quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019


IGREJAS AUTO-REFERENCIADAS (ECLESIOARQUIA) OU COMUNIDADES CENTRADAS NO SEGUIMENTO DE JESUS (BASILEACENTRICAS)?

Ainda que veiculada uma noção de Reino de Deus, as Igrejas cristãs, inclusive as reformadas, se comportam, salvo raras exceções, como igrejas auto referenciadas, que se bastam a si mesmas. Tal atitude comporta, por sua vez, todo um leque de consequências graves, ainda muito pouco percebidas, no nível da consciência, urgindo ajudá-las a despertarem deste estado.

No caso específico da Igreja Católica Romana, mesmo após cinquenta anos desde a realização do Concilio Vaticano II, cujos documentos centrais insistem na urgência de se rever um modelo de Igreja, com frequência, descolado da Tradição de Jesus, eis que muito pouca coisa mudou e, pelo correr da carruagem, tende a mudar. Povo de Deus - ao menos ao interno da Igreja Católica Romana - que, numa acepção ortopráxica de Reino de Deus, deveríamos estender para toda a humanidade – é situado pela Lumen Gentium como o sujeito coletivo corresponsável pela organização da Igreja Católica Romana, razão por que vem tratado antes da hierarquia. Seria de se esperar que, passado mais de meio século, isto tivesse alterado visivelmente o modelo de organização da própria Igreja. Não é o que se vê. A hierarquia segue comportando-se como único sujeito decisivo da gestão eclesial, por mais que o atual Bispo de Roma não cesse de chamar a atenção, inclusive mediante documentos emblemáticos, como o faz na Evangelii Gaudium, ainda muito pouco lida pelo clero e, menos ainda, levada a sério.

Por outro lado, cumpre lembrar que o Concílio Vaticano II, realizado há mais de cinquenta anos, foi convocado pelo Papa João XXIII, em 1959, como um ponto de partida – não um ponto de chegada -, ante décadas de atraso em que andava mergulhada a Igreja Católica Romana. Mais recentemente, em sua última entrevista, o Cardeal Carlo Maria Martini, quando perguntado sobre sua avaliação da atual situação organizativa da Igreja Católica, não hesitou em responder que ela se achava com uns duzentos anos de atraso (https://tg24.sky.it/cronaca/2012/09/01/carlo_maria_martini_morte_ultima_intervista_corriere_chiesa_indietro_200_anni.html )... Pois bem, mesmo diante de tal sentimento e o de que o Concílio Vaticano II tenha sido realizado, há mais de meio século, como um ponto de partida, seguem engessadas e pesantes as estruturas eclesiásticas, a despeito da posição profética do Papa Francisco. Ainda bem recentemente, ao intervir no final da Conferência sobre os escândalos de abusos sexuais, na Igreja Católica Romana, o Bispo de Roma lembrava a necessidade da participação das mulheres católicas, nas decisões eclesiais. Sendo assim, reduzem-se as esperanças de segmentos não-hierárquicos – e até de minorias dentre os componentes do próprio clero – de que continuam mínimas as chances de alteração desta ordem de coisas. Em outras palavras, se em tempos passados, os próprios componentes da hierarquia eclesiástica, sentindo-se pressionados pelas urgências de novos tempos, aceitavam ceder a tais pressões e introduziam algumas alterações nas estruturas eclesiásticas, convencidos de que “Reformata, Ecclesia reformanda est”, no presente, contudo, não há sinais de que mudanças necessárias e urgentes venham a acontecer, a dependerem apenas do segmento clerical...

Eis por que cresce o sentimento, entre as fileiras das Batizadas e dos Batizados católicos, de que em vão esperam dos hierarcas eclesiásticos iniciativas de mudança deste panorama, e, em consequência, vão se mostrando dispostos a darem, eles mesmos, elas mesmas – passos em direção a efetivas mudanças. Prova disto dão os crescentes grupos e movimentos protagonizados por Leigos e Leigas, em todo o mundo católico, ao tomarem iniciativas de vários tipos.

Há, por um lado, grupos e movimentos de Leigos e Leigas que seguem empenhados em dialogar fraternalmente com o segmento clerical, inclusive por meio de convites, documentos e notas de solidariedade à atuação pastoral-profética do Bispo de Roma. Outros há que, sem qualquer intenção de provocar rupturas ou mal-estar, ousam dar passos no limite de suas atribuições canônicas. Outros, contudo, já começam a dar sinais de certo cansaço, e se atrevem a ultrapassar os limites de suas atribuições canônicas, sob alguns aspectos. Por exemplo, ainda recentemente, deu-se a conhecer uma convocação de um sínodo de Leigas e Leigos, por iniciativa própria, um sínodo autoconvocado. Notícias também circulam de iniciativas comunitárias de celebração da Ceia do Senhor, sem a participação de um presbítero ou, com a presença deste em igualdade de participação com os demais membros da comunidade, como aliás se fazia entre as primeiras comunidades cristãs...

À parte excessos cometidos, aqui e ali, somos forçados a reconhecer a ausência de sinais convincentes, da parte dos responsáveis pela manutenção da atual estrutura organizativa eclesiástica, de se sensibilizarem efetivamente diante desse clamor de renovação. Tal posição enrijecida em nada ajuda a unidade da Igreja Católica Romana. Pelo contrário, contribui para incentivar gestos de ruptura, cujo desfecho não nos anima na direção do diálogo e da unidade dentro da diversidade, a médio e longo prazos.

Diante de tais impasses, que iniciativas ajudariam na direção de uma superação dos mesmos? A título de contribuir com esse diálogo, ocorre-me partilhar algumas ideias, ciente e respeitoso de tantas outras.

A despeito de certa descrença, por parte de alguns grupos e movimentos católicos progressistas, de que não se tem muito a esperar do segmento clerical, entendo não devermos descartar reiteradas tentativas de diálogo, seja com membros ou instâncias hierárquicas abertas a tal iniciativa, seja com quaisquer outros segmentos eclesiais dispostos ao mesmo exercício.
Isto não impede que se vá mais longe, de modo a ousarmos passos ainda não ou pouco tentados. Por exemplo:
- Que tal empreendermos passos em direção a um debate maior e a inciativas de organização mais atuante, a médio e longo prazos, do segmento eclesial protagonizado pelas leigas e pelos leigos, inclusive com vistas à organização de conferências nacionais (como primeiro passo para a organização de conferências continentais)?
- Por que não ousarmos passos, a médio e longo prazos, com vistas a um novo Concílio a ser desta vez protagonizado, por delegações proporcionais de todos os segmentos eclesiais?
Convém ressaltar que tais iniciativas constituem apenas algumas de tantas possibilidades a serem debatidas e amadurecidas, não apenas pelo segmento eclesial composto pelas leigas e pelos leigos, mas pelo conjunto católico de Batizadas e Batizados, compromisso a ser assumido no tempo que o Espírito do Ressuscitado nos inspirar...
João Pessoa, 27 de fevereiro de 2019. 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

VENEZUELA: VIA BELIGERANTE ABORTA SAÍDA DEMOCRÁTICA


VENEZUELA: VIA BELIGERANTE ABORTA SAÍDA DEMOCRÁTICA

Alder Júlio Ferreira Calado

No momento em que estas linhas estão sendo digitadas, deve estar iniciando, em Bogotá, um encontro com lideranças e chefes de Estado do continente, acerca dos próximos passos a serem dados, com vistas a uma suposta saída do impasse venezuelano.

