Deus?
Expressão de uma complexa e extensa teia de relações, o coexistir também se apresenta mergulhado em contradições, abrigando, querendo ou não, a permanente tensão entre o bem e o mal, que se alojam em cada um, em cada uma de nós. O mal também comporta sua face de mistério. Jesus de Nazaré foi, algumas vezes, alvo desta tensão (cf. Mt 4, 1-11). As chamadas tentações por Ele enfrentadas, no deserto, constituem um fato ilustrativo deste mistério. Hoje, não poderia ser diferente. Quando nos pomos a lançar um olhar crítico, tomando como referência e baliza, o conjunto das narrativas conhecidas como Evangelhos, e buscamos avaliar, por exemplo, o que se passa hoje nos templos das igrejas que se dizem cristãs, ao lado de práticas saudáveis, nos defrontamos com tantas outras, majoritárias, que pouco ou nada nos remetem ao Projeto do Deus de Jesus de Nazaré, tal o grau de insanidades e perversidades aí em circulação. Tais constatações nos interpelam ainda mais, quando tentamos buscar identificar, como o faz o autor do capítulo ora comentado elementos mais característicos da Espiritualidade ou da Mística testemunhada por Jesus de Nazaré, por meio de uma leitura atenta das fontes evangélicas.
Conquanto mais frequentemente situada no campo das abordagens teológicas, a categoria “Mística” também pode ser trabalhada, em uma perspectiva inter/transdisciplinar, até porque pode ser tomada também numa acepção laical (cf. reflexão feita acessando-se o link: https://www.youtube.com/watch?v=9qP7xhrKpkg).  Aqui optamos por uma abordagem inter/transdisciplinar, ao incursionarmos pela Mística, assumida por um olhar revolucionário, isto é, por uma interpretação do seu potencial transformador, seja do ponto de vista societal, comunitário ou do ponto de vista pessoal. Aqui, estamos entendendo “Mística” como uma energia interior que inspira, nutre e sustenta práticas e concepções que se acham às antípodas das práticas e concepções hegemônicas, em qualquer sociedade de classes, em determinado tempo e lugar.


O fato de Jesus haver sido criado conforme os valores de sua gente não impediu que Ele exercitasse, ao longo de sua vida, uma postura crítica ante a Cultura do seu Povo, assim como o fato de ter sido um homem do seu tempo não significou que introjetasse e reproduzisse acriticamente os valores, concepções, costumes e práticas então dominantes. Ele buscou resistir a um comportamento gregário: acolheu os valores que apontavam positivamente em direção ao processo de humanização, ao tempo em que foi capaz de resistir e até de opor-se aos contravalores dominantes.


Que traços principais da vida de Jesus assinalam sua atitude revolucionária frente ao sistema de valores dominantes em seu tempo? Que práticas suas se revelam frontalmente antagônicas ao modo de sentir, de pensar e de agir da sociedade do seu tempo – e, por extensão, das formações sociais hegemônicas em outros tempos, inclusive na atualidade?

Comecemos, como faz o autor do livro ora comentado, pela relação que Ele assume perante o Deus de seu Povo. Enquanto seus contemporâneos cultivavam de Deus uma figura poderosa, medonha, por vezes punitiva, controladora – no que reforçava aquela estrutura patriarcal, gerontocrática, extremamente hierarquizada, organizada com base em leis rígidas, manipuladas por uma casta de sacerdotes de doutores da Lei, Jesus passa a ter com Deus uma relação característica dos laços entre pai e filho: Deus como “Abba”, como um pai amoroso, cheio de bondade, de ternura e de compaixão para com seus filhos e filhas. Daí nasce e se aprofunda, para sempre, uma relação de confiança, de entrega filial, de bem-querer, de bondade incondicional.

Outro aspecto forte da Mística revolucionária característica e testemunhada por Jesus, ao longo de sua convivência com as multidões que o seguiam, com os discípulos e discípulas, com as mulheres, com uma variedade de perfis humanos, em especial do povo dos pobres – camponeses, diaristas, pescadores, cegos, surdos-mudos, aleijados, leprosos, pessoas de má fama, etc. – remete à sua clara oposição, por gestos e palavras, aos manipuladores de consciência, pela via da religião. Resulta célebre aquela lista de invectivas contundentes contra a casta sacerdotal, os doutores da lei, os fariseus, etc., aos quais faz referência o cap. 23 do Evangelho de Mateus.

Judeu como os demais, Jesus mostrava-se, no entanto, bastante atento às armadilhas perversas de uma religão formalista, tendente a induzir multidões de seguidores, a se pautarem por meras formalidades legalistas, com evidentes propósitos de dominação: “Esse povo me honra com os lábios, mas longe de mim está o seu coração!”. (Mt 15,8)

Sem deixar de ser judeu e de apreciar os bons valores de sua gente, inclusive os inspirados em sua religião, tais como a confiança no Deus Libertador (mas não no Deus vingador e punitivo), no cultivo de sua identidade como Povo de Deus (mas não de sua perigosa pretensão a ser proprietário de Deus), das posturas proféticas do Antigo Testamento (mas não com cultivo à ódio aos inimigos), Jesus vai progressivamente tomando distância de seus contemporâneos, ao sustentar críticas contundentes ao comportamento de seus conterrâneos e contemporâneos, numa lista nada desprezível de aspectos:
-
 -sua radical oposição à lei do talião (olho por olho, dente por dente...);
 -sua iracúndia profética contra os sumos sacerdotes e os doutores da lei e escribas: “

De que Mística o Deus de Jesus de Nazaté, desde Seu Pai, e por meio do Seu Espírito, O investiu, e Ele próprio se deixou impregnar, em sua vida pública?

Tal é a força frontal que a Mística testemunhada por Jesus O marca, em Sua trajetória, que resulta impossível compreendê-Lo em sua identidade, apartado desta energia frontal. E por diversas razões. Para Jesus tratava-se de anunciar e inaugurar, já neste mundo, o Projeto do Pai, que consistia fundamentalmente em defender e promover a vida, em todas as suas manifestações: tratava-se de inaugurar a vida em sua plenitude! Tal a profundidade do Seu compromisso, que Ele elegeu os últimos, justamente os que viviam excluídos do banquete da vida, para serem seus primeiros e preferidos destinatários, e mais ainda: protagonistas dos caminhos rumo a esta vida. Cercou-se e acercou-se dessa gente marginalizada, proibida de viver com dignidade, seja do ponto de vista material (alimentação, trabalho, roupa, habitação, etc.), seja do ponto de vista de suas mais fundas aspirações imateriais. Impossível para Ele, fazer tal escolha, sem se contrapor, de modo contundente, com toda sorte de adversidades que atravessava este caminho, em especial os representantes da aristocracia do seu tempo. Para estes, suas práticas e suas palavras são extremamente duras: “É mais fácil um camelo entrar num buraco de agulha do que os ri um rico se salvar!” (Mt 19, 24)

Tal constância de conduta em favor das vítimas mais vulneráveis era a verdadeira expressão da força de Sua Mística, de sua contínua refontização e comunhão com o Pai, por meio da ação do Seu Espírito. É assim que O vemos frequentemente retirar-se para orar ao Seu Pai, para escutá-Lo, com atenção e fidelidade. Momentos decisivos para a manutenção fiel de suas práticas, de suas atitudes  em defesa e em promoção da vida, sobretudo a partir da vida daqueles e daquelas, numerosos, destituídos de proteção, de quem deles e delas tivesse cuidado. Por conta deste seu testemunho contundente, em incontáveis vezes, teve que entrar em conflito, aberto ou implícito, com representantes dos segmentos aristocráticos dominantes – com os fariseus, com os escribas, com os doutores da lei, com os sumos sacerdotes, com as autoridades representantes do poder romano. Estes entendiam tratar-se de alguém perigoso, cuja prática ameaçava os interesses dos “de cima”. Em verdade, ainda que de modo implícito, tais autoridades podiam depreender que esse homem, mais do que defender pobres e desvalidos, também estava apontando para as verdadeiras raízes daquelas injustiças estruturais, sinalizando a necessidade de uma mudança radical na forma de organização daquela sociedade. Não foi por acaso que teve que enfrentar o martírio...

