quinta-feira, 5 de outubro de 2023

TRAÇOS DA MÃE ÁFRICA: Em Busca de Nossas Raízes (XXV)

TRAÇOS DA MÃE ÁFRICA: Em Busca de Nossas Raízes (XXV)

 Alder Júlio Ferreiro Calado


África comporta um complexo mosaico de expressões religiosas. À semelhança do que se passa no campo linguístico, em que, por desconhecimento ou sob a influência da cultura ocidental, se imputam aos Povos Africanos línguas como Inglês, Francês, Português como se fossem idiomas falados “por todo o mundo”, também algo assim se passa no campo das religiões, como se o Cristianismo, em suas diferentes denominações, fosse a religião principal, secundada pelas “manifestações de animismo”...


É claro que, devido ao secular processo histórico de colonização - como, de resto, sucedeu em outras regiões do mundo, inclusive nas Américas - tanto os idiomas acima mencionados como as igrejas cristãs têm um lugar de inegável destaque. O equívoco surge, quando se pretende tomá-las como únicas ou praticadas “por todo o mundo africano”. Na verdade, nas dezenas de países que compõem o território africano, o que se observa mesmo é a presença de um complexo mosaico de línguas e de religiões.


A tal ponto, que há quem afirme que “Cada população africana desenvolve sua religião específica, que faz parte integral de sua herança cultura. Pode-se, portanto, dizer que há tantas religiões africanas tradicionais quantos são os povos africanos” (cf. página da Internet, no endereço www.academie-universelle.org/manuel/chap2/chap2a/religions/afrique.html


Com efeito, apesar da quase onipresença em terras africanas das “botas” dos colonizadores, com sua cultura, sua língua, sua religião, não se deve subestimar a capacidade de resistência dos Povos Africanos, não apenas em terras de menor controle ocidental, como ao interno das próprias áreas de sua presença hegemônica.


Como esquecer, por conseguinte, a expressiva incidência até hoje das mais tradicionais manifestações de religiosidade dos ancestrais dos Povos Africanos, difundidas até certo ponto ao longo do continente? E o quê dizer do expressivo contingente dos adeptos do Islam, seguido por enorme parcela dos Africanos, em suas mais diversas regiões? Outra área de reconhecida tradição islâmica é a de países como Argélia, Marrocos, Mauritânia… Em vários desses países, inclusive na Líbia, a incidência do Islamismo diz respeito à grande maioria da população, como na Argélia, onde chega a cerca de 97%... (afriquepluriel.ruwenzori.net/religion-generalite.htm).


Por outro lado, há também casos atípicos, como o da África do Sul, onde é forte a presença de igrejas cristãs (protestantes, em sua maioria), por fortes razões históricas. Por falar na África do Sul, tivemos recentemente em Salvador a presença alegre e solidária do bispo Desmond Tutu, que se tem notabilizado na luta pelos Direitos Humanos, não apenas em seu país.


Em parte de outras áreas, pode-se observar a presença de outras expressões religiosas, sobretudo as de caráter autóctone. Seja como for, desperta curiosidade incursionar pelo campo religioso dos Povos da África. A esse respeito, várias páginas na Internet ajudam a entender um pouco esse rico mosaico. Uma delas, em língua inglesa, fornece além de dados econômicos, políticos e demográficos, um quadro panorâmico e didático (inclusive por meio de um mapa) da distribuição geográfica das principais expressões religiosas da África (cf. o site do Christians Solidarity International: www.esi-int.org/word_map_africa_religion_php


Alguns analistas manifestam a impressão de que, entre componentes do segmento africano de jovens universitários, desenvolve-se um esforço de retorno às religiões de seus ancestrais. Esforço que enfrenta, entre os principais obstáculos, a difícil correlação de forças, em vista da relativa penetração de religiões alóctones, como resultado e expressão do processo de colonização. Não obstante, convém assinalar um traço relevante, resultante da herança da religião de seus ancestrais, que esses jovens apresentam, conforme a seguinte observação feita por analista: “A religião africana é uma afirmação (...) Seus valores essenciais são a harmonia e a união no seio da família e do clã, bem como com os mortos-vivos e os espíritos. Ela é coletiva, antes de ser individual, e os Africanos que se convertem ao Cristianismo ou ao Islam, carregam esses valores em sua nova fé.” (Olivier Bain, conforme o seguinte site acima mencionado).


João Pessoa, março de 2007

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

TRAÇOS DA MÃE ÁFRICA - Em busca de nossas raízes (XVIII)

TRAÇOS DA MÃE ÁFRICA - Em busca de nossas raízes (XVIII)



Alder Júlio Ferreira Calado


Nigéria, vasto (923.768 Km²) e complexo país africano. Banhada ao Sul pelo Golfo de Guiné, a Nigéria situa-se nos confins entre o Níger, Benin, Camarões e Tchad. Tem uma população que se aproxima de 129 milhões de habitantes, o mais populoso do continente, ocupando o nono lugar, enquanto o Egito (com cerca de 78 milhões de habitantes) vem em 15º lugar no quadro geral dos países de maior população do mundo.


Sua diversificada população falam diferentes línguas (o ioruba, o fulani, o banto e línguas mendingas, sendo o inglês língua oficial imposta pelos colonizadores, após a segunda metade do século XIX. Como se pode perceber já pelos termos acima, temos muito a ver com a Nigéria. Parte de nossas raízes culturais recebemos de lá, em razão dos africanos e africanas para aqui arrastados e escravizados.


No começo dos anos 90, à semelhança do que também ocorreu no Brasil, em 1960 (em que nossa capital passou do Rio de Janeiro para Brasília), sua então capital (Lagos) foi transferida para Abuja. Depois de décadas de colonização inglesa, a Nigéria consegue finalmente separar-se da Inglaterra, em 1960, década durante a qual vários outros povos africanos conquistariam sua independência política, nos limites do processo da chamada descolonização. Que resta a completar-se. Lá e por aqui, também.


Como tantos outros, também a Nigéria possui riquezas naturais diversificadas. Tem uma base agropecuária, sustentada por produtos primários como o algodão, o cacau, a cana de açúcar, entre outros, aos quais se acrescentam atividades extrativistas, como no caso da madeira (inclusive o famoso ébano). Mas, a Nigéria é um país cobiçado por grandes conglomerados transnacionais e seus aliados, graças principalmente aos seus recursos naturais, destacando-se gás natural, petróleo, ferro, carvão, entre outros.


