terça-feira, 12 de setembro de 2017

O QUE ESTÁ POR TRÁS DO CLAMOR POR REFORMAS, NAS IGREJAS CRISTÃS, EM ESPECIAL NA IGREJA CATÓLICA ROMANA: mudar o quê? Para quê? Por meio de quem?

  O QUE ESTÁ POR TRÁS DO CLAMOR POR REFORMAS, NAS IGREJAS CRISTÃS, EM ESPECIAL NA IGREJA CATÓLICA ROMANA: mudar o quê? Para quê? Por meio de quem?

Alder Júlio Ferreira Calado

Como sói acontecer em datas históricas emblemáticas, também por ocasião da comemoração dos 500 anos da Reforma, situada a partir da afixação, na porta do templo em Wittenburg (Alemanha) das 95 teses enunciadas por Martinho Lutero, em 31 de outubro de 1517, temos a oportunidade de fazer um exercício retroprospectivo acerca da situação estrutural e conjuntural, em que se encontram as Igrejas Cristãs, em especial a Igreja Católica Romana.

Neste sentido, mesmo antes a realização do Concílio Vaticano II, já se escutavam vozes proféticas clamando por reformas ao interno da Igreja Católica. A despeito de diversas alterações positivas (certa reconciliação com a Modernidade, abertura para o mundo, incentivo à leitura da Bíblia, utilização do vernáculo, na Liturgia, reconhecimento da relativa autonomia das realidades terrestres, haja vista diversos trechos de espírito renovador, observáveis em seus 16 documentos (4 Constituições, 9 Decretos e 3 Declarações), entre outras) a que se chegara, durante a realização do referido Concílio, as mudanças introduzidas não prosperaram, em grande medida, na vida eclesial do cotidiano. Não obstante a força profética do Papa João XXIII e de seus assessores mais próximos, a enorme maioria dos bispos não nutria maiores simpatias pelo espírito reformista de que estava imbuído o bom Papa João, em seu ardor profético por um Igreja dos pobres. Ainda a este respeito, não é surpreendente que o Pacto das catacumbas tenha sido originalmente firmado, à margem do Concílio, por apenas quarenta signatários. Em breve, antes, durante e depois do Vaticano II, resultaram mais fortes as forças de resistência ao esforço de mudança. Isto foi tanto mais forte, quando do longo período dos pontificados de João Paulo II e de Bento XVI.

Em que pese toda essa resistência, sempre houve grupos de Católicos, movimentos de leigos e leigas e mesmo de parte do clero e dos religiosos e religiosas, a persistirem no empenho por mudanças estruturais e conjunturais da Igreja, convencidos de que, seja como instituição social, seja como instrumento a serviço do Reino de Deus, da Tradição de Jesus, “Ecclesia semper reformanda est” (A Igreja deve ser sempre reformada), como ainda recentemente, exortava o Papa Francisco, em sua mensagem de “Angelus”, do dia 27/08/2017.

Mesmo durante um período de relativo retrocesso, vivido sobretudo a partir de meados dos anos 70 à primeira década deste século, vozes proféticas minoritárias nunca deixaram de expressar seu descontentamento e de clamar por mudança. Bastem-nos dois exemplos ilustrativos: a iniciativa organizada, em meados dos anos 90, por leigos e leigas europeus, desde a Áustria – o Movimento Internacional Somos Igreja, que hoje se acha presente em algumas dezenas de países, em diversos continentes; a Coordenação da Conferência das Religiosas dos Estados Unidos, mais conhecida pela sigla LCWR (Leadership of Conference of Women Religious). Apenas dois exemplos, entre dezenas, de iniciativas espalhadas pelo mundo católico, a clamarem cada vez mais fortemente por urgentes mudanças na Igreja Católica Romana.

Nâo se trata apenas de associações, movimentos e grupos de leigos e leigas. Há também associações de padres, a exemplo da “Pfarrer-Initiative” (Iniciativa dos Párocos – Áustria), associação de párocos da Áustria, bem como de numerosas outras iniciativas semelhantes em funcionamento na comunidade de paísses do Reino Unido, na França, na Bélgica, nos Estados Unidos, etc. Também, atuando ao interno da Igreja Católica ou em caráter ecumênico, vale destacar fecundas experiências que clamam por renovação, a exemplo de Átrio, Redes Cristianas (Espanha), Católicas pelo Direito de Decidir (em vários países, inclusive no Brasil, atuando até com curtos vídeos didáticos, “Catolicadas”, cf., por ex.:

Nesses últimos vinte anos, com efeito, vêm se intensificando os clamores por mudança na(s) Igreja(s), em especial na Igreja Católica Romana. Lembro, de passagem, dois casos emblemáticos. Um primeiro, uma entrevista (profética!), concedida, em abril de 1998!, a um pesquisador nordestino, pelo teólogo Pe. José Comblin. Pedindo perdão pela longa citação, julguei oportuno destacar este trecho de sua resposta a uma pergunta final a ele, então, dirigida:
"Um dia virá um Papa que vai deixar que se discutam os problemas que interessam ao povo cristão. No Concílio Vaticano II, Paulo VI proibiu que se falasse do celibato sacerdotal e da limitação dos nascimentos. Isso não se podia discutir, mas era justamente o que todo mundo queria discutir – se proíbe discutir o que se quer discutir.
No ano passado na Arquidiocese de Santiago do Chile fizeram um Sínodo Diocesano e, na primeira etapa, o Arcebispo pediu que todos os grupos mandassem um elenco de problemas a serem tratados no Sínodo. Dizia para falarem com toda franqueza, com toda sinceridade. Chegaram quase cem mil respostas e quase todas se referiam a questões como – por que os padres não podem casar? Por que os divorciados/separados que fizeram uma nova união não podem comungar: Por que a Igreja se opõe à limitação artificial dos nascimentos? Todo mundo queria discutir sobre isso. Chegou ao conhecimento da Nunciatura e veio uma carta de Roma dizendo que no Sínodo Diocesano é proibido tratar desses problemas. Se é proibido falar das coisas que todo mundo queria falar, não adianta. O Sínodo foi feito, mas ninguém mais se interessou por ele.
A mesma coisa perguntar qual será o Papa que vai permitir que se discuta abertamente as coisas que todo mundo queria discutir? É só permitir que se discuta, que se fale abertamente. Quando será a Perestroika? Qual será? Será o sucessor agora? Ou o seguinte? Ou o seguinte do seguinte? (risos).”

O segundo caso refere-se à última entrevista feita com o Cardeal Carlo Maria Martini, pouco antes de sua páscoa definitiva, concedida a jesuítas. Nela, entre outras afirmações, declarou que a Igreja Católica se acha atrasada em cerca de duzentos anos. Vale a pena conferir esta entrevista, cf. “link”:

Afinal, esses cristãos e esses católicos, espalhados pelo mundo inteiro, clamam por que tipo de mudança:?

Bem no início de uma longa entrevista a uma rádio de Santiago (Chile), o entrevistador, antes mesmo de lançar ao convidado (o teólogo Pe. José Combiin), pôs-se a ler um longo trecho do romance “Os Irmãos Karamazov”, mais precisamente o trecho extraído do capítulo sobre o Inquisidor. No citado trecho, o inquisidor depara-se, desapontado, com a figura de Jesus, a quem ele interpela: “Quesm és tu ?” E, a seguir, o próprio inquisidor intervém: “Não repondas. Cala-te !” Guardadas as devidas particuladridades contextuais, este trecho oferece uma ocasião propícia de (auto)avaliação da caminhada das Igrejas cristãs, à luz do Evangelho: quanta infidelidade, quanto distanciamento em relação à sua missão, julgada à luz da Tradição de Jesus. Malgrado tal e tanta dissintonia, é sempre saudável lembrar que, em todos os tempos, por outro lado, sempre houve testemunhas fiéis ao Evangelho. Sempre houve o testemunho do “Resto”, do que Dom Helder costumava chamar de “MINORIAS ABRAHÂMICAS”, a denunciarem os malfeitos das Igrejas, em especial dos representantes do poder, e a anunciarem, por sua vida de simplicidade e desapego do poder (“Eu Te bendigo, ó Pai...  porque ensinastes estas coisas aos pequeninos”, cf. Mt 11, 25), a conversão ao Seguimento de Jesus.

Hoje, também, o Espírito do Ressuscitado segue animando o Povo de Deus, em especial o povo dos pobres – as mulheres, as vítimas de migrações forçadas, as vítimas de feminicídio, de tráfico de pessoas, de racismo, de homofobia, de toda sorte de discriminação e de prisão, as pessoas idosas, os jovens, as crianças, as pessoas enfermas, etc., etc. – a levantarem sua voz profética, em sucessivos apelos à conversão ao Evangelho, o que implica, também, profundas reformas nas Igrejas cristãs, em especial na Igreja Católica Romana. Aqui, buscamos sintetizar numa meia dúzia de pontos os principais clamores por reforma, por parte de distintos grupos de católicos, cuidando de justificar sua necessidade e urgência.