A Venezuela segue a desafiar o processo democrático, seja por vias endógenas seja por via exóginas. Nos últimos meses e nos últimos dias, agiganta-se o risco de uma conflagração sangrenta, de grandes proporções, de modo a abortar o caminho democrático como única condição de uma saída democrática, de alcance razoável. Não nutro simpatia pelas escolhas em curso do regime venezuelano. Tenho, de minha parte uma posição próxima da manifestada pelo sociólogo François Houtart (cf., por exemplo: https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/4834924.pdf ).

Independentemente de qual seja a avalição sobre as escolhas do Governo de fato e legalmente instalado da Venezuela, sucessivas tentativas endógenas e exógenas de superação da atual crise têm resultado frustradas. E, ao que parece, as mais recentes tentativas emitem sinais de nova frustração. E o que nos leva a sinalizar nesta direção? Cuidemos, a seguir (brevissimamente), de pontuar alguns elementos, tomando em consideração uma sucessão de análises de um amplo espectro político-ideológico, indo de analistas venezuelanos a comentaristas europeus; indo de uma interpretação de Causa Operária, passando por boas análises disponibilizadas pela Boitempo, a interpretações de Breno Altmann, de Boaventura de Sousa Santos... (Sobre este último, ver:

Nas linhas que seguem, limitamo-nos a destacar, rapidamente, elementos em forma de questionamentos que considero importante compartilhar.

É sabido que crises humanitárias acontecem, neste instante, em diferentes países, mundo a fora, a merecerem iniciativas internacionais de verdadeira ajuda humanitária. Por que será que o caso Venezuela - que está longe de ser o mais grave - desperta tanto sentimento de solidariedade?

O que os pobres da Venezuela têm de tão importante - a mais do que outros povos - para merecerem tanta atenção e interesse, desde Trump e seus aliados?

No passado - recente e menos recente -, em que resultaram tais ajudas humanitárias (inclusive no Brasil dos inícios dos anos 60, com a participação de organismos tais como a USAAID)?

Em que resultaram, na pratica, ações de intervenção similares, no Iraque, na Líbia, etc.?

Pode-se mesmo dizer que daí rebrotou a Democracia? Qual Democracia?

À parte eventual (e duvidoso!) Interesse humanitário de grandes corporações estadunidenses e respectivos governos aliados, será que o petróleo deve ser considerado seu alvo especial?

Que saída democrática é possível, sem a participação decisiva das diversas forças que constituem o povo venezuelano? É o povo venezuelano ou são as forças exógenas a quem deve caber a decisão, em busca de uma saída democrática?

As potências e os grupos externos, tão interessados em determinar o destino do povo venezuelano, achando-se em semelhante situação, aceitariam a saída que se está a propor, inclusive a da criação de um presidente autoproclamado?

Com relação à propagada "ajuda humanitária", esta alcança que ordem de valor (20 milhões de dólares), quando comparada ao sequestro de dezenas de bilhões de dólares, feitos pelo Governo Trump, contra o povo venezuelano?

No caso do Governo brasileiro diante de profundos desafios enfrentados, não será, no mínimo, temerária uma adesão incondicional à tese de invasão (ou algo semelhante) do território venezuelano?
Diante da conhecida e reconhecida tradição diplomática do Brasil, no conjunto das nações, não parece evidente seu perfil já provado e aprovado, em vez de um perigoso adesismo às soluções de força?

João Pessoa, 25 de fevereiro de 2019.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

RICARDO BOECHAT, UM JORNALISTA DIFERENCIADO: traços do perfil de um cidadão aguerrido



Alder Júlio Ferreira Calado

As linhas que seguem, já haviam sido concebidas há algum tempo. Somente agora, contudo, num contexto de comoção pelo trágico acidente de que foi vítima há uma semana, é que vêm a público. De todo modo, entendo dever compartilhar, a quem interessar possam, algumas ideias que sua trajetória – principalmente, nos últimos anos – me inspira.
Seria supérfluo de minha parte, assinalar não ser necessário subscrever todas as teses de Ricardo Boechat – como, aliás, de qualquer outra figura -, mas, considerando tempos de pós-verdade e de “Fake News”, prefiro fazê-lo. Sem qualquer pretensão de classificar seu perfil político, apenas assiná-lo que o avalio como um democrata progressista, apartidário, com notáveis traços anárquicos. Aqui e agora, me ponham a realçar alguns aspectos de seu percurso profissional, que me tocam mais particularmente. E o faço, centrando atenção em 3 dimensões que hora sublinho: a dimensão ética, seu senso de humor, sua inventividade.
Do ponto de vista ético, Boechat começa a despertar a atenção pelo fato de declarar-se com certa frequência um ateu. Para um largo público, isto já seria suficiente para tomar-se cuidado com seus ditos e escritos. Eu não estranharia a divulgação, por certos segmentos de nossa sociedade (os segmentos fundamentalistas) de uma interpretação, segundo a qual o acidente de que foi vítima teria sido um castigo de Deus... É triste ouvir esse tipo de interpretação! Simplesmente, denuncia nossa profunda cegueira humana e, em relação ao mundo dito cristão, uma traição ao Evangelho do “poeta da compaixão”.
O que se poderia dizer do comportamento ético apresentado nos mais distintos ambientes jornalísticos e não jornalísticos, por esta figura emblemática? É conhecida e reconhecida sua postura de transparência. Com frequência, é capaz de expor, sem restrições, sua posição jornalística e de cidadão, ao ancorar situações e fatos, os mais espinhosos. Independentemente dos riscos de equívocos, que tantas vezes enfrentou, ao comentar questões extremamente polêmicas, não hesitava em dizer seu lado, agradasse ou desagradasse a ouvintes e telespectadores. Qualidade rara, num contexto dominado pelo “paradigma da pós-verdade” principalmente considerando-se os limites de sua função de jornalista, perante as redes de comunicação a que estava profissionalmente vinculado. Comentários e críticas contundentes dele se ouviam, diariamente, a cerca de tantos fatos e situações, seja no âmbito da Política, seja no âmbito da economia, etc. Quando eventualmente se sentia flagrado em equívoco, não hesitava em reconhecer publicamente, após o cuidado habitual de averiguar suas fontes, algo nada comum no jornalismo dominante, no Brasil e alhures. A despeito de seus limites como ser humano, suas atitudes sinalizavam uma paixão pela verdade. E o fazia, não em nome de alguma religião ou de algum deus – declarava-se ateu -, mas em razão de sua consciência e de seu compromisso com a verdade. Tal atitude contrasta, frequentemente, com a de tantas figuras que, em nome de Deus ou de sua religião, agem com esperteza, com meios termos, reféns da conveniência e de seus interesses inconfessos. “Este povo me louva com os lábios, mas longe e mim está o seu coração”...

