quarta-feira, 19 de julho de 2017

REINO DE DEUS OU INSTITUIÇÕES ECLESIÁSTICAS AUTO-REFERENCIADAS? Paradoxos e desdobramentos da velha tensão entre carisma e poder...


Alder Júlio Ferreira Calado

Acompanhando o esforço hercúleo de Francisco, Bispo de Roma, de mexer minimamente na engrenagem do poder curial, quedamo-nos perplexos com a resistência (quase) invencível oposta por cardeais da Cúria romana, porta-vozes de poderosas forças reacionárias de dentro e de fora dos espaços eclesiásticos,  a qualquer tentativa de mudança, que ameace minimamente seus privilégios. Este é apenas um de numerosas e sucessivas iniciativas pouco ou mal sucedidas, ao longo da Cristandade. Nem o concílio Vaticano II, concluído há meio século atrás, logrou êxito, em várias s de suas conclusões. Desde sua convocação, pelo Papa  João XXIII, e durante e após sua realização, eis que se lhe opuseram significativas, forças reacionárias.

 Remontam aos tempos apostólicos – e aprofundando-se,  ao longo da Cristandade -  as tensões entre carisma e poder. Diante da proposta desinstaladora de Jesus de Nazaré, e sobretudo diante de sua prática desinstalada e desinstaladora, mesmo seus primeiros seguidores tiveram posicionamentos diferenciados. Da parte de alguns, não faltaram palavras e arroubos de adesão, enquanto suas práticas contradiziam seus propósitos declarados. Algumas cenas resultaram bem conhecidas, tais como aquela, em que Thiago e João, dando prova de que nada entenderam da proposta do Mestre, têm a petulância de pedir a Jesus sua parte no poder: “Nisso Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se dele e disseram: ‘Mestre, queremos que nos faças o que vamos te pedir’. ‘O que vocês querem que eu faça?’, perguntou ele. Eles responderam: ‘Permite que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda’.” (Mc 10, 35-37). A sede de  poder foi de tal ordem,  a implicar um certo descarte, pelos próprios dissípulos  de Jesus,  da figura de Maria Madalena,  uma das mais fiéis seguidoras do Mestre, enquanto também Este testemunhava por Madalena e por tantas mulheres excluídas dos espaços públicos. A atitude revolucionária de Jesus, em relação às mulheres do Seu tempo incomodava e segue incomodando práticas e concepções patrimonialistas de ontem e de hoje...

Em  seguida, ainda nos primeiros séculos, não faltaram episódios semelhantes, no que se refere à busca de poder pessoal e corporativo, entre os que se diziam seguidores de Jesus. Isto se deu, de várias maneiras, inclusive pela impossição de privilégios a um grupo de teólogos, que não esitou em ditar normas, em busca de uma uniformização da doutrina cristã, ao excluírem como inválidas muitas narrativas populares do Evangelho.

Nos séculos seguintes, sobretudo graças ao  crescente processo de helenização do núcleo da mensagem evangelica, em virtude da qual privilegiam-se princípios, normas e conceitos doutrinários, , em prejuízo das práticas comunitárias do Cristianismo primitivo e do próprio Seguimento de Jesus.  Principalmente, a partir o século IV, com o projeto constantiniano de cristianização do Império Romano, esse grupo de hierarcas vai assumindo um papel preponderande, na tomada de decisões favoráveis ao seu intento de controle da Cristandade.

Teólogos como José Comblin, Eduardo Hoornaert e outros, em suas pesquisas de reconhecida contribuição a uma leitura crítica da Cristandade, trazem a lume diversos episódios mostrando o distanciamento progressivo da mensagem evangélica e neotestamentária, por parte de um grupo de hierarcas, em busca de fazer prevalecer suas decisões que lhes conferiam privilégios em relação ao conjunto do povo cristão, tendo inclusive alimentado uma interpretação distanciada claramente do Evangelho, como no caso relatado tanto por José Comblin, em seu livro “A Força da Palavra”  quanto  por Eduardo Hoornaert.  Comblin, por exemplo, afirma: “Por intermédio de S. Agostinho e dos escolásticos medievais, sobretudo de S. Tomás de Aquino, a teologia ocidental foi também uma tentativa sempre renovada de exprimir o cristianismo nas categorias do pensamento do helenismo. Pelo menos no Ocidente essa foi a influência dominante.” (COMBLIN, J. A Força da Palavra..., p.71). Por sua vez, Hoornaert em seu livro “A Memória do Povo Cristão”: “Ao contrário do famoso texto de Mt 11,25 que fala do segredo revelado aos pequenos e escondido aos sábios, Clemente de Alexandria proclama o segredo revelado aos sábios (Strom. 6,115,1). É de se estranhar que uma doutrina tão claramente oposta aos enunciados evangélicos não tenha sido condenada pela Igreja.” (p.131). Para tanto, serviu-lhes de inspiração eficaz um crescente esforço de helenização, à medida que objetivamente substituiam critérios fundamentais característicos do Movimento de Jesus, a exemplo da primazia dos pobres e marginalizados, bem como da prevalência do agir sobre o discurso (“Não são aqueles que dizem: ´Senhor, Senhor´... mas aqueles que fazem a vontade do Meu Pai”... “Este povo Me louva com a boca, mas seu coração está longe de Mim.”!). Não adianta investir numa posição nominalista, fundada sobretudo em artifícios retóricos e conceituais... Todavia, não é bem isto o que temos observado. O poder-dominação é que tem sido a marca mais frequente, na caminhada das Igrejas cristãs, inclusive a Católica Romana. Por outro lado, ontem como hoje, as “minorias abraâmicas” seguem cumprindo sua vocação profético-missionária ainda que como vozes clamando no deserto, pois acreditam que, pela  força da Palavra, “o deserto é fértil”.
Nas linhas que seguem, trataremos de refletir, a partir de episódios de ontem e de hoje, distintas manifestações pessoais e comunitárias de cristãos e cristãs, no dia a dia de sua vida, tanto no mundo, quanto nos espaços eclesiais, hora agindo na perspectiva do poder-dominação, hora atuando como “fermento na massa”, na perspectiva do carisma profético-missionário. 

Implicações concretas da indistinção entre reino e instituição
Já tivemos oportunidade de refletir sobre a fecundidade de categorias experienciais. Aqui, destacamos as seguintes: “Reino de Deus”, “Instituições eclesiásticas”, “Carisma” e “Poder”. A indistinção ou confusão dessas categorias tem provocado e continuará provocando graves equívocos, como tem acontecido, ao longo da história da Cristandade. A grande ênfase do Evangelho e demais textos neotestamentários incide no  anúncio e na inauguração  do Reino de Deus, testemunhados por Jesus e Seus seguidores. Nos textos evangélicos, percebemos, com efeito, que Jesus vem fundamentalmente anunciar e inaugurar o Reino de Deus. Não é à-toa que esta categoria experiencial  aparece (seja como “Reino de Deus” ou “Reino dos Céus”) perto de cem vezes, nos textos neotestamentários, sendo cerca da metade nos textos evangélicos, enquanto “Igreja” em torno de cinquenta vezes. E de que significado(s) vem aí revestida a expressão “Reino de Deus” (ou “Reino dos Céus”)? Vejamos, de passagem, alguns desses significados emprestados por passagens neotestamentárias, em especial dos textos evangélicos.
- O Reino de Deus (e não necessariamente a(s) instituições eclesiástica(s)) é “a” grande prioridade de Jesus: “Procurem, antes de tudo, o Reino de Justiça, e tudo o mais lhes será dado por acréscimo.” (Mt 6, 13);
- Sendo “a” prioridade, vale a pena fazer de tudo, para alcançá-lo: “O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo (...) um homem vende tudo que tinha, e o adquire” (Mt 13, 44);
- Não é por acaso que o Reino de Deus constitui um componente essencial da Oração do Pai Nosso; “Venha o Teu Reino, faça-se Tua vontade...” (Mt 6, 10);
- Vontade que o Enviado do Pai cuida de cumprir, com perseverança, ao longo de Sua vida, mesmo quando sua postura profundamente ( também ) humana suscitava dúvida de Quem Ele fosse, como sucedeu, no episódio em que João Lhe envia seus discípulos para perguntar-Lhe se era mesmo Ele o enviado do Pai. Aos quais Ele responde: “Voltem e digam a  João o que vocês estão vendo e ouvindo:  os cegos vêem, os aleijados andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres.”
Vale, também, a pena destacarmos alguns efeitos (positivos ou negativos), conforme obedeçamos ou resistamos ao que o Espírito Santo, Sopro Fontal, nos inspira, tanto pessoalmente como comunitariamente, enquanto Povo de Deus ou enquanto sociedade civil.
- No campo pastoral
- No campo missionário – Em meados dos anos 80, ao frequentar um templo católico, na França (Élglise Saint Albert le Grand, num bairro vizinho ao da Cité Universitaire), chamava-me a atenção um grande letreiro aposto numa parede interna daque templo: “Appelés... envoyés” (Chamados... enviados). Ajudava-me a rememorar o cerne da vocação da Tradição de Jesus, que nos propõe tornarmo-nos (ou irmos tornando-nos) Seus discípulos/discípulas-missionários/missionárias, como vem inscrito, a cada semana, na folha litúrgica compartilhada pelo Pe. Reginaldo Veloso, presbítero das CEBs. Aquele letreiro me remetia a um sem-número de fecundas experiências missionárias, espalhadas pelo mundo, inclusive na Europa – desperta-me, por exemplo, atenção a saga dos padres operários  (de alguns dos quais me tornei amigo, dentre os quais Pierre Jourdanne – dos Filhos da Caridade, mesma comunidade da qual fazia parte também o Pe Alfredinho, Alfredo Kuntz, cujo trabalho com as vítimas da prostituição, em Crateús - Ceará, se tornaria emblemático (cf. depoimento seu, acessando-se o “linik”:
 Chamados e chamadas; e enviados enviadas pelo Espírito do Resssuscitado, a anunciar – mais pelo testemunho do que pela pregação, a Boa Notícia aos que se acham sufocados por multiformes grilhões e masmorras da opressão, da exploração, da marginalização. Eis o campo de missão proposto pela Tradição de Jesus aos seus discípulos/discípulas-missionários/missionárias. Desafio ao qual muita gente se dispõe a responder, com generosidade e fidelidade ao Espírito do Evangelho, ontem como hoje.