Prova dessa cobiça vem estampada nas consequências sofridas pela Mãe-Natureza, também na Nigéria: acelerado desflorestamento, degradação do solo, poluição das águas, desertificação. O rápido processo de urbanização faz-se à custa da expulsão de significativos segmentos da população rural, jogados no meio da rua, sem condições as dignas necessárias, tais como saneamento, água tratada, energia elétrica, moradia digna, trabalho decente, serviços públicos essenciais.


Estrangeiros em sua própria terra, como ocorre também entre nós. Tocados pela busca de sobrevivência, um certo número resolve migrar, em busca de aventurar sua vida, na Inglaterra e outros países europeus. E lá, não é difícil imaginar o que esses migrantes acabam encontrando: enquanto uns são admitidos, em condições precárias, para fazerem os serviços sujos que os nativos rejeitam, outros tantos vivem na mais cruel clandestinidade, sendo caçados pela polícia como animais de quinta categoria.


Se é verdade que, ainda hoje, migrante continua como sinônimo de “estrangeiro”, “forasteiro” ou algo do gênero, lutamos por um mundo alternativo, por uma outra globalização, em que todos e todas se sintam em casa em qualquer parte do Planeta, onde desejem viver e trabalhar.


Nesse sentido, é muito positivo o intercâmbio que se desenvolve entre universidades públicas de distintos países, em que são firmados convênios que permitem, por exemplo, a jovens africanos estudarem em nossas universidades, como ocorre em relação à UFPB, onde estudam jovens de Angola, da Guiné, Bissau, Cabo Verde e outros países. E que a jovens brasileiros sejam asseguradas bolsas de estudo para esses e outros países africanos, do mesmo modo que já há para outros países, sobretudo para a Europa e para a América do Norte. Essa troca de experiências é muito relevante para rompermos os muros dos preconceitos e, sobretudo, para ensaiarmos uma fecunda experiência multi/intercultural, numa perspectiva de autonomia e alteridade alimentada por figuras como Amílcar Cabral e Paulo Freire.


João Pessoa, maio de 2006.


segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Sessão de Encerramento da 13ª Semana Teológica Pe. José Comblin: um breve relato

Sessão de Encerramento da 13ª Semana Teológica Pe. José Comblin: um breve relato


Alder Júlio Ferreira Calado


No sábado retrasado, dia 26/09, teve lugar no Mosteiro de São Bento, em João Pessoa/PB, a sessão de encerramento da 13ª edição da STPJC, comemorativa dos 100 anos do natalício do padre José Comblin, admirável profeta da Liberdade. Dando sequência as  três Jornadas Comunitárias (a primeira, realizada ainda em Maio na Casa dos sonhos, em Várzea Nova; a segunda, no Cedhor, em Tibiri II e a terceira, também em Várzea Nova), a sessão de encerramento contou com a contribuição especial do Prof. Romero Venâncio Silva Júnior, da UFSE, portador de uma tríplice formação (em Filosofia, em Teologia e Sociologia), além de uma reconhecida experiência de acompanhamento das Pastorais sociais e dos movimentos populares, no Nordeste.


Foi aluno de Comblin, tornando-se um de seus estudiosos, há vários anos. Coube-lhe, a partir do tema central da 13ª terceira STPJC (“José Comblin profeta da Liberdade”), fazer uma exposição inicial, destacando três dimensões da contribuição teológica  de Comblin: uma primeira, voltada para uma Teologia do Trabalho; uma segunda, destacando o diálogo com a Modernidade, enquanto a terceira dimensão destacada remetia para sua radicalidade evangélica, tendo os pobre como os preferidos do Reino de Deus.


Pe. Hermínio Canova iniciou o Encontro convidando os presentes a uma oração inicial. Fez menção dos diversos grupos ali presentes, e seus representantes: o grupo José Comblin (Hermínio, Elenilson, Jessica); o grupo Kairos (Aparecida, Eraldo, Glória, Lúcia, Irmã Maria Besen, José, Pe. Wancelei, Alder); a CPT (Tania, Marcio, Jessica); o CEBI (Edna, Glória); representantes da Fraternidade Charles de Foucauld, na pessoa de Lindolfo; representante da Comunidade Santa Dulce dos Pobres, a exemplo de Salene; professores universitários, a exemplo de Alexandre Soares, bem representantes da Comunidade de Alhandra. De militantes de Movimentos Populares, a exemplo de Marquinhos e Carol, acompanhados de sua filha Serena.


Dando prosseguimento aos trabalhos, Pe.Hermínio Canova convidou a Elenilson a fazer uma breve apresentação de Romero Venâncio, tendo-nos, antes, blindado com uma sucinta sinopse do livro de Comblin, “Cristãos rumo ao Século XXI “.


Trata-se de obra publicada pela Paulus, 1996, de fundamental importância para o entendimento crítico dos desafios principais colocados aos cristãos, na ante-sala do século XXI. O livro se revela de impactante atualidade, ao introduzir os leitores e leitoras, com acuidade profética, sobre os  grandes dramas colocados pelo Neoliberalismo, seja do ponto de vista econômico, seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista cultural, inclusive apontando tarefas desafiantes para os cristãos e cristãs de hoje. 


Em seguida, Elenilson passou a apresentar brevemente traços da trajetória de formação e de atuação profissional e política do Prof Romero Venâncio, que foi convidado a trazer suas contribuições sobre o tema central da 13ª STPJC. 


Antes de entrar no tema, Romero fez questão de expressar sua emoção, ao voltar a pisar naquele chão do Mosteiro de São Bento, lugar/centro das numerosas e densas atividades pastorais, sobretudo durante o pastoreio de Dom José Maria Pires. Nessa época, Romero acompanhou de perto todo o empenho de Dom José e uma equipe de assessores e assessoras qualificados e comprometidos com a causa libertadora dos pobres, dentro do espírito de Medellín e de Puebla. A Arquidiocese da Paraíba de então se mostrava um exemplo de ação profética, no Nordeste e no Brasil. Houve por bem destacar o papel profético das Religiosas inseridas no meio popular, a exemplo da Irmã Agostinha Vieira de Melo, da Irmã Leticia, da Irmã Diane, entre outras, tertemunhas de uma espiritualidade de compromisso libertador com os pobres.