Sem o constante exercício desta Mística revolucionária, dificilmente se entende a proposta de Jesus. Sem prejuízo de suas atividades contínuas de profeta itinerante, Jesus tomava tempo para a Oração, para momentos de comunhão mais intensa com o Pai, sempre guiado por Seu Espírito. A própria e única Oração que Ele nos ensinou – a do Pai Nosso – é um vivo atestado da essência de Sua mensagem, ao nela propor dois votos e três pedidos: o de que “seja santificado Teu Nome”, isto é, que este Deus da Vida e da Liberdade se enraíze nos corações das gentes; que “venha a nós o Teu Reino”: ao contrário das práticas e dos valores então dominantes, que as sementes do Reino de Deus fossem acolhidas, e  frutificassem no mundo, enquanto rogava ao Pai que não falte o pão de cada dia, o sustento diário de seus filhos e filhas, em igualdade de condições; o pedido do perdão por rejeitarmos ou tardarmos demais a vida a nós do Seu Reinado de amor, de justiça, de paz, de partilha e solidariedade; e que Ele não nos deixe sucumbir às tentações do Mal, mas nos livre de todo egoísmo, da idolatria, das mais variadas formas de culto.

A Mística revolucionária que marca profundamente a Espiritualidade de Jesus, opõe-se frontalmente ao comportamento esquizofrênico dominante, seja no âmbito pessoal, seja no âmbito coletivo, expresso em atitudes de se sentir uma coisa, pensar-se uma segunda, querer-se uma terceira, fazer-se uma quarta, comunicar-se uma quinta... A Mística de Jesus é integrativa, conecta organicamente Seu sentir, Seu pensar, Seu querer, Seu agir, Seu discurso, na direção do Reino de Deus e Sua justiça. Expressa bem mais Sua compaixão ante quem, atiçado pela profunda indignação diante da hipocrisia e das dissimulações, lança impropérios implicando por vezes até palavras ofensivas e imprecações do que em relação a quem se tem como santo e, em nome de Deus, não hesita em prestar cultos a ídolos do poder, do ter, do prestígio. É assim, inclusive, que interpreto as duras palavras pronunciadas pela dupla de repentistas, em desabafo contra tanta hipocrisia cometida em nome de Deus.

