quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Tributo à ação pioneira e de parceria dos Teólogos Protestantes da Libertação: apontamentos sobre a Conferência do Nordeste, Recife, 1962.

 Tributo à ação pioneira e de parceria dos Teólogos Protestantes da Libertação: apontamentos sobre a Conferência do Nordeste, Recife, 1962.* 


Alder Júlio Ferreira Calado


“Vocês estão fazendo um piquenique em cima de um vulcão” (Observação feita a um dos participantes por alguém presente no evento)


Mesmo a quem se empenha em acompanhar a trajetória e o engajamento social dos cristãos, na América Latina e no Brasil, resulta deveras impactante rememorar o acontecimento conhecido como “Conferência do Nordeste”, que teve lugar em Recife, de 22 a 29 de julho de 1962. Trata-se de um evento promovido por um conjunto de denominações protestantes históricas (mais de uma dúzia: Igreja Presbiteriana, Igreja Metodista, Igreja Luterana, Igreja Anglicana, Igreja Batista, entre outras), que já vinham ensaiando uma compreensão crítico-transformadora do que se passava no Brasil, em meados dos anos 50. Graças ao empenho profético de lideranças protestantes, a exemplo de figuras tais como Richard Shaull, João Dias de Araújo, Joaquim Beato, Waldo César, Almir dos Santos, entre outros, o movimento Evangélico vinha se mostrando, desde os anos 50, como grande protagonista das lutas populares por Justiça social, no Brasil e na América Latina.


Em virtude desse protagonismo, diversas denominações protestantes, especialmente por meio do seu “Setor de responsabilidade social”, decidiu organizar grandes reuniões periódicas, com objetivo de compreender melhor o que se passava na sociedade brasileira, em busca das transformações necessárias. Em consequência houveram por bem, já em 1955, organizar, em São Paulo, uma primeira reunião de estudos, com a participação de cerca de uma dezena de denominações protestantes. Em 1957, nova reunião de estudos foi convocada, em busca de aprofundar sua compreensão e seu engajamento social. A terceira reunião de estudos ocorreu em 1960, prosseguindo seu esforço de compreensão dos dramas nacionais. A culminância, porém, se deu em 1962, com a realização, em Recife, da “conferência do Nordeste”, da qual participaram mais de 160 pessoas, não apenas lideranças do Protestantismo brasileiro, mas também diversas figuras de intelectuais brasileiros de reconhecida contribuição teórica ao pensamento nacional.

As linhas que seguem, tem o propósito de rememorar traços relevantes deste acontecimento, com o intuito de ressaltar sua densidade histórica, não apenas em relação ao Cristianismo no Brasil, mas também como um relevante marco das ações coletivas da segunda metade do século passado. Começamos por uma breve contextualização sócio-histórica da época, seguida de considerações em torno do Protestantismo no Brasil, naquela oportunidade. Tratamos, em seguida, de sublinhar aspectos temáticos inovadores, destacados em diversas conferências então pronunciadas por autores de destaque, tanto na área do protestantismo quanto na área da intelectualidade brasileira. Fazemos questão de ressaltar sensíveis diferenças, no seio do Protestantismo entre as ações daquela época e as que hoje são protagonizadas pela quase totalidade destas mesmas igrejas, fortemente atraídas pela onda neopentecostal de direita que assola o mundo, o continente e o Brasil.


Que cenário encontramos entre os anos 50 e 60?


Vivíamos os primeiros anos do pós-Guerra, do qual resultaram duas forças hegemônicas e em conflito: por um lado, o bloco capitalista liderado pelos Estados Unidos, ao qual se ligam os países do Ocidente, e, por outro lado, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em defesa do Socialismo. Instalou-se o tempo mais conhecido como “Guerra Fria”. Na América Latina e no Caribe, contra as profundas e crescentes desigualdades sociais, das quais resultam condições sub-humanas, irrompem numerosos conflitos sociais como expressão das lutas populares por libertação. É assim que, ao longo dos anos 50, teve lugar em Cuba um processo revolucionário, culminando com a derrota de Fulgêncio Batista, ditador apoiado pelos Estados Unidos. Em consequência das medidas tomadas pelo governo revolucionário de Cuba (entre elas, a Reforma Agrária), o Governo dos Estados Unidos não tarda em perseguir a Revolução Cubana cujo Governo se socorre da União Soviética, episódio presente na instalação em Cuba de mísseis soviéticos, em defesa e como prevenção às ameaças dos Estados Unidos, esquentando assim a “Guerra Fria”. 