Por outro lado, faz questão de expressar seu sentimento de revolta frente aos desmandos protagonizados pelo sucessor de Dom Marcelo Carvalheira, ou seja: o Arcebispo Dom Aldo Pagotto, cujo governo se mostrou profundamente arrasador, seja do ponto de vista pastoral, seja do ponto de vista ético, tendo estado no centro de numerosos escândalos, em um desgoverno que durou mais de uma década. Ao enfrentar o tema central de sua fala, após destacar sua condição de aluno de Comblin, no ITER, em Recife, e de tornar-se um apreciador de suas obras, Romero cuidou de realçar três aspectos do legado profético de Comblin. O primeiro corresponde a um teólogo que, em sua vasta obra, abordou o tema do trabalho, na perspectiva da Tradição de Jesus, com inspiração na Teologia Paulina. Desta dimensão é prova sua conhecida “Teologia da Enxada“ (Ed. Vozes, 1977), na qual relata a rica metodologia da experiência vivenciada por um grupo de seminaristas dispostos a serem fiéis a sua raiz camponesa, cuja formação requer a oração, os estudos, o trabalho manual e a proximidade com as comunidades rurais. 


A segunda dimensão ressaltada por Romero, sobre o legado de Comblin, diz respeito à sua notável sensibilidade aos desafios da Modernidade, de modo a sublinhar a contribuição legada pelo Concílio Vaticano II, especialmente presente na Constituição Pastoral "Gaudium et Spes", ao reconhecer a autonomia das "realidades terrestres" - categoria bem trabalhada, aliás, por um de seus professores, na Universidade de Louvain -, conceito muito trabalhado por Comblin em diversos livros seus, e especialmente naqueles dedicados a Teologia da Cidade e à Pastoral Urbana.


Igualmente oportuna foi a reflexão trazida por Romero acerca do terceiro ponto por ele destacado a saber: A Radicalidade evangélica de que se nutria Comblin, para fundamentar a centralidade dos pobres assegurada pela Tradição de Jesus, tema principal trabalhado nas Conferências Episcopais de Medellín e de Puebla. Dando sequência aos trabalhos coordenados pelo Pe. Hermínio, este tratou de agradecer ao Prof. Romero pela sua contribuição, ao tempo em que foi aberto aos presentes um momento de diálogos, pela formação de blocos de três perguntas ou Considerações dirigidas a Romero, da parte de Pe. Wancelei, Salene, Glória, Lindolfo, Eraldo, Tânia e Alder, entre outros, daí resultando densas contribuições especialmente voltadas aos principais desafios de nossa realidade sócio-eclesial, sempre com as oportunas e competentes reflexões críticas desenvolvidas por Romero.


Retomando a palavra, Pe. Hermínio convidou os presentes para a Oração final, acompanhada da leitura de um belo poema, “Benção da Divina Mãe” de autoria desconhecida, recitado por Glória. Em conclusão, os presentes foram convidados para um almoço compartilhado pela CPT, em sinal de renovação fraterna e sororal dos compromissos com a causa libertadora dos pobres.


João Pessoa, 02 de outubro de 2023

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

TRAÇOS DA MÃE ÁFRICA: Em Busca de Nossas Raízes (XVII)

 TRAÇOS DA MÃE ÁFRICA: Em Busca de Nossas Raízes (XVII)


Zâmbia é, desta feita, o alvo de nossa atenção. Situado na região Centro-Sul da África, Zâmbia tem uma área de cerca de 752 mil Km², área maior do que a Bahia. Sua população conta com pouco mais de 11 milhões de habitantes. Por se tratar de um país central, conta com uma fronteira vastíssima. Entre os países que se limitam com Zâmbia, estão o Congo e a Tanzânia; Moçambique, Zimbábue, Namíbia; Malawi; Angola. Tem como capital Lusaka.

A exemplo de outros, também Zâmbia é um país privilegiado pelas belezas naturais, destacando-se suas famosas cachoeiras e seus lagos, sua rica fauna. São bem cobiçados seus safáris. Quem quiser ter algumas imagens fascinantes, pode acessar o seguinte site: zambiatourism.com

Do ponto de vista econômico, conta com importantes recursos minerais, como sobre, o cobalto, urânio, ouro e prata. A presença humana na região situa-se entre um e dois milhões de anos. Que riqueza! Mas suas tribos tiveram que amargar a triste história do colonialismo e da escravidão. Sobretudo por parte dos ingleses. Não é por acaso que o inglês é língua oficial, embora no interior das várias tribos, o que se fala mesmo é a língua de cada, é a língua própria de cada uma delas.

Ao visitar diferentes periódicos virtuais de países africanos, chamam a atenção do leitor, da leitora tanto a frequência como a virulência dos artigos - principalmente os elaborados pelas feministas africanas - dentre elas, as pesquisadoras Amanda Alexander e Mandisa Mbali - denunciando os novos métodos de dominação contra os povos africanos, utilizados pelas grandes potências e seus organismos multilaterais (FMI, Banco Mundial), com a cumplicidade dos governantes e para fortalecimento dos interesses das multinacionais. Entendem que se trata de mecanismos refinados cuja eficácia de pilhagem pode ser comparada à da época da escravidão.

Têm razão as feministas africanas. Nesses países, a concentração de riquezas e de renda se faz pari passu ao crescente empobrecimento e marginalização de amplas camadas das respectivas populações. No caso específico de Zâmbia, cuja capital (Lusaka) sediou, em 2004, a realização da África Social Fórum, 20% da população tem a infecção de HIV. Ao constatarem os índices escandalosos da exploração, naqueles países, não economizam palavras para denunciar a hipocrisia dos arautos do Neoliberalismo, em sua astúcia de tentar mascarar os mecanismos de dominação, inclusive substituindo expressões antigas por novas, sem qualquer alteração do conteúdo das relações. A não ser para pior…

Como “tudo está ligado a tudo”, tal como nos ensina a Dialética, ao ler esses contundentes artigos relativo ao Fórum Social Africano, senti-me espontaneamente remetido ao caso do Brasil e da América Latina e Caribe. Fiquei pensando na crueldade que continua a ser praticada contra o Haiti e seu povo. E, deste vez, com a direta colaboração do Governo brasileiro. Tudo em nome da paz… Será que alguém honesto e com o mínimo de senso crítico vai concordar com as razões oficiais da presença militar de tropas brasileiras no Haiti como gesto humanitário? Acredite quem quiser…

Aos eventuais interessados, sugiro que visitem o site http://www.cadtm.org/imprimer.php3?id_article=1037

Valho-me da ocasião do mês de março, quando comemoramos, no dia 8, as lutas e as conquistas das mulheres do mundo inteiro, para saudar todas as mulheres que protagonizam, hoje também, a utopia de um mundo alternativo, de justiça, de paz, de solidariedade.