João Pessoa, 13 de novembro de 2018

terça-feira, 6 de novembro de 2018

BRASIL, PÓS-ELEIÇÕES 2018: Como retomar os passos, em busca de alternatividade? Alder Júlio Ferreira Calado A pergunta que encima as notas que seguem, há de ser tomada de modo desprovido de qualquer pretensão a receita. Trata-se, apenas, de modestos questionamentos destinados a ajudar a provocar uma contínua reflexão crítica e autocrítica, junto às nossas organizações de base, comprometidas com a construção de uma sociabilidade alternativa, a curto, médio e longo prazos, no horizonte de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo, e de um novo modo de gestão societal. Passados os primeiros momentos de luto, em face do resultado eleitoral, cumpre as nossas organizações de base, comprometidas com um horizonte alternativo à barbárie capitalista, retomar passos prenhes de alternatividade à sociabilidade hegemônica, cabendo aqui destacar velhas e novas prioridades a perseguir. Passos preliminares Vencidos os momentos de paixão e de indignação (ver, por exemplo debate pós-eleitoral, na USP, provocado por André Singer, Vladmir Safatle, Marilena Chauí e Ruy Braga: https://www.youtube.com/watch?v=ux4rh0cHL7g , bem como entrevista concedida por Pedro Cardoso a uma emissora Portuguesa: https://www.youtube.com/watch?v=uP3i5cyvBVQ ), e voltando a ter presentes os fatores externos deste mais recente revés político-eleitoral, estamos mesmo dispostos a reconhecer a incidência, neste processo, de fatores também internos? Que práticas e decisões recentes e menos recentes, que concorreram para este desfecho, sinalizam parcela de nossa responsabilidade? Que passos empreender a curto, médio e longo prazos, no sentido de buscar retificar rumo, caminhos e posturas? Dentre importantes análises e reflexões críticas, que vêm circulando, a exemplo do livro organizado por Esther Solano, “O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil” (pela Boitempo) e do livro de Jessé Souza, A elite do atraso: Da escravidão à Lava Jato (pela Leya). considerando portanto o lugar dos fatores externos, não seria também de bom alvitre ousar algo semelhante em relação aos fatores internos deste mesmo processo? Se nossas organizações de base, que têm estado a frente das iniciativas políticas mais recentes não se dispuserem a uma efetiva auto-avaliação ético-política, se sentirão à vontade (ou mesmo legitimadas) para seguirem à frente, nestes tempos tormentosos? (Participar do processo é uma coisa, liderar é outra…) Na esfera organizativa Parece consenso a avaliação positiva das práticas organizativas semeadas e cultivadas por nossas organizações de base (sindicais, partidárias, estudantis populares, eclesiais…), nas origens de organizações e movimentos que (re)surgiram a partir de meados dos anos 70, cujos bons frutos se deveram a iniciativas tais como fundação e cultivo de círculos culturais, de núcleos, de pequenas comunidades, de conselhos populares… por que tais práticas foram interrompidas? Consequência deste modo organizativo bem sucedido, prosperou por um bom tempo a aposta numa organização de base autônoma (em relação ao Mercado e aos espaços governamentais). O que nos fez deixar de apostar no que estava dando certo? Apesar de lacunas? A ênfase por (quase) todos abraçada, recaía sobre a força das decisões coletivas democraticamente tomadas (de baixo para cima), sem deixar de reconhecer a participação individual, por um lado, mas, por outro, criando mecanismos de prevenção contra a tendência de superestimar figuras individuais. O que nos fez deixar de apostar nesse caminho, e reeditar práticas individualistas ou de pequenos grupos controladores, combatidas por nós mesmos? As práticas de autonomia tomavam em conta desde a organização de nossas finanças, alimentadas pelos “tostões” recolhidos de seus militantes e associados (mulheres e homens). O que nos levou a progressivamente nos distanciar ou abandonar o que estava dando certo? Nosso modo organizativo, salvo exceções, se alimentava pelo princípio da delegação, isto é, tendo em vista a necessidade permanente de interconexão com outras instâncias (populares, partidárias, sindicais, pastorais, estudantis…), recorríamos à eleição de delegadas e delegados, cuja incumbência era a de comunicar às outras instâncias, as decisões tomadas, no âmbito dos núcleos, estando ou não os delegados e delegadas de acordo com as decisões. O que nos fez optar por outro caminho? Considerando aspectos práticos de organicidade, também era comum recorrer-se à eleição de coordenadoras e coordenadores, por um breve período, com o encargo de articulação mais direta entre os demais núcleos e instâncias, sendo que se zelava pela alternância constante de cargos e funções, de modo a não se permitir que um pequeno grupo de coordenação se assenhorasse dos núcleos ou das instâncias. O que nos fez abandonar tal prática? Nos começos, quem se associava ou quem se filiava, o fazia por convicção. A partir, porém, dos primeiros êxitos eleitorais, já começam a aparecer pessoas sem compromisso de classe, fato a que dirigentes e coordenações estavam atentos para evitar. No entanto, tais critérios foram sendo deixados de lado. Qual o resultado disto? Em que pese nossa hesitação em encampar espaços governamentais ( o que nos custou caro ), buscamos ser precavidos em nossa condução em processos eleitorais, de tal modo que a indicação de candidatos e candidatas constituía o último passo a ser definido, após toda uma discussão e análise crítica da realidade estrutural e conjuntural ( em escala internacional, nacional e local ); ter claros os projetos de sociedade em disputa; quais as forças representativas de cada projeto; quais suas estratégias; quais nossas prioridades numa eventual participação eleitoral; que perfil de candidaturas (falávamos mais em candidaturas do que em candidatos) atendia melhor aos nossos interesses coletivos; quem, nessas condições e nesse contexto, melhor poderia responder a este desafio. Uma das consequências produzidas pelo atalho eleitoreiro foi a passagem progressiva desses critérios de candidaturas coletivamente construídas, para um desvairado carreirismo individualista: passou-se de candidaturas coletivamente construídas e controladas para o desvario de meros candidatos de si próprios. O que nos levou a isto? A crescente superestimação dos espaços governamentais e do papel do(s) Partido(s) ensejou o progressivo afastamento ou abandono do trabalho de base e, por conseguinte, o enfraquecimento dos laços orgânicos de nossas organizações de base e da sociedade civil, inclusive por meio de lamentáveis práticas de cooptação de dirigentes sindicais, populares, eclesiais, estudantis, fato que se deveu sobretudo porque tais dirigentes ou mesmo parcelas de nossas organizações de base se deixaram cooptar… A que se devem tais desvios éticos-políticos? Na esfera formativa Há algumas décadas tinha-se mais clareza, em relação ao nosso horizonte perseguido (a “nova sociedade”), aos caminhos trilhados, bem como as posturas cultivadas pelas organizações protagonistas. Isto continua, entre nós? O quê, senão o progressivo descompromisso com o nosso processo formativo, nos fez subestimar ou mesmo abandonar nossa formação contínua? Ainda que com falhas e insuficiências, em nossas organizações de base, era dada prioridade ao processo formativo contínuo, que não se confunde, é claro com escolarização, durante o qual os participantes (mulheres e homens destas organizações de base cultivavam práticas formativas contínuas, seja pelo exercício constante da memória histórica da Classe Trabalhadora, seja pelo interesse em recolher lições deste passado (lutas, vitórias, revezes…), seja pelo continuado reavivamento do horizonte que nos propúnhamos perseguir (falava-se então, de uma sociedade alternativa ao Capitalismo, não de um Estado, sobre o qual pairava enorme desconfiança em seu potencial transformador), seja ainda e sobretudo fortalecendo nossa práxis. Isto é, nossos compromissos de transformação social. O que nos levou a tomar tanta distância destas posições? Dentre tantas teses e práticas falaciosas em que hoje se acham metidos não poucos protagonistas, que se pretendem comprometidos com os interesses libertários das classes populares, vale a pena destacar algumas: · confusão entre origem e posição de classe; · dogmatização da participação nos espaços governamentais, ainda que em prejuízo do enraizamento no campo e na cidade, junto às mesmas classes populares; crescente priorização do processo eleitoral, em prejuízo do fortalecimento e avanço organizativo de base; · a progressiva perda de autonomia, em relação ao Mercado e ao seu Estado, sobretudo do ponto de vista do financiamento de suas atividades (“quem come do meu pirão prova do meu cinturão” alerta um ditado popular”). O que nos levou ao afastamento e ao abandono da aposta e confiança em nossas próprias forças, em nossos próprios “tostões”? O que nos fez desacreditar na força organizativa dos “de baixo”, embora tendo (já àquela época) claras as consequências de quem confia nas ”doações”de quem controla o Mercado e seu Estado? - Nas origens dessas nossas organizações, ainda que a duras penas, eram mantidas várias formas de alimentar teoricamente a formação contínua de nossas bases e articulações, por meio de revistas (Teoria e Debate, Tempo e Presença, etc.), por meio de vários periódicos de massa (Companheiro, Em Tempo, Aconteceu, etc.) Enquanto durou nosso compromisso com o processo de formação contínua, conseguimos manter mais claros (ou pelo menos, de modo menos impreciso) práticas , concepções e valores concernentes ao papel do Estado, no contexto de uma sociedade de classes, em especial no contexto do modo de produção capitalista: move-se como organismo garantidor dos interesses das forças hegemônicas. A depender da manutenção de seus interesses, aqui e ali, até que abre mão de algumas concessões, com o que ilude a não poucos de que, por meio dele, seja possível avançar rumo a uma nova sociedade. Isto, porém, tem limite: tão logo se sinta minimamente ameaçado por conquistas populares, não hesita em abandonar quaisquer eventuais escrúpulos de atuar “a manu militari” para assegurar seus privilégios de classe. Prova de que não tomamos isto a sério tem sido o reiterado comportamento aliancista, fazendo composições políticas com toda sorte de setores dominantes, sob o pretexto de uma tal governabilidade... que nada mais representa senão a determinação da vontade de pequenos grupos agindo em interesse próprio, ainda que digam estarem agindo em nome das classes populares. Outro aspecto concernente aos valores fundamentais de nossas organizações de base, tinha (será que ainda tem?) a ver com a defesa e promoção da Ética na Política. Neste campo, chegamos a nos mobilizar intensamente, mais de uma vez, a exemplo do final dos anos 90. Mais uma vez, por conta do afastamento ou do abandono desses valores, sob o pretexto da “governabilidade”, não raro, passou-se a esboçar práticas de conciliação de classes, com base em arranjos espúrios. Até hoje, sente-se dificuldade em se assumir uma postura ético-política convincente, quando se trata de combater as raízes da corrupção sistêmica, relativizando-se em demasia os profundos estragos econômicos, políticos e culturais daí decorrentes. Um outro deslize ético-político daí resultante ou a isto associado diz respeito à tendência descontrolada à lógica do endividamento. Não raro, sem critérios razoáveis, defendem-se, promovem-se e praticam-se atos de endividamento, sob várias formas, inclusive crédito consignado e até em campanhas eleitorais. A que isto nos tem levado? Diante de desafios de novo tipo Como dito, o propósito destas linhas nada tem a ver com pretensas receitas, mas como um elenco de perguntas humildemente compartilhadas, em vista de reacender nossos compromissos de (auto)crítica. Na esteira deste propósito, também nos defrontamos com desafios de novo tipo, isto é, que ou não existiam ou apenas afloravam levemente, quando do surgimento destas novas organizações de base, dos quais destacamos, de passagem, os desafios socioambientais, os das relações sociais de gênero, de orientação sexual, de etnia, de espacialidade, de nossas relações com o Sagrado, entre outros. Quanto aos novos desafios socioambientais, sentimo-nos crescentemente interpelados em sua defesa e promoção, a partir de iniciativas moleculares ou de grande porte, protagonizadas pela sociedade civil e seus principais agentes sociais, ou seja, nossas organizações de base. Neste sentido, é que nos vêm pergunta do tipo: · Será suficiente, ante tais desafios, que nos contentemos apenas com o empenho na construção de um novo modo de produção, ou, a ele articulados, somos instados também a comprometer-nos com a construção de um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal, respeitando a dignidade da Mãe- Terra e de toda a Comunidade dos viventes? Como testemunhar – mais do que “pregar” ou recomendar aos outros – “pequenas” iniciativas pessoais e coletivas de um estilo de vida sóbrio, de clara resistência ao desenfreado consumismo? Com relação ao foco maior da formação de nossas organizações de base, em décadas passadas e ainda hoje, quase se reduz a uma formação estritamente política ou, pior, ao restrito conflito entre sociedade-Estado. Será que isto também não esteja a merecer uma reavaliação, no sentido, não de subestimar a importância de uma formação política, mas de associá-la, de modo mais bem articulado e profundo, a tantas outras esferas de nossa vida social, conscientes de que, por um lado, tudo passa pelas relações políticas, por outro lado, lembramos que a Política não é tudo... João Pessoa/Olinda, 05 de novembro de 2018.

BRASIL, PÓS-ELEIÇÕES 2018: Como retomar os passos, em busca de alternatividade?


Alder Júlio Ferreira Calado


A pergunta que encima as notas que seguem, há de ser tomada de modo desprovido de qualquer pretensão a receita. Trata-se, apenas, de modestos questionamentos destinados a ajudar a provocar uma contínua reflexão crítica e autocrítica, junto às nossas organizações de base, comprometidas com a construção de uma sociabilidade alternativa, a curto, médio e longo prazos, no horizonte de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo, e de um novo modo de gestão societal.


Passados os primeiros momentos de luto, em face do resultado eleitoral, cumpre as nossas organizações de base, comprometidas com um horizonte alternativo à barbárie capitalista, retomar passos prenhes de alternatividade à sociabilidade hegemônica, cabendo aqui destacar velhas e novas prioridades a perseguir.