Chama igualmente a atenção sua abertura diante de pontos de vista diversos dos seus, bem como soa impactante seu senso de autocrítica. Em não raras situações, em que analisa determinadas atitudes alheias eticamente reprováveis, especialmente quando ao trazer seus argumentos denunciativos, costumava levantar hipóteses, incluindo a si mesmo ou os seus, como possíveis alvos da mesma crítica, para confirmar que sua posição seria a mesma com que trata erros alheios. Procedimento eticamente bastante saudável!
Ainda quanto à dimensão ética de seu perfil de jornalista e de cidadão, importa destacar seu extraordinário senso de justiça, bem como sua sensibilidade e solidariedade para com toda sorte de vítima de injustiça. Ao perceber qualquer fato concreto ou qualquer situação objetiva  envolvendo, não importa quem, não media esforço nem palavra para se posicionar em defesa da vítima, com admirável coragem. Desassombrado, passava a denunciar o fato e a cobrar responsabilidade, fosse quem fosse a fonte de injustiça. Não é à toa nem por acaso o número de processos de que foi vítima, situação que não o continha, em seu ímpeto de denúncia, fosse o alvo qualquer esfera de poder ou qualquer autoridade de referência, de direita ou de esquerda, ou de centro... O caso mais recente sobre o qual se debruçou durante semanas, foi a ruptura da barragem de Brumadinho, inclusive no dia mesmo do acidente que resultou no seu precoce desaparecimento.

Ricardo Boechat sempre se mostrou um crítico mordaz do Estado brasileiro, em todos os seus aparelhos. Lidava com relativo pessimismo quanto às chances de mudança do Estado, com relação ao atendimento das demandas sociais, em especial relativas aos segmentos majoritários da população. Exemplo desta postura habitual eram seus comentários, durante as campanhas eleitorais...
Outro aspecto relevante em sua atuação jornalística e de cidadão, prende-se ao seu extraordinário senso de humor. A este respeito, são abundantes os testemunhos compartilhados por tanta gente que o conhecia de perto. Um senso de humor inteligente, criativo, a evocar, por exemplo, as travessuras dignas de um repentista. E aqui não me refiro apenas à sua atuação em parceria com o humorista José Simão, nos momentos diários de humor, divulgados pela Rádio Band FM, mas em tantas outras ocasiões, inclusive durante os intervalos de programas por ele apresentados. Como exemplo ilustrativo, sugiro conferir a seguinte entrevista, concedida em 2011: https://www.youtube.com/watch?v=_DQ05_MXHlo .

Um outro aspecto que dele/nele merece ser ressaltado tem a ver com seu alto potencial criativo. Em múltiplas e embaraçosas situações, sempre dava a conhecer seu talento de inventividade. A começar pela excelência de articulação de seu discurso (oral ou escrito): revelava-se um exímio tecelão de palavras, destacando-se pela riqueza vocabular, pela propriedade dos termos empregados e pela fluência sintática.

Num cenário de escassez de exercício crítico da cidadania e de condutas duvidosas de lideranças e de profissionais da imprensa, faço votos de que  o legado de Ricardo Boechat, como cidadão e como jornalista, inspire e fortaleça o compromisso com a defesa e promoção da dignidade dos injustiçados.

João Pessoa, 19/02/2019

terça-feira, 29 de janeiro de 2019


O DESERTO É FÉRTIL: partilha de uma semana de experiências nas "correntezas subterrâneas”

Alder Júlio Ferreira Calado

Com um ano de antecedência, por ocasião da II Romaria da Terra, realizada em Santa Fé (Solânea-PB), em memória do Padre José Comblin, foi agendado o compromisso, relativo ao fraterno convite feito pela Associação dos Missionários e Missionárias do Campo (AMMC) e pela Fraternidade do Discípulo Amado (FDA), para acompanhá-los e acompanhá-las, em seu encontro anual de 2019, no Sítio Catita, em Colônia Leopoldina - AL, onde se acha o Mosteiro da Fraternidade do Discípulo Amado, num sítio que fica a uns 12 Km (serra acima), de Colônia Leopoldina. Como previsto, o encontro se deu, durante o período de 18 a 25 próximo-passados, com a participação de cerca de 30 membros de ambas as entidades. O alegre e tocante convite feito - e imediatamente acatado, com humildade e alegria - propunha a participação e acompanhamento de minha parte, no sentido de ver, ouvir, sentir e ressoar, junto aos participantes, acerca do que era refletido e partilhado por todos, por todas que do encontro participaram.

Da densa programação vivenciada destacam-se os seguintes pontos: marcantes momentos de oração comunitária e pessoal; relato de cada participante acerca de sua caminhada pessoal, familiar e comunitária; celebração, em Tacaimbó - PE, dos 50 anos da Teologia da Enxada; retiro tendo como principal "matéria-prima" e ponto de partida, as partilhas vivenciadas; a consagração de um novo membro da AMMC; a renovação dos compromissos daqueles e daquelas que pertencem à AMMC - alguns desde a fundação, há 25 anos; prestação de contas pelos membros da atual Coordenação dos trabalhos e atividades realizadas, no curso de último ano; eleição de membros para a Coordenação, em vista do próximo período.

Nas linhas que seguem, propomo-nos ressoar alguns aspectos da vivência desta densa e profunda experiência, digna da fecundidade característica
das "correntezas subterrâneas" que irrigam e tornam viçosas as experiências aí em curso, qual "deserto fértil", usando uma expressão cara a Dom Helder Câmara.

Desta rica experiência, ainda que correndo o risco de omissão, atrevo-me a mencionar os seguintes nomes, por Estado e por ordem alfabética (incluindo crianças e adolescentes):
Alagoas: Analene, Benedito, Cacau, Flaviano, Gabriel, Márcio, Sebastiana, Sirlene, Solange, Valdo;
Bahia: Genival;
Maranhão: Luiz Barros, Robertinho;
Paraíba: Ana, Clara, Deda, Francisco, Lucinha, Meirinha, Pedro, Severo;
Pernambuco: Barbosa, Catarina, Cida, Filipe, Geovan, Glaudemir, João Batista;
São Paulo: Alessandra, Maria Eduarda, Rafaela, Risal;
Sergipe: Jaime, Júnior, Moisés, Nanai;

Também os ausentes se fazem presentes, dentre os quais: Ana Cláudia, Raminho, Irmã Zarita, Irmã Marival, Alexandre, José Florêncio...