João Pessoa, março de 2006


quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Traços da Mãe África: Em busca de nossas raízes XIV

 Traços da Mãe África: Em busca de nossas raízes XIV


Alder Júlio Ferreira Calado



Aqui tratamos de retomar algo que iniciamos no número anterior de ABIBIMAN, acerca de SAMIR AMIN, este filho da Mãe África que tem honrado a condição humana, com sua relevante contribuição de economista, historiador e escritor a serviço da causa libertária dos oprimidos, nos quatro cantos do mundo. 


Nascido no Egito, há 74 anos, a trajetória de AMIN tem se revelado de uma densidade notável, pela qualidade de sua militância e pela sua contribuição de pensador. Além dos livros já destacados anteriormente, traduzidos aliás para vários idiomas, passamos a sublinhar outros textos seus, produzidos nessas últimas décadas. Os títulos quase sempre aparecem em Inglês e em Francês. Eis uma lista dos principais.


- O Império do Caos (L Empire du chaos. Paris: Ed. L'Harmattan, 1991);

- Imperialismo e Subdesenvolvimento na África (Impérialsme et sous-développement en Afrique. Paris: Anthropos, 1988);

- O Capitalismo na era da Globalização (Capitalism in the age of Globalization. St. Martin's Press, 1986);

- O fracasso do Desenvolvimento na África e no Terceiro Mundo: uma anáfise política (La failite du développment en Afrique et dans le tiers monde: une analyse, Paris: L'Harmattan, 1989);

- Por um Mundo Multipolar (Towards a polycentric World. St. Martin's Press, 1990);

- Economia e Sociedade no Benin (Économie et société au Bénin Paris: L Harmattan, 2000);

- O Senegal às portas do Terceiro Milênio (Le Sénégal à la veille du troisiême milênaire. Paris: L'Hermattan, 2000);

- Após Seattle: por uma construção cidadã do mundo (Aprés Seattle: pour une consIruction citoyenne du monde.Paris: Sylepse, 2001;

- Crítica do Capitalismo (Critique du Capitalisme. Paris: PUF, 2002;

- A Globalização da Resistência (Mondialisation des résistences: état des luttes, Paris: L'Harmattan, 2002.

- África: a volta da exclusão programada (Afríque: |'exclusion Programmée en renaissance. París: Maisonneuve et Larose, 2005.


Uma rápida e incompleta lista dos principais textos recentes de AMIN, sem incluir uma enorme série de artigos seus, pode nos sugerir uma idéia de quais são suas principais teses, bem como de sua coerente evolução como intelectual orgânico das classes populares. Fato raro, nesses tempos de “Esqueçam o que escrevi...”


João Pessoa, dezembro de 2005.



terça-feira, 19 de setembro de 2023

Traços da Mãe África: Em busca de nossas raízes XIII

 Traços da Mãe África: Em busca de nossas raízes XIII


Alder Júlio Ferreira Calado


Quanto mais buscamos mergulhar no universo africano, tanto mais nos impactam as descobertas, que não cessam de nos surpreender. Não deveria ser assim, não fosse a longa distância que, desde o pacto colonial, se tem cultivado entre nós. Alegra-nos, a propósito, saber que as novas gerações terão menos dificuldade, a julgar pela recente conquista de espaço curricular nas escolas brasileiras, acerca do universo africano. A publicação do roteiro temático, publicado no número anterior, há de ser um promissor atestado do que estamos afirmando.

De fato, sob os mais diferentes prismas, a Mãe-África se mostra um precioso tesouro escondido. Aqui, vamos destacar mais um ponto desse vasto e complexo universo: a contribuição dos intelectuais africanos - mulheres e homens -, na área das ciências sociais. Tomemos, desta vez, o caso de SAMIR AMIN, cuja densa obra é conhecida nos mais distintos continentes. 

Nascido no Egito, em 1931, já nos anos 50, Samir Amin começava a revelar-se um intelectual respeitado. Tem passagem relevante pelo Mali, pelo Senegal, pela Europa e outras partes do mundo. Dentre sua vasta obras, destacam-se, entre outros textos: La acumulación a escala mundial (1970), El desarrollo desigual (1973), La nación árabe (1976) y La desconexión (1986).

Ainda recentemente, em 2000, por ocasião da realização do Seminário organizado em função das comemorações dos 80 anos do economista Celso Furtado, e dos 40 anos da fundação da SUDENE, esteve em Recife, Samir Amin, juntamente com outros expositores internacionais e nacionais (além do próprio Celso Furtado, Ignacy Sachs, Francisco de Oliveira, Cristovam Buarque…). Em sua exposição, Samir Amin fez um balanço da economia política característica so século XX. De forma bastante fundamentada, passou em revista os principais desafios dos países periféricos em relação à sua emancipação social das forças do Capitalismo.

Como outros bons intelectuais, fiéis aos interesses das classes populares, Samir Amin continua a apostar na união e na organização das forças populares, em âmbito internacional. Não é por acaso, que sempre tem trabalhado como uma equipe de pesquisadores africanos, asiáticos e latino-americanos. Voltaremos a dizer algo mais sobre Samir Amin.


João Pessoa, novembro de 2005


domingo, 17 de setembro de 2023

“Uma Filosofia da Literatura", de Marcelo Bezerra Oliveira

                                            Uma Filosofia da Literatura*


Filosofia da Literatura em uma perspectiva heurística: notas acerca do livro “Uma Filosofia da Literatura", de Marcelo Bezerra Oliveira           

                                                  Alder Júlio Ferreira Calado


Todo convite ao filosofar é bem-vindo, especialmente quando bem fundamentado do ponto de vista teórico metodológico. Marca genuína do autor tem sido o da problematização heurística. Enquanto trabalho sistemático de maior fôlego, este aparece como um dos portadores de notável pioneirismo, no espectro literário brasileiro.

Um dos seus pontos altos é o critério pertinente da seleção dos autores e autoras – alvo. Assim como Gramsci, o autor sustenta o direito universal ao filosofar. Esta obra se destaca tanto pela sua qualidade criativa, quanto pela amplitude temática desenvolvida


Tal é o apreço do autor pelo filosofar, que dedica em torno de 15 páginas do livro a refletir sobre os óbices múltiplos que, no Brasil, ainda persistem, dificultando e limitando o exercício do filosofar. Começa a destacar os obstáculos que a própria estrutura acadêmica dominante impõe a este exercício, seja pela imposição de uma política de produção filosófica artificial, embasada em uma estéril concorrência, um produtivismo mecanicista, seja por propagar um ensino dicotomizado em “ disciplinas” estanques.

