segunda-feira, 17 de agosto de 2020

ELEIÇÃO TAMBÉM É MERCADORIA / COMO TAL, FETICHISTA SE APRESENTA

 ELEIÇÃO TAMBÉM É MERCADORIA

COMO TAL, FETICHISTA SE APRESENTA


 Alder Júlio Ferreira Calado

 

No início,  o PT era prudente

No tocante à questão eleitoral

Mesmo a ele lhe dando algum aval

Alertava bem mais a sua gente

Em eleição se tornando reticente

A seus membros, então, ele orienta

A eleição assumir, em dose lenta

O Brasil tem história que arrepia

Eleição também é mercadoria

Como tal, fetichista se apresenta


Dependendo qual seja a conjuntura

Desde que muito bem avaliada

É possível enfrentar esta empreitada

Como peça de “bela” ditadura

Sem visar a uma vida fecunda, futura

Mero adorno de luxo ela ostenta

De qualquer compromisso logo se isenta

O sistema, de vez, o contraria

Eleição também é mercadoria

Como tal, fetichista se apresenta


Quando vence, a esquerda raramente

Se mantém no governo, se assume

Neste caso, o governo não é o cume

A conquista que logra não se sente

Pois vem logo a desfeita de outra gente

O estado protege e apascenta

Deixa intacta a estrutura e sua ementa

A esquerda consente o que angaria

Eleição também é mercadoria

Como tal, fetichista se apresenta


Longos 34 anos, eis que faz

Da campanha eleitoral constituinte

Que é louvada em prosa, com requinte

Boa parte já nem se lembra mais

E nem mesmo de lição se vai atrás

Do cordel que lancei, assim comenta

Uma estrofe que parece estar atenta

E citá-la adiante ousaria

Eleição também é mercadoria

Como tal, fetichista se apresenta


“Já estamos em tempo de eleição

Ferramenta que aponta em dois sentidos

Quase sempre contrária aos oprimidos

Também pode valer contra o barão

Quando o pobre percebe que o tostão

Que em troca de votos é derramado

É o suor do povão que foi roubado

Nós devemos pegá-lo porque é nosso

E no dia votar sem ter remorso

Só em pobre que está do nosso lado”


Dezessete eleições se seguem a esta

Largo tempo propício a um balanço

Desafio oportuno aqui lanço

O que sobra para o povo desta “festa”?