Especificamente com relação ao Brasil, vivíamos igualmente um período de grande ebulição social e política. Graças à secular opressão que o sistema colonialista/capitalista havia implantado no Brasil, milhares de trabalhadores e trabalhadoras, do campo e da cidade, com importante apoio e participação de estudantes e intelectuais de esquerda, mostravam-se mobilizados e em luta pelas chamadas ‘’Reformas de Base” (Reforma Agrária, Reforma Urbana, Reforma bancária, Reforma da Educação, entre outras), contando também com o apoio do Governo João Goulart. Estas forças sociais pela sua pauta de reivindicações suscitaram crescentes reações das forças então dominantes (latifundiários, banqueiros, grandes empresas, todas contando com o apoio da Igreja Católica e dos Estados Unidos). As forças dominantes, lideradas pelo Governo dos Estados Unidos, temiam que o Brasil viesse a transformar-se em uma nova Cuba, razão por que o Governo dos Estados Unidos tratou de propor ações e medidas assistencialistas, com o objetivo de deter o avanço das forças populares. 


As Ligas Camponesas surgidas no engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão-PE, sob a liderança de figuras como  Francisco Julião, Zezé da Galileia, João Targino em meados dos anos 50, com reivindicações trabalhistas, conseguiram espalhar-se rapidamente pelo Nordeste, inclusive na Paraíba, em que se tornaram célebres lideranças da Liga de Sapé, figuras como a de João Pedro Teixeira, Elizabeth Teixeira (a quem homenageamos pelos seus 99 anos, completados ontem, 13 de fevereiro: “Mulher marcada para viver”) e outras. Eis por que fora escolhida a cidade de Recife, para sediar a quarta Conferência do Nordeste.


Antecedentes internos da Conferência do Nordeste


Em 2023, sob a organização de Edward Guimarães, Emerson Sbardelotti e Marcelo Barros, foi publicado pela Editora Recriar o livro (em 2 volumes)  “50 anos de Teologias da Libertação”, cujo segundo capítulo (volume.1, pp. 89-111) de autoria de Cláudio Oliveira Ribeiro e Paulo Agostinho N. Baptista, rememora e analisa as raízes ecumênicas da Teologia da Libertação, trazendo-nos preciosas informações sobre figuras do Protestantismo. Talvez por conta de sua ênfase na dimensão ecumênica, os autores se mostram bastante generosos em relação aos Teólogos e Teólogas católicos, ao se absterem de explicitar a precedência protestante dessas raízes.


Com efeito, enquanto a vertente católica dava os seus primeiros passos, em meados dos anos 60 (Comblin e Beozzo, por exemplo, fazem menção dos primeiros e sucessivos encontros realizados por Teólogos como Ivan Illich, Comblin, Gustavo Gutierrez, Segundo Galilea, Juan Luis Segundo, Ana Flora Anderson, Gilberto Gorgulho, entre outros, em Petrópolis, em Cuernavaca, Santiago, Montevidéu…), diversos Teólogos protestantes (Richard Shaull, Rubem Alves, Joaquim Beato, João Dias de Araújo, entre outros), alguns deles desde anos 50, já militam nesta seara, seja por iniciativa institucional em perspectiva ecumênica (Graças aos esforços envidados por diversas Igrejas Reformadas, integrantes, desde 1934, da Confederação Evangélica Brasileira, que também animou a União Cristã de estudantes do Brasil, estudantes que animaram, de modo progressista e de esquerda, lutas sociais da época).


Importa, porém, assinalar que tal protagonismo dos Protestantes na elaboração de uma Teologia da Libertação (expressão presente na tese de Rubem Alves, “Rumo a uma Teologia da Libertação”, tendo como Orientador a Richard Shaull em 1969), bem como no empenho hercúleo em exercitar o ecumenismo entre as diversas denominações (somente depois, também com os católicos), não se deu sem conflitos e oposição de algumas lideranças. Cumpre ainda lembrar que a ação pioneira e de parceria ecumênica de teólogos protestantes, iniciada desde os anos 50, prosseguiu e se acentuou com o trabalho conjunto com teólogos e teólogas católicos, parceria da qual a fundação do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) em 1979, constitui um exemplo emblemático, como o é também, em meados dos anos 80, a participação de teólogos protestantes na conhecida Coleção “Teologia e Libertação”, iniciativa desafiadora, de cujo Conselho de Assessoria era integrante o teólogo Júlio de Santa Ana. 


Retomando a rememoração de conflitos internos existentes entre a ala progressista e a ala conservadora dos componentes Coordenação da Confederação Evangélica Brasileira, o impasse foi contornado, por meio da decisão colegiada de distribuir diferentes tarefas entre seus membros, uma das quais - Setor de Responsabilidade Social - foi assumida por lideranças fortemente comprometidas com a causa libertadora dos empobrecidos. 


Foi graças ao Setor de Responsabilidade Social, que se tomou a decisão de promover reuniões de estudos, com o objetivo de se conhecer melhor a formação histórica e social do Brasil, razão pela qual, já em 1955, em São Paulo, se realizou a primeira de 4 reuniões de estudos (a segunda aconteceu em 1957, enquanto a terceira em 1960), culminando com a quarta dessas reuniões de estudos, desta vez de forma bastante ampliada, da qual participaram 167 delegados.