Ao ressaltar os principais limites ao pensamento filosófico, faz questão de insistir nas condições indispensáveis ao exercício crítico sem liberdade, os humanos não alcançam o exercício do filosofar , a medida que não se sentem sujeitos cognoscentes, pois estão submetidos a contextos impositivos que lhes tolhem a capacidade crítica e autônoma, ao mesmo tempo em que não ousam o exercício do livre pensar, limitando-se a produzir textos de interesse alheio, descontextualizados de sua realidade. Neste sentido, tornam-se presas fáceis de uma produção filosófica eurocêntrica. 


Perguntando-se e refletindo acerca das possibilidades de uma filosofia da literatura, o autor, iniciando pelo sentido do filosofar, cuida de argumentar em torno do vasto campo cognitivo enfrentado pelo filosofar. Situada no mundo da Cultura entendida como mundo ou realidade, ele vai mostrando a complexidade e a vastidão do campo da filosofia, implicando toda uma diversidade de relações – econômicas, políticas, culturais, artísticas, religiosas, sócio- ambientais e outras sobre as quais incidem perguntas e possibilidades do filosofar.

No caso específico do livro, trata-se de se debruçar sobre as múltiplas relações oferecidas pela Arte ou pelas Artes , em cujo campo cognitivo se situa a Literatura. Sendo a transversalidade uma dimensão fundamental do saber filosófico, ele também se pergunta pelas relações cognitivas de caráter estético, entendendo deste mesmo campo fazer parte a Literatura.

Quanto à Literatura ou às Literaturas, o autor explicita o que é próprio desta Arte, exemplificando com os romances, os contos, as crônicas e outras manifestações do gênero de que vai se ocupar, especialmente no que concerne  à Literatura Brasileira, por meio da qual ele trata de refletir as diversas possibilidades cognitivas oferecidas pela Literatura, cujos autores nos trazem os mais diversos olhares sobre o mundo, sobre a natureza, sobre os humanos, em breve, sobre a vida. 

O capítulo 5º em que o autor explicita as referências teóricas em que bebe, em vista de sua incursão pelo filosofar estético, constitui um dos pontos altos o seu exercício, à medida que descortina ângulos novos  da análise e da fruição estético-literária. Ao recorrer ao baú estético marxiano/ marxista, o autor logra percorrer fontes mais límpidas do filosofar estético, por diversas razões. Compreende a obra de arte como expressão de múltiplas mediações. Diferentemente de uma concepção positivista que enxerga um quadro, por exemplo, como mero produto do seu autor, nele identifica uma multiplicidade de fatores: não se trata de mero reflexo do pintor, mas expressa tanto a autoria do pintor como as relações histórico-contextuais incidentes no próprio autor.

Ao revisitar, a partir de Marx ( especialmente, os “ Manuscritos Econômico- Filosóficos “ ,de 1844, e sua  “Ideologia alemã”, escrita em co-autoria com Engels), e toda uma plêiade de filósofos marxistas, inclusive  Trotskt, Lukács e Gramsci, sem esquecer a fecunda contribuição de Adolfo Sanchez- Vasquez, o autor descortina, com grande potencial heurístico, facetas surpreendentes do filosofar estético, com incidência direta também na Literatura.

No caso de sua revisitação a Trotsky e Lukács, vai destacar o exame percuciente  de suas categorias analíticas voltadas à Arte em geral, e à Literatura em particular, de modo a ressaltar, com brilhantismo, o caráter inovador de sua contribuição, à medida que conseguem superar as concepções até então dominantes de Arte e Literatura, ao perceberem a complexidade de mundivisões  nelas constantes. A grande contribuição marxista, no que concerne à reflexão antropo-filosófica do campo estético, reside em sua capacidade criativa e problematizadora, de modo a trazerem à tona as contradições e o caráter ambíguo da produção estética.  


Sempre teoricamente bem embasado nas dinâmicas relações Filosofia- História – Literatura, o autor, ao enfrentar a questão de gêneros literários, começa por apresentar (duas ou mais) concepções de Romance, passando, em seguida, a historicizar e caracterizar cada um desses gêneros. De fato, o surgimento do Romance, embora tendo raízes medievais, se realiza , na modernidade, como expressão do desenvolvimento  das relações industriais capitalistas , sobretudo a partir do século XVIII. Neste período, os textos literários compreendidos como Romance expressavam as marcas do ideário de uma sociedade marcada pelas contradições e ambiguidades que seus autores transpareciam em seus escritos, inspirados em narrativas exóticas, a revelarem situações e comportamentos normóticos, prisioneiros  da ideologia dominante.

Em contraposição a este formato de Romance, emergem figuras de romancistas dotadas de grande inventividade, a intuírem e a exercitarem um novo modo de fazer Romance, desta vez com enorme liberdade de criação, em razão do que preferem expressar sua rebeldia por meio de narradores dispostos a revelar sua própria trajetória, livres de amarras pré-determinadas. Desta segunda concepção de Romance fazem parte autores como Dostoievski, Balzac e, sobretudo, Walter Benjamin, a demonstrar a inventividade da corrente literária marxista, interpretando-os como profundos humanistas, isto é, conhecedores perspicazes da condição humana, seja nas atitudes éticas mais elevadas, seja nas piores misérias, de modo a nos fazerem lembrar o conhecido pensamento de Terêncio, poeta latino: “Homosum et nihil  humani a ne alienum puto” ( “sou um ser humano e nada do que é humano me causa estranheza”).                    


Páginas antológicas, escreve o autor, ao incursionar pela literatura produzida por autores com Albert Camus e João Paul Sartre, um filosofar profundamente marcado pelo que-fazer literário, a partir de um horizonte existencialista. Cada um ao seu modo, ambos apresentam uma reflexão literária problematizadora do existir. Neles, a condição humana é tematizada com profundidade  e amplitude. Neles, a existência é tematizada, em suas mais recônditas manifestações, desde o cotidiano como palco de experiências e aprendizados, em que se mesclam afetos, sentimentos, absurdidades, revolta, negação, esforço de superação. Seja no caso de Camus, em vários de seus livros, inclusive, “ O Homem Revoltado”, seja no caso de Sartre, em diversas de suas obras literárias e mais explicitamente filosóficas, a exemplo de “A Crítica da Razão Dialética” , cujo prefácio ( “questão de método”) acabou tornando-se igualmente famoso pela sua acuidade crítica.