Passos preliminares


  • Vencidos os momentos de paixão e de indignação (ver, por exemplo debate pós-eleitoral, na USP, provocado por André Singer, Vladmir Safatle, Marilena Chauí e Ruy Braga: https://www.youtube.com/watch?v=ux4rh0cHL7g , bem como entrevista concedida por Pedro Cardoso a uma emissora Portuguesa: https://www.youtube.com/watch?v=uP3i5cyvBVQ ), e voltando a ter presentes os fatores externos deste mais recente revés político-eleitoral, estamos mesmo dispostos a reconhecer a incidência, neste processo, de fatores também internos?
  • Que práticas e decisões recentes e menos recentes, que concorreram para este desfecho, sinalizam parcela de nossa responsabilidade?
  • Que passos empreender a curto, médio e longo prazos, no sentido de buscar retificar rumo, caminhos e posturas?

Dentre importantes análises e reflexões críticas, que vêm circulando, a exemplo do livro organizado por Esther Solano, “O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil” (pela Boitempo) e do livro de Jessé Souza, A elite do atraso: Da escravidão à Lava Jato (pela Leya).

  • considerando portanto o lugar dos fatores externos, não seria também de bom alvitre ousar algo semelhante em relação aos fatores internos deste mesmo processo?
  • Se nossas organizações de base, que têm estado a frente das iniciativas políticas mais recentes não se dispuserem a uma efetiva auto-avaliação ético-política, se sentirão à vontade (ou mesmo legitimadas) para seguirem à frente, nestes tempos tormentosos? (Participar do processo é uma coisa, liderar é outra…)
Na esfera organizativa


  • Parece consenso a avaliação positiva das práticas organizativas semeadas e cultivadas por nossas organizações de base (sindicais, partidárias, estudantis populares, eclesiais…), nas origens de organizações e movimentos que (re)surgiram a partir de meados dos anos 70, cujos bons frutos se deveram a iniciativas tais como fundação e cultivo de círculos culturais, de núcleos, de pequenas comunidades, de conselhos populares… por que tais práticas foram interrompidas?
  • Consequência deste modo organizativo bem sucedido, prosperou por um bom tempo a aposta numa organização de base autônoma (em relação ao Mercado e aos espaços governamentais). O que nos fez deixar de apostar no que estava dando certo? Apesar de lacunas?
  • A ênfase por (quase) todos abraçada, recaía sobre a força das decisões coletivas democraticamente tomadas (de baixo para cima), sem deixar de reconhecer a participação individual, por um lado, mas, por outro, criando mecanismos de prevenção contra a tendência de superestimar figuras individuais. O que nos fez deixar de apostar nesse caminho, e reeditar práticas individualistas ou de pequenos grupos controladores, combatidas por nós mesmos?
  • As práticas de autonomia tomavam em conta desde a organização de nossas finanças, alimentadas pelos “tostões” recolhidos de seus militantes e associados (mulheres e homens). O que nos levou a progressivamente nos distanciar ou abandonar o que estava dando certo?
  • Nosso modo organizativo, salvo exceções, se alimentava pelo princípio da delegação, isto é, tendo em vista a necessidade permanente de interconexão com outras instâncias (populares, partidárias, sindicais, pastorais, estudantis…), recorríamos à eleição de delegadas e delegados, cuja incumbência era a de comunicar às outras instâncias, as decisões tomadas, no âmbito dos núcleos, estando ou não os delegados e delegadas de acordo com as decisões.  O que nos fez optar por outro caminho?
  • Considerando aspectos práticos de organicidade, também era comum recorrer-se à eleição de coordenadoras e coordenadores, por um breve período, com o encargo de articulação mais direta  entre os demais núcleos e instâncias, sendo que se zelava pela alternância constante de cargos e funções, de modo a não se permitir que um pequeno grupo de coordenação se assenhorasse dos núcleos ou das instâncias. O que nos fez abandonar tal prática?
  • Nos começos, quem se associava ou quem se filiava, o fazia por convicção. A partir, porém, dos primeiros êxitos eleitorais, já começam a aparecer pessoas sem compromisso de classe, fato a que dirigentes e coordenações estavam atentos para evitar. No entanto, tais critérios foram sendo deixados de lado. Qual o resultado disto?
  • Em que pese nossa hesitação em encampar espaços governamentais    ( o que nos custou caro ), buscamos ser precavidos em nossa condução em processos eleitorais, de tal modo que a indicação de candidatos e candidatas constituía o último passo a ser definido, após toda uma discussão e análise crítica da realidade estrutural e conjuntural ( em escala internacional, nacional e local ); ter claros os projetos de sociedade em disputa; quais as forças representativas de cada projeto; quais suas estratégias; quais nossas prioridades numa eventual participação eleitoral; que perfil de candidaturas (falávamos mais em candidaturas do que em candidatos) atendia melhor aos nossos interesses coletivos; quem, nessas condições e nesse contexto, melhor poderia responder a este desafio. Uma das consequências produzidas pelo atalho eleitoreiro foi a passagem progressiva desses critérios de candidaturas coletivamente construídas, para um desvairado carreirismo individualista: passou-se de candidaturas coletivamente construídas e controladas para o desvario de meros candidatos de si próprios. O que nos levou a isto?
  • A crescente superestimação dos espaços governamentais e do papel do(s) Partido(s) ensejou o progressivo afastamento ou abandono do trabalho de base e, por conseguinte, o enfraquecimento dos laços orgânicos de nossas organizações de base e da sociedade civil, inclusive por meio de lamentáveis práticas de cooptação de dirigentes sindicais, populares, eclesiais, estudantis, fato que se deveu sobretudo porque tais dirigentes ou mesmo parcelas de nossas organizações de base se deixaram cooptar… A que se devem tais desvios éticos-políticos?