Sucede, por outro lado, que isto nem sempre acontece, e, em determindas épocas ou circunstâncias, os cenários se tornam ainda mais ambivalentes e contraditórios. Temos a tendência de pretender que as coisas sejam sempre lineares – ou de todo boas, ou de todo más. A vida dos humanos não é assim. As coisas vêm misturadas, a partir de nós mesmos, de nós mesmas.

Em meados dos anos 90, num desses encontros de confraternização entre membros de congregações religiosas ou de missionários e missionárias não-nascidos no Brasil, tive ocasião de participar, como convidado, de um destes encontros, em João Pessoa – Paraíba. Tratava-se de um encontro de avaliação fraterna da caminhada missionária no Brasil, com a participação daqueles membros, alguns dos quais já contavam décadas de missão, no Nordeste brasileiro. A ênfase, então, era de uma certa euforia sobre os resultados. Eis que chega um outro convidado, um missionário belga, chegado ao Brasil, em 1958, um teólogo de densa produção e sobretudo de fecundas iniciativas missionárias, em especial no campo da formação: tratava-se do Pe. José Comblin. Ao observar o quadro de giz com registros de saldos alvissareiros, disse que iria apagar aquele quadro, que traduzia antes o consciente, e cuidaria de trazer à baila, antes, coisas do inconsciente. E pôs-se a fazer considerações incômodas sobre o inconsciente colonizador que, por vezes, tomam a cena de figuras missionárias. E assim se pôs a relembrar situações e experiências que, mesmo tendo a marca de missionárias, pareciam mais próximas do espírito colonizador, a sinalizar, a despeito de um discurso ortodoxo, uma extensão de sua cultura original, antes que uma missão imbuída da radical fraternidade evangélica.

Enfrentamos, por certo, situações paradoxais: as coisas são misturadas... Em meio a paradoxos, impasses e contradições,  importa sempre buscar localizar e interpretar, também, os sinais portadores da presença viva e vivicante do Sopro fontal, do Espírito Santo, na história, em nossa caminhada, desde o chão de nosso cotidiano.  Aqui me vêm ao espírito cenas bem edificantes, das quais foram e são protagonistas tantas leigas e leigos vivendo no anonimato, a testemunharem o acontecer do Reino de Deus, em suas vidas e e na vida de suas comunidades. Como em tantas partes do Nordeste, do Brasil, da América Latina, da África e demais continentes, há tanta gente simples, a fazer coisas maravilhosas! Há tantas Marias, Anas, Josés (um deles: Zé Duda, de Jataúba – PE), como também há gente mais conhecida pelo seu testemunho, comunidades e pessoas, tais como: Pe.Ibiapina, Pe. José Comblin, Dom Fragoso, Alfredinho, Irmã Geneviève, Irmã Dorothy, Irmã Almeidinha, Frei Roberto, Pe.Vicente, as Pequenas Comunidades de Religiosas Inseridas no Meio Popular... a lista segue, com a rememoração instantânea de cada pessoa, de cada comunidade...   

Mas, sempre tendo consciência de tantos riscos, alguns de uma extraordinária força destrutiva, aos quais estão sujeitos os missionários e missionárias, nascidos ou não no Brasil. De fato, as coisas são mesmo misturadas, a demandarem, da parte de todos e de cada um, de cada uma, uma constante vigilância e oração, como meio de nos despertar - a todos e cada um, cada uma -  de que “Não foram vocês que Me escolheram, mas fui Eu que os escolhi, para que vocês vão e produzam fruto, e o seu fruto permaneça.” (Jo 15, 16).
 Trata-se de riscos concretos, que enfrentamos também nos dias de hoje. Não raramente, sob tantas formas sedutoras – da “liturgia dos panos”, da “liturgia da fumaça” de iniciativas pomposas, de um ar angelical, de uma retórica sedutora – e disto a mídia religiosa nos fornece tristes exemplos... -, corremos o risco de, em vez de anunciar a Boa Nova do Reino de Deus, com senso crítico e discernimento, acabamos reeditando práticas e concepções que, objetivamente, têm mais a ver com atitudes idolátricas do que propriamente com o cerne da mensagem de Jesus: “ Este povo me honra com os lábios, mas longe de Mim está o seu coração.” ( Mt 15,8 ).

  * Reino de Deus, à luz do Movimento de Jesus: questionamentos em tempos tenebrosos

Das questões acima enunciadas, cuidamos de extrair algumas lições que nos ajudem a enfrentar e ir superando, à luz da Tradição de Jesus, os paradoxos e impasses que se interpõem à nossa caminhada, na perspectiva do  Reino de Deus, de modo a fortalecer nossos carismas e a nos tornarmos mais vigilantes e atentos aos sinais dos tempos, diante dos crescentes riscos e das armadilhas do poder-dominação. Sirmvam-nos, para tatnto, alguns questionametos, tanto em relação à sociedade civil, como em relação à(s) Igreja(s).

= Em relação à sociedade civil

- A grave e multiforme crise que experimentamos foi (e é) acompanhada ou antecedida de vários sinais, ao nosso alcance. Temos dado suficiente atenção, e sobretudo levado a sério tais sinais, antes que a tragédia se consuma(sse)?

- Que condições objetivas e subjetivas permitiram que chegássemos a tal ponto? 

- Suficientemente atentos aos fatores externos desta crise, será que também tivemos ou temos alguma parcela de responsabilidade, na produção da mesma? Estamos mesmo dispostos a enfrentar esta tarefa autoavaliativa? Quando? Como? Com que propósito?

 - Que avaliação fazemos de nosso progressivo distanciamento dos núcleos de base, substituindo-os pela sede de ocupação dos espaços estatais? (Aos movimetnos populares, em Santa Cruz de la Sierra, o Papa Francisco afirmou prefere “gerar processos” a “ocupar posições”...);

- E quanto à saudável alternância entre funções de coordenação e animação desde a base, quê temos a dizer?

- Onde estacionamos, no processo formativo, que segue e seguirá essencial, não apenas para as lideranças como também para osmembros de base?
- Quê temos a refletir sobre certa tendência observável, de deixarmos a alguns as decisões que são de todos?

- Quê lugar têm, entre nós, as tarefas formativas, inclusive de estudo de nossos bons clássicos e contemporâneos?

- Temo-nos empenhado na renovação de nossos assessores, a partir da formação de própria moçada?

- E quanto ao nosso estilo de vida, é bem próximo daqule de nossa gente?


   = Em relação à(s) Igreja(s):

- A despeito de incessantes sinais da presença e da ação viva e vivicante do Espírito Santo, Sopro fontal, constatamos, com tristeza, a indisposição de ouvirmos o que Ele tem a dizer à(s) Igreja(s), que, no entanto, seguem teimando, em vão, controlá-Lo. Até quando vai durar nossa dureza de coração, mesmo diante de gestos proféticos acenados pelo Bispo de Roma, uma voz no deserto?  

- O Sopro fontal nos inspira ações e atitudes de conversão ao Seguimento de Jesus. Por que teimamos em seguir as trilhas normóticas do poder-dominação, em vez de ensaiarmos passos no exercício do poder-diaconia?

- O Sopro fontal nos convida ao processo de conversão contínua. Por que fincamos pé em nos contentar com as estruturas perversas deste mundo?