* O Evangelho, a Tradição de Jesus como baliza maior de nosso processo de conversão

Sabemos da imensa diversidade de caminhos que tem o Espírito Santo, fonte de vida plena, de Liberdade e de todo bem, para nossa ação no mundo e na (s) Igreja(s), na perspectiva da Tradição de Jesus. É o mesmo Espírito que, movendo-nos a atuar nessa imensa diversidade, Quem também nos prepara para irmos costurando a unidade: “Que todos sejam Um..” (cf. Jo, 17, 20-21). Sucede que, ao nos conduzir pelos caminhos dessa imensa diversidade, em busca de construirmos a unidade, não agimos, segundo os caprichos de uns ou de outros. Cuidamos, sim, de buscar sintonizar com Seu grande apelo: “Não foram vocês que Me escolheram, mas fui Eu quem os chamei, para que vocês vão e deem fruto, e este fruto permaneça. ” (Jo 15, 16). Cuidamos de seguir, portanto, balizas que Ele nos indica, todas marcadas pelo testemunho de amor, de misericórdia, de disposição e disponibilidade ao serviço do Povo de Deus, em especial os pobres e desvalidos, testemunho de justiça, de paz, de solidariedade, de partilha. Partilha do pão. Partilha nossos dons imateriais, indo bem à contracorrente das balizas dos poderes deste mundo: “Entre vocês não será assim” (cf. Mc 10, 42-45).

Sucede que, ao longo de séculos de Cristandade, fomos afastando-nos demasiado de tais balizas, seduzidos pelos ídolos do poder, do ter, do prestígio. E, a despeito de vozes proféticas, de ontem e de hoje, eis que as estruturas organizativas da(s) Igreja(s) têm resultado engessadas, mais a serviço dos segmentos hierárquicos do que em proveito das maiorias do Povo de Deus. Os esforços de renovação ou se frustraram ou ficaram a meio caminho. O Concílio Vaticano II foi uma dessas oportunidades propícias, que resultaram negligenciadas, em grande parte. Não se respondeu, com generosidade, da parte dos hierarcas, ao forte apelo à “refontização”, à volta às origens das comunidades cristãs. Acabaram prevalecendo as estruturas enrijecidas da Cúria Romana e o Código de Direito Canônico, com alterações superficiais. Mesmo documentos marcantes como a “Lumen Gentiuem” e a  “Gaudium et Spes”, não foram tomadas na devida conta.

Não sendo feitas as reformas necessárias, os problemas se agravaram, como no caso da sucessão de escândalos de abusos sexuais de crianças, à frente dos quais um número considerável de clérigos, em várias partes do mundo. Diante das expectativas e de cobrança de justiça, por parte da sociedade civil, o que se viu foi a tendência de se recorrer, antes ao Código de Direito Canônico, do que ao Evangelho, ou mesmo aos Direitos Humanos, num claro sinal de tratamento privilegiado aos algozes, em prejuízo da justa assistência às vítimas.

Tais disfunções das estruturas eclesiásticas refletem-se igualmente, no descumprimento do espírito de colegialidade, clamado pelo Concílio vaticano II, de cuja seções decisivas só participam bispos, ficando de fora (a não ser como convidados) leigas e leigos. Que constituem a enorme maioria. Se no próprio desenrolar do Concílio, resulta flagrante a concentração de poderes nas mãos da hierarquia, não se passa de outro modo a organização eclesiástica, nas Dioceses e Paróquias. A exceções, mas estas não infirmam a regra....

Centralidade do Povo de Deus na organização das instâncias eclesiais, tendo os pobres como núcleo central do Evangelho.

O que parece uma ousadia temerária da parte do Papa Francisco, ao sugerir, em pronunciamentos e escritos -  A exemplo na Exortação apostólica “Evangelli Gaudium” -, a centralidade do Povo de Deus na Organização Eclesial na verdade constitui uma retomada do espírito do Concílio Vaticano II (cf. Lumen Gentium ). Neste documento, não é a hierarquia quem vem tratada, em primeiro lugar,  mas é justamente o povo de deus, a merecer tratamento de relevância também  nas instâncias organizativas da Igreja. O espírito do Vaticano II ganha especial relevo na conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín, em 1968, quando o povo de Deus, ao interno da Igreja Católica é tratado como protagonista da organização, desde a opção pelos pobres, manifesta nas fecundas experiências das comunidades Eclesiais de Base, bem como em diversos movimentos, associações, organizações, serviços, pastorais sociais, ainda em curso na América Latina e em várias partes do mundo.

Participação das Mulheres Católicas em todas as instâncias de decisão da Igeja:

Desde seu início, do Movimento de Jesus – mesmo num contexto histórico hostil à participação feminina, participaram várias mulheres. É conhecida a postura de Jesus em relação às mulheres: de enorme reconhecimento, promoção e de defesa de sua dignidade. Não são poucos nem desprezíveis os episódios de sua atitude dialógica com as mulheres. É muito provável que, inclusive nas fileiras dos discípulos mais próximos, sua postura em relação, por exemplo, a Maria Madalena, tenha incomodado alguns dos Seus discípulos, numa espécie de disputa do melhor lugar, diante de Jesus. Passaram-se os séculos, e esta relação só se agravou. No caso da América Latina, é sabida a forte participação das mulheres nas lides eclesiais. Elas sempre foram a enorme maioria dos membros das CEBs. Nos espaços paroquiais e diocesanos, é impensável o funcionamento das atividades do dia-a-dia, sem a participação das mulheres. No entanto, isto não se dá, quando se trata da tomada de decisões. Estas são, quase todas, da alçada do clero, todo ele formado por homens. Quando se trata de execução das mais diferentes tarefas, recorre-se às mulheres, mas das decisões elas estão fora, salvo algumas exceções – e mesmo assim, em decisões secundárias...

Por longo tempo, as coisas se passaram, com relativa resignação. De alguns tempos para cá, isto vem mudando, significativamente. Assim como nos espaços da sociedade civil, também nos espaços eclesiais, um número crescente de mulheres tem avançado consideravelmente nas pesquisas de distintos campos científicos, inclusive no campo teológico. Vem do universo feminino o que de melhor e mais criativo se pesquisa, por exemplo, no âmbito dos estudos bíblicos, a partir do olhar feminista, no sentido que lhe emprega a teóloga Teresa Forcades. Com efeito, as pesquisas teológicas protagonizadas por mulheres cristãs (também católicas) têm tido um crescente reconhecimento, em várias áreas, principalmente no campo da exegese bíblica, mas também no campo do Ecofeminismo (Ivone Gebara). Esta densa contribuição tem alimentado a qualidade do empenho de grupos, associações e movimentos de leigos e leigas, nas diversas partes do mundo, municiando e fortalecendo os fundamentos dos clamores por mudanças.

Reconhecer e respeitar o direito e o justo pleito das mulheres – leigas, religiosas -, de participarem das decisões eclesiais, em suas diversas instâncias, não significa apenas (mas, também isto!) abrir caminho institucional ao atendimento à legítima postulação de realizarem a vocação à ordenação ministerial das que se sentem chamadas por Deus, a exercerem tais ministérios, mas significa ainda reconhecer a legitimidade de seu pleito, de participarem das mais distintas instâncias decisórias da Igreja Católica Romana. Seguir negando-lhes seu justo pleito significa descumprir o direito de parcelas numerosas do Povo de Deus, ao interno da Igreja. Uma injustiça a ser reparada, inclusive por se tratar de um vasto segmento do povo de Deus marcado por uma história de perseguições e discriminações, de caráter misógino. Há de lembrar-se que tal reparação já se tem dado em outras Igrejas irmãs.   

 Reconhecimento a homens e mulheres ordenados, a exercerem seu ministério, conforme sua vocação ao celibato ou à vida matrimonial
Também aqui, deparamo-nos com uma demanda antiquíssima e de solução ao inteiro alcance até de instancias mais comprometidas com a disciplina eclesiástica. Já não faz sentido a manutenção da obrigatoriedade do Celibato de pessoas vocacionadas ao exercício dos ministérios ordenados. Trata-se de uma disciplina que não tem fundamentação evangélica, nem guarda raízes sequer com a mais antiga tradição apostólica, haja vista que, entre os apóstolos de Jesus havia também quem fosse casado,além do que, no atual contexto histórico, não parece mais razoável tal exigência, se é que já o tenha sido algum dia. O Estado Civil deve ser, como aliás já o é, uma opção para homens e mulheres vocacionados aos ministérios ordenados.


Continuidade e aprofundamento do Diálogo entre as Irejas Cristãs, desde as bases:
Nunca é demais lembrar-se a diversidade de caminhos que o Espirito Santo inspira, a partir da qual somo chamados a construir a unidade, segundo o que o mesmo Espirito Santo inspira. Os diferentes caminhos assumidos pelos Cristãos e Cristãs, ao longo de séculos se deram por razões sabidamente históricos. Também, a convergência há de se fazer, seguindo-se o que o Espirito Santo tem a dizer às Suas Igrejas. Neste sentido a busca de unidade há de se fazer, menos a partir de uma busca de uniformidade doutrinária, e mais a partir de iniciativas concretas, tomadas desde suas bases, e correspondentes às principais necessidades e aspirações do Povo de Deus, para além das fronteiras Eclesiais. Nesta mesma linha, as iniciativas e testemunho do Papa Francisco e de outras autoridades de Igrejas Cristãs e Ortodoxas apontam na boa direção.