Na esfera formativa
  • Há algumas décadas tinha-se mais clareza, em relação ao nosso horizonte perseguido (a “nova sociedade”), aos caminhos trilhados, bem como as posturas cultivadas pelas organizações protagonistas. Isto continua, entre nós? O quê, senão o progressivo descompromisso com o nosso processo formativo, nos fez subestimar ou mesmo abandonar nossa formação contínua?
  • Ainda que com falhas e insuficiências, em nossas organizações de base, era dada prioridade ao processo formativo contínuo, que não se confunde, é claro com escolarização, durante o qual os participantes (mulheres e homens destas organizações de base cultivavam práticas formativas contínuas, seja pelo exercício constante da memória histórica da Classe Trabalhadora, seja pelo interesse em recolher lições deste passado (lutas, vitórias, revezes…), seja pelo continuado reavivamento do horizonte que nos propúnhamos perseguir (falava-se então, de uma sociedade alternativa ao Capitalismo, não de um Estado, sobre o qual pairava enorme desconfiança em seu potencial transformador), seja ainda e sobretudo fortalecendo nossa práxis. Isto é, nossos compromissos de transformação social. O que nos levou a tomar tanta distância destas posições?
  • Dentre tantas teses e práticas falaciosas em que hoje se acham metidos não poucos protagonistas, que se pretendem comprometidos com os interesses libertários das classes populares, vale a pena destacar algumas:
·         confusão entre origem e posição de classe;
·         dogmatização da participação nos espaços governamentais, ainda que em prejuízo do enraizamento no campo e na cidade, junto às mesmas classes populares; crescente priorização do processo eleitoral, em prejuízo do fortalecimento e avanço organizativo de base;
·         a progressiva perda de autonomia, em relação ao Mercado e ao seu Estado, sobretudo do ponto de vista do financiamento de suas atividades (“quem come do meu pirão prova do meu cinturão” alerta um ditado popular”). O que nos levou ao afastamento e ao abandono  da aposta e confiança em nossas próprias forças, em nossos próprios “tostões”? O que nos fez desacreditar na força organizativa dos “de baixo”, embora tendo (já àquela época) claras as consequências de quem confia nas ”doações”de quem controla o Mercado e seu Estado?
- Nas origens dessas nossas organizações, ainda que a duras penas, eram mantidas várias formas de alimentar teoricamente a formação contínua de nossas bases e articulações, por meio de revistas (Teoria e Debate, Tempo e Presença, etc.), por meio de vários periódicos de massa (Companheiro,  Em Tempo, Aconteceu, etc.)
Enquanto durou nosso compromisso com o processo de formação contínua, conseguimos manter  mais claros (ou pelo menos, de modo menos impreciso) práticas , concepções e valores concernentes ao papel do Estado, no contexto de uma sociedade de classes, em especial  no contexto do modo de produção capitalista: move-se como organismo garantidor dos interesses das forças hegemônicas. A depender da manutenção de seus interesses, aqui e ali, até que abre mão de algumas concessões, com o que ilude a não poucos de que, por meio dele, seja possível avançar rumo a uma nova sociedade. Isto, porém, tem limite: tão logo se sinta minimamente ameaçado por conquistas populares, não hesita em abandonar quaisquer eventuais escrúpulos  de atuar “a manu militari” para assegurar seus privilégios de classe. Prova de que não tomamos isto a sério tem sido o reiterado comportamento aliancista, fazendo composições políticas com toda sorte de setores dominantes, sob o pretexto de uma tal governabilidade... que nada mais representa senão a determinação da vontade de pequenos grupos agindo em interesse próprio, ainda que digam estarem agindo em nome das classes populares.
Outro aspecto concernente aos valores fundamentais de nossas organizações de base, tinha     (será que ainda tem?) a ver com a defesa e promoção da Ética na Política. Neste campo, chegamos a nos mobilizar intensamente, mais de uma vez, a exemplo do final dos anos 90. Mais uma vez, por conta do afastamento ou do abandono desses valores, sob o pretexto da “governabilidade”, não raro, passou-se a esboçar práticas de conciliação de classes, com base em arranjos espúrios.  Até hoje, sente-se dificuldade em se assumir uma postura ético-política convincente, quando se trata de combater as raízes da corrupção sistêmica, relativizando-se em demasia os profundos estragos econômicos, políticos e culturais daí decorrentes.
Um outro deslize ético-político daí resultante ou a isto associado diz respeito à tendência descontrolada à lógica do endividamento. Não raro, sem critérios razoáveis, defendem-se, promovem-se e praticam-se atos de endividamento, sob  várias formas, inclusive crédito consignado e até em campanhas eleitorais. A que isto nos tem levado?
Diante de desafios de novo tipo
Como dito, o propósito destas linhas nada tem a ver com pretensas receitas, mas  como um elenco de perguntas humildemente compartilhadas, em vista de reacender nossos compromissos de (auto)crítica. Na esteira deste propósito, também nos defrontamos com desafios de novo tipo, isto é, que ou não existiam ou apenas afloravam levemente, quando do surgimento destas novas organizações de base, dos quais destacamos, de passagem, os desafios socioambientais, os das relações sociais de gênero, de orientação sexual, de etnia, de espacialidade,  de nossas relações com o Sagrado, entre outros. Quanto aos novos desafios socioambientais, sentimo-nos crescentemente interpelados em sua defesa e promoção, a partir de iniciativas moleculares ou de grande porte, protagonizadas pela sociedade civil e seus principais agentes sociais, ou seja, nossas organizações de base. Neste sentido, é que nos vêm pergunta do tipo:
·         Será suficiente, ante tais desafios, que nos contentemos apenas com o empenho  na construção de um novo modo de produção, ou, a ele articulados, somos instados também  a comprometer-nos com a construção de um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal, respeitando a dignidade da Mãe- Terra e de toda a Comunidade dos viventes?
Como testemunhar – mais do que “pregar” ou recomendar aos outros – “pequenas” iniciativas pessoais e coletivas de um estilo de vida sóbrio, de clara resistência ao desenfreado consumismo?
Com relação ao foco maior da formação de nossas organizações de base, em décadas passadas e ainda hoje, quase se reduz a uma formação estritamente política ou, pior, ao restrito conflito entre sociedade-Estado. Será que isto também não esteja a merecer uma reavaliação, no sentido, não de subestimar a importância de uma formação política, mas de associá-la, de modo mais bem articulado e profundo,  a tantas outras esferas de nossa vida social, conscientes de que, por um lado, tudo passa pelas relações políticas, por outro lado, lembramos que a Política não é tudo...
João Pessoa/Olinda, 05 de novembro de 2018.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018


BRASIL EM MOMENTO TRAUMÁTICO: dilemas, criticidade e ousadia (Notas esparsas, tecidas ao calor das urgências)

Alder Júlio Ferreira Calado

Ao longo da história, inclusive da sociedade Brasileira, dada a própria condição de inacabamento do ser humano alternam-se momentos luminosos e momentos de obscurantismo, a depender das condições sócio-históricas cultivadas. No momento atual, estamos a amargar uma situação tenebrosa. Em permanente busca de superação dos atuais impasses e dilemas, ouso perguntar-me e compartilhar algo do tipo: sob que riscos mais graves, move-se hoje a sociedade brasileira? O que estará por trás desse desvairado belicismo? Que forças o encarnam e em que(m) se apoiam? Como nos foi possível chegar a este ponto? Onde e como buscar forças que inspirem caminhos de superação, a curto, médio e longo prazos? Que forças sociais se mostram com melhores chances de liderar caminhos alternativos a esta onda de obscurantismo e barbárie que nos tem inundado? Eis alguns dos questionamentos que me ocorre externar, sob o impacto da dramaticidade desta hora.

A história se acha pontilhada de exemplos de alternância entre momentos luminosos e momentos de obscurantismo: como extrair lições de caráter libertário? O Universo como uma mega-oficina de tecelagem, como uma imensa rede de fios cósmicos, que vai sendo tecida pela força da sinergia a mover seus tecelões e tecelãs (os seres cósmicos em sua dinâmica relacionalidade), ora numa, ora noutra direção, ora tendendo para uma direção biófila, ora - e aqui, graças apenas a uma de suas espécies, o "homo sapiens" - numa direção necrófila. O "homo sapiens" irrompe, no Universo, como a expressão de sua consciência, como sua espécie pensante. Condição que, historicamente vocacionada a um destino biófilo, em certas condições, graças à sua liberdade, ou melhor, graças ao seu livre arbítrio, pode também induzi-lo a escolhas necrófilas, dotando parte expressiva do Universo de uma sinergia também necrófila, neste caso, transformando-se de "homo sapiens" em "homo demens", a depender das escolhas que faça, em seu dia-a-dia.

É curioso, a este propósito, perceber-se como condutas moleculares podem oscilar ora para uma direção, ora para a direção oposta. Escolhas aparentemente ínfimas de significado se acham recheadas de sentido, numa ou noutra direção. Mesmo inocentes iniciativas de apreço à Natureza, se não se fundam em escolhas criteriosas - principalmente da parte de quem está mais aparelhado, pela sua experiência e pelo seu aprendizado existencial - pode estar colaborando OBJETIVAMENTE para o fortalecimento de uma orientação necrófila, mesmo pretensamente imbuída de propósitos biófilos. Inciativas, por exemplo, que têm lugar em projetos de defesa da Natureza, em que se contribui para a "naturalização" de práticas de animais mantidos em cativeiros, por vezes com argumentos bem-intencionados, podem reforçar a má direção. A condição de "homo sapiens" não irrompe como uma fatalidade, como um determinismo, mas como uma possibilidade, como um chamamento histórico do Universo, que só se cumpre efetivamente quando e onde o "homo sapiens" CULTIVA os passos nessa direção. Caso contrário, pode estar indo na direção oposta, e assim se transformando, conscientemente ou não, em "homo demens". Eis por que é fundamental que estejamos sempre a pensar nossas práticas, com a consciência de que elas se acham necessariamente interligadas. Sendo assim, nosso cotidiano emerge como um cenário no qual cada momento se faz um atestado efetivo de para onde conduzem nossas boas ou más escolhas. Resistir a pensar nossas práticas, fugir deste exercício acabam se transformando em atos suicidas, que a ninguém servem, senão a uma autodestruição pessoal e coletiva. Pensar a prática, pois, é a lição maior a ser recolhida com exercício da reflexão crítica.
O exacerbado recurso à combinação de ódio, mentira e violência não é algo novo, na história das sociedades ocidentais. Alcança raízes remotas. Um dos períodos mais marcantes foi o tempo do ascenso do Nazismo, em especial por meio da figura de Joseph Goebbels (ministro de Hitler). 