Sem negar alguns ganhos que ela atesta

O tesouro dos ricos alimenta

Pros “de baixo”, porém, a marcha é lenta

Negativo é o saldo, lembraria

Eleição também é mercadoria

Como tal, fetichista se apresenta


Em dezenas de casos abraçados

Por milhares de bravos militantes

Em campanhas sem conta atuantes

Concentrando sua força neste lado

Acabaram em falta com o legado

Desafio central pouco se enfrenta

Militância tornou-se desatenta

Prioridade, então, inverteria

Eleição também é mercadoria

Como tal, fetichista se apresenta


Mesmo sem descartar as tais campanhas

Sem assumi-las, porém, como centrais

Mas, seguindo as pautas axiais

O projeto popular não se barganha

Nem tão pouco da elite segue a manha

O melhor para sua classe é o que tenta

De sua luta fazendo-se ferramenta

Sua causa maior não negocia

Eleição também é mercadoria

Como tal, fetichista se apresenta


Militância comporta pauta imensa

Criar núcleos, também coordená-los

Conhecer, tratar bem todos os calos

Evitando ambiente de descrença

Aparando as arestas, desavenças

O processo formativo acalenta

Dissipando dos núcleos a tormenta

De mudança, ambiente novo cria

Eleição também é mercadoria

Como tal, fetichista se apresenta


Se do tempo empregado em eleição

A metade, se desse com a base

E não mais para campanhas tanto vaze

Nosso esforço, por certo, não será vão

E o trabalho de base, em construção

Do contrário, ilusão nos arrebenta

E o projeto dos sonhos mais se ausenta

Reverter este rumo nos salvaria

Eleição também é mercadoria

Como tal, fetichista se apresenta


Mil razões nos assistem para alertar

Os partidos vigentes têm esquema

Que da ética se afastam para o caos

Existindo exceção elementar

Mas, somente para a regra confirmar

Consciência do povo se atormenta

Deste vício a esquerda não é isenta

E o sistema de todos tripudia

Eleição também é mercadoria

Como tal, fetichista se apresenta


Cada vez entre nós crescem os sinais

De que outra política é necessária

Que liberte do Império quem é pária

A justiça buscando, sempre mais

E trilhando caminhos rumo à paz

Cultivando a ética é que se enfrenta

Ocorrências tão graves de tormenta

Pela base somente se (re)inicia

Eleição também é mercadoria

Como tal, fetichista se apresenta




João Pessoa, 17 de agosto de 2020 


sábado, 15 de agosto de 2020

QUEM DECLARA NÃO TER NENHUM PROJETO / SE ENTREGA AO SABOR DE QUALQUER VENTO

QUEM DECLARA NÃO TER NENHUM PROJETO

SE ENTREGA AO SABOR DE QUALQUER VENTO


Alder Júlio Ferreira Calado


A canção "Deixa a vida me levar"

Nos atrai por seu tom de fantasia

Qual novela que a tantos extasia

Mas, nos deixa lição dura, exemplar

Quem se deixa ao acaso se guiar

Presa fácil se torna do momento

Aos sinais não ficando mais atento

Tem mais chance de colher um fruto infecto

Quem declara não ter nenhum projeto

Só se entrega ao sabor de qualquer vento


Vida plena é expressão relacional

Implicando aprender continuamente

Com os outros, vivendo como gente

Dos viventes fazendo memorial

Aprendendo dos clássicos, por igual

Freire, Marx, Comblin e dos eventos

Dos saberes humanos mais sedentos

E quem mais aprender, sendo discreto

Quem declara não ter nenhum projeto

Só se entrega ao sabor de qualquer vento



Uma marca notória das pessoas

Que dão frutos bons, semeiam nossas vidas

Vem dos anos que passam recolhidas

Dialogam só pesam, e não à toa

Só depois, é que sua voz ecoa

Se a árvore destrói-se, fica o rebento

Este sonho mantenho e acalento

Partilhando com o povo direto

Quem declara não ter nenhum projeto

Só se entrega ao sabor de qualquer vento



Quem se lança ao caminho, tem vida plena

 O  caminho fazendo, ao caminhar

Companhia se torna exemplar

Tem na vida seu rumo, não na geena

À leitura do mundo se antena

Aos sinais do caminho estando atento

Analisa o real, e todo evento

Avançando seu plano, mesmo incompleto

Quem declara não ter nenhum projeto

Só se entrega ao sabor de qualquer vento



Leva adiante, seu plano no dia a dia 

Construindo horizonte esperançoso 

No que faz, encontrando sempre gozo

E tijolo assentando, avalia

O que tem por fazer, não mais adia

No marchar pessoal, sem desalento

E ao plano comum se faz sedento

Empenhado em manter plano correto

Quem declara não ter nenhum projeto

Só se entrega ao sabor de qualquer vento

 