João Pessoa, 12 de setembro de 2017

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

"VOEM ALTO! SONHEM GRANDE": Francisco, Bispo de Roma, uma liderança de novo tipo


Alder Júlio Ferreira Calado

Num contexto histórico - nacional e internacional - marcado pela ausência ou profunda escassez de referência ético-políticas, é confortante e encorajador podermos contar com o testemunho de uma figura da estatura ética de Francisco, Bispo de Roma. Em seus gestos, escritos e pronunciamentos, inclusive pelas suas constantes viagens apostólicas (vinte, em quatro anos!), pelos quatro continentes, impacta sua força profética, exercitada com alegria, esperança e liberdade. Também, neste início de visita sua à Colômbia, de seis a onze do corrente.

Nossa vasta fronteira com os países-irmãos da América do Sul inclui a Colômbia, conhecida pelas belezas naturais, sendo o segundo país com maior diversidade. Também conhecida por uma população majoritariamente católica, bem como por conviver mais longamente com a dramática experiência de conflitos armados, há meio século, protagonizados as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o ELN (Exército de Libertação Nacional), ao qual, em suas origens esteve ligado o Pe. Camilo Torres, assassinado em 1966. A Colômbia também se tornou uma referência mundial do mundo católico, graças à realização, em 1968, da bendita Conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín, cuja grande marca foi a proclamação da opção pelos pobres, berço das CEBs, da Teologia da Libertação e de tantas organizações da chamada "Igreja na Base". É, portanto, a Colômbia o destino da vigésima viagem apostólica do Papa Francisco, tendo como um dos seus grandes objetivos, ajudar a consolidar a paz, junto àquele povo-irmão.

Como peregrino da esperança, da justiça e da paz, a percorrer todos os continentes, o Papa Francisco retoma suas viagens apostólicas - agora, pela vigésima vez -, desta feita, à Colômbia, aonde chegou, ontem, dia 06, por volta das 16h30, devendo estender-se sua estadia até o dia 11 próximo, período durante o qual se fará presente nas principais cidades do país - Bogotá, Villavicencio, Medellín, Cartagena. "Demos o primeiro passo" - eis como alude ao principal objetivo de sua visita apostólica: confirmar/comemorar, junto com o povo colombiano, seu sincero anseio pela paz, após meio século de violentos confrontos armados  entre os integrantes das FARC e as forças militares oficiais. Ainda buscando também dar passos em relação aos esforços de paz com o ELN, outra força militar em confronto, há mais de 50 anos. 

Como de hábito, sua chegada provoca grande afluência de multidões. Também em Bogotá, ao descer do avião, e ao saudar os que o aguardavam, dirigiu-lhes palavas de entusiasmo, de agradecimento, de esperança: "Agradeço-lhes a tantos presentes, pelo esforço de chegarem até aqui. Não se deixem vencer pelas dificuldades, não se deixem abater. Não percam a alegria. Não percam a esperança. Vão adiante!" - foram suas primeiras palavras. 

Em seu encontro com o Presidente Juan Manuel Santos e demais autoridades civis colombianas, segundo maior país em diversidade, bem como a riqueza cultural do seu povo, sua bravura em enfrentar e vencer dificuldades, além de haver sublinhado a importância da paz.  
(cf. seu primeiro discurso, no seguinte "link":

Falando bem ao seu modo - guiado pelo seu coração -, o Bispo de Roma dirige-se, mais tarde, a uma imensa multidão, com marcante presença de jovens. Resumo, em brevíssimos tópicos, os que considero pontos mais relevantes de sua fala:

- Venho como mensageiro da paz. Saúdo-os desejando-lhes a paz.
- Também venho cheio de alegria, de esperança e de paz.
- Percebo a grande quantidade de jovens aqui presentes.
- Venho aprender com vocês. Aprender de sua fé, aprender de sua bravura, ao enfrentarem tantas dificuldades.
- Não se deixem abater! Não percam a esperança!
- Voem alto! Sonhem grande! 

Recomendo a escuta completa deste pronunciamento, acessando-se o link abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=nPCFctCDO90

João Pessoa, 7 de setembro de 2017

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

BRASIL - GRITO POR UM NOVO AMANHECER: das “balas perdidas” à mira certeira...

BRASIL -  GRITO POR UM NOVO AMANHECER: das “balas perdidas” à mira certeira...

Alder Júlio Ferreira Calado

“Virá o dia em que todos
ao levantar a vista
veremos nesta terra
reinar a Liberdade.”


Como se tem realizado em mais de vinte edições precedentes, desde meados dos anos 90, o GRITO DOS EXCLUÍDOS E EXCLUÍDAS, reunindo multidões pelo Brasil a fora, volta a acontecer, neste SETE DE SEBEMBRO DE 2017. Não bastassem os múltiplos e danosos efeitos acarretados, cotidianamente, pelo bombardeio do noticiário midiático brasileiro, importa ter sempre presente o risco de uma convivência resignada com as trágicas ocorrências resultantes das imprópriamente denominadas “balas perdidas”. Esdrúxulas, sob os mais distintos aspectos, as estatísticas relativas aos índices de assassinatos, no cotidiano da população brasileira. Ultrapassam, de longe, as estatísticas de vítimas de guerras, registradas em vários países declaradamente em guerra.

Um rápido exame das estatísticas fornecidas pelos organismos oficiais – nacionais e internacionais – é suficiente para nos darmos conta de nossa espantosa situação. Com efeito, não podemos nem devemos fechar os olhos ao fato de que, por ano, são assasinadas, no Brasil, em torno de 60 mil pessoas, número distribuído – e isto não se dá por acaso! - especialmente por alguns segmentos de nossa população, entre os quais: mulheres (feminicídio), jovens, negros, vítimas fatais da homofobia, entre outros.
Nossa sensação de tragédia – e tragédias anunciadas -  só aumenta, ao reconhecermos que a esta escabrosa estatística, somam-se númerosas outras, relativas a conflitos agrários, tráfico de pessoas, trabalho escravo, precarização das condições de trabalho, grilagem de terras indíginas, de comunidades quilombolas, de reservas ambientais, de agravamento das mais distintas formas de violência social (inclusive, graças à sofisticação da produção, comércio e tráfico de armas), às distintas formas de agressão às águas oceânica, aos rios, às florestas, ao subsolo, as plantações, e ao conjunto dos inventes, numa clara expressão do crescimento da concentração de riquezas e das desigualdades sociais.


Tais registros trazemos à tona, na véspera do Sete de Setembro, quando se tem feito ouvir, pelas ruas e praças do País, O GRITO DOS EXCLUÍDOS E EXCLUÍDAS, desde meados dos anos 90, conscientes de que tal clamor há de estender-se ao cotidiano de nossas lutas. De olho, por conseguinte, nesta realidade assombrosa, somos históricamente instados a respodner, com esperançamento, a estes desafios. Somos instigados, enquanto seres vocacionados à Liberdade a ousar ensaiar oassis, rumo à superação desta conjuntura de terror. Este constitui o objetiv-mor das presenets linhas.

O que está por trás das “balas perdidas””?

Indignar-nos é, sim, um primeiro passo, no esforço conjudado de uma resistência. Mas, bem sabemos,, é preciso ir além da mera indignação e mesmo além de atos de resitência. Atos de fecunda resistência podem começar pela tentaiva de examinar o que está por trás das “balas perdidas”. Nesse sentido, que nos ajudem a um exercício crítico indagações do tipo:
- Das armas de quem partem as “balas perdidas”? Que tipo confroto mais favorece ocorrências desta ordem?
- Qual o perfil dominante dos contendores? Que história de vida costumam apresentar os protagonistas desses embates?
- Que condições existenciais concretas lhes foram e são asseguradas pelo modelo vigente de organização societal?
- Quem são, na maioria dos casos, as principais vítimas dessas “balas perdidas”? A que classe pertencem, em sua grande maioria?
- Quais as condições familiares, comunitárias lhes foram ou lhes são asseguradas:  de moradia, de trabalho, de escolaridade, de vida comunitária, de prestação de serviços públicos de saneamento, de saúde, de inserção comunitária, de participação enquanto cidadã(o), etc?
- A quem têm como referência ético-política, na atual conjuntura?
- Flagrados ou não como infratores, que destino lhes é reservado, além das escolas de crime em que se tem tornado nosso sistema prisional?
- Que forças sociais são  históricamente protagonistas de ensaiarem passos alternativos ao modelo vigente?
- Essas forças sociais têm  realmente assumido, de modo coerente, suas tarefas históricas?

Calibrando a mira, rumo a um novo amanhecer.

Como acima assinalado, sem desconsiderar a importância do conhecimento dos impasses presentes na atual conjuntura, nosso objetivo central é o de ousarmos ensaiar passos rumo à superação dos atuais desafios. Consciêntes de que esta é uma tarefa fundamentalmente das classes populares, cuidamos de perguntar:

- Nossas organizações de base como tratam de enfrentar os atuais desafios? Sem ignorarem os graves fatores externos responsáveis pelos profundos estragos econômicos, politicos, culturais, éticos, ecológicos, etc., presentes no atual quadro histórico, têm avançado também no reconhecimento e no adequado enfrentamento de sua parcela de responsabilidade na produção desses estragos?
- Quanto ao processo organizativo, que passos fundamentais vêm sendo ensaiados, na perspectiva de retomada das lutas sociais, no campo e na cidade, cujo os frutos atestem o acerto desta retomada, em novo estilo?
- No tocante à tarefa formativa que iniciativas mais recentes tem sido sido ensaiadas por estas mesmas forças sociais, no sentido de potencializar suas energias transformadoras, rumo à construção de um novo modo de produção, um  novo modo de consumo e um novo modo de gestão societal?