Atendo-nos especificamente aos atuais desafios da esfera política, importa também refrescar nossa memória histórica, pelo menos a partir do legado de Goebbels, em que assume proporções exacerbadas, o confronto entre a força da razão e a razão da força, mediante o uso e abuso de uma combinação necrófila extraordinária de elementos, tais como a mentira, o ódio, a violência, o medo, aos quais se recorre como estratégia de dominação.

Especialmente, em situações graves, costuma prosperar de parte a parte a mentira, razão por que se costuma dizer que, em situações de guerra –especialmente guerra ideológica – a verdade se torna a primeira das vítimas. Caso típico do ascenso do Nazismo na Alemanha (onde prosperava o famoso dito “Deutschland über alles” – “Alemanha acima de tudo”...), durante o qual foi confiado a Joseph Goebbels o encargo de chefiar o serviço de propaganda nazista. A ele se atribuem pensamentos do tipo: “A mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (Eine Tausendmal Wiederholte Lüge Wierdzur Wahrheit) ou “Se você contar uma grande mentira e repeti-la com bastante frequência, as pessoas acabarão acreditando. A mentira pode ser mantida enquanto o Estado conseguir proteger as pessoas das consequências políticas, econômicas e militares da mentira. Portanto, é vital que o Estado use todo o seu poder para suprimir a dissensão. A verdade é o inimigo mortal das mentiras e, portanto, a verdade é o maior inimigo do Estado.”

Desta receita nazista não faz parte apenas a mentira. A ela se acrescentam, de modo interconectado o ódio, a violência e o medo, cada um utilizado, ao seu modo. Para esta lógica perversa, a mentira tem que vir associada à violência mais estúpida, substituindo a força da razão pela razão da força (recentes declarações assacadas a membros e à instituição suprema do judiciário não são mera coincidência). Igualmente funcional e eficaz a esta mesma lógica, apresenta-se o ódio como estratégia política. Em sua lógica, é fundamental incrementar o ódio aos inimigos (de classe, a misoginia, o racismo, a xenofobia, a homofobia...), ainda que atenuado com palavras adocicadas, para confundir os incautos. Tal elemento favorece potencialmente o medo, a ser infundido, em larga escala, sob alegação de que o mal só pode ser combatido com a violência e com a eliminação dos que se insurgem contra sua “ordem”...

A tal combinação explosiva associa-se o componente religioso, que confere uma força toda especial à estratégia em jogo, uma vez que se tenta convencer os incautos pela força do sagrado, ainda que em sua dimensão reelaborada e distanciada das fontes em que se diz inspirar. Trata-se do fundamentalismo religioso...

Ao extremo calor dos embates, em que o momento nos mergulha, sentimo-nos tentados a esquecer que, qualquer que seja o desfecho eleitoral, nem o caos apocalítico nem a salvação vamos ter como consequência, por mais impregnada de um ou de outro desses horizontes esteja nossa sociedade. Isto nos serve, por um lado, de alento, e por outro, nos enche de responsabilidade histórica. É compreensível que, no horizonte imediato, nossas energias se voltem quase exclusivamente para evitar o risco pior – a face mais reconhecida da barbárie, não tanto estampada num indivíduo, mas notadamente traduzida em parcelas significativas de nossa sociedade: este é o verdadeiro escândalo!

Uma leitura imediatista do que se passa entre nós, no Brasil e no mundo, comporta elevados e perigosos riscos de reducionismo. À medida, porém, que nos esforçamos por tomar alguma distância crítica do imediatismo, criamos condições favoráveis para uma compreensão mais objetiva ou menos insegura de uma interpretação reducionista da realidade social. Com efeito, uma revisitação a situações históricas recentes e menos recentes, nos permite refrescar a memória, no sentido de contermos nossas paixões imediatistas, ajudando-nos a exercitar nossa criticidade e a fortalecer nossos passos em busca de superação dos impasses atuais. Isto nos ajuda, sobremaneira, a temperamos nossas energias criativas, em direção a um horizonte alternativo à barbárie que nos ronda, afinal esta situação obscurantista não surge do nada...

Se é verdade que a sociedade brasileira vive momentos cruciais, de profundos impasses, como poucas vezes, em nossa história, também é verdade, no âmbito do imediato, que o grande e grave desafio instantâneo é o de tentar evitar o pior dos desfechos eleitorais – a vitória da insanidade extremada, caminho mais propício à naturalização do clima de barbárie, que se respira. Em qualquer, porém, dos casos, a tarefa central das forças que se querem historicamente comprometidas com a construção de uma alternativa a esta barbárie anunciada, é ousar passos, a curto, médio e longo prazos, em busca de novo rumo, novos caminhos e novas posturas, alternativas ao obscurantismo que nos ronda.

Somente a quem não quer ver, se dá a cegueira suicida que ameaça significativas conquistas democráticas, ainda que misturadas com entulhos acumulados ao longo das décadas mais recentes, inclusive por parte de quem se esperava a tarefa de remoção desses entulhos. Mesmo assim, resulta incomparável assumir como alternativa a isto a opção por um caminho muitas vezes pior do que o criticado.




João Pessoa, 24 de outubro de 2018.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

O FIO EXISTENCIAL DA PERSEVERANÇA NO COTIDIANO DO PROCESSO DE HUMANIZAÇÃO: breves notas, desde uma experiência de busca


O FIO EXISTENCIAL DA PERSEVERANÇA NO COTIDIANO DO PROCESSO DE HUMANIZAÇÃO: breves notas, desde uma experiência de busca


Alder Júlio Ferreira Calado


Diante do ascenso e expansão extraordinários de graves ocorrências de barbárie, que nos acometem, sentimo-nos interpelados historicamente a repensar mais detidamente nossas práticas cotidianas, no horizonte do processo de humanização. Um primeiro aspecto que nos ajuda e nos mantém autovigiliantes, quanto a isto, é que devemos ter presente que processo de humanização não constitui uma fatalidade, um determinismo. Apresenta-se, antes, como uma possibilidade que somos impulsionados a ir assegurando, dia após dia, face a outra possibilidade (esta de feição tenebrosa): a possiblidade de desumanização. Sempre que a isto se referem, autores como Paulo Freire, João Francisco de Souza e outros e outras, fazem questão de assinalar este risco. É o que hoje andamos a experimentar, no Brasil e no mundo. Optar pelo processo de humanização requer de nós, dia após dia, que nos ponhamos a assegurar, a partir de nós mesmos, de nós mesmas, as condições adequadas para a sua realização, sem o que seria inútil esperarmos que o processo de humanização aconteça como num passe de mágica. Tudo vai depender de como e do que nos alimentamos, no chão do dia-a-dia: de nutrientes humanizadores ou de substâncias necrófilas, do que dão testemunho nossas práticas diárias. Pensar a prática, portanto, resulta fundamental. Eis o propósito dessas linhas.
Ocorre-nos refletir, (também) hoje! e compartilhar o desafio do processo de humanização – sempre atentos ao seu inverso: os riscos de desumanização -, desde o fio existencial da perseverança. O processo de humanização - que não é um determinismo, pois onde há o livre arbítrio, nossas escolhas acabam tornando-se uma possibilidade, a ser reafirmada ou contrariada, a cada momento - se dá no chão do dia-a-dia, a depender de nossas múltiplas escolhas, ou melhor: dos critérios que adotamos, e da perseverança com que a ele nos consagramos (ou não).
Pela nossa própria biografia, podemos atestar isto. Se não bastasse, tomemos biografias de figuras que consideramos referências paradigmáticas. Sem pensar nossas práticas, a vida se torna uma sucessão de momentos fragmentados e desprovidos de sentido libertário. Pensar a prática resulta, pois, uma escolha de quem aposta na vida, em busca de plenitude.

Podemos fazer este exercício, por vários caminhos, tomando diversos fios existenciais. Aqui escolhemos, hoje, fazê-lo por meio da perseverança, fio existencial que nos permite consolidar nossas boas escolhas, grávidas de vida libertária, enquanto seres biófilos que queremos ser, que queremos ir sendo. E como encarar a perseverança: Vou começar a fazê-lo, em termos de uma tentativa, pelos critérios do Movimento de Jesus que tanto prezamos.