João Pessoa, 19 de julho de 2017




sábado, 8 de julho de 2017

INDAGAÇÕES DE QUEM ESPERA CONTRA TODA ESPERANÇA: categorias experienciais portadoras de potencialidades reinventivas

INDAGAÇÕES DE QUEM ESPERA CONTRA TODA ESPERANÇA: categorias experienciais portadoras de potencialidades reinventivas

Alder Júlio Ferreira Calado

Em épocas tenebrosas de organização societal (e outras  situações, similarmente sombrias), temos, não raro, a impressão de que inexistem saídas. Então, o desespero bate à porta, mais facilmente. E pior: quem assim avalia, ainda tem a pretensão de estar lidando com dados de realidade. Até certo ponto, isto pode mesmo acontecer, mas apenas como uma face - ainda que a mais visível - da realidade. Não explica, contudo, toda a realidade, sempre bem mais complexa do que aparece aos nossos olhos. A inteireza do  objeto cognoscível sempre escapa à ingênua pretensão dos sujeitos cognoscentes (pessoais e coletivos: é que a realidade sempre comporta um componente de imponderabilidade... Com efeito, em sua complexidade e vastidão, a realidade  apresenta facetas menos visíveis ou mesmo (quase) invisíveis.

Quantas vezes, ao longo da história, quando tudo parecia já dado, eis que irrompe  o imponderável?! E isto nada tem a ver com fatalidade, com as forças cegas do que se chama destino. Tem, antes, a ver com nossos limites (pessoais e coletivos) de compreender o “todo” da realidade concreta, inclusive da realidade histórica. Quantas vezes, não sofremos do limite de estarmos mais propensos a perceber deteminados sinais da história do que outros tidos como aparentemente menos relevantes?! E, no entanto, chega uma hora, em que aqueles sinais antes considerados desprezíveis ou menos relevantes assumem a dianteira dos acontecimentos, pelo seu acúmulo e maturação...

Sucede, por outro lado, que, sob a alegação de que as mudaças históricas acontecem, “de qualquer modo”, corremos o risco de sucumbir à ingenuidade de cruzarmos os braços, à espera de que o imponderável irrompa “ex nihilo”, como uma fatalidade... Sem negar o reconhecimento de certa incidência do acaso, o imponderável desponta, não raramente, como expressão e resultado de um acúmulo e maturação de acontecimentos que se passam, antes, nas “correntezas subterrâneas”: aquelas experiências moleculares que foram ininterruptamente levadas a cabo, a certa altura do tempo, eclodem, manifestam-se nas águas de superfície.

Aqui me vêm à lembrança vários episódios recentes e menos recentes, dentre os quais a brava saga de Gregório Bezerra, ainda criança, criada pela avó, nas cercanias de Panelas, no Agreste pernambucano. Uma criança, em meados da década de 1900 (ele é exatamente de 1900), vivendo os rigores de grande seca, lá ia aquela criança, movida a paixão pelo seu povo e por criatividade, a perscrutar obstinadamente sinais de água, algum filete de água de fonte... E, como "quem procura, encontra", também Gregório encontrou. Quedo-me a imaginar o deslumbramento daquela gente com o milagroso achado da criança... (cf. Memorias, de Gregório Bezerra). Mais recentemente, sobretudo em junho de 2013, irromperam grandes manifestações de massa, a ganharem as ruas de todo o país, clamando por mudanças, sem que houvesse aí o habitual protagonismo de movimentos sociais (sindicais e populares) a conduzirem tais irrupções, trazendo alguma surpresa para os sujeitos históricos convencionalmente tidos como principal fonte articuladora. Este são apenas dois minusculos exemplos dentre tantos  registrados, no curso da história que nos ajudam a perceber para além dos determinismos.



De modo semelhante, cabe-nos ensaiar uma leitura da realidade histórica que, buscando ser fiel aos acontecimentos concretos do dia-a-dia, permita manter-nos  sempre abertos a surpresas que ela, por vezes, nos oferece, mas não sem nossa disposição de percebê-los interpretá-los adequadamente e toma-los a sério.

O proposito dessas notas é o de destacar algumas categorias experiênciais que nos ajudem a pontencializar o ensaio de passos, na direção almejada.

Para tanto, socorremo-nos também de alguns clássicos e contemporaneos de reconhecida contribuição, nesta aventura.

* Que tal beber (também) na fonte de nossa ancestralidade? -  Sendo, ao mesmo tempo, e de forma complementar, Natureza e Cultura, somos chamados, no processo de humanização, a tomar consciência e a agir adequadamente, como tecelões e tecelãs dessa bendita relação, de modo a, de um lado, bem distinguir cada um desses pólos de relação, e, por outro lado, a bem articulá-los, enquanto fios da malha das relações  existenciais do dia-a-dia. Tomar consciência desta duppla condição  significa sentirmo-nos irmanados com toda a comunidade dos viventes de nosso Planeta e com o Cosmo, em sua extraordinária pluriversidade. Tomando consciência de, e assumindo nossa condição de  partículas cósmicas, nos tornamos mais humildes, menos vorazes e menos ávidos de pretensos “donos” da Natureza. Sentimo-nos Natureza, marcados, em grande parte, pelos traços que caracterizam outros animais, os vegtetais e os minerais, de que somos formados e que carregamos presentes em nosso corpo e em nosso espírito, desde as origens do nosso Planeta. Carregamos, conscientemente ou não, as energias que movem os diferentes membros do nosso Planeta, irmanados por uma profunda carga sinergética  que em nós se reflete e em nós atua, inclusive, por meio do exercício da memória dos nossos ancestrais. Tal característica nos faz sentir unidos a tantos outros viventes e à Mãe-Terra, de tal maneira que as agressões cometidas contra a Mãe-Terra e quaisquer de seus membros ressoam no mais íntimo de nós. Assim, somos chamados a tomar certa distância crítica de certo pretensão de assenhoramento da Mãe-Terra e dos demais viventes, donde certa desconfiança saudável com relação a determinada interpretação do conceito de “hominização” (aqui se acentuando o genitivo “hominis”, denotando-se uma relação de posse, de pertencimento, tendendo a um antropocentrismo), no sentido de uma apropriação pelos humanos do conjunto dos viventes da Terra.  Trabalhar, dia após dia, pessoal e coletivamente, essa relação, de modo adequado, ou seja, numa perspectiva de parceria e complementaridade  – eis um grande desafio para nós, hoje. Da forma como venhamos a assumir esta relação, vamos sendo capazes de promover uma con-vivência saudável, amorosa, harmoniosa e complementar entre os humanos, e destes em relação com os demais viventes.

Distinguir e cuidar de cada um desses pólos (Natureza e Cultura) significa assegurar condições de um processo de humanização, na perspectiva de sua plenitude – Uma vez reconhecida nossa dupla condição – de Natureza e Cultura -, importa-nos ter presente qual nosso papel concreto em cada uma dessas dimensões. Enquanto seres de Natureza, muito temos a celebrar da vida, de nossas carências, de nossos limites, do nosso inacabamento, bem como de nossas potencialidades enquanto animais. Aqui é enorme o leque de aspectos a aprender e a a exercitar, de nossa parceria com os animais, com as plantas, com os minerais. Muito a aprender da água, do ar, do fogo, da terra, das pedras (Num de seus depoimentos, pouco antes de ser assassinado, o Cacique Xicão Xukuru, lembrava que as pedras eram os ossos da Mãe-Terra, enquanto a água era seu sangue e a floresta, seus cabelos...). Quanto aprendemos dos parceiros animais! De sua luta pela vida, de sua convivência, de seu modo de colocar-se ante os perigos, de suas estratégias de defesa, de sua extraordinária sensibilidade aos mínimos sinais... E o que dizer da gesta e dos feitos de nossos antepassados humanos? Quanto aprendizado! Pois bem, hoje somos os herdeiros dessa ancestralidade, sentindo-nos a eles unidos, portadores de densa sinergia, que nos move a (con)viver e a promover a vida, em todas as suas manifestações. E, hoje, o famezmo, com enormes vantagens, pelas experiências secularmente, milenarmente acumuldadas?!..

No pólo especificamente humano, a grande diferença – ainda que complementar – é conferida pelo universo da Cultura, ambiente que permite vantaens e características exponenciais, em comparação com o mundo dos demais viventes. No plano da Cultura, é que as diferenças se acentuam, em benefício dos humanos: a criticidade, a autoconsciência, a criatividade, a inventividade, a capacidade de planejar, de avaliar, de mover-se no diversificado campo das artes, não apenas como usuário, como fruidor, mas também como produtor. No terreno cultural, os humanos se mostram seres vocacionados à Liberdade, capazes de assumir valores éticos de conduta pessoal e coletiva. É graças à Cultura, que os humanos se tornam capazes de resistir exitosamente os mais complexos desafios econômicos, políticos e de outra natureza. É graças à Cultura, que os humanos são capazes de desenhar e materizalizar distintos modos de produção, de consumo e de gestão societal. É pela força criadora da Cultura, que os humanos vão se tornando capazes de incessantes mudanças, no plano pessoal e no plano coletivo. Enquanto os demais seres viventes se restringem ao que se acha posto em seu DNA, são seres pré-programados, os humanos, por seu turno, são capazes de irem forjando seu (co)existir, em busca de plenitude. A depender de suas escolhar... Diversamente dos demais seres viventes, os humanos podem fazer-se perguntas do tipo da que se segue.