João Pessoa, 06 de setembro de 2017.



















sexta-feira, 1 de setembro de 2017

VENDILHÕES DA PÁTRIA, EXTERMINADORES DO PLANETA FRACASSARÃO, EM SUA SANHA NECRÓFILA

VENDILHÕES DA PÁTRIA, EXTERMINADORES DO PLANETA FRACASSARÃO, EM SUA SANHA NECRÓFILA

Alder Júlio Ferreira Calado

Início de setembro. Semana da Pátria. Dia dos Excluídos. Sanha privatista a ameaçar a Nação, sob as mais diversas manifestações, inclusive a pauta extremamente privatista de Temer e os seus,  neste dia, em viagem à China, para expor à voracidade empresárial parcelas significativas do patrimônio nacional.  Sanha privatista que me remete a um conhecido episódio bíblico, o que narra a expulsão, por Jesus, dos vendilhões do templo (cf. Mt 21. 12ss)
Com efeito, a  necrófila sanha privatista (nos âmbitos internacional e nacional) volta a atacar, com extrema agressividade. Favorecidas, desta vez, por profundos equívocos ético-políticos cometidos pelas forças sociais historicamente comprometidas com as causas libertárias das classes popualres e com o respeito e a dignidade da Mãe-Terra, eis que as classes dominantes e dirigentes, expressão do que há de pior do Mercado capitalista, não têm cessado de mostrar suas garras de “besta fera” dos novos tempos, em sua necrófila sanha de vendilões dos mais estratégicos bens nacionais.

Um leve exame da pauta (des)govenamental é suficiente para nos darmos conta da necrófila verocidade desses vendilhões da Pátria em despojá-la dos bens mais preciosos que a sustentam, ao mesmo tempo em que investem, a passos largos, na destruição da Mãe-Terra. Tudo se põe e se expõe à venda: as reservas ambientais, os territórios indígenas, das comunidades quilombolas e dos povos tradicionais, vastas estensões de terra (inclusive na Amazônia), para fins de exploração das grande empresas mineradoras, as mais estratégicas unidades nacionais de sustentação do desenvolvimento (a exemplo da eletrobrás). Assim como, em outras ocasiões, os vendilhões da Patria e os exterminadores da Natureza sempre encontram pretensas justificativas de sua gesta assassina. Desta feita, tentam justificar sua mais nova investida de privatizações, alegando a ineficiência das empresas Estatais, bem comodos enormes rombos orsamentários. Por outro lado, há quem, contrapondo-se à investida privatista, defenda cegamente a natureza estatal dos bens nacionais,como se o Estado também não fosse um ente privatizavel. A este respeito, como fizemos á algum tempo atrás, em texto intitulado “Nem privatismo nem estatolatria: o público como centralidade ético-política na gestão da sociedade, cf.”

Todavia, cumpre acentuar, com toda a ênfase, que o Brasil e o mundo já acumulam, à saciedade, o gosto amaríssimo da senha mercantilista. Pretender-se que o espírito empresarial capitalista se coadune aos interesses do Público é puro egodo. A este filme esamos acostumados a assistir: é de terror! Não constituem horizonte defensável, do ponto de vista das classes populares. É sempre o Público que deve constituir nossa referência de organização societal. Fora do público, não há salvação! Isto pode ser ilustrado positivamente por meio de inúmeras iniciativas da sociedade civil, protagonizadas por suas principais forças alternativas, dentre as quais pdoemos destacar numerosas experiências populares, no campo e na cidades, voltadas para questões tais como agroecologia, economia solidária popular, tecnologias alternativas de convivência com o Semiárido, entre outras.

Ainda recentemente, entre os dias 16 e 24 de julho de 2017, realizou-se, no País Básco a 7ª Conferência Internacional da via campesina, reunindo dezenas de delegados e delegadas de muitos movimentos e organizações camponesas de todo o mundo. No encerramento da mesma, foi elaborada uma Declaração constando dos principais temas e desafios aí discutidos, bem como popostas relevantes de ação coordenada, em âmbito internacional. Esta declaração encontra-se disponível no seguinte “link”: http://www.resumenlatinoamericano.org/2017/07/27/vii-conferencia-internacional-de-la-via-campesina-declaracion-de-euskal-herria-alimentamos-nuestros-pueblos-y-construimos-movimiento-para-cambiar-el-mundo/  
a despeito de tratar-se de um evento organizado por protagonistas do campo, tal Declaração constitue uma fecunda bússula de atuação, a inspirar também as organizações e movimentos urbanos das classes populares.

Seguimos convencidos, até prova encontrário, de que nem o Mercado capitalista, nem o Estado – entidades orgânicamente inter-alimenta

Tomara que, pelo Brasil adentro, as manifestações do Dia dos Excluídos e Excluídas – já contando com mais de vinte edições, desde seu início, patrocinado pela CNBB, nos inspirem e animem a protestar contra os vendilhões da Pátria e os exterminadores do Planeta, cuja voracidade plutocrática há de ser contida e superada, a tempo, pelas forças populares organizadas, na direção de um outro mundo possível, necessário e urgente! Os vendilhões da Pátria e os exterminadores do Planeta háo de fracassar, seja pela ação organizada das forças biófilas, seja pela ação da Mãe-Terra: se nós, seres humanos, a ela nos mantivermos insensíveis à sua dignidade, não está descartada a hipótese de analogia do que sucedeu a outras espécies... Nós não podemos viver sem o Planeta, mas será também verdadeira a recíproca? A sanha privatista não haverá de prevalecer!



João Pessoa, 01 de setembro de 2017.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

NOTAS PARA UMA SOCIOLOGIA DA AGENDA: serrando as jaulas, ensaiando passos libertários...

NOTAS PARA  UMA SOCIOLOGIA DA AGENDA: serrando as jaulas, ensaiando passos libertários...

Alder Júlio Ferreira Calado

O cotidiano expressa uma intrincada rede de relações, da qual cada um de nós, em grupo ou a título pessoal, atua como tecelã(o), a costurar - sozinho ou em mutirão - uma enorme diversidade de fios existenciais, dia após dia. Dependendo da qualidade do fio relacional e do perfil de quem tece, o produto da tecedura caminhará na direção da excelência ou da mediocridade. Ninguém escapa de tecer, de algum modo ou em algum momento, um produto misturado, de qualidade alternada. Aí não reside o problema. Desafio é o empenho de quem tece, no sentido de fazer prevalecer uma tecedura de boa qualidade - materialmente consistente e esteticamente gratificante a quem tece e a quem dele fará uso. Num relance autoavaliativo, como apreciamos a qualidade de nossa tecelagem cotidiana, que tem lugar numa imensa diversidade de espaços sociais e de situações existenciais - do espaço subjetivo ao ambiente familiar; da convivência laboral aos espaços lúdicos; de nossas relações cósmicas às experiências místicas, etc., etc.?  Questionamentos como este nos induzem a pensar numa Sociologia da agenda, entre outras possibilidades de abordagem crítica do alvo de nossas inquietações: como anda nossa agenda? Uma das razões da escolha de uma abordagem sociológica deve-se à complexidade e extensão do seu campo de atuação, uma vez tratar-se de um saber que navega pelo “social”, que, como se sabe, comporta dimensões econômicas, políticas e culturais, trabalhados em suas necessárias interconexões, a possibilitar uma interpretação inter/transdisciplinar, apelando a uma multiplicidade de saberes.  Ocupando-se  a Sociologia, por excelência, das relações sociais, tanto nas macro quanto nas micro-esferas da realiade, e seus entrelaçamentos, as relações do dia-a-dia bem se prestam a uma leitura, sob esta ótica. É o que buscamos fazer, nas linhas que seguem. Começamos por explicitar algumas balizas teórico-conceituais, com o propósito de nos ajudarem, quanto a uma interpretação crítica de nossa agenda como expressão das relações do nosso dia-a-dia. Em seguida, ensaiamos passos de uma crítica de nossa agenda, em diferentes campos de nossa atuação.

1. Balizas teórico-conceituais

Em sua complexidade e em sua extensão, a Sociologia, desde seus clássicos, inclusive Ibn Kaldhun, procura acercar-se da realidade social, como seu campo por excelência. Observar, interpretar e analisar críticamente a tecedura dos fios relacionais do cotidiano interpessoal, comunitário, societal constituem um desafio de monta, para quem ousa  buscar  conhecer, interpretar e extrair ensinamentos úteis ao processo de humanização.