À semelhança do que faz em relação a Camus e a Sartre, recolhendo o melhor da contribuição existencialista para a produção literária , o autor também aponta a contribuição de filósofos franceses tais como Deleuze e Derrida .

Após uma sólida fundamentação - com profundidade  e amplitude - do que-fazer literário , em geral, Marcelo Bezerra Oliveira passa a fazer uma detida incursão filosófica pela literatura brasileira, a começar pela influência barroca presente em nossos primeiros escritores, observando que se tratou de um período relativamente longo ( em torno de dois séculos) de nossa literatura e nomeando uma lista considerável de seus representantes. O autor ainda ressalta os principais traços do barroco, nomeadamente sua tendência ao uso de metáforas e linguagem hermética.

Após contextualizar, de forma minuciosa  e erudita, como lhe é de praxe, as origens e as características antropo-filosóficos das correntes Naturalismo/ Realismo, o autor relata e analisa , com acuidade, as marcas e as afinidades dessas Correntes de nossa Literatura. Faz questão de realçar suas ambiguidades e numerosas nuanças, de modo a prevenir a leitoras e leitores desavisados da complexidade destas formas literárias e seus respectivos autores. Dentre seus principais representantes, enfatiza figuras como a de Manuel Antônio de Almeida e, com mais ênfase, Machado de Assis.


Prosseguindo em sua refinada leitura filosófica de nossa Literatura, Marcelo Bezerra Oliveira cuida de ressaltar as mais destacadas figuras do Naturalismo / Realismo, tais como Domingos Olímpio ( Luzia-Homem ), integrante da conhecida Escola de  Recife, ( da qual também fizeram parte castro Alves e Tobias Barreto, entre outros), Manuel Oliveira Paiva ( Guidinha do Poço ), Manuel Antônio de Almeida ( Memórias de um Sargento de Milícias ), Aluízio de Azevedo ( O Cortiço ), chama atenção do leitor, da leitora a acuidade analítica do autor, ao ressaltar a relevância temática trabalhada por estes autores, ora enfatizando a dimensão homoafetiva presente nas temáticas desenvolvidas por Domingos Olímpio e Manuel Oliveira Paiva, ora trazendo à luz a  de classe social manifesta por Manuel Antônio de Almeida e Aluízio Azevedo, sempre demonstrando uma refinada  sensibilidade. 

Ainda nesta toada, o autor, ao revisitar Rodolfo Teófilo ( especialmente em sua obra A fome ) e Adolfo Caminha (notadamente em seu texto Bom Crioulo), ressalta traços semelhantes no tocante à dimensão da homossexualidade presente em suas personagens, ao mesmo tempo em que enfatiza seu potencial perceptivo das múltiplas relações (antropológicas, psicológicas, sociológicas, todas mediadas pelo pensar filosófico.

É- no entanto- e a justo título! a Machado de Assis que o autor dedica dezenas de páginas (em torno de 40). Com efeito, seja pela vastidão de seus escritos – poesia, romance, contos, crônicas...), seja sobretudo pela complexidade dos temas de sua preferência, é plenamente compreensível que o autor nele se tenha detido mais demoradamente de forma percuciente, pondo-se a analisar os escritos machadianos, de forma crítica e heurística, sempre atento a sua cosmovisão da condição humana, em suas contradições e ambiguidades, em suas luzes e sombras, destacando , ao mesmo tempo, seus intertextos e metatextos  perante  grandes escritores da literatura ocidental, a exemplo de B. Pascal, de Schopenhauer, entre tantos .

Digna de nota, em relação a sua análise sobre os escritos de Machado de Assis e de outros, é a capacidade que o autor exibe de identificar aspectos mais recônditos, extraindo valores de alto teor antropofilosófico, exercitando assim a excelência de sua “transcognitividade”, à medida que, qual tecelão de palavras, é capaz de revelar elementos quase invisíveis presentes na obra literária desses autores, ao exercitar uma costura erudita explorando as interfaces ora mais diretamente da Filosofia, ora da Crítica Literária, ora da Análise Sociológica, ora da Psicanálise, entre outros campos de saberes.

Isto sucede também no caso de Graça Aranha, outro personagem ilustre da Escola de Recife. O autor, uma vez mais, logra identificar elementos preciosos da obra de Graça Aranha, especialmente de seu “Canaã”, ao ressaltar a imensa sensibilidade  cósmica, deste ilustre maranhense,  em sua  contemplação da natureza, quase franciscana, ao mesmo tempo em que consegue trazer à tona sua acuidade na percepção das contradições e do drama social do contexto colonialista/ escravista  subjacente nas primeiras décadas do século XX ( e ainda hoje...).  


Ao imergir na densa obra de Euclides da Cunha, destacando especialmente a refinada expressão estética/ ética de os sertões, o autor consegue reunir elementos mais expressivos  do legado desta figura. Embasado em análises de reconhecidos críticos literários, historiadores da Literatura Brasileira e outros pensadores, Marcelo Bezerra Oliveira traz à tona os mais diversos traços da obra Euclidiana. Enfatiza sua múltipla formação intelectual – de engenheiro, de poeta, de cientista, exercitando diversos saberes ( da Geografia à Antropologia; da História a Zoobotânica; da Solidez Linguística e de Estilo Literário à Sociologia; da Antropogeografia ao Positivismo (comteano/ spenceriano...), o autor descortina um vasto leque de traços euclidianos, partindo de sua refinada qualidade de observador, destacando suas múltiplas e contraditórias formas de analisar, correspondendo também as múltiplas fontes em que bebeu, para relatar , em três grandes partes ( A Terra, O Homem e A Luta), sempre de forma profundamente poética, o genocídio contra a comunidade de Canudos, cometida pelo Exército Brasileiro. Cumpre, em breve, anotar que, tomando certa distância de avaliações unilaterais sobre o autor, Marcelo B. Oliveira, sempre bem fundamentado, tem o cuidado de exaltar as grandes qualidades de Euclides, sem ignorar-lhe os limites positivistas. 