Um dos traços relevantes desses pioneiros da Teologia da Libertação - inclusive em âmbito latino-americano - foi o lugar privilegiado do recurso às Ciências Sociais como instrumento analítico-crítico da realidade social, inclusive, de inspiração marxista, condicionante das ações desenvolvidas pelas igrejas e seus membros. Tratava-se de uma iniciativa protagonizada por teólogos, quase todos protestantes de reconhecida competência teológica e social, tais como Richard Shaull, Julio de Santa Ana, Julio Barreiro, Hugo Assmann, Rubem Alves, entre outros. 


A este propósito, convém reportar-nos não apenas à contribuição específica de Richard, como também de vários outros teólogos, principalmente ligados à Igreja Presbiteriana, como também a diversas outras denominações. Quanto ao primeiro, nunca é demais destacar sua ação profética, desde a Colômbia nos anos 40, e no Brasil, desde a primeira metade dos anos 50, tendo ele se tornado mais conhecido com a publicação de seu livro “Cristianismo e Revolução". Em parceria com outros Teólogos latinos americanos (Luís Odell, Julio Barreiro, Júlio de Santa Ana, entre outros) e brasileiros (Rubens Alves e outros), algumas iniciativas formativas e editoriais mostraram-se preciosas. Uma delas, a fundação de um órgão - ISAL (Iglesia y Sociedad ) - uma delas teve um grande impacto organizativo, tanto do ponto de vista organizativo, quanto do ponto de vista da educação popular, à medida que estimulava a produção e circulação de estudos críticos sobre a realidade social latino-americana, como restou comprovado pelas revistas “Cristianismo y Sociedad”, “Tierra no Eva”, a que deve ser agregado o ingente empenho de Julio Barreiro na especial divulgação em língua Espanhola, dos livros de Paulo Freire.


Enquanto isto, sempre de forma articulada, importa registrar a fecundidade  dos esforços de teólogos brasileiros, como Rubem Alves, Joaquim Beato, João Dias de Araújo, entre outros, apoiados por diversas denominações, de fundarem um Seminário para acolher formandos das mais diversas denominações, demonstrando um zelo especial pela qualidade crítica da formação de suas futuras lideranças. A esta iniciativa, vão se somando outras, inclusive no plano da comunicação social, a exemplo do conhecido CEI (Centro de Evangelização e Informação), depois transformado CEDI (Centro Ecumênico de Documentação e Informações), dentre cujos protagonistas se achavam Jether Ramalho Pereira, Ruben Alves, Waldo Cézar, entre outros.       


           


Breve reflexão sobre a “Conferência do Nordeste”


A Conferência do Nordeste realizou-se em Recife, de 22 a 29 de julho de 1962, sediada no Colégio Agnes Erskine. Mais do que o Recife, o Nordeste era palco de crescente efervescência social e política. O Brasil vivia momentos de tensão: de um lado, o ascenso das lutas populares e sindicais, com o clamor dos trabalhadores pelas chamadas “Reformas de Base”; por outro lado, a reação crescente por parte de um conjunto de forças da classe dominante: os grandes proprietários de terra, os grandes empresários, amplos setores da Igreja Católica e das Igrejas Evangélicas, a reação dos militares em conluio com o governo dos Estados Unidos. Verdadeiro desafio a ser enfrentado pelos organizadores e pelos participantes desta Conferência do Nordeste. Não foi por acaso que, três meses antes deste evento, fora assassinado, em Sapé-PB, em 02 de Abril de 1962, João Pedro Texeira, principal líder da Liga Camponesa de Sapé.     


A semana contou com a colaboração de várias de suas lideranças. Ao sociólogo Waldo César coube a Secretaria executiva do evento, ele mesmo tendo registrado por escrito as exposições e os debates da semana, com a contribuição do Bispo Metodista Almir dos Santos. Feita a abertura da Conferência do Nordeste, no dia 22/07, já no dia 23, intervieram outras figuras-chave, a exemplo do reverendo Joaquim Beato e do reverendo João Dias de Araújo, além da Conferência proferida por Celso Furtado, então Superintendente da SUDENE, a quem coube refletir sobre “O Nordeste e o Processo Revolucionário brasileiro”. Do ponto de vista dos conferencistas protestantes coube ao Revdo Joaquim Beato refletir sobre o tema “Os Profetas em Épocas de Grandes Transformações Sociais e Políticas”, enquanto o Revdo João Dias de Araújo recebeu a incumbência de refletir sobre “A Revolução do Reino de Deus: Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro”.


E assim, ao longo dos outros dias, foram ouvidas diferentes figuras tanto do mundo protestante quanto representantes da sociedade civil, entre os quais, Gilberto Freyre, convém lembrar ainda, a participação de outros intelectuais, como Paul Singer, entre outros.