Um primeira cautela a ter-se em conta, nesta direção, é a consciência da complexidade e extensão da realidade social. Dela podemos apenas acercarmos, nunca dela possuir um conhecimento acabado. A realidade social, sendo histórica, está sempre em movimento, de modo a revelar-se-nos apenas em algumas de suas facetas, fazendo-nos escaparem tantas outras, por outro lado, não se trata de algo completamente fora do nosso alcance de sujeitos cógnocentes desde que, sabendo-a em constante movimento, nos diponhamos a acompalha-la, também em movimentos, não nos quedamos estacionado, à espera de os fatos sociai venham espontaneisticamente ao nosso encontro; ao contário, temos que nos mexer, por meio de passos metodicos, em busca de aprendêe-la, ao menos parciamente, já que, no todo escapa a nossa observação. Dentre os passos que nos permitem a cercar-nos dela, sublinhamos: - a observação contínua – trata-se de buscar, acompanhar, o movimento da Realidade, atentando aos multiplos e sucessivos sinais por ela emiditos nas relações do dia a dia  Neste sentido, avaliamos como profundamente fecundo o paradigma indiciário, isto é, aquele  atinente aos sinais, que a vida social, a convivência com a natureza e seus distintos viventes, com os semelhantes, com os diferentes, e até antagonicos, estão sempre a nos oferecer. Não basta, porém, limitar-nos a uma observação qualquer. É preciso exercitar,  sistmática e metodicamente, atentando para os significados dos sinais e das circustancias típicas e atípcas. Mais 2 pontos, importa igualmente registrar-los, uma vez que nossa memória não é capaz, de reter toda a diversidade de manifestações da realidade social. Sendo assim, após observa-la, cuidadosamente, a apartir dos registros sistematicos elaborados, buscar interpretar os seus significados, como condição essencial de uma compreensão adequada da mesma realidade. Passo que também não nos garante uma intervenção exitosa na mesma realidade, mas disto nos aproxima, sendo um passo necessário, mas não suficiente, uma vez que intervir exitosamente na realidade social, em especial em suas raízes mais fundas, demanda-nos recorrer a passos complementares, que envolvem outros saberes e outras práticas sociais.

2. Por uma sociologia de nossas agendas
  
Nossas agendas implicam uma enorme diversidade de atividades, que tem lugar em uma múltipla  gama de espaços socioambientais – cósmicos, biológicos, ecológicos, societais, comunitários, éticos, estéticos, econômicos, políticos, culturais... uma densa, complexa e extensa rede de relações interconectadas, tal como vem bem assinalado no belo poema/canção “Tudo está interligado” ( https://www.youtube.com/watch?v=1do_VBZG9Ps ) .

É justamente aí que se dão nossas relações do dia-a-dia, em função (ou disfunção) das quais organizamos nossas agendas. Se, por um lado, ainda quando nossas agendas se materializam mais diretamente em apenas algumas dessas esferas, é certo, por outro lado, que, direta ou indiretamente, se acham conectadas com todas as demais, estejamos ou não conscientes disto. Neste caso, a busca de nos conscientizarmos progressivamente desta dinâmica interação nos ajuda sobremaneira a lidar melhor, inclusive, no âmbito da(s) com que lidamos mais diretamente. E a recíproca também vem ao caso: nossa não ou insuficiente consciência desta interação empobrece ou esvazia nossa ação libertária, no chão do dia-a-dia.

O que acima vem assinalado não é uma quimera ou jogo de palavras. Para verificarmos o impacto de sua inscidência no nosso dia a dia, é suficiente que nos façamos perguntas do tipo:

- De uma simples lista de nossos sonhos e projetos, quais e quantos conseguismos realizar? E de tantos não realizados, quais e quantos nos mantemos empenhados, em materializar?

- Que fatores nos impedem de alcança-los, trata-se de fatores apenas externos ou, em larga medida, essa não realização, tem mais a ver com a pouca disposição e vontade, de nossa parte de buscar realiza-los?

- Em nosso calendário de atividades a curto, medio e longo prazos, para onde tem apontado: para uma perspectiva de mero cumprimento de rotina (profissional e de outras áreas) ou para um horizonte libertário, horizonte idenfificavel, pela qualidade dos fruto produzidos?

Por outro lado, desponta igualmente útil ao nosso processo de humanização perguntarmo-nos o lugar que em nossas agendas ocupam eventualmente diversas atividades voltadas para além do campo profissional ou estritamente familiar. Sabemos que o processo de humanização incide numa ampla diversidade de fios existenciais ou de quefazeres, que também devem refletir-se, de algum modo, em nosso cotidiano. Fios existenciais que vão da experiência intra-intersubjetiva à dimensão cósmica; do cuidado com a Mãe-Natureza aos cuidados hidro-agroecológicos; de uma saudável erótica ao exercício da mística; das relações sociais de gênero às de etnia; do movimento do corpo às atividades lúdicas; das relações políticas, econômicas e culturais, inclusive ao exercício das artes, em sua bela diversidade... Daí resulta irrenunciável a pergunta: que lugar tais dimensões constitutivas do nosso processo de humanização têm em nossas agendas?


Seria longa a lísta de perguntas. Contentemo-nos por enquanto,  com estas, com o proposito de que nos ajudem a compreender melhor nossas limitações pessoais e  grupais. Com efeito, não se trata de uma auto-avaliação extritamente pessoal, mas também coletiva. Como educadores (individuais e coletivos) somos chamados constantemente a nos reeducar, sempre a partir do que fazemos em nosso dia a dia, e tomando tempo para revisarmos a qualidade de nossas ações, de nossa rotina, como se nos dissessem: “Dize-me da qualidade do teu dia-a-dia,  e dir-te-ei do horizonte que persegues – libertário ou de estério rotina.” Seres vocacionados a buscarmos uma vida em plenitude, porque vocacionados à Liberdade, cuidamos de potencializar nossos dons e talentos, nesta direção, tal como atletas empenhados em superar seus próprios limites, como arqueiros que buscam alcançar seu alvo, por meio do cotidiano exercício do arco e da flecha. Aqui, tem especial lugar o trabalhar a dimensão volitiva (o querer, a vontade), de forma processual, mas efetiva, tentando, sem cessar, ensaiar passos libertários, ao tempo em que buscando serrar as prórias jaulas, manifestas sob múltiplas formas de aprisionamento.




João Pessoa, 29 de agosto de 2017.









terça-feira, 22 de agosto de 2017

RENÚNCIAR-DENUNCIAR-ANUNCIAR

RENÚNCIAR-DENUNCIAR-ANUNCIAR


Alder Júlio Ferrreira Calado


Para quem acompanha, de perto, a trajetória e o legado de Charles de Foucauld, resulta famíliar a profunda interrelaçã destes  três verbos – renunciar-denunciar-anunciar. Muito emblemática, portanto, a escolha temática para um Encontro de membros desta família, bem como de consagrados e consagradas à vida religiosa.

Renunciar – Responder, com generosidade, aos apelos do Espirito Santo, ontem como hoje, implica necessariamente a cada discípulo/discípula de Jesus, disposição de renunciar, com alegria e esperança, a muitas iniciativas e projetos que não condizem com o Projeto do Reino de Deus. O chamamento e a resposta generosa ao mesmo, de buscarmos uma vida em plenitude, já a partir deste mundo, implica escolhas difíceis entre vida e morte, graça e pecado, altruísmo em interesses pessoais... A vida em plenitude assemelha-se à bela paísagem contemplada do alto de uma montanha: só quem se dispõe a escalar-la, consegue desfrutar tal paisagem, afinal “quem quer colher rosas, deve suportar os espinhos.”.
No segmento de Jesus, sofrimento, paixão, morte e outras provações precedem a Ressureição. Em nosso percurso existêncial, são muitas as situações de renuncia, a que devemos estar preparados, com serenidade e confiança, aquela mesma confiança que movia o Apóstolo Paulo a dizer: “Eu conheço Aquele a quem dei a minha adesão.” (Scio Cui Credidi: 2 Tm 1, 12).

Isto é tanto mais frequênte quando se vive -  e é o que sucede - num tempo de profundas contradições, desigualdades sociais e agressões contra Mãe Terra e toda a comunidade dos viventes. Aí, somos chamados a testemunhar atitudes de renuncia, inclusive diante da crescente tendência ao consumismo, à idolatria do ter, do poder e do prestígio.
Denunciar – A começar de nós mesmo, é preciso renovar, dia após dia, o compromisso de buscarmos a justiça do reino de Deus, o que acarreta inevitavelmente o combate às mais diversas formas de prisão e de egoísmo, de poder, de contratestemunhos, vale dizer, denunciar. Em conexão com Renunciar e com o Anunciar, não podemos e não devemos prescindir da vigorosa denuncia a toda forma de escravidão, de egoísmo, de morte, de agressão à Mãe Terra , às mais distintas formas de violência contra as mulheres, contra os povos originários, contra as comunidades quilombolas, contra os povos das águas e das florestas, contra as crianças, os jovens do meio popular, as pessoas idosas, e a toda a comunidade dos viventes. Abastecidos e Energizados pelo dom da profecia somos chamados, como cidadãos e como cristãos a combater todas as manifestações de escravidão do nosso mundo, a começar de nós mesmos. Com efeito, observando o nosso mundo, percebemos um complexo e vasto leque de males, a insidirem  nas relações sociais, econômicas, políticas e culturais do nosso dia-a-dia. No plano econômico, por exemplo, cabe-nos denunciar a crescente concentração de riquezas em mãos de poucos, e em detrimento de crescentes maiorias de nossa gente, gerando níveis insuportáveis de desigualdades sociais, com desastradas consequências, tais como aumento da violência social, da precarização das moradias, do desemprego estrutural e conjuntural, do sub-emprego e das manifestações injustas do trabalho terceirizado, da manutenção e ampliação do latifúndio, do Hidro-Agronegócio, dos estragos e tragédias socio-ambiêntais provocadas pelas trans nacionais e grandes empresas de mineração, das diferentes formas de envenenamento das fontes, dos rios, das oceanos, das plantações, dos solos, lençois freáticos, dos animais e dos humanos.