A perseverança exercitada como um dom
Sem desconhecermos a força do protagonismo pessoal e comunitário na produção e cultivo dos fios existenciais, característicos do processo de humanização, para as pessoas e comunidades que se querem seguidoras ou discípulas do Movimento de Jesus, os fios existenciais – todos e cada um-, no horizonte do processo de humanização sem deixarem de ser expressão de busca permanente, graças também ao nosso protagonismo pessoal e comunitário, são tratados, antes de tudo, como dons da Graça divina. Fonte de todo bem e de todo dom. Tal entendimento se acha assentado em diversas passagens evangélicas e no conjunto das Sagradas Escrituras. Atenhamo-nos aqui, de passagem, apenas a algumas situações, episódios e indicações extraídos dos Evangelhos.
Um dos episódios emblemáticos atinente ao dom da perseverança, se acha na parábola do semeador. Suas primeiras tentativas resultaram frustradas, mas sua persistência em continuar buscando a boa terra, ao final lhe sorri, assim também, na vida, os discípulos e discípulas do movimento de Jesus, não devem desistir de semear o bem, a justiça, a paz, a solidariedade, ainda quando as situações se achem as mais improváveis: há de se seguir lutando, semeando, “pois quem procura, encontra. ”.
Importa atentar para o sentido da parábola do semeador, tal como o próprio Jesus a explica aos Seus discípulos e discípulas, em especial ao sentido da qualidade do terreno, ou seja, da preparação ou não preparação de quem houve essa Palavra. Ao nos colocarmos também, enquanto protagonistas de relações sociais alternativas à barbárie que nos circunda, também nos sentimos implicados, nesse episódio, à medida que descuidando-nos de nosso processo formativo contínuo, por vezes, sucumbimos à superficialidade de nossa compreensão e de nossa ação de agentes transformadores; outras vezes, por descumprirmos condições mínimas de práticas organizativas fundamentais, deixamo-nos seduzir por atalhos... 
Outro episódio ilustrativo do dom da perseverança se acha na figura do pai, a esperar, contra toda esperança, o retorno do filho mais jovem, de seus caminhos de aventuras fracassadas. Mais do que esperou, “esperançou”, e, portanto, não foi decepcionado. Neste episódio, também podemos sentir-nos implicados, à medida que examinamos nossa “paciência histórica”, isto é, buscando vencer nossa avidez de realizações imediatistas, de tal modo que, quando as coisas não se dão no ritmo acelerado de nossa avidez, sedemos ao desanimo, sucumbindo ao sentimento de impotência, ou seja, desistindo da luta...
Associado à oração vem também aconselhada a necessidade de vigilância que não deixa de ser também uma forma de perseverança. Aqui, sentimo-nos remetidos a permanente necessidade de autovigilância ou, de modo mais expressivo, do contínuo exercício da mística revolucionária, que nos permite uma constante auto avaliação e a renovação contínua de nossos compromissos com o processo de libertação dos condenados da “terra”.
Seja no âmbito pessoal, seja no âmbito comunitário, o exercício da perseverança se apresenta como condição indispensável ao sucesso de nossas iniciativas. Não basta apenas semear, importa também cultivar a terra que abriga a semente, para que esta germine, floresça e frutifique.
No tenebroso período da Ditadura Civil-Militar, no Brasil, a resistência foi protagonizada por diversos segmentos de nossa sociedade, entre os quais os artistas. Lembremo-nos, a este respeito o exemplo das composições de autores como Chico Buarque. Em uma de suas músicas – “Roda Viva” – ele nos alerta: “A gente vai contra a corrente _ até não poder resistir _ na volta do barco é que sente _ o quanto deixou de cumprir”. Nestes versos, também se faz presente a consciência sobre a importância da perseverança. Nos desatinos e nos reverses históricos, dificilmente a gente escapa de uma parcela de responsabilidade social. Mas, não se trata de um convite à autoflagelação, inútil e estéreo, mas de renovarmos, em novo estilo, nossos compromissos de coerência com o horizonte, os caminhos e a postura com que nos entregamos a esta causa.

João Pessoa, 16 de Outubro de 2018.


sexta-feira, 12 de outubro de 2018


UMA CHAVE DE LEITURA (E REESCRITA) DO LEGADO FREIREANO, NO CALOR DOS DESAFIOS ATUAIS: Qual a contribuição de nossas organizações de base?

Alder Júlio Ferreira Calado

Na perspectiva freireana (não apenas), toda leitura de mundo se acha necessariamente permeada pelas vicissitudes históricas, isto é, sob a dinâmica do movimento do tempo, bem como da marca da espacialidade. Não faria sentido uma análise de uma situação presente, desconectada de seus laços com passado e temperada com um esforço prospectivo: presente-passado-futuro são traços necessariamente interconectados, como condição de uma análise dentro da criticidade desenvolvida (também) em Paulo Freire, não apenas proposta, mas sobretudo testemunhado, ao longo de seu percurso existencial. Resulta, por conseguinte, não apenas possível, mas também necessário, ao nos debruçarmos sobre o calor da atualidade, por mais conflituosa que se manifeste, sem a devida atenção a aspectos tais como:
- de onde vem este presente?
-como foi forjado, até desaguar no que hoje se tem?
- que forças, durante esse período, estiveram confrontando-se, e à luz de que projetos de sociedade?

Tanto no conjunto de suas obras, como em suas intervenções orais (entrevistas, depoimentos, conversações, sem contar sua expressiva atividade epistolar), e sobretudo em todo o seu legado existencial, Freire foi sempre um observador perspicaz da realidade social, atento a seus mais complexos movimentos, extensão e complexidade. O exercício de observação perspicaz, da realidade em movimento, os registros por ele anotados de tal observação não se faziam em nome de um mero exercício acadêmico de constatação da realidade, mas como eficazes instrumentos voltado à transformação substantiva das relações sociais, tanto na esfera econômica, quanto na esfera política quanto na esfera cultural neste horizonte, Freire se mostra organicamente afinado com o espírito da Tese 11, por Marx dirigida em relação Feuerbrach: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”. A este respeito sinto-me remetido a uma de tantas entrevistas suas em que lhe foi perguntado como se sentia, ao ser reconhecido como o criador de um método de alfabetização. Respondeu que se sentia agradecido por este reconhecimento, mas que sua gula era bem maior do que isto, pois seu compromisso maior estava voltado à transformação da realidade social. De tal movimento faz parte seu zelo pela identificação dos mais distintos nexos presentes e atuantes na produção de nossa realidade. 

Nesse sentido, saltam à vista certos conceitos por ele trabalhados, seja de modo explícito, seja tacitamente, mas nem por isso, menos presentes. A começar pela categoria, ou melhor, pelo seu testemunho contínuo do exercício do Diálogo - com os parceiros, com os diferentes, sem deixar de considerar criticamente até os argumentos de correntes antagônicas (sem que isto resulte em parceria!

É pelo exercício incansável do diálogo, que também vamos exercitando nossa criticidade e nossa postura propositiva frente às mais diversas situações desafiadoras, o exercício contínuo do Diálogo se apresenta como condição necessária à superação de nossas próprias insuficiências (“Inacabamento”), bem como do despertar e do assumir de nossas próprias potencialidades (do âmbito pessoal ao comunitário) nossos limites de seres humanos não são enfrentados adequadamente, tampouco superados, no isolacionismo. Precisamos da experiência comunitária, grupal (núcleos, círculos, conselhos populares... não importa o nome), como condição para o reconhecimento dos nossos limites pessoais e coletivos, bem como para lidar com a superação de tais limites, ao longo de nossa existência. É por conseguinte, fundamental o exercício contínuo do diálogo para irmos tornando-nos Gente, protagonista da própria história, agentes de transformação social...