Enquanto isto, intensificava-se um ambiente socialmente explosivo, por todo o Brasil. Sentia-se um cheiro de Golpe no ar. No ano seguinte, os acontecimentos internacionais também contribuíam para aumentar as tensões internas. As Ligas Camponesas prosperavam e se expandiam por outras regiões do país. Os órgãos sindicais, em especial o CGP emitia sinais de mobilização, enquanto os estudantes se manifestavam mobilizados por todo o Brasil. Nos primeiros meses de 1964, as organizações reacionárias também intensificaram sua mobilização, inclusive por meio das igrejas cristãs reacionárias, manifestando-se principalmente na famigerada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, culminando com o Golpe de Estado em 1964.


Em consequência, observou-se uma sucessão de prisões, de torturas, de assassinatos, de banimentos e outros atos repressivos que alcançaram as principais lideranças políticas, de movimentos populares, sindicais, partidários e também lideranças de Igrejas, lideranças estudantis. Sobre muitas lideranças das Igrejas promotoras da “Conferência do Nordeste” se abateu forte repressão, alcançando inclusive figuras como Joaquim Beato, João Dias de Araújo, Júlio de Santa Ana, e mais tarde, ainda outros tais como, Zwinglio Mota Dias, Jaime Wright, Waldo César, Jether Pereira Ramalho, entre outros. 


Estes teólogos e outros mais jovens, inclusive teólogas, ainda durante a repressão, juntaram-se a teólogos e teólogas católicos, reforçando os protagonistas católicos da Teologia da Libertação, com os quais participaram de múltiplas iniciativas conjuntas.


Ensinamentos a recolher 

 

Essas breves notas têm o propósito de, ao rememorar fatos ainda pouco conhecidos, seja do lado católico, seja do lado protestante, de incentivar sobretudo jovens do meio popular, especialmente por meio da Educação Popular, a melhor compreenderem nossa realidade, de modo a se sentirem comprometidos com nossos processos de transformação e de construção, desde já, de uma nova sociedade, alternativa, à barbárie capitalista.


* Texto digitado (sendo ditado pelo autor, por conta de sua deficiência visual) por Elizabete Pontes Santos, Heloíse Calado e Gabriel Luar, ao qual coube revisar. Com a expressão de gratidão do autor.  


João Pessoa, 14 de Fevereiro de 2024. 


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Vincenzo Zambello e sua ação missionária: O alcance de sua produção teológica no meio dos pobres

 Vincenzo Zambello e sua ação missionária: O alcance de sua produção teológica no meio dos pobres 


Alder Júlio Ferreira Calado 


O propósito das linhas que seguem, é o de destacar aspectos da ação missionária do presbítero Vincenzo Zambello, ou como no Brasil o chamamos, Pe.Vicente. Missionário cátolico “ Fidei Donum”, nascido na Itália, em 1941, ordenado presbítero em junho de 1965, a poucos meses do encerramento do Concílio Vaticano II, decidiu responder à sua vocação missionária, no Brasil, tendo sempre atuado, cerca de quatro décadas, nas comunidades pobres do Rio de Janeiro, do Nordeste (Paraíba) e na Amazônia (no Pará).


No Rio de Janeiro, inserido em comunidades periféricas, animou, com coragem e profecia, diversos trabalhos de evangelização, na linha da Teologia da Libertação. Na arquidiocese da Paraíba, atuou principalmente junto à Comunidade do Mutirão (também chamada Mário Andreazza), no município de Bayeux, região metropolitana de João Pessoa.


Tendo aí chegado nos inícios dos anos 90, logo foi designado Coordenador da Área Pastoral São João Batista. Sempre acompanhado de lideranças populares e missionárias, animou diversas iniciativas de Educação da Fé, formando diversas comunidades e grupos de evangelização. Uma das marcas do trabalho por ele animados dizia respeito à contínua visitação, casa por casa, aos moradores daquela Área Pastoral.


Nos inícios dos anos 2000, em parceria missionária com Frei Roberto Eufrásio de Oliveira, seu trabalho de Evangelização foi ampliado significativamente: Ambos assumiram conjuntamente a animação pastoral das comunidades do mutirão (Bayeux) e de Várzea Nova (no município vizinho de Santa Rita), tendo animado fecundas experiências missionárias, de formação e de lutas populares, em defesa e promoção dos direitos dos pobres.


Anos depois, Pe. Vicente foi chamado a trabalhar na Amazônia, mais precisamente no Xingu, no Pará na Prelazia do Xingu, da qual era Bispo diocessano Dom Erwin Krautler, tendo animado experiências missionárias em uma região repleta de conflitos e de violência contra povos Indígenas, ribeirinhos, perpetrada por grileiros, madeireiros, garimpeiros, violência da qual resultaram vários mártires dentre as quais Irmã Dorothy Stang e militante cristão conhecido como dema.