* Resignar-nos ante os impasses ou ensaiar passos em direção ao “inédito viável”? -


*  O que signfica manter-nos em “estado de busca” – Fecundas iniciativas de que se tem notícia,  irrompem de uma atitude de espírito, de uma contínua prontidão e de atenção aos múltiplos e sucessivos sinais qie a vida e a história não cessam de nos oferecer, desde nossas relações do chão do  dia-a-dia. Não basta que se produzam tais sinais. Se não há quem os capte, resultam culturalmente inócuos. Sua fecundidade  e sua eifcácia transformadoras brotam fundamentalmente de um permanente estado de busca, de uma prontidão de espírito, de uma contínua vigilância, como condição para nos darmos conta da existência de tais sinais. O teólogo José Comblin, em seu livro Um novo amanhecer para a Igreja? (Paulus, 2001) alude a esta atitude de vigilância, ao rememorar o hábito, em antigas cidades cercadas por muralhas, tendo na guarita um vigilante, a observar para fora da cidadela, e a quem perguntavam: “Custos, quid de nocte?” (Houve alguma novidade, durante a noite, Vigia? Vigia?). Episódio parecido é descrito em Isaías, 21. Sem esta disposição de nos pormos à escuta, à observação persistente, em especial em tempos tenebrosos, dos sinais mais sutis, não apenas não iremos longe, como podemos deparar-nos, tardiamente, com trágicas surpresas. Importa, pois, manter-nos despertos. Ernst Bloch falava do “sonho desperto”... Manter-nos em estado de busca! 

* Aprimoramento de nossa capacidade perceptiva dos sinais dos tempos O próprio estado de busca, tendo em vista o aumento de sua eficácia, implica um outro esforço: o de constante aprimoramento da capacidade perceptiva dos sinais. Com efeito, ler, interpretar, compreender os sinais constituem aquisição, fruto de empenho constante, de um lado, e, de outro, de incessante aprimoramento dos sentidos, em especial se e quando bem articulados: ver, ouvir, tocar, cheirar, degustar, sentir, intuir – cada um deles, e em seu conjunto, temos que exercitar, como instrumentos progressivamente aprimorados na captação dos mais distintos sinais. Neste ensaio, recorremos tanto às potencialidades da Natureza quanto às da Cultura, sempre tendo como bússola o “inédito viável”, ou seja, a incessante busca de fazer acontecer, desde já – ainda que de forma molecular – os sonhos que alimentamos, tanto em relação a um novo modo de produção, quanto a um novo modo de consumo e um novo modo de gestão societal.

João Pessoa, 08 de julho de 2017.















quarta-feira, 28 de junho de 2017

SUJEITOS HISTÓRICOS REVOLUCIONÁRIOS: ousando ensaiar passos de retomada, em novo estilo

SUJEITOS HISTÓRICOS REVOLUCIONÁRIOS: ousando ensaiar passos de retomada, em novo estilo

Alder Júlio Ferreira Calado

Tempos de crises societais mais agudas comportam, não raramente, um fenômeno paradoxal: de um lado, favorecem, em relação às forças sociais historicamente vocacionadas ao quefazer de transformação societal, certa apatia; por outro lado, também servem para o acúmulo de ações altervativas, a virem a lume, a seu tempo. Tudo está a indicar que vivemos um período assim: entre a apatia e um silencioso  acúmulo de sinergias mobilizadoras. Pesquisando situações similares, características de outros tempos, figuras como Max Weber e Ernst Troeltsch, entre outras, forneceram, a este respeito, elementos teóricos a serem tomados em conta. Referiam-se a uma certa alternância – para forças sociais de transformação - de tempos de intenso ímpeto mudancista e tempos de relativa calmaria ou recuo. Assim interpretavam a dialética entre o instituído e o instituinte, como um traço histórico próprio de movimentos sociais.
À semelhança de tudo que é humano, também os sujeitos históricos revolucionários – movimentos sociais, associações, cooperativas e tantas outras organizaçãoe de base de nossas sociedades – também se acham marcadas pelo inacabamento. Sendo, como são,  forças sociais transformadoras do status quo, sujeitas ao movimento da história, em seus altos e baixos, em seus períodos de ascenso, de descenso e de reascenso, não têm por que se renderem ao fatalismo, ao atravessarem momentos de pequenas ou de graves turbulências, como lhes sucede, na atualidade. Têm, sim, que seguir adiante! Não sem antes, fazerem sua autocrítica, sob pena de nada lhes adiantar seguir cometendo os mesmos desatinos históricos.

Em outras ocasiões recentes, já nos pronunciamos sobre a necessidade inafastável, para as forças que se pretendam comprometidas com mudanças substantivas, de fazerem autocrítica. Nestas notas, cuidamos de concentrar nossos esforços de reflexão crítico-prospectiva no aceno de experiências vivenciadas molecularmente por algumas organizações de base, em vista de atividades prenhes de alternatividade ao modelo hegemônico vigente. Nesse sentido, começamos por explicitar alguns critérios portadores de traços de alternatividade, que já inspiram e que poderão inspirar ainda mais fundamente os passos de retomada desses sujeitos históricos revolucionários, em novo estilo.

Que valores critérios se apresentam condizentes a uma retomada, em novo estilo, para tais forças grávidas de alternatividade? É fundamentalmente esta a questão que ora alimenta nossa reflexão, que tratamos de distribuir em alguns tópicos, de modo a contemplar as principais dimensões de uma sociabilidade alternativa ao modelo capitalista de produção, de consumo e de gestão societal. Trata-se de definir, coletivamente, quais os valores e critérios que devem inspirar os passos ensaiados, em vista da construção de um horizonte alternativo ao atual modelo hegemônico, de modo a se fazerem presentes nas mais diversas dimensões da realidade social, bem como de seus protagonistas. Destacamos os seguintes valores ou critérios de atuação, no cotidiano das relações dos sujeitos históricos revolucionários:
- Sentimento de pertença cósmico planetário de cada sujeito histórico revolucionário
Trata-se de nos entendermos, ao mesmo tempo, como seres de natureza e de cultura. Irmanados com os humanos e com todos os demais membros da comunidade dos viventes, somos natureza, animais, vegetais, minerais, marcados por características  e condições diversificadas e simultaneamente assemelhadas. Por outro lado somos, os humanos, também seres de cultura, vale dizer, conscientes do nosso inacabamento, vocacionados à liberdade, dotados de criatividade, de capacidade, de contemplação, e de fruição do belo, das artes, numa palavra, seres tecelões de unidade, na diversidade, seres promotores de interculturalidade.

- Sujeitos históricos revoluconários também marcados pela memória histórica, pela sede de aprender, pelos sonhos e utopias –Seres de natureza de de cultura,  buscamos na memória histórica nossas raízes mais fundas, repletas de lutas, conquisas, invenções, revesis, esperança... Ao nos Debruçarmos sobre o percurso histórico de povos  e lugares  e tempos mais diversos, colocomonos aí como seres aprendentes, sempre em busca de tercer as várias dimensões do tempo (passado-presente-futuro), buscando nesta diversidade fios de unidade, que nos façam, ao mesmo tempo, diversos e unos, irmanados com a Mãe Natureza e com os nossos ancestrais. Ao mesmo tempo também somos seres de desejo, de sonhos, de utopias, razão por que  nos sentimos vocacionados à liberdade, vale dizer seres criativos e inventivos, impulsionados pela busca do lemo, das artes, do “inédito viável” (Paulo Freire).

- A sociabilidade que almejamos ir construindo pressupõe protagonistas – mulheres e homens – livres, autônomos, que priorizem a vida comunitária, promovendo, ao mesmo tempo, a dimensão pessoal de cada protagonista, assegurando-lhe condições favoráveis de desenvolvimento de suas mais diversas potencialidades, com o que poderá melhor contribuir com as distintas comunidades, de que é parte viva. Tais aquisições, porém, não se dão espontaneisticamente nem por acaso. Antes, são expressão e resultado da dinâmica interação dos processos organizativo, formativo e de luta. Eis o útero social em que se forjam as condições de Liberdade, horizonte maior, para o qual se orientam tais sujeitos históricos revolucionários, também por vias de liberdade, e só por estas vias: em vão se pretende alcançar horizonte de Liberdade, a não ser por caminhos também de Liberdade.