Quem é, e de onde vem essa gente?
Trata-se de missionários e missionárias vocacionados a trabalharem como e entre os pobres, no campo e nas periferias urbanas do Nordeste. Vêm da Teologia da Enxada, iniciada há meio século, e protagonizada por jovens (hoje, adultos e alguns já idosos) do campo e das periferias urbanas, que, sentindo-se vocacionados a servirem à Tradição de Jesus, orientados e alimentados pelos valores do Reino de Deus e Sua Justiça, seguem entregando-se ao convívio entre os pobres, seja como contemplativos (Fraternidade do Discípulo Amado), seja como casados, vivendo em família, a serviço da causa do Reino de Deus (Associação dos Missionários e Missionárias do Campo – AMMC, Escolas de formação Missionária). Alguns vivem em assentamento; outros e outras vivem do trabalho da roça (agricultura, criação de pequenos animais, apicultura), outros fazendo objetos do artesanato nordestino, há quem ganhe a vida como ambulante, como gari, outros vivem de sua aposentadoria, e há quem também receba contribuições em função de assessoria (por exemplo, à CRB), assim ganham o pão de cada dia. Suas respectivas associações são mantidas graças a uma caixa comum, alimentada pelas contribuições dos seus sócios e sócias e de colaboradores. Desde o Maranhão à Bahia, vivem inseridos no meio popular, como missionárias e missionários, enquanto outros e outras consagram-se à vida contemplativa, num mosteiro de leigos e leigas, que também trabalham para se manterem. Levam uma vida de simplicidade, com um estilo de vida muito próximo da média do povo dos pobres.

Encontros anuais

Tendo em vista a distância geográfica em que vivem, costumam encontrar-se todos os anos, no Sítio Catita, para realizarem atividades de formação contínua, para aprofundarem momentos conjuntos de oração mais intensa, para avaliarem e planejarem sua caminhada, para deliberarem sobre pendências, por meio de sua Assembleia Geral. A grande importância que atribuem a esses encontros pode ser dimensionada pelo enorme sacrifício que fazem, para se deslocarem de grandes distâncias, assumindo custos nada desprezíveis (há deles e delas que chegam a desembolsar até em torno de mil reais, para poderem participar desses encontros anuais). Além dos encontros anuais, também eles e elas se visitam, com certa frequência, conforme suas possibilidades.

Pontos fortes do Encontro 2019

Oração: Memória e Compromisso: Os vários ramos da família combliniana (centro de formação de Missionárias populares, grupo de peregrinos e peregrinas, escolas de formação missionárias e outras) trazem em comum o empenho pessoal e coletivo na oração diária. Trata-se de dedicar momentos de sua jornada para expressarem sua fé por meio da oração. Uma oração que manifesta traços admiráveis, dentre os quais:
- Por meio de sua oração exercitam a memória e renovam os compromissos com a causa do Reino de Deus e sua justiça;
- Com o canto salmódico (Sl 51 - "estes lábios meus vem abrir, senhor"-), faz-se a entrada na oração, momento seguido da "recordação da vida", seguindo o Ofício Divino das Comunidades, livro emblemático da espiritualidade de quantos e quantas seguem a Teologia da Enxada;
- Os cantos bíblicos, conforme o tempo litúrgico, cantados ou recitados, de modo compenetrado, instigam o louvor e a memória: a memória de diferentes momentos da caminhada do povo de Deus, ao longo da história;


- em se tratando de uma oração encarnada/contextualizada, o exercício da memória da caminhada do Povo de Deus, de ontem e de hoje, ajuda-os/as a reforçarem o compromisso com a causa do Reino de Deus, à medida que os/as inspira, numa perspectiva de maior entrega e solidariedade com todas as vítimas de injustiças e de perseguições;
- impulsiona-os/as ao aprendizado, na leitura e interpretação dos sinais dos tempos, e a busca de toma-los a sério, na convivência do dia-a-dia;
- Instiga-os/as a aprimorarem sua capacidade perceptiva, sua sensibilidade, em relação às dores, aos sofrimentos, mas também às alegrias e às esperanças do povo dos pobres; - todos esses (e outros) traços são ainda mais reforçados pela força transformadora dos cantos escolhidos para esses momentos, dentre os quais ocorre-me destacar, por exemplo: “Seduziste-me, Senhor”; “Antes que te formasses dentro do seio de tua mãe”, “Virá o dia em que todos, ao levantarem a vista, veremos nesta terra reinar a Liberdade, “Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão entre outros;
- Vale, ainda, destacar, no modo como se vivenciam os momentos de oração comunitária, o permanente cuidado, não apenas com o envolvimento de cada um, de cada uma, em ser responsável pela condução da oração, a cada dia, como também com o envolvimento dos membros mais jovens (adolescentes e crianças) nas atividades e leituras deste momento.

Tais momentos de oração também constituem preciosa ocasião formativa, à medida que, não apenas os/as recém-chegados/as, como também quem já está na caminhada há mais tempo, todos se empenham em fazer novos aprendizados e a irem incorporando-os em seu dia-a-dia, resultando daí elementos relevantes de seu processo organizativo e de sua ação mobilizadora, no quadro geral de seu processo de humanização;

Exercício de partilha

Já no segundo dia, após a chegada, reunindo-se num grande círculo, no principal salão daquele mosteiro, passou-se à socialização, por parte de cada participante, de trechos relevantes de sua experiência missionária, tal como vivenciada, no âmbito familiar, no plano comunitário, no trabalho e nas atividades missionárias desenvolvidas, nos últimos meses. Eis um outro momento de denso aprendizado para todos, sob vários aspectos:
- como se dá no dia-a-dia de cada pessoa, na vida em família, nos desafios enfrentados pela comunidade local (enfrentamento dos desafios de violência que vitima os jovens, os pobres as mulheres);
- na labuta nos assentamentos – os trabalhos na roça, a produção, a lida com os pequenos animais, com a apicultura, com as feiras agroecológicas, as marchas de solidariedade com os sem-terra e os sem-teto;
- os desafios da convivência com as comunidades das periferias urbanas;
- as vivências desafiantes em lugares com jovens e adultos dependentes de drogas, sofrendo toda sorte de influência e pressão do comércio de drogas;
- o constante exercício de discernimento para se lidar com uma vasta diversidade de perfis humanos.


Retalhos da celebração dos 50 anos da Teologia da Enxada, em Tacaimbó – PE

As chuvas que vinham caindo, nos últimos dias, sobre o solo encharcado da Serra do Catita tornavam mais difíceis os deslocamentos, naquela região. Mesmo assim, em um pequeno ônibus, saímos por volta das 6 horas, e seguimos viagem em direção a Tacaimbó. Por volta das 10 horas, estávamos chegando. A antiga cidadezinha de Tacaimbó de há cinquenta anos atrás havia mudado sensivelmente: muitas coisas haviam mudado, a olhos vistos: a população crescido rapidamente, novos bairros, novas ruas. A cidade estava em festa, inclusive com serviço de som a tocar canções características da caminhada da Teologia da Enxada, em especial “Eu acredito que o mundo será melhor, quando o menor que padece acreditar no menor” (Jorge Pereira de Lima, agricultor sergipano). Dirigimo-nos inicialmente, à sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, onde fomos acolhidos, com muita afeição, e onde nos foi servido um café saboroso. Em seguida, marchamos em direção à Matriz, em cuja lateral foi aposta uma placa comemorativa, com a presença do vigário local e do prefeito do município, Álvaro (que também passou pela trajetória da Teologia da Enxada, com sua mãe). Este momento foi coordenado pelo Monge João Batista Magalhães, apresentando as pessoas, chamando-as para uma breve fala, e também partilhando seu sentimento, como um dos fundadores da Teologia da Enxada, juntamente com figuras tais como Pe. José Comblin, Raimundo Nonato Queiroz (bem representado ali por sua esposa Cida Queiroz e seus filhos Catarina e Filipe), João Moura, João Firminio, Maria Emília Ferreira, contando com a participação também de Pe. Pedro Aguiar, de Frei Enoque, Antônio Gudes, o prof. Heleno, o prof. Adauto Guedes e tantas outras pessoas. Encerrado este momento, a marcha segue. Desta vez, em direção a uma Escola Pública local, em cujo auditório as pessoas participantes foram acolhidas, para um momento de rememoração desta caminhada. Foi formada uma grande mesa, à qual foram sendo convidadas diferentes pessoas da comunidade local, que haviam também protagonizado a história da Teologia da Enxada, em Tacaimbó, sendo convidadas a darem seu testemunho. Com a coordenação de João Batista, feita com muita leveza e discrição, pudemos ouvir com atenção e com emoção densos testemunhos, de cujo teor destacamos:
- a gratidão àquele grupo de seminaristas e sua Equipe de formadores e formadoras, pelo seu testemunho de pobreza e de compromisso com a causa libertadora dos pobres;
- a vida de simplicidade, a vida de trabalhos, a convivência fraterna com as pessoas da comunidade local, inclusive ajudando-as em seus trabalhos na roça;
- a construção de cerca de uma dezena de casas simples, feitas em mutirão;
- o importante apoio às lutas populares, às reivindicações da comunidade, à luta sindical, o apoio a candidatos da própria comunidade, como foi o caso do Prof. Antônio Guedes.