Ainda no plano das denúncias, cabe-nos, sobretudo, identificar, denunciar e combater as causas estruturais desses males sociais e socioambientais, expressas pelo próprio sistema capitalista hegemônico.

Anunciar  - Tão densa e tão relevante se mostra esta dimensão do exercício da profecia, que, sem prejuízo da consideração singular das demais, apresenta-se como uma síntese capaz de comportar as precedentes. Com efeito, o simples anunciar – em especial, por gestos – as veredas da justiça, da misericórdia, da solidariedade, da partilha, do perdão,do amor, da paz... implica renúncia, implica denúncia. Na parábola do bom samaritano, por exemmplo,  episódio relatado em Lc 10, 25-37. Esta passagem do Evangelho nos impacta, de vários modos, a compeçar pela densiade de verbos nela contidos (perto de uma dezena!): ver, aproximar-se, enfaixar (as feridas da vítima do assalto), pôr (sobre elas vinho e óleo), montá-lo no seu animal, conduzi-lo a uma hospedaria, deixá-lo aos cuidados da hospedaria, arcar com os custos...

Trata-se de uma iniciativa propositiva, de enorme carga protagônica. Movido pela com-paixão, traduz com atos concretos seu sentimento de compromisso com a vida. Isto é anunciar por gestos concretos! Assim procedendo, o bm samaraitano, sem o dizer, está praticando renúncia: tal como sucedeu ao sacerdote e aolevita que, indiferentes à dor da vítima do assalto, passaram ao largo do caminho, ele poderia arrumar alguma autojustificativa, e fazer o mesmo... A atitude do  samaritano acena, igualmente, para uma postura denúncia – ainda que implícita -, à medida que desmascara a postura de indiferença e de omissão.

Todas estas atitudes – de renúncia, de denúncia, de anúncio, e cada uma ao seu tempo e em seu contexto – seguem fundamentais, frente aos desafios pessoais e coletivos de hoje. Dada, porém, a complexidade de nossa atual realidade social, eclesial e psicológica, a do anúncio parece despontar como mais urgente. Tanto ou mais do que ontem, as posturas propositivas parecem merecer mais credibiliade e mais eficácia. Se olhamos,por exemplo, o atual contexto sócio-político, percebemos a fragilização dos atos de mera denúncia, uma vez que isto se faz de modo tão frequente, que soa abusivo e de pouca credibiliade, fato que nos remete à conhecida afirmação feita pelo Papa Paulo VI, em sua Exortação Apostólica intitulada “Evangelii nuntiandi”: “Os homens de hoje escutam mais as testemunhas do que aos mestres. E, se escutam também estes, é porque eles são testemunhas.” (EN, n. 41).
Ainda no plano político, às forças sociais historicamente comprometidas com a construção de um modelo societal alternativo à barbárie capitalista, já não basta apenas reagir à sucessão de desmontes das políticas públicas, mas são chamadas a se reorganizarem de tal modo, a ousarem iniciativas  alternativas ainda que moleculares, como já acontecem em numerosas experiências grávidas de alternatividade, espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, a exemplo das experiências agroecológicas e de convivência com o Semi-árido.







João Pessoa, 22 de agosto de 2017



segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Entrevista ao "Jornal A Margem", 14a. Edição.

Entrevista com Alder Júlio, sociólogo, professor, educador popular e, como ele gosta de dizer, um xucuru desaldeado que no fim da década de 1970 ajudou a construir importantes instrumentos de organização da classe trabalhadora e que ainda hoje continua lutando ao lado do povo por uma sociedade sem exploração.


A Margem: Como o senhor iniciou a sua trajetória política? O que o motivou?

Alder Júlio: Eu sou natural de Pesqueira- PE, e como sabem, lá é um território indígena, de um povo originário e com quem tenho muita afinidade. Me sinto de fato um xucuru desaldeado e ao mesmo tempo com uma identidade negra, afrodescendente. São duas referências que eu trago em mim e que tem uma grande importância nessa trajetória, inclusive política. Passei 8 anos da minha vida no seminário. Estudei em Pesqueira, Aracaju e Santa Maria no Rio Grande do Sul. Minha vida de seminarista me distanciou, no começo, dessas lutas, mas em 1963, quando tinha em torno de 15 anos, participei de uma ocupação que houve na serra Ororubá em terras indevidamente apropriadas por fazendeiros da região. Era o governo Arraes e aí havia as Ligas Camponesas, que tiveram a iniciativa de ocupar aquelas terras. Fui chamado a participar por um padre lá em Pesqueira, que era assistente da Juventude Agrária Católica (JAC). Outro ponto importante na militância ocorreu em Santa Maria (RS). Era 1968. Na reunião que fizemos, a Juventude Operária Católica (JOC) estava cumprindo uma tarefa organizada pela Ação Popular. Havia um cuidado grande de atualizar seus militantes. A nossa tarefa consistia em levar ao cemitério, durante a noite antes do dia de Finados, panfletos contra a ditadura. Estávamos há poucos dias da edição do AI-5. Isso me marcou. Voltei para o Nordeste. Continuei meus estudos em Ciências Sociais. Comecei no batente muito cedo, 22 anos, no sertão de Pernambuco, Arcoverde, dando formação para os professores de lá. No final dos anos 1970 havia uma efervescência daqueles movimentos recém-insurgidos para a criação do PT. A gente tratava de granjear parceiros, principalmente do mundo rural, na Paraíba, na parte do Cariri, São Sebastião do Umbuzeiro, Camaraú e outros lugares. Eu ia para animar, para assessorar encontros de trabalhadores do sindicato rural. Esse é um ponto da minha trajetória que me marca bastante. Aí vieram os tempos de ocupação, que se intensificaram. A partir do surgimento da CUT, do PT. Coube a mim acompanhar a formação do PT na região de Arcoverde, em meia dúzia de municípios como Sertânia, Pesqueira, Venturosa, Pedra, Belo Jardim e outros da redondeza.

A Margem: Como foi essa organização?

Alder Júlio: A ênfase era a parte da nucleação, que era uma experiência fundamental. Não importa o nome que a gente empreste a essa experiência. Uns chamavam de conselhos populares, outros de células, outros círculos, pequenas comunidades etc. O nome não importa muito. Qual era o teor da experiência? Era a convicção de que as coisas tinham que se desenrolar desde a base. E a base a quem competia decidir eram esses núcleos organizados de maneira autônoma, não isolada mas interconectada com outras instâncias. Eram esses núcleos as células vivas do movimento, entendendo o partido, o sindicato como um movimento e não depois como uma institucionalidade terrível em que a gente hoje mergulhou.

A Margem: Gostaria que o senhor falasse um pouco mais da importância dos núcleos para a formação de militantes com uma perspectiva ativa, crítica, formuladora e não simplesmente “tarefeira”. Como era o dia a dia dos núcleos?

Alder Júlio: Esses núcleos eram formados por local de trabalho, estudo e moradia. Funcionavam com reuniões semanais em que se discutia a conjuntura de maneira aberta, não havia a figura que apontasse o que era certo e o errado. Havia uma cobrança dos protagonistas de participação, de ouvir fraternalmente as divergências e tomar uma deliberação. A deliberação tomada ia para outras instâncias, porque o núcleo não era isolado. O núcleo tomava as decisões a partir dos desafios da conjuntura, locais também, dos encaminhamentos que eram feitos, a partir das consultas de outras instâncias indicavam que os núcleos tomassem e havia a eleição de delegados e delegadas. Eu friso muito essa concepção de delegação. É um princípio basilar que a gente abandonou em grande parte. Não é a mesma coisa a delegação de um mero representante. A delegação respeita a decisão do coletivo. Mesmo divergindo do coletivo, o delegado tinha que contar o que de fato tinha sido deliberado pelo conjunto. Outra marca desses núcleos era o princípio da coordenação colegiada. Tínhamos uma certa ojeriza à figura do salvador da pátria, do que manda, do que aponta. A gente preferia errar em conjunto a acertar a partir da cabeça de uma pessoa. Havia esse sentimento da corresponsabilidade na tomada de decisão. A coordenação era mero instrumento de cumprimento das decisões, não era a dona, era um instrumento de cumprimento por um período. Findo esse período, o coordenador tinha que voltar para as bases. E quem era a base vinha a ocupar cargo de coordenação. Esse é um princípio revolucionário.

A Margem: O que o senhor fala faz lembrar da Comuna de Paris. Parece que é uma forma da classe trabalhadora se organizar, porque é do coletivo, não é na da centralização, que os trabalhadores tiram a sua força. Essa forma existia no início do PT?