 

Com reconhecida argúcia interpretativa, Marcelo B. Oliveira  se aventura, qual Teseu a enfrentar o Minotauro no labirinto de  Knossos, munido do fio do novelo de Ariadne, a percorrer o labirinto de Grande Sertões: Veredas, obra- prima de João Guimarães Rosas. Com mérito, o autor, sempre priorizando os traços filosóficos de sua leitura, exercita uma admirável transcognitividade no ato de ler, razão pela qual consegue haurir o fundamental da trama genialmente tecida por João Guimarães Rosas. Com efeito, a notória complexidade do texto roseano desafia leitores e leitoras a todo tempo, sob múltiplos aspectos, pois em Grandes Sertão Veredas, encontramos um emaranhado de neologismos, em busca de decifrar o enigma humano. Nele, encontramos: alegorias, mitopoéticas, sabedoria experiencial, aporias, aforismos, paradoxos , ambiguidades, eloquentes silêncios  e outros mais, todos exercitados à procura do sentido da vida, do ser humano, das veredas do Grande Sertão, nelas fazendo sobressair o mistério, o inacabamento, o ser não sendo e o não sendo como expressão do ser.

Convincente, portanto, a forma como o autor sintetiza sua leitura de Grande Sertão Veredas, ao afirmar: “razão mítica, razão passiva ou destino, razão dualista e memória subjetiva do passado-passado presentificado”.

No que toca à rica e envolvente produção literária de Lima Barreto, Marcelo B. Oliveira, sem perder a qualidade de seu talento interpretativo, faz uma brilhante imersão pelo complexo universo artístico-literário de Lima Barreto. Tendo presentes os condicionamentos histórico-culturais do mundo de então, o autor passa a perscrutar as tramas psicossociais de Lima Barreto e de suas múltiplas personagens, em muitas das quais ele se inspira como em uma narrativa auto-biográfica. Como sempre lembra o autor, seu interesse central, antes de uma análise literária ou de uma história da literatura brasileira, centra-se na perspectiva antropofilosófica apresentada por Lima Barreto, fazendo-lhe justiça, ao reconhecer sua genialidade artístico-literária, impregnada de expressões de protesto contra as injustiças sociais, os preconceitos classistas e raciais, descritos de forma impactante, refletindo nas personagens vítimas dessas injustiças, sua própria trajetória existencial, fazendo aí presente a “razão rebeliativa” de que fala Marcelo B. Oliveira.


Dando sequência a sua leitura antropofilosófica de nossa literatura, o autor traz à  tona o “dramance”da terra e da gente nordestinas, mergulhando em seu universo ora mítico-religioso, ora fatalista, ora de tom denunciativo (frequentemente sem perspectiva anunciadora), de modo que o conjunto de personagens desta rede de “dramance” aparecem como destituídas dos meios necessários ao seu processo de humanização. Nesta perspectiva, segue o autor a perfilar diferentes autores, especialmente do “dramance nordestino”, tais como José Américo de Almeida ( A Bagaceira), Raquel de Queiroz  ( O Quinze, João Miguel, Caminho de Pedras), Amando  Fontes (“Corumbas”), Graciliano Ramos (, Angústia, São Bernado e Vidas Secas), José Lins do Rego (  Menino de Engenho, Doidinho ),Jorge Amado em sua vasta obra,  Gilberto Freire ( Casa Grande e Senzala)  , Francisco Julião, entre outros. Importa assinalar que o autor também contempla, com  seu olhar filosófico autores do “dramance” regionalista fora do nordeste, a exemplo de Mário de Andrade.

          No caso específico Amando Fontes e de Guimarães Rosa, Marcelo Bezerra  Oliveira  logra uma incursão antropofilosófica de grande alcance interpretativo, à medida que identifica e analisa traços biopsicossociais da personalidade de seus personagens, interpretando-os como manifestações ora de uma angústia existencial, ora mergulhados em um sentimento de absurdo diante de suas condições histórico-culturais e sociológicas, finalizando os piores traços do modo de produção capitalista, seja no âmbito rural, seja no ambiente urbano, sempre a denunciar o processo de desumanização ao qual aqueles personagens estavam submetidos. 


Nestor Duarte , Francisco Julião, Jorge Amado, José Lins do Rego e outros também constituem  alvo de exame filosófico por parte do autor. No caso de Nestor Duarte, ele destaca, para fins de análise antropofilosófica, seu “Gado humano”, enquanto de Francisco Julião toma como objeto de estudo seu “ Irmão juazeiro”. Quanto a jorge Amado, o autor elege como objeto de sua reflexão : Capitães de Areia, Cacau e Seara Vermelha, enquanto de José Lins do Rego, ele destaca  Menino de Engenho. Nestes e nos demais, Marcelo Bezerra Oliveira realça uma característica comum: a subjetividade coletiva presente na obra literária desses autores. Neles, prevalece uma narrativa “em seus dramances”, de uma tendência a captarem a forma como seus personagens se põem diante dos desafios enfrentados pela gente nordestina, de modo a trazerem presentes elementos literários que apontam a conflitividade das relações sociais hegemônicas em uma sociedade marcada por uma estrutura social profundamente piramidal, na qual os trabalhadores do campo e da cidade são tratados como gado ou mão de obra semi escrava, em que prepondera a força dos latifundiários e de um patronado violento, herdeiro da Casa Grande.


Atendo-se mais diretamente a elementos filosóficos presentes nas principais obras de José Lins do Rego (“ Menino de Engenho”, “Doidinho” , “Fogo Morto“), o autor, fundamentado em sua razão dialética,  como de hábito, empenha-se em trazer à tona crenças, valores dominantes nos diversos personagens dessas obras, de modo a realçar o que de comum nelas encontra: sentimento de impotência ante o fatalismo, o determinismo do destino, levando as personagens ao conformismo, à aceitação passiva da dor, do sofrimento, da angústia, da falta de sentido da vida. Em seu olhar antropofilosófico, o autor não deixa de expressar, como gesto solidário, seu lamento pelas condições opressivas de uma sociedade escravagista, que não permitia aos personagens uma atitude rebeliativa diante daquela estrutura.

Osvaldo de Andrade merece um capítulo à parte na obra de Marcelo Bezerra Oliveira e a justo título! Com efeito, aquele autor que se destaca desde sua reconhecida participação na semana de arte moderna de 1922, em sua antropofagia cultural, inova com relação à tendência dominante, pelo menos em parte dos escritos literários da época, diante da tendência de reprodução de valores eurocêntricos, em vez de se inspirarem com autonomia, nos valores de nossa gente.