Na mesma Escola foi servido um almoço simples e bem preparado aos participantes. Já por volta das 14h30, seguimos em marcha em direção à Matriz, onde foi celebrada a Eucaristia, contando com muita gente da comunidade e um bom número de pessoas visitantes e solidárias à caminhada da Teologia da Enxada, dentre as quais:
- uma comitiva de irmãos e irmãs evangélicos (Pastora Elivete, Pastor Quino, Bispo Sebastião Armando e Madalena (sua esposa), Lindolfo, o casal Edvaldo e Anilda, da Fraternidade Leiga dos Irmãozinhos e Irmãzinhas Charles de Foucauld. Testemunhos marcantes e proféticos foram pronunciados e partilhados por essas figuras e por muita gente, ao final da celebração, presidida por três presbíteros (Robertinho, Nanai, Severo) da caminhada da Teologia da Enxada, e com a homilia do Diácono Genival, da Associação dos Missionários e Missionárias do Campo, atuando na Bahia. Um dia inesquecível! Por tudo o que havíamos vivido, demos graças a Deus. De volta ao Sítio Catita, no mesmo dia, tendo chegado por volta das 20h30, preparando-nos para a retomada dos trabalhos, no dia seguinte, dando continuidade às partilhas.

Assim como no sábado, também desde a manhã da segunda-feira, ocupando a tarde e a noite, seguimos ouvindo atentamente as partilhas feitas por todos e por todas, sobre sua vida, seu trabalho, sua vida missionária, sua vida familiar, sua vida de oração, etc.

Experiência do Retiro
Durante os dias da quarta-feira e da quinta-feira, foi vivenciada do retiro, em clima de silêncio, de contemplação, de meditação e de partilha, em busca de uma atenta escuta ao que o Espírito Santo tinha a dizer a cada uma, a cada um. Como “matéria-prima e ponto de partida, buscou-se trazer para este momento os relatos anteriores, atentamente escutado. E, alternando momentos de uma reflexão provocativa e momentos de escuta e oração (pessoal e comunitária), cuidamos de nos abrir docilmente ao que o espírito santo nos tinha a comunicar. Na intenção de ajudar os participantes neste exercício, foi distribuída à cada participante uma lista de questões (a quem interessar possa, seguem, ao final, estas questões), abrangendo o conhecido método, Ver-Julgar-Agir, com o intuito de provocar cada participante que assim o desejasse.

Consagração de um novo membro e renovação dos compromissos por parte dos membros participantes
Culminando o retiro, e com criativos arranjos e adornos do local da celebração participamos da eucaristia, presidida pelos presbíteros, durante a qual se deu a consagração missionária de Junior, seguindo belo ritual mantido pelos membros da AMMC, bem como tivemos a graça de presenciar, com muitos membros e famílias, moradoras da catita, a renovação das promessas de todos os membros da AMMC.
Assembleia e eleição da coordenação para o próximo período
Na sexta feira seguinte, dia 25, festa da conversão de São Paulo, os membros da AMMC reuniram-se em assembleia geral, para deliberam pendências da caminhada, bem como para elegerem os membros da nova coordenação.
Eis uma breve síntese do que consegui ver, ouvir e sentir, ao longo desses dias abençoados.

João Pessoa, 29 de janeiro de 2019. 

PROPOSTA DE ROTEIRO PARA O RETIRO

1. Quanto ao VER:

- No âmbito pessoal:

* Como me sinto enquanto criatura de Deus, enquanto ser natural, em convivência com a Mãe-Natureza e toda comunidade dos viventes?
* Como me comporto na contemplação da Criação, na convivência, no cuidado com, e no uso dos bens de nossa Casa Comum?
* Como lido com o meu corpo, com minha abençoada sexualidade, com minha saúde do corpo, da mente do espírito?
* Como me avalio enquanto homem / enquanto mulher, nas relações sociais de gênero?
* Como me penso enquanto Negro/Negra, enquanto Indígena ou descendente de outra etnia?
* Em que minha condição de um ser nascido onde nasci, me faz pensar em minhas particularidades (de nordestino, de nordestina; de sertanejo, de sertaneja, de agrestino, de agrestina; de pessoa nascida na zona da Mata; de pessoa nascido em outra região, em outro país?
* Como me sinto enquanto uma pessoa situada nesta faixa de idade, em relação a mim mesmo, a mim mesma e em relação a outras pessoas de outras faixas etárias?
* Antes de avaliar mais diretamente minha vida missionária, como anda minha vida como ser humano? A vida que levo, como ser humano, me tem feito feliz?
* Que aspectos de minha vida me fazem mais feliz?
* Que aspectos de vida pessoal me deixam insatisfeito?
* Como anda minha agenda? O que meu fazer cotidiano anda priorizando?
* O que venho priorizando, em minhas ações, que frutos vem dando? 
* Se não tem dado fruto, por que será? Tem algo a ver (também) comigo?
* Que atividades tenho realizado, que avalio mais frutuosas?
* A que fatores eu atribuo tal êxito?
* Que atividades de minha agenda não me parecem satisfatórias?
* Como avalio essas dificuldades?
* Que atividades considero frustradas? 
* Por que isto teve tal desfecho?  
* Eu (também) terei alguma parcela de responsabilidade nisto?



No âmbito comunitário

- O que, na via comunitária, mais me atrai?
- O que nela mais desafia?
- Num rápido balanço, eu acho que contribuo mais com a vida comunitária ou da vida comunitária tudo recebo, em quase nada contribuindo?
- Percebo a comunidade da qual participo como exclusiva ou me sinto chamado a colaborar também com outras, que também faço minhas?