É, também, graças ao exercício contínuo do Diálogo, que nos tornamos aprendizes uns dos outros, seja no tocante a virtudes e dons, seja no tocante também ao aprendizado com os erros alheios e com os nossos próprios erros, caminho para o aprendizado incessante do exercício da autocrítica, outra expressão-chave no universo vocabular freireano, segundo o qual o exercício da própria crítica se inicia com o exercício da autocrítica: inútil esbravejar contra os malfeitos alheios se não sou capaz e não faço qualquer esforço de olhar e reconhecer do quanto que eu acuso dos outros se aloja em mim mesmo...
“Ação cultural”, “Educação libertadora”, “Diálogo”, “Consciência de inacabamento”, “Criticidade”, “Crítica-autocrítica”, “Curiosidade epistemológica”, “Autonomia”, “Inédito viável”, “Esperançar”, “Práxis”, “Utopia”, e tantas outras expressões-chave por ele criadas, por ele desenvolvidas ou por ele assumidas, não correspondem precisamente a meros conceitos acadêmicos: constituem, antes de tudo, experiências por ele assumidas, em seu legado. Isto, todavia, não cai do céu: é fruto de incessante processo formativo (pessoal e comunitário), a ser assumido pelos próprios protagonistas, bem como pelas forças sociais historicamente vocacionadas a irem transformando substantivamente, no chão do dia-a-dia, as relações sociais hegemônicas. Em busca da construção da permanente construção de um novo modo de produção, de consumo e de um novo modo de gestão societal, como alternativos à barbárie do Capitalismo, cujos efeitos vêm ameaçando, cada vez mais, a vida no planeta, bem como as condições mais elementares do processo de humanização. O atual momento, no Brasil e no mundo, se mostra um atestado inequívoco destas ameaças.
No caso do Brasil atual, nossa sociedade vem se mostrando profundamente vulnerável a esta onda de barbárie que ronda todo o mundo. São vastos e preocupantes os sinais de barbárie: a tendência à tudo resolver pelo argumento da força, a crença assustadora na resolução dos impasses, pela força das armas; a tenebrosa e crescente onda de classismo ou horror à causa dos pobres), de sexismo (cf. os alarmantes índice de feminicídio, as diversas formas de violência contra as mulheres), de racismo (o ódio  destilado contra povos indígenas e comunidades quilombolas), de homofobia, de xenofobia...O pior é que, não raro, tais práticas se acham ou se querem estranhamente fundadas em princípios evangélicos, retratando, em nome de Deus, a mais vil idolatria...
Bem sabemos que, tanto no Brasil, quanto na América Latina e no Caribe, quanto no mundo, tais manifestações tenebrosas, não nasceram do nada, mas como expressão e resultado de múltiplos e complexos fatores externos e internos. No caso do Brasil, já tivemos um período em que nossas organizações de base, atuando como agentes de transformação, colhiam sua força do profundo enraizamento nas comunidades, nos núcleos, nos círculos de cultura, nos conselhos populares, etc, período durante o qual tais riscos e tais ameaças estiveram sob controle, visto que graças à atuação coerente desses sujeitos (individuais e coletivos) parte expressiva da sociedade se via alimentada e empoderada de práticas e valores ais como: a solidariedade, o respeito à diversidade, a partilha, a disposição de diálogo, o testemunho profético, o exercício da crítica e da autocrítica, a desconfiança nos espaços estatais como caminho de transformação social, na direção almejada...
Também tal realidade vivenciada naquele período, a despeito de suas fragilidades, estava fundamentalmente ancorada na orgânica articulação de 3 campos de atuação: o campo organizativo, o campo formativo, e o campo de mobilização. Enquanto isto durou, significativas conquistas tiveram lugar. Abandonados ou fortemente reduzidos tais campos, no campo e nas periferias urbanas, nossas organizações de base, historicamente vocacionadas a ir criado condições de efetivas mudanças societais passaram a sofrer sucessivos e perigosos refluxos na falsa crença de que tais mudanças brotariam, não mais de um incessante processo de transformação social (a partir de um novo homem, de uma nova mulher), mas apenas pela mágica da ocupação de espaços governamentais.

É tempo de resistência! Ao mesmo tempo, não será também, tempo de retomarmos, no campo e na cidade, em novo estilo, práticas e concepções grávidas de alternatividade?

João pessoa, 12 de outubro de 2018.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

ONDE E COMO BUSCAR FORÇAS PARA AS RAZÕES DE NOSSA ESPERANÇA? Perguntas úteis em tempos tenebrosos


ONDE E COMO BUSCAR FORÇAS PARA AS RAZÕES DE NOSSA ESPERANÇA? Perguntas úteis em tempos tenebrosos

Alder Júlio Ferreira Calado

Ontem como hoje, a história e nossas próprias vidas seguem sendo experiências em aberto.  A tudo devemos estar preparados, a partir de nossos valores mais profundos. Reconhecendo - e até buscando manter - as positividades características dos tempos de "vacas gordas", sabemos, contudo, que eles comportam riscos de malogro. Eis um desafio de monta! Acostumados ao conforto dos tempos de bonança, mal nos preparamos para períodos de reveses, fazendo ouvidos moucos ao alerta Paulino, de que “Sei viver na penúria, e sei também viver na abundância. Estou acostumado a todas as vicissitudes: a ter fartura e a passar fome, a ter abundância e a padecer - (Filipenses 4:12)”. E, quando assim não tomamos a sério isto se torna fonte perigosa de medos, de sentimento de impotência, de tendência a sucumbirmos ao clima de derrotismo, sentimentos que em nada nos ajudam a enfrentar exitosamente e vencer os reveses que nos sobrevêm.
O momento atual é um desses tempos de extremos desafios, que só vamos poder superar, se reforçarmos nossa guarda de autovigilância e de fortalecimento dos caminhos que apontam para benditos poços de esperança, que nos permitam “dar a razão de nossas esperanças”. Trato, a seguir, de me colocar e compartilhar alguns questionamentos, em busca de pistas que nos ajudem a enfrentar e a superar – ou melhor: a ir superando – as pesadas sombras que enfeiam nosso caminhar, no atual momento:

- Terá sido a primeira vez que sucedem tais reveses ao longo da história e também de nossas vidas
- Refrescando nossa memória histórica, que outros tempos desafiantes – recentes e menos recentes – tivemos, no Brasil e Alhures, e como foram superados
– Será que a superação de tais desafios não requereu duros aprendizados, que tivemos que assumir e pôr em prática, como condição da própria superação?
- Sem deixar de ter sempre presentes os fatores externos de tantos reveses de ontem e de hoje, será que podemos negar ou não tomar a sério, nossa cota interna de responsabilidade por parte desses desatinos?
– Revisitando experiências organizativas e formativas vivenciadas há algumas décadas, protagonizadas por forças sociais e organizações de base de nossa sociedade, que práticas organizativas e formativas, que se acham no centro de tantas conquistas, de que nos orgulhamos, se acham hoje distantes de nós?
- Reconhecendo a necessidade de enfrentarmos velhos e novos desafios, também do ponto de vista político-eleitoral, será que devemos seguir perseguindo este caminho que se tem revelado como nossa prioridade quase única, de modo a aí esgotar nossas melhores energias criativas, ao tempo em que dedicamos meras palavras de ordem ou esforço secundário a plantar e cultivar sementes grávidas de alternatividade, no campo e na cidade, em busca de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo, e de um novo modo de organização societal?
- Conscientes de que “arvore se conhece pelos frutos” que resultados seguimos colhendo, no Brasil e no mundo, de uma aposta desvairada no suposto potencial transformador dos espaços governamentais, em detrimento de um crescente e vigoroso investimento nas “correntezas subterrâneas”, voltadas ao fortalecimento das iniciativas de defesa e promoção da dignidade do Planeta e de toda a comunidade dos viventes, protagonizadas por dezenas e centenas de experiências comunitárias espalhadas pelo Brasil e pelo mundo (combate ao aquecimento global sistemático cuidado com os Oceanos, com as nascentes dos rios, com o zelo pelas matas e florestas, com o combate do crescente envenenamento das águas, do ar, do subsolo, das plantas e animais e do próprio ser humano; com a busca crescente de alternativas de convivência com o Semiárido; com o investimento em tecnologias e fontes de energias alternativas; com o compromisso de cultivo e expansão das terapias naturalistas e comunitárias integrativas, com o desenvolvimento de fecundas experiências agroecológicas e da permacultura)?

João Pessoa, 8 de outubro de 2018.