Destacar é preciso o desempenho

De quem sempre se encontra engajado

Dos "de baixo" estando firme ao lado 

Passam os dias e não passa seu empenho

Realçar outra marca aqui venho

Cada dia exercendo seu intento 

E, na mística, buscando, mais sedento

De esperança com ânimo repleto

Quem declara não ter nenhum projeto

Só se entrega ao sabor de qualquer vento



Tal canção gratifica até plantinhas

Aos bichinhos talvez ainda mais

Aos ouvidos humanos ela apraz

A Natura de todos se avizinha

Ser humano ressente-se de outra linha

A Cultura lhe vem em complemento

Guardião do Planeta, eu acrescento

À razão também ele está afeto

Quem declara não ter nenhum projeto

Só se entrega ao sabor de qualquer vento



Um ativo papel cabe aos humanos

Sendo parte da bela Natureza

Ser humano a cultura também preza

Tendo em vista mais forte o seu plano

pondo atrás procederes mais insanos 

Seu papel é também de chamamento

A um novo horizonte estando atento

Sempre ousando mudar mundo provecto

Quem declara não ter nenhum projeto

Só se entrega ao sabor de qualquer vento



De tijolo a tijolo se vai tecendo

Belos fios de um mundo alternativo

Não havendo lugar mais pra cativo

Nem mudanças que são mero remendo

superando obstáculos mais tremandos

Cultivando valores, alimentos

'Buen vivir' sendo nosso grande alento

Requerendo de todos agir concreto

Quem declara não ter nenhum projeto

Só se entrega ao sabor de qualquer vento



Helder, Pedro, Thomaz e Evaristo

Luther King,  Mandela, Gandhi, Esquivel

Cada qual bem cumprindo seu papel

Cada um  por seu povo mui benquisto

Nas mulheres também aqui insisto

Irmã Dorothy, Agostinha, acrescento

Cada uma importante em seu momento

São figuras de espírito irrequieto

Quem declara não ter nenhum projeto

Só se entrega ao sabor de qualquer vento



João Pessoa, 15 de agosto de 2020

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

PPP POBRES, PRETOS, PROSTITUTAS GRITAM NÃO, DA CADEIA, AO CAPITAL


Alder Júlio Ferreira Calado


Tempo faz que circula um certo dito

Indicando quem fica na cadeia

Fartamente de pobres está cheiaa

Aqui, Negros não passam de malditos

E o comércio dos sexo completa o rito

E seus alvos,só aumenta o Capital

São centenas de mil gente"banal"