No âmbito do Trabalho

- Como me percebo no mundo do trabalho?
- Como me avalio enquanto enquanto trabalhador/trabalhadora do campo?
- Que sentido faz para mim minha rotina de trabalho?
- Para quem trabalho? O que produzo?
- Eu me vejo no que produzo?
- Para onde vai o que eu produzo?

No âmbito de minha/nossa formação contínua

- Como associo minha rotina à necessidade de formação contínua?
- Que tempo dedico/dedicamos a refletir o que faço/fazemos?
- Que textos ou livros estou/estamos lendo?
- Com quem partilho/partilhamos essas leituras?
- Que balanço posso/podemos fazer do tempo dedicado à formação, enquanto ser humano, trabalhador, cidadão...?


No âmbito da Cidadania

- Tal como em outros planos, também aqui busco estar atento e vigilante aos sinais dos tempos? 
- Atuando mais diretamente no âmbito local, procuro perceber e levar a sério os laços orgânicos que há entre os acontecimentos locais, regionais, nacionais e internacionais?
- Apesar de minhas/nossas limitações, busco sempre dotar-me de instrumentos que me ajudem a ler, interpretar e intervir mais coerentemente a realidade social, econômica, política e cultural?



2. Quanto ao JULGAR

No plano da Mãe-Natureza:
- Assim como Jesus, que não cessava de aprender da Mãe Natureza (ver a profusão de parábolas inspiradas em fenômenos e aspectos da Mãe-Natureza), eu também busco aprender com a Mãe-Natureza, sob as mais diversas manifestações?
- Como Daniel e seus companheiros, como Francisco e tantas outras pessoas, eu contemplo e louvo o Criador pela Sua Criação? 
 - Quem ama cuida: busco testemunhar esse cuidado com a Criação, em meu dia-a-dia, no meu trabalho, no cuidado com as plantas e os animais, na sobriedade do consumo dos bens da natureza, na mística da agroecologia, no re-uso, no tratamento do lixo, etc., etc., etc.? 
 - No cuidado com a saúde do corpo e da mente, inclusive por meio da vivência de uma rotina frutuosa?

No plano do trabalho:
- O que faço no dia-a-dia, que ligação tem com os valores do Reino de Deus?

No plano da cidadania:
- Como costumo ler os sinais dos tempos, tal como Jesus fazia?
- A que fontes recorro para buscar acompanhar a realidade e interpretá-la?
- O que faço para aumentar minha consciência crítica de modo a não engolir fake News?
- Como interpreto, na prática, a recomendação de Jesus de que “Entre vocês, não será assim” (cf. Mc 10, 42 – 45)?
- Que esforço concreto de autocrítica busco/buscamos fazer em relação aos malfeitos no âmbito político?
- O que estamos semeando como ação alternativa às práticas dominantes no cenário político?

No âmbito das relações familiares
- Que lugar tem a família em meu/nosso dia a dia, na perspectiva do Reino de Deus?
- Nas relações de gênero, como tento me comportar?

3. Quanto ao AGIR
- No que sou chamado a mudar em meu processo de conversão, em cada um dos itens acima mencionados e em outros tantos?

Serra do Catita, 18 – 25/01/2019.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019


FUNDAMENTOS E APORTES DA TEOLOGIA DA ENXADA:  esboço organizativo, proposta formativa e ação mobilizadora

Alder Júlio Ferreira Calado

No rol dos acontecimentos sócio-eclesiais cinquentenários, neste 2019, inclui-se a caminhada da Teologia da Enxada. Mais que uma expressão conceitual do vocabulário teológico recente, a Teologia da Enxada constitui uma densa caminhada experiencial e reflexiva, protagonizada por cristãos leigos e leigas nordestinos, comprometidos com a causa libertadora dos empobrecidos, à luz dos valores do Reino de Deus e Sua Justiça. 

A caminhada experiencial da Teologia da Enxada brota de uma confluência de fatores e circunstâncias sócio-eclesiais dos quais ousamos destacar:

O contexto de fermentação característico do final dos anos 1960 na América Latina e no Brasil. A crescente mobilização popular, em grande medida, potenciada pelo acontecimentos Medellín (1968) Puebla (1979), que desencadeiam um fortalecimento e expansão de pequenas comunidades (CEBs), a irrupção de pequenos grupos de Religiosas que se vão enraizando nas periferias urbanas e na zona rural, por meio de iniciativas de caráter organizativo (pequenos grupos, círculos bíblicos, apoio sindical, iniciativas de aprendizado profissional, de combate ao desemprego e ao custo de vida; iniciativas de caráter formativo, por meio das Pastorais Sociais, que vão ajudando a despertar, cada vez mais, a consciência crítica dos participantes, entre outras;

uma crescente associação nos trabalhos então desenvolvidos entre a reflexão crítica de temas sócio eclesiais candentes (Igreja-Povo de Deus, desenvolvimento de uma leitura crítica da Sagrada Escritura, em especial dos Evangelhos, para uma maior clareza da figura de Jesus de Nazaré; com base nos textos do Concílio Vaticano II e, sobretudo, das Conferências de Medellín e Puebla, em nítida associação com o que se passava no mundo dos pobres (povos indígenas, camponeses, operários, desempregados, etc.); iniciativas tais como Encontros de Irmãos (Olinda e Recife), Irmãos em Ação (Agreste pernambucano), Igreja Viva (Agreste paraibano), entre outras;
Importantes subsídios e textos de Teologia disponibilizados por agentes de pastoral a um número crescente de Leigas e Leigos, o que permitia o encontro com novas correntes de teologia, afinadas com a temática do Concílio (Revista Concílium), de Medellín e de Puebla, etc. Importa destacar, com ênfase, a enorme contribuição prestada ao processo formativo da “Igreja na Base”, pela Comisión de Historia de la Iglesia Latinoamericana, CEHILA, coordenada por figuras tais como Enrique Dussel, José Oscar Beozzo, Eduardo Hoornaert (Brasil, CEHILA – popular). Tanto a CEHILA quanto a CEHILA popular tem um papel de excelência no desenvolvimento da consciência crítica da história das igrejas latino-americanas e do Caribe, inclusive, do Brasil.

Tais circunstância sócio-eclesiais se acham, por certo, nas origens da Teologia da Enxada. Disto podem ser bons exemplos ilustrativos os cantos mais entoados, a esta época, dentre os quais: “Deixa a tua Terra, e vai”, “Da Cepa brotou a Rama”, “Dizei aos cativos: saí”, “Antes que te formasse”, “Os discípulos de Emaús”, “Seduziste-me, senhor”, “Desde o raiar”, “Pelos Caminhos da América”, “Dança aí Negro Nagô”, “Virá o dia, virá o dia”, Eu vim para que todos tenham vida”, "Igreja é Povo que se organiza"; "Eu sou feliz é na Comunidade"; "Com a vida cara, a gente fica sem dormir", "Prova de Amor maior não há", “Eu acredito que o mundo será melhor, quando o menor que padece acreditar no menor”, entre outros.

Íntima associação entre os temas trabalhados, os cantos de animação, as novas iniciativas litúrgicas ensaiadas (de caráter mais participativa e popular) e, por último mas não menos importantes, a metodologia adotada, sobre a qual convém destacar alguns dos seus pontos principais.