Alder Júlio: Sim, no PT e na CUT na região de Arcoverde. Vocês tem que dar o devido desconto. A minha empolgação sugere que as coisas funcionassem de maneira perfeita. Estou talvez caricaturando pela emoção, havia muitas deficiências também. Mas certamente o ponto é a referência, a consciência disso, ainda que não se atingisse de maneira satisfatória, mas a referência ajudava a caminhar, saber para onde a gente estava indo. Um filme muito importante na época, “Queimada” tem uma frase de Zé Dolores que expressa bem o que estou falando: “É melhor saber para onde ir sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir”. Essa frase tem uma força crítica e autocrítica bastante interessante. A autocrítica é uma palavra hoje muito esquecida e ainda menos colocada em prática. Voltando àquela época, além do princípio da delegação havia o princípio da alternância de cargos e funções. Trata-se de um mecanismo revolucionário que consiste em não permitir que as mesmas pessoas permaneçam o tempo todo à frente daquela coordenação. Mas permitir que haja uma alternância constante. A gente perdeu isso. Outro ponto era a autonomia que se concretizava a partir de atos concretos. Um deles era da aposta no autofinanciamento, uma autonomia em relação ao mercado, é claro, mas uma autonomia também em relação ao Estado. Eu me lembro muito bem dessa força de se dizer que a gente vive a partir do tostões que a gente  arrecada entre os militantes. Havia inclusive a orientação, sabendo que se tratava de militantes pobres, muitas vezes desempregados, de contribuir de acordo com as suas possibilidades. Viver, organizar suas atividades a partir do valor da arrecadação autônoma dos seus militantes (mulheres e homens). Faço um parêntese aqui para avançar um pouco mais e dizer que em 1994, no processo eleitoral (eu ainda estava ligado ao PT), escutei com indignação a informação veiculada pela televisão de que o PT tinha sido agraciado com uma contribuição da Odebretch. Evidentemente a gente é tomado de revolta, de indignação, aguardando que logo logo surja um desmentido e vem uma nota assim: “o PT não fez nada de ilegal”. Saí, porque pensei: não estou lutando necessariamente pela legalidade ou qualquer legalidade, estou lutando por legitimidade!

A Margem: O senhor identifica que já a partir daí as coisas começaram a desandar? Como o senhor viu essa passagem?

Alder Júlio: Com muita indignação e também com muita solidão. Porque eram poucos os que acreditavam que a gente estava se afastando daquilo que era basilar. A autonomia estava sendo ferida de morte. De maneira progressiva, a prática foi de apostar no “entrismo”, de entrar nos espaços estatais e pretender mudar a sociedade porque somos bons e eles maus. Isso é uma traição terrível ao que a gente tanto estudava, discutia, debatia, lia dos clássicos, de que é preciso entender a natureza do Estado moderno, que veio para cumprir uma função, mas que a maior parte das vezes é uma função subordinada a determinações da classe dominante. No Manifesto Comunista o Estado é mencionado como um comitê da burguesia, como não levar a sério isso? A gente não se negava a participar do processo eleitoral, mas não como um dogma, uma cláusula pétrea. Dependendo da conjuntura, decidia se entraria ou não. E entrando tinha que ter normas, critérios. Se houver necessidade, aliança com força dos parceiros, com forças parecidas a nós, ou até mesmo diferentes, mas nunca antagônicas. O pessoal foi tomando gosto exagerado pela eleição enquanto eleição. Então aumenta o número de vereadores, prefeitos, deputados etc. Em um primeiro momento as alianças eram com os parceiros clássicos: o PSB, o PCdoB, depois esse espectro foi se alargando, até o momento que vocês já conhecem de entrar todo mundo! Entra qualquer coisa, por que qualquer coisa valia para chegar lá. A gente lutava fundamentalmente para a construção processual de uma nova sociedade, não de um novo Estado. A moçada de hoje não entende o escândalo que é um deputado ter seu comitê próprio, ter seu jornal próprio. Isso é impensável! Ninguém é candidato de si mesmo! A ultima coisa que se discutia na época era a questão da candidatura. E mesmo assim não se discutia candidatura de forma direta. Se discutia a conjuntura, nessa conjuntura quais eram as prioridades para quem quer buscar uma nova sociedade? Qual era o jeito de atuar nessa conjuntura? Se fosse partidariamente, tudo bem, mas como construir? Que perfil de candidatura se defendia? Por ultimo, quem dentre nós seria mais aconselhável a cumprir essa tarefa? Repare, por último.

A Margem: A que o senhor atribui essa mudança organizativa?

Alder Júlio: Atribuo a nós dos movimentos sociais. Entendo que os indivíduos também têm um papel importante na história, mas para quem almeja uma nova sociedade tem que partir do coletivo. Se esses movimentos sociais tivessem permanecido fiéis às características de suas origens, de estar enraizado nas lutas sociais do campo e da cidade… a presença, a participação efetiva desses militantes nessas lutas populares, então, dá confiança ao povo, o povo se sente irmanado, o povo sente que não está só. Tem gente de fato sofrendo com ele, alegrando-se com ele, cobrando com eles, conquistando aqui e acolá...Também chorando derrotas, dividindo aquele momento. Na época, a gente tinha um esforço muito grande no processo formativo. E hoje?  Em parte tem. Tem a Escola Florestan Fernandes, mas não atende os milhares de militantes.  É interessante ver que por lá passam lideranças... Agora, imagine, se bases tivessem essa formação que as lideranças têm iriam permitir manipulação? Nunca!

A Margem: Há posições que atribuem essa transformação à conjuntura econômica e política, ao neoliberalismo, à piora das condições de vida...

Alder Júlio: E eu não contesto! Mas ficar nisso é perigoso porque a gente está elegendo o elemento externo como o responsável e tirando a cota direta de responsabilidade que a gente tem neste processo.
A Margem: Daí a importância do processo formativo…

Alder Júlio: O processo formativo continua sendo de capital importância. Não estou falando em escolaridade, mas de uma formação contínua que só pode ser protagonizada pelas forças portadoras de alternatividade. Por exemplo, cultivo a memória histórica, não com saudosismo, mas para saber na humanidade como foram as conquistas, como foram as lutas, o que a gente deve aprender com elas, das vitórias e das derrotas também, da experiência da humanidade.  Isso era muito levado em conta nos estudos. Também dos clássicos. Falo não só de Marx, mas também de Rosa Luxemburgo, Gramsci, por exemplo. Falo também dos contemporâneos de grande referência, como István Meszáros, Michael Lowy. A gente tem que entender que teoria e prática são faces da mesma moeda, são experiências indissociáveis a tal ponto que eu costumo dizer: diga qual a sua prática do cotidiano que eu vou dizer qual a sua teoria e no que ela se baseia.  A gente buscava aprofundar os processos formativos nos núcleos, mas também em outras experiências maiores, com jornais, com boletins, com revistas. A gente abandonou isso ou pelo menos reduziu mais do que devia. É claro que houve todas essas sucessões de desvios, mas há certamente um lastro político nessas opções éticas. Por exemplo, o aliancismo, que é uma opção ao mesmo tempo ética e política. A ideia que está por trás é de chegar ao poder “de qualquer jeito” então “tudo vale”. Se a gente não respeita esse processo formativo continuado, a gente não vai muito longe, como de fato não foi. É importante dizer também que o processo formativo não procura apenas, por exemplo, estudar a trajetória da humanidade, dos movimentos sociais, das revoluções, a biografia dos clássicos como um Marx, uma Rosa Luxemburgo, com a finalidade de reeditá-los. Isso não tem sentido! A gente colhe o espírito da coisa para poder ficar mais forte e enfrentar de maneira adequada os desafios de hoje. Não querer fazer deles um receituário, que seria inclusive contradizê-los! Muita coisa continua válida, certamente, mas outras coisas não. Os desafios são de outra ordem. Isso é tarefa nossa, dos revolucionários de hoje.

A Margem: Como o senhor vem percebendo o momento atual?

Alder Júlio: Não estou surpreso. Muito tristemente impactado, mas não surpreso. Eu lamento ter que dizer isso, mas há de se reconhecer que tivemos muitas ocasiões de evitar esse estrago, que me parece mais profundo do que podemos imaginar. Vai demandar décadas para superarmos. Claro que, para superar em décadas, nós devemos começar desde já. Então, retardaríamos infinitamente se só começarmos depois. Quando eu digo isso penso, por exemplo, no último congresso do PT. Com tristeza constato que não há sinais que apontem a possibilidade de autocrítica. Muito pelo contrário. As mesmas figuras, os mesmos barões, as mesmas baronesas, intervindo e dizendo no que não dá mais para acreditar. Eu volto a dizer que hoje a palavra de ordem para mim é autocrítica! Não como uma palavra abstrata, mas como manifestação de sinais concretos. Por exemplo: como é que a gente vai refazer esse caminho, em novo estilo, com essas figuras que não reconhecem os erros?

A Margem: Como o senhor vislumbra esse processo de autocrítica?

Alder Júlio:  É uma iniciativa que depende muito menos de quem está no controle atual e muito mais das forças populares, os movimentos sociais! Quando atuávamos prezando pela autonomia, não tendo essa estreiteza de liames com o Estado e muito menos com os governos correspondentes, fossem eles quais fossem, tínhamos muito mais capacidade de deliberação, de atuação. Quanto mais nos encostamos nos espaços palacianos, mais perdemos força para dizer a verdade, para dizer o que temos que dizer. E é esse dizer que faz a diferença. Então lamento também constatar que os movimentos sociais, em grande parte, principalmente as lideranças, se deixaram cooptar. Muita gente foi se acomodando em espaços governamentais. Assim que força temos de denunciar o que anda errado? Nenhuma! As bases ficam também muito bloqueadas. Se as bases tivessem aquela formação que estamos cobrando, seriam capazes de romper também com os dirigentes. Mas não é assim. Notamos dirigentes hoje que vêm de décadas à frente do movimento. Isso é bom? Não é! Para ninguém, nem para eles nem para o movimento. Não houve a rotatividade dos movimentos sociais nessa direção. E nas forças partidárias menos ainda. Há quanto tempo os dirigentes de hoje estão mandando nas “cartas”? E isso é culpa apenas deles? Não! É também culpa de quem deve deliberar. É culpa também de quem permitiu que isso acontecesse.