Sujeitos revolucionários não se improvisam. Nascem da articulação permanente entre  os processos  organizativo, formativo e mobilizador. No processo formativo, por exemplo, tais sujeitos passam por uma formação contínua, protagonizada pelas forças sociais ou pelas organizações de base que tratam de assegurar, ao longo da vida de seus militantes, condições educativas, na perspectiva da Classe Trabalhadora. Nos diversos espaços formativos, são trabalhados cuidadosamente, no conteúdo e na metodologia, temas e questões tais como: A memória histórica, biografias de revolucionários e revolucionárias de referência, critérios de análise de conjuntura, estudo e discussão de temas e desafios relevantes da atualidade, principais obras dos clássicos, relações sociais de gênero, de etnia, de espacialidade, de geração, subjetividade, relações cósmicas, ecologicas, mística, evolucionária....

De que modo tais valores e critérios se materializam (ou devem) materiarlizar-se nas relações cotidianas dos sujeitos revolucionário? Eis o que buscamos explicitar, a seguir nas várias dimensões da realidade.

1) Na esfera da produção -  Começamos por perguntas do tipo: O quê produzir? Para quê (m) produzir? Quem e como se ocupará desta produção? Trata-se de apenas de alguns dos questionamentos que nos devem ocupar, nesta esfera da realidade.

Tomando em consideração os critérios e valores acima referidos, os sujeitos históricos, dispostos a retomarem, em novo estilo, passos em vista de uma sociabilidade alternativa ao modelo vigente, cuidam de ficar  atentos, em primeiro lugar, ao sentido de sua convivência, em harmonia, não apenas com os humanos, mas igualmente com toda a comunidade dos viventes.

Tal consciência ilumina as decisões também no plano da produção. O sentido desta, por exemplo, nada tem a ver com a avidez de acumulação de riquezas e bens, a serem apropriados e utilizados por poucos, em prejuízo das maioria de humanos e da Mãe-Natureza. Tanto coletivamente quanto no plano pessoal, o (con)viver bem (“Bien Vivi”)“ não depende de acumulação ou de concentração de riquezas e de bens, mas orienta-se a satisfazer as necessidades materiais do (co)existir. Não se precisa de supérfluos, tão pouco de esbanjamentos, ou desperdícios.

Nessa direção, é fundamental decidir-se coletivamente o quê é importante produzir, levando-se em consideração as reais necessidades materiais de cada um e do conjunto dos humanos e dos demais viventes, bem como a dignidade do Planeta (nada de produção que implique degradação das condições da Natureza – das fontes de água, dos rios, dos mares e oceanos, das florestas, do subsolo, etc., por conta do excesso ou das formas de exploração adotadas em funão do lucro... Também, nada de produção que implique a desfiguração dos humanos, a exemplo do trabalho escravo e das incontáveis e graves manifestações do trabalho precarizado, de que é impactante expressão o filme-documentário “Da servidão moderna”, cf.: https://www.youtube.com/watch?v=Ybp5s9ElmcY

No caso da formação econômica do Brasil e de outras sociedades colonizadas, a  precarização do trabalho é algo inerente, por exemplo, à lógica da monocultura. Não é por acaso, que a monocultura demande uma estrutura escravagista ou algo parecido. A lógica do monocultivo manifesta-se multiplamente danosa, seja em relação à Mãe-Natureza, seja em relação especificamente aos humanos.

Eis por que só temos a felicitar as numerosas iniciativas de multicultivo, de cuidado com o solo, com a vegetação nativa, de convivência com o Semiárido, respeitando-se os manejos a agroecologia – experiências que se têm multiplicado, mas que ainda representam um enorme desafio, a compará-la com o hidro-agronegócio...

Outro ponto a merecer atenção especial tem a ver com a relação cidade-campo. Não raramente, se constata um enorme fosso entre a vida da cidade e a vida do campo, quando, de fato, é a sua interrelação qu se deve destacar, afinal, “Se a roça não planta, a cidade não janta”; “Se destruírem a roça, a cidade não almoça”... Mas, tal interrelação vai muito além de um patamar estritamente econômico, de modo a alcançar outras esferas do (co)existir, inclusive a dimensão estética e do Sagrado...
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Nas mais distintas experiências de produção, seja nas atividades extrativas, na agricultura; seja nas atividades de produção artesanal; seja nas atividades de transformação industrial; seja na área da troca, na área da oferta de serviços, seja ainda no terreno do consumo, uma condição sempre relevante com que se preocupar, prende-se a fazer valer, na ampla diversidade de atividades produtivas, critérios equânimes de distribuição de riquezas e bens, de modo a evitar-se o império das odiosas desigualdades sociais e suas nefastas consequências para o Planeta e para toda a comunidade dos viventes.

2) Na esfera política -
Para sujeitos históricos que se pretendam revolucionários, resulta urgente e primordial a tarefa  de testemunharem, também no campo da Política, atitudes e ações alternativas ao modelo vigente, sem pretenderem, primeiro, “desbancar” o velho Príncipe, para só então, implantarem o “milagroso” modelo alternativo. Trágico equívoco seria cometido, e não pela primeira vez... Ou bem ensaiam, coletiva e pessoalmente, desde já, passos de alternatividade ao modelo combatido, ou virariam letra morta seus planos miraculosos, de mudarem, de repente, “água em vinho”... A este filme, aliás, já assistimos...

No espectro organizativo, por exemplo, consoante os critérios acima mencionados, os sujeitos históricos revolucionários parte dos “de baixo”, arrancam desde a base, fazem sua ação revolucionária brotar de pequenas comunidades – coletivos, círculos de cultura, conselhos populares, célula ou que outros nomes tenham. Coletivos fundados e mantidos duradouramente, espalhados por locais de trabalho, de moradia, de estudos, etc., ciosos de sua autonomia relativa, em que todos os participantes têm voz, vez e voto assegurados, enquanto protagonistas do processo. Para aí são trazidos e compartilhados as mais diversas questões relativas à conjuntura, às atividades programadas, à avaliação, e tomadas decisões. Não se tratando de orgãos estanques isolados, tratam de se conectar com as demais instâncias, por meio de delegados e delegadas eleitos. Funcionam com periodicidade semanal ou quinzenal, elegendo-se uma coordenação por um prazo determinado, findo o qual tais coordenadores voltam para a base, enquanto membros da base são eleitos para coordenação do período seguinte. Trata-se de mecanismos (a delegação e alternância de cargos e funções) de considerável potencial  revolucionário. A estes mecanismos, associa-se ainda seu investimento no autofinanciamento, isto é, na iniciativa de manter suas atividades, sem depender do Mercado ou do Estado, mas dos tostões arrecadados de seus próprios membros, de acordo com suas possibilidades.

3) – Na esfera cultural -  Nos processos organizativo, formativo e de luta, os sujeitos históricos revolucionários vão se forjando, no enfrentamento dos desafios do cotidiano, para o que resta determinante a articulação adequada das atividades mais diversas, cumpridas nas distintas esferas da vida. No caso da esfera cultural, mais diretamente, cuidam de lapidar sua condição de seres humanos, por meio do exercício de distintas atividades. Aprendem, dia após dia, a superar a falsa dicotomia estabelecida pela ideologia dominante, entre trabalho manual e trabalho intelectual. Temos de trabalhar com as mãos (e com a cabeça) nas tarefas caseiras, preparando a comida, cuidando da limpeza, trabalhando na roça, na oficina, praticando exercícios físicos. Aprendem a contemplar a natureza, por meio da qual também vão aprendendo a contemplar o belo, inclusive exercitando-se nas mais distintas linguagens artísticas. Em um de seus escritos de juventude, Marx aludia a uma das crueldades infligidas pelo Capitalismo: a de inviabilizar a parcelas expressivas de trabalhadores a oportunidade de contemplação artística – de contemplar um quadro, a de fruir um prato de fina culinária... Não importa qual seja a forma de linguagem artística – poesia, literatura, desenho, pintura, escultura, arquitetura, cinema, fotografia, dança, música... -, o ser humano não se humaniza sem recorrer também às artes, pela produção, pela contemplação, pela fruição.  
Ainda no campo cultural, vale ressaltar a importância das atividades voltadas ao aprimoramento contínuo da capacidade  perceptiva, de modo a que o ser humano seja capaz de ver melhor o que antes não percebia, ou percebia mal; o de escutar coisas novas, o de ler, interpretar e extrair ensinamentos concretos dos sinais dos tempos. Por meio do aprimoramento constante dos sentidos, da observação, e registro dos acontecimentos, os sujeitos históricos revolucionários também vão tendo condições crescentes de, não apenas lerem a realiade, mas também de reescrevê-la.

Considerações complementares  -

Diante de velhos desafios ainda largamente remanescentes, aos quais se agregam tantos outros de novo tipo, em vão, espera-se de nossos melhores clássicos, que deem conta do enfrentamento de questões como a necessidade e urgência de um novo tipo de militância, cuja formação adequada já não se deve restringir à formação política, mas, antes, ensaiar passos em direção a uma formação integral – da qual fazem parte, além da Política (apenas uma dimensão do ser humano), outras tantas dimensões, capazes de testemunhar um compromisso pessoal e coletivo de ir mudando a realidade, a partir de passos novos, coerentes com o sonho que almejam. Compromisso a ser cotidianamente renovado, pessoal e coletivamente, pelo exercício da mística revolucionária, de modo a refletir-se nos processos organizativo, formativo e de luta.