Ao longo desses cinquenta anos de sua trajetória, diversos são os ângulos sob os quais nos sentimos motivados a revisitá-la: sua proposta discipular-missionária, de seguidora da Tradição de Jesus; sua contribuição no plano organizativo, seu investimento no processo formativo contínuo de seus membros; a diversidade de experiências discipular-missionárias assumidas pelos seus protagonistas ocorre-nos aqui destacar.


A Tradição de Jesus e Seu Movimento como fontes maiores de inspiração da Teologia da Enxada no modo inovador de atuar.

1. No campo da organização

Nas linhas que seguem, pretendemos refletir sobre o título acima, orientando-nos por questões tais como: em que sentido nos propomos a tratar da Teologia da Enxada? Em que contexto sócio-eclesial desponta? Quem são seus principais protagonistas, no processo de fundação? Que objetivos perseguem? Quais suas propostas axiais, do ponto de vista da organização, do processo formativo e de suas atividades básicas? Em que fonte(s) bebem seus fundadores? Como se comportam diante das adversidades enfrentadas, dentro e fora dos espaços eclesiais? Que passos organizativos tem priorizado? Quais traços principais marcam sua proposta de formação? Que atividades mais frequentes tem realizado?

A expressão Teologia da Enxada comporta distintas significações. De início, remete ao universo rural ("Enxada"). Associa-se a jovens camponeses em processo de formação, num Seminário católico. O Seminário Regional do Nordeste II, associado ao Instituto de Teologia do Recife (ITER), constitui uma experiência de formação de presbíteros, num contexto de (pós Concílio Vaticano II, mais precisamente a partir da presença de Dom Helder Câmara, recém-nomeado Arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife. Rodeado de uma equipe de assessores e assessoras de reconhecida qualificação teológica, o SeERENE II aparece como uma possibilidade de se oferecer uma formação presbiteral em sintonia com as conclusões do recém-findo Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965. Contando com assessores e professores tais como Pe. Marcelo Carvalheira, Pe. José Comblin, Pe. Eduardo Hoornaert, Pe. Zildo Rocha, Pe. René Guerre, entre outros, buscava-se tocar um plano de formação presbiteral, em sintonia com as conclusões do Vaticano II. Nesta época, foi escolhido o Pe. José Comblin como Diretor de Estudos. Da turma de estudantes componente daquele Seminário (maior) também faziam parte jovens seminaristas tais como João Batista Magalhães, Raimundo Nonato Queiroz, João Firmino, José Diácono, Ivan Targino e outros. Em sua maioria, tratava-se de jovens vindos de família camponesa ou de famíilias pobres habitando as periferias urbanas, que, embora reconhecendo a qualidade dos estudos ali realizados, se sentiam relativamente perdidos, com relação a um propósito que os marcava:  o de servirem como missionários, como discípulos de Jesus, comprometidos com a causa dos pobres, camponeses e operários, razão por que sentiam estar faltando algo de importante, naquela proposta de formação. Agindo em grupo, tomam a iniciativa de compartilhar seu sentimento comum ao então Diretor de Estudos, Pe. José Comblin, que, para surpresa deles, se sensibiliza com suas inquietações e se compromete a levar refletir melhor sobre tal desafio. 

Comblin, que já vinha atuando há vários anos como Assistente de JOC, também não se encontrava só. Tinha alguns colegas igualmente sensíveis a este apelo. E assim, via surgindo um novo clima de abertura e de flexibilização, compartilhado também por Dom Helder. Surge, então, a ideia de ousar uma experiência alternativa de formação. Em vez de jovens como aqueles ficarem naquele espaço de seminário, buscariam uma formação em lugar mais próximo da gente a quem gostariam de dedicar sua formação: os camponeses.  Daí nascem as propostas de criação de dois núcleos "rur-banos" de formação, um em Tacaimbó - PE e outro em Salgado de São Félix - PB, já no final dos anos 60. O que aí se inicia, desenvolve-se e cria raízes. Menos de dez anos após, é o próprio Comblin quem relata o plano de formação aí em curso, num livro de referência, "Teologia da Enxada", publicado pela Vozes, em 1977.


2. Esboço de um plano de formação e de atividades missionárias.

Como acima mencionado, aquele grupo de jovens seminaristas do Seminário Regional Nordeste II, associado ao ITER, do qual Pe. José Comblin era o Diretor de Estudos, não se sentia contente com a formação aí recebida. Sem deixarem de reconhecer a qualidade dos estudos oferecidos - que se destacavam, inclusive, no cenário do País -, sentiam falta de uma proximidade maior com o povo dos pobres, de onde haviam vindo e com os quais pretendiam se comprometer, como discípulos-missionários a serviço do Reino de Deus. Uma vez obtida a concordância e o apoio de formadores como o próprio Pe. José Comblin, que traços mais fortes entendiam dever estar presentes em seu processo formativo?  Vejamos alguns pontos que aí se ressaltavam:
Uma maior interação entre o horizonte discipular-missionário almejado e os caminhos correspondentes. Isto se traduzia por meio de sua escolha formativa fundada sobre a coerência entre os estudos temáticos que deveriam refletir os compromissos com a causa libertária do povo dos pobres (camponeses, povo negro, povos indígenas, operários, etc.), por um lado; e, por outro, uma metodologia de vida, de trabalho e de estudos correspondentes ao horizonte temático. O método passa a ser um item substantivo, ao lado dos temas priorizados naquele processo formativo. Na prática, isto implicava:
- Estilo de vida, em primeiro lugar, isto é, manter um estilo de vida próximo da gente a que queriam dedicar seu trabalho missionário. Viver, não apenas perto do povo, mas com ele interagir, compartilhar inquietações e estilo de vida e de trabalho, sem prejuízo do necessário aprofundamento da reflexão crítica e teórica, processo que seria igualmente acompanhado de perto pela Equipe de formadores, da qual faziam parte, além do Pe. José Comblin, também figuras tais como: Pe. René Guerre, Pe. José Servat, Ir. Maria Emília Ferreira, Ir. Zarita, Ir. Agostinha Vieira de Melo, Pe. Jorge Raimundo, João Batista Magalhães Raimundo Nonato (estes últimos, após o término de sua formação missionária inicial).