Que migalhas com ratos,lá disputa

PPP pobres, pretos, prostitutas

Gritam NÃO, da cadeia, ao Capital


Um sistema penal tão seletivo

Se revela classista, extremamente

E racista, a punir a negra gente

A justiça a pune, sem ter crivo

Adotando processos mais lesivos

800 mil presos, de um total

Maioria mantém-se ilegal

De repente, essa gente irrompe abrupta

PPP pobres, pretos, prostitutas

Gritam NÃO, da cadeia, ao Capital


Como opera a justiça pros de cima

Empresário, banqueiro, parlamentar

Nada tem sobre isto a lamentar

A favor, quanto a eles, a lei rima

Sempre encontram uma brecha, neste clima

Advogados garantem-lhes aval 

Também contam com a mão judicial

Contra os pobres sentença executa

PPP pobres, pretos, prostitutas

Gritam NÃO, da cadeia, ao Capital


Dentre as brechas da Lei, se usa e abusa

De recursos infindos, longos prazos

Que espicham os processos, caso a caso

Numa lógica perversa, obtusa 

Que ao próprio sistema só acusa

Prescrevendo a pena, afinal

Se torna, a justiça, funcional

Privilégios forjando, por lei bruta

PPP pobres, pretos, prostitutas

Gritam NÃO, da cadeia, ao Capital


São centenas de mil dos nossos moços

Enjaulados, sem terem julgamento

Sufocados por ritmo demais lento

Amargando ambiente tão insosso

Desejando escapar daquele fosso

Presa fácil do crime profissional

Só reforçam o que é raiz do mal

Do sistema mantendo a batuta

PPP pobres, pretos, prostitutas

Gritam NÃO, da cadeia, ao Capital


E nas últimas décadas prolifera

 Este leque de pobres e excluídos

Ressoar nos importa seu gemido

Na cidade ou do Campo na esfera

Ver mendigos na rua dilacera

Ver migrantes em vida infernal

Ver governos Reféns do vil metal

Quantas vidas ceifadas por recrutas

PPP pobres, pretos, prostitutas

Gritam NÃO, da cadeia, ao Capital


Ribeirinhos, sem terra e sem teto

Catadores e povos originários

De desdém são diversos os cenários

Moradores de rua viram objeto

Os migrantes tratados sem afeto

E os homoafetivos, em geral

Dia a dia enfrentando um vendaval

Gente forte oprimida por recrutas

PPP pobres, pretos, prostitutas

Gritam NÃO, da cadeia, ao Capital


Ante os olhos da avara burguesia

Qual um zero à esquerda vale o povo

Desta elite jamais emerge o novo

Pois ao Império, canina, se afiia

No erário causando hemorragia

Se compraz do Império ser quintal

Nutre ódio aos pobres, negros, por igual

O que manda o patrão, ela executa

PPP pobres, pretos, prostitutas

Gritam NÃO, da cadeia, ao Capital


As "reformas" em marcha ou as já feitas

Prometendo, outra vez ,trazer alento

Favorecem o rentismo: segue isento

Aplicando dos "de cima" as receita 

Sem vergonha de a eles estar sujeita

Mais sufocam os "de baixo": "nada mal"

Interessa ao centrismo imperial

O massacre, o Congresso não refuta

PPP pobres, pretos, prostitutas

Gritam NÃO, da cadeia, ao Capital


Guedes, Maia, Alcolumbre voltam à tona

Em defesa da tal Teto dos gastos

Que exclui desta lei os juros vastos

Relativos à dívida que detona

A Nação que, por isso, vai à lona

O Congresso é refém tradicional

Obedece ao ditame patronal

Mas, um dia, essa massa irrompe, abrupta

PPP pobres, pretos, prostitutas

Gritam NÃO, da cadeia, ao Capital


Nas "reformas", o rentismo foi blindado

E pior: mesmo em grave epidemia

Um trilhão que o Governo lhe envia

Na do Teto, Trabalho, Aposentados

O sistema da Banca é poupado

Tributária terá um trato igual?

Por enquanto, de fora o deus Baal

Movimentos que sigam na escuta

PPP pobres, pretos, prostitutas

Gritam NÃO, da cadeia, ao Capital



O caráter de classe da pandemia

Se comprova também em nossa gente

Aos "de baixo" atingindo largamente

Pois aos pobres e pretos avaria

Aumentando sua dor, sua agonia

O sistema se faz raiz do mal

Numa dor, cada dia mais brutal

Apesar de sua garra, de sua luta

PPP pobres, pretos, prostitutas

Gritam NÃO, da cadeia, ao Capital


Reverter este quadro é compromisso

Do sujeito histórico de mudança

Movimentos são a força que alcança

Desde que no embate não esteja omisso

Eis por que só lhes cumpre aumentar viço

Pros “de cima” o sistema é maternal

Não se dê confiança a lei formal

Instigando o ardor da gente matuta

PPP pobres, pretos, prostitutas

Gritam NÃO, da cadeia, ao Capital



 João Pessoa, 13 de agosto de 2020

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

CASALDÁLIGA, PASTOR DIACONAL/COM LOURENÇO, DOIS GRANDES MILITANTES


Alder Júlio Ferreira Calado

“Assum est, versa et manduca” (Este lado já está assado, vira e come)


Na Espanha, nasceu - duzentos e trinta

Morre em Roma - duzentos e cinquenta e oito

Por ter sido um diácono afoito

Profecia não deve ser extinta

E Lourenço sua vida com sangue pinta

Profecia que Pedro leva adiante

Seu amor pelos pobres foi constante

Um e outro pra nós são um fanal

Casaldáliga, Pastor diaconal

Com Lourenço, dois grandes militantes


E no auge da tortura, ri Lourenço

Com seu corpo ao braseiro, diz ao soldado

"Esta parte está pronta, vire o lado"!

Homem livre, na dor é ser imenso

Vem de Deus tanta força, me convenço

Quantas vezes Dom Pedro, retirante

Enfrentou latifúndio ultrajante

Em martírio, a seu modo, cada qual

Casaldáliga, pastor diaconal

Com Lourenço, dois grandes militantes


A Deus graças por dia tão fecundo

Dois profetas do Reino são lembrados

Cada um nos deixando bom legado

Ser fermento na massa, neste mundo

Testemunho nos deixam, mui profundo

Afinados se acham dois gigantes

E a ambos pedimos, confiantes

Que intercedam por nós, nos dando aval

Casaldáliga, pastor diaconal

Com Lourenço, dois grandes militantes


João Pessoa, 10 de agosto de 2020