No que se refere especificamente ao processo de mobilização ou de luta, na próxima sexta-feira, dia 30/06, está prevista uma greve geral, instrumento necessário e oportuno para se fazer frente ao desmonte acintoso de políticas públicas essenciais. Com efeito, não bastassem as escandalosas falcatruas em que está metido o presidente Michel Temer, em escancarado conluio com o que há de mais asqueroso do meio empresarial, eis que se acha em curso um brutal desmonte dos direitos sociais (trabalhistas, previdenciários e outros) dos trabalhadores brasileiros, protagonizado pelos aliados de Temer, no Congresso e fora dele. Diante de tão grave ameaça à já frágil democracia brasileira, impõe-se aos sujeitos históricos revolucionários manifestarem publicamente, quantas vezes isto for necessário, não apenas sua indignação e sua revolta, como sobretudo irem forjando caminhos de superação, para além da pauta oficial.



João Pessoa, 28 de junho de 2017












sexta-feira, 23 de junho de 2017

CONTEMPLATIVAS NA AÇÃO: notas em busca de entendimento da Mística feminina, no Medievo

CONTEMPLATIVAS NA AÇÃO: notas em busca de entendimento da Mística feminina, no Medievo

Alder Júlio Ferreira Calado


Encerrou-se, no dia 14 próximo passado, o IV Seminário de Estudos Medievais, promovido pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos Medievais (GIEM), na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), tendo como tema dos trabalhos “Utopias Medievais”. Entre conferências, Mesas de debate, minicursos e outras atividades, prevaleceram amplamente os trabalhos acerca das místicas medievais, dentre as quais: Hildegard de Bingen (1098-1179), Hadewijch de Antuérpia (1190-1240), Mechthild de Magdeburg (1207 –1282/1294), Marguerite Porete (1230-1310), Christine de Pizan (1363-1430). Duplo é o objetivo das notas que seguem: 1) destacar aspectos biobibliográficos de algumas protagonistas da Mística feminina medieval, e 2) buscar compreender quais componentes principais movem ou estão por trás da Mística exercitada por algumas mulheres ligadas ao, ou protagonistas do Movimento das Beguinas, no Medievo.

1) Traços biobibliográficos de algumas Místicas medievais

A chamada Idade Média (conceito atribuído pelos modernos ocidentais, em especial, a baixa idade media, é pródiga em movimentos e experiências de caráter utópico. Com efeito, do século XI ao século XV, prosperaram fortemente tais experiências.

São deste período os movimentos pauperísticos – os Cátaros, os Fraticelli, os Albigenses, os Valdenses, os Goliardos, os Begardos, as Beguinas... Eis um conjunto de experiências comunitárias de contestação ao poder clerical, reinante durante a Idade Média. Tais experiências constituíram relevante prenúncio da Reforma que aconteceria alguns séculos depois. Tinham em comum, não apenas um protesto contra os hierarcas eclesiásticos, como também significativos elementos de rebelião em busca de uma nova sociabilidade, alternativa ao regime feudal protagonizado pela nobreza e pelo alto clero. Nestas características, encontram-se preciosas sementes de Utopia, revestidas de formas diversas de libertação -  autonomia, liberdade, justiça, prosperidade, dignidade dos desvalidos, que animam experiência do Divino... (cf., a propósito das atividades beguinais, por ex.:

Tratamos, em seguida de sumarizar alguns elementos sobre a vida e a obra de algumas místicas medievais, mulheres que cultivavam uma íntima experiência de Deus, vivenciada de maneia muito pessoal e independente do controle da hierarquia eclesiástica. Tratava-se de mulheres contemplativas na ação, na medida em que sabiam aliar sua experiência mística ao trabalha artesanal , bem como ao serviço aos desamparados da época – doentes, crianças, pessoas idosas, mulheres marginalizadas.

A) Hildegard de Bingen - Começamos pela figura de Hildegard de Bingen, uma beneditina alemã  que viveu entre 1098 e 1179, considerada uma precursora das Beguinas, ao menos no que toca ao reconhecido potencial intelectual, como escritora, como compositora, como filosofa e como mística. Como abadessa beneditina, Hildegard de Bingen foi também fundadora de alguns mosteiros. Como compositora, é de sua autoria um antigo drama litúrgico, “Ordo Virtutum”, além de mais de 70 poemas e cantos litúrgicos. Escritora prolífica, escreveu obras teológicas e textos de temas medicinais e de Botânica. A ela é atribuída um número expressivo de cartas. Fala-se em três centenas! Fato curioso foi sua canonização pelo Papa Bento XVI de q (cf. http://en.wikipedia.org/wiki/Hildegard_of_Bingen ). Fato que reforça suas multifacetadas potencialidades, que atraíam, em seu tempo, a admiração de papas, de bispos, de príncipes.

B) Fragmentos biobibliográficos acerca de Hadewijch de Antuérpia (1190-1240)  - Uma vez mais, cabe reiterar, de início, também em relação a Hadewijch de Antuérpia, a praxe histórica de invisibilização das mulheres medievais, em especial das místicas e das sábias. Não poucas delas foram vítimas de múltiplas práticas misóginas: desde a ocultação de seus escritos, passando pelo plágio, pela desfiguração parcial de seus escritos, pela apropriação indébita de suas idéias, à perseguição sistemática, à prisão e à condenação. No caso de Hadewijch, cenas se repetem. Dela se dispõe de poucas informações, em grande parte graças à extração desde seus próprios escritos, que lograram chegar aos dias de hoje. Tem-se seu período de vida como sendo proveniente de Antuérpia ou de Brabante, região dos Países Baixos, tendo vivido entre 1190 e 1240. Trata-se de uma mística e poetisa de grande talento, a cujos escritos se atribui a fundação da língua flamenga. Além de escrever poemas, relatos de suas visões de Deus, também escreveu numerosas cartas, endereçadas a um público seleto. Diz-se também tratar-se de alguém muito viajada,
mulher erudita, portadora de vastos conhecimentos de Teologia, de línguas clássicas, mas fazendo questão – como, aliás, as demais Beguinas – de escrever em vernáculo. Seu objetivo também era de compartilhar seus escritos, poemas, relatos de visões, produção litúrgica, etc. com as pessoas leigas de seu tempo. Eis uma empreitada considerada das mais ousadas e ofensivas, pelos hierarcas de então. Eram interpretadas como demasiado atrevidas, por diversas “razões”: ousavam confessar uma relação pessoal com Deus, sem a necessidade da mediação eclesiástica;
- atreviam-se a “viver religiosamente” sem pronunciarem votos ante a Instituição controlada exclusivamente por homens que se pretendiam proprietários do Espírito Santo e exclusivos produtores dos bens simbólicos;
- nutriam pesadas suspeições contra as mulheres, associadas a eterna fonte de diabólicas tentações...

Eis algumas das “razões”, que se podem destacar para o cometimento de diversos atos contra também Hadewijch de Brabante. Ainda que pouco se saiba quanto às circunstâncias mais precisas, é tida como uma mulher perseguida pela Instituição eclesiástica. Fato bastante verossímil, a considerar-se que seus escritos foram silenciados durante cerca de seis de séculos, “guardados” que foram a sete chaves... E ao reaparecerem, nem todos foram recuperados, sem mencionar o fato de trechos questionáveis, enquanto outros “aliviados” pelos guardiães dos referidos escritos. A este respeito, ver, por ex., o depoimento de Jacqueline Kelen:
Tal “atrevimento” custou-lhe – a Hadewijch bem como às beguinas sem vínculo eclesiástico – muita perseguição, prisão e exílio – preço característico da profecia, em todos os tempos e lugares...


C) Brevíssima notícia biobibliográfica sobre Mechthild de Magdeburg -  - À semelhança de outras Beguinas, também despontam relativamente escassos os dados sobre o percurso existencial de Mechthild. Consta ter suas raízes fincadas em Magdeburg, Alemanha, onde nasceu em 1207. Desde os doze anos, começa a ter visões místicas, que mais tarde viriam a ser registradas. Trata-se de uma pessoa movida por uma forte espiritualidade marcada por uma experiência de intimadade pessoal com o Divino. Também à semelhança de outras beguinas, vocacionadas a uma vida contemplativa na ação, Mechthild não pronuncia votos convencionais, como costumavam fazer as mulheres que escolhiam consagrar-se à vida religiosa do seu tempo. As beguinas – Michthild, por igual – preferiram exercitar sua mística, sem necessitarem subordinar-se a normas de vida consagrada ditadas pelo clero. O fato de não se contraporem explicitamente – até por uma eventual razão estratégica: a correlação de forças seria extremamente desigual... – aos ditames masculinos, não raramente de caráter misógino – não queria dizer que não fossem profundamente contemplativas, sem prejuízo de sua multiforme ação no mundo, seja como pessoas dedicadas ao trabalho manual (artesanato), seja ao trabalho intelectual (estudiosas da teologia, da liturgia, das línguas clássicas e modernas, das belas letras..., seja ainda, e não menos, ao serviço dos desamparados do seu tempo.