O que se poderia encontrar de novo, na experiência formativa destes jovens vocacionados, em seu dia-a-dia? O lugar geográfico (os Núcleos de Tacaimbó e de Salgado de São Félix) constitui um primeiro traço desta novidade formativa. Aqueles jovens vocacionados sentiam-se, agora, rodeados de sua gente, num convívio frutuoso, num aprender-compartilhar incessante, numa convivência enriquecedora, para ambos os lados. Respiravam os ares do campo, da Mãe-Natureza, experimentavam mais de perto a beleza de um alvorecer, de um por de sol; podiam contemplar as estrelas; ou ouvir o cantar dos pássaros; encantar-se com a chegada das chuvas naquela paisagem ressequida. A alegria e o entusiasmo dos camponeses, a caminho da roça. Ali, podiam testemunhar de perto o estilo de vida das famílias, como se processava a educação dos filhos; como se dava a distribuição das tarefas entre os membros da família; como se davam as relações de trabalho, as atividades devocionais, a reverência aos santos, as festas de padroeiro. Em breve: podiam imergir no universo cultural daquela gente, sua gente, com ela aprendendo, compartilhando e refletindo diferentes aspectos da vida, no chão do dia a dia. Aquela terra, aquela gente constituíam parte ativa de sua formação. Por outro lado, também repartiam o tempo, de modo a terem condições de se dedicarem aos trabalhos manuais (ao trabalho na roça, inclusive). Tempo para os estudos, orientados pela Equipe de formadores. O que estudavam no Seminário ali se fazia presente, mas com uma grande diferença: tudo partia da vida daquela gente. Do grito e do sofrer: das alegrias e das festas; do conviver no trabalho e no lazer daquela gente - daí brotavam os temas de seus estudos: os Evangelhos, a Sagrada Escritura, as primeiras comunidades, a oração, a partilha, a solidariedade, o encanto com a Natureza, pecado, graça, sacramentos, Igreja, comunidade, Povo de Deus, Salvação, Libertação - o dia-a-dia daquela gente constituía permanente fonte de inspiração para seus estudos teológicos, pra sua oração, para seus trabalhos para sua convivência com as comunidades. A começar das palavras-chave que selecionavam, com a orientação de seus formadores, sempre associadas às atividades concretas de sua gente.

Este jeito de se organizarem e de cuidar de sua formação, estendeu-se, em seu primeiro período, até o final dos anos 70, durante os quais o Pe. José Combilin, uma vez expulso do Brasil, em 1972 (foi expulso pela Ditadura Civil-Militar brasileira), e passando a residir no Chile, mais precisamente em Talca, animando trabalhos semelhantes, não perdeu o contato com esses núcleos nem com os membros da Equipe de formação. Sempre arrumavam um jeito de se encontrarem, na fronteira com o Brasil (Uruguai, Argentina...), de modo a compartilharem informações e orientações de formação, tanto em Talca como no Nordeste do Brasil (Pernambuco e Paraíba, principalmente).

Com a conquista da anistia aos exilados, começa uma nova fase. A partir de um encontro realizado em Itamaracá – PE, entre membros da Equipe de Formação e parte do formando, já vivendo um outro momento de sua formação, agora mais como formadores -, surge o plano de criação de um seminário rural, em terras da Arquidiocese da Paraíba, mais precisamente em Pilões, num sítio chamado Avarzeado. Com o apoio do Arcebispo da Paraíba, Dom José Maria Pires, e de alguns bispos do Nordeste, mas sobretudo graças ao protagonismo dos participantes daquele encontro, lançam-se as bases desta nova experiência, e o Seminário Rural inicia suas atividades, no início de 1981, com a participação de uma turma composta por doze jovens. Estes jovens camponeses do Nordeste e outras regiões passavam a vivenciar uma experiência inovadora de formação presbiteral, baseada numa distribuição atípica de atividades, com tempo para os estudos, tempo para o trabalho na roça, tempo para oração, tempo para o acompanhamento missionário das comunidades vizinhas àquele sítio. Objetivo era o de formar jovens vocacionados ao Presbiterado, a partir de uma experiência formativa junto ao seu povo, o povo camponês. Roma, porém, não aprovaria tal experiência como apropriada para a formação de presbíteros, deixando a entender que aquela experiência não atendia os requisitos eclesiásticos para a formação de padres. E mandaria fechar o Seminário Rural.

O que, num primeiro momento, repercutiu como um revés, acabou transformando-se numa bênção: no ano seguinte, 1983, já em Serra Redonda - PB, foi iniciado o Centro de Formação Missionária, que daria sequência, mas em novo estilo, ao processo de formação, já não de jovens destinados ao Presbiterado, mas para jovens vocacionados à Missão junto ao povo do campo e das periferias urbanas.

O processo formativo que aí teve lugar, constava de uma experiência de 6 anos, sendo 2 anos de formação no CFM, mais 2 anos junto a famílias ou comunidades da redondeza (sempre acompanhados por membros da equipe de formação), e os 2 últimos anos de volta às suas comunidades de origem, com a tarefa missionária de fundar e animar novas comunidades, nutridas com esses valores.

Com o passar do tempo, foram surgindo novas demandas ou novos formatos de formação, de modo a contemplar uma variedade de vocações: havia os que manifestavam a vontade de serem missionários casados (daí a criação da Associação dos Missionários e Missionárias do Campo); havia a demanda de um novo CFM voltado para as vocações missionárias femininas (demanda atendida, a partir de 1986–87, na cidade de Mogeiros); outros e outras sentiam-se vocacionado mais diretamente a uma vida contemplativa (daí a criação da fraternidade do discípulo amado), no Sítio Catita, município de colônia Leopoldina – AL; também, houve quem se sentisse chamado-chamada à uma vida de Peregrinação; outros/outras sentiram-se movidos a um trabalho missionários nas periferias urbanas do Nordeste (daí, a criação da AMINE – Associação dos missionários e missionárias do Nordeste); uma outra experiência mais diretamente ligada ao processo formativo de leigas e leigos, com fecunda metodologia de trabalho (tarefa cumprida pela Associação Árvore); a frutuosa e continuada experiência das escolas de formação missionária (em Juazeiro - BA; em Mogeiro – PB; em Esperantina – PI; em Floresta – PE; em Barra – BA...). Por inspiração destas e na caminhada junto a estes mesmos protagonistas, outras experiências brotaram e continuam vivas, tais como a experiência formativa das comunidades em torno de café do vento (Sobrado – PB), o grupo Kairós (Criado em 1998, em torno do Pe. José Comblin, e que se reúne semanalmente, para estudar a obra do Pe. José e de outros teólogos e teólogas tais como Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, Jean-Yves Leloup, Eduardo Hoornaert, Ivone Gebara, Sebastião Armando, Hans Küng, José Antonio Pagola, Luís Carlos Araújo, Marcelo Barros, Teresa Forcades, entre outros e outras).

Revisitando tais experiências de organização e de formação contínua acompanhadas sempre de inúmeras iniciativas e atividades, junto às comunidades do campo e da cidade, principalmente no nordeste do Brasil, encontramos fortes sinais que nelas/delas recolhemos, e que se apoiam em valores da Tradição de Jesus, dentre os quais:

-Compromisso perseverante coma  causa do povo dos pobres, à luz dos valores do Reino de Deus e sua justiça;
- Enraizamento comunitários no campo e nas periferias urbanas;
- Primazia pela causa do Reino de Deus, sempre colocado como horizonte inegociável nas lides com as Igrejas Cristãs e suas respectivas hierarquias;
- Contínua disponibilidade para ouvir o que o Espírito tem a dizer ao povo dos pobres em sua luta por justiça, paz, solidariedade e partilha;
- Empenho continuado em resistir às amarras do sistema dominante, em busca e à caminho de uma sociabilidade alternativa ao sistema hegemônico, tratando de, enquanto se busca essa nova sociabilidade, já ir-se semeando sementes de alternatividade...

João Pessoa, 16 de janeiro de 2019.