Já havendo contemplado, em seu olhar filosófico, o protagonismo feminino de Raquel de Queiroz, eis que Marcelo Bezerra Oliveira nos brinda, em sua incursão antropofilosófica, com a prosa-poética de Clarice Lispector, da qual  analisa as principais obras, de modo a ressaltar a singularidade estética desta autora que ora se aproxima de uma cosmovisão existencialista, ora surpreende com personagens e situações particularmente clariceanas, de difícil enquadramento classificatório. Clarice Lispector, em sua vasta produção estético-literária, expressa as contradições e os traços mais recônditos da condição humana, em um misto de imanência – transcendência , de silenciamento - eloquência  de glória e de miséria do tudo e do nada da condição humana.


Reiteramos a sólida fundamentação teórico- conceitual a que recorre o autor, em sua incursão analítica da Literatura Brasileira. De fato, graças ao persistente recurso inter / transdisciplinar, ora fazendo apelo à filosofia, ora à Antropologia , ora à História, ora à Sociologia, ora à Ciência Política de inspiração marxiana/ marxista, ora à Crítica Literária, ora à Psicanálise, ora à Razão Mítico- Religiosa, Marcelo Bezerra Oliveira  se mostra amplamente municiado a percorrer o labirinto de situações-limite que circundam as inúmeras personagens de vários gêneros literários que analisa com acuidade. É por conta desta rede teórico -conceitual, que o autor consegue desvendar ou suspeitar a presença de situações-limite existenciais apenas insinuadas ou levemente enunciadas. Situações-limite  que aparecem nos relatos especialmente de romances de numerosos autores e autoras da Literatura Brasileira, acerca de uma grande diversidade temática, especialmente no que se refere à homoafetividade  e à situação paradoxal razão- loucura . Vale assinalar o reconhecimento explicitado pelo autor com relação aos avanços científicos e a conscientização da sociedade mais recentes sobre situações-limite hoje relatadas, inclusive no âmbito da Literatura.              

 

Primoroso é o capítulo que o autor dedica à análise filosófica da fome, tema amplamente presente em tantos autores e autoras de nossa Literatura Brasileira. Percorrendo seus principais romances e personagens, Marcelo B. Oliveira desvela, com acuidade, uma variedade de situações-limite a envolverem uma multiplicidade de personagens, para exercitar uma refinada crítica filosófica sobre o fenômeno da fome, em sua dimensão sociológica, recorrendo como referência interpretativa filósofos de amplo reconhecimento, especialmente inspirando-se em karl Marx. A partir deste sólido referencial teórico, o autor nos brinda com uma reflexão repleta de argumentos convincentes. Para tanto, não exita em ilustrar com passagens tocantes o sentir, o pensar e o agir de figuras de destaque de nossa Literatura, inclusive fazendo questão de citar Carolina Maria de Jesus, em seu depoimento impactante sobre o sentido da fome.

Sobre Castro Alves, o autor nos oferece uma apreciação de profundo alcance filosófico, ao enfatizar relevantes  valores da poética de Castro Alves, do qual destaca, além de uma rara sensibilidade dos mais altos valores humanos também seu compromisso político com a libertação dos africanos escravizados. Sempre combinando denúncia -anúncio e participação nas manifestações contra a escravidão.    

Impacta-nos  sobremaneira a profundidade filosófica com que o autor imerge no universo poético de Cecília Meireles- sobre quem dedica cerca  de vinte e cinco páginas -, haurindo preciosos elementos que  torna matéria-prima de sua análise filosófica. É facilmente perceptível o encanto com que Marcelo B. Oliveira saboreia cada elemento estético presente na vastíssima obra de Cecília Meireles, atendo-se mais detidamente a seu “Romanceiro da Inconfidência”, sem negligenciar outros escritos seus. Em sua incursão analítica, destaca a Liberdade como a força motriz dos escritos cecilianos, razão por que ressalta seu horizonte filosófico-existencial.

Ao identificar e analisar as principais palavras geradoras de seu universo vocabular, o autor não exita em avaliar sua obra, situando-a /comparando-a com os  mais reverenciados escritores, a exemplo de Castro Alves, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Clarice Lispector, Mário de Andrade, entre outros .


O penúltimo capítulo do livro propõe-se a avaliar criticamente as produções literárias do atual contexto brasileiro. O autor se mostra convencido da tendência hegemônica da atualidade literária, fortemente impactada pela ideologia da pós modernidade, influenciada pelos valores do Mercado capitalista impulsionadas pelos ventos liberais, as produções literárias da atualidade, salvo exceções, se acham impregnadas de excentricidade, da ideologia da auto-ajuda e valores semelhantes, a contrastarem com a profundidade das produções literárias de autores e autoras que o autor analisa detidamente.

Neste sentido, Marcelo B. Oliveira faz questão de ressaltar os valores estético-literários presentes, também e principalmente, em diversas autoras de nossa produção literária, tais como Maria Firmina dos Reis, Clarice Lispector, Cecilia Meireles, Conceição Tavares, Carolina Maria de Jesus, entre outras, sempre acentuando a relevância da cotidianidade como fonte principal de sua literatura sentinte.

Em suas notas inconclusivas (“ Inconclusões”), Marcelo B. Oliveira  ressalta o lugar da complexidade dos valores que inspiram a produção literária brasileira. Com efeito, o exercício do filosofar enfrenta múltiplas situações-limite vivenciadas por dezenas, centenas de personagens que protagonizam nossos romances, nossos contos, nossas crônicas e nossa Poesia, de modo a mostrar a necessidade de um profundo mergulho por nessas águas literárias, como condição necessária ao filósofo, à filósofa, para uma percepção aguda a ser exercitada no observar, no ver, no sentir, no apreender os elementos mais recônditos que tecem a trama das experiências existenciais de autores, de autoras e respectivas personagens, de suas produções estético-literárias.

Sem negar a pluralidade de fontes em que bebe o autor, em suas incursões antropo-filosóficas, não se pode negar a influência dominante de seu olhar histórico-dialético como procedimento mais forte de sua percepção. 

Estamos diante de uma obra rara, com traços de pioneirismo, na leitura filosófica de textos literários produzidos no Brasil e alhures.


*Em razão da avançada deficiência visual do autor deste texto, coube a Águeda Ferreira Calado, minha irmã, uma tríplice tarefa: a de ler para mim, por telefone, a íntegra do livro; a digitação, após cada capítulo, dos comentários que eu lhe ditava; a revisão do texto. Eis por que lhe expresso, de público, meu reconhecimento e minha gratidão.



                               João pessoa, 17 de setembro de 2023