No caso de Mechthild de Magdeburg, também manteve-se, ao longo da vida, com bastante autonomia. Sua obra, composta de sete textos que recolhem seus escritos, relatos de suas visões e diálogos com o Divino, caracterizados por uma densa e profunda experiência de intimidade pessoal com Divino, enseja um visível mal-estar a membros da hierarquia eclesiástica, inclusive a quem eventualmente se mostrava “simpático”  aos seus escritos Um deles acabou reunindo seus escritos e publicando-os, mas não sem antes estabelecer critérios seletivos, de modo a omitir ou a mitigar aspectos dos escritos considerados menos palatáveis, aos olhos clericais do seu tempo. Em especial, incomodavam passagens mais fortes de uma experiência pessoal de profunda intimidade com Deus, interpretadas como algo estranho, se não desbordando para algo erótico... Mechthild viveu até por volta de 1283.

D) Dados do perfil de Marguerite Porete (Valenciennes, França, 1250-1310) – Um dos obstáculos que se interpõem às pesquisas de personagens ou coletividades vítimas da sanha do poder tem a ver com a escassez de fontes ou dados provenientes das mesmas vítimas. Não raro, tem-se que trabalhar com os dados fornecidos pelos sujeitos que as perseguiram. É o que também se passa em relação a Marguerite Porete. De todos os modos, sabe-se que viveu entre 1250 e 1310, tendo vivido em Valenciennes (França) adjacências. Trata-se de uma das místicas mais destacadas da Baixa Idade Média, sobretudo pela força de sua heterodoxia, interpretada como heresia, razão de sua condenação à fogueira, em 1310. Mística notabilizada pela sua coragem e coerência em não ceder aos apelos dos perseguidores, que, após aprisiona-la por um período, dela exigiam retratação, sobretudo pela imputação de cometer heresia, já que, em seus poemas e meditações, entendia que tal eram seus liames íntimos com Deus, que não necessitava de mediação eclesiástica nem do clero...

Ter-se-ia livrado da fogueira, caso abrisse mão de suas convicções. Dela pretendiam que renegasse sua principal obra – O Espelho das Almas Simples – e que aceitasse tirá-lo de circulação, e teria livrado a pele. Coerente, serena e confortada por seu Amado, ousou enfrentar a pena maior.

Não apenas no caso de Marguerite Porete, vale destacar o alcance da corrente de espiritualidade conhecida como a do Livre Espírito, associada ao pensamento de Giocchino da Fiore, em sua interpretação bíclico-apocalíptica da Idade do Espírito Santo, que se seguia à Idade do Pai e à Idade do Filho, numa interpretação das funções específicas de cada pessoa da Santíssima Trindade. A Idade do Espírito Santo é a era da Liberdade – “Onde o Espírito Santo se faz presente, aí renia a Liberdade.” 


E) Breve notícia sobre a vida e da obra de Cristine de Pizan (1363 – 1430 ) -  Outra personagem medieval que sacudiu a consciência do seu tempo, e para além do mesmo. Como sugere seu nome de referência geográfica (Pizzano), Cristina da Pizzano provém da região em torno de Bologna (Itália), nascida em 1363 e tendo vivido até 1430. Em virtude da profissão do pai, médico do rei da França, é educada na França, onde é conhecida como Christine de Pizan. O pai, além de médico, era um homem cultivado, professor universitário, astrônomo. Detentor de uma vasta biblioteca, onde a adolescente Cristina passava parte expressiva do seu tempo a ler distintas obras, inclusive os autores greco-latinos. Como era praxe, à sua época, casou-se muito cedo – aos quatorze ou quinze anos. Filhos aparecem, em seguida. Mas, cerca de dez anos após, seu marido vem a falecer. Para sustentar os filhos, decide não se recasar, mas, antes, dedicar o melhor de si a escrever profissionalmente. Foi a primeira mulher a manter-se dos livros publicados. Escreve poemas, depois textos ou livros, sob encomenda, que passam a fazer crescente sucesso. Mas, sem prejuízo dos escritos encomendados, também investe em textos de sua iniciativa, e com bem mais afinco. É o caso de sua obra-prima, A Cidade das Damas (1405). É, ademais, digno de nota seu talento não apenas de escritora. Ela própria cuida de todas as etapas requeridas na confecção de um livro, inclusive das imagens. Uma artista completa. (cf. sobre isto:

Em sua obra mais conhecida – A Cidade das Damas -, Christine de Pizan entrega-se a um labor de grande alcance edificante: o de recobrar a memória de mulheres de distintas épocas históricas, com o propósito de fazer um estratégico contraponto à tendência de ocultação, de invisibilização, de plágio, de apropriação indébita da produção literária, filosófica, teológica, científica de mulheres de várias épocas, em favor do pretenso monopólio dos homens na produção de saberes. Na mencionada obra, Christine de Pizan põe em cena três Damas – Razão, Retidão e Justiça – a dialogarem, acerca da autoconsciência a ser exercitada pelas mulheres, quanto às suas efetivas potencialidades intelectuais, éticas e políticas, a partir da rememoração de importantes figuras femininas do passado e  do presente. No primeiro livro desta obra, dedicada à Dama Razão as personagens em cena tratam de se queixar do desprezo sofrido pelas mulheres, por parte dos homens, por considerá-las desprovidas de inteligência e de saber. No livro II entra em cena a dama Retidão, em que prossegue o diálogo entre as mulheres acerca dos preconceitos e das violações por elas sofridos da parte dos homens, sempre contando com o aconselhamento criterioso da Dama Retidão. No livro III entra em cena a Dama Justiça, a rememorar diversos exemplos de mulheres sabias, cientistas e de grandes virtudes, tendo como propósito principal encorajar as mulheres a construírem uma cidade só de mulheres, em vista de assegurar-lhes as condições de pleno desenvolvimento de suas capacidades e virtudes

2) Considerações em busca de entendimento de componentes  da Mística feminina do Medievo

Há, com certeza, passos animadores, quanto ao reconhecimento da densa contribuição ao pensamento crítico das Místicas e das Mulheres da chamada Idade Média. Mas, convenhamos, resta ainda muita estrada a percorrer, nesse sentido. Debruçando-nos sobre o sua densa e vasta obra, cuidamos de ressaltar, nas linhas que seguem, cinco dimensões que entendemos presentes no exercício da Mística feminina do Medievo:  a) uma primeira, relativa a certa conotação erótica, presente em alguns de seus diálogos com o Divino; b) uma segunda, atinente a uma dimensão estética; c) uma terceira dimensão prende-se à sua postura ética; d) uma quarta dimensão concerne a um modo específico de lidar politicamente; e e) uma quinta dimensão está ligada à esfera econômica de organizar-se. Cumpre, todavia, tomar em conta a dinâmica interação dessas cinco dimensões, que nunca agem, em separado, ainda que cada qual possa ser observada mais fortemente do que outras, em certas circunstâncias.

a) Apelo erótico no exercício da Mística de figuras femininas medievais  - Há ou não uma Erótica subjacente ou implícita em trechos de obras das Místicas medievais? Eis a questão que nos ocupa. Em se tratando de mulheres que se queriam consagradas a uma vida de intensa espiritualidade, mas, ao mesmo tempo, sem tutelas eclesiásticas ou da família, não se deve desprezar sua vivência específica de Espiritualidade, desde uma perspectiva integral ou integrativa, isto é, de conceberem a vida humana (e dos demais seres) como dom de Deus, como um todo harmônico, composto de Natureza e Cultura, de modo a abraçar toda a vida humana. Neste sentido, não só não lhes aparece estranha a dimensão erótica da vida humana, mas como uma marca fundamental, um componente vital, associado a outros componentes igualmente fundamentais – a contemplação, o lúdico, o artístico, a dimensão econômica, etc. Aqui, convém alertar de que Eros não se confunde com erotismo, o que descambaria para uma apreciação reducionista e distorcida da função vital de Eros, em complementaridade com tantas outras dimensões do (co)existir humano.