A Margem: Em um dos seus textos, o senhor fala sobre a crise de referências e valores e afirma que um dos caminhos para reassumir essas referências, de acordo com as urgências atuais, é o exercício da mística revolucionária. O que seria isso?

Alder Júlio: A mística atravessa toda a luta, o processo formativo, o processo organizativo, atravessa tudo! Mas, particularmente no processo formativo, ela deve ter lugar preponderante. Essa foi uma característica do conjunto dos revolucionários mais caros à nós. Estou falando da mística como categoria laica, como categoria de revolucionários e revolucionárias. Também não estou falando da mística como, de certa maneira, ela foi institucionalizada. A mística não é um ritual, que começa... aquela coisa toda, ler uma poesia...Ela tem um alcance mais profundo, pessoal e coletivamente, na medida em que é um exercício diário. É fazer uma análise crítica dos meus passos, por onde eu andei, que atividades eu ando desenvolvendo. Dessas atividades, quais os frutos maus ou bons que têm dado? O revolucionário tem que, a cada dia, colocar-se diante dos desafios que ela/ele individualmente está vivendo e, é claro, do ponto de vista coletivo também. Fazer essa avaliação processual. A mística faz com que a gente veja, individual e coletivamente, o que anda bem na nossa ação e o que anda mal; a cada dia buscar melhorar, buscar ser um pouquinho mais revolucionário hoje do que ontem e amanhã mais do que hoje também. O revolucionário que se descuida disso tem dias contados. É claro que os equívocos fazem parte também.  Nós somos seres inacabados, seres inconclusos, limitados, precisamos exatamente ter consciência disso, para poder minimizar as chances de reincidir, mesmo que a gente continue com as falhas. Mas teremos a chance de falhar menos se fizermos a mística revolucionária.

A Margem: O senhor falou anteriormente sobre teoria e prática, de se estar muito atento às decisões que se toma. A questão da mística então está relacionada com articular passado, presente e futuro na ação cotidiana a partir de um projeto político de sociedade?

Alder Júlio:  É perfeitamente isso. Acrescentaria os riscos que a ausência da mística revolucionária produz. Por exemplo: um equívoco gravíssimo é o de confundir os grandes atos públicos como sendo a manifestação de atos revolucionários. Não estou negando a sua importância, Mas estou dizendo do risco de reduzirmos o sentido revolucionário apenas a esses macro-espaços se eles não estiverem revestidos também nos micro-espaços, nos espaços do cotidiano. A semente que você está produzindo naqueles seus atos costumeiros, naqueles atos quase invisíveis está carreganda de energia revolucionária? Estes são tão importantes quanto as grandes manifestações. Não se está enxergando que na história de todos os revolucionários/as, as pequenas coisas eram enfrentadas como grandes coisas também. Outro equívoco, que é muito comum, acho que ainda hoje, naquele tempo era mais, é confundir a revolução com o processo militar. Falta de formação completa, de estudo, falta de intimidade com o próprio processo revolucionário. Ora, quando você confunde o processo revolucionário com aquelas questões militares, você está sucumbindo à um equívoco tremendo, porque se é assim, o sistema estará sempre mais além. A guerra do golfo, por exemplo, quando você vai ver que depois disso os armamentos se multiplicaram e se sofisticaram, e achar que vai vencer a partir disso... Não dá! É um reducionismo e ao mesmo tempo um vício grande. Há grande tentação de a gente vencer pela força das armas, quando a gente consegue de fato alguma vitória, a gente vai instaurar a nova sociedade entre aspas, por quê? Porque a gente vai instaurar essa nova sociedade a partir da voz das armas, a partir da razão da força. Isso não tem sustentabilidade. Eu posso manter-me ali, no alto, um tempo, mas logo logo a história me desmente e me desmonta também.

A Margem: O que não significa dizer que possa haver um processo revolucionário sem uma ruptura, não é?

Alder Júlio:  Com certeza, não houve nenhuma experiência histórica nessa direção. Todas tiveram, só que as que obtiveram êxito e continuidade não estavam apostando nisso.  Isso é, digamos assim, um incondicionamento menor em relação ao maior. É preciso ter forte o rumo de sociedade que a gente quer.


A Margem: Temos vivido um momento carente de alternativas. Como o senhor vê a bandeira do “Fora Temer”?

Alder Júlio: Com muita indignação e ao mesmo tempo sem surpresa. Eu diria que as esquerdas partidárias, sindicais, populares, eclesiais estavam nesse momento num consenso muito forte em cima da interpretação do caso: “foi golpe ou não foi golpe”? E eu não sei se esse lado é mais fecundo que a gente pode testemunhar. Não sou o dono da verdade, estou falando aqui pela minha experiência. Nos anos 70/80, não tínhamos a questão jurídica como uma referência forte. Quando entramos nesse embate de se foi golpe ou não nos submetemos, mesmo que implicitamente, querendo ou não, à legalidade. Esse é um ponto. Outro ponto é dizer: “pois bem, vejam onde chegamos? Quem era essa figura horrenda que está aí? Quem era há oito anos ? Não individualizo apenas a figura do presidente. Quem eram aqueles outros também?” Como é que a gente pode chegar a confiar nesse pessoal? Como é que a gente não aceita uma parcela de responsabilidade grave nesse desfecho? É claro que eu estou contra Temer. Acho Temer uma figura desprezível. Não penso que mereça da gente tanta atenção. Merece atenção do ponto de vista da luta de classes, das forças que ele representa, forças das quais fomos aliados até pouco tempo. Não tem nada a ver com PSDB, com Temer, nada a ver com a própria luta parlamentar. Não a acentuo como a principal, nunca acentuei, hoje menos ainda. Só que, evidentemente, eu estou a favor da pauta e, embora respeite muito as pessoas que estão muito fortemente energizadas por essa argumentação do “Fora Temer”, não me alio muito a ela. Primeiro que é todo o conjunto, não apenas Temer. Na verdade a questão é todo aquele conjunto de forças –  no judiciário, no legislativo, no executivo também – é o conjunto da obra que a gente tem que ver.  Agora, eu não quero ficar só nisso viu? Eu quero dizer que eu sou um homem de esperança. Quero dizer em que me apoio para conservar essa esperança.

A Margem: Claro! E é isso que queremos ouvir. Que mensagem o senhor nos deixa?

Alder Júlio:  Para apostar nessa esperança eu me sinto um ser histórico. Eu aposto numa retomada das forças grávidas de alternatividade, das lutas sociais em novo estilo. Essa retomada, essa busca de nos reenraizarmos nas camadas populares, das periferias urbanas, do campo, por toda parte. Um chamamento ao nosso reenraizamento como primeiro passo. Vejo essa perspectiva em alguns movimentos, como o movimento das comunidades populares, quase desconhecido, mas que continua há quase 50 anos na luta. Muita gente não gosta porque não é algo que dê resultado grande e imediato. Mas se quisermos retomar temos que acreditar nessas forças moleculares que andam acontecendo. Por exemplo, há também um vasto leque de experiências agroecológicas espalhadas por esse semiárido. Essa esperança me é garantida por buscar teimosamente lutar a cada dia, a cada ato, a cada momento por um novo modo de produção, por um novo modo de consumo e por um novo modo de gestão societal. São três coisas que estão interligadas, eu não posso falar em uma sem implicar na outra. Repare, eu não estou idealizando. Nessa altura da vida não dá para ir mais em idealizações, não é? Eu estou dizendo que eu aposto nos frutos que eu constato. Quando eu falo dos anos 1980 não o resgato como algo saudosista. Apenas os princípios que, ao meu ver, continuam atualizados. Princípios que apontam para essa direção de uma nova sociedade. Como por exemplo, retomar o processo formativo. Alguém diz: “mas a gente se forma na luta” porque há sempre uma tendência a idealizar aqueles movimentos de rua como sendo suficientes. São necessários, continuam sendo e vão continuar sendo. Mas não são suficientes. Por isso que eu digo que a formação estritamente política é importante mas também não é suficiente, mesmo que a gente alargue o campo da política para além da relação sociedade/Estado. Mesmo que eu pense a relação também da política do cotidiano. Temos que trabalhar outras dimensões do ser humano: a dimensão de gênero, a dimensão de orientação sexual, a dimensão de espacialidade, a dimensão étnica, a condição de pai, de filho, de companheiro, a condição cósmica que me faz entender como ser entre outros também, que eu devo respeitar, que eu devo ter em conta. O processo formativo tem que ter um espectro muito mais amplo, correspondente ao próprio processo de humanização. Trabalhando todos os componentes de maneira articulada. Este é um processo complexo e longo, interminável. Aliás, eu só entendo revolução como um processo interminável. Revolução nunca vai estar pronta. Revolucionários e revolucionárias nunca vão estar acabados.





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