Pe. Vicente, ao animar todas essas experiências, sempre buscou alimentar sua fé pela Oração e sempre bebendo na Fonte, ao mesmo tempo que sempre cuidou de estudar e de acompanhar criticamente a realidade social, buscando compartilhar sua meditação e seus estudos teológicos, por meio de livros e outros escritos inclusive de inspiração poética. De sua considerável produção, além de “ Acolhendo a Palavra” e “Germinando Margaridas:Livro de memórias de Margarida Lucena de Oliveira” - para mencionar apenas um dos primeiros e um dos mais recentes - aqui trazemos algumas linhas acerca do seu “ Germogli” ( “Sementes”)  ( Edição atualizada em 2023). 


Suas valiosas reflexões se acham distribuídas em 21 breves capítulos versando sobre um variado e instigante temário, todo ele tendo como fio condutor a semente. Começa por rememorar a relação entre o silêncio que pairava sobre a Terra e a semente. É digna de nota a sensibilidade do autor pelos povos originários, entre os quais também a semente se faz presente. Sublinha a íntima relação entre a palavra de Deus e a semente, a fecundar os humanos e todos os viventes. 


O autor destaca a beleza dos Salmos acerca da semente.  Ao percorrer páginas preciosas da Sagrada Escritura apresenta o trabalho dos profetas que ele avalia igualmente como expressão e resultado de uma semente. É assim que o autor segue oferecendo pertinentes reflexões sobre a fecundidade da semente nas mais diversas circunstâncias históricas contemporâneas, especialmente aquelas protagonizadas pelo povo dos pobres, animado por leigas e leigos, religiosos e religiosas e ministros comprometidos com a causa do Reino de Deus, fazendo questão de destacar relevantes períodos recentes e menos recentes da caminhada dos pobres, vocacionados à liberdade.


Por sua atenta revisitação a múltiplos acontecimentos históricos eclesiais, nos quais a semente do seu trabalho libertador, Pe. Vicente nos brinda com suas pertinentes reflexões que nos injetam  esperança, a partir do  chão do cotidiano. Pe. Vicente se mostra, pela sua trajetória missionária no Brasil, no Quênia e na Itália, um profeta da esperança. Em seu trabalho pastoral também junto aos encarcerados, vejamos o que escreve, no último capítulo do seu livro: “ Cada um de nós é como um jardim. Em um jardim, há diversas sementes e cada semente comporta um grande potencial, e cada semente contém uma flor maravilhosa”. Eis o que sua ação missionária, conduzida pelo Espírito, é capaz de suscitar também entre os encarcerados, encorajando-os à libertação de toda sorte de prisão.


Ao Pe. Vicente, a expressão  de nossa gratidão pelo que tem semeado por onde passa, pela força do Espírito.


João Pessoa, 07 de Fevereiro de 2024.     





terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Obsolescência programada: Uma das mil facetas do Capitalismo

 Obsolescência programada: Uma das mil facetas do Capitalismo


Alder Júlio Ferreira Calado 


O Planeta e a humanidade padecem, de forma crescente, das graves ameaças com que o modo de produção, de consumo e de gestão societal não cessa de brandir contra nós. O Capitalismo, com efeito, constitui o fator máximo de desumanização e de letalidade socioambiental. Não se trata - cumpre alertar, desde já - de “ideia fixa" do autor destas linhas. Há mais de meio século nos dedicamos ininterruptamente, como tantos outros, como aprendiz, como militante e como pesquisador, junto a nossas organizações de base, em especial os Movimentos Sociais Populares, a estudar e buscar entender o modo de produção capitalista, em suas entranhas e em suas “complexas e múltiplas determinações”. Eis por que, tantas vezes cuidamos de retomar criticamente algumas dimensões deste sistema necrófilo.


Justamente por conta desta complexidade e desta amplitude que caracterizam o modo de produção, de consumo e de gestão societal - ou seja, o capitalismo - , cumpre situar a obsolescência programada como uma faceta dinamicamente conectada a centenas de outras que compõem o sistema capitalista. Do ponto de vista de uma militância revolucionária só faz sentido entender melhor e combater a obsolescência programada, se assumirmos também o compromisso de, identificando-a como um fio dinamicamente conectado a tantos outros que compõem a malha do mercado capitalista, nos empenhamos sem cessar em enfrentar e superar suas raízes mais fundas, de modo a irmos construindo um novo modo de produção, alternativo à barbárie capitalista.


A obsolescência programada pode ser entendida como uma entre tantas estratégias destinadas a maximizar o lucro das grandes corporações transnacionais que operam na multiplicidade de setores econômicos, políticos, culturais, educacionais, religiosos, etc, caracteriza-se pela produção de bens de consumo, cujo o tempo de vida útil é premeditadamente reduzido, sendo imediatamente descartados e substituídos por novos produtos, com objetivos de gerar lucro para as grandes corporações. 


Trata-se de uma estratégia organicamente articulada a centenas de outras, com o objetivo de manter e reforçar o processo de mercantilização da vida e das relações entre os humanos e o planeta. Neste modo de produção tudo se transforma em mercadoria, inclusive a natureza, os humanos e demais viventes. O ter passa a ser o grande objetivo do sistema: A acumulação de bens, de patrimônios, de renda, de riquezas, tudo feito à custa das crescente desigualdades que permitem a menos de 1% dos humanos reterem em suas mãos a maior parte das riquezas do Planeta e dos humanos, enquanto na enorme maioria dos países - inclusive em  parte expressiva das grandes potências mundiais  - , a grande massa de empobrecidos vive na extrema penúria.             


É assim que a obsolescência programada se tem notabilizado como uma força propulsora do processo de desumanização, especialmente pela via do consumismo, da obsessão por seguir a moda da vez, basta que pensemos em um extenso elenco de bens e de produtos acumulados em nossa casa… quanta coisa imprestável! Obcecados pela propaganda - marca evidente do Mercado capitalista -, sucumbimos frequentemente ao modismo, a propaganda multiforme da mídia corporativa e das redes sociais. É assim que, não raramente, cedemos à tentação de descartar bens e objetos em pleno funcionamento ou facilmente reparáveis, por outros, conforme a última onda ou a última “geração”… Isto ocorre, por exemplo, celulares, automóveis, roupa, e tantos outros objetos ou produtos descartáveis. Não nos perguntamos, via de regra, pelo alto preço pago pela mãe natureza, fornecedora de tantas matérias primas rapidamente descartadas do nosso consumismo contribuindo gravemente para o acúmulo ilimitado de produtos não reciclados, muitos deles jogados ao mar, ao subsolo ou a outros ambientes, aumentando exponencialmente a degradação de nossa casa comum.


Diante disso, cabe-nos perguntar pelo grau de responsabilidade coletiva e pessoal, ao contribuirmos com o espírito do Capitalismo dentro do qual não há saída libertária para os humanos e para o planeta. Nesse sentido nossas organizações de base - especialmente os Movimentos Populares - são desafiados a enfrentarem, em sua agenda, a fúria deletéria do Capitalismo,  sob todas as suas manifestações, sem que isto nos tolha a incidência de nossa responsabilidade pessoal: em que tenham contribuído, no chão do dia-a-dia, para reduzir os efeitos pernósticos  do consumismo.


João Pessoa, 30 de Janeiro de 2024










quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Violência e mentira dominam o mundo Subterrâneas correntes hão de vencer!

 Violência e mentira dominam o mundo 

Subterrâneas correntes hão de vencer!


Alder Júlio Ferreira Calado 


Sete décadas e meia de massacres 

Ocidente é cúmplice do genocídio


Do recente massacre, três meses e meio

Israel segue impune. Até quando?


Tudo isso tem a ver com o mesmo Império

Ocidente é parceiro da desventura 


Volta Trump ao cenário eleitoral 

A mostrar ao Império qual sua ética


Numa charge dos inícios dos 80

A sua vítima, o assaltante perguntava:


“Em quem votar: Em Carter ou Ronald Reagan?”

Ao que a vítima responde: “Pode atirar!”


“Puxe logo o gatilho, não amole!”

Uma charge didática daquela época


No cenário de hoje, qual seria 

A resposta da vítima ao assaltante?


No Brasil, a disputa não dá trégua

A “elite” local é escravocrata


Celebrada a vitória eleitoral

A direita fascista mostra a cara


Inclusive no poder legislativo

Presidente executa o orçamento


A despeito do esforço do Presidente

O Congresso usurpa seu poder


Ano a ano, aumenta a fatia 

Que o Congresso se reserva do Orçamento


Seu valor se compara a todo o PAC:

O conjunto de obras públicas do Brasil….


Faz-se urgente desmontar os falsos mitos 

Que a elite escravista introjeta


No legado do escritor Gilberto Freyre

Os senhores “Amavam” suas escravas 


De alguns casos, ele faz regra geral 

Aos estupros tornando sedução


Suaviza o regime escravista

Ocultando as enormes resistências


Clóvis Moura desfaz, em suas obras 

O suposto pacifismo das relações      


A aparência se mostra pra direita

Como truque de sua dominação


Da mentira e da hipocrisia

Se alimenta seu discurso moralista


Desde o século passado, ela é assim:

Foi de Esquerda, ela acusa de “ladrão”


Os desvios são parte da política

Que reclamam  o combate de todos nós


Ultrajante é o cinismo da Direita:

Só de roubo conquista sua riqueza


A riqueza se faz da exploração:

Já dizia Crisóstomo, no século século IV


Burguesia do roubo se alimenta

E despista, acusando a Esquerda


A Direita acusa de corrupta

Toda empresa estatal, qualquer que seja


‘té parece exemplar setor privado…

Mas extrai do Estado a melhor parte


Financia seus prepostos no Congressos

Pra votar seus projetos mais escusos


Resta em vão esperar pelas mudanças

Só no plano da instituição


Movimento popular desafiado

A cumprir seu papel ante o dilema


Nosso alvo, a resistência, tem três passos:

União, formação, enfrentamento 


Retomar o trabalho campo-cidade

É mantê-lo eficaz e resistente 


Avivar a memória dos de “de baixo”

É o passo primeiro da formação 


Os combates da Senzala ter presentes

De Palmares a Canudos percorrer 


Mil revoltas do Povo por Liberdade

Nos ajudam, a manter viva a esperança.


Eis por que faz-se urgente revisitar 

Escritores fiéis de nossa gente 


Florestan, Clóvis Moura, Lima Barreto 

Rui Marine, V. Bambirra e outros mais. 


Ao povo argentino, hoje em greve

Nos fazemos solidários à sua luta.

     

João pessoa, 24 de Janeiro de 2024  


quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Por que tanto aprecio o bom Repente?

 Por que tanto aprecio o bom Repente?


Alder Júlio Ferreira Calado


Desde cedo, aprendi a me encantar pelas letras do Povo e Eruditas. Eis porque em meu ser, ele ainda habita. O repente desde sempre me é sem-par, uma arte, entre tantas, exemplar. É uma arte complexa, criativa. Qualidades lhe sobram -  é uma Diva. Pra começo de conversa, é instantânea, de elementos preciosos, coletânea. De interesses diversos, ela nos criva.


Diferente do Cordel - este é escrito -, o Repente se faz por via oral. Repentistas em dupla, afinal, se enfrentam, mostrando cantar bonito, entre ambos, não raro, gerando atrito. Cada qual empenhado em fazer bem, se desdobra, às vezes indo além, em mostrar aos ouvintes o seu melhor. Mal-estar, superando a própria dor, do temário seguindo em seu vaivém.


Mui complexa é a arte do Repente, por diversos fatores, entre os quais: Rima, estrofes, temática e muito mais. O lidar com a métrica, igualmente. Tudo isso, de improviso, sacode a mente. Repentistas, na ora, escutam o mote - que sua mente não canse, e não se esgote. O primeiro da partida, conforme o tema e assim, cada qual seu barco rema. O poeta, então, mostra seu dote.


E no gênero “Desafio”, surgem torcidas, cada qual aplaudindo seu predileto, com ardor, com carinho, com afeto. Dupla troca expressões bem atrevidas, no final se abraçando - segue a vida. 


“Desafio” também se diz “Peleja”. 


A temática é complexa e ardilosa, desde História, Política e Geografia. Pioneiro, o Repente noticia. Natureza, costumes, crenças, rosas. O ouvinte, atento, contempla, goza. Do folclore às guerras e injustiças, denunciam mazelas, coisas omissas. Desmascara uma mídia incapaz, Repentistas ensinam muito mais, nos ajudam a vencer toda cobiça. 


Outro ponto complexo, é a rima: Abbaaccddc. Complicada, nada fácil como se vê. De improviso, rimando, o poeta prima para que mais beleza nele imprima. São diversas as  formas de rimar: paralelas, cruzadas - são um mar! Repentista, têm o dever de rimar bem. Esta regra melhor convém. Um motivo a mais para o encanto! Estou sempre tocado por labor tanto. Eis por que o Repente atração tem. 


Patativa - antes dele, Rogaciano. Lourival, Otacílio e Dimas Batista, são três astros do Repente, grandes artistas. Ivanildo Vila Nova, pernambucano, cearense Geraldo, no mesmo plano. Oliveira de Panelas, outro expoente, nordestinos que orgulham dessa gente. Zé Limeira e Pinto de Monteiro, Severino, Valdir Teles artilheiros, pra lembrar alguns nomes do Repente. 


A Revista PELEJA, da AESA, de Arcoverde, município pernambucano, estreou há 45 anos. Em seu número 6, mantém acesa a memória de um evento que embeleza: transcreveu os anais do Festival. Por dez números, a Revista, afinal, publicando escritos de docentes, a despeito de fatores restringentes. Para aquela região, um bom sinal. 


João Pessoa, 18 de Janeiro de 2024

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Mais que a fala, meu agir mostra quem sou. Ele induz a um processo humanizante?

 


Mais que a fala, meu agir mostra quem sou 

Ele induz a um processo humanizante?


Alder Júlio Ferreira Calado


Em um mundo propenso à  lassidão 

A palavra empenhada é coisa rara

 

Aparelhos de ponta, na internet 

Não garantem uma boa relação 


Até podem ajudar isolamento 

Eu me valho de meios sofisticados


Para ouvir e falar com quem eu quero…

Nessa bolha me torno ser excludente


E abuso de desculpas refinadas

Me acostumo a dizer somente “sim”


E, podendo ou não, deixo pra lá

Se me cobram, depois me justifico


Pois de tanto bater na mesma tecla 

Já me sinto, no caso, um bom perito 


Ninguém é obrigado a prometer

Se o faço, eu assumo um compromisso


Circunstância adversa ocorrendo,

Pode ser que não a cumpra, em tempo hábil


Banaliza promessa, quem não a cumpre 

Surge, então, uma fábrica de excusas…


Sendo assim, a palavra vale pouco

Confiança, então, faço retrair 


Valho só quanto vale minha atitude.

Confiança se esvai, quebra a palavra


Se desisto de fazer a autocrítica  

Já não posso atestar por minha prática


Quanto mais se promete em profusão 

tanto menos se cruprem o prometido 


É nas horas incertas, que se sabe 

Quem é mesmo o amigo verdadeiro


Onde está meu tesouro, aí também

Se encontra igualmente meu coração


João Pessoa, 10 de Janeiro de 2024
















segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Sem memória, repetimos nossos erros: Lições da intentona fascista de 8 de Janeiro

Sem memória, repetimos nossos erros: Lições da intentona fascista de 8 de Janeiro


Alder Júlio Ferreira Calado


A intentona golpista precede, de muito, o 8 de Janeiro de 23. Antecede até o Desgoverno Bolsonaro. No limite, remonta ao golpe “republicano” de 1889, impropriamente conhecido como “Proclamação da República”. Tem a ver com a nossa história colonialista/escravista. O Espírito da Casa Grande se faz presente, desde então, no chão de nossa história de violência, de mentiras e resistência. É este espírito senhorial que anima a classe dominante do Brasil.


As Forças Armadas constituem um de seus protagonistas ou, de modo mais preciso, um setor aliado e permanentemente a serviço dos dominadores. Ao longo de tantas décadas se comportam como tutoras da Nação, por vezes até como se dela fossem proprietárias, ainda que, se comportem amiúde como serviçais da classe dominante nacional e do Imperialismo.         


É trágico constatar que, mais de um século depois, este vício segue impune, daí, sucessivos golpes militares ao longo de nossa história. Impunidade que, não alterada, tende a novas conspirações ameaçadoras dos valores democráticos e republicanos. A ditadura civil militar, de 1964-1985, se impõe como um exemplo ilustrativo de que, sem enfrentarmos este desafio, será palco de novas intentonas, como a de 8 de janeiro de 23.


Toda uma sucessão de ocorrências se faz presente, desde o golpe que resultou na destituição da presidenta Dilma, produto de uma tenebrosa combinação de fatores, a partir do ascenso da onda neofascista, em escala mundial, sendo as mais recentes tragédias palestina e argentina, expressões mais sombrias desses mesmos desdobramentos.


Nestas brevíssimas linhas, nosso propósito se limita a registrar sinais de barbárie presentes da tentativa frustrada de golpe, ocorrido no Brasil, em 8 de janeiro de 2023, em busca de extrair algumas lições desta atroz efeméride. Uma primeira tem a ver com a necessidade de aprendermos incessantemente a fazer uma avaliação consistente dos acontecimentos, sempre em perspectiva histórica. Isto nos faz lembrar que ocorrências impactantes não se dão ao acaso: requerem de nós identificar suas raízes, recentes e menos recentes. Mergulhados que vivemos em uma dinâmica refém da ótica eleitoral, isto tende a passar despercebido, do que podem resultar tantas outras experiências amargas.


Outro ensinamento a destacar, tem a ver com certo alheamento por parte de nossa sociedade civil, em especial dos movimentos populares, que parecem, salve exceções, dormitar acriticamente, ao sabor dos ventos da conjuntura, com pouco ou nenhum empenho em atuarem como protagonistas das profundas mudanças desejadas. Da atual estrutura partidária convencional, pouco se pode esperar. Algo semelhante também se passa em relação ao mundo sindical. Mesmo assim, é com essas forças que podemos contar para a construção processual de um novo modo de produção, de consumo, e de gestão societal.


Não menos importante, também nesses momentos de impasse, é o reconhecimento da força transformadora dos movimentos populares que atuam comprometidos com o projeto de sociedade alternativo à barbárie capitalista. Nesse sentido, a educação popular, entendida como expressão do processo de humanização, e desde que protagonizada, em todos os seus momentos (desde a concepção, planejamento, metodologia, a execução, a avaliação…), irrompe como um caminho de enormes potencialidades, inclusive para o exercício contínuo da memória histórica dos oprimidos, tendo claro o horizonte em direção ao qual se comprometem a marchar, com crítica e autocrítica, desde o chão do presente por meio da práxis transformadora.


João Pessoa, 8 de janeiro de 2024