Por outro lado, cumpre lembrar que as Místicas medievais eram mulheres eruditas, conhecedoras também da Teologia, familiarizadas com a Bíblia, com o Antigo e o Novo Testamentos, inclusive com os Salmos e o com o Livro do Canto dos Cânticos (Cantares).  Tal familiaridade permite-lhes, não apenas ler com naturalidade passagens do Canto dos Canticos como as adiante citadas,  como também nutrir-se de metáforas similares em seus diálogos com a Divindade. Com efeito, versículos tais como: “Ah! Beija-me com os beijos de tua boca! Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho” (Cânticos 1:2); “e suave é a fragrância de teus perfumes; o teu nome é como um perfume derramado: por isto amam-te as jovens.” (Cânticos 1:3); “Arrasta-me após ti; corramos! O rei introduziu-me nos seus aposentos. Exultaremos de alegria e de júbilo em ti. Tuas carícias nos inebriarão mais que o vinho. Quanta razão há de te amar!” (Cânticos 1:4) Terão exercido provável influência em momentos mais densos desses diálogos. Nesse sentido, não nos surpreendem trechos de poemas ou de visões por elas relatadas, tais como:

“Este laço une aqueles que amam
 de forma que um penetra inteiramente no outro,
 na dor ou no repouso ou na ira de amor,
 e come a sua carne e bebe o seu sangue:
 o coração de cada um devora o outro coração,
o espírito assalta o espírito e invade-o por inteiro,
como nos mostrou Aquele que é o próprio amor,
tornando-se o nosso pão e o nosso alimento,
e desfazendo todos os pensamentos do homem.
Ele deu-nos a conhecer que nisto
está a mais íntima união de amor:
comer, saborear, ver interiormente.
Ele come-nos, nós julgamos comê-lo,
e sem dúvida que o fazemos”.[1]

“Oh Dios, que te derramas en tu don!
Oh Dios,que resplandeces en tu amor!
Oh Dios, que ardes en tu deseo!
Oh Dios, que te fundes en unión con el amado!
Oh Dios, que reposas entre mis pechos, sin ti no puedo ser!.”[2]


b) Dimensão ética na experiência existencial de Místicas da Idade Média – Acoplada a outras dimensões da Mística feminina medieval, desponta também uma ética, como baliza de conduta específica destas místicas do Medievo. Sua principal característica reside da busca de uma vivência coerente entre o sentir, o pensar, o querer, e o fazer. Procuravam viver coerentemente com o que pensavam e sentiam da vida das pessoas de Deus. Neste sentido, a inspiração bíblica lhes era de capital importância, especialmente no que se refere à ação do Espirito Santo, dada a missão especificamente atribuída à Terceira Pessoa da Trindade, conhecida como doadora dos dons e inspiradora de liberdade. Como se dizia, “Onde está o Espirito aí há Liberdade.” (“Ubi Spiritus, ibi Libertas.”).

Em sua experiência pessoal de Deus as Místicas medievais, inspiradas pelo Espirito Santo sentiam-se motivadas a reconhecerem a diversidade como uma bênção, a ser acolhida e cultivada, como primeiro passo em busca da unidade. Tratavam de costurar os mais diferentes fios da diversidade humana e do mundo, como passo fundamental na busca da unidade: “unidade na diversidade”. Eis um critério que abre caminho contra preconceitos e intolerância, em especial em tempos de intensa misoginia, como se pode observar, por exemplo, nos relatos das personagens da obra principal de Christine de Pizan – A Cidade das Damas.

No exercício da Mística feminina, no Medievo, observa-se um cuidado especial com a observância de valores carregados de alternatividade aos valores hegemônicos de então. Tal postura explica, por exemplo, seu compromisso com a causa libertária dos segmentos mais vulneráveis daquela época: as mulheres, os enfermos, as pessoas idosas, as crianças, a quem dedicam o melhor de sua ação contemplativa e de suas práticas do cotidiano. Aos valores de dominação, propõem e testemunham práticas de solidariedade, de partilha, de horizontalidade, de fraternidade radical.  

c) Incidência de uma dimensão estética entre as Místicas do Medievo – As Místicas medievais também se caracterizam por um especial apreço pelo belo. A beleza constituía, com efeito, um traço dos mais importantes do seu estilo de vida. Traços de beleza podem ser observados em várias de suas produções artístico-artesanais, literárias, inclusive na confecção de seus livros. Um rápido olhar sobre algumas de suas obras, será bastante para se conferir a qualidade (também) estética do seu trabalho. Como ilustração, vale a pena conferir, de passagem, alguns exemplos de elementos estéticos elaboradas por Hildegard de Bingen, (cf. https://www.google.com.br/search?q=hildegard+of+bingen+ilustra%C3%A7%C3%B5es+ilumin%C3%A1rias&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwipisK1x9TUAhXDGpAKHWrFABIQ_AUICigB&biw=840&bih=435)

Exemplos igualmente extensivos a outras Místicas e sábias medievais, como a própria Christine de Pizan (cf.https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/236x/a4/08/61/a408614455dafd1826914db7d4fbe237.jpg


Reiteramos o zelo de Christine de Pizan em confeccionar várias ilustrações a comporem  sua produção literária.



d) Aspectos da dimensão política na experiência mística medieval – O agir político das Místicas medievais pode ser observado, igualmente, de vários modos. Um primeiro aspecto a destacar, remete à sua concepção e à sua prática de lidar com o poder. Diferentemente do estilo hegemônico da época, em que vigia o poder-dominação (de exploração, de possessão, de de marginalização...), as Beguinas e as Místicas testemunhavam um outro sentido de poder – o do poder-serviço, o do poder-partilha, o do poder-solidariedade. À prepotência machista reinante, opunham o testemunho do respeito às diferenças; em oposição aos privilégios de poucos, punham em prática o reconhecimento da dignidade de todos, a começar pelos segmentos mais vulneráveis da sociedade – os desamparados, os pobres, os doentes, as crianças, as pessoas idosas. À competição doentia opunham a convivência respeitosa dos direitos de todos, sobretudo das vítimas.

A práxis política das Beguinas orientava-se pelo respeito à diversidade, com se tratasse de múltiplos fios existenciais a serem costurados , em busca da unidade possível. Outro aspecto que merece destaque, na prática e na concepção de Política, por parte das Beguinas, prende-se ao seu lidar com as relações de poder em suas minúsculas manifestações, de que é pródiga a vida cotidiana. Tratavam de conferir sentido às relações moleculares, por entendê-las impregnadas de sentido tal como sucede nas macro manifestações de poder.

e) Incidência da esfera econômica na (con)vivência de Místicas do Medievo –
Por último, mas não menos importante, convém situar o lugar da produção no contexto da vida pessoal e comunitária das Místicas e das Beguinas, no período medieval. Considerando seu horizonte libertário, que implicava livrarem-se da tutela patrimonial e eclesiástica, estas mulheres trataram de criar as condições materiais como forma de viabilização de seu modo de vida baseado numa autonomia relativa frente às forças hegemônica de sua época. Para tanto cuidavam de distribuir adequadamente seu tempo e suas atividades, de modo a permitir uma vida sem tutelas. Algumas das Beguinas puderam contar com a herança de bens familiares, que trataram de orientar em favor de sua organização. Por outro lado, dedicavam tempo a trabalhos manuais e intelectuais, dos quais extraíam algum rendimento. Tratava-se de trabalhos artesanais, feitos a partir de diferentes matérias primas, aos quais se empenhavam em imprimir especial toque de beleza. Outras, uma minoria, empregavam parte do tempo como copistas, como compositoras, como escritoras, etc. Sobre esta última atividade, convém lembrar o exemplo de Christine de Pizan, que viveu exclusivamente do seu trabalho profissional de escritora.



Considerações sinóticas – Nestas notas, cuidamos de fornecer elementos que permitam a não-iniciados na temática, uma visão de conjunto sobre algumas alumas figuras femininas, protagonistas da Mística medieval. Nesse sentido, buscamos entendê-las, a partir de cinco componentes constitutivos ou presentes em seu estilo de vida, em especial em sua experiência de Deus, a quem costumavam tratar, em seus poemas e em suas visões, como o Bem Amado. Em tais experiências, destacamos as dimensões erótica, ética, estética, política e econômica, chamando, porém a atenção para a dinâmica inter-relação dessas mesmas dimensões.

Convém a leitoras e leitores dos nossos dias a lembrança de que, ao revisita-nos essas experiências prenhes de alternatividade ao modelo hegemônico vigente, poder vislumbrar, também hoje, continuidades dentro das descontinuidades, de modo que possamos descobrir que, também hoje, podemos registrar, “correntezas subterrâneas”, experiências moleculares, similares, de algum modo, às aqui aludidas. Como negar, por exemplo, que a densa experiência das Pequenas Comunidades de Religiosas Inseridas no Meio Popular (PCIs) ou como a organização das lideranças religiosas dos EUA, The Leadership Conference of Women Religious (LCWR) não constituem experiências atualizada das antigas Beguinas?





João Pessoa, 23 de junho de 2017





[1] Cf. RÉGNIER-BOHLER, Danielle Régnier-Bohler, “Vozes literárias, vozes místicas”, In: DUBY, Georges Duby, PERROT, Michelle, Perrot, História das Mulheres: a Idade Média, Vol 2, Porto: Edições Afrontamento, 1990, p.578.
[2]ÉPINEY-BURGARD, G; ZUM BRUNN, É. Mujeres trovadoras de Dios. Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica, 2007